10 de setembro de 2017

Froome e o seu lugar na história

(Fotografia: Unipublic/Photogomez Sport)
Chris Froome diz que não compete a ele dizer que lugar terá na história. E tem razão. Compete-lhe garantir que fica, já o fez e sabe bem disso. No final do ano passado muito se falava se apostar apenas na Volta a França não seria algo redutor para um ciclista de tanta qualidade. O britânico nunca escondeu que o objectivo da carreira passa por pelo menos igualar o recorde de cinco vitórias no Tour, que pertence a Bernard Hinault, Eddy Merckx, Jacques Anquetil e Miguel Indurain. Mas ainda assim sabia a pouco. Revelou tarde os seus intentos completos para 2017, mas num ano que foi tão apagado inicialmente e que gerou tantas dúvidas num Tour mais sofrido do que o normal, Froome apareceu em Espanha para reclamar um trono que há muito lhe escapava e assegurar assim um lugar na história que ninguém lhe vai tirar.

Recuando um pouco. O Giro parecia ser a forma perfeita para imortalizar de vez o seu nome, fosse com a tentativa da dobradinha que tem sido a "desgraça" recente de alguns ciclistas, ou fosse com a vitória na 100ª edição, o que faria de Froome o corredor que teria vencido as duas edições sempre especiais, depois de ter conquistado o Tour100. O líder da Sky não quis ir a Itália, concentrou-se na Volta a França, mas a pensar na Vuelta. Só já durante o Tour admitiu que a diferente e discreta preparação em 2017 era também a pensar na Vuelta. Sofreu no Tour, mas venceu. Sofreu na Vuelta - ainda que estando mais forte do que em França -, mas conquistou-a. O seu lugar na história está mais do que garantido e ainda haverá novos capítulos para escrever na incrível carreira deste ciclista nascido no Quénia, mas que elevou o ciclismo britânico a um nível nunca visto.

É Froome o primeiro a fazer a dobradinha Tour/Vuelta desde que as corridas se encontram na actual posição do calendário (desde 1995), e desde 1978 que ninguém o fazia (o último foi Bernard Hinault); é o primeiro britânico a vencer a Volta a Espanha. "Há uma razão porque ninguém tinha ganho o Tour e a Vuelta, que estão separados por menos de um mês. São momentos como este que fazem com que todos os sacrifícios e o tempo passado longe de casa valham a pena." Sacrifício é a palavra chave. Estágios em altitude, estágios sem ser em altitude, disciplina de treino, alimentar, rigor em tudo o que faz na sua vida para garantir que está no seu melhor na altura certa da temporada. Tudo para que no final possa beber aquele copo de champanhe no final de uma grande corrida. Tudo para que pudesse juntar uma camisola vermelha às quatro amarelas que já estão expostas na sua casa.

E agora Froome?

Foi uma senda de seis anos na Vuelta. Tudo começou em 2011 quando era gregário de Bradley Wiggins e só muito tarde a Sky lhe deu autorização para tentar bater um surpreendente Juan Cobo. Por 13 segundos perdeu a Vuelta. Em 2014 perdeu para Alberto Contador e em 2016 um erro táctico tremendo da Sky abriu a porta para Nairo Quintana vencer. Curiosamente, em 2011 foi no Angliru que Froome perdeu demasiado tempo a "rebocar" Wiggins. Ainda recuperou parte dele, mas não o suficiente. Em 2017, foi na mítica subida que celebrou a conquista, confirmada este domingo na chegada a Madrid e na qual, afinal, não facilitou e quis também ficar com a classificação dos pontos.

Agora há um objectivo que Chris Froome não vai largar, por nada. Quer a quinta vitória no Tour e, caso consiga, vai atrás da sexta para ser ele o máximo vencedor. No entanto, ao contrário do que se poderia pensar, o britânico tinha percebido que no ciclismo actual seria importante deixar uma marca além do Tour. Apostou, e bem, na Vuelta, mas o Giro está ali a pedir para que Froome entre no restrito grupo de ciclistas que conquistou as três grandes voltas.

Tem 32 anos (celebra o aniversário a 25 de Maio). Os famosos ganhos marginais da Sky vão começar - provavelmente já começaram - a debruçar-se sobre como tirar o melhor rendimento de um ciclista que vai avançado na idade. Não está velho. O ciclismo, e não só, já demonstrou que os atletas podem cada vez mais competir ao mais alto nível e com bons resultados até tarde. A este Froome estará escrito um plano muito específico para os próximos anos. A Sky e ciclista podem já ter o seu lugar na história, mas se perceberam que só o Tour saberia a pouco, já perceberam também que há muito mais a conquistar antes de uma nova era, pós-Froome, arrancar.

Agora resta saber como vão os rivais reagir. No Tour Froome cedeu um pouco no seu estatuto de dominador, dando confiança a ciclistas como Romain Bardet ou Fabio Aru e até ao ainda companheiro, mas futuro adversário, Mikel Landa, que é possível bater este britânico e a toda poderosa Sky no seu terreno (são britânicos, mas fizeram de França a sua casa de conquistas). Porém, na Vuelta o domínio, não sendo tão claro, foi um pouco restabelecido.

Uma coisa é certa, seja qual forem os objectivos de Froome, é claro que a concorrência está a subir de qualidade e, principalmente, a atingir uma maturidade que poderá proporcionar grandes espectáculos. Se ganhar, as vitórias serão ainda mais valorizadas. Se perder, perderá para grandes ciclistas. Vivemos mais uma grande era no ciclismo, muito graças a um senhor chamado Chris Froome.

Veja aqui a classificação geral da 72ª edição da Volta a Espanha.


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