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19 de dezembro de 2019

Sobreviver em 2019, crescer em 2020

(Fotografia: © Podium/Paulo Maria)
Com a perda dos dois principais patrocinadores, um dos quais já numa fase tardia de 2018, a então Liberty Seguros-Carglass entrou em modo de sobrevivência para continuar com o projecto na estrada. Chegaram a UD Oliveirense e a InOutBuild que ajudaram a assegurar a continuidade da equipa, ainda que a aposta se tenha centrado quase por completo em ter ciclistas muito jovens, sem contratar inicialmente um de maior experiência. Mesmo com muitas limitações financeiras, Manuel Correia e Luís Pinheiro garantiram um grupo de ciclistas lutador, com talento e ambição.

Apesar de prosseguir como Continental, a equipa tem mantido a sua forte ligação às origens de uma das estruturas mais importantes de formação em Portugal. Contudo, para 2020, os responsáveis vão conseguir o que desejavam: aliar essa juventude a ciclistas mais experientes, que possam permitir à equipa ser ainda mais competitiva.

Desses jovens destacaram-se esta época Fábio Costa e Rafael Lourenço. Dois ciclistas rápidos, combativos e que deram as duas vitórias da equipa em 2019. Fábio conquistou a Taça de Portugal de sub-23 e Rafael foi o mais forte na segunda etapa da Volta a Portugal do Futuro. A equipa somou ainda várias classificações da juventude, Fábio Costa foi medalha de prata nos Nacionais de Melgaço, enquanto Guilherme Mota ficou com o bronze no contra-relógio, ambos no escalão de sub-23.

A UD Oliveirense-InOutBuild não conseguiu repetir a vitória na geral da Volta a Portugal do Futuro, mas terminou 2019 com a sensação de dever cumprido e com a pequena frustração de uma queda de Rafael Lourenço, que o tirou da discussão de uma etapa na Volta a Portugal. Que momento teria sido! Por esta altura, a equipa já se tinha reforçado com Josu Zabala (chegou em Março oriundo da Caja Rural) e com o colombiano Juan Filipe Osório (ex-Manzana Postobón), que assinou em Junho. Ciclistas que deram mais opções e um pouco mais de experiência. Guilherme Mota foi uma contratação de Maio, quando decidiu regressar a Portugal para melhor conciliar a vida académica com a de ciclista. Estava na Caja Rural de sub-23.

Este último vai continuar em 2020, assim como Pedro Lopes e Pedro Miguel Lopes (outros dois corredores muito importantes, regulares e com uma evolução interessante, com o primeiro a começar aos poucos a mostrar-se em terrenos mais difíceis), José Sousa, o benjamim da Volta ao Algarve Hélder Gonçalves (aos 18 anos foi chamado e não se intimidou por estar ao lado de alguns dos melhores do mundo) e também Venceslau Fernandes, que vai tentando agora afirmar-se entre a elite.

Há que não esquecer João Carneiro. Fez um bom primeiro ano como sub-23 em 2018, mas um problema de saúde afastou-o da competição praticamente toda a temporada. Com o futuro ainda incerto, a equipa espera poder contar com o corredor em 2020 e este quer regressar mais forte.

Os responsáveis da estrutura procuravam mais um patrocinador que permitisse contratar ciclistas com mais experiência e com outros argumentos. A Kelly Services, empresa de Gestão de Recursos Humanos, reforçou o orçamento e em 2020 o nome desta formação passará a ser Kelly-InOutBuild-UD Oliveirense (imagem da nova camisola do lado direito). E terá no seu plantel um dos melhores trepadores do pelotão nacional, Henrique Casimiro (Efapel) e Luís Gomes (Rádio Popular-Boavista), vencedor de uma etapa na Volta a Portugal na Serra do Larouco e um filho da casa, pois esteve na equipa em 2015 e 2016.

Com estes dois ciclistas, de 33 e 25 anos respectivamente, a Kelly-InOutBuild-UD Oliveirense ganha perspectivas diferentes. Ou pelo menos amplia-as, logo a começar com a Volta a Portugal, mas não só. Principalmente Casimiro procurará ter uma maior liberdade que escasseava e iria escassear ainda mais se tivesse permanecido na Efapel. O vencedor da última edição do Troféu Joaquim Agostinho será um líder indiscutível, com Luís Gomes a poder tanto ajudar o seu novo companheiro, como a ser mais um carta a jogar quando a opção for estar ao ataque.

Ambos serão uma influência essencial nos jovens que vão continuar a ser uma forte aposta. Porém, haverá um ciclista que irá receber certamente atenção, a começar pelo apelido que tem. Não será apenas Venceslau Fernandes a ter um nome que marca o ciclismo nacional. Vai chegar um corredor com o apelido de um ciclista que fez história ao vestir a camisola rosa do Giro e a amarela do Tour. Tiago da Silva é sobrinho de Acácio da Silva e corria no Luxemburgo (a sua nacionalidade), na formação orientada pelo pai (Francisco da Silva), a Differdange-GeBa.

Para fechar as contratações, uma promoção de júnior a sub-23. André Domingues vai ter a oportunidade de continuar a sua evolução na Kelly-OutInBuild-UD Oliveirense. Estava na Escola de Ciclismo Bruno Neves e foi o vencedor da Volta a Portugal do seu escalão.

Equipa para 2020: Hélder Gonçalves, Pedro Lopes, Fábio Costa, Venceslau Fernandes, Rafael Lourenço, José Sousa, Pedro Miguel Lopes, Guilherme Mota, João Torres, Henrique Casimiro (Efapel), Luís Gomes (Rádio Popular-Boavista), Tiago da Silva (Team Differdange-GeBa), André Domingues (Escola de Ciclismo Bruno Neves).

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1 de julho de 2019

"Estamos a superar as expectativas a todos os níveis"

(Fotografia: © UD Oliveirense-InOutBuild)
Fábio Costa podia estar desolado por ter ficado tão perto de juntar o título nacional de sub-23 à Taça de de Portugal, mas na UD Oliveirense-InOutBuild havia novas razões para sorrir. O final de 2018 foi desgastante para os responsáveis da equipa e 2019 começou com um enorme esforço para garantir que os ciclistas tivessem as melhores condições possíveis para estar na estrada. A saída dos dois patrocinadores abalou a estrutura de uma equipa referência na formação de jovens ciclistas, mas Manuel Correia e Luís Pinheiro lutaram para que o projecto continuasse vivo. Nas últimas semanas, uma temporada que se adivinhava complicada, ganhou contornos muito animadores a nível desportivo. Fábio Costa pode não ter sido campeão nacional, mas Manuel Correia não escondeu como tinha tantas razões para estar orgulhoso do seu ciclista e dos seus restantes corredores.

"A equipa tem estado a um nível [suspiro profundo]... Sabia da qualidade deles, sei como iniciámos a época... Se calhar hoje ninguém imagina como arrancámos com esta equipa. Sabia da qualidade dos miúdos e tinha dito que íamos ter mais dificuldade nas corridas de maior número de dias. Nas clássicas, nas corridas de poucos dias, conseguimos estar num nível muito elevado. Mas surpreendentemente, no Grande Prémio Jornal de Notícias estivemos a um nível elevadíssimo e no Abimota também", salientou o director desportivo ao Volta ao Ciclismo. E acrescentou: "Estamos a fazer uma época muito melhor do que em 2018. Incrível! Daqui para a frente não sei, mas até aqui temos o mais do dobro dos pódios. Estamos a superar as expectativas a todos os níveis."

Além das medalhas nos Nacionais e da Taça de Portugal de sub-23, há a destacar umas classificações da juventude: Troféu O Jogo e Memorial Bruno Neves por parte de Pedro Miguel Lopes e no Grande Prémio Jornal de Notícias, com Rafael Lourenço, que venceu ainda a classificação das Autarquias no Abimota.

"As coisas até se tem vindo a compor, mas nós merecemos mais. O concelho de Oliveira de Azeméis tem de olhar para nós de outra forma"

O final de 2018 foi um autêntico contra-relógio para garantir os patrocínios da equipa, que há dois anos subiu ao escalão Continental, como sub-25. Porém, manteve-se fiel às suas raízes de formação, com os nomes recentes a chegaram ao mais alto nível do ciclismo a serem Ivo e Rui Oliveira e Ruben Guerreiro. E acrescenta-se Rui Costa, Ricardo Vilela e também outros gémeos, os Gonçalves (Domingos e José), como exemplo de corredores que chegaram longe na modalidade.

"Uma coisa garanto: nestas condições não faço mais ciclismo. As coisas até se tem vindo a compor, mas nós merecemos mais. O concelho de Oliveira de Azeméis tem de olhar para nós de outra forma. É muito complicado fazer ciclismo com os meios que nós temos. Temo-lo feito com dignidade e a nível de imagem temos dignificado o ciclismo nacional. Acho que está na hora de olharem para aquilo de bom que temos feito ao longo destes anos. Se as coisas não melhorarem, para o ano... Apesar da garantia do nosso primeiro patrocinador, que está muito entusiasmado e quer continuar, só o farei com muito mais", assegurou.

O plantel é curto e jovem e algumas lesões não têm ajudado na gestão da equipa. Contudo, ganhou reforços importantes já durante a temporada. Primeiro foi o espanhol Josu Zabala, ciclista de 26 anos e de alguma experiência, que veio da Caja Rural. Zabala chegou em Março e há poucas semanas foi um dos talentos emergentes da modalidade em Portugal que se juntou à estrutura: Guilherme Mota. Também veio da Caja Rural, mas da equipa de sub-23, onde esteve alguns meses este ano, mas optou regressar a Portugal para melhor conciliar o ciclismo com os estudos. No entanto, a UD Oliveirense-InOutBuild, está à procura de pelo menos mais um ciclista com 22/23 anos, para ter mais maturidade na equipa na Volta a Portugal.

"O caso do Zabala, ele já queria veria em Janeiro, mas nós não tínhamos condições para o ter. Depois de muita persistência dele e da própria Caja Rural para lhe dar uma oportunidade, conseguimos algo para o compensar, apesar de não ter nada a ver com o valor dele, mas ele está feliz aqui. Espero que ele possa pisar os grandes palcos, estar nas grandes equipas porque acho que é um corredor de enormíssima qualidade", salientou. Quanto a Guilherme Mota, apesar da juventude - é sub-23 de primeiro ano (18 anos) -, Manuel Correia não hesita em considerar que "acrescenta muito à equipa". E conquistou a medalha de bronze no contra-relógio dos Nacionais, no seu escalão.

"Veio tarde, está com peso a mais, mas é normal. Faculdade, estar numa equipa longe de casa, é complicado", referiu o responsável, que elogiou a postura do seu ciclista em querer continuar a estudar. "Isto é uma mais valia para todos nós. Temos de nos orgulhar. O Guilherme encontrou o seu espaço. Ele já é feliz aqui. Estava a passar um mau bocado. Se ele estiver cá para o ano, espero contar com ele", disse.

E é nestas expressões que se percebe que Manuel Correia pode não querer continuar no ciclismo perante as dificuldades que tem passado, mas deseja manter viva a sua equipa. Além de Guilherme Mota e Fábio Costa, Rafael Lourenço é outro atleta que o director desportivo gostaria de continuar a trabalhar.

"Independentemente de termos perdido para um grande corredor e ser justa a vitória do João, nós merecíamos mais nesta corrida"

Há um ano conquistou uma etapa no Grande Prémio Jornal de Notícias e só não repetiu o feito em 2019 porque celebrou cedo de mais e foi ultrapassado sobre a meta. No entanto, fez top dez na geral e foi o melhor jovem. "Isso faz parte da aprendizagem. Já vimos no World Tour a fazer igual! Há que chamar a atenção, mas não o recriminar, nem penalizar por isso. Ele nunca mais voltará a fazer isso!" Manuel Correia considera também que um excesso de confiança acabou por tirar um possível top cinco a Rafael Lourenço. "É um corredor que tem subido degrau a degrau, ano após ano e hoje está num nível elevadíssimo", afirmou.

Regressando a um Fábio Costa que, durante a conversa com Manuel Correia, tentava recuperar da desilusão de tanto ter lutado pelo título nacional, tendo passado grande parte da corrida em fuga (143,2 quilómetros no circuito de Melgaço), o director desportivo frisou como o ciclista "quis em determinados pontos puxar de igual para igual com o João [Almeida] e isso se calhar custou-lhe caro". "Independentemente de termos perdido para um grande corredor e ser justa a vitória do João, nós merecíamos mais nesta corrida", disse. E ficaram rasgados elogios a João Almeida (Hagens Berman Axeon), ciclista já com experiência e vitórias importantes além fronteiras e que o responsável da UD Oliveirende-InOutBuild não dúvida que vai dar muitas alegrias. Ainda assim: "Acho que o Fábio com um bocadinho mais de maturidade poderia ter surpreendido o João."

Agora é olhar em frente para uma fase importante da temporada, com a aproximação da Volta a Portugal (de 31 de Julho a 11 de Agosto), com o Troféu Joaquim Agostinho a realizar-se um pouco antes, de 11 a 14 de Julho. Se estar bem na Volta é importante, a Volta a Portugal do Futuro é sempre um objectivo para os jovens ciclistas. "Eu já ganhei 11 Voltas a Portugal do Futuro e eram muito mais competitivas. É mais [importante] para eles do que para mim. Qualquer um gosta de a ganhar."

Uma coisa é certa na UD Oliveirense-InOutBuild, os ciclistas estão motivados em procurar mais bons resultados. Apesar dos problemas que a estrutura atravessou e atravessa para continuar na estrada, os corredores estão animados. "Acho que sempre estiveram. Mais do que eu! Eles são jovens, às vezes nem se apercebem das dificuldades. Quando arrancámos com a equipa explicámos a situação, mas acho que eles nem notaram. Acho que nós também tentámos deixá-los confortáveis. Nunca faltou nada e continua a não faltar e as coisas inclusive tem vindo a melhorar."

»»Guilherme Mota regressa a Portugal para poder garantir um futuro além do ciclismo««

»»"Pensava em júnior que era um bom ciclista, mas quando damos um salto destes, percebemos que há muito pela frente"««

»»Dobradinhas confirmadas mas foi necessário lutar muito para as alcançar««

31 de maio de 2019

Guilherme Mota regressa a Portugal para poder garantir um futuro além do ciclismo

(Fotografia: © José Nunes Vieira)
Guilherme Mota está de regresso a Portugal, depois de cinco meses na equipa sub-23 da Caja Rural. Estava tudo a correr bem, com o ciclista de Leiria a alcançar bons resultados e a adaptar-se muito bem a uma realidade diferente da que estava habituado no escalão de juniores por cá. Porém, os desejo de prosseguir com os estudos e também de estar mais tempo com a família fez com que optasse por regressar e a UD Oliveirense-InOutBuild será a sua nova casa.

"Estou a focar-me bastante em passar tempo de qualidade com a família e na universidade, para que possa ter um futuro além do ciclismo. Apercebi-me que as coisas não estavam a ser compatíveis e tive a oportunidade para vir para a equipa do Manuel Correia", afirmou ao Volta ao Ciclismo. A UD Oliveirense-InOutBuild já tinha estado em perspectiva até surgir o convite da Caja Rural no ano passado, pelo que poder integrar o jovem plantel de uma estrutura que tem formado alguns dos mais recentes ciclistas a chegar ao World Tour - os gémeos Oliveira, Ruben Guerreiro -, deixa Guilherme Mota muito satisfeito. "É uma equipa de referência para todos os que saem do escalão de juniores para sub-23. Tem excelentes profissionais como Manuel Correia e o Luís Pinheiro. Sabe-se o quanto podem ajudar-nos a crescer", acrescentou.

O ciclista de 18 anos garantiu que estava feliz em Espanha, que estava tudo bem na equipa e até estava a conseguir boas classificações no top 20. Porém: "Neste momento não há condições para ter o ciclismo como principal via, digamos assim. No caminho que estava a seguir, ia acabar deixar metade das cadeiras do segundo semestre para trás." Guilherme Mota quer tirar o mestrado em Engenharia Biomédica, na Universidade do Minho. O ciclismo obrigava-o a passar bastante tempo fora de casa, a competir ou treinar.

"Ganhei muita experiência lá fora. É uma equipa com uma base profissional. Aprendi principalmente a nível táctico, mas também físico"

Não hesita em considerar que foi uma boa opção para ambas as partes, com a porta da Caja Rural a não ficar fechada com esta saída antecipada do ciclista. "Isto foi bastante pacífico. Eles sabiam que eu sou bastante dedicado aos estudos e que isto poderia acontecer. A porta fica aberta. Quando tiver os estudos mais arrumados, por assim dizer, e queira voltar, tenho a porta aberta. O que é muito bom. Não faria sentido acabarmos de outra forma", referiu.

Apesar do calendário em Espanha contar com mais corridas do que o português para os sub-23, Guilherme Mota considera que não vai competir menos e até está bastante satisfeito por ter pela frente o tipo de corridas que mais gosta: por etapas. "Até ao momento tenho 15 dias de competição. O calendário centrou-se mais em corridas de um dia. Passava muito tempo na casa da equipa em Pamplona. Agora, em Portugal, vou ter mais corridas por etapas. Vou acabar por fazer bastantes dias de competição."

E está a começar a fase do ano com mais competições no calendário nacional, com Guilherme Mota a ter estreia marcada já para domingo, no Grande Prémio Anicolor. Até final da temporada, deverá estar presente na maioria das provas da sua nova equipa e mesmo a Volta a Portugal não é algo completamente excluído. A UD Oliveirense-InOutBuild, tal como a maioria das equipas portuguesas, não tem um plantel extenso. No entanto, é mais na Volta a Portugal do Futuro que pensa Guilherme Mota, ficando a garantia que se tiver de fazer a Volta "principal", que estará preparado para tal. Se não for este ano, é naturalmente uma prova que o ciclista quer um dia competir.

Podem ter sido apenas cinco meses na Caja Rural, mas a UD Oliveirense-InOutBuild irá contar com um corredor que realçou como a passagem por Espanha foi enriquecedora: "Ganhei muita experiência lá fora. É uma equipa com uma base profissional. Aprendi principalmente a nível táctico, mas também físico. Estava numa equipa que assumia todas as corridas, tínhamos de assumir as perseguições, nas montanhas... Tínhamos responsabilidade. Nos juniores corria-se muito individualmente, na Caja Rural já se trabalhava para um líder."

"[Innsbruck] foi um dia em cheio! Foi um sonho de corrida! Houve alguns erros tácticos, mas fiquei contente com o 16º lugar"

Adaptar-se à nova equipa não deverá ser um problema, até porque além de amigos, conta com companheiros de treino, casos de Pedro Lopes e Hélder Gonçalves, o ciclista que foi o benjamin da Volta ao Algarve. Mota tem estado a preparar esta fase da temporada e coloca os Nacionais de Melgaço como objectivo, pois para quem ganhou os títulos como júnior, é normal que o deseja seja repetir o feito como sub-23. "Será bastante difícil. Haverá bons adversários, como o João Almeida e o André Carvalho [ambos da Hagens Berman Axeon], que me inspiram muito como sub-23. Mas sim, é um objectivo."

Quer agradar aos directores, aos patrocinadores e continuar a sua evolução como ciclista, depois de se ter destacado como júnior. Há que não esquecer que nos difíceis Mundiais de Innsbruck, no ano passado, foi 16º classificado na prova em linha. "Foi um dia em cheio! Depois de um Europeu bom no contra-relógio precisava de realçar as minhas capacidades. Foi um sonho de corrida! Tenho pena de não ter ficado no top dez. Houve alguns erros tácticos, mas fiquei contente com o 16º lugar", recordou.

Neste seu novo desafio, não coloca pressão em si mesmo, considerando que ainda tem muito a aprender. Agora quer prosseguir os seus estudos, enquanto cumpre com os deveres na InOutBuild, sem esquecer a selecção nacional. Contudo, não esconde que pode mudar de rumo se surgir um convite para dar o salto para o profissionalismo.


22 de fevereiro de 2019

"Pensava em júnior que era um bom ciclista, mas quando damos um salto destes, percebemos que há muito pela frente"

"Que idade tens?" É uma pergunta que Hélder Gonçalves tem ouvido várias vezes nos últimos dias, mas quando entre quem questiona está Steve Cummings e Wout Poels, o jovem ciclista responde de sorriso rasgado. Tem 18 anos e há um estava a competir nos juniores do Roriz. Agora, na UD Oliveirense-InOutbuild, está lado a lado com alguns grandes nomes do World Tour e a adorar cada minuto. Não esconde que foi um choque quando soube que ia à Volta Algarve e que estava receoso sobre o que ia encontrar, afinal nunca tinha sequer feito 200 quilómetros a pedalar antes desta época e agora até troca impressões com ídolos.

"É incrível. Eu só fiz uma corrida com o pelotão nacional e foi aquela que dizem que é a mais fácil [Prova de Abertura Região de Aveiro]. Na semana seguinte estou na Volta ao Algarve, que tem categoria acima da Volta a Portugal... Nem tenho palavras para explicar!" Hélder Gonçalves surge descontraído, ainda que já ia pensando nas dificuldades que iria sentir no conta-relógio, que não é a sua especialidade, mas principalmente porque o vento era bastante forte para quem é tão "levezinho". Quando o chamou, Manuel Correia tratou-o por "benjamim". Nada que o jovem ciclista não goste, afinal é mesmo o mais novo de todo o pelotão da Algarvia. "É uma coisa que ainda tenho de enquadrar melhor na minha cabeça. Sou mesmo o benjamim ao lado destas estrelas."

A ausência inesperada de um companheiro devido a problemas de saúda, abriu uma porta que Gonçalves não esperava acontecer tão cedo. Contudo, é uma oportunidade que está a aproveitar ao máximo. "Foi um choque quando o chefe me disse que vinha, nem reagi. Depois do choque inicial fiquei feliz", explicou ao Volta ao Ciclismo, contando ainda que tinha terminado a corrida de abriu a época em Portugal quando foi informado.


"Quando descolei, na fase mais dura da corrida [na etapa da Fóia], ele [Poels] ia a olhar de boca fechada para o GPS e eu a sofrer muito! Ele estava a fazer a subida com uma tranquilidade incrível e eu em choque!"

"Até agora tem corrido tudo muito bem. O Rafael tem estado muito bem, está numa forma incrível. A equipa está bem. Eu lá tenho sobrevivido, mas tem sido uma experiência incrível", salientou. E ao "sobreviver" está a cumprir ao que lhe foi pedido pelo director desportivo Manuel Correia: "Pediu-me para que eu sobrevivesse. Foi uma reunião muito rápida!" O responsável disse ainda a Hélder Gonçalves para desfrutar. "Não há grandes exigências dado os adversários e ainda temos poucas corridas [este ano]. Somos a equipa mais jovem. Estamos todos aqui para aprender", afirmou.

Ao ver-se ao lado de ciclistas que normalmente via na televisão, Gonçalves realçou que não ia desperdiçar a oportunidade de conversar com alguns corredores que mais gosta. Poels é um deles e já tem uma história para contar ao competir com o homem da Sky: "Há um momento que gostava de recordar. Quando descolei, na fase mais dura da corrida [na etapa da Fóia], ele ia a olhar de boca fechada para o GPS e eu a sofrer muito! Ele estava a fazer a subida com uma tranquilidade incrível e eu em choque!"

Com Cummings (Dimension Data) a história foi outra: "Cheguei a dizer-lhe que ele poderia ser meu pai. Ele pensava que o estava a chamar velhote!" Mas o britânico, que tem 37 anos, não levou Gonçalves a mal e até conversou com o jovem ciclista. "Perguntou-me a idade e falámos um pouco. Ele disse-me que no ano que nasci ele já corria! Disse-me para desfrutar", contou, acrescentando: "Ele é gigante e eu um franganote de 50 e poucos quilos ao lado dele."

Começar a sua fase de sub-23 numa equipa que tantos jovens tem lançado para o mais alto nível do ciclismo - os gémeos Oliveira e Ruben Guerreiro, por exemplo - é por si só uma conquista para Hélder Gonçalves, mas... "Eu ainda estou a evoluir. Pensava em júnior que era um bom ciclista, mas quando damos um salto destes, percebemos que há muito pela frente. Um trepador em juniores chegar à Fóia com o grupo dos sprinters, foi logo ali mais um choque!"

Hélder Gonçalves vai tentando lidar com todas estas novas experiências que está a viver, em tão poucos dias, como ciclista de uma equipa Continental sub-25. Até admite que nem tem muito tempo de lidar com tantas emoções, pois o dia é pedalar, ir para o hotel, comer e dormir. "Acredito que quando chegar a casa irei reflectir sobre tudo o que aconteceu. Antes de vir para o Algarve disse aos meus pais que, por muito que um dia seja ciclista profissional, esta será uma das minhas referências e das corridas com mais categoria que poderei realizar."


"Cheguei a um ponto na minha vida que tive de optar. Se se quer ser bom, só pode ser boa numa coisa"

É de Barcelos, terra de outros Gonçalves bem famosos - os gémeos José e Domingos -, mas também de mais ciclistas de referência no pelotão, como João Matias. "Ele até disse que poderíamos formar uma equipa de ciclistas de Barcelos para correr na Volta ao Algarve", contou Hélder Gonçalves. Chegar onde já conseguiu chegar não o fez perder a humildade. É um jovem agradecido a todos os que têm ajudado neste seu caminho. Começou por realçar as "pessoas fantásticas do Roriz, que ajudam a formar grandes atletas e, acima de tudo, grandes pessoas".

Depois recordou como começou o ano com uma lesão no joelho direito, o que também afectou a sua actual forma física, que gostaria que fosse melhor. "Tive uma grande equipa ajudar-me. Houve muito trabalho realizado para que eu pudesse estar a Prova de Abertura." Terminou salientando como encontrou uma união, uma família no ciclismo na UD Oliveirense-InOutbuild. E por falar em famílias, não se esquece de referir que foi com o pai que começou a andar de bicicleta quando se fartou do futebol. "Comecei um pouco tarde no ciclismo. Fui para o Roriz como juvenil de segundo ano." Mas foi muito a tempo para tentar construir uma carreira como ciclista de estrada, ainda que se esteja perante alguém que foi vice-campeão nacional de XCO e de ciclocrosse.

"Cheguei a um ponto na minha vida que tive de optar. Se se quer ser bom, só pode ser boa numa coisa. Foi sempre esse lema que me contaram. Eu próprio senti isso e decidi apostar tudo na estrada. Também gosto, senão não o faria", frisou. O ciclocrosse poderá não ser completamente riscado das suas épocas, já que, como vertente de Inverno, é apreciado por muitos corredores para preparar a temporada de estrada. Mas um dia de cada vez para Hélder Gonçalves. Sobreviveu ao contra-relógio, terminando na 148ª posição, a 4:43 minutos do vencedor Stefan Küng (Groupama-FDJ). Passado mais este teste, acredita que pode terminar a Volta ao Algarve e tornar assim ainda mais memorável a experiência que está a viver.

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