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7 de novembro de 2020

Um último susto, uma ajuda da Movistar e uma vitória com todo o mérito para Roglic

© Unipublic/Charly López/La Vuelta
Richard Carapaz esperou até ao últimos momentos para dar alguma emoção à última etapa de montanha da Vuelta. Já dentro dos cinco quilómetros final atacou, depois de Hugh Carthy ter aberto as hostilidades. Foi um derradeiro susto para Primoz Roglic, um vencedor pela segunda vez consecutiva da Vuelta, mas que teve uma ajuda preciosa na recta final da tirada que terminou no Alto de la Covatilla. Não, não foi Sepp Kuss, o seu fiel escudeiro da Jumbo-Visma. Foi mesmo uma Movistar que assim ajustou algumas contas com uma saída muito pouco amigável de Carapaz da equipa espanhol em 2019.

Roglic tem todo o mérito nesta vitória. Isso ninguém lhe pode tirar. Veio à Vuelta depois de uma enorme desilusão no Tour. Parecia ter o triunfo garantido e tudo se desmoronou no contra-relógio decisivo em La Planche des Belles Filles. Em Espanha passou todos os testes que enfrentou. Mentalmente foi um ciclista decidido a mostrar que a derrota no Tour frente a Tadej Pogacar não iria definir o resto da sua carreira.

É um vencedor e quando se perde, a melhor forma de reagir é regressar às vitórias. Já tinha conquistado o seu primeiro monumento, a Liège-Bastogne-Liège, mas era uma reacção numa prova de três semanas que precisava. Roglic está bem vivo e contem com ele para lutar pela Volta a França em 2021, agora como um duplo vencedor de duas Vueltas. Curiosamente, dois triunfos em outras quantas presenças. Não compensa o que aconteceu em França, mas foi mais uma vez uma mostra do carácter excepcional deste ciclista.

Só um casaco - justificou a perda da liderança na sexta etapa com problemas em vestir um casaco - e o Angliru fizeram tremer Roglic. As subidas com pendentes muito íngremes não são uma especialidade sua. Onde compensa? Nas bonificações. É um ciclista que faz questão de amealhar o maior número de segundos bónus, para tentar compensar o que possa perder na estrada. Na Vuelta foi uma táctica decisiva.

Em La Covatilla, Roglic tremeu mais um pouco. Um último susto, que fez pensar por alguns minutos que também nesta grande volta poderia haver uma mudança de líder mesmo no fim. Mas eis que surgiu a Movistar. Foi mais uma etapa ao ataque da equipa espanhola e mais uma em que não tirou dividendos de tanto trabalho. Enric Mas ficou na quinta posição que já ocupava e Marc Soler não discutiu a etapa. Restava então um pormenor...

Com Carapaz a ganhar tempo - e chegou a estar a menos de 20 segundos de conquistar a Vuelta -, com Roglic já sem companheiros de equipa e com Carthy (EF Pro Cycling) também a conseguir afastar-se do esloveno, Mas e Soler entraram ao trabalho. Os dois espanhóis deram uma preciosa ajuda a Roglic, minimizando perdas. Depois de cortar a meta, o esloveno apressou-se em agradecer aos dois inesperados parceiros.

O ciclismo não se faz só de companheiros de equipa. Há coisas que não se esquecem e que até levam a dar a mão a rivais. A Movistar não esquece como Carapaz quebrou contrato com a equipa para assinar pela Ineos Grenadiers, em mais um episódio do desentendimento com o empresário Giuseppe Acquadro. E mais. Antes da Vuelta de 2019, Carapaz participou num critérium sem autorização da equipa. Uma queda acabaria por afastá-lo da grande volta espanhola.

Foi um fim de relação que não agradou nada aos responsáveis da Movistar, que perderam assim o ciclista que havia vencido a Volta a Itália e que poderia ser importante no futuro na liderança de uma formação que não iria apostar mais em Nairo Quintana, que também se preparava para perder Mikel Landa e tem Alejandro Valverde quase a terminar a carreira.

Roglic não esquecerá o gesto da Movistar, tal como a Ineos Grenadiers de Carapaz não irá certamente deixar passar em claro. As rivalidades fazem parte do desporto, mas no caso do ciclismo, nem todas nascem na estrada, mas é lá que ganham expressão. Este dia ainda terá repercussões noutras provas...

Numa etapa (Sequeros - Alto de la Covatilla, 178,2 quilómetros) que chegou a parecer que seria uma desilusão, terminou com muito para contar.

David Gaudu venceu a sua segunda etapa na Vuelta
e subiu ao top 10 (© Photo Gomez Sport/La Vuelta)
Luta no top dez

Roglic terminou com 24 segundos de vantagem sobre Carapaz, com Carthy a fechar o pódio, a 47 do esloveno. Daniel Martin (Israel Start-Up Nation), Enric Mas e Wout Poels (Bahrain-McLaren) seguraram as posições seguintes.

A UAE Team Emirates foi uma das equipas que mais animou a etapa, até ao momento Movistar, claro. Atacou cedo e colocou David de la Cruz na frente, com Ivo Oliveira e Rui Costa a terem um papel muito importante na ajuda ao espanhol que conseguiu subir à sétima posição, a 7:35 de Roglic. Rui Costa muito tentou ganhar uma etapa, mas a fechar a Vuelta, mostrou que continua a ser um ciclista com quem podem contar para trabalhar em prol de um companheiro.

David Gaudu (Groupama-FDJ) foi à procura de ganhar a sua segunda etapa e não só conseguiu, como ainda teve o bónus de entrar no top dez (oitavo, a 7:45). A equipa francesa falhou por completo no Tour com Thibaut Pinot, mas foi ao Giro dominar nos sprints com Arnaud Démare e na Vuelta pode muito bem ter confirmado que tem um futuro líder para as três semanas. Gaudu teve liberdade e mostrou que é um corredor que pode ser mais do que um gregário.

Felix Grossschartner (Bora-Hansgrohe) e Alejandro Valverde (Movistar) conseguira a custo ficar no top dez, com Aleksandr Vlasov (Astana) a ser o sacrificado com a entrada de Gaudu. Ainda assim, uma boa estreia em grandes voltas do jovem russo.

Nas restantes classificações, Guillaume Martin (Cofidis) é o vencedor da montanha - já o havia garantido na quinta-feira -, Roglic acumula a geral com a classificação dos pontos, Enric Mas é o melhor na tabela da juventude e a Movistar vence por equipas, como tem sido habitual.

Classificações completas, via ProcyclingStats.

18ª etapa: Hipódromo de la Zarzuela - Madrid, 139,6 quilómetros

Muito se irá falar do que aconteceu na La Covatilla, mas Roglic terá o seu momento para desfrutar da merecida vitória. Foi uma Vuelta com trocas na liderança, muita montanha, com o mau tempo a fazer-se sentir e a dificultar muito a tarefa de todos, fosse qual fosse o objectivo.

Este domingo irá pedalar-se os últimos 139,6 quilómetros não só da corrida, mas da época. Madrid marcará o fim de um ano atípico, mas no qual se conseguiu concluir as três grandes voltas, por si só uma vitória para o ciclismo mundial, mesmo que a Vuelta tenha sido mais curta (18 etapas em vez de 21).

Ainda assim, foi necessário alterar a tirada de consagração, que ganhou cerca de 12 quilómetros. Nada de grave, já que grande parte será feita a um ritmo calmo. A corrida continuará a terminar no Paseo de la Castellana, mas a organização decidiu não passar por localidades como Móstoles, Alcorcón, Leganés e Getafe. A entrada em Madrid não será feita por Villa de Vallecas, mas sim por Barajas e Feria de Madrid. Os ciclistas farão mais quilómetros de auto-estrada. A fase final mantém-se com um circuito de seis voltas entre Castellana e Paseo Recoletos.

»»Ineos Grenadiers e Movistar a trabalhar e Roglic a ganhar mais uns preciosos segundos««

»»Vitória de Philipsen com influência de Ivo Oliveira (e com um agradecimento emocionado)««

6 de novembro de 2020

Ineos Grenadiers e Movistar a trabalhar e Roglic a ganhar mais uns preciosos segundos

© Unipublic/Charly López/La Vuelta
Tanto trabalho da Ineos Grenadiers e da Movistar e no final foi Primoz Roglic, da Jumbo-Visma, quem agradeceu. Um segundo aqui, um segundo ali e o esloveno vai partir para a etapa decisiva da Vuelta com 45 de vantagem sobre Richard Carapaz e 53 sobre Hugh Carthy (EF Pro Cycling). Nem se pode dizer que tenha sido algo planeado pelo camisola vermelha ou pela sua equipa, apenas aproveitou a oportunidade de sprintar no final, depois de ver a fuga ser apanhada e ficar escancarada a porta para conquistar mais uma bonificação.

Nesta Vuelta são 48 segundos ganhos por Roglic na linha da meta, sendo que ajuda e muito ter ganho quatro etapas (10 segundos cada). Carapaz somou 16 e Carthy 10, na vitória no Angliru. Mais do que fazer diferença na estrada, já faz parte do estilo de Roglic em encarar estas corridas sempre à procura de somar bonificações. No Tour acabou por não resultar, mas tem este sábado o Alto de la Covatilla para ultrapassar e assim conquistar uma grande volta em 2020, tentando repetir o triunfo em Espanha, depois de ter ganho em 2019.

Os seis segundos que amealhou em Ciudad Rodrigo podem não garantir uma vitória a Roglic, mas servem de tónico para a derradeira etapa, na qual ninguém poderá ficar à espera do esloveno falhar. É agora ou nunca. A liderança terá de ser atacada, mas o próprio Carapaz demonstrou que aqueles seis segundos não eram nada bem-vindos na perspectiva do líder da Ineos Grenadiers. Quando percebeu que Roglic ia sprintar, também acelerou, mas nada pôde fazer para evitar ter mais tempo para recuperar.

A La Covatilla é uma subida com 11,4 quilómetros, com uma inclinação média de 7,1%. Roglic sofreu no Angliru, mas com a pendente máxima deste sábado a ser de 12% e não mais de 20, o esloveno terá de ter um dia muito mau para ceder tanto tempo só nesta subida.

Por isso mesmo, foi ainda mais estranha a forma como a Ineos Grenadiers se desgastou nos 162 quilómetros desta sexta-feira. Principalmente, Andrey Amador, um ciclista tão importante na ajuda a Carapaz. A boa colocação do equatoriano foi um objectivo, mas, ainda assim, Amador desgastou-se muito quando não houve qualquer intenção de tentar surpreender Roglic. E não demorou muito a perceber-se que o esloveno não ia ceder tempo no sobe e desce desta etapa.

A Jumbo-Visma esteve mais dedicada a proteger o seu líder, pois na parte final foi a Movistar que assumiu a frente do grupo. Mais uma vez não foi para preparar um ataque de Enric Mas, talvez ainda a pensar no pódio. A equipa foi atrás de uma vitória de etapa com Alejandro Valverde. E neste aspecto percebe-se. Ganhar a Vuelta está fora de questão e para uma equipa com apenas duas vitórias em 2020 (!), é importante conquistar algo mais - além da camisola da juventude que Mas não deverá perder - antes da época terminar. E finaliza já em Madrid, no domingo. Não há mais corridas.

17ª etapa: Sequeros - Alto de la Covatilla, 178,2 quilómetros

La Covatilla será a segunda categoria especial depois do Angliru. Não tem as pendentes da mítica subida, como foi descrito em cima, mas a Covatilla além de ser uma subida difícil, vai ser feita com temperaturas abaixo dos 10 graus, havendo a possibilidade de chuva, ainda que seja baixa. O vento deverá rondar os 14 quilómetros/hora.

A grande questão é se Carapaz e Carthy vão deixar tudo para a última subida, ou arriscam um ataque de longe. Esta última escolha poderá ser a opção de um Enric Mas ou mesmo de Daniel Martin (Israel Start-Up Nation), dois ciclistas que poderão dar o tudo por tudo para chegar ao pódio. O espanhol está a 3:29 de Roglic e o irlandês a 1:48.

Também se poderá ver uma luta pelos restantes lugares no top dez, mas esta Vuelta chega ao penúltimo dia com a geral por decidir, sendo que 2020 fica marcado por todas as grandes voltas só terem ficado decididas no derradeiro dia (não contando com o da consagração que o Tour e a Vuelta têm). Nas outras duas houve uma reviravolta...

Classificações completas, via ProCyclingStats.

© Photo Gomez Sport/La Vuelta
Rui Costa penalizado

O ciclista português continua à procura de ganhar uma etapa nesta Vuelta. Desta feita não entrou na fuga, mas ficou muito próximo de vencer. Foi terceiro no sprint ganho pelo Magnus Cort, em mais uma vitória para uma EF Pro Cycling que é das equipas mais ganhadoras após o desconfinamento. Porém, Rui Costa (UAE Team Emirates) acabaria sancionado e relegado para o final do grupo devido a uma manobra que foi considerada perigosa pelos comissários.

"Estou desiludido, mas não tenho outra escolha senão aceitar. Foi um final seguro e penso que o meu sprint foi correcto. Não houve certamente uma má intenção. Vou focar-me na próxima etapa antes de Madrid", afirmou Rui Costa.

Nota: Por lapso escreveu-se que Roglic tinha ganho 58 segundos nas bonificações. São 48, pois no contra-relógio não há bonificações. Fica aqui um pedido de desculpa pelo erro.

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»»Tim Wellens no seu terreno e uma lição de boa táctica««

3 de novembro de 2020

O alívio de Roglic e o sorriso dos adversários (e Nelson Oliveira voltou a ficar tão perto)

© Photo Gomez Sport/La Vuelta
Primoz Roglic terá conseguido afastar alguns fantasmas do contra-relógio. Era um teste que faltava passar depois de ter perdido o Tour de forma tão dramática e logo numa especialidade sua. É o exemplo mais traumático, pois já antes havia perdido a oportunidade de fechar pódio numa Volta a França, mas até tinha a "desculpa" de no dia antes ter dado tudo para ganhar uma etapa. Contudo, aquela derrota frente a Tadej Pogacar fica para a história. Roglic ainda quer escrever bons capítulos e depois de vencer a Liège-Bastogne-Liège, quer a sua segunda Vuelta. Venceu no contra-relógio e os sorrisos no final eram um sinal claro de como saiu um peso enorme dos seus ombros. Um alívio. Porém, não ganhou tanta vantagem como se esperaria. A Volta a Espanha terá uma terceira semana animada.

É que não foi só Roglic que teve razões para sorrir. O esloveno conquistou a sua quarta etapa (!) está de novo na liderança - troca outra vez com Richard Carapaz -, mas o equatoriano também saiu satisfeito do contra-relógio de 33,7 quilómetros. Os últimos 1,8 foram na subida até ao Mirador de Ézaro, com pendente média de quase 15%. E o que dizer de Hugh Carthy? Quase que foi o mais feliz de todos!

Para Roglic foi, então, importante ultrapassar uma possível barreira psicológica com os contra-relógios em grandes voltas. Não muda nada o que aconteceu no Tour, mas pode influenciar muito os contra-relógios que virão, principalmente na Volta a França. E em 2021 serão dois, em 58 quilómetros no total. Para Carapaz foi importante não ver Roglic ganhar demasiada diferença. O Alto de la Covatilla, no sábado, é a subida mais difícil até ao final da Vuelta, mas até lá haverá muita montanha para ultrapassar.

Com a diferença a ser de 39 segundos, a Ineos Grenadiers e o seu líder, Carapaz, sabem que terão trabalho a fazer para atacar Roglic, mas o equatoriano também sabe que este tempo é recuperável. Nada está perdido. O esloveno não tem um historial muito bom na terceira semana das grandes voltas. Tem tendência a perder algum fôlego. Carapaz vai tentar explorar qualquer possível fraqueza que surja por parte do ciclista da Jumbo-Visma.

O mesmo acontecerá com Hugh Carthy. O britânico da EF Pro Cycling, vencedor no Angliru, demonstrou que está mesmo em boa forma. Fez um excelente contra-relógio e não só consolidou o seu terceiro lugar, como está ao assalto ao segundo e de olhos postos numa possível surpresa. São 47 segundos a separá-lo de Roglic.

Carthy está a demonstrar que é o ciclista que está a melhorar mais com o decorrer da competição. Agora tem de comprovar isso nos próximos quatro dias (domingo é dia de consagração até Madrid). Espera que Michael Woods continue a ter um papel essencial na ajuda, como aconteceu nas mais recentes etapas de montanha, incluindo no Angliru.

Se este trio vai dominar as atenções, há que referir que Daniel Martin (Israel Start-Up Nation) também não esteve mal. Porém, 1:42 minutos já é uma diferença complicada de recuperar para Roglic, mas o irlandês não irá certamente abandonar a ideia de pelo menos chegar ao pódio.

E há mais alguém? Enric Mas foi um desastre, o próprio admite. A Movistar sai derrotada do contra-relógio. 3:23 minutos já deixa pouca margem para o espanhol sequer pensar no pódio, salvo algum volte face inesperado. O que pode valer a Mas é que estamos na Vuelta e as reviravoltas acontecem! Alejandro Valverde bem terá de se esforçar para segurar o top 10. Marc Soler continua a cair na classificação.

Referências positivas, ainda que a ambicionar "apenas" por ficar nos dez primeiros: Wout Poels (Bahrain-McLaren) é mais um ciclista em subida de forma, assim como David de la Cruz (UAE Team Emirates).

© Photo Gomez Sport/Movistar
A mais positiva de todas (na perspectiva portuguesa)

A referência mais positiva é Nelson Oliveira. Vira-se a análise para o lado português e o nosso maior especialista de contra-relógio ficou novamente perto de conseguir a vitória que tanto merece. Apesar de ser um candidato a melhor gregário da Vuelta (se tal distinção existisse como prémio), o ciclista de Anadia teve liberdade para ir a fundo no contra-relógio. A Movistar bem precisa de ganhar. Só tem duas vitórias em 2020 e visto que a geral já não estava bem encaminhada ainda antes de Enric Mas partir para a etapa, ver Oliveira sair vencedor seria um resultado bem-vindo.

O português esteve muito bem, fez uma boa troca de bicicleta antes da subida final e chegou a sentar-se na cadeira do mais rápido. Por pouco tempo, no entanto. Will Barta (CCC) bateu por nove segundos o tempo de Oliveira, que acabaria a 10 dos 46:39 de Roglic. Ficou a dúvida se Barta não terá recebido uma ajuda além das regras, quando foi empurrado por um membro da equipa. Parece ter passado a linha limite, mas o resultado manteve-se e Roglic acabou por ser o vencedor, não dando azo a possíveis polémicas.

Nelson Oliveira fica regularmente entre os melhores no contra-relógio nas grandes competições, mas aquela vitória que tanto procura continua a escapar.

De referir ainda, que o actual campeão nacional, Ivo Oliveira (UAE Team Emirates) ficou a 2:14 de Roglic. O companheiro Rui Costa fez mais 3:31 minutos, com a subida final a não correr tão bem como toda a parte mais plana. O outro Oliveira, o Rui, terminou com mais 5:13. Ricardo Vilela (Burgos-BH) fez mais 7:14 minutos.

Classificações completas, via ProCyclingStats.

14ª etapa: Lugo - Ourense, 204,7 quilómetros

Sobe, desce, sobe mais um pouco, toca a descer... Vai ser assim numa etapa rara da Vuelta: tem mais de 200 quilómetros. E não será a mais longa, pois quinta-feira o pelotão terá pouco mais de 230 pela frente.

Com tiradas mais curtas, a velocidade tem sido grande quase todos os dias. Nesta fase final da corrida, o esforço já se faz sentir em todos e é preciso saber onde se irá arriscar para fazer abanar Roglic e, principalmente, a Jumbo-Visma, que tem um Sepp Kuss, que compete com Nelson Oliveira para ser o melhor gregário. Entrou-se na fase que qualquer erro, pode pagar-se caro.

»»Hugh Carthy no nível há muito esperado««

»»O protesto, a estreia a vencer, o empate na frente e a expectativa para o Angliru««

1 de novembro de 2020

Hugh Carthy no nível há muito esperado

© Photo Gomez Sport/La Vuelta
Com uma nova geração a não esperar quase nada para não se só afirmar, como ganhar algumas das principais competições mundiais, ciclistas como Hugh Carthy acabam por ficar em segundo plano. No seu caso nem é fácil. O 1,93 metros de altura sempre foi um factor para se distinguir bem no pelotão. Outro factor, é a qualidade que lhe é reconhecida, mas que tem demorado a ser mostrada regularmente. Aos 21/22 anos deu os primeiros sinais que era mais um britânico a ter em conta, apesar de não estar na então Sky. Agora venceu a sua primeira etapa numa grande volta. E valeu a pena esperar!

Hugh Carthy tanto parecia que ia confirmar expectativas, como que desaparecia, ficando longe de resultados de destaque. Também sofreu quedas que não ajudaram à sua afirmação, mas na EF Pro Cycling nunca deixaram de confiar no jovem britânico, agora com 26 anos. Na recta final da época de 2020, a equipa olha para o seu ciclista e vê como nas últimas duas temporadas Carthy não só evoluiu, como ganhou mais maturidade que nesta Vuelta o colocam num lugar do pódio.

Carthy chegou à estrutura americana depois de dois anos em Espanha. O seu peculiar estilo a pedalar rapidamente chamou a atenção naquele país, pois a Caja Rural é uma excelente equipa para se ganhar notoriedade no segundo escalão do ciclismo. Antes fez parte de um projecto importante na formação de jovens britânicos: a então Rapha Condor JLT, equipa que terminou há dois anos.

Mas foi na Caja Rural que mais se mostrou e até esteve na Volta a Portugal em 2015. Ficou num discreto 74º lugar. No ano seguinte, a equipa espanhola levou-a à Vuelta, sendo que antes havia ganho a Volta às Astúrias. No World Tour já era seguido e não surpreendeu quando deu o salto.

Tem sido um caminho de afirmação com altos e baixos. Mas os altos sempre colocaram Carthy como um ciclista capaz de estar entre os melhores. Exemplo disso foi a vitória numa etapa da Volta à Suíça na época passada, quando antes já havia lutado por um top dez no Giro, ficando na 11ª posição.

Chegou a esta Vuelta "tapado" por Daniel Martínez. O colombiano caiu e acabaria por abandonar nos primeiros dias da corrida. Carthy agarrou a oportunidade e muito bem ajudado por Michael Woods - tem mesmo de agradecer o trabalho do companheiro canadiano -, o ciclista da EF Pro Cycling deixa Richard Carapaz e Primoz Roglic a não poderem menosprezá-lo. Pode não ser quem mais assusta, mas 32 segundos é uma distância para o primeiro lugar que vai fazer com que Carthy seja mais marcado pelos dois principais candidatos à vitória.

E 2020 já teve duas reviravoltas algo surpreendentes nas grandes voltas anteriores...

A razão para estarem atentos ao britânico não é só pela curta distância, mas também pelo que fez no mítico Angliru. A subida que ultrapassa os 20% de pendente, com média a rondar os 10%, até chegou a parecer que poderia quebrar Carthy. Mas não. Com Woods a seu lado, manteve-se com os favoritos, até que a cerca de 1,5 quilómetros da meta, numa subida com mais de 12, o britânico arrancou.

É este ciclista que há muito se espera ver mais vezes. Venceu numa das subidas mais difíceis do ciclismo mundial e onde há três anos Alberto Contador ganhou no adeus à sua carreira profissional.

Com Martínez de malas feitas para a Ineos Grenadiers, conseguir além desta vitória um pódio em Madrid, ou pelo menos um top cinco, poderá ser importante para que em 2021 Carthy assuma de uma vez por todas um papel de maior destaque nas grandes voltas na EF Pro Cycling.

Carapaz recupera camisola vermelha

Ninguém apanhou Hugh Carthy que se aproximou em mais de 20 segundos da liderança e tirou Daniel Martin (Israel Start-Up Nation) do pódio. Restou a Richard Carapaz (Ineos Grenadiers) aproveitar as visíveis dificuldades de Primoz Roglic (Jumbo-Visma) e recuperar a camisola vermelha. Porém, os apenas dez segundos de vantagem não dão qualquer tranquilidade, quando na terça-feira - segunda é dia de descanso - haverá um contra-relógio.

Com Enric Mas (Movistar) a não concretizar nem o plano de vencer a etapa, nem de chegar ao pódio, até se pode dizer que Roglic foi o outro vencedor do dia, além de Carthy. Estas pendentes brutais não assentam nada bem aos esloveno. Mas quem tem Sepp Kuss como gregário, tem quase tudo. Só faltou ter uma corda para puxar o seu líder!

A vantagem no contra-relógio está do lado de Roglic, mas também muito se irá pensar como perdeu o Tour numa etapa de uma especialidade que até é a sua. E haverá nova subida para terminar o esforço individual, mas bem diferente da que enfrentou na Volta a França (ver em baixo).

A Vuelta não ficará decidida na terça-feira, há ainda mais montanha (pois claro) até sábado, pois só no domingo, em Madrid, o terreno ficará plano. Porém, Carapaz sabe que ganhou pouco tempo no Angliru, na subida desta Vuelta na qual haveria mais probabilidade de Roglic ter problemas. Teve alguns, mas não quebrou e Carapaz não conseguiu explorar mais a situação.

Apenas uma palavra para Chris Froome. Está a melhorar e foi importante para o seu companheiro de equipa. Quem bom é ver este ciclista a recuperar alguma forma. Porém, faltou mais alguém para ajudar o equatoriano no Angliru, quando Froome ficou para trás depois de muito ajudar, antes de se chegar à última subida do dia (e foram quatro, duas de primeira categoria).

Classificações completas, via ProCyclingStats.

13ª etapa: Muros - Mirador de Ézaro, Dumbría (contra-relógio individual), 33,7 quilómetros

A subida que irá concluir o contra-relógio nada tem a ver com La Planche de Belles Filles, onde Roglic perdeu um Tour que parecia praticamente garantido. Ainda assim são 1,8 quilómetros a 14,8%! Fica desde logo a questão se os ciclistas vão mudar de bicicleta para os metros finais. Além desta dificuldade, há que ter em conta que o vento poderá também ter o seu papel, principalmente porque poderá ser frontal, criando mais um problema.

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31 de outubro de 2020

O protesto, a estreia a vencer, o empate na frente e a expectativa para o Angliru

© Unipublic/Charly López/La Vuelta
Tudo na mesma entre Primoz Roglic e Richard Carapaz depois da primeira de duas etapas que podem ser decisivas. Continuam empatados depois de um dia que desiludiu na luta pela geral, não só porque talvez se esteja a pensar no Angliru, mas também por algum mal-estar que se instalou no pelotão devido a uma decisão dos comissários, que acabou por dar a liderança a Roglic após a vitória na tirada de sexta-feira.

Mas antes, a etapa. Talvez porque na memória ainda esteja aquele espectáculo no Alto de la Farrapona entre Alberto Contador e Chris Froome em 2014, a expectativa seria que voltasse a ser palco de emoção, desta feita entre Roglic (Jumbo-Visma) e Carapaz (Ineos Grenadiers) e mais alguém que ainda queira intrometer-se entre os dois. O desolador ambiente sem público foi como que um lembrete que nada é como antes neste 2020 atípico. A tensão entre pelotão e comissários antes início da etapa, com o protesto dos ciclistas, talvez tenha sido outro sinal que o dia não cumpriria as expectativas.

A etapa ainda prometeu quando a Movistar colocou Nelson Oliveira na frente - mais uma excelente etapa do português, um incansável trabalhador -, com Marc Soler a juntar-se mais tarde. Mas a equipa espanhola limitou-se a lutar por uma etapa - Enric Mas não se mexeu - que acabou por escapar para David Gaudu (Groupama-FDJ), que conquistou a sua primeira vitória numa grande volta. Uma estreia de um jovem de 24 anos, de quem muito se espera em França.

No grupo de favoritos, Daniel Martin (Israel Start-Up Nation) acelerou um pouco no final, mas o maior efeito foi ganhar uns segundos a Hugh Carthy (EF Pro Cycling), na luta pelo pódio.

Soube a pouco, sendo esta uma etapa com quatro primeiras categorias e uma terceira a abrir (Villaviciosa - Alto de la Farrapona Lagos de Somiedo, 170 quilómetros). Pouparam-se forças para o Angliru. A mítica subida faz novamente recordar Alberto Contador. Foi ali que conquistou a sua última vitória. Aquele último disparo do Pistolero em 2017, antes de se despedir do ciclismo profissional. Ali também ganhou em 2008.

Nenhum ciclista presente na Vuelta ganhou no Angliru (Kenny Elissonde já abandonou), mas muitos sabem como pode quebrar o melhor dos trepadores. São 12,5 quilómetros, com pendente média a 9,9% (ver imagem do lado direito). Porém, é influenciada por uma fase mais plana e até a descer na parte final. Este Angliru chega a passar os 20%!

Ainda haverá muito mais montanha nesta Vuelta. Contudo, com um contra-relógio na terça-feira que poderá beneficiar Primoz Roglic, depois deste sábado ninguém, nem o próprio esloveno, terem atacado, o Angliru é a subida onde muito se poderá jogar o futuro de uma Vuelta que acaba daqui a uma semana. Recorde-se que são apenas 18 etapas e não as 21 normais de uma prova de três semanas.

Um rápido ponto da situação para este domingo: Roglic e Carapaz empatados, Martin a 25 segundos, Carthy ficou agora a 58, Enric Mas (Movistar) a 1:54 e o companheiro Soler está agora a 2:44. Todos os restantes têm mais de três minutos para recuperar.

Classificações completas, via ProCyclingStats.

O protesto

A 11ª etapa começou com o pelotão a fazer um pequeno protesto, atrasando o arranque da etapa. A causa? A mudança de regras que levou Carapaz a perder a camisola vermelha na sexta-feira.

Chris Froome encabeçou o protesto em nome dos ciclistas e em defesa do seu companheiro da Ineos Grenadiers. Os corredores contestaram a decisão dos comissários em alterarem a regra dos três segundos para um. Ou seja, como era considerada uma etapa para sprinters, apesar da fase final ter uma curta subida a 5% para a meta, a regra que estava definida é que só haveria cortes se este fosse de três segundos ou mais do vencedor para os restantes atletas.

Não acabou ao sprint e foi Roglic o vencedor. O esloveno cortou a meta com uma pequena vantagem e os comissários optaram por aplicar a regra do corte por haver pelo menos um segundo entre primeiro e segundo. Isto significou que Carapaz perdeu três. Com os 10 de bonificação por vencer a tirada, Roglic ficou empatado na liderança, mas como tem melhores classificações nas etapas (ajuda as três vitórias), vestiu novamente a camisola vermelha.

Os ciclistas não gostaram da mudança de regras de última hora, com a decisão a ser justificada com os comissários a poderem "interpretar as situações como for necessário e aplicar qualquer excepção", segundo escreveu o jornal As, citando o director da prova, Javier Guillén.

O protesto apanhou a organização desprevenida e no final da etapa houve uma reunião de cerca de 20 minutos com representantes das equipas, em que foi explicado precisamente o que levou à decisão do dia anterior. Além de ser passado o desagrado pela atitude do pelotão, foi ainda dito que todos os finais de etapas seriam revistos quanto à regra dos três ou um segundo. Porém, só a etapa de Madrid, a última, é para sprinters, pelo que o problema não deverá voltar a surgir.

12ª etapa: La Pola Llaviana/Pola de Laviana - Alto de L'Angliru, 109,4 quilómetros

E esta é então a etapa deste domingo. Com cinco subidas, duas de primeira categoria, antes da especial (e o Angliru é mesmo especial) para terminar o dia e a segunda semana da Vuelta. Segunda-feira é dia de descanso.

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27 de outubro de 2020

Como controlar na Volta a Espanha? A pergunta de difícil resposta

© Unipublic/Charly López/La Vuelta

Como controlar na Volta a Espanha? Ainda é algo que até equipas como a Ineos Grenadiers ou agora a Jumbo-Visma não descobriram. Conseguem estar na frente do pelotão e impor algum ritmo, mas não é fácil poder dizer que está tudo controlado. Há algo que há muito faz parte da génese da grande volta espanhola, principalmente desde que passou para a fase final do calendário: os ciclistas têm uma mentalidade muito mais atacante, muito mais auspiciosa e muito menos cautelosa, no que diz respeito em procurar os seus resultados.

Enquanto ainda se discutiam tácticas no Giro, na Vuelta era a loucura, num ano em que as corridas coincidiram durante seis dias. Ritmo elevados, ataques, não tem havido muita paz. O que é óptimo para o espectáculo, mas é uma dor de cabeça para a equipa que tem a camisola vermelha. É que até os principais rivais parecem arriscar mais quando se está em Espanha, comparativamente com Itália e França.

Grande parte desta mentalidade está relacionada precisamente por ser a última grande volta, onde muitos ciclistas tentam salvar algo da época, se eventualmente não correu bem. Ainda mais se algum falhou noutra prova de três semanas. E há o outro lado, de alguém que esteja muito motivado e há procura de um derradeiro sucesso, sem medo de arriscar, por não ter nada a perder.

Em 2020 entra na equação o ter sido um ano atípico, com menos corridas e há muito mais ciclistas e equipas a precisarem de sair desta época com uma vitória importante. Cofidis e Movistar são exemplo disso, enquanto a EF Pro Cycling está no lado de quem está num bom momento, com Michael Woods a ganhar a sétima etapa. Mas até há outro exemplo: a Jumbo-Visma. Ganhou dois monumentos e tem outras conquistas importantes, mas falhou o principal objectivo: o Tour.

Com um percurso muito montanhoso e etapas normalmente curtas - este último aspecto bem diferente do Giro -, além de um Outono bem chuvoso e de 18 tiradas em vez de 21, esta Vuelta torna-se imprevisível, ou quase. Afinal espera-se sempre que tudo possa acontecer!

Mais exemplos

Guillaume Martin (Cofidis) é um daqueles ciclistas a querer salvar algo de uma temporada marcada por um Tour que começou tão bem, mas que terminou em quebra. Na Vuelta está a ser o contrário: iniciou mal e está a melhorar, sendo já o líder da classificação da montanha.

Alejandro Valverde e toda a Movistar estão a ter um 2020 para esquecer. Já venceu uma etapa na Vuelta, mas olha para a geral com Enric Mas... Mas também com Soler e agora Valverde a quererem ganhar. O velho problema de demasiado ciclistas a pensarem em si próprios nesta formação... Depois da etapa desta terça-feira, os três estão no top dez.

Foi um dia em que a Ineos Grenadiers teve de se aplicar para não deixar que um grupo de quase 40 ciclistas ganhasse demasiada vantagem, para não colocar em risco a liderança de Richard Carapaz. A Jumbo-Visma mudou de táctica, pelo menos por um dia. Sepp Kuss e George Bennett foram para a frente e o segundo colocou-se como possível plano B a Primoz Roglic, ainda que 2:39 minutos seja uma diferença que não assuste em demasia Carapaz, mas abre as opções da Jumbo-Visma.

E temos ainda Rui Costa. O português da UAE Team Emirates anda muito activo nesta Vuelta. O campeão nacional ameaça alcançar uma vitória, mostrando que preparou muito bem a sua presença na grande volta espanhola.

Classificações completas, via ProCyclingStats.

8ª etapa: Logroño - Alto de Moncalvillo, 164 quilómetros

Numa Vuelta tão difícil de controlar, a boa forma dos candidatos é essencial. Richard Carapaz afirmou que não tem qualquer problema em já ter vestido a camisola vermelha, querendo mantê-la até final. São etapas como a desta quarta-feira que se joga muito na luta pela geral e todos os que estão a apresentar-se fortes - Daniel Martin (Israel Start-Up Nation), Hugh Carty (EF Pro Cycling), Enric Mas, Felix Grosschartner (Bora-Hansgrohe), Esteban Chaves (Mitchelton-Scott) -, além de Roglic e Carapaz têm mais uma oportunidade para se afirmarem notop dez. Este pareceu ficar um pouco definido logo nos primeiros dias. Porém, na sétima etapa (Vitoria-Gasteiz - Villanueva de Valdegovia, 159,7 quilómetros), percebeu-se que ainda há muito em jogo.

»»A importância da força mental««

21 de outubro de 2020

Duas etapas e há quem só pense em tentar chegar a Madrid

© La Vuelta
Dois dias de Volta a Espanha e já há quem apenas queira chegar a Madrid, apesar de ter começado como candidato. É o caso de Tom Dumoulin (Jumbo-Visma), que não hesita em entregar a liderança da equipa a Primoz Roglic e só espera ainda poder ser útil. E mesmo assim, estar a 9:08 minutos nem é das piores situações. Thibaut Pinot está a 25:19, com David Gaudu a ser o líder da Groupama-FDJ, mas, ainda assim, tem 3:20 para recuperar. Outro francês, Guillaume Martin (Cofidis) também desiludiu (9:25). Daniel Martínez (EF Pro Cycling) está a 23:30, mas sofreu uma queda na primeira etapa. E Chris Froome (Ineos Grenadiers) já vai em 29:53 de desvantagem!

Está a ser um início de Vuelta muito atípico. Com as etapas na Holanda canceladas devido à pandemia, a corrida começou logo com duas tiradas de média montanha. O ritmo elevado ajudou a eliminar rapidamente alguns ciclistas, colocando muitos a fazer contas desde cedo.

Porém, também se verifica o oposto. Ou seja, quem esteja a começar bem melhor do que o esperado. É o caso de Daniel Martin e Esteban Chaves. O irlandês da Israel Start-Up Nation está à procura de salvar algo de um 2020. Depois de uma queda no Critérium du Dauphiné, Martin ficou fisicamente limitado para o seu grande objectivo: o Tour. Martin é segundo na Vuelta, a apenas nove segundos de Roglic.

Sabe bem o que é fazer top dez em grandes voltas, tendo quatro, incluindo um na Vuelta (em 2014). Porém, o irlandês tem vindo a ser cada vez mais irregular nas suas exibições. Seria mais expectável que estivesse em Espanha à procura de etapas, mas, por agora, talvez possa pensar noutras ambições.

Se há muito que não se vê Martin no seu melhor nas grandes voltas, Esteban Chaves anda a ser riscado de qualquer candidatura. O ciclista da Mitchelton-Scott falhou grande parte da temporada de 2018 ao ser diagnosticado o vírus Epstein-Barr. No regresso, na época seguinte, venceu uma etapa no Giro, mas tem sido uma luta para ser competitivo.

Está a 17 segundos de Roglic e pelo menos será bom para o motivar e a própria equipa, ainda que seja cedo para perceber se pode estar de facto na luta por um pódio, ou, pelo menos, pelo top dez.

Com Primoz Roglic e Richard Carapaz (Ineos Grenadiers - a 11 segundos) a assumirem-se como os principais candidatos após este início louco de Vuelta, a Movistar vê Enric Mas a mostrar que poderá ser a salvação da equipa em 2020. O espanhol está também a 17 segundos da camisola vermelha, com Marc Soler a querer entrar na equação. A primeira etapa não foi muito positiva, mas na segunda recuperou algum tempo, estando agora a 1:04. O problema da Movistar poderá ser se Soler quiser estar por conta própria e não ficar preso na ajuda a Mas. Não seria um cenário inédito.

O melhor para a Movistar foi que Soler venceu a etapa entre Pamplona e Lekunberri (151.6k). E é mesmo razão para uma grande celebração. É que foi apenas segunda vitória da época para a equipa. Não é engano. Duas vitórias em 2020, a primeira tendo sido numa prova de categoria 1.1 (Pollença-Andratx), em Fevereiro. Foi Soler quem ganhou. Mesmo com um ano marcado pela pandemia é, ainda assim, um péssimo registo para a Movistar.

Esta Vuelta começou a mil à hora e mesmo com Roglic e Carapaz a destacarem-se, há que não esquecer que ambos fizeram o Tour. O primeiro já se sabe, perdeu no contra-relógio final a camisola amarela para Tadej Pogacar (UAE Team Emirates). O segundo começou por ter de ajudar Egan Bernal e acabou a tentar sarar um pouco do orgulho ferido da Ineos Grenadiers. Poderão pagar o esforço com o avançar da Volta da Espanha.

Esta Vuelta ainda vai ter muita história para contar.

Os portugueses

Rui Costa (UAE Team Emirates) foi novamente o melhor português. Até está a 2:36 minutos de Roglic, o que não é nada mau, tendo em conta o resultado de ciclistas que pretendiam estar bem mais perto do esloveno. Porém, o plano de Rui Costa continua a ser lutar por etapas.

Nelson Oliveira teve muito trabalho na segunda tirada e vai continuar a ter, ainda mais com Enric Mas e Marc Soler a quererem discutir a corrida. E sem esquecer que Alejandro Valverde está a 1:07 do líder. O português vai ter uma Vuelta intensa.

Ivo e Rui Oliveira, companheiros de Rui Costa, e Ricardo Vilela (Burgos-BH) também têm estado a trabalhar, ainda que o ciclista da equipa espanhola poderá mais adiante na corrida tentar lutar por uma etapa.

3ª etapa: Lodosa - La Laguna Negra-Vinuesa, 166,1 quilómetros

Ao terceiro dia... mais montanha. Será uma chegada inédita, de primeira categoria, com a subida em Laguna negra a ter 8,6 quilómetros, com uma pendente média de 5,8%. A parte final será a mais difícil, acima dos 9% e a 10& já perto da meta.

»»Não era bluff de Chris Froome««

»»Uma Vuelta de despedida para Froome e com muitos portugueses««

20 de outubro de 2020

Não era bluff de Chris Froome

© Team Ineos Grenadiers
Foi um início de Volta a Espanha a todo o gás. A corrida começou logo com montanha e principalmente arrancou com vários ciclistas com muita vontade de fazer diferenças logo no primeiro dia. Primoz Roglic venceu e já está de vermelho, camisola que conhece bem, pois vestiu-a em 2019 na chegada a Madrid. Bom sinal para o vencedor da edição passada, ao contrário daquele que conquistou a corrida em 2017 e também em 2011. Chris Froome não aguentou o elevado ritmo.

O britânico já dito tinha na conferência de imprensa antes da corrida que Richard Carapaz era o líder da Ineos Grenadiers. Sendo Froome, talvez se quisesse acreditar que pudesse ser bluff. Mas não. O ciclista continua longe, muito longe do seu melhor. Ficou para trás na penúltima subida, quando era precisamente a Ineos Grenadiers que estava na frente do grupo a trabalhar. Mais significativo foi ver Froome ficar sozinho. Ninguém esperou por ele. Carapaz é mesmo a aposta para a geral.

Mais do que uma desilusão, afinal não se pode dizer que seja uma surpresa ver Froome assim, a prestação do britânico provoca alguma tristeza. É um campeão. Venceu as três grandes voltas, sete ao todo. Foi um grande líder da então Sky, que se unia em seu redor. Agora é deixado para trás.

Aquela queda no Critérium du Dauphiné, há mais de um ano, faz aumentar as dúvidas se Froome alguma vez conseguirá ser novamente competitivo. A Ineos Grenadiers já está seguir em frente. Froome é o passado. A Israel Start-Up Nation, próxima equipa do ciclista de 35 anos, é que poderá estar a ficar um pouco preocupada com o investimento que se prepara para fazer.

Froome tenta passar a imagem que está tudo bem. Que o importante é Carapaz ter começado bem a Vuelta. Tenta justificar a sua dificuldade com uma queda que provocou alguns cortes, mas não foi só isso. Pode dizer o que quiser, mas as suas prestações serão sempre um foco de preocupação se continuarem a ser como a desta terça-feira, que foi igual ao que já se tinha visto antes do Tour.

"Pessoalmente fui um pouco apanhado na penúltima subida. Comecei muito atrás e fiquei preso na queda. Estou muito feliz por estar aqui a competir numa grande volta, dois anos depois. Vou abordar a corrida um dia de cada vez e tentar fazer o máximo possível durante a prova", disse o britânico. E acrescentou: "As sensações foram boas. Penso que ainda me falta um pouco daquele pico de forma por não ter competido muito. Mas hoje foi melhor e espero continuar a melhorar durante a corrida."

Perder mais de 11 minutos no primeiro dia é difícil ser visto como algo positivo... Tem de facto muito a melhorar e terá de o fazer sozinho. Carapaz está a cinco segundos de Roglic e já no Tour demonstrou que merece ter a equipa a apoiá-lo.

Depois de falhar no Tour, de estar a "limpar" etapas no Giro, a Ineos Grenadiers vai tentar não sair de 2020 sem um bom resultado na geral de uma grande volta.

© Unipublic/Charly López/La Vuelta
Etapa complicada

Já não bastava o sobe e desce do País Basco, a região recebeu o pelotão com mau tempo e estradas molhadas, muito perigosas (houve uma quantas quedas e três ciclistas já abandonaram). Não houve descanso nos 173 quilómetros entre Irún e Arrate.

A última das subidas, de primeira categoria, acabou por definir desde cedo aqueles que poderão ser os principais candidatos. Roglic (Jumbo-Visma) e Carapaz são, para já, os cabeça-de-cartaz, mas atenção a Enric Mas. O ciclista da Movistar apareceu muito bem.

Rui Costa também se mostrou, mas acabou por quebrar na derradeira ascensão. Porém, o objectivo do português é de conquistar etapas. Deixou boas indicações. Os companheiros da UAE Team Emirates, Ivo e Rui Oliveira, assim como Nelson Oliveira da Movistar, fizeram o trabalho que lhes era exigido. Ricardo Vilela (Burgos-BH) será um ciclista que ainda se poderá ver na luta por uma etapa nos próximos dias.

Classificações completas, via ProCyclingStats.

2ª etapa (21 de Outubro): Pamplona - Lekunberri, 151,6 quilómetros

Mais uma etapa de média montanha, mas desta feita a parte final é a descer. A ver vamos se o pelotão vai manter o ritmo alucinante do primeiro dia. É certo que esta Vuelta "só" tem 18 etapas em vez das 21 e que com a evolução da pandemia a não ser nada favorável, o dia de amanhã é sempre incerto. Ainda assim, foi um arranque muito acelerado - média de quase 40 quilómetros/hora - que pode repetir-se esta quarta-feira.

»»Uma Vuelta de despedida para Froome e com muitos portugueses««

17 de setembro de 2020

O momento da Ineos Grenadiers (e Landa finalmente atacou!)

Na noite de ontem (quarta-feira), no Twitter, estava um post que chamou a atenção: "O Landa já atacou?" Era em tom de brincadeira que alguém recordava como o espanhol não tinha dado continuidade ao excelente trabalho da Bahrain-McLaren na etapa. 24 horas depois, Mikel Landa atacou! Não deu em nada quanto aos seus objectivos para a geral. Mas lá atacou. Porém, apesar de se ter de preparar para todas as críticas que vai ser alvo no final do Tour, o dia pertenceu à Ineos Grenadiers. Sim, Primoz Roglic tem o Tour quase ganho e, por isso, terá o seu destaque a devido tempo, porque, na 18ª etapa, a formação britânica mostrou que pode ter perdido a Volta a França, mas não se perdeu uma equipa.

Depois de dois dias em fuga, Richard Carapaz foi outra vez para a frente. Ele e Michal Kwiatkwoski cumpriram o que restava à Ineos Grenadiers alcançar: uma vitória de etapa e o bónus da liderança da montanha. Contudo, para história, mais do que o resultado, ficará a forma como os dois ciclistas trabalharam para deixar para trás os companheiros de fuga e como unidos cortaram a meta em La Roche-sur-Foron, depois de 175 quilómetros de constante sobe e desce.

Foram duas semanas e meio infernais para a formação britânica. Os tempos da Sky fazem parte do passado e por muito que a equipa tenha tentado, nada tem a ver com os seus anos de glória. Não ajudou Egan Bernal aparecer longe do seu melhor fisicamente e de ter recordado que ainda é um jovem com muito para aprender, apesar de já ter vencido o Tour. Não ajudaram as quedas, não ajudou o ambiente que rodeou a Ineos Grenadiers antes da corrida, com muito a se falar de Chris Froome e Geraint Thomas...

Aquele momento em que Kwiatkwoski (o vencedor da etapa) e Carapaz cortaram o meta foi libertação. De se libertarem de tudo o que de mau tem acontecido e começar definitivamente a construir uma nova fase, com novos rostos, sem esquecer ou desrespeitar aqueles que fizeram da então Sky uma equipa que marcou uma era no ciclismo.

Foi também um momento para a homenagem que talvez já pesasse em muitos dos elementos mais antigos da equipa, caso de Kwiatkowski. Ninguém esquece Nicolas Portal, o director desportivo tão importante no sucesso desta estrutura. A sua morte em Março, com apenas 40 anos, deixou um vazio na Ineos Grenadiers. O ciclista polaco não escondeu isso, nem a emoção quando, na conferência de imprensa, recordou Portal.

Uma etapa não apaga um Tour muito abaixo das expectativas da equipa, mas faz com que nem tudo sido em vão. Muitos de imediato se recordaram como em 1986 Bernard Hinault e Greg Lemond também cortaram a meta da mesma forma. Simbolismo completamente diferente. Mas ficará como um dos momentos que marcou o Tour de 2020, de uma equipa que bem estava a precisar de algo positivo, de algo motivador e unificador para o que ainda resta da temporada.

Tudo calmo para Roglic e Jumbo-Visma

As forças de Tadej Pogacar (UAE Team Emirates) terminaram e nestes dois últimos dias não houve espectáculo por parte do esloveno. Ainda assim, se tudo decorrer normalmente, terminar o Tour em segundo lugar, aos 21 anos, em ano de estreia e a menos de um minuto (57 segundos) - ou talvez um pouco acima, já que ainda falta o contra-relógio - é uma Volta a França para recordar e para marcar posição numa carreira muito promissora. A classificação da juventude também é dele. Ou seja, duas grandes voltas feitas, dois pódios, duas camisolas brancas.

Até Roglic pareceu em certo momento reconhecer como Pogacar foi um adversário de respeito, numa troca de palavras já na parte final da etapa. Miguel Ángel López (Astana) optou por segurar o terceiro lugar e não repetiu o ataque do dia anterior e que lhe valeu uma etapa e o acesso ao pódio. Roglic é que não por meias medidas e deixou bem claro no final da última subida, uma categoria especial em Col des Glières, na parte em sterrato, quem era o mais forte. Como tal se fosse preciso...

Falta o contra-relógio de sábado, mas sendo uma especialidade sua, na Jumbo-Visma já se deverá estar a preparar o champanhe e, claro, todos os adornos que as equipas têm para as grandes vitórias. Haverá uma bicicleta Bianchi amarela em Paris?

Nos próximos dois dias (mais a etapa de consagração no domingo), resta à Jumbo-Visma garantir a segurança em redor do seu líder e esperar que os azares continuem longe.

E Landa...

É inevitável falar de Mikel Landa. Se ontem foi um grande dia para a Bahrain-Mclaren em termos colectivos, o seu líder acabou por desiludir. Aliás, desiludiu durante todo o Tour. Durante 18 etapas esperou-se sempre para ver o espanhol cumprir o que tanto dizia ser capaz. Na Astana, na Sky, na Movistar, sempre quis ser líder único por acreditar que poderia vencer o Tour. Quando a oportunidade chega, mal se o vê.

O quinto lugar (se o mantiver no contra-relógio) é bom, mas tendo em conta que queria o primeiro, ou na pior das hipóteses o pódio... O ataque desta 18ª etapa pareceu mais uma espécie de pedido de desculpas pela falha do dia anterior, do que propriamente algo que fosse colocar Landa dentro dos seus objectivos iniciais. A Bahrain-McLaren - que mais uma vez trabalhou bem em equipa - merecia mais e Landa deveria ter mostrado mais.

O seu ataque acabou por servir para subir um pouco na geral, pois colocou em dificuldade Adam Yates (Mitchelton-Scott) e Rigoberto Uran (EF Pro Cycling), mas a Jumbo-Visma acabou por, sem grande dificuldade, apanhar Landa.

Classificações completas, via ProCyclingStats.

19ª etapa: Bourg-en-Bresse - Champagnole, 166,5 quilómetros

Estamos assim na recta final de um Tour que, sem grande espectáculo - principalmente quando se recorda o que aconteceu em 2019 -, está a caminho de ver as expectativas confirmadas: Primoz Roglic é o homem mais forte.

Para esta sexta-feira, é dia dos sprinters que bravamente sobreviveram aos Alpes tentar uma vitória, antes da grande etapa para estes ciclistas nos Campos Elísios. É também mais um dia para a Bora-Hansgrohe meter mãos à obra na tentativa de ganhar levar Peter Sagan a uma oitava vitória na classificação dos pontos. 52 pontos separam o eslovaco de Sam Bennett (Deceuninck-QuickStep).

Só há uma subida categorizada, mas o restante terreno não é plano. Poderá ser uma etapa bem animada devido a esta luta pela camisola verde.

(Fotografia: © ASO/Pauline Ballet)

»»Valeu López... Já Landa valeu pouco««

»»Chegou o momento de atacar Roglic e a Jumbo-Visma««

22 de novembro de 2019

Quando se uniu a Movistar ganhou... mas não repetiu a união

(Fotografia: © Giro d'Italia)
Alejandro Valverde não foi o ciclista ganhador de temporadas recentes e a Movistar até se ressentiu um pouco nos números finais de vitórias. Porém, a equipa espanhola finalmente conquistou uma grande volta, terminando com uma espera de três anos. E tendo em conta que as três semanas fazem parte da génese desta histórica estrutura, há razões para alguma satisfação. Mas não muita. É que acabou por ser uma época com mais do mesmo relativamente às lutas internas, numa equipa que tanta dificuldade tem a agir como tal. Se nesse aspecto foi mais do mesmo, já a preparação para 2020 causa estranheza. Haverá muitas mudanças, algo pouco normal num director como Eusebio Unzué, mais conhecido por contratar muito pouco, dando prioridade à continuidade, sempre com uma espinha dorsal quase intocável.

Muitas das equipas World Tour adorariam ter conquistado etapas nas três grandes voltas e uma geral. Mas para a Movistar acaba por ficar mais vincado o novo desaire no Tour, em que o mal amado Nairo Quintana conquistou uma etapa para salvar um pouco a honra numa corrida em que apostar pelo segundo ano consecutivo no tridente Quintana/Landa/Valverde correu novamente mal. O colombiano estava isolado, enquanto Landa fez a sua corrida, com um Valverde a ser tudo menos um elemento de união.

Poder-se-ia pensar que depois de no Giro Richard Carapaz ter conseguido unir a equipa, inclusivamente Landa trabalhou para o equatoriano, resultando na conquista da grande volta - a última havia sido a Vuelta de 2016 com Quintana -, que a Movistar continuasse a ter um colectivo que funcionasse como tal. Mas não.

Contudo, próprio Carapaz antes de alcançar esse feito, contrariou a ideia de um Landa como líder único no Giro, assumindo-se sempre como co-líder e atacando em etapas para garantir que os responsáveis o vissem como tal. No Tour foi cada um por si entre os chefes-de-fila, enquanto na Vuelta foi a batalha Valverde (segundo)/Quintana (quarto). E não ajudou à imagem da equipa os seus ciclistas terem atacado o eventual vencedor Primoz Roglic (Jumbo-Visma) quando este caiu numa etapa, com a justificação que tentou aproveitar o vento para fazer cortes no pelotão. A organização acabou por intervir e apenas ficou a polémica, tanto da atitude da Movistar, como da decisão dos comissários de esperar que o pelotão ficasse novamente junto, num precedente que ainda haverá dar que falar no futuro.
Ranking: 7º (10.398 pontos) 
Vitórias: 21 (incluindo a geral no Giro e duas etapas, uma no Tour e duas na Vuelta) 
Ciclistas com mais triunfos: Alejandro Valverde e Richard Carapaz (5)
Desentendimentos à parte, a Movistar ressentiu-se da falta de um Valverde avassalador, como tem acontecido em anos recentes. Aos 39 anos, o espanhol teve alguns problemas físicos e não conseguiu estar na discussão de tantas corridas como costumava. Nem nas suas Ardenas apareceu ao seu melhor. Na época em que vestiu a camisola de campeão do mundo, Valverde deu as primeiras mostras de estar na recta final da carreira. Mas ainda falta ir a Tóquio tentar a título olímpico.

Esta é uma equipa muito dependente das suas figuras para conquistar vitórias, mas a escolha recaiu em trazer novas caras para 2020, num corte bastante radical com o passado recente. Sai Landa (Bahrain-Merida), Quintana (Arkéa-Samsic), um dos importantes homens de trabalho Winner Anacona (Arkéa-Samsic) e Rubén Fernández vai procurar relançar a carreira como líder na Fundação Euskadi. Jasha Sütterlin sai ao fim de um ano para a Sunweb e Daniele Bennati terminou a carreira. Carlos Betancur, Rafael Valls, Jaime Rosón e Jaime Castrillo também vão mudar de ares. Depois há ainda um Andrey Amador que renovou, mas devido a um desentendimento entre Unzué e o empresário Giuseppe Acquadro, o ciclista que tem sido um elemento imprescindível na Movistar está de saída, talvez para a Ineos.

A equipa britânica garantiu ainda um Carapaz que inicialmente estaria mais tentado em continuar na Movistar para ser líder indiscutível, mas com a influência de Acquadro assinou por uma Ineos nada preocupada em ter agora quatro ciclistas que podem e querem discutir grandes voltas.

Com tanta saída, haverá naturalmente entradas para compensar, curiosamente de muitos estrangeiros, numa equipa que sempre abriu muito as portas aos ciclistas da casa. Foi buscar vários jovens como o britânico Gabriel Cullaigh, o alemão Juri Hollman, o americano Matteo Jorgenson, o suíço Johan Jacobs e dois colombianos, Einer Augusto Rubio e Diego Alba. Contratou também dois espanhóis: Sergio Samitier e Iñigo Elosegui. Todos vão fazer a sua estreia ao mais alto nível.

Porém, o mais relevante é como a Movistar parece querer deixar de dividir lideranças, Enric Mas (Deceuninck-QuickStep) foi contratado para ser o líder para as grandes voltas, com Dario Cataldo a deixar a Astana para reforçar este bloco. Da mesma equipa chega um Davide Villella que quer concentrar-se nas clássicas.

Uma nova era vai começar na Movistar, com Enric Mas a ter a partir de agora o enorme peso de ser um espanhol à frente da única equipa espanhola do World Tour. E já foi lançado o repto para os 40 anos da estrutura, ganhar a Volta a França, a única grande volta que falta conquistar com o nome Movistar. Com tanta saída, Marc Soler espera que possa ter nova oportunidade de lutar pela geral numa das grandes voltas, Giro ou Vuelta.

Quem continua a fazer parte da espinha dorsal é o português Nelson Oliveira. Renovou por mais duas temporadas. É um ciclista que está grande parte da temporada muito preso a um papel de gregário que desempenha tão bem, com 2019 a não ter sido excepção. Porém, continua vivo o objectivo de vencer um contra-relógio, a sua especialidade, num dos grandes palcos, sendo que a maior liberdade é dada nas clássicas. Oliveira é um ciclista exemplar que os responsáveis da Movistar não dispensam.

»»Mitchelton-Scott cada vez mais dependente dos gémeos Yates««

»»Contraste de emoções na época da Lotto Soudal««