31 de agosto de 2020

Caleb Ewan feito para o Tour

© ASO/Pauline Ballet
Que espectáculo! O que parecia ter sido um erro de Caleb Ewan ao perder o seu comboio de lançamento do sprint, terminou com um show de como sprintar quando se fica sozinho. Peter Sagan e Giacomo Nizzolo ainda devem estar a tentar perceber quem passou por eles. Mais parecia que ia de moto! Depois de dois dias tão difíceis para a Lotto Soudal, ao terceiro o seu pequeno sprinter comprovou que foi mesmo feito para o Tour.

Na primeira etapa Ewan foi um dos muitos ciclistas que caiu. Nem se o viu no sprint final. Os companheiros John Degenkolb e Philippe Gilbert também sofreram quedas. O pior estava para vir. O alemão chegou fora do tempo limite, cerca de dois minutos, e os comissários não perdoaram. Foi excluído logo no primeiro dia. Gilbert terminou a tirada, mas os exames médicos detectaram uma fractura na rótula. Não partiu para a segunda etapa.

Na terceira, Ewan finalmente deu uma alegria, mas só depois de dar um susto aos colegas que tanto trabalharam para o colocar na frente da corrida. De repente, nem vê-lo e os ciclistas da Lotto Soudal procuravam pelo seu sprinter. O sprint começou e nada de Ewan, até que, surge um capacete vermelho a alta velocidade, a contornar os adversários com uma incrível destreza e muita coragem. Aquela ultrapassagem a Sagan junto às grades... A cerca de 100 metros da meta, Sam Bennett estava já a ver a primeira vitória no Tour acontecer. Mas, vai ter de esperar.

O melhor é ver o vídeo, principalmente a repetição do sprint da imagem do helicóptero. Uma nota: o vento estava de frente, mas não abrandou Ewan!

Aos 26 anos, Ewan mostra como tinha razão em exigir à sua antiga equipa, Mitchelton-Scott, que o levassem ao Tour. Já com vitórias na Vuelta (uma) e Giro (três), o pequeno australiano (só tem 1,65 metros), tinha dado provas que podia medir forças com os melhores do mundo. Hoje também já o é e a Volta a França está a tornar-se a sua corrida.

Em 2019, com as cores de uma Lotto Soudal que elegeu Caleb Ewan para substituir André Greipel, o sprinter de estranho estilo não demorou a fazer esquecer o alemão. Aquela forma de sprintar deitado no guiador é uma imagem de marca, ainda que já vá mostrando uma posição um pouco diferente. Está a evoluir e está a tornar-se num caso sério de sucesso no grande palco que é o Tour.


Caleb Ewan cortou a meta com clara vantagem sobre Sam Bennett © ASO
Foram três vitórias na estreia, a última na mítica etapa dos sprinters, nos Campos Elísios. Com a desta segunda-feira, Ewan já soma quatro e perante a diferença de velocidade, de potência... de tudo, vai ser sempre forte candidato para somar mais, em condições normais. Já se sabe que em três semanas, muito acontece neste tipo de corridas.

Apesar de ter sido na equipa do seu país, a Mitchelton-Scott, que evoluiu, que se tornou num pequeno grande sprinter, a decisão de mudar-se para a Lotto Soudal não lhe deu só a tão desejada presença no Tour e a liderança nos sprints. Na formação belga, o seu crescimento continuou (e continua) e até deu um salto de qualidade, fruto de uma estrutura muito mais dedicada a este tipo de ciclista (assim como para as clássicas). E ajuda ter corredores experientes e dedicados quase exclusivamente em ajudar Ewan.

O Tour pode ter encontrado uma nova estrela do sprint para os próximos anos, à imagem do que aconteceu - recordando nomes mais recentes - com Mark Cavendish e Marcel Kittel.

Classificações completas da terceira etapa, via ProCyclingStats. 198 quilómetros que ligaram Nice a Sisteron.

4ª etapa: Sisteron - Orcières-Merlette, 160,5 quilómetros



Primeira chegada em alto do Tour. Primeiro teste à liderança de Julian Alaphilippe. O ciclista da Deceuninck-QuickStep talvez nem tenha de se preocupar muito com a Jumbo-Visma e a Ineos Grenadiers. É provável que as duas grandes candidatas estejam a pensar em lançar as suas armas mais adiante, poupando os líderes num Tour que será desgastante. O mesmo poderá suceder com Thibaut Pinot, da Groupama-FDJ.

No entanto, vários ciclistas estão a 17 segundos do francês e vestir a camisola amarela, mesmo sabendo que não a vão manter, poderá ser um momento que marque uma carreira. Sergio Higuita (EF Pro Cycling), Esteban Chaves (Mitchelton-Scott), Pierre Latour (AG2R), Miguel Ángel López (Astana), Pierre Rolland (B&B Hotels-Vital Concept) são nomes a ter muito em conta na etapa desta terça-feira. Tadej Pogacar (UAE Team Emirates) é um ciclista que já está mais na mira das principais figuras, depois do que vez na Vuelta, mas está desejoso de ganhar uma etapa.

E porque não juntar a esta lista Mikel Landa, da Bahrain-McLaren, ainda que o espanhol esteja a apontar à vitória finaç e não apenas a um pódio. Uma liderança tão cedo poderá não ser o mais sensato para a equipa, longe de poder competir com a Jumbo-Visma e a Ineos Grenadiers. Ainda mais já perdeu Rafael Valls e Wout Poels está a competir com uma costela partida e uma contusão no pulmonar, depois de ter caído na primeira etapa.

Não esquecer Adam Yates. O líder da Mitchelton-Scott só tem quatro segundos para recuperar. É outro candidato, ele que não tem pretensões à geral, mas a amarela está ali tão perto...

Alaphilippe não vai ter um dia fácil, mas já o vimos defender-se em condições bem mais difíceis em 2019, pelo que poderá manter-se como líder e começar a viver uma nova saga de amarelo.

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30 de agosto de 2020

Segundos bónus não seduzem a todos. Mas Alaphilippe agradece

© ASO/Alex Broadway
A ASO, organizadora da Volta a França, repete em 2020 a fórmula de segundos de bónus em algumas etapas, depois da experiência no ano passado. Na prática a intenção é fazer com que haja maior movimentação na tentativa de procurar ganhar tempo, além das habituais bonificações em todas as metas, para os três primeiros. Este domingo estiveram os primeiros em jogo, mas será que os que lutam pelo Tour estão assim tão preocupados com estes segundos?

Em jogo estão oito, cinco e dois segundos, que vão estar disponíveis em mais sete etapas, depois da de hoje. Primoz Roglic (Jumbo-Visma) é um ciclista que gosta de lutar por qualquer segundo que possa estar disponível. A prova é, mesmo quando já não pode ganhar uma etapa, tenta sempre um segundo ou terceiro posto nas provas. E aquelas bonificações têm sido importantes.

Porém, é diferente desgastar-se um pouco na meta e ir à procura de bónus durante a etapa, mesmo que estejam colocados mais perto do final como é o caso neste Tour. Os ciclistas que começam por tentar aproveitar mais estas oportunidades, são atletas como Julian Alaphilippe. O corredor da Deceuninck-QuickStep não é um candidato a vencer a geral, mas para repetir a exibição de 2019, em que esteve 14 dias de camisola amarela vestida, somar estes segundos pode ser uma garantia que vai adiando a entrega da liderança àqueles que a procuram como objectivo máximo.

O trio que disputou os segundos bónus da 2ª etapa
© ASO/Pauline Ballet
Alaphilippe tinha esta segunda etapa marcada para tentar ganhar e vestir a amarela. Atacou na última subida, que nem era categorizada, mas tinha os tais segundos de bónus. Por acaso até foi apenas segundo, com Adam Yates (Mitchelton-Scott) a sprinter para ficar com os oito e o francês com os cinco. Em comum, estes ciclistas têm quererem ganhar etapas e estar de amarelo, mas sem pensar em chegar na condição de líder aos Campos Elísios.

Marc Hirschi (Sunweb) ficou com os dois segundos que restaram, com o pelotão, na altura comandado pela Ineos Grenadiers, a não se preocupar minimamente em colocar os seus líderes na luta pelos bónus. Para Egan Bernal, Roglic, Thibaut Pinot, as diferenças vão fazer-se nas grandes etapas de montanha.

Sprint final, com Hirschi a dar muito espaço a Alaphilippe,
que já não conseguiu recuperar
© ASO/Alex Broadway
Talvez mais adiante na corrida estes segundos de bónus possam tornar-se mais valiosos para os chamados favoritos, principalmente se ninguém estiver a conseguir fazer grande diferença. Se for o caso, então a Jumbo-Visma, que quer de facto ser a patroa do Tour, pode tentar explorar o lado rápido de Roglic em sprints em pequenos grupos.  E, lá está, o esloveno adora ir atrás de qualquer segundo que possa ajudar. Mas a preferência irá sempre para uma vitória de etapa. Pelo prestígio, claro, e porque são 10 segundos para o vencedor, seis para o segundo classificado e quatro para o terceiro.

A ideia de tentar que haja mais luta e logo mais espectáculo com a colocação destes bónus não resultou no imediato, mas Alaphilippe agradece, pois conquistou 15 segundos de bonificação e mais dois na estrada para o pelotão. Yates está a quatro e Hirschi - o novo líder da juventude, tirando a camisola branca a Mads Pedersen (Trek-Segafredo) - a sete.

© ASO/Alex Broadway
Início de nova saga no Tour?

O francês ainda não tinha vencido em 2020, apesar de ter estado perto na Milano-Sanremo (foi segundo, atrás de Wout van Aert) e nos Campeonatos Nacionais, há uma semana. Julian Alaphilippe viveu momentos difíceis com a morte do pai, a quem de imediato dedicou a vitória em Nice. Chorou de emoção, ao mesmo tempo que não escondeu algum alívio. Já se instalava algum nervosismo no ciclista pela falta de vitórias, depois de um 2019 memorável.

Apesar da Deceuninck-QuickStep não ser uma equipa para a montanha, já se percebeu que Alaphilippe é um lutador, que na edição passada até fez os franceses sonharem. Acabou em quinto, mas ainda assim, muito melhor do que se esperaria. Agora já não surpreenderá que faça algo idêntico. Contudo, apesar da exibição de hoje, este não é o Alaphilippe de 2019.

© ASO/Alex Broadway
Mesmo na forma como atacou, sem conseguir que Hirschi e Yates ficassem para trás, é notório que falta algo ao francês. Porém, pode compensar com aquela bem conhecida garra. Alaphilippe pode muito bem manter a camisola amarela por vários dias, com a oitava etapa a ser o pior dos testes, quando surgir a primeira categoria especial, no Port de Balès.

O senão é que Alaphilippe vai ter adversários que também querem vestir a amarela, nem que seja por um só dia. Dentro da margem dos 17 segundos estão, por exemplo, Sergio Higuita (EF Pro Cycling), Esteban Chaves (Mitchelton-Scott), Greg van Avermaet (CCC) e Pierre Latour (AG2R). E exclui-se aqueles que tem objectivos mais altos, ainda que não é de afastar que Tadej Pogacar (UAE Team Emirates) vá tentar fazer um pouco de história para a Eslovénia (Roglic tem concorrência nesta luta nacional).

Sempre que houver mais montanha, qualquer um destes ciclistas (e não só) podem fazer o mesmo que Alaphilippe. Procurar uns segundos bónus para ter aquele momento de amarelo.

Classificação completa, via ProCyclingStats.

Etapas com segundos bónus

  • 2ª - Col des Quatre Chemins
  • 6ª - Col de la Lusette
  • 8ª - Col de Peyresourde
  • 9ª - Col de Marie Blanque
  • 12ª - Suc au May
  • 13ª - Col de Neronne
  • 16ª - Montée de Saint-Nizier-du-Moucherotte
  • 18ª - Montée du plateau des Glières
3ª etapa: Nice-Sisteron, 198 quilómetros



Mesmo com quatro subidas categorizadas, é um dia que os sprinters não vão querer desperdiçar. Vai ser preciso as suas equipas trabalharem, pois também deverá haver quem vai apostar forte na fuga.

»»Lembram-se deste Kristoff««

»»Muito mais do que um Tour««

29 de agosto de 2020

Lembram-se deste Kristoff?

© Bettiniphoto/UAE Team Emirates
Por uns segundos pareceu que se estava nos anos entre 2014 e 2016, quando Alexander Kristoff foi um ciclista temível nos sprints e clássicas. Aquele arranque poderoso capaz de deixar o melhor dos adversários para trás, há muito que não se via. O norueguês vai ganhando aqui e ali, até uma ou outra vitória importante. Porém, em Nice, recordou aquele Kristoff espectacular, que era garantia de muitos e bons triunfos, mas que, num curto espaço de tempo, se eclipsou.

Aos 33 anos e com um papel cada vez mais secundário, mesmo na UAE Team Emirates, Kristoff não entrava muito nas contas para ser o vencedor na primeira etapa do Tour. Acabou por ser referido por ser um daqueles sprinters com muitas presenças - é a sua oitava Volta a França -, mas que nunca havia vestido a camisola amarela, a exemplo de Peter Sagan (Bora-Hansgrohe). O eslovaco vai ter de esperar para juntar a amarela à sua extensa colecção de camisolas, mas Kristoff surpreendeu e já a tem.

Desde que a sua relação com a então Katusha-Alpecin começou a azedar em 2017, que Kristoff teve uma tremenda quebra de rendimento. Ia vencendo, mas faltava-lha vitórias nos grandes palcos. Durante os três anos referidos, conquistou a Milano-Sanremo, a Volta a Flandres e também foi figura no Tour, só para referir os triunfos de maior destaque. Em 2014 foram 14, 2015 aumentou para 20 e em 2016, 13.

Mas a partir de 2016, as vitórias eram muitas vezes em corridas de categorias inferiores. Porém, Kristoff sempre teve a capacidade de quando pouco parecia contar com ele, de calar alguns críticos. Como aconteceu na Prudential RideLondon-Surrey Classic e na Eschborn-Frankfurt, por exemplo. Até se sagrou campeão europeu e por pouco não ficou também com o título mundial. Pelo meio enfrentou acusações de estar gordo, num claro mal-estar na Katusha-Alpecin.

A perder estatuto, mudou-se para a UAE Team Emirates para ser novamente líder. Mas se recuperou confiança, não recuperou aquela veia vencedora. Mas lá está, foi aos Campos Elísios vencer a etapa mais desejada dos sprinters no Tour, juntou mais duas Eschborn-Frankfurt, uma Gent-Wevelgem... Fez o suficiente para que a sua equipa não perdesse confiança nele, ainda que também já tenha contratado ciclistas para ocupar o seu lugar de líder nos sprints e mesmo em algumas clássicas. Caso de Fernando Gaviria e Jasper Philipsen, este último ainda está numa fase de evolução.

Na Katusha-Alpecin, Kristoff não esteve disposto a ficar em segundo plano, compreensível visto então ser um ciclista numa idade para pensar em manter-se no auge. Porém, o tempo passou e o norueguês até vai dando mostras de estar preparado para ser cada vez mais um apoio de qualidade às novas figuras da UAE Team Emirates.

© Bettiniphoto/Bahrain-Merida
Mas em Nice, Kristoff aproveitou ser o sprinter escolhido pela UAE Team Emirates, que, contudo, está concentrada em levar Tadej Pogacar a um bom resultado na geral. Kristoff é um ciclista que sabe aproveitar o trabalho de outras equipas, ainda que tenha contado com um lançador seu. E aquela potência no arranque que tantas vitórias lhe deu no passado, surgiu em Nice. Foi a quarta etapa ganha no Tour.

A etapa foi desgastante para todos. A chuva deixou a estrada tão escorregadia que se sucederam quedas. O pelotão chegou a simplesmente abrandar até aos últimos 20 quilómetros finais. Depois de cair no Europeus, na quarta-feira, Kristoff evitou todos os problemas e, como o bom velho Kristoff, foi grande no sprint.

É mais uma prova que este norueguês há-de ter sempre algo para dar, ainda que de ano para ano seja cada vez menos um ciclistas de muitas vitórias. Mas corredores como o Kristoff nunca desistem de obter mais um momento de glória. E vestir a camisola amarela no Tour, mesmo que seja apenas por um dia, é um daqueles que qualquer atleta ambiciona.

© ASO/Alex Broadway
Etapa muito complicada

Pavel Sivakov teve uma estreia madrasta no Tour. Duas quedas, muitas feridas e muitas dores para lidar nos próximos dias. Andrey Amador, também da Ineos Grenadiers caiu igualmente duas vezes, com o rivais da Jumbo-Visma a terem também problemas. Tom Dumoulin e George Bennett foram ao chão. São ciclistas a quem espera um trabalho importante para os respectivos líderes.

A lista de quedas é enorme. Miguel Ángel López (Astana) deslizou até chocar com um sinal, Thibaut Pinot (Groupama-FDJ) estava a três quilómetros da meta - já com o tempo neutralizado por ordem dos comissários - quando caiu. Giacomo Nizzolo (NTT), Caleb Ewan (Lotto Soudal), Richie Porte (Trek-Segafredo), o português Nelson Oliveira (Movistar) não foram felizes. E estes são apenas poucos exemplos daqueles que tiveram um primeiro dia do Tour bem mais difícil do que o esperado.

Agosto, mês de Verão. Nice, cidade a convidar a mergulhos na praia... Que dia tão cinzento para abrir uma tão aguardada Volta a França. As quedas acabaram por marcar a primeira etapa, de 156 quilómetros, percorridos por Nice. A situação estava tão má que Tony Martin, um autêntico patrão no pelotão, deu ordem para se andar com calma. Só a Astana não respeitou a ia pagando um preço alto com López.


© ASO/Alex Broadway
Até aos 20 quilómetros finais só não se pode dizer que houve de descanso, porque aquela descida, com curvas em cotovelo, deixou todos nervosos, mesmo a velocidade muito baixa. Alguns ciclistas quase pararam para curvar.

Falta agora saber que consequências terão as quedas em alguns ciclistas. Ainda por cima, este é mesmo o Tour mais exigente dos últimos anos e este domingo há já duas primeiras categorias para enfrentar. Espera-se é que a meteorologia esteja mais simpática.

Apesar da etapa não ter sido o que se esperava, ainda assim só dá vontade de dizer: o Tour está finalmente na estrada.

Classificação completa, via ProCyclingStats.

2ª etapa: Nice Haut Pays - Nice, 186 quilómetros


Julian Alaphilippe (Deceuninck-QuickStep) - mais um dos que caiu - tem esta etapa apontada para tentar repetir a exibição de 2019. Ou seja, quer vencer e vestir novamente a camisola amarela. É um bom dia para ciclistas como o francês, numa altura que a Jumbo-Visma e a Ineos-Grenadiers ainda poderão não estar interessadas em assumir já a liderança. Porém, com Primoz Roglic nunca se sabe!

Será um bom dia para os chamados punchers para tentar perseguir pelo menos a vitória de etapa, se a Jumbo-Visma deixar. Já se percebeu que a equipa holandesa quer mesmo ser a nova dona do Tour, destronando por completo a agora chamada Ineos-Grenadiers.


»»Muito mais do que um Tour««

»»Pinarello Dogma F12 com nova imagem para a agora Ineos Grenadiers««

Pinarello Dogma F12 com nova imagem para a agora Ineos Grenadiers

© CAuldPhoto/Ineos Grenadiers
Este ano apenas a Bora-Hansgrohe mudou a camisola para a Volta a França, regressando a uma versão com mais branco na camisola. Porém, a Ineos também tem novas cores, mas porque, como já havia sido anunciado, adoptou um novo nome a partir do Tour. Surgem assim os equipamentos renovados que os ciclistas vão utilizar na restante temporada, mas também as bicicletas têm agora novas cores, pois a Pinarello não ia passar ao lado da nova fase da agora Ineos Grenadiers.

© Pinarello
Os equipamentos quebram com o passado, sendo agora um azul escuro, tendo na frente o símbolo do Grenadiers, todo-o-terreno que o principal financiador da estrutura,  Sir Jim Ratcliffe, quer agora divulgar através do ciclismo.

© Pinarello
Quanto à bicicleta, a ligação entre a equipa britânica e a Pinarello tem sido uma de maior sucesso em tempos recentes, principalmente no que diz respeito a grandes voltas, mas não só. Actualmente os ciclistas utilizam os modelos Dogma F12 e Dogma F12 X-Light, que foram apresentados em 2019, para substituir a popular Dogma F10.

As bicicletas que entraram em acção neste sábado, na primeira etapa da Volta a França, só têm como diferença a novas cores, que a Pinarello destacou esta semana, aquando da revelação da nova imagem da agora Ineos Grenadiers.

© Pinarello
As Dogma continuam a ser equipadas com Shimano Dura-Ace Di2 e rodas Dura-Ace. Um dos destaques da Dogma F12 é a forma como o quadro foi desenhado para proteger os bidões, permitindo maior aerodinâmica (os famosos ganhos marginais da equipa?).

Não há cabos à vista, o que leva a Pinarello a assegurar que há uma redução de resistência da deslocação do ar em 5%. Apesar dos ciclistas da Ineos Grenadiers competirem com pneus de 26mm, a F12 pode levar de 28mm.

© Pinarello
De recordar que a Ineos Grenadiers (herdeira da Sky), conta com sete vitórias no Tour na última década. Começou com Bradley Wiggins, seguiu-se quatro triunfos de Chris Froome, um de Geraint Thomas e, em 2019, Egan Bernal tornou-se no primeiro colombiano a conquistar a Volta a França.

Froome e Thomas irão à Vuelta e Giro, respectivamente, com Bernal a ter a seu lado em França Andrey Amador, Richard Carapaz, Jonathan Castroviejo, Michal Kwiatkowski, Luke Rowe, Pavel Sivakov e Dylan van Baarle.


28 de agosto de 2020

Muito mais do que um Tour

© ASO/Alex Broadway
Foram muitas as dúvidas. De todos. Ciclistas, directores, adeptos... Ver a Volta a França arrancar de Nice este sábado será um dos momentos altos de 2020, mas, desta feita, não por ser apenas o Tour, a eterna grande corrida do ciclismo. Perante um ano tão estranho, poder assistir ao pelotão lutar pela mítica camisola amarela, ver o típico nervosismo naqueles quilómetros finais em que se preparam os sprints, ver os ataques de quem na montanha tenta o seu momento de glória... tudo isso terá uma sensação diferente. Ainda mais especial. E não só pelo que aconteceu até agora, mas também pelo que ainda poderá vir a acontecer.

A Volta a França acaba por ser o primeiro grande teste em tempos de pandemia. Durante o mês de Agosto já se disputaram várias corridas, que permitiram verificar e aprimorar a segurança agora necessária em termos sanitários. Mas o Tour é enorme. Move muitas pessoas. Entre equipas, organização, jornalistas e claro os fãs (sem eles não há ciclismo). A famosa caravana publicitária sofre um rombo, a convivência entre atletas e adeptos também, mas algo tinha de ceder para se colocar a corrida na estrada.

As medidas que agora são implementadas não vão desaparecer tão cedo e numa altura que pela Europa os casos de covid-19 sobem bastante, é essencial que no Tour se consiga passar uma mensagem e uma imagem de que é possível organizar uma prova desta envergadura em segurança. Não se pode falar que não há riscos, mas se for possível minimizá-los, então o futuro próximo do ciclismo poderá ser mais risonho. Agora continua demasiado incerto.

Todos estão cientes que o cancelamento de corridas pode acontecer a qualquer momento e que o calendário possível, criado para o que resta de 2020, pode sofrer ainda mais alterações. Todos os directamente envolvidos na corrida estarão sob intensa pressão para cumprir à risca as regras. Por parte de quem for apoiar na estrada, só se pode esperar que o comportamento esteja à altura de uma era de pandemia e em que se tenta não parar de novo. Mais do que nunca é preciso respeito, acima de tudo. O ciclismo precisa disso mesmo para sobreviver além da Volta a França.

A parte desportiva (e a que queremos mais falar)

O que mais se quer é ter o foco na luta pelas vitórias, ainda que os ciclistas nem partiram e já a Lotto Soudal mandou dois membros do staff para casa devido ao coronavírus. Mas há que olhar para a competição. Tentemos ter esse momento de alegria de ciclismo.


© ASO/Alex Broadway
Claro que vai ser uma edição em que muito se vai falar da luta Ineos Grenadiers (novo nome da equipa britânica) e da Jumbo-Visma. O frente-a-frente Egan Bernal (vencedor do Tour em 2019) e Primoz Roglic (conquistou a Vuelta no ano passado) é o mais aguardado, entre duas equipas que parecem rumar em sentido contrário.

A Ineos Grenadiers provou no Tour de l'Ain e no Critérium du Dauphiné o seu próprio veneno. Ou seja, de como é ser-se completamente controlada por uma formação adversária. De dominadora, a dominada.

Demorou, mas a Jumbo-Visma foi a equipa que conseguiu não só ameaçar, mas mesmo destronar a toda poderosa Ineos Grenadiers. A equipa holandesa construiu um bloco que lhe permite controlar o ritmo da corrida, não deixar os adversários atacarem, ou não terem sucesso nos ataques, e, claro, ainda tem um líder capaz de finalizar o trabalho. Da equipa expectante, é agora a dominadora. Mas será também no Tour? É neste palco que terá de mostrar a superioridade revelada nas recentes corridas.

Roglic caiu no Critérium du Dauphiné, não partiu para a última etapa e muito se especulou sobre o seu estado físico. O mesmo aconteceu com Bernal, que saiu da prova com dores de costas, versão oficial, e que ainda o estará a afectar. Bluff? Pouco importa, porque já a partir de domingo se vai começar a perceber como estão os ciclistas.

Sem Chris Froome e Geraint Thomas, a Ineos Grenadiers garantiu uma essencial coesão em redor de um líder, com Richard Carapaz a ter de se assumir como braço-direito de Bernal e um possível plano B. O director, Dave Brailsford, também admitiu que será uma equipa diferente do que estamos habituados. Um sinal dos tempos, provavelmente. Estamos mesmo perante a nova era da equipa.

© ASO/Alex Broadway
A Jumbo-Visma tem Roglic e um Tom Dumoulin que começou de forma algo fraca a retoma do calendário, mas no Dauphiné demonstrou que podem contar com ele. A lesão no joelho será mesmo coisa do passado. Algo ainda mais importante quando a equipa perdeu Steven Kruijswijk devido a uma lesão no ombro, após queda no Dauphiné (não foi uma boa corrida de preparação para muitos ciclistas).

Ou seja, não haverá a muito antecipada luta de tridentes, mas haverá uma luta de titãs.

Centrar a luta em dois ciclistas?

É difícil não centrar a luta pela amarela em Bernal e Roglic, mas neste Tour a começar no final de um mês de Agosto, depois de semanas de confinamento, com os ciclistas a não terem a preparação de outras temporadas - seja em tempo de competição ou mesmo em estágios de altitude, por exemplo -, paira a incerteza.

O que foi possível ver nas competições realizadas até ao momento, é que não é fácil manter uma regularidade exibicional. Este será um dos Tour mais duros dos últimos anos, apenas com um contra-relógio, que terminará na difícil subida de La Planche des Belles Filles. Em qualquer etapa de montanha pode-se perder tempo difícil de recuperar.

© Groupama-FDJ
Por tanta incerteza de como irão as equipas e os seus líderes conseguir estar durante as três semanas, não é de afastar que haja quem se intrometa na luta pela amarela. Aliás, é mesmo de esperar que haja intromissão. E o primeiro nome que surge é o renascido Thibaut Pinot. Que bem esteve em 2019 até que uma lesão o tirou da prova!

O francês da Groupama-FDJ fez por merecer para que seja colocado entre os principais candidatos, praticamente ao lado de Bernal e Roglic. Talvez no degrau abaixo, pois a Groupama-FDJ não tem a força de, pelo menos a Jumbo-Visma. Será desta que Bernard Hinault tem um sucessor? A última vitória francesa foi em 1985. E se há ano para Pinot ganhar, é este. Muita montanha e um contra-relógio que termina a subir.

Tadej Pogacar (UAE Team Emirates), Miguel Ángel López (Astana) - ambos estreantes no Tour -, Emanuel Buchmann (Bora-Hansgrohe, fortíssimo candidato ao pódio, ainda que também tenha caído no Dauphiné e poderá não estar a 100% neste arranque de corrida), Mikel Landa (Bahrain-McLaren, agora como líder único já não terá desculpas para não lutar pela vitória) são ciclistas que podem ter uma palavra a dizer pelo menos para chegar ao pódio. Nairo Quintana (Arkéa Samsic) será uma espécie de joker, apontando alto para quem está numa equipa do segundo escalão.

E sim, terão muito a dizer numa corrida que, do lado de quem vai passar horas em frente ao televisor a ver o Tour, se espera possa continuar com o espectáculo a que se assistiu em 2019, depois de muitos anos em que o Tour pecou por alguma (às vezes muita) falta de interesse.

© Bettiniphoto/Movistar Team
Um português apenas

Nelson Oliveira é o único português em prova, numa Movistar tão pouco candidata até a um top dez. A formação espanhola ainda chamou Marc Soler para tentar reforçar uma equipa que não convence. Alejandro Valverde já mostra que a idade vai tendo o seu peso, mas nunca é de afastar que vá atrás de vitórias de etapas.

Enric Mas deverá ser mais o homem da geral, faltando perceber se Soler está disponível para se sacrificar novamente em prol de um líder ou se vai perseguir o seu próprio resultado. A paz e coesão na Movistar ainda não chegou, mesmo que agora não tenha as intensas guerras internas e a complata falta de união que marcaram o tempo de Valverde/Landa/Quintana.

Mas de Nelson Oliveira não há dúvidas sobre o que esperar. O eterno homem de confiança, de muito trabalho e de dedicação total à equipa e aos seus líderes. E quem sabe, se o Tour não correr bem aos líderes, talvez mais adiante, o português possa ter alguma liberdade.

Nelson Oliveira tem o dorsal 95 e pode confirmar aqui todas as equipas, dorsais e etapas da muito aguardada 107ª edição da Volta a França.

1ª etapa: Nice Moyen Pays - Nice, 156 quilómetros



Dia para os sprinters vestirem a camisola amarela. Apesar de ser um Tour que certamente não agradou muito a este tipo de ciclista dada a dureza da maioria dos dias, ainda assim há oportunidades para vencer. E sendo o primeiro dia, a vitória traz o bónus da sempre desejada amarela, mesmo que seja por um dia. É que no domingo já há duas primeiras categorias!

»»Froome: saída pela porta pequena (ou pelo menos não tão grande)««

Equipa Portugal fecha Europeus com um top cinco

Daniela Campos discutiu o sprint na prova de juniores
No último dia dos Campeonatos Europeus em Plouay, França, a selecção portuguesa teve mais um dia de grande nível exibicional, mas também voltou a sofrer alguns azares, algo que marcou a prestação durante as provas da última semana. A júnior Daniela Campos fechou no quinto lugar a corrida de fundo, em mais um excelente resultado, pois já tinha sido nona no contra-relógio.

Problemas mecânicos, um furo, uma queda, questões físicas... A Equipa Portugal sai de Plouay com uma lista bem preenchida de tudo o que se quer que não aconteça, mas aconteceu. Ainda assim. Entre juniores, sub-23 e elite, o balanço final só pode ser positivo.

© Federação Portuguesa de Ciclismo
Daniela Campos é a prova disso mesmo. A júnior demonstrou estar muito atenta às movimentações que aconteceram nos 68,25 quilómetros de prova. Conseguiu ficar sempre na frente, evitando ter de fazer recuperações. Os consecutivos cortes que se foram verificando acabaram por determinar o grupo de cerca de 20 ciclistas que ficaram em melhores condições de discutir as medalhas.

Daniela Campos conseguiu um quinto lugar, num sprint ganho pela italiana Eleonora Gasparrini, com as  belgas Matith Vanhove e Katrijn de Clercq, a serem segunda e terceira, respectivamente. Para a portuguesa é um resultado de revela a boa evolução como atleta no último ano.

Beatrix Roxo ficou do lado azarado da selecção. Segundo explica a Federação Portuguesa de Ciclismo, a jovem ciclista teve uma avaria logo na primeira volta ao circuito e foi ainda vítima de outra situação de corrida. Depois, quando estava quase a reentrar no grupo principal, esteve "partiu", deixando a portuguesa nos lugares mais atrasados. Terminaria no 40º lugar, a 10:22 minutos de Gasparrini.


Nos juniores masculinos, os azares continuaram a perseguir os ciclistas portugueses. Fábio Fernandes teve um furo e João Ferreira foi vítima de queda. Dado o elevado ritmo da prova, ambos acabaram por não conseguir manter-se na frente e abandonaram. dinamarquês Kasper Andersen sagrou-se campeão europeu, com o checo Pavel Bittner e o belga Arnaud de Lie a completarem o pódio (classificação neste link).

© Federação Portuguesa de Ciclismo
Na quinta-feira, foi Miguel Salgueiro a figura, ao alcançar um excelente nono lugar na corrida de sub-23. O português foi um dos melhores no pelotão que perseguiu sem sucesso uma fuga que decidiria as medalhas. O norueguês Jonas Iversby Hvideberg venceu, com o dinamarquês Anthon Charmig e o checo Vojtech Repa a ficarem com a medalha de prata e bronze, respectivamente.

"Foi mais uma boa corrida da nossa selecção. Apesar da falta de ritmo conseguimos estar com os melhores, discutindo as posições cimeiras. Penso que o estágio prévio ao Europeu foi uma importante preparação. O Miguel esteve muito bem, arriscando quando foi necessário e entrando no sprint nas primeiras posições do pelotão, condição fundamental para se poder aspirar a um bom resultado", salientou o seleccionador José Poeira.

Sprint final da prova de sub-23
Guilherme Mota foi 70º, a 55 segundos, e Afonso Silva 83º, a 2m52s. Pedro Miguel Lopes integrou a fuga que viria a discutir as medalhas, mas, infelizmente, acabou por abandonar devido a cãibras.

E há que recordar que na prova de fundo elite, Rui Costa teve problemas com o selim, o que lhe retirou a oportunidade de lançar o ataque que pretendia para lutar pela vitória. No conta-relógio foi Rafael Reis que teve problemas com as mudanças, o que o afastou de um muito provável top dez.

No entanto, na corrida de fundo, a Equipa Portugal realizou uma das melhores exibições colectivas que já se tinha assistido, merecendo um resultado bem mais recompensador. Contudo, tendo em conta que foi preciso discutir o sprint, o 14º lugar de Rui Oliveira foi muito positivo. Até porque o gémeo também teve um pequeno azar ao ser fechado e ter de parar de pedalar por instantes.

Apesar da lista de imprevistos, o importante a retirar é que em todos os escalões as exibições foram de nota e motivantes, ainda mais num ano em que as corridas são escassas e que não é fácil ter picos de forma.


26 de agosto de 2020

Excelente exibição colectiva merecia mais nos Europeus


Até ao problema com Rui Costa, Equipa Portugal esteve sempre muito
bem colocada no pelotão (© Ilario Biondi/BettiniPhoto©2020/UEC)
Não é muito habitual ter a selecção nacional com seis ciclistas numa prova do nível de uns Europeus. José Poeira não teve, por isso, problema em perseguir um bom resultado. Aliás, não teve de problema em assumir a corrida como já tinha previsto e como as circunstâncias chegaram a exigir. Infelizmente, o ciclismo tem destas coisas. Mais um problema mecânico e mais uma hipótese de disputar talvez mais do que um top dez acabou por se gorar. Ainda assim, Rui Oliveira não se coibiu de tentar dar à selecção um merecido prémio. Sprintou e fechou na 14ª posição.

Soube a pouco, pois qualquer um dos seis ciclista eleitos por José Poeira merecia mais, a começar pelo próprio Rui Oliveira. Incansável no trabalho para fechar espaços na fase final da corrida e antes na protecção a Rui Costa, o jovem ciclista ainda encontrou forças para sprintar, quando foi chamado a essa responsabilidade, mas também não teve sorte.

Rui Costa foi sempre protegido pelos seus companheiros de equipa
"Foi das melhores exibições que fizemos enquanto selecção nacional. Estivemos sempre na frente, ajudando-nos mutuamente, todos a um nível excelente. No final, como a corrida não se fez tão dura quanto seria necessário para o Rui Costa, a segunda cartada era resguardar-me para o sprint. Já cheguei um pouco fatigado, mas entrei bem posicionado. Ia, certamente, para um top 10, mas fui um pouco apertado por um ciclista da República Checa. Tive de travar e perdi posições. Melhorei o resultado do ano passado, mas queria mais", afirmou Rui Oliveira, citado pela Federação Portuguesa de Ciclismo.

Além dos "Ruis", Ivo Oliveira, Ruben Guerreiro, Rafael Reis e Rafael Silva estiveram perfeitos. Protegeram o líder tão bem! Inclusivamente conseguiram evitar duas quedas que marcaram a corrida em Plouay. A zona de Bretanha francesa não teve um percurso fácil de 177,45 quilómetros. O circuito teve estradas muitos estreitas, que exigiram uma constante boa colocação.

Ruben Guerreiro tentou a sua sorte numa fuga
(© Ilario Biondi/BettiniPhoto©2020/UEC)
Quando a corrida ficou definitivamente lançada, entre os 50 e 60 quilómetros finais, a Equipa Portugal mantinha-se no grupo, sempre bem posicionada. Sem surpresa, Ruben Guerreiro, o eterno irrequieto, tentou a sua sorte numa fuga. Mais um português sem sorte, pois os "companheiros" não foram os ideais e o seu esforço não foi compensado. Profissional como é, assumiu de imediato o apoio a Rui Costa.

Mas este sim, pode considerar-se o maior azarado. Um problema no selim tirou a possibilidade de Rui Costa tentar o ataque previsto para evitar uma chegada ao sprint, onde Portugal tinha menor hipótese de chegar às medalhas. Teve de pedir assistência duas vezes e na pior das alturas. Na frente o ritmo já era infernal.

"Quando devíamos estar à frente, tivemos o azar de estar atrás. Já não foi possível atacar a corrida para tentar um bom resultado com o Rui Costa. Com um grupo tão numeroso, o plano passou a ser tentar levar o Rui Oliveira nas melhores condições para a discussão do sprint. Foi nesse sentido o ataque do Rui Costa, para desgastar os adversários", referiu José Poeira.

A Rui Costa restou tentar um ataque, onde se agarrou à roda do britânico Thomas Pidcock, já com a meta muito próxima. O objectivo já não era mais do que tentar desgastar um pouco mais os ciclistas que impunham ritmo, principalmente uns italianos muito representados para preparar o sprint de Giacomo Nizzolo.

O sexteto eleito pelo seleccionador José Poeira (© Federação Portuguesa de Ciclismo)
A exibição da Equipa Portugal foi quase perfeita, que merecia de facto mais que ficar à mercê de um problema mecânico. Aliás, já no contra-relógio de segunda-feira, Rafael Reis se pode queixar que Plouay não foi um local feliz. Um problema nas mudanças tirou-lhe um muito provável top dez.

Se se pode argumentar que o pelotão dos Europeus não era o de maior nível - tem sido habitual, mas este ano sofreu ainda com o receio de algumas equipas "libertare" os seus atletas com o Tour à porta -, ainda assim, Itália, França, Países Baixos e Bélgica apresentaram blocos muito fortes, o que ajudou a animar a corrida.

Com seis atletas, Portugal mostrou que tinha qualidade para fazer frente às selecções mais fortes e com mais homens (oito). O selim tramou o plano final, mas a imagem que ficou da equipa foi muito, muito positva.

O vencedor

(© Ilario Biondi/BettiniPhoto©2020/UEC)
Com a corrida a decidir-se num prevísivel sprint, Giacomo Nizzolo continua a ser daquelas pessoas que vai ter boas razões para se recordar de 2020! Poucos dias depois de se sagrar campeão nacional, é o novo campeão europeu.

Sucedeu a outros dois italianos: Elia Viviani (2019) e Matteo Trentin (2018), com este último a ser desta feita um importante homem de trabalho. Em cinco Europeus - desde que foram abertos aos profissionais - Itália tem assim três vitórias, contra uma da Noruega (Alexander Kristoff, em 2017) e uma da Eslováquia (o inevitável Peter Sagan, em 2016).

(© Ilario Biondi/BettiniPhoto©2020/UEC)
Nizzolo - que antes do confinamento já tinha ganho uma etapa no Tour Down Under e outra no Paris-Nice, numa muito feliz mudança para a NTT - bateu outro sprinter num bom momento de forma: o francês Arnaud Démare. O ciclista da Groupama-FDJ - que também se sagrou há dias campeão nacional, mas pela terceira vez - não escondeu a desilusão de não ter ganho no seu país.

Curiosamente, os Europeus até eram para se ter disputado em Itália, com Trentino como destino, mas foram desmarcados devido à pandemia e tiveram mesmo em risco de não se realizarem

O alemão Pascal Ackermann fechou o pódio, com Mathieu van der Poel a escolher a trajectória errada, caso contrário o campeão nacional dos Países Baixos poderia ter surpreendido os chamados puros sprinters. Certo é que Van der Poel está a começar a subir de forma.


A equipa de elite de Portugal pode sair de Plouay orgulhosa do que fez, pois é um daqueles casos em que as classificações não dizem tudo sobre o excelente trabalho realizado:

14º Rui Oliveira, m.t.
29º Rui Costa, a 4 segundos
41º Ruben Guerreiro, a 11 segundos
60º Ivo Oliveira, a 3:27 minutos
80º Rafael Silva, a 8:26 minutos
87º Rafael Reis, m.t.

Esta quinta-feira será a vez dos sub-23 entrarem em acção, logo às 8 horas (mais uma em França). A Equipa Portugal estará representada por Afonso Silva, Guilherme Mota, Miguel Salgueiro e Pedro Miguel Lopes nos 136,6 quilómetros, ou seja, dez voltas ao circuito de Plouay.

Veja aqui a classificação completa, via ProCyclingStats.

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