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3 de janeiro de 2019

Vamos falar do Giro. Sim, já

(Fotografia: Giro d'Italia)
Ainda só é dia 3 de Janeiro, as equipas começaram a fazer as malas para a primeira corrida World Tour do ano na Austrália, mas a verdade é que muito se fala da Volta a Itália, com boas razões para tal, mesmo que seja apenas em Maio. A 102ª edição está a atrair vários dos líderes das equipas, em detrimento do Tour. Alguns até vão também a França, mas estão colocar o Giro como prioridade. Nem é difícil perceber as razões pelas quais o encanto da Volta a França está um pouco esbatido. Bob Jungels (Deceuninck-Quick Step) até explica de forma muito simples a razão pelo qual o Giro está a ser tão atractivo.

"É uma das coisas boas do Giro, não é uma corrida tão controlada como, digamos, o Tour." Há mais razões, claro, contudo, perante o domínio da Sky, que não se espera que seja menor este ano, mesmo com a incerteza quanto ao futuro da equipa (que até já poderá estar decidido nessa altura), os ciclistas demonstram que querem estar onde acreditam que podem lutar por uma vitória. O top dez é uma coisa bonita de se fazer, ainda mais no Tour, mas ganhar o Giro é um triunfo numa grande volta.

"As minhas hipóteses de ganhar o Giro são simplesmente muito melhores do que ganhar o Tour", afirmou Tom Dumoulin (Sunweb), que admitiu que o plano inicial era apostar tudo na Volta a França. O percurso deixou-o desiludido e, depois de falar com a equipa, resolveu regressar a Itália e tentar um segundo triunfo. Para Dumoulin há outra razão que o influenciou mais do que uma Sky dominadora: os contra-relógios. O Giro terá três, num total de 58,5 quilómetros (só um terá 34,7), enquanto no Tour está a diminuir-se cada vez mais esta vertente: dois contra-relógios de 27 quilómetros cada.

Por esta mesma razão Primoz Roglic (Jumbo-Visma) também se deixou seduzir por Itália, depois de em 2018 ter percebido que tem mesmo o que é preciso para lutar por uma grande volta. Fez um Tour brilhante, ficando à porta do pódio. Agora quer chegar mais alto e é no Giro que vai tentar fazer um pouco mais de história para a Eslovénia. O mais curioso da equipa holandesa é que ainda em Dezembro anunciou o oito para o Giro. A ajudar Roglic estará uma das revelações de 2018, Antwan Tolhoek, mais Laurens de Plus, Floris de Tier, Jos van Emden, Koen Bouwman, Paul Martens e Robert Gesink. Equipa bem interessante.

Já a pensar mais nas sete chegadas em alto e em completar o que falhou em 2018, Simon Yates (Mitchelton-Scott) escolheu regressar a Itália, para desta vez tentar levar a camisola rosa até final. O Tour pode esperar um pouco mais para o britânico, vencedor da Vuelta.

Ilnur Zakarin (Katusha-Alpecin) e Rafal Majka (Bora-Hansgrohe) - atenção a Davide Formolo -, juntamente com os homens da casa Vincenzo Nibali (Bahrain-Merida) e Fabio Aru (UAE Team Emirates), vão colocar o Giro no topo das prioridades, em detrimento da Volta a França. Mas há mais. A Movistar vai levar Mikel Landa e Alejandro Valverde, com o primeiro a querer acabar com as dúvidas se pode mesmo ganhar uma grande volta. Vai ainda Richard Carapaz, um voltista em evolução.

Por parte da CCC, a aposta poderá passar por Amaro Antunes. A equipa arranca nesta nova fase (a formação polaca comprou a estrutura da BMC) a pensar mais nas clássicas com Greg van Avermaet, o que poderá dar ao ciclista algarvio uma excelente oportunidade para se mostrar nas grandes voltas. O veterano Laurens ten Dam e o senhor da barba Simon Geschke são outros dois nomes apontados à corrida italiana.

Para o fim ficam dois colombianos de quem muito se espera. Um quer em 2019 abrir quer definitivamente a contagem de grandes voltas no seu currículo. Ou outro quer continuar a conquistar o World Tour de rompante.

Miguel Ángel López não quer ainda nada com o Tour. O seu discurso não podia ser mais directo: vai ao Giro para ganhar. É um ciclista com tanta qualidade que parece inevitável que ganhe uma grande volta, mas de expectativas não se vive. Vive-se de confirmações e resultados. O colombiano quer que 2019 seja o seu ano. E a Astana até vai enviar Ion Izagirre para apoiar López, mesmo que o espanhol deseje ser ele próprio um líder. Porém, a sua missão será de gregário.

Depois haverá Egan Bernal. Com Geraint Thomas a querer ir novamente ao Tour depois de o ter vencido em 2018 e com Chris Froome a apontar tudo à quinta conquista em França, a Sky vai lançar o jovem colombiano. Ao segundo ano no World Tour, Bernal terá já a sua oportunidade, mais do que merecida. Pode não ser o líder principal da Sky, nas Bernal não deixa de ser uma primeira escolha, já que os mais velhos, esses sim, mantêm o encanto por um Tour que é cada vez menos aquela corrida que todos querem estar sempre presentes. Quando se fala em vencer grandes voltas, o Giro e a Vuelta têm cada vez mais encanto! E espectáculo!

Temos ainda ciclistas que estando numa segunda linha, não deixam de ter valor. Com a chegada de Richie Porte, Bauke Mollema é novamente uma segunda escolha, tal como aconteceu em 2017, com Alberto Contador na Trek-Segafredo. E verdade seja dita, que até poderá fazer bem ao holandês. Mollema vai ao Giro, tal como Michael Woods da EF Education First e Thomas de Gendt (Lotto Soudal). O belga é mais um caça etapas, mas no Giro fez terceiro na geral em 2012. Este ano decidiu competir nas três grandes, em mais uma grande aventura de um ciclista que adora um bom desafio.

A AG2R vai deixar Tony Gallopin mostrar que tem dotes de voltista, após uma transformação que deu os primeiros sinais positivos na Vuelta. Já a Groupama-FDJ centra novamente as atenções de Thibaut Pinot no Tour e, para já, é para o sprint que escolheu levar Arnaud Démare, para medir forças com Elia Viviani (Deceuninck-Quick Step).

O Giro e também a Vuelta vão tendo cada vez mais ciclistas que as colocam como objectivos. O futuro da Sky poderá mudar este panorama, caso a equipa acabe, mas, para já, quem sai a ganhar é a Volta a Itália (de 11 de Maio a 2 de Junho). Os candidatos à maglia rosa são muitos e muito bons!

»»Giro com sete chegadas em alto e três contra-relógios««

13 de dezembro de 2018

Lotto-Jumbo atingiu a maturidade

(Fotografia: Facebook Lotto-Jumbo)
Seis anos depois de uma crise que ameaçou o futuro da equipa, a Lotto-Jumbo atingiu a maturidade. As jovens apostas evoluíram e confirmaram o seu potencial. Houve muitas vitórias em corridas importantes, luta por pódios nas grandes voltas, com o Tour a passar a ser um objectivo realista. A formação holandesa está a ver o seu trabalho de anos ser recompensado. Está a ver a sua paciência em esperar que os seus ciclistas chegassem ao ponto em que agora se apresentam para começarem a render ao mais alto nível em várias corridas, das mais importantes e não apenas esporadicamente.

Em 2018, a Lotto-Jumbo deixou de ser uma equipa de segunda linha, com um ou outro ciclista capaz de se mostrar em alguns grandes momentos. Passa a estar na linha da frente para bons resultados e para intrometer-se entre os tubarões. Em 2019, a Jumbo-Visma, como se passará a chamar, será uma equipa adulta e que terá os seus corredores entre os favoritos a algo de muito especial, quer Wout van Aert chegue já, ou só em 2020.

Antes de se falar da novela do mercado de transferências, o destaque tem de ir para um Primoz Roglic que provou ser mesmo um ciclista de três semanas, para um Steven Kruijswijk que comprovou que, afinal, ainda pode repetir exibições como a do Giro que lhe escapou em 2016, um Dylan Groenewegen que está feito num senhor sprinter, dois jovens já deixaram garantias que são o futuro - Sepp Kuss e Antwan Tolhoek -, ficando só um ligeiro dissabor com George Bennett. A época não foi má para o neozelandês, mas esperavam-se exibições mais fortes, principalmente no Giro, mas também na Vuelta.

Esta tem sido uma estrutura que com a saída da Rabobank, aguentou-se uma temporada sem patrocinador principal, muito devido à persistência do director Richard Plugge. A reconstrução foi feita mediante o crescimento sustentável económico da equipa. Sem estrelas, mas a criá-las. Com Dylan Groenewgen a ganhar no Tour (duas vezes) e noutras corridas por etapas (venceu os dois sprints na Volta ao Algarve, por exemplo), a conquistar clássicas (Kuurne-Bruxelles-Kuurne foi a de maior destaque), o holandês de 25 anos está a tornar-se num caso sério de sucesso. Já só se espera mais e cada vez melhor de um Groenewegen, que é um dos lados de uma rivalidade que promete ser intensa com Fernando Gaviria. Só Elia Viviani (Quick-Step Floors) ganhou mais este ano do que o holandês: 14 vitórias.

Com Primoz Roglic a prosseguir a sua capacidade para ganhar corridas de uma semana (mais uma vez a história da Lotto-Jumbo cruza-se com a Algarvia, já que o esloveno conquistou-a em 2017), o que o ciclista de 29 anos mais queria era comprovar que podia mesmo ser aposta também para as três semanas. Antes do Tour, venceu De forma consecutiva a Volta ao País Basco, à Romandia e a do seu país, Eslovénia. Chegou a França, onde começou de forma mais discreta, com Steven Kruijswijk a assumir maior protagonismo. Mas quando Roglic "abriu o livro"... Venceu uma etapa e pregou um enorme susto a Chris Froome, que além de ver Geraint Thomas a vencer o Tour, quase ficou fora do pódio. Porém, Roglic fraquejou numa sua especialidade, no contra-relógio, acusando o esforço do dia anterior.

Ainda assim, o quarto lugar de Roglic foi, a todos os níveis brilhante, ainda mais para quem começou a carreira apenas em 2013, tendo chegado à Lotto-Jumbo em 2016. Antes era um saltador de esqui. E dos bons, até que se lesionou com gravidade. Em 2019, Roglic vai ao Tour para alcançar mais e com a camisola amarela na mira.

Steven Kruijswijk reapareceu ao seu melhor e tem de estar orgulhoso de ter feito um quinto lugar no Tour e um quarto na Vuelta. Uma vitória de etapa não lhe teria ficado nada mal, mas foi importante ver como, aos 31 anos, recuperou a confiança que pode disputar uma grande volta, ainda que agora tenha de partilhar esse protagonismo com Roglic. Se os egos não chocarem, esta poderá tornar-se numa dupla interessante.


Ranking: 10º (7059 pontos)
Vitórias: 33 (incluindo três etapas no Tour, duas na Volta ao Algarve e a Kuurne-Bruxelles-Kuurne)
Ciclista com mais triunfos: Dylan Groenewegen (14)

Onde fica George Bennett? Para quem embateu violentamente contra um carro antes da Volta aos Alpes começar, tendo feito quinto nessa corrida e depois oitavo no Giro, não se pode fazer grandes críticas. Apesar de outros bons resultados, exibições sólidas, um 10º lugar na Lombardia, antes, na Vuelta as expectativas saíram goradas. Não se viu o melhor do neozelandês, contudo, Bennett poderá ser novamente aposta para Giro e Vuelta, mas no Tour, terá de esperar. Claro que se a Lotto-Jumbo quiser surgir forte em França, para discutir com uma Sky - o inevitável termo de comparação - Bennett poderá ser um gregário de luxo naquela corrida, em prol de um bem maior: uma possível luta pela camisola amarela, mesmo que não seja ele o líder.

Será preciso perceber como quererá a Lotto-Jumbo jogar as suas cartas, agora que tem garantias de estar a um nível superior. E quem agarrou um lugar entre os gregários de luxo foi Antwan Tolhoek. Tem apenas 24 anos e na sua estreia no Tour... Que nível que apresentou! Impressionou tudo e todos, percebendo-se bem porque no início da temporada recebeu uma segunda oportunidade depois de ter estado envolvido no caso dos comprimidos para dormir. Tolhoek foi um dos ciclistas que tomou medicação sem o conhecimento do médico da equipa, numa situação que levou ao despedimento de Juan José Lobato, com Tolhoek e Pascal Eenkhoorn a serem perdoados, mas a ficarem sob apertada vigilância. Ambos aproveitaram bem o perdão.

Outro jovem que se vai afirmado é Sepp Kuss (24 anos). Foi em casa que se apresentou ao seu melhor, ao conquistar a The Larry H.Miller Tour of Utah. Foi uma das contratações de 2018, pelo que foi um ano de adaptação e para evoluir. O início não foi fácil, com alguns abandonos, mas foi estabilizando e foi chamado para a Vuelta. Tem características que fazem dele um ciclista que a equipa iniciou o trabalho já feito com outros corredores, que agora estão na ribalta. Mais discreto que Tolhoek, mas ambos têm muito potencial a ser explorado.

A juventude de uns é contraposta pela experiência essencial para o equilíbrio que a Lotto-Jumbo encontrou. Jos van Emden, Lars Boom e a locomotiva Robert Gesink, tal como Kruijswijk, estão juntos desde o tempo da Rabobank. Boom até está de saída para a Roompot-Charles, do escalão Profissional Continental, mas a que passará a ser Jumbo-Visma (este último patrocinador foi anunciado há poucos dias), procura apostar na continuidade, mantendo a maioria do plantel e reforçando com nomes bem interessantes.

Claro que à cabeça está Tony Martin, afinal é um pentacampeão do mundo de contra-relógio, ganhou etapas no Tour, conquistou corridas como o Paris-Nice, o Eneco Tour e a Volta ao Algarve. No entanto, também é verdade que nos últimos dois anos andou desaparecido na Katusha-Alpecin. Está naquela lista de ciclistas que sai da Quick-Step Floors e não consegue manter o nível exibicional. A Jumbo-Visma espera ver um pouco do melhor do alemão que, aos 33 anos, vai tentar reavivar a sua carreira.

Porém, é Laurens de Plus quem acaba por ser a contratação de maior destaque, dada a expectativa que poderá reforçar o bloco das grandes voltas. O belga, de 23 anos, estava em fase de evolução na Quick-Step Floors, mas a indefinição da equipa, obrigou o seu director, Patrick Lefevere, a ter de abrir mão de alguns ciclistas, pois o novo patrocinador chegou já tarde na temporada..

Lennard Hofstede é outro jovem talento, da mesma idade que também está a desenvolver-se num bom ciclista para provas por etapas e para algumas clássicas. É de certa forma um regresso a casa do holandês, que esteve na equipa de desenvolvimento da Rabobank, antes de assinar por duas temporadas pela Sunweb. Também desta equipa chega Mike Teunissen. O holandês, de 26 anos, é homem para estar ao lado de Groenewegen nas clássicas e sprints. Taco van der Hoorn (25 anos, da Roompot-Nederlandse Loterij) é ciclista para as clássicas, tal como Wout van Aert.

O belga mais pretendido do momento está envolvido numa questão judicial depois de ter rescindido contrato com a Vérandas Willems-Crelan. A equipa levou a questão a tribunal, enquanto o ciclista recorreu à UCI para lhe permitir assinar já pela Jumbo-Visma, com quem iniciariá uma ligação em 2020 se não o puder fazer já, num acordo que partia do princípio que Van Aert terminaria contrato no final de 2019. A UCI deu luz verde, mas à condição, pois se o tribunal der razão à Vérandas Willems-Crelan, então quem contratar Van Aert poderá ser obrigado a pagar uma indemnização.

A Jumbo-Visma bem gostaria de assinar já a estrela do ciclocrosse e que este ano demonstrou que entre a lama da Strade Bianche e o pavé de Flandres e Roubaix, tem tudo para ser um ciclista de sucesso também na vertente de estrada. Ainda se espera pelo próximo episódio desta novela sem fim à vista e que poderá afastar Van Aert da competição em 2019 (pode ler mais pormenores neste link).

Permanências: Dylan Groenewegen, Primoz Roglic, Steven Kruijswijk, George Bennett, Antwan Tolhoek, Koen Bouwman, Floris de Tier, Pascal Eenkhoorn, Robert Gesink, Amund Grondahl Jansen, Sepp Kuss, Tom Leezer, Bert-Jan Lindeman, Paul Martens, Daan Olivier, Neilson Powless, Timo Roosen,  Jos van Emden, Danny Van Poppel e Maarten Wynants.


Contratações: Tony Martin (Katusha-Alpecin), Laurens de Plus (Quick-Step Floors), Mike Teunissen (Sunweb), Lennard Hofstede (Sunweb), Taco van der Hoorn (Roompot-Nederlandse Loterij) e Jonas Vingegaard (ColoQuick).

»»Época com muitos quase, mas com uma certeza chamada Latour««

»»Mais investimento, novas figuras, mas o mesmo velho problema e um Aru irreconhecível««

27 de julho de 2018

O renascer de uma equipa

(Fotografia: © ASO/Bruno Bade)
Estabilidade. Uma palavra-chave para o renascer de uma equipa que nos finais dos anos 90 e na primeira década do século era das mais forte do pelotão. A então Rabobank estava na luta pelas grandes corridas, com planteis fortes e durante quase duas décadas, o banco holandês foi um patrocinador importante, inclusivamente para o ciclismo feminino e de formação. Foi a este último que se agarrou quando em 2012 bateu com a porta à elite devido às alegações de doping. Foi um rombo numa estrutura que teve em Richard Plugge um director que se recusou a deixar cair a equipa. A reconstrução foi difícil e a incerteza foi muita, mas 2018 está a tornar-se no ano em que há certezas que a agora denominada Lotto-Jumbo começa a mostrar potencial para regressar ao topo.

Em 2016, Steven Kruijswijk quase conseguiu dar uma inesperada vitória numa grande volta. Uma queda e Vincenzo Nibali tiraram-lhe o Giro. Escapou um triunfo na geral de uma grande volta que não acontece desde que Denis Menchov ganhou a Vuelta e o Giro, em 2007 e 2009, respectivamente. Kruijswijk não mais conseguiu aparecer àquele nível. Neste Tour tem estado muito bem, mas ofuscado por um brilhante Primoz Roglic. O saltador de esqui que deu em ciclista e que em três grandes voltas, ganhou sempre uma etapa. E na primeira vez em que lhe é concedido o estatuto de líder, está a 31 quilómetros de um contra-relógio - no qual é especialista - de conseguir o pódio, provavelmente tirando o lugar ao quatro vezes vencedor da Volta a França, Chris Froome.

Quando há dois anos venceu o contra-relógio no Giro, foi uma espécie de "Primoz quê?" Roglic é agora um nome bem conhecido - ainda mais em Portugal, onde venceu a Volta ao Algarve em 2017 - e nesta Volta a França conquistou um estatuto no pelotão que ele muito trabalhou, mas que ainda estava rodeado de alguma desconfiança. A sua qualidade como ciclista de provas de uma semana estava mais do que confirmada. Só este ano venceu a Volta à Romandia, ao País Basco e da "sua" Eslovénia. Agora confirma que é também um corredor de 21 etapas.

Esta sexta-feira, numa tirada espectacular nos Pirenéus, Roglic - que fará 29 anos em Outubro - foi irrepreensível. Saltou para o terceiro lugar e o segundo está a 19 segundos. Se Tom Dumoulin (Sunweb) tem razões para se preocupar, já Geraint Thomas (Sky) só terá de ser igual a ele próprio e evitar azares. 2:24 minutos será uma distância demasiado grande para perder em 31 quilómetros, mesmo que se esteja perante o vice-campeão do mundo. Ao contrário do campeão Dumoulin, Roglic não fez o Giro. Uma segunda vitória de etapa não é de afastar, tal como passar o holandês.

Depois há um Dylan Groenewegen (25 anos), vencedor de duas etapas neste Tour e que em 2017 ganhou nos Campos Elísios. Cada vez mais é um dos melhores sprinters da actualidade e está também a fazer o trabalho para se tornar num homem de clássicas. Kruijswijk merece o mérito de ter sido essencial nesta reconstrução da equipa, ele que ficou na estrutura desde os tempos da Rabobank, mas são Roglic e Groenewegen os rostos de uma Lotto-Jumbo que nas próximas grandes voltas não será mais uma simples outsider.

Mas estes são os nomes que se consagraram no maior palco de ciclismo do mundo. Contudo, há ainda um muito talentoso George Bennett, cujo oitavo lugar no Giro pode não ter sido bem o que esperava, mas este australiano ainda tem algo mais para dar e conquistar. Aos 24 anos, Antwan Tolhoek é uma esperança holandesa a receber a formação numa equipa que está a produzir bons ciclistas.

A par de Kruijswijk há ainda um Jos van Emden, um Lars Boom e a locomotiva Robert Gesink. Todos já com mais de 30 anos, todos do tempo da Rabobank e todos de confiança para o director Richard Plugge. Gesink não se tornou no voltista esperado, no entanto, o trabalho que hoje realizou para encurtar distâncias para o grupo de Mikel Landa (Movistar) e Romain Bardet (AG2R), explica porque o contrato foi renovado até 2021. Sozinho fez o trabalho de três ou quatro ciclistas da Sky! A vitória de Roglic na etapa também tem muito de Gesink.

Para o ano será apenas Jumbo, ainda  que não esteja excluída a entrada de outro patrocinador. A Lotto sai de cena, mas a cadeia de supermercados garantiu que a aposta será forte e até aumentada, comparativamente com este ano. É tempo de crescer. O passado está mesmo lá atrás. Longe vão os tempos em que a equipa foi apenas a Blanco, sem patrocinador. A Belkin apareceu para dar um primeiro empurrão rumo à reconstrução de uma estrutura que viu alguns dos seus principais ciclistas serem envolvidos em casos de doping, ou de não se livrarem de suspeitas.

Os actuais patrocinadores vincularam-se em 2015. Ano complicado, com apenas seis vitórias. Porém, aquela de Bert-Jan Lindeman na Vuelta serviu de mote para o recomeço de uma equipa que sabe vencer, mas que ainda lhe falta uma vitória na geral de um corrida de três semanas ou num momento, pois soma triunfos em praticamente todas as principais provas. Estará a aproximar-se?...

Etapa espectáculo

A subida ao mítico Tourmalet impulsionou o espectáculo a 100 quilómetros da meta, muito devido a Mikel Landa. Apenas com tudo a ganhar, o espanhol da Movistar cumpriu o prometido e atacou de longe, levando com ele Romain Bardet (AG2R), com Ilnur Zakarin a agarrar-se ao grupo depois da Katusha-Alpecin lhe ter preparado o terreno para tentar ganhar a etapa. Juntou-se ainda um Rafal Majka à procura dar mais uma vitória à Bora-Hansgrohe além das três de Peter Sagan, depois de ter desiludido na luta pela geral.

Primoz Roglic foi o mais espectacular de todos, num dia em que Chris Froome agarrou-se como pôde a Egan Bernal para tentar salvar um terceiro lugar, que, ainda assim, está agora a 13 segundos. Tom Dumoulin fez tudo para defender o seu segundo posto, mostrando que lutar pelo Tour é algo que estava além das suas capacidades. O preço do Giro está a ser pago, pelo que fez o que lhe competia, ainda que para isso tenha ajudado Geraint Thomas a ficar a 31 quilómetros de conquistar um Tour que ninguém, ou quase, acreditaria ser possível há três semanas. Se os três actuais ocupantes do pódio ali permanecerem, o Tour terá três estreantes nestas posições nesta corrida. Só Tom Dumoulin sabe o que é subir ao pódio de uma grande volta: ganhou o Giro em 2017.

(O texto continua por baixo do vídeo.)




Landa subiu ao sexto lugar, enquanto o companheiro Nairo Quintana caiu de quarto para nono, depois de uma etapa dolorosa. O colombiano sofreu uma queda na quinta-feira e não escondeu o quanto o limitou fisicamente. Salva para a Movistar a vitória na etapa dos 65 quilómetros por parte de Quintana e a classificação de equipas. Zakarin é agora 10º à custa de um Jakob Fuglsang que deu certezas à Astana que tem de contratar um ciclista para as três semanas.

Faltam então 31 quilómetros entre Saint-Pée-sur-Nivelle e Espelette, num contra-relógio que de direito pouco tem. Geraint Thomas sabe o que é vencer estas etapas, começou por o fazer há um ano no Tour, por exemplo. 2:05 é uma margem que lhe dá alguma tranquilidade. Em condições normais, nem Dumoulin, nem Roglic e muito menos um Froome cansado, conseguirão tirar-lhe a amarela. Se nada de anormal acontecer, é ele que será a estrela no desfile de campeões em Paris. Mas festas só no fim, como reitera um Peter Sagan que está a sacrificar-se como nunca para acabar o Tour e confirmar a conquista da sexta camisola verde. Escapou à exclusão por chegar fora do tempo limite, mas as dores continuam depois da queda na quarta-feira.

Quem também estará no "desfile" será Julian Alaphilippe. Mais um francês a ganhar a camisola da montanha, sucedendo a Warren Barguil. O ciclista da Quick-Step Floors pode não ser um trepador puro, mas agora já se questiona se será esse o caminho que seguirá na sua evolução, podendo assim pensar em lutar pela geral no Tour. Ainda é cedo e Alaphilippe quer é saborear esta excelente conquista. Pierre Latour partirá para o contra-relógio com 5:47 minutos de vantagem sobre Egan Bernal, pelo que também só algo de muito mau irá tirar ao francês da AG2R a camisola branca da juventude.

Está quase a terminar um Tour dos mais interessantes dos últimos anos. O contra-relógio não deverá ser aquele dia tão decisivo como a organização poderia desejar, mas vamos esperar pelo fim dos 31 quilómetros, pois há uma longa lista de ciclistas que podem atestar que tudo pode acontecer nesta Volta a França, do primeiro ao último metro.

Pode ver aqui as classificações.


21 de julho de 2018

Thomas e Roglic começam a convencer

Roglic está na luta pelo pódio e talvez mais... (Fotografia: Twitter Lotto-Jumbo)
De Geraint Thomas já se sabe que é capaz de estar bem nas grandes voltas, mas como gregário. Como líder teve uma oportunidade e foi para casa mais cedo, ainda que não por culpa sua. Primoz Roglic chegou ao Tour para mostrar que está feito num voltista capaz mais do que um top dez. Ambos têm em comum serem dos melhores em provas por etapas de uma semana. Porém, partilham também a desconfiança se realmente têm capacidade para estar na luta por uma grande volta. Até ao momento, o Tour de 2018 está a ajudar a esclarecer estas dúvidas. A resposta é que temos ciclistas para a disputar a vitória. Pelo menos, para já.

A questão com corridas de três semanas é que é preciso estar bem durante os 21 dias. Há quase sempre um dia menos bom (um dia mau não é permitido a este nível) e como ainda faltam os Pirenéus, afirmar com toda certeza que Thomas e Roglic podem ganhar o Tour, pode ser cedo. Basta recordar o que aconteceu com Simon Yates no Giro. Parecia que estava mais do que encaminhado para uma vitória e depois lá veio aquele dia terrível de Bardonecchia (nem foi mau, foi mesmo um filme de terror, com quase 40 minutos perdidos). Se recuarmos a 2015 temos um Tom Dumoulin na Vuelta a também não aguentar quando as mais difíceis das subidas apareceram na última semana, no que foi um sinal que ainda havia muito a melhorar (e melhorou e bem!).

O que já ninguém lhes tira é que com a segunda semana a terminar, são duas das principais figuras da Volta a França. Geraint Thomas comprovou que não andou a falar de mais, quando se assumiu como co-líder e com condições de disputar o Tour. Não é só o estar de amarela que o demonstra (ainda que quase que seria suficiente), mas ganhou ainda as duas etapas com chegada em alta montanha e foi convincente nessas vitórias e também nas etapas seguintes, em que tem aproveitado para aumentar a vantagem, inclusivamente ao seu colega e líder número um da Sky, Chris Froome.

Thomas está a ser um senhor. Não mostra debilidades e se não fosse ter Froome como companheiro, estaria perto do topo nas apostas nesta fase. Com 1:39 minutos de vantagem - e se assim manter este domingo -, quando chegarem os Pirenéus, a Sky não irá pedir a Thomas para ajudar Froome se este tiver alguma dificuldade. Seria simplesmente mau de mais. O contrário também não acontecerá, certamente, não fosse Froome um vencedor de seis grandes voltas. Se Thomas mantiver o nível, então poderemos mesmo estar perante uma decisão que será feita no contra-relógio, no qual estará cada um por si.

Em final de contrato e com 32 anos, uma vitória seria brilhante, mas mesmo que se fique pelo pódio, ou na pior das hipóteses um top dez, pelo que fez até agora, Thomas ganhou poder de negociação. Se aguentar bem a última semana, o galês afastar qualquer desconfiança. É um voltista e se lhe deram condições, pode disputar uma grande volta. Mas vamos esperar pelos Pirenéus.

Quanto a Roglic (Lotto-Jumbo), este ano ganhou a Volta ao País Basco, Volta à Romandia e a "sua" corrida, Volta à Eslovénia. E não nos esquecemos como em 2017 foi primoroso na Volta ao Algarve. Para quem iniciou a carreira de ciclista apenas em 2013, a progressão é simplesmente fantástica. Este antigo saltador de esqui foi visto como talentoso e muito bom no contra-relógio. Chamou a atenção quando ganhou o contra-relógio no Giro, em 2016. Agora é um ciclista completo. Há imagem de um Tom Dumoulin, por exemplo, pode não ser exímio na montanha, como um Chris Froome ou um Alberto Contador (pode já se ter retirado, mas é inevitável ser um alvo de comparações), no entanto, Roglic faz-se valer das restantes características - como contra-relógista sabe também rolar bem -, para equilibrar as forças.

Quanto muito era visto como um outsider a um top dez neste Tour. Agora... tudo está diferente. O esloveno, de 28 anos, estava a fazer uma corrida até discreta, mas sempre bem colocado. Este sábado mostrou-se e ganhou uns segundos. Mais importante avisou que contem com ele para tentar surpreender e assim confirmar o que tem tentado convencer: está pronto para se tornar num voltista de respeito.

Tom Dumoulin (Sunweb) está a ser quem mais rivalidade impõe à Sky (1:50 de Thomas), mas a 2:38 da liderança, Roglic conquistou definitivamente a atenção dos adversários, até porque olhando para os quatro primeiros, uns são especialistas de contra-relógio - Dumoulin foi campeão do mundo, Roglic segundo, Froome terceiro - e Thomas também sabe o que é ganhar nesta especialidade. O esloveno está a tornar-se na outra dor de cabeça da Sky.

Que venham os Pirenéus para confirmar então Thomas e Roglic como voltistas para ganhar. Certo é que começaram a convencer, o que no caso de Thomas acontece um ano depois. Havemos sempre de ficar na dúvida o que teria acontecido se aquela moto da polícia não tivesse parado tão mal no Giro de 2017. Thomas foi forçado a abandonar. Faz parte do passado, agora é no Tour, no maior palco de todos que o galês se está a afirmar neste novo papel.

Omar Fraile dá vitória à Astana

(Fotografia: © ASO/Pauline Ballet)
A época está a ser de grande nível para a equipa cazaque. Já são 22 vitórias. Porém, não vencer no Giro foi um pouco frustrante e com um Jakob Fuglsang a não ser ciclista para ombrear com Froome, Thomas e Dumoulin, Fraile deu um triunfo muito desejado na Astana. Este é um espanhol que Rui Costa conhece bem, pois venceu no Giro, deixando o português em segundo, no ano passado.

É um ciclista (28 anos) de grande qualidade. A nível táctico é dos melhores que neste momento está no pelotão e demonstrou isso mesmo na etapa entre Saint-Paul-Trois-Châteaux e Mende (188 quilómetros). Numa daquelas tiradas em que houve duas corridas - a fuga para vencer a etapa e a do pelotão pela geral -, Fraile soube atacar no momento certo para apanhar Jasper Stuyven (Trek-Segafredo) e depois não deixou Julian Alaphilippe (Quick-Step Floors) aproximar-se. E entretanto garantiu que Peter Sagan (Bora-Hansgrohe) não recuperaria para discutir a vitória. Foi, portanto, um ataque no timing perfeito e o controlo do desgaste físico ideal para conquistar a sua primeira vitória no Tour.

É mais um daqueles ciclistas completo e que a Astana quererá aproveitar, pois tem potencial para render grandes triunfos.

Na luta particular pela geral, Roglic ganhou sete segundos ao trio Thomas/Froome/Dumoulin, enquanto Nairo Quintana continua a fraquejar e perdeu mais dez segundos para os três primeiros. Mikel Landa perdeu 19. A Movistar quis tanto, mas está a ver tudo escapar-lhe a cada dia que passa. Romain Bardet (AG2R) perdeu 14. Começa a ficar muito difícil para até aspirar ao pódio. Será preciso mexer com a corrida nos Pirenéus, até porque os três vão perder ainda mais tempo no contra-relógio.



15ª etapa: Millau - Carcassonne, 181,5 quilómetros

É o último dia antes do descanso e dada as diferenças que superam os três minutos a partir do quinto classificado, Romain Bardet, deixar tudo para os Pirenéus poderá significar entregar o pódio a quem está lá agora, com Roglic ainda na luta. Esta é uma etapa que tem o nome de Vincenzo Nibali, perante a descida até à recta da meta. Mas o italiano já não está no Tour. É mais um dia para que se possa ter uma fuga na luta pela vitória, enquanto no pelotão alguns ataques poderão verificar-se para recuperar, nem que sejam alguns segundos.




5 de julho de 2018

Uma segunda linha de muita ambição na Volta a França

(Fotografia: © ASO/Pauline Ballet)
Nem todos vão ao Tour com sonhos de vencer a grande corrida. Pelo menos não para já, com a excepção de Alejandro Valverde (os 38 anos podem não se notar nas vitórias, mas não permitem pensar a longo prazo). O que não vai faltar na corrida são ciclistas ambiciosos e desejosos de ir à procura de outras glórias. Dos mais novos até ao muito experiente há muito por onde escolher entre aqueles que não querem passar despercebidos, quando o terreno começar a subir. A Volta a França começa já neste sábado.

Warren Barguil (26 anos, Fortuneo-Samsic)
O próprio admitiu recentemente que está a realizar uma temporada a roçar o miserável. O francês (na fotografia) foi uma das figuras do Tour no ano passado, com duas vitórias de etapa, a camisola das bolinhas (montanha) e muitas exibições de grande nível. Porém, no melhor pano cai a nódoa e Barguil acabou expulso pela equipa, Sunweb, da Vuelta por ter desrespeitado ordens para ajudar um companheiro. Barguil estava decidido a ser ele a estrela de uma equipa, pelo que quebrou contrato e foi para a Fortuneo-Samsic, do escalão profissional. As poucas vezes que se tem visto o ciclista é quando está a ficar para trás. Ser líder tem muito que se lhe diga e Barguil tem uma responsabilidade acrescida que terá de assumir com bons resultados no Tour se não se quiser tornar num estrela fugaz do ciclismo gaulês.

Alejandro Valverde (38 anos, Movistar)
Há um ano, o espanhol sofreu uma queda no contra-relógio inaugural e chegou-se a temer o pior. Porém, não só a carreira de Valverde não acabou, como o espanhol regressou ao ritmo impressionante de vitórias, ainda mais tendo em conta a idade: sete triunfos, mais a conquista da Volta à Comunidade Valenciana, da Volta a Abu Dhabi, da Catalunha e da Route d'Occitanie. Apesar de na Movistar ter um papel essencial de ser uma voz de comando numa equipa com um Nairo Quintana e um Mikel Landa a apresentarem-se mais como rivais do que com companheiros, perante a forma de Valverde, irá alguém negar-lhe a possibilidade de ir mais além do que estar na ajuda aos dois colegas? Isto se se proporcionar, claro. O próprio não descarta que caso se apresente a oportunidade, então poderá tentar de novo ganhar uma corrida que quis pouco com ele quando se apresentou para lutar pela camisola amarela.

Bob Jungels (25 anos, Quick-Step Floors)
Chegou o momento de começar a provar do que é realmente capaz numa grande volta. Tem evoluído, com a equipa a dar-lhe o espaço para tal. No Giro dominou na juventude, mas aos 25 anos tem de se mostrar entre os "adultos". No que diz respeito a três semanas, Jungels quis pensar em 2018 apenas no Tour, pelo que será interessante de ver como se irá comportar. A Quick-Step Floors quer ver Fernando Gaviria ganhar sprints, o que deixará o luxemburguês com Julian Alaphilippe quando o terreno começar a subir. Jungels quererá desde já procurar uma boa classificação, mas não haverá problema de maior caso acabe antes à procura de uma etapa. Ficaria mesmo bem junto da conquista da Liège-Bastogne-Liège, em Abril

Julian Alaphilippe (26 anos, Quick-Step Floors)
Ainda é difícil ver este talentoso francês como um voltista de elevado nível. Já se sabe como é nas clássicas  - "tirou" a Flèche Wallonne a Valverde - ganha etapas e com um pouco mais de trabalho poderá tornar-se num ciclista para disputar corridas de uma semana. Agora as três?... Terá de ser Alaphilippe a mostrar que tipo de evolução vai procurar. Para este Tour é de esperar um ciclista ao ataque, à procura de etapas. De grandes etapas e bons espectáculos.

Tiesj Benoot (24 anos, Lotto Soudal)
É um daqueles ciclistas que pode ser o que quiser. A épica vitória na Strade Bianche confirmou (finalmente) toda a sua aptidão para certas clássicas. No entanto, também sabe andar muito bem em provas por etapas e há um ano, na estreia numa grande volta e logo no Tour, Benoot foi 20º. Esta será uma Lotto Soudal à caça de etapas, como tem sido habitual. Thomas de Gendt é o crónico candidato a animar os dias de montanha e até procurar lutar por essa classificação. Também Benoot poderá ter esse papel, mas depois do que fez em 2017, espreitar a classificação da juventude não seria de descurar. Talvez ainda não seja nesta Volta a França que se perceba se o belga poderá pensar em desenvolver as suas capacidades de voltista, mas é, para já, um potencial ciclista a procurar um bom lugar.

Primoz Roglic (28 anos, Lotto-Jumbo)
Steven Kruijswijk é o número um. Porém, é impossível afastar a ideia que o holandês deixou escapar a sua grande oportunidade naquele Giro de 2016. É para Roglic que mais se olha. O esloveno deu definitivamente o salto para se tornar num ciclista para as três semanas. O Tour será o seu grande teste, depois de este ano ter ganho a Volta ao País Basco, a Volta à Romandia e ainda foi a casa ganhar a Volta à Eslovénia. Foram as três últimas corridas que fez rumo a França. Roglic não estará preso a trabalho de apoio. Terá liberdade na prova mais desejada por todos. É mesmo caso para dizer que chegou o momento de Roglic.

Bauke Mollema (31 anos, Trek-Segafredo)
Sim, já tem top dez. Sim, já ganhou etapas (no Tour e na Vuelta). Sim, é um ciclista que se espera andar na frente da corrida. Mas não, não se espera que por lá fique até ao fim. Ou o holandês aparece a um nível inesperado, ou a Trek-Segafredo não poderá ambicionar mais do que um top dez e talvez uma etapa. O que não seria nada mau. Mollema não conseguiu tornar-se no líder que queria, apesar de a equipa até já ter apostado nele. Quando em 2017 contratou Alberto Contador, Mollema perdeu de imediato espaço. Já o tem novamente, mas ou faz algo de extraordinário (e surpreendente) ou irá perdê-lo. Talvez até para um ciclista que é mais velho que ele, se os rumores de que Richie Porte poderá estar a caminho da Trek-Segafredo se confirmarem.

Jakob Fuglsang (33 anos, Astana)
Em 2017, este dinamarquês estava com o moral em alta. A equipa prometeu-lhe a liderança do Tour, com Fabio Aru apontado ao Giro. Porém, tudo se desmoronou quando o italiano caiu e falhou a corrida italiana e foi então apontado para França. Fuglsang quis tentar manter-se como líder, mas era óbvio que não o seria, mesmo que tivesse ganho o Critérium du Dauphiné. Com a saída de Aru e sem a entrada de nenhum grande nome, Fuglsang recuperou o estatuto e tem estado em crescendo durante a temporada. Terminou praticamente sempre entre os primeiros, acumulou pódios e procura um bom resultado no Tour, a começar pelo top dez. Uma vitória não é de descartar, até porque esta Astana está com um espírito ganhador em 2018. Mais do que isto, seria uma surpresa. Mas será sempre bem-vinda para animar a corrida!

Lilian Calmejane (25 anos, Direct Energie)
Mesmo já longe do seu melhor, Thomas Voeckler sempre teve capacidade para roubar as atenções. Porém, retirou-se no final do Tour de 2017 e ficou estendida a passadeira para Calmejane começar a conquistar de vez a atenção dos franceses. É um ciclista de enorme potencial e não podemos deixar-nos enganar só porque está numa equipa Profissional Continental e não no World Tour. Se continuar a demonstrar a evolução que tem tido nos últimos dois anos, Calmejane terá à sua espera outros voos. Na edição passada ganhou uma etapa e é candidato a fazer o mesmo nesta. Algo mais... Talvez no futuro próximo, noutra equipa. Por agora, será um bom animador de etapas.

Jesús Herrada (27 anos, Cofidis)
Fez-se ciclistas na Movistar, mas percebeu que para ser algo mais do que um gregário, tinha de procurar outro caminho. A Cofidis acreditou no espanhol e irá dar-lhe a possibilidade de lutar por vitórias neste Tour. A equipa quer regressar aos tempos em que os seus ciclistas atacavam na montanha, animavam etapas e apareciam constantemente na frente. Se houver alguma vitória, ainda melhor. Para alcançar estes objectivos, a Cofidis deixou Nacer Bouhanni em casa, ainda que tenha Christophe Laporte para os sprints. No entanto, a responsabilidade de Herrada é grande. Terá mesmo de se mostrar.

Tejay van Garderen (29 anos, BMC)

Será que assumir um papel de gregário poderá mesmo ser uma ajuda para Van Garderen ainda vir a ser um bom líder? O americano tenta tudo para recuperar a confiança perdida nele, depois de ano após ano não ter confirmado as expectativas, ainda que também tenha sido perseguido por algum azar. Com o futuro da BMC por definir, este ciclista tem de mostrar algo, nem que seja em ser um bom apoio para Richie Porte. Porém, caso haja liberdade, então uma fuga para tentar conquistar uma etapa será algo que não poderá desperdiçar. Van Garderen arrisca-se a ir caindo no esquecimento se não encontrar forma de se mostrar, mesmo que seja como gregário.

Egan Bernal (21 anos, Sky)
É irresistível colocar aqui Bernal. Já se sabe como a Sky quer todos a trabalhar em prol do líder, pelo que Bernal não terá liberdade e irá mesmo estrear-se numa grande volta a trabalhar para Chris Froome. O que é honroso para qualquer jovem ciclista. Mas depois do que fez no seu primeiro ano no World Tour, que culminou com a vitória na Volta à Califórnia, deseja-se ver um pouco daquele colombiano fenomenal e que estará em França para continuar o seu trabalho de sucessor do rei Froome.

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27 de novembro de 2017

Bons ciclistas a ficarem cada vez melhor, mas falta mais equipa à Lotto-Jumbo

Parte do sucesso da época da Lotto-Jumbo passou pela Volta ao Algarve
A Lotto-Jumbo precisa de um Steven Kruijswijk ao nível do Giro de 2016, precisa de um Robert Gesink que se deixe de inseguranças e coloque na estrada o talento que se sabe que tem, mas os anos vão passando e o holandês ameaça ser um ciclista que passou ao lado de uma grande carreira. Mas se nenhum dos dois se apresentar como o líder que a equipa quer e precisa para as grandes voltas, então abram alas a George Bennett, um neozelandês que este ano confirmou que pode e deve ser aposta. Podem também abrir mais as portas a Primoz Roglic. Este esloveno melhora de ano para ano. A Lotto-Jumbo pode não ter o mediatismo de outras equipas, até pode estar muito em baixo no ranking, mas mantendo alguns dos ciclistas que tem, muitos e bons resultados podem estar a chegar. Porém, precisa de mais equipa, mais apoio para aqueles que estão em condições de lutar por grandes vitórias.

Estamos a falar de uma formação que normalmente consegue que um ou dois ciclistas seja colocado como candidato ou, pelo menos, outsider numa clássica, num sprint, ou a um top dez. Foi uma equipa que ganhou o ano inteiro e 10 das 26 vitórias foram em provas do World Tour. Venceu duas etapas no Tour, incluindo nos Campos Elísios, que para um sprinter é como ganhar a Volta a França. Dylan Groenewegen demonstrou que está pronto para se debater com os grandes nomes com frequência. Jos van Emden também ganhou a última etapa, mas no Giro. Estamos a falar de um dia em que o vencedor da geral é quem mais atenção recebe, mas é uma subida ao pódio num momento de grande aparato mediático. O patrocinador fica sempre muito feliz. Nos Campos Elísios então, fica extasiado.

Quando se fala de atenção mediática, Victor Campenaerts foi o campeão, pois pedir a uma rapariga para sair com ele durante um contra-relógio do Giro mereceu bastante destaque... e uma multa da organização. A equipa também não gostou, mas os fãs adoraram nas redes sociais. Um momento de descontracção, numa temporada muito séria da Lotto-Jumbo.


Ranking: 16º (4846 pontos)
Vitórias: 26 (incluindo uma etapa no Giro, duas no Tour e a geral da Volta ao Algarve)
Ciclista com mais triunfos: Dylan Groenewegen (8)

A formação holandesa tem bons ciclistas, como os referidos e pode-se acrescentar mais alguns como Lars Boom, que regressou à estrutura depois de dois anos na Astana, e Juan José Lobato. O problema da Lotto-Jumbo é apresentar um conjunto forte que não deixe as suas figuras demasiado isoladas quando o apoio é essencial. Aquela exibição de Kruijswijk na Volta a Itália de 2016 - estragada pela queda que muito provavelmente lhe tirou uma vitória mais do que merecida - poderia e deveria ter servido de mote para fortalecer a formação. No entanto, foi mantida uma táctica de esperança que o holandês pudesse repetir a exibição individual e ter um pouco mais de sorte. Nem no Giro, nem noutra corrida. Não aconteceu. Kruijswijk é para já um ciclista que teve uma oportunidade de ouro que não agarrou e vai caindo na lista de candidatos e mesmo de outsiders. O nono lugar na Vuelta é animador, mas ficou a mais de 11 minutos de Chris Froome.

George Bennett poderá "roubar" o estatuto de líder. Surpreendeu (um pouco) com uma vitória na Volta à Califórnia, apareceu bem no Tour, onde entusiasmou (e muito), mas acabou por abandonar. Já na Vuelta apareceu longe da forma ideal. O 10º lugar na Volta a Espanha do ano passado e as exibições em 2017 começam a dar a indicação que a Lotto-Jumbo tem um ciclista para discutir mais do que o top dez. Mas precisa de ter uma equipa mais forte em seu redor. Os bons resultados da Lotto-Jumbo podem tornar-se em grandes resultados se houver esta aposta, que não passando por contratações, pode passar pela mudança de mentalidade em alguns dos ciclistas de trabalho.

Há que recordar que esta estrutura é a sobrevivente da famosa Rabobank, que ao retirar o o seu nome, criou dificuldades aos responsáveis em aguentar os melhores ciclistas. Surgiu a Belkin, mas foi com como Lotto-Jumbo que regressou a total estabilidade e aos poucos esse trabalho começa a dar os seus frutos. Os jovens ciclistas estão a tornar-se corredores maduros e de qualidade comprovada. A época não foi explosiva, mas foram dados passos importantes para 2018. Mas novamente: é necessário ganhar consistência colectiva.

Primoz Roglic foi dos mais ganhadores. Venceu na Volta a França, em Serre-Chevalier, juntando assim mais uma etapa numa grande volta, depois do contra-relógio no Giro de 2016. Foram seis vitórias esta temporada e claro que se tem de destacar a conquista da Volta ao Algarve. Foi ainda medalha de prata no contra-relógio dos Mundiais de Bergen. Está feito um especialista em corridas de uma semana. Aos 28 anos quer mostrar-se também nas de três. George Bennett tem 27. Uma dupla que pode ser de sucesso.

Para 2018 a Lotto-Jumbo mantém a maior parte dos ciclistas, apostando em reforçar-se com três jovens. Danny van Poppel (24 anos) deixa a Sky para procurar outro protagonismo numa equipa que aposta mais em ciclistas com as suas características. Os americanos Neilson Powless (21, Axeon Hagens Berman) e Sepp Kuss (23, Rally Cycling) são mais duas apostas para o futuro, mas não próximo.

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19 de julho de 2017

Mikel Landa avisa que Sky dará uma "machadada" esta quinta-feira

O novo pódio do Tour, ainda que não por esta ordem (Fotografia: ASO/Bruno Bade)
Não foi a etapa espectacular que se esperava, tendo em conta que só faltavam duas de montanhas antes de se chegar ao contra-relógio no sábado. O vento que na terça-feira deu alguma emoção, desta vez não ajudou nada. Houve muita contenção e um regresso às imagens habituais da Sky na frente, Chris Froome a controlar e a responder aos poucos ataques que aconteceram. Só Romain Bardet tentou e até criticou Rigoberto Uran, que considera só estar à procura das bonificações. E é uma táctica que está a dar certo, pois o colombiano saltou de quarto para segundo. Nesta etapa restou ver um Alberto Contador a tentar animar (longe do ciclista que foi, pelo menos mexeu com a corrida), um Primoz Roglic fenomenal a conquistar a tirada e, pelo lado negativo, o abandono de Marcel Kittel, que assim entregou a camisola verde a Michael Matthews.

Se o Col du Galibier acabou por não fazer diferenças, tudo fica guardado para o Col d'Izoard. E Mikel Landa deixou um aviso. Visto que será uma chegada em alto, é o momento mais do que certo para Chris Froome tentar arrumar com a questão e ir mais descansado para o contra-relógio de sábado. "Froome está muito forte e dará uma machadada", alertou Landa, fazendo então prever que a Sky vai estar ao ataque. Porém, o espanhol que ainda não afastou a hipótese de chegar ao pódio, considera que Romain Bardet e Rigoberto Uran "vão dar luta". "Gostaria de ver o Froome ganhar e logo se vê se consigo colar-me, mas os outros estão muito fortes. Amanhã será um final em alto e nós os dois podemos dar uma machadada. Veremos como vai ser o dia", salientou Mikel Landa, que está no quinto lugar, a 1:24 do seu líder.


E talvez para demonstrar que na Sky o ambiente não podia ser melhor depois do dia em que Froome perdeu a amarela, quando Landa o deixou sozinho no final de uma etapa, Chris Froome disse que gostaria muito de ver o espanhol ao seu lado no pódio em Paris, no domingo. O britânico voltou a estar muito bem na entrada nos Alpes, comprovando que de facto está forte nesta terceira semana, tendo subido de forma durante este Tour.

Ao contrário do que está a acontecer com Fabio Aru. O italiano da Astana teve muitas dificuldades no Galibier e acabou por cair para a quarta posição. Os 18 segundos passaram agora a 53. Contudo, Aru deixou a mensagem que perdeu nesta quarta-feira, mas o Tour só acaba domingo. Rigoberto Uran (Cannondale-Drapac) é agora segundo, com os mesmo 27 segundos que tem Romain Bardet. O contra-relógio da primeira etapa dita que seja o colombiano a estar na segunda posição.

Esta quinta-feira será a última oportunidade de se lutar na alta montanha e o Col d'Izoard é mais uma subida mítica para se terminar esta fase do Tour. Com uma pendente média de 7,3%, acaba por não ser maior porque os primeiros cinco dos 14,1 quilómetros não são de grande dificuldade, depois começa a aumentar até chegar aos 10%. Aqui assistiram-se a exibições fantásticas de Fausto Coppi e Bernard Thévenet, por exemplo. Chris Froome ainda não venceu nesta Volta a França. Talvez nem precise para conquistar a sua quarta vitória no Tour, mas o britânico quererá certamente juntar o seu nome a uma das subidas mais históricas desta corrida. Resta a Romain Bardet, Rigoberto Uran e Fabio Aru mostrar que não vão entregar a vitória de mão beijada e talvez baralhar as contas da Sky.

Roglic, o herói esloveno

(Fotografia: ASO/Pauline Ballet)
Em 2007, Primoz Roglic conquistou um título mundial de ski jumping. Então tornava-se uma referência do desporto esloveno, mas uma queda grave fez com que optasse por mudar de modalidade. Escolheu o ciclismo e é já a personagem principal daqueles contos de fadas que tanto se gosta de contar no desporto. Estava numa equipa Continental, a Adria Mobil, quando a Lotto-Jumbo o foi buscar. No primeiro ano no World Tour (2016) foi ao Giro e conquistou uma etapa (contra-relógio). Em 2017 foi escalado para o Tour. Segunda grande volta, segunda grande vitória de etapa, agora com uma subida mítica. Roglic teve um esforço solitário depois de ter deixado para trás o grupo que Alberto Contador tinha ajudado a formar (o espanhol regressou ao top dez e foi o mais combativo do dia). Não se intimidou com o Col du Galibier, fez uma descida perfeita e tornou-se no primeiro esloveno a ganhar na Volta a França.

Se Roglic já tinha o seu estatuto como atleta importante no seu país, agora tornou-se definitivamente num herói, em mais um episódio do seu conto de fadas que ameaça ser contado muito mais vezes. Tem 27 anos e a curiosidade sobre o que poderá vir a fazer no futuro próximo é enorme. Para já ganhou definitivamente o seu lugar de destaque na Lotto-Jumbo, pois este ano conta ainda com a vitória na Volta ao Algarve, duas etapas na Volta ao País Basco e uma na Volta à Romandia, onde foi terceiro classificado na geral.

Mas a 17ª etapa ficou ainda marcada pela queda de Marcel Kittel que não resistiu aos ferimentos e optou por abandonar. Na frente da corrida Michael Matthews já se tinha colocado a apenas nove pontos do alemão na classificação da camisola verde e esperava-se que esta luta fosse até à meta nos Campos Elísios. Kittel saiu com cinco vitórias em etapas, um grande Tour, sem dúvida, mas ficará a pequena frustração de ter estado tão perto de conquistar a classificação dos pontos.

Matthews fica agora de verde e a sua persistência em perseguir Kittel quando parecia que dificilmente se conseguiria bater o alemão irá quase de certeza ter o resultado desejado. É que mais ninguém se esforçou tanto como o australiano para se aproximar de Kittel. Agora, é líder e com 160 pontos de vantagem sobre André Greipel (Lotto Soudal). Se nada de anormal acontecer, a Sunweb está mesmo a caminho de garantir a camisola verde e das bolinhas (montanha) - por intermédio de Warren Barguil -, além de já contar com três vitórias de etapa.


Résumé - Étape 17 - Tour de France 2017 por tourdefrance

19 de fevereiro de 2017

Desculpa Roglic, mas vamos falar de Amaro Antunes

Ainda de manhã, quando se subia ao Alto do Malhão, na estrada só se lia Amaro, Amaro, Amaro. Aquela subida tinha mesmo o nome do algarvio escrito e Amaro Antunes não desiludiu. Com um ataque fantástico, o ciclista da W52-FC Porto fez algo que parecia ser impossível desde que a Volta ao Algarve começou a atrair as grandes equipas e alguns dos principais nomes do ciclismo mundial. As bermas da estrada encheram novamente para receber um pelotão de luxo, mas a multidão vibrou ao máximo ao ver o português na frente. É uma daquelas vitórias que entra para a história e pode muito bem ser uma daquelas vitórias que poderá dar o empurrão que falta a Amaro Antunes para "dar o salto" para uma equipa de outro escalão.

A W52-FC Porto, e principalmente o seu director desportivo Nuno Ribeiro, merecem o reconhecimento pelo apoio e motivação que estão a incutir no ciclista contratado este ano, depois de dois na extinta LA Alumínios-Antarte. Amaro Antunes encontrou o grupo que precisava para se mostrar ao mais alto nível. Prometeu muito na Volta à Comunidade Valenciana quando tentou seguir Nairo Quintana em Mas de la Costa, acabando essa etapa na terceira posição. Na Fóia tinha estado muito bem (foi quarto), no Malhão esteve brilhante. Enquanto a Sky cumpria o papel a que tanto está habituada de controlar a corrida de forma a permitir a Michal Kwiatkowski tentar recuperar os 22 segundos de desvantagem, a Lotto-Jumbo fazia o trabalho para garantir que Primoz Roglic ficava com uma camisola amarela muito desejada por uma equipa com bons ciclistas, mas que não é a que mais vence. No entanto, foi Amaro a estrela do dia.

Esta vitória no Malhão também demonstra como a W52-FC Porto está a querer subir o nível das exibições dos seus ciclistas, pois além de Amaro Antunes, Raul Alarcon andou na fuga, mostrando que também está a atingir bons níveis de forma nesta fase tão inicial da temporada. Subir o nível das exibições, poderá também significar subir de escalão em 2018. São conhecidas as pretensões de tornar a equipa Profissional Continental no próximo ano. As bases estão claramente solidificadas, agora é garantir uma estrutura que permita à equipa não só subir de escalão, mas ter condições para lá permanecer.

Este ano haverá uma aposta maior em provas internacionais e Amaro Antunes terá um papel de destaque nessas corridas. Gustavo Veloso continuará a ser o líder, até pela história e pelo que já deu a esta estrutura, mas Nuno Ribeiro também vai preparando uma inevitável sucessão. Se Amaro Antunes continuar com exibições como as da Comunidade Valenciana e no Algarve, dificilmente Nuno Ribeiro segurará o ciclista, mas maior exposição, maior o poder para negociar com corredores de elevada qualidade.

Uma coisa é certa, esta ligação Amaro Antunes/W52-FC Porto tem tudo para ser de grande sucesso, com ambas as partes e terem a oportunidade de tirar grandes proveitos. Agora é esperar que o algarvio consiga voltar a mostrar-se ao seu melhor noutras competições. A motivação está lá, a qualidade já se sabia que tinha e agora é transformá-la em mais momentos como o do Malhão.

Primoz Roglic, o vencedor algo inesperado

Pódio final: Greipel, Roglic, Osorio, Benoot e Amaro Antunes
Amaro Antunes nem sabia bem para onde se havia de virar. De todos os lados se ouvia alguém a chamá-lo. As fotografias foram muitas, as entrevistas... Era o seu momento. No meio de tanta emoção pela vitória do ciclista português na etapa, o vencedor da Volta ao Algarve até se viu um pouco relegado para segundo plano. O próprio provavelmente percebeu a situação, mas foi ele quem ganhou. Foi ele que não deixou Daniel Martin fugir na Fóia, foi ele quem esteve ao seu nível no contra-relógio, foi ele quem se colou a Kwiatkowski, frustrando qualquer tentativa do polaco em o deixar para trás.

No início da corrida Roglic não aparecia como um dos favoritos. Candidato, mas não favorito. Porém, aquele estilo discreto, por vezes meio tímido do ciclista, esconde o outro lado do ciclista: capacidade para resistir a subidas explosivas e inteligência táctica. A curiosidade para ver como este ciclista evolui é grande. Depois de em 2016 se ter mostrado ao vencer o contra-relógio na Volta a Itália, começa 2017 com esta vitória importante. É preciso não esquecer que estamos a falar de um atleta que só em 2013 optou pelo ciclismo, pois até então o Ski Jumping era o seu desporto de eleição. Chegou mesmo a ser campeão do mundo de juniores. Em 2007 sofreu uma queda assustadora, mas foi já com 23 anos que trocou de carreira e poderá muito bem estar a caminho de se tornar uma referência no ciclismo da Eslovénia.

Atrás ficou Michal Kwiatkowski. O homem da Sky dá sinais de estar a tentar regressar à melhor forma. A exibição poderá significar que o polaco está finalmente preparado para ocupar o lugar de destaque que a equipa pretende, tanto na ajuda aos líderes nas grandes voltas, como numa aposta para as clássicas. Principalmente, Kwiatkowski terá de ser mais regular e não aparecer numa fase da temporada e desaparecer o resto do ano. De recordar que está em final de contrato, pelo que se há uma boa altura para começar a apresentar resultados, é esta. A fechar o pódio ficou Tony Gallopin. O Malhão não foi nada simpático para Jonathan Castroviejo (Movistar) e o ciclista da Lotto Soudal aproveitou para ficar na terceira posição. A equipa belga ainda viu André Greipel ganhar a classificação por pontos e Tiesj Benoot foi o melhor jovem. A grande surpresa acabou por ser Juan Osorio. O corredor da Manzana Postobón entrou na fuga, que contou com José Gonçalves (Katusha-Alpecin), entre outros ciclistas, e aproveitou para ganhar as contagens do dia, que lhe permitiram passar um Daniel Martin (Quick-Step Floors), que não conseguiu repetir a exibição da Fóia. Este resultado é muito importante para a equipa colombiana que conta com Ricardo Vilela, pois a formação faz uma forte aposta no calendário europeu, pelo que este tipo de conquistas deixam certamente satisfeitos os responsáveis e o patrocinador.

Os outros portugueses

Amaro Antunes merece todo o destaque (terminou na quinta posição a 1:29 minutos do vencedor), mas há ainda que referir Edgar Pinto. O ciclista da LA Alumínios-Metalusa-BlackJack cumpriu o objectivo que procurava: o top dez. Foi décimo, a 2:19 minutos de Roglic. Certamente que será um resultado motivador para a restante temporada, neste regresso de Edgar Pinto ao pelotão português. Ricardo Vilela foi 17º (a 3:14) e Nelson Oliveira (Movistar) esteve a bom nível com o 18º lugar (a 3:20). A fechar o top 20 está Tiago Machado (Katusha-Alpecin), que fez uma boa etapa no Malhão.

O Sporting-Tavira também tem razões para estar satisfeito, pois Rinaldo Nocentini fechou na nona posição e Alejandro Marque na 13ª.

E foi com um final apoteótico de Amaro Antunes que terminou mais uma Volta ao Algarve. Uma edição importante na história da corrida, pois pela primeira vez pertenceu à segunda categoria da UCI (2.HC), teve transmissão televisiva e um português, de uma equipa portuguesa, mostrou que é possível lutar com alguns dos melhores do mundo. Há um ano respondeu ao ataque de Alberto Contador, mas o espanhol acabou por ganhar. Talvez tenha aprendido com os melhores, pois desta vez atacou ele na subida que conhece ao pormenor e, desculpa Roglic, mas esta vitória de Amaro será sempre o grande momento de 2017 na Algarvia.




Veja aqui os resultados da quinta e última etapa da Volta ao Algarve - que ligou Loulé ao Alto do Malhão (179,2 quillómetros) - e também as classificações finais.

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»»Sprintar com os melhores do mundo. O relato de Luís Mendonça e Rafael Silva««

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