31 de maio de 2019

Guilherme Mota regressa a Portugal para poder garantir um futuro além do ciclismo

(Fotografia: © José Nunes Vieira)
Guilherme Mota está de regresso a Portugal, depois de cinco meses na equipa sub-23 da Caja Rural. Estava tudo a correr bem, com o ciclista de Leiria a alcançar bons resultados e a adaptar-se muito bem a uma realidade diferente da que estava habituado no escalão de juniores por cá. Porém, os desejo de prosseguir com os estudos e também de estar mais tempo com a família fez com que optasse por regressar e a UD Oliveirense-InOutBuild será a sua nova casa.

"Estou a focar-me bastante em passar tempo de qualidade com a família e na universidade, para que possa ter um futuro além do ciclismo. Apercebi-me que as coisas não estavam a ser compatíveis e tive a oportunidade para vir para a equipa do Manuel Correia", afirmou ao Volta ao Ciclismo. A UD Oliveirense-InOutBuild já tinha estado em perspectiva até surgir o convite da Caja Rural no ano passado, pelo que poder integrar o jovem plantel de uma estrutura que tem formado alguns dos mais recentes ciclistas a chegar ao World Tour - os gémeos Oliveira, Ruben Guerreiro -, deixa Guilherme Mota muito satisfeito. "É uma equipa de referência para todos os que saem do escalão de juniores para sub-23. Tem excelentes profissionais como Manuel Correia e o Luís Pinheiro. Sabe-se o quanto podem ajudar-nos a crescer", acrescentou.

O ciclista de 18 anos garantiu que estava feliz em Espanha, que estava tudo bem na equipa e até estava a conseguir boas classificações no top 20. Porém: "Neste momento não há condições para ter o ciclismo como principal via, digamos assim. No caminho que estava a seguir, ia acabar deixar metade das cadeiras do segundo semestre para trás." Guilherme Mota quer tirar o mestrado em Engenharia Biomédica, na Universidade do Minho. O ciclismo obrigava-o a passar bastante tempo fora de casa, a competir ou treinar.

"Ganhei muita experiência lá fora. É uma equipa com uma base profissional. Aprendi principalmente a nível táctico, mas também físico"

Não hesita em considerar que foi uma boa opção para ambas as partes, com a porta da Caja Rural a não ficar fechada com esta saída antecipada do ciclista. "Isto foi bastante pacífico. Eles sabiam que eu sou bastante dedicado aos estudos e que isto poderia acontecer. A porta fica aberta. Quando tiver os estudos mais arrumados, por assim dizer, e queira voltar, tenho a porta aberta. O que é muito bom. Não faria sentido acabarmos de outra forma", referiu.

Apesar do calendário em Espanha contar com mais corridas do que o português para os sub-23, Guilherme Mota considera que não vai competir menos e até está bastante satisfeito por ter pela frente o tipo de corridas que mais gosta: por etapas. "Até ao momento tenho 15 dias de competição. O calendário centrou-se mais em corridas de um dia. Passava muito tempo na casa da equipa em Pamplona. Agora, em Portugal, vou ter mais corridas por etapas. Vou acabar por fazer bastantes dias de competição."

E está a começar a fase do ano com mais competições no calendário nacional, com Guilherme Mota a ter estreia marcada já para domingo, no Grande Prémio Anicolor. Até final da temporada, deverá estar presente na maioria das provas da sua nova equipa e mesmo a Volta a Portugal não é algo completamente excluído. A UD Oliveirense-InOutBuild, tal como a maioria das equipas portuguesas, não tem um plantel extenso. No entanto, é mais na Volta a Portugal do Futuro que pensa Guilherme Mota, ficando a garantia que se tiver de fazer a Volta "principal", que estará preparado para tal. Se não for este ano, é naturalmente uma prova que o ciclista quer um dia competir.

Podem ter sido apenas cinco meses na Caja Rural, mas a UD Oliveirense-InOutBuild irá contar com um corredor que realçou como a passagem por Espanha foi enriquecedora: "Ganhei muita experiência lá fora. É uma equipa com uma base profissional. Aprendi principalmente a nível táctico, mas também físico. Estava numa equipa que assumia todas as corridas, tínhamos de assumir as perseguições, nas montanhas... Tínhamos responsabilidade. Nos juniores corria-se muito individualmente, na Caja Rural já se trabalhava para um líder."

"[Innsbruck] foi um dia em cheio! Foi um sonho de corrida! Houve alguns erros tácticos, mas fiquei contente com o 16º lugar"

Adaptar-se à nova equipa não deverá ser um problema, até porque além de amigos, conta com companheiros de treino, casos de Pedro Lopes e Hélder Gonçalves, o ciclista que foi o benjamin da Volta ao Algarve. Mota tem estado a preparar esta fase da temporada e coloca os Nacionais de Melgaço como objectivo, pois para quem ganhou os títulos como júnior, é normal que o deseja seja repetir o feito como sub-23. "Será bastante difícil. Haverá bons adversários, como o João Almeida e o André Carvalho [ambos da Hagens Berman Axeon], que me inspiram muito como sub-23. Mas sim, é um objectivo."

Quer agradar aos directores, aos patrocinadores e continuar a sua evolução como ciclista, depois de se ter destacado como júnior. Há que não esquecer que nos difíceis Mundiais de Innsbruck, no ano passado, foi 16º classificado na prova em linha. "Foi um dia em cheio! Depois de um Europeu bom no contra-relógio precisava de realçar as minhas capacidades. Foi um sonho de corrida! Tenho pena de não ter ficado no top dez. Houve alguns erros tácticos, mas fiquei contente com o 16º lugar", recordou.

Neste seu novo desafio, não coloca pressão em si mesmo, considerando que ainda tem muito a aprender. Agora quer prosseguir os seus estudos, enquanto cumpre com os deveres na InOutBuild, sem esquecer a selecção nacional. Contudo, não esconde que pode mudar de rumo se surgir um convite para dar o salto para o profissionalismo.


Chaves volta a sorrir um ano depois

(Fotografia: Giro d'Italia)
O sorriso de Johan Esteban Chaves tornou-se em algo que o definia como pessoa e como ciclista. Sempre foi famoso por aquele sorriso. Porém, o último ano não houve muitas razões para o mostrar e muitas foram as dúvidas que Chaves voltaria a ser o ciclista que outrora ficou perto de ganhar grandes voltas. Foi há um, precisamente na Volta a Itália, que começou um martírio que, também no Giro, espera-se que tenha chegado ao fim. A vitória na 19ª etapa não salva a corrida da Mitchelton-Scott, mas pode muito bem contribuir para salvar um ciclista que acredita novamente que é capaz de estar no topo.

Quando foi segundo, há dois dias, Chaves e a família festejaram como se uma vitória se trata-se. Era o anúncio de um regresso que merecia um pouco mais. Quando esta sexta-feira o colombiano estava já isolado, a pouco mais de um quilómetro da meta em San Martino di Castrozza, as imagens mostravam uma mãe emocionada e nervosa. Amaro Antunes até foi quem ainda tentou tirar o triunfo a Chaves, mas o português da CCC não conseguiu reduzir a diferença para evitar que o colombiano tivesse tempo até para saborear o momento.

Há um ano tinha vencido no Etna e então era um dos planos para a vitória na geral, a par de Simon Yates. Muito antes do britânico quebrar e perder o Giro, Chaves afundou-se na geral e no pelotão. Terminou o Giro, mas foi penoso ver como não conseguia estar entre os melhores. Muito longe disso. Nem ajudar Yates era capaz.

O colombiano demorou dez semanas a regressar aos treinos, numa altura em que foi divulgado que tinha sido diagnosticada uma mononucleose. Não competiu mais em 2018, regressando esta época na Austrália, com presenças depois no Paris-Nice e Volta à Catalunha. Foi sempre algo discreto e mesmo neste Giro pouco se tinha visto de Chaves até esta última semana.

O director desportivo Matt White explicou, após a vitória, que o ciclista foi ao Giro sem pressão, com o objectivo de testar a sua condição. Passou no teste físico e no teste anímico. A vitória pode não salvar uma Volta a Itália que a Mitchelton-Scott queria ganhar com Yates, mas poderá ser importante para o futuro próximo, caso se confirme que Chaves está mesmo de regresso para lutar por triunfos. 

"Isto é pura felicidade. Tira um peso das minhas costas. É um alívio ser de novo um vencedor", salientou um Chaves de sorriso rasgado, aquele sorriso que há tanto tempo que não se via. Tem sido um lutador, pois há que não esquecer que no início da carreira sofreu uma queda muito grave que quase o obrigou a dizer adeus ao ciclismo. Agora venceu mais uma batalha. Espera-se que se possa mesmo dizer: Bem-vindo de volta Chaves!

Amaro Antunes foi terceiro

Que grande etapa do algarvio! Era por esta oportunidade que esperava e foi por isso que andou a perder tanto tempo desde que ficou claro que não seria possível lutar pelo top dez que chegou a ocupar. Amaro nunca desistiu numa última subida muito atacada pelo grupo da frente. Atacou, descolou, recuperou, descolou outra vez -  Chaves não facilitava quando o português chegava ao trio da frente -, mas quando parecia que o colombiano estava com uma vitória garantida, foi um equipamento laranja que se viu aparecer a toda a velocidade para ainda tentar uma surpresa.

No entanto, não apanhou Chaves e, sobre a meta, foi batido por um espectacular Andrea Vendrame. Um problema na corrente poderá muito bem ter arruinado a possibilidade da Androni Giocattoli-Sidermec de ganhar a segunda etapa no Giro. Vendrame fez uma recuperação que não se esperava, comprovando o que tinha demonstrado durante a subida de segunda categoria, num dia com 151 quilómetros para cumprir. Ficou a dez segundos de Chaves, Amaro ficou a 12. O português ocupa a 48º posição na geral, a 1:37.50 horas.

Entre os homens da geral, Miguel Ángel López (Astana) atacou e recuperou 44 segundos. Pouco para a desvantagem que tem (ver classificação mais abaixo), mas demonstra que o colombiano quer mais do que o sexto lugar e a camisola da juventude, que dificilmente perderá, pois tem 2:54 de vantagem sobre Pavel Sivakov.

O destaque foi mesmo para Primoz Roglic (Jumbo-Visma). Na 19ª etapa finalmente atacou! Não teve consequência, é certo, mas foi a mostra para não o darem como derrotado. A ver vamos como se vai dar na etapa de sábado, a última de alta montanha antes do contra-relógio que o esloveno tanto aposta.

20ª etapa: Feltre - Croce D'Aune-Monte Avena, 194 quilómetros


Duas primeiras categorias, a última coincide com a meta, a primeira será a Cima Coppi a 2047 metros de altitude. A distinção ficou para Manghen após a exclusão da Gavia, na terça-feira, devido ao perigo de avalanches. Haverá ainda três segundas categorias, num dia em que praticamente só o início tem um pouco de terreno plano.

Será uma etapa nas Dolomitas em todo o seu esplendor e normalmente há sempre espectáculo. Tendo em conta que há tempo a recuperar, principalmente por Vincenzo Nibali (Bahrain-Merida) e por mais alguém que ainda queira surpreender e chegar pelo menos ao pódio, então só se poderá esperar por ataques. Dia difícil em perspectiva para Richard Carapaz e para a Movistar na defesa da camisola rosa.

Aqui fica o top dez e as diferenças.

1º Richard Carapaz (Movistar), 83:52.22 horas
2º Vincenzo Nibali (Bahrain-Merida), a 1:54 minutos
3º Primoz Roglic (Jumbo-Visma), a 2:16
4º Mikel Landa (Movistar), a 3:03
5º Bauke Mollema (Trek-Segafredo), a 5:07
6º Miguel Ángel López (Astana), a 5:33
7º Rafal Majka (Bora-Hansgrohe), a 6:48
8º Simon Yates (Mitchelton-Scott), a 7:07
9º Pavel Sivakov (Ineos), a 8:27
10º Davide Formolo (Bora-Hansgrohe), a 10:06


Classificações completas, via ProCyclingStats.


Rádio Popular-Boavista reitera confiança em Luís Mendonça após suspensão

Luís Mendonça está suspenso provisoriamente devido a um controlo adverso, numa amostra recolhida após a Clássica Aldeias do Xisto, na qual o ciclista foi segundo classificado. A Rádio Popular-Boavista confirmou o caso, reiterando a confiança no corredor, tendo justificado a análise positiva. O ciclista também já reagiu.

"Luís Mendonça foi alvo de um controlo adverso, devido ao uso de um medicamento utilizado para o tratamento de uma lesão, de que foi vitima em Abril. No referido controlo, final da clássica Aldeias do Xisto, realizada em Maio, declarou a utilização do referido medicamento, conforme aliás é exigido, tendo já apresentado às entidades oficiais relatório médico, conforme também é exigido em casos similares", lê-se no comunicado publicado no Facebook da equipa.

A notícia foi ontem avançada pelo jornal A Bola. A substância em causa será a betametasona, a mesma detectada a Rui Vinhas, num controlo feito na Volta a Portugal no ano passado. A betametosona tem uma acção anti-inflamatória, anti-alérgica e anti-reumática. É permitida desde que a sua utilização seja justificada. César Fonte, companheiro de Vinhas na W52-FC Porto, esteve vários meses fora de competição, tendo regressado no último domingo, no Memorial Bruno Neves, depois de concluído o processo que envolveu esta substância.

"O Boavista Ciclismo Clube vem por este meio confirmar a confiança no valor desportivo do ciclista, aguardando com a mesma confiança, pelo resultado do referido inquérito", afirmou a equipa sobre Luís Mendonça. O ciclista, de 33 anos, também reagiu na sua conta de Facebook: "Tenho a referir que após um traumatismo desenvolvi uma bursite pré-patelar no joelho esquerdo... fui tratado com os devidos procedimentos médicos... na corrida das Aldeias do Xisto fui sujeito a controlo antidopagem, onde no mesmo, referi de forma clara a substância utilizada, a data do tratamento e para os fins que foi usada... Relatórios médicos já foram apresentados, onde demonstram de forma inequívoca a lesão sofrida, os procedimentos médicos utilizados e os fins terapêuticos da referida substância... fiz tudo de forma clara e legal... ESTA SUBSTÂNCIA FOI UTILIZADA ÚNICA E EXCLUSIVAMENTE PARA FINS TERAPÊUTICOS...", explicou.

O corredor admitiu que o que mais o assusta é poder falhar a Volta a Portugal - começa a 31 de Julho -, caso o processo da Federação Portuguesa de Ciclismo não seja célere. "Admito que já chorei tudo que tinha a chorar, onde passei uma semana que não desejo ao pior inimigo... mas agora é altura de erguer a cabeça e acreditar que a resolução será breve, porque não tenho dúvidas que justiça se fará", salientou.

Luís Mendonça foi reforço da Rádio Popular-Boavista em 2019, depois de duas temporadas na Aviludo-Louletano e tem sido o único a conquistar vitórias até ao momento. O segundo lugar na Clássica Aldeias do Xisto permitiu-lhe garantir a conquista da Taça de Portugal, tendo pouco depois ganhou uma etapa e a geral do Troféu O Jogo.

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30 de maio de 2019

Ao ataque

(Fotografia: Giro d'Italia)
Chegou o momento do tudo ou nada. Três etapas para decidir um Giro pródigo em reviravoltas e que tem como líder um ciclista que afirmou que estava em Itália para discutir a corrida, mas só depois de vestir a rosa é que impôs respeito a todos. Não que não se soubesse que Richard Carapaz poderia andar com os melhores, mas porque a Movistar tinha Mikel Landa como líder e porque as atenções estavam e muito centradas em Primoz Roglic e também Vincenzo Nibali. Nos próximos três dias é certo que o foco vai estar em Carapaz e na sua defesa da maglia rosa. 

Há um ano, o equatoriano foi uma revelação no Giro. Venceu uma etapa e andou vários dias de camisola branca, perdendo a classificação da juventude para Miguel Ángel López. Doze meses volvidos e Carapaz confirmou que é ciclista para discutir grandes voltas e soube colocar-se na posição de líder e a Movistar não o pôde tentar colocar mais na sombra de Landa. Para já, tem esse estatuto nesta Volta a Itália, mas se a vencer, será para continuar. Nairo Quintana não ganha uma grande volta desde 2016, Alejandro Valverde ainda aspirou vencer novamente a Vuelta, mas apenas comprovou que já não é a sua praia, enquanto Landa é um eterno candidato que não ganha. Tudo pode mudar para Carapaz...

Mas nada está ganho. Sim, Carapaz construiu uma vantagem interessante tanto para controlar Nibali na montanha, como para estar um pouco mais confortável no contra-relógio contra Roglic. Um pouco mais confortável, contudo, não lhe fará mal nenhum se conseguir juntar mais alguns segundos aos 2:16 minutos.

Para Nibali são 1:54 e é do italiano que são esperados os mais ferozes ataques. A etapa de sexta-feira termina em alto, numa segunda categoria e não seria de admirar que possa servir de aquecimento para sábado, pois para o líder da Bahrain-Merida, ganhar tempo a subir contra Carapaz poderá ser difícil se o equatoriano não fraquejar e ainda mais de Landa se mantiver a fazer jogo de equipa. Isto sem esquecer que a Movistar tem tido gregários a grande nível. Damiano Caruso também tem sido um gregário brilhante para Nibali, mas talvez seja no sábado que, com as descidas que previstas, poderá tentar ganhar tempo ao rival. O italiano sabe que tem de baixar a diferença para, de preferência, menos de um minuto se quer ter hipóteses no contra-relógio.

Quanto a Roglic, a 19ª etapa até poderá ser mais benéfica para o esloveno tentar fazer algo. Esperar pelo contra-relógio é um enorme risco dada a diferença para Carapaz, ainda mais quando demonstrou que fica em dificuldades quando o ritmo aumenta nas subidas mais complicadas. Sem equipa ao seu lado nas fases decisivas, não está fácil para Roglic confirmar o favoritismo que tinha vindo a cimentar toda a temporada e até à chegada da alta montanha no Giro. No entanto, numa Volta a Itália de reviravoltas, Carapaz e a Movistar estarão atentas ao que o esloveno ainda poderá tentar fazer. Contudo será em Nibali que se centrará mais o foco da formação espanhola.

Resumindo, Carapaz pode controlar e eventualmente tentar ganhar uns segundos na fase final das etapas, como aconteceu na quarta-feira. Nibali tem de atacar, não tem outra opção. Roglic tem, mas esperar pelo contra-relógio ameaça ser um erro. São apenas 17 quilómetros no domingo e depois de um Giro de maratonas de 200 quilómetros e uma alta montanha muito exigente a partir do meio da corrida, as forças estarão curtas para todos e mesmo um especialista do contra-relógio pode falhar. Já aconteceu isso mesmo a Roglic no Tour, no ano passado.


E não vamos afastar Landa. Está à espreita. Chegar ao pódio é algo assumido, mas o espanhol não vai desaproveitar ir mais além se a oportunidade lhe aparecer.

A táctica de atacar não vai ser exclusiva de Nibali, Roglic ou mesmo de Landa. Há muito por decidir no top dez, com basicamente todos à procura de uma vitória de etapa e de tentar melhorar a classificação. Só Carapaz e Roglic já têm. Na classificação da juventude, a missão está complicada para Sivakov, que tem 2:04 minutos para recuperar para o colombiano Miguel Ángel López.

Aqui fica o top dez:

1º Richard Carapaz (Movistar), 79:44.22 horas
2º Vincenzo Nibali (Bahrain-Merida), a 1:54 minutos
3º Primoz Roglic (Jumbo-Visma), a 2:16
4º Mikel Landa (Movistar), a 3:03
5º Bauke Mollema (Trek-Segafredo), a 5:07
6º Miguel Ángel López (Astana), a 6:17
7º Rafal Majka (Bora-Hansgrohe), a 6:48
8º Simon Yates (Mitchelton-Scott), a 7:13
9º Pavel Sivakov (Ineos), a 8:21
10º Davide Formolo (Bora-Hansgrohe), a 8:59

Os murros de Ackermann transformaram-se em sorrisos


(Fotografia: Giro d'Italia)
O guiador de Pascal Ackermann sofreu com toda a ira do alemão ao falhar por muito pouco a terceira vitória no Giro. Porém, não demorou muito em regressar o sorriso que já é uma imagem de marca do sprinter da Bora-Hansgrohe. Um dos objectivos do dia foi cumprido: é novamente o detentor da camisola ciclamino, liderando a classificação dos pontos com mais 13 pontos do que Arnaud Démare.

Este Giro poderá ser um reflexo da carreira do francês da Groupama-FDJ. Tanto consegue excelentes resultados - venceu uma etapa -, como de repente tem um autêntico apagão. Com a vitória numa classificação em jogo, ser oitavo foi fraco para um sprinter que se diz dos melhores da actualidade. A ciclamino não está entregue a Ackermann, mas a missão será difícil para Démare. Terá de somar pontos nos sprints intermédios, já que com a montanha, não vai fazer na meta.

O italiano Damiano Cima foi o único dos três que estavam em fuga que resistiu à furiosa aproximação do pelotão nos metros finais. Foi por muito pouco. Mais uns metros e Ackermann ganharia. Mas Cima conseguiu garantir que será recordado como o primeiro a dar uma vitória numa grande volta à Nippo Vini Fantini Faizanè. Está a ser a sua estreia no Giro, aos 25 anos, e depois de tanto entrar em fugas, deu tudo para aguentar naqueles metros finais que terão parecido intermináveis para concretizar um sonho.

Foi a segunda vez nesta edição da Volta a Itália que uma equipa Profissional Continental conquista uma vitória de etapa, depois da Androni Giocattoli-Sidermec o ter feito com Fausto Masnada, na sexta.

Classificações completas, via ProCyclingStats.

19ª etapa: Treviso - San Martino di Castrozza, 151 quilómetros



É uma etapa curta, portanto propensa a ataques, mas não será surpresa que uma maior acção possa ficar guardada para a segunda categoria final. Depois da descida após a passagem na quarta categoria em Lamon, será basicamente sempre a subir até à meta. Ou seja, os últimos 30 quilómetros não serão nada direitos. A pendente é constante nos 5%... tirando as zonas que passam os 10%.




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29 de maio de 2019

Afinal o que aconteceu à bicicleta de Primoz Roglic? A Movistar está envolvida...

(Fotografia: © Jumbo-Visma)
Enquanto por um lado surgiram insinuações que a Movistar teria entrado em modo de ataque quando Primoz Roglic sofreu um problema mecânico, por outro surge a história de grande fair play. Talvez até mais do que Francisco Ventoso (CCC) oferecer a sua água a Vincenzo Nibali (Bahrain-Merida) no Mortirolo. Quanto às insinuações de Pavel Sivakov (Ineos), fica a opinião de cada um de considerar se houve ou não ataque da equipa espanhola, se houve ou não falta de fair play, mas quanto ao que aconteceu com Antwan Tolhoek e a bicicleta de Roglic, houve de facto muito fair play da equipa espanhola.

A etapa de domingo da Volta a Itália continua assim a ser notícia, mas pelo menos fica resolvido um "mistério" da bicicleta de Roglic, cortesia do El País. Finalmente "encontrou-se" a bicicleta que o esloveno abandonou quando trocou para a de Tolhoek. Recordando rapidamente o que aconteceu. Antes da subida ao Civiglio, Roglic sofreu uma avaria mecânica (Sivakov disse que o ciclista da Jumbo-Visma tinha o desviador partido). Roglic pediu ajuda ao seu carro de apoio para trocar a bicicleta. No entanto, o director desportivo tinha parado para urinar. Com os rivais a escaparem, Roglic recorreu ao plano B e ficou com bicicleta do companheiro, Antwan Tolhoek.

O líder da Jumbo-Visma acabaria mais tarde por sofrer uma queda e, tudo junto, resultou numa perda de 40 segundos. Entretanto as coisas já ficaram bem piores na classificação geral para Roglic, mas por agora fiquemos pelo que aconteceu no domingo.

Tolhoek ficou à espera de receber uma bicicleta para prosseguir a etapa. Contudo, Jan Boven, o director desportivo, ao perceber que tinha escolhido a pior das alturas para se parar e sair do carro, conduziu o mais rápido possível para regressar para junto de Roglic, ainda que já tivesse decidido que o melhor era não trocar novamente de bicicleta, para não perder mais tempo.

Ou seja, passou por Tolhoek e nem o terá visto. Pobre Tolhoek que continuava sem solução sem ser uma bicicleta avariada. Eis que surge o segundo carro da Movistar, conduzido pelo director desportivo britânico Max Sciandri. Ao ver o holandês, parou e ofereceu-lhe uma bicicleta da equipa espanhola. Tolhoek aceitou de bom grado, mesmo que isso significasse "trocar" uma Bianchi por uma Canyon, mas não era altura para pensar em questões de patrocínios, pois havia uma etapa para terminar e tempo limite para respeitar.

O gesto de Sciandri não ficou por aqui. A Jumbo-Visma utiliza pedais Shimano, a Movistar Look, isto é, os encaixes não são compatíveis. O director desportivo tirou os pedais da bicicleta de Roglic e colocou-os na da Movistar. Tolhoek lá seguiu caminho.

Agora sim. O que aconteceu à bicicleta de Roglic? Sciandri colocou-a no seu carro e levou-a até à meta em Como. Depois foi devolvê-la à Jumbo-Visma. Portanto, não houve nenhuma tentativa de a esconder da "revista" por motores, feita pela UCI numa diligência contra o chamado doping mecânico (terá sido uma das suspeitas levantada nas redes sociais perante a falta de informação sobre o que tinha acontecido à bicicleta).

Além de finalmente esclarecer a dúvida - não o fez antes porque, como disse ao jornal, ninguém lhe perguntou -, Sciandri ainda comentou a escolha de Boven em parar num local que até pode parecer seguro, pois é antes de começar a acção final da clássica da Lombardia, que foi basicamente o final da etapa de domingo. Mas afinal não foi nada seguro. "Quando chego a esse ponto tenho sempre vontade de urinar, porque é um momento de relaxamento depois do stress sofrido no sobe e desce de Ghisallo e Sormano. Mas claro que nunca parei. Há que estar sempre colado ao líder e não o deixar nem por um segundo", salientou Sciandri ao El País.

Tom Dumoulin sobreviveu a uma dor de barriga quando ganhou o Giro 2017, mas Roglic poderá não resistir à vontade de urinar do seu director desportivo. Mas também não pode culpar só esse momento pela perda de tempo que tem vindo desde então a acumular.

Carapaz ganha uns segundos e Landa ameaça Roglic

(Fotografia: Giro d'Italia)
O Mortirolo deixou marcas nas pernas de todos, mas quando se está em alta parece haver uma força extra sempre a "empurrar". Que o diga Richard Carapaz. O camisola rosa atacou pouco antes do quilómetro final e ganhou sete segundos a Vincenzo Nibali (Bahrain-Merida) e Primoz Roglic (Jumbo-Visma). Pode parecer pouco, mas segundo a segundo, Carapaz vai construindo uma liderança que pode defender no que ainda falta de montanha e, principalmente, no contra-relógio. São 1:54 para Nibali e 2:09 para Roglic.

E a Movistar está imparável. Com a etapa controlada, Mikel Landa pôde fazer o seu ataque, também perto do fim, e ficou a 47 segundos de Roglic. O pódio está à vista, pois se Roglic continuar a demonstrar debilidades na montanha - e a etapa de sábado vai ser bem complicada - e se Landa tiver mais liberdade, pode ganhar tempo para tentar defender-se no contra-relógio, ficando num pódio que chegou a ser bastante improvável acontecer. Não será fácil, mas este Landa nada tem a ver com o ciclista da primeira semana do Giro.

A Movistar que ameaçou ter mais uma grande volta para esquecer, está numa boa posição para quebrar um enguiço de quase três anos em grande voltas, quando Nairo Quintana venceu a Vuelta em Setembro de 2016.

Do ataque de asma de um líder, à vitória de um jovem talento

(Fotografia: Giro d'Italia)
Não é a primeira vez que se fala de Nans Peters, francês que já foi líder da juventude neste Giro. Há muito que a camisola branca mudou de dono, mas o ciclista de 25 anos deu mais uma ajuda para salvar uma corrida que estava a ser para esquecer da AG2R.

Não demorou muito a perceber que Tony Gallopin e Alexis Vuillermoz não iam ser homens a lutar sequer por um top dez. O primeiro queria mostrar que tinha mesmo feito a transformação para voltista, depois de ter revelado sinais na Vuelta. Não convenceu e até abandonou na etapa do Mortirolo. Na mítica subida, Vuillermoz passou por um grande susto. Sofreu um ataque de asma muito forte e chegou a cair. Recebeu ajuda médica e optou por regressar à sua bicicleta para terminar a etapa.

24 horas depois, Vuillermoz está a festejar a vitória de etapa de Nans Peters. Foi um dos corredores de uma fuga com muita gente, incluindo o português Amaro Antunes (CCC), tendo mais tarde arriscado um ataque solitário que acabou por resultar. Primeira vitória como profissional de Nans Peters e logo numa grande volta. A AG2R agradece, pois é apenas o sexto triunfo do ano, o primeiro numa corrida World Tour. A formação francesa tem sido muito de "consumo interno", o que é pouco para o seu potencial e orçamento. Já se sabe que aposta mais forte no Tour, mas nunca é mau ter outros resultados a apresentar antes de colocar toda a responsabilidade de uma época nos ombros de Romain Bardet.

Classificação da etapa Commezzadura - Anterselva/Antholz, 181 quilómetros, via ProCyclingStats.

18ª etapa: Valdaora/Olang - Santa Maria di Sala, 222 quilómetros



Arnaud Démare, Pascal Ackermann, estão por aí? Os dois sprinters resistiram à infernal fase de montanha da Volta a Itália (que ainda não terminou) e continuam em prova. As restantes principais figuras do sprint já foram para casa. O ciclista da Groupama-FDJ e o da Bora-Hansgrohe lutam pela camisola ciclamino, ou seja, pela classificação dos pontos. São 13 a separá-los com vantagem para o francês, pelo que a disputa será acesa naquela que é a derradeira oportunidade para os sprinters ganharem uma etapa.

Será um dia curioso. Até começa a subir, mais ou menos a meio tem uma quarta categoria, mas a maioria dos quilómetros são a descer.




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28 de maio de 2019

É dia de elogiar a Movistar

(Fotografia: Giro d'Italia)
Tantas vezes a Movistar parece ser um saco de boxe, com críticas a virem de todos os lados, muito devido a dois ou até três ciclistas a quererem ser chefe de fila, mas também devido a tácticas que em pouco ou nada resultam na luta por uma grande volta dada a confusão de lideranças. Esta terça-feira foi um dia bem diferente para Movistar. Jogou bem tacticamente, foi unida em torno de Richard Carapaz e tirou partido disso mesmo. O equatoriano passou de outsider, a candidato ao top dez, talvez pódio, e agora é visto como um forte candidato a conquistar a Volta a Itália. Ele bem avisou no início da corrida que estava no Giro para apontar ao topo.

No momento em que a equipa funcionou como tal, no momento em que Mikel Landa foi o braço direito numa etapa que Carapaz bem precisava de ter um, sem esquecer um fantástico Antonio Pedrero, a Movistar colocou-se numa posição como há muito não se encontrava: a vitória numa grande volta está à distância de cinco etapas. Não há celebrações antecipadas - o Giro ao longo da sua história e até nesta edição, mostrou que tudo pode mudar num ápice -, mas há uns sorrisos mais rasgados quando Carapaz e companheiros olham para a classificação geral e vêem Primoz Roglic a 2:09 minutos. Distância bem mais confortável do que 47 segundos, tendo em conta que há um contra-relógio no domingo a fechar a Volta a Itália.

Além de Pedrero, Héctor Carretero tem sido um gregário precioso, com Andrey Amador também a ter o seu papel, ainda mais nesta etapa que sem Gavia, teve o Mortirolo como ponto alto e foi o suficiente para deixar Roglic muito menos favorito, depois de no domingo ter começado tudo a correr mal.

Mas claro que o destaque vai para Landa. Na altura em que a Movistar mais precisava, o espanhol sobre respeitar Carapaz e até ajudá-lo. Para quem queria estar na luta pelo Giro e até encetou uma recuperação na segunda semana, depois de uma primeira para esquecer, não deve estar a ser fácil para Landa ficar em segundo plano. 

Também está a beneficiar desta união e bom trabalho da Movistar, sendo já quarto, a 3:15 do companheiro e certamente a pensar que o pódio ainda é possível, pois ainda há montanha para ultrapassar e a etapa de sábado promete. No entanto, é difícil afastar alguma desconfiança quando a Landa, pois não seria inédito vê-lo atacar uma liderança que até está na sua equipa. Para já, o espanhol está a ser o ciclista que a equipa e Carapaz desejam.

Novos discursos

Com 2:09 a dar uma maior tranquilidade a Carapaz e uma confiança que até poderá acrescentar mais uns segundos numa altura em que Roglic já não consegue esconder as suas debilidades, o equatoriano não tem dúvidas em apontar Vincenzo Nibali como o rival que agora o mais preocupa. E é recíproco. O ciclista da Bahrain-Merida conseguiu um dos objectivos do dia: ganhar tempo e até ultrapassar Roglic na classificação. Mas faltou conseguir reduzir a diferença para a maglia rosa.

A subida ao mítico Mortirolo esclareceu qualquer desconfiança que pudesse haver quanto à forma de Nibali. O italiano está mesmo a melhorar com o decorrer da corrida. Contudo, o mau tempo que tanto ajuda a tornar épicas este tipo de etapas em subidas históricas, acabou por ser um inimigo de Nibali. A descida do Mortirolo tinha tudo para ser o local de mais um ataque do italiano - foi ele que abriu as hostilidades na subida -, mas a chuva tornou aqueles cerca de dez quilómetros demasiado perigosos.

Qualquer pretensão de ganhar tempo a Carapaz num terreno em que Nibali é dos melhores do mundo, foi anulada, pois foi necessário jogar pelo seguro para não colocar em causa o resto do Giro. Nibali é bem claro ao dizer que, ao deixar Roglic atrás de si, tem de descobrir a forma de derrotar Carapaz. Damiano Caruso e Domenico Pozzovivo terão um papel importante na luta contra uma forte Movistar.

Há uma nova dupla a ter em conta, mas Roglic não se dá como derrotado. "O Giro ainda não acabou", salientou. O que acabou definitivamente foi a postura de esperar para ver, de controlar os rivais. O esloveno não pode perder mais tempo e é recomendável que recupere alguns segundos. É um excelente contra-relogista, mas depois de 20 etapas, o cansaço terá uma palavra no esforço individual de domingo. No Tour do ano passado pagou caro o esforço que fez para ganhar a etapa anterior. 

Sem equipa a ajudá-lo - que grande desilusão está a ser a Jumbo-Visma colectivamente -, e com as dificuldades físicas a ficarem claras, começar muito forte o Giro está a demonstrar mais uma vez que não traz vantagens. Simon Yates (Mitchelton-Scott) pode explicar isso a Roglic e até foi o britânico que um dos aliados de circunstância desta 16ª etapa (Lovere - Ponte di Legno, 194 quilómetros), que evitou um maior descalabro de Roglic.

Bauke Mollema (Trek-Segafredo) é quinto a cinco minutos e todos os que estão a seguir ao holandês já não são vistos como grandes ameaças, salvo nova reviravolta. O Giro tem mesmo um trio na luta pela vitória e um joker chamado Landa.

Um brilhante Ciccone


(Fotografia: Giro d'Italia)
É a confirmação da Volta a Itália. Dificilmente perderá a camisola da montanha, inscreveu o seu nome como o primeiro a passar o Mortirolo e, ainda mais importante, venceu a etapa. A Trek-Segafredo contratou este italiano à Bardiani-CSF na esperança de o ver tornar-se num líder. Aos 24 anos comprovou que a aposta é mais do que acertada. Luta pelos seus interesses, mas quando a ordem é trabalhar para Mollema, vestiu a pele de gregário de luxo em etapas anteriores. A expectativa vai agora crescer para perceber até onde pode ir este excelente ciclista.

Nada brilhante esteve Miguel Ángel López. Cede terreno, recupera, ataca e depois, quando tudo parecia controlado para pelo menos não perder mais tempo, eis que nos últimos metros López fraquejou e perdeu mais uns segundos para Nibali e Carapaz. Até subiu de 10º a 7º, mas a 6:17... Fica a consolação de ser o agora líder da juventude, com 1:34 sobre Pavel Sivakov (Ineos). Talvez esteja na altura de procurar a vitória numa etapa.

Classificações completas, via ProCyclingStats.

17ª etapa: Commezzadura - Anterselva/Antholz, 181 quilómetros



Tréguas nas primeiras categorias, que só regressam no sábado. Porém, será um dia sem descanso. A última subida tem uma pendente média de 8,5% e a ver vamos se a tirada de sábado já estará na mente dos favoritos, ou se ainda haverá força e coragem para tentar fazer ainda mais diferenças. Carapaz está numa posição confortável para controlar a concorrência, já Nibali e mesmo Roglic têm trabalho a fazer.




»»Movistar acusada de ter atacado quando Roglic trocou de bicicleta««

»»Sucessão de azares tira calma a Roglic. Última semana do Giro irá começar com uma desilusão««

27 de maio de 2019

Movistar acusada de ter atacado quando Roglic trocou de bicicleta

(Fotografia: Giro d'Italia)
Há regras que não estão escritas, mas o respeito entre todos os atletas e a luta por ganhar sem explorar azares de terceiro é algo que, por norma é respeitado. São vários os exemplos de ciclistas que estão na disputa por uma geral e ao sofrerem um furo, uma avaria ou mesmo uma queda, o pelotão não ataca e até por vezes facilita a reentrada, desde que isso não afecte os objectivos de quem quer ganhar uma etapa ao sprint, por exemplo. Porém, também há exemplos em que o fair play nem sempre é a primeira escolha, apesar de haver quase sempre uma justificação. Pavel Sivakov deu azo a nova discussão sobre o assunto, ao dizer que a Movistar acelerou quando Primoz Roglic teve um problema mecânico.

"Ouvi no meu rádio que ele tinha caído. Mas antes ele tinha tido um problema mecânico. Vi que ele tinha partido o desviador, por isso, quando a Movistar começou a correr em bloco depois disso, não achei que fosse muito justo, foi um pouco estranho", afirmou o russo da Ineos ao L'Equipe. Para que não existissem dúvidas sobre o que estava a dizer, o jornalista perguntou se a Movistar tinha acelerado. A resposta do líder da juventude foi: "Sim, absolutamente sim."

Foram nos 15 quilómetros finais que os problemas começaram, na subida e depois descida do Civiglio, dificuldade bem conhecida do monumento italiano Il Lombardia. Primoz Roglic teve um problema mecânico, mas quando quis trocar de bicicleta, não tinha o carro de apoio perto. O director desportivo terá parado para responder ao chamamento da natureza, o que obrigou o esloveno a ficar com a bicicleta do companheiro Antwan Tolhoek. Mais tarde, o ciclista da Jumbo-Visma caiu, ficando pendurado no rail. Ao todo, 40 segundos perdidos para a concorrência directa, com destaque para Richard Carapaz (Movistar), o camisola rosa, e Vincenzo Nibali (Bahrain-Merida), até domingo o rival que mais preocupava Roglic, mas que agora partilha esse "estatuto" com o equatoriano da Movistar.

A corrida estava lançada já há uns bons quilómetros, com o grupo da frente a acelerar muito, principalmente por intermédio da Movistar e da Bahrain-Merida. O objectivo era claramente preparar ataques no Civiglio. Portanto, tal como se pode questionar alguma eventual falta de fair play da Movistar, também se poderá questionar se se deve parar uma iniciativa que estava em marcha para esperar por Roglic.

As palavras de Sivakov vão levantar suspeitas sobre o comportamento da Movistar e a única forma de se perceber o que aconteceu seria conhecer o que foi dito aos ciclistas da equipa espanhola e se o aceleramento deu-se ao saber-se do problema de Roglic, ou se já estava planeado. No domingo já se perceberá o que significam estes 40 segundos.

Recordando dois exemplos bem conhecidos. É inevitável falar da Volta a França de 2010. Andy Schleck teve um problema na corrente e Alberto Contador ultrapassou-o e acabaria por vestir a camisola amarela. O espanhol disse que não se apercebeu do que estava a acontecer com o rival e que já tinha iniciado o ataque. Nesse dia subiu à liderança que não mais largou. Schleck é que não gostou nada e chegou a perguntar a Contador como tinha sido capaz de atacar quando ele estava com problemas.

O resto é história. Contador acabaria por perder o Tour devido a um caso de doping, com Schleck a ser determinado como o vencedor depois de ter ficado na segunda posição atrás do espanhol.

No outro exemplo, tanto se acusou de falta de fair play, como se teve de ter muito em conta a confusão que uma mensagem da organização criou. Afinal estava ou não a corrida neutralizada? No Giro de 2014, no Stelvio, o mau tempo levantou preocupações principalmente quanto à descida. A organização transmitiu uma mensagem aos directores desportivos dando conta que planeava (e foi a palavra utilizada) colocar à frente dos ciclistas motos com bandeiras vermelhas e assim evitar ataques na descida, garantindo a posição dos ciclistas naquela fase da corrida e a segurança de todos.

A maioria interpretou a mensagem como se a descida estivesse neutralizada. Entre eles, Rigoberto Uran, o então líder. Alguns ciclistas até pararam para vestir roupa mais quente para a descida. Mas não Nairo Quintana, nem o então companheiro de equipa na Movistar, Gorka Izaguirre, Ryder Hesjedal (Garmin-Sharp), Matteo Rabottini (Neri Sottoli), Pierre Rolland e Romain Sicard, ambos da Europcar. O grupo lançou-se na descida, enquanto Uran manteve-se atrás da moto, pensando que a corrida estava mesmo neutralizada.

Quando se percebeu que afinal talvez não fosse assim, já era tarde. Quintana ganhou a 16ª etapa e não mais largou a rosa. A organização defendeu-se dizendo que nunca usou a palavra neutralizada. E na mensagem aos directores desportivos não o fez. Já no Twitter apareceu uma mensagem com essa palavra, que depois foi apagada. De nada valeram os protestos e ainda hoje essa vitória de Quintana é recordada por esse momento.

16ª etapa: Lovere - Ponte di Legno, 194 quilómetros



Um dos dias mais esperados da Volta a Itália ficou sem a passagem pela Gavia devido ao risco de avalanches e o perigo de gelo na estrada durante a descida, mas mantém-se o Mortirolo para haver espectáculo. É considerada uma das subidas mais difíceis no ciclismo, pois as pendentes chegam a atingir os 18%, com uma média acima dos 10% durante os 12 quilómetros. A passagem que estava prevista pela Gavia teria dado uma "preparação" mais interessante para o ataque ao Mortirolo, não esquecendo que serão quase 30 quilómetros até à meta, com direito a uma descida complicada, depois de terminar a difícil subida. 

Nesta fase do Giro já ninguém está "fresco" e a etapa seguinte ao dia de descanso é sempre uma incógnita. A folga não faz bem a todos.

De recordar que Richard Carapaz lidera com 47 segundos sobre Primoz Roglic e 1:47 sobre Vincenzo Nibali. Pode ver neste link a classificação completa, via ProCyclingStats.

»»Sucessão de azares tira calma a Roglic. Última semana do Giro irá começar com uma desilusão««

»»Movistar e a pergunta do costume: afinal quem é o líder?««

26 de maio de 2019

Sucessão de azares tira calma a Roglic. Última semana do Giro irá começar com uma desilusão

(Fotografia: Giro d'Italia)
Num dia em que Primoz Roglic até recebeu uma notícia que certamente lhe agradou - não haverá passagem pela Gavia, o ponto mais alto do Giro102 -, o esloveno percebeu que acabaram-se os tempos de calma e de controlo dos adversários. Um problema mecânico e uma queda deixaram o líder da Jumbo-Visma a ter de mudar de atitude, pois enquanto uns adversários ganham tempo, mas ainda estão atrás de si, Richard Carapaz amealhou mais uns segundos preciosos e controlar o Giro até ao contra-relógio já não é solução. Na 15ª etapa, Roglic finalmente percebeu que sem equipa a missão vai ser mesmo muito complicada quando os ataques se sucederem.

Recuando a 2015, Alberto Contador venceu o Giro com uma ajuda muito reduzida da então Tinkov. Na alta montanha esteve mesmo praticamente sempre sozinho. Porém, por mais qualidade que Roglic tenha, não é nenhum Contador e os ataques que sofreu hoje foram apenas uma amostra do que lhe espera para a última semana. Até agora, "marcar" Vincenzo Nibali parecia ser uma táctica rentável. Mas o imprevisto aconteceu e a atitude calma do esloveno chegou ao fim. A queda a descer foi a prova disso mesmo. Instalou-se alguma ansiedade e o erro aconteceu. A precisar de recuperar terreno, ainda mais numa bicicleta que não era a dele, o esloveno fez mal uma uma curva e acabou pendurado no rail de protecção. Isto tudo devido ao mau timing do seu director desportivo que teve de responder ao chamamento da natureza na altura em que Roglic sofreu o problema mecânico na sua bicicleta, não podendo trocar pela sua suplente... 

Apesar de tudo, não foi muito grave fisicamente, mas animicamente terá custado perder 40 segundos para Carapaz, o mesmo tempo que Nibali tirou da sua desvantagem. 47 segundos ainda são recuperáveis no contra-relógio para Roglic e 1:47 minutos de vantagem sobre o italiano da Bahrain-Merida também podem dar um pequeno conforto. Mas este Giro ainda tem muita história para escrever. Roglic pode continuar a ser o mais favorito, mas, no final da segunda semana, já o é um pouco menos. Já Richard Carapaz subiu exponencialmente na lista de favoritismo. O equatoriano está forte e a Movistar já demonstrou que está unida em torno do camisola rosa, ainda que Mikel Landa se mantenha como um joker.

As tácticas

Tem sido uma Volta a Itália bem interessante desde que na quinta-feira se entrou na alta montanha. Nem por isso significa que não se esteja perante um forte jogo táctico, mas no Giro uma coisa não está a anular a outra. E ainda bem.

Antes de mais, a classificação.

(Imagem: Twitter Giro d'Italia)

Esta segunda-feira é dia de descanso e haverá tempo para preparar os dias decisivos. Para Roglic a saída da Gavia do percurso é uma boa notícia. Menos uma defesa a ter de fazer no terreno muito complicado, ainda que não possa fazer uma grande festa. O esloveno está sozinho, sem alianças e também com pouca equipa. Terá de escolher muito bem as suas batalhas e esperar que não tenha mais azares. Mesmo com Carapaz de rosa, é Roglic o principal alvo dos rivais. Por agora.

Roglic é um bom trepador, mas a maioria dos adversários são melhores. O esloveno anda a jogar à defesa, apostando no contra-relógio, mas se for atacado por todos, poderá chegar a altura em que também ele terá de ser um pouco mais audaz, principalmente se Carapaz ganhar mais vantagem. Será interessante ver o que Roglic é capaz se chegar a esse ponto.

➤ O equatoriano conseguiu uma aliança com Vincenzo Nibali neste domingo, mas será difícil manter esta "amizade". Já se percebeu que Carapaz é um candidato forte e também ele verá a sua camisola rosa ser atacada. Parte do sucesso do jovem ciclista poderá passar pelo papel de Mikel Landa. O espanhol poderá atacar em alguma etapa, tentando desgastar rivais, pois Landa não pode ter mais espaço, pois ameaça o objectivo de pódio de Rafal Majka ou Bauke Mollema, por exemplo. Carapaz também parece contar com uma Movistar com ciclistas em forma para controlar e acompanhá-lo grande parte das etapas. O único senão de Carapaz é se Landa for à procura do sucesso próprio. 

➤ Foi uma boa etapa de Nibali num percurso final que tão em conhece, já que foi idêntico ao do monumento da Lombardia. Mas é preciso mais e já se percebeu que afinal não quer nada abdicar de vencer o Giro só para não deixar Roglic ganhar, como insinuou. A experiência pode mesmo ser uma mais valia, ainda mais quanto o italiano está bem fisicamente e vai contando com a ajuda de Damiano Caruso e Domenico Pozzovivo. Ao contrário de Yates que gosta de atacar quando se sente bem, Nibali é mais calculista nos seus ataques e vai procurar o momento certo para tirar a rosa a Carapaz e tentar deixar Roglic a uma distância mais segura para o contra-relógio.

➤ A Simon Yates resta atacar, atacar, atacar. Está a melhorar e porque não pensar tentar um golpe ao estilo de Chris Froome em 2018, quando o homem da então Sky tirou a rosa a um Yates que se afundou na classificação. O líder da Mitchelton-Scott está mais confiante e para quem foi ao Giro para ganhar, o top dez sabe a pouco. Vai tentar o tudo por tudo. No mínimo procurará uma etapa se algo mais se tornar completamente impossível.

➤ Na mesma situação está Miguel Ángel López. O colombiano não quer desistir e talvez uma aliança com Yates fosse benéfica para ambos, na perspectiva de recuperar tempo. Se lutarem por uma etapa, a aliança será difícil. López também ficaria numa posição mais forte se a Astana se mostrasse mais unida. A equipa joga tacticamente, mas López tem acabado muito só. Ainda assim, Dario Cataldo garantiu a segunda vitória de etapa, depois de Pello Bilbao. Se López não for além do top dez, o Giro está salvo para a formação cazaque. López ainda poderá tentar a consolação de ser novamente o melhor na juventude. Contudo, já percebeu que Pavel Sivakov quer ser a sua sombra. São apenas sete os segundos que os separam, com vantagem para o russo da Ineos.

➤ Dos homens que vão começar a terceira semana no top dez, Jan Polanc (UAE Team Emirates) tem o objectivo de aguentar o quanto puder, com Ilnur Zakarin (Katusha-Alpecin) ainda à espreita. No entanto, Rafal Majka (Bora-Hansgrohe) e Bauke Mollema (Trek-Segafredo) querem pelo menos o pódio. O holandês já se mostrou no Giro e até pagou logo de seguida o preço por ter andando em fuga numa etapa. Mas continua a resistir. Majka mostra-se um pouco, mas depois volta a esconder-se. Chega de estudar os restantes e de responder a ataques. Está na altura do polaco começar a ser figura se quer mais do que o top dez. Ou seja, há que atacar.

Classificação completa, via ProCyclingStats.

Perder a Gavia é uma desilusão

Se Roglic não terá ficado triste com a saída da Gavia do percurso, López, Yates, Carapaz e o próprio Nibali prefeririam ter a difícil subida, para assim tentar recuperar ou ganhar tempo, principalmente ao esloveno. Os adeptos de ciclismo também certamente que prefeririam o plano original da Gavia e Mortirolo no mesmo dia, numa etapa com 226 quilómetros. Porém, a meteorologia pregou daquelas partidas tão típicas no Giro e se a neve ameaçava a presença da Gavia desde a primeira semana da corrida, o perigo de avalanches, as previsões de o tempo poder piorar e o risco de gelo na estrada durante a descida fizeram Mauro Vegni, director do Giro, anular a passagem naquela que seria a Cima Coppi do Giro, aos 2618 metros de altitude.

Portanto em vez disto...



... teremos isto na terça-feira.



Serão 194 quilómetros com a partida e chegada a manterem-se inalteradas: Lovere - Ponte di Legno. Ainda se falou da possibilidade do Mortirolo ser atacado duas vezes, por diferentes vertentes, mas Vegni explicou que a etapa ficaria excessivamente longa. A solução passa pelo Cevo - uma estreia na Volta a Itália - e Aprica, duas terceiras categorias, mas difíceis, antes de subir o Mortirolo. 

A Cima Coppi passará para a 20ª etapa, a penúltima. Serão 2047 metros no Passo Manghen, que será a etapa mais complicada da semana, no papel, ainda que há que ter em conta que na terça-feira, na 16ª etapa haverão subidas não categorizadas e que ajudam a que o acumulado seja de quase de 5000 metros.

Longe vão os tempos em que Andy Hampsten teve de ultrapassar a Gavia debaixo de uma tempestade de neve para conseguir vencer a Volta a Itália em 1988. As regras são hoje bem diferentes e tal é impensável. Segurança primeiro, mas que a Gavia fará falta para o espectáculo e para abrir ainda mais as contas do Giro, lá isso fará.



»»Movistar e a pergunta do costume: afinal quem é o líder?««

»»O espectáculo chegou ao Giro e Nibali já se irritou com Roglic««