29 de agosto de 2017

Ciclista australiano pediu a nacionalidade russa e foi o próprio Putin quem aceitou

(Fotografia: Nicola/Wikimedia Commons)
Para Shane Perkins é a oportunidade para relançar uma carreira que pensava estar terminada. Para os australianos, o ciclista é um desertor. Pedir uma nacionalidade num país onde não se nasceu não é nada de estranho e muito menos no mundo do desporto. Contudo, optar por representar a Rússia foi tema de muitas conversas, até porque se está a falar de um atleta campeão do mundo de pista (keirin e sprint por equipas), tendo ainda um bronze olímpico no sprint individual (Londres2012). Ao ficar de fora dos Jogos no Rio de Janeiro, Perkins acabou por fazer o que ele próprio considerava impensável: pedir a nacionalidade russa. Vladimir Putin abriu-lhe as portas e assinou o documento.

Perkins é agora um cidadão russo. Foi uma surpresa para os australianos, mais habituados a ver atletas russos pedir a nacionalidade naquele país da Oceânia. A decisão causou ainda mais estranheza porque Perkins não tem qualquer ligação à Rússia. A escolha foi feita por influência de Denis Dmitriev, ciclista também campeão do mundo de pista de sprint. Ambos treinam juntos no Japão há muitos anos e o que começou como uma brincadeira, acabou por se tornar num assunto bem sério.

Quando Perkins ficou de fora dos Mundiais em 2015, a sensação com que ficou é que lhe estavam a dizer para se retirar. Começou a pensar em tornar-se treinador, mas o sonho de regressar aos Jogos Olímpicos falou mais alto. A federação australiana justificou falta de meios económicos para levar Perkins aos Mundiais em Saint-Quentin-en-Yvelines (na zona de Paris) e o ciclista, disposto a tudo, disse que pagaria ele os seus gastos. Ouviu um não e ficou em casa. No ano seguinte viu os Jogos do Rio de longe ao ficar de fora da selecção. Depois de tanto ouvir Dmitriev brincar a dizer que se fosse russo iria ao Rio de Janeiro, Perkins tomou a decisão radical. Porém, assumiu que há pouco mais de um ano nunca pensaria que iria ceder às "provocações" do colega de treino.

No site da presidência russa foi confirmada a informação que o próprio Vladimir Putin assinou o documento que permitiu a Perkins tornar-se um cidadão russo. O ciclista agradeceu de imediato (pois claro) e disse sentir-se tão animado como se tivesse 18 anos e estivesse a começar da carreira.

Com a Rússia a estar envolvida num escândalo de doping organizado, Perkins não esconde que isso preocupou-o. Porém, o programa ciclismo de pista não foi envolvido. É o atletismo que está debaixo de fogo, com o ciclismo de estrada a não escapar a algumas suspeitas, dado os casos positivos em anos recentes.

Perkins vai agora dividir o seu tempo entre Brisbane, Moscovo e irá continuar a treinar também no Japão, onde quer estar em 2020, quando Tóquio for palco dos Jogos Olímpicos. O ciclista diz que a sua escolha foi bem recebida. No entanto, pela Austrália lá se vai lendo que Perkins desertou. O atleta não desarma e salientou que se ganhar uma medalha será para a Rússia, mas também para o país onde nasceu.

Como curiosidade, Yuko Kawaguti (patinagem artística) - recuando a 2008 - trocou o Japão pela Rússia para também assim ter uma oportunidade de estar nos Jogos Olímpicos. Em 2011, o snowboarder americano Vic Wild fez o mesmo, ainda que aqui tenha havido a influência da esposa, Alena Zavarzina. A falta de financiamento para as suas especialidades neste desporto acabou por ser o empurrão final para o pedido de nacionalidade russa. Em 2014 foi campeão olímpico na sua nova casa, ou seja, nos Jogos de Sochi e deverá estar nos de PyeongChang, na Coreia do Sul.

Se formos para o mundo do cinema, então encontramos duas figuras bem conhecidas: Gérard Depardieu e Steven Segal. Ambos também foram recebidos por Putin, têm o passaporte russo, mas não vivem no país. O caso do actor francês foi muito falado em 2013, pois a decisão terá sido tomada para evitar pagar impostos muito altos no seu país.


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