19 de julho de 2018

Paris à espera de poucos sprinters

(Fotografia: ©ASO/Bruno Bade)
As indicações de abandono sucediam-se, A montanha, mas principalmente o ritmo elevado, foi de mais para os homens que costumam ser os mais rápidos, mas que quando o terreno inclina, sofrem para sobreviver. Depois de Mark Cavendish (Dimension Data) e Marcel Kittel (Katusha-Alpecin) terem ido para casa por não terem cumprido o tempo limite, nesta quinta-feira houve mais uns sprinters a fazer as malas. Dylan Groenewegen (Lotto-Jumbo), Fernando Gaviria (Quick-Step Floors) e André Greipel (Lotto Soudal) meteram o pé no chão durante a difícil etapa de montanha que terminou no Alpe d'Huez. Nenhum sequer lá chegaram. Rick Zabel (Katusha-Alpecin) tinha sido poupado à exclusão pela organização no dia antes, mas não aguentou e também abandonou. Outro lançador, mas de Greipel, seguiu o mesmo exemplo: Marcel Sieberg. 

A Volta a França tem sempre uma primeira semana com várias etapas para os sprinters, depois aparecem para intercalar com a montanha, mas são os Campos Elísios que funcionam como motivação para estes ciclistas aguentarem tanto sofrimento nos Alpes e Pirenéus. Na fotografia aqui apresentada, só sobra Peter Sagan, que já não tem concorrência para a camisola verde, pois são 210 pontos que tem a mais que Alexander Kristoff.

Começa a ser levantada a questão se o tempo limite não deveria ser alargado. O elevado ritmo destas etapas de montanhas não estão a facilitar a vida a ciclistas com uma composição física bem diferente de um trepador. Entre os principais sprinters que resistem além de Peter Sagan (Bora-Hansgrohe), estão Arnaud Démare (Groupama-FDJ) - que também muito tem sofrido para se aguentar e que no ano passado foi excluído após chegar fora do tempo limite -, Alexander Kristoff (UAE Team Emirates), Christophe Laporte (Cofidis) e Sonny Colbrelli (Bahrain-Merida). John Degenkolb (Trek-Segafredo) e Edvald Boasson Hagen (Dimension Data) têm agora outra palavra a dizer nas etapas ao sprint, uma delas já esta sexta-feira. Mas quem chegará a Paris?

Ainda há muita montanha pela frente e o ritmo tem sido uma dor de cabeça para este tipo de ciclistas. Nem o famoso gruppetto os parece salvar. Com categorias especiais e primeiras, além de outras mais baixas, mas nem por isso mais fáceis, na frente a Sky começa por impor um ritmo que até permite a ciclistas como Sagan manter-se por bastante tempo. Porém, quando se inicia a perseguição a sério à frente da corrida e ainda mais quando no grupo de favoritos se começa a pensar na vitória de etapa, é também o início do pesadelo para os sprinters. Na quarta-feira, na chegada a La Rosière, a média rondou os 31 quilómetros/hora. No Alpe d'Huez, Geraint Thomas fechou com uma média de cerca de 33 quilómetros/hora.

Se Kittel e Cavendish ainda tentaram chegar em La Rosière, Groenewegen, Gaviria (vencedores de duas etapas cada) e o veterano Greipel decidiram que não valeria a pena o esforço. As palavras do alemão resumem o que certamente estava na mente dos ciclistas que abandonaram: "Senti que era o fim do Tour para mim. Outros podem escolher agarrar-se ao carro de equipa, mas se eu não consegui chegar por mim próprio, então prefiro ir para casa. Não estou triste. Sou realista e um desportista justo."

Com os Campos Elísios a ser um dos locais onde todos os sprinters mais querem ganhar, este ano a lista está bastante reduzida, ainda mais tendo em conta que quase todos os melhores da actualidade começaram o Tour e não desistiram devido a quedas. Os Alpes foram demasiado para este tipo de ciclistas. Se se verificarem mais abandonos, não será de estranhar que a discussão possa subir de tom e talvez se repense as regras. Porém, se o ciclismo evoluiu de forma a que o ritmo se torna mais elevado nas etapas de montanha, talvez os sprinters também tenham de evoluir um pouco mais, trabalhando mais a montanha. Talvez um compromisso entre as duas hipóteses seja o melhor...

Ou então, assume-se que o sprinter puro fará o que tanto se viu Mario Cipollini. Aposta nos sprinters iniciais e depois vai para casa. Em 26 grandes voltas, Cipollini terminou seis e foi sempre o Giro. Mas ter os melhores sprinters nos Campos Elísios é quase tão simbólico como o camisola amarela segurar o copo de champanhe. Regressar a esses tempos não é o desejo, até porque retira algum prestígio a uma corrida que quer manter-se para todos, ao contrário da Vuelta que assume ser uma grande volta pensada para quem sobe bem.

Agora é esperar que Démare, Kristoff e os restantes sobreviventes tenham mais uma capacidade de sofrimento para passar os Pirenéus. Talvez uma vitoria nesta sexta-feira motive alguém, isto se não for Sagan a ganhar a sua terceira etapa.

Mas não foram só os sprinters a abandonarem...

Tony Gallopin deveria estar na ajuda a Romain Bardet, contudo, esta primeira temporada na AG2R está a ser uma desilusão. O francês abandonou e a equipa já só tem quatro ciclistas para ajudar o líder, com três dos principais apoios para a montanha a estarem fora da corrida. Bardet vai estar muito por sua conta, ainda que Pierre Latour esteja na luta pela camisola branca e ser-lhe-á exigido um trabalho muito mais intenso.

Rigoberto Uran (EF Education First-Drapac p/b Cannondale) nem partiu para esta etapa, admitindo que a queda na etapa do pavé deixou-o KO. Os 26 minutos perdidos na quarta-feira demonstraram que o melhor seria começar a pensar na Vuelta, juntando-se assim a Richie Porte entre os candidatos que foram vítimas do empedrado a caminho de Roubaix. Dmitri Gruzdev (Astana) e Rein Taaramäe (Direct Energie) chegaram fora do tempo limite.

Já esta noite, Vincenzo Nibali confirmou nas redes sociais que fracturou uma vértebra na queda no Alpe d'Huez, quando uma moto da polícia foi forçada a travar ao ficar sem espaço devido ao muito público.

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Thomas superior a Froome. O Tour aquece na Sky e arrefece na Movistar

(Fotografia: © ASO/Alex Broadway)
Nem um top dez tem e quando foi líder o azar bateu-lhe à porta e acabou por abandonar o Giro de 2017. Geraint Thomas não tem currículo de candidato a ganhar uma grande volta. Certeza é que é um grande gregário. Porém, no Alpe d'Huez, deixou outra certeza, é que esta Sky arrisca-se a ficar com uma grande dor de cabeça se o galês manter a forma e Chris Froome não fraquejar. Thomas ganhou duas etapas, uma delas numa das mais míticas subidas. Foi mais do que convincente e em condições normais estaria-se a dizer que era neste momento um fortíssimo candidato. Um favorito. Mas o que se está a assistir na Sky é tudo menos condições normais. O único ponto comum aos Tours recentes é que a equipa está a dominar quase a seu belo prazer, mas a grande diferença é que está com dois ciclistas bem colocados para ganhar e o corredor que tem seis grandes voltas é o segundo classificado, a 1:39 do homem que até este Tour era o seu braço direito, após a saída de Richie Porte.

O Alpe d'Huez não ajudou nada em esclarecer as dúvidas que a vitória em La Rosière de Thomas tornou bem reais. Já não se especula se o galês poderia fazer frente a Froome, se era de facto co-líder e se a Sky lhe daria liberdade. Tudo isso está mesmo acontecer. Impensável há um ano! Com a camisola amarela, Thomas controlou, não contra-atacou o seu companheiro quando Froome tentou escapar no Alpe d'Huez -  o mesmo não se pode dizer do britânico em La Rosière... -, mas quando surgiu a oportunidade, acelerou e lá foi ele, rumo a uma história que já ninguém lhe tira: é o primeiro ciclista da Grã-Bretanha a conquistar o icónico Alpe d'Huez.

Thomas repetiu que nem sabia o que dizer perante o triunfo. A sua prestação deixa quase todos sem palavras. Não são só as vitórias. É a forma como vence. Está completamente no controlo do que se passa, não mostra sinais de fraqueza, joga com frieza quando é preciso (deixou Tom Dumoulin perseguir Froome). Depois faz-se valer de um dos seus pontos fortes, que é a capacidade de acelerar e deixar para trás a forte concorrência nos metros finais.

Faltam os Pirenéus. Mas a diferença para Froome já dá que pensar. No Alpe d'Huez cada um vez a sua corrida quando Egan Bernal - que trabalho brilhante realizou o colombiano - abriu para o lado. Thomas até diz que Froome é o líder. O respeito está lá, mas será que irá sacrificar-se se Froome tiver algum momento de fraqueza? Com 1:39 minutos de vantagem, a Sky tem de facto uma táctica diferente para gerir. As co-lideranças costumam não ser as melhores das opções, mas até nisso esta equipa poderá marcar a diferença. Vejamos o que proporcionará os Pirenéus, mas que Thomas merece o maior do respeito por parte dos adversários, isso merece e certamente que já o tem. Mais do que nunca é, nesta altura, candidato.

Movistar a desmoronar-se

Quis apostar num tridente e neste momento até o pódio está complicado. Alejandro Valverde definitivamente não é candidato, mas era sobre Nairo Quintana e Mikel Landa que se esperaria estar a ter a discussão que afinal tem Thomas e Froome como figuras centrais. O colombiano bem disse várias vezes que a estrada determinaria o líder da Movistar. E teve mesmo razão. Quintana quase mete dó... O que é que se passa com este excelente ciclista? Não só faz ataques que nem provocam uma gota de suor na Sky, como acaba por ficar para trás, quando as verdadeiras movimentações começam. Quintana poderá ter mais do que o Tour em jogo, poderá ter o seu estatuto na equipa em causa.

Pode-se dizer que 47 segundos perdidos para Thomas nem é muito. Mas há que juntar as bonificações do galês e os mais de três minutos que já tinha de atraso. O Tour começou com aquele azar das rodas partidas, mas neste momento já não são azares que afectam Quintana, é mesmo a falta de capacidade. É nono, a 4:13 de Thomas.

De certa forma salva-se Mikel Landa. Mas não muito. Também o espanhol está a desiludir. No Alpe d'Huez ficou para trás, recuperou quando o quarteto Thomas/Froome/Dumoulin/Bardet desacelerou e depois voltou a ficar para trás. O espanhol não esconde que continua a sofrer de dores de costas, depois das quedas na etapa do pavé (no seu caso foi no alcatrão) e na terça-feira, esta ainda na fase neutralizada. Landa está a 3:13 de Thomas. Nenhum dos Movistar assusta a Sky, as suas tácticas estão constantemente a falhar e se não acontecer algo de extraordinário nos Pirenéus, o top dez poderá ser o máximo que a equipa espanhola poderá aspirar.

(O texto continua por baixo do vídeo.)



Dumoulin em forma, Nibali em dúvida

Tom Dumoulin continua a fazer a sua corrida. Sempre dono do seu ritmo, o holandês da Sunweb pode ser aquela pedra no sapato da Sky. São 1:50 de atraso para Thomas e é o campeão do mundo de contra-relógio, pelo que a distância não deixará a equipa britânica descansada tendo em conta que a penúltima etapa tem o esforço individual à espera de decidir o Tour.

Vincenzo Nibali mostrou estar bem, mas foi vítima do público do Alpe d'Huez. A estrada ficou estreita numa zona sem barreiras e uma moto da polícia teve de travar. Nibali não evitou a queda, com Thomas a ver fantasmas do passado a assombrá-lo por momentos. Foi precisamente devido a um choque com uma moto da polícia que o ciclista da Sky teve de abandonar o Giro do ano passado. E Nibali segue o exemplo. O italiano da Bahrain-Merida fez um raio-X que nada mostrou, mas acabou por ser transportado para o hospital, pois o médico da equipa suspeita de uma fractura numa vértebra. Os exames confirmaram isso mesmo e o ciclista anunciou que o Tour terminou para ele. Mesmo com dores, Nibali só perdeu 13 segundos, sendo quarto a 2:37, mas o sonho de vencer a sua segunda Volta a França, que o levou inclusivamente a não estar no Giro, acaba da pior maneira.

Richie Porte (BMC) abandonou no domingo, Rigoberto Uran (EF Education First-Drapac p/b Cannondale) não partiu para a 12ª etapa e agora é a vez de Nibali dizer adeus. Todos vão apostar muito forte na Vuelta.

(NOTA: Texto actualizado às 21:30 com a confirmação do abandono de Vincenzo Nibali.)

O dia da Lotto-Jumbo

Steven Kruijswijk foi fantástico. Depois da desilusão de ver o Giro escapar-lhe devido a uma queda, em 2016, o holandês não mais tinha aparecido àquele nível. Aí está ele. Uma longa fuga solitária que só o Alpe d'Huez não deixou ser vitoriosa. Quando se começa a olhar cada vez mais para Primoz Roglic, Kruijswijk dá sinais que ainda tem algo mais para dar e no dia em que a Lotto-Jumbo perdeu o seu sprinter, Dylan Groenewegen, os seus voltistas marcaram posição no top dez. A meio do Tour, a equipa está a ser das que está realizar das melhores corridas, pois já tem duas vitórias etapas, por intermédio de Groenewegen.

Pode ver aqui as classificações completas.

13ª etapa: Bourg d'Oisans - Valence, 169,5 quilómetros

A etapa do pavé de domingo deixou marcas que tiveram a sua influência na passagem pelos Alpes. Depois de quatro tiradas intensas, sexta-feira os sprinters que ainda resistem terão a sua oportunidade. Além de Groenewegen, Fernando Gaviria (Quick-Step Floors) e André Greipel (Lotto Soudal) também abandonaram. Marcel Kittel (Katusha-Alpecin) e Mark Cavendish (Dimension Data) foram excluídos depois de chegarem fora do tempo limite na quarta-feira. A montanha regressa no fim-de-semana.



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