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2 de dezembro de 2018

Poucos triunfos, mas duas histórias que marcaram 2018

(Fotografia: Facebook EF Education First-Drapac p/b Cannondale)
A EF Education First-Drapac p/b Cannondale foi uma das equipas que chegou à Vuelta a precisar de bons resultados. Foi um 2018 algo frustrante, principalmente pelas expectativas criadas em redor de Rigoberto Uran, mas não só. É um pouco a história desta equipa americana: num ano alcança mais do que se está à espera, no outro, quando se pensa que tem condições para manter o nível, passa ao lado de uma temporada.

Desportivamente, o abandono de Uran no Tour (a etapa de Roubaix foi madrasta para muitos ciclistas), depois de há um ano ter vencido uma etapa e subido ao pódio nos Campos Elísios, foi um rude golpe. O colombiano jogou tudo na Volta a França e foi o primeiro a ser crítico com a sua época. Ganhou uma etapa na Colombia Oro y Paz e na Volta à Eslovénia e foi fazer sétimo na Vuelta, contudo, considerou que foi pouco para o que pretendia alcançar.

Há que não esquecer que 2017 ficou marcado pela incerteza do futuro da equipa, que demorou a encontrar um patrocinador. A EF Education First chegou a tempo não só se salvar a estrutura, mas também de manter corredores como Uran e Sep Vanmarcke. Foram criadas condições para acreditar que com estabilidade poder-se-ia fazer ainda melhor. No entanto, também Vanmarcke não conseguiu a grande vitória que tanto persegue.

É um especialista de clássicas do pavé e foi igual a ele próprio, o que começa a significar que é dos melhores neste tipo de corridas, mas falta-lhe sempre algo para chegar ao tal triunfo. Mais uma série de bons resultados, dois pódios, mas zero vitórias. No entanto, ainda não se perdeu a esperança de ver Vanmarcke alcançar pelo menos uma conquista que premeie a sua qualidade.

Joe Dombrowski, Hugh Carthy, Pierre Rolland são todos corredores que os responsáveis têm depositado a esperança, mas que demoram a afirmar-se. Para o francês já nem há tempo, pois aos 32 anos fechou-se a porta do World Tour e regressará ao seu país, para representar a Vital Concept - B&B Hotels. O americano, de 27 anos, e o britânico, de 24, vão continuar a ser apostas.

A questão é que a EF Education First-Drapac p/b Cannondale não pode apenas esperar que no futuro próximo alguns ciclistas comecem a render. E no presente, se Sacha Modolo, Daniel McLay ou Taylor Phinney também ficaram aquém, Simon Clarke e Michael Woods, dois dos mais experientes da equipa, assumiram a responsabilidade de salvar a temporada com duas vitórias na derradeira grande volta. Dois grandes momentos de ciclismo e que deixaram a equipa a respirar um pouco melhor. Para Woods, Espanha é um país em que se dá cada vez melhor, mas esta foi uma vitória que valeu mais do que um troféu ou uma subida ao pódio numa grande volta.

O canadiano ficou em lágrimas em Balcón de Bizkaia e, em directo, contou que, dois meses antes, o seu bebé tinha nascido morto. A comovente história de Woods foi mais um exemplo como muitas vezes se compete por mais do que a glória pessoal. Na EF Education First-Drapac p/b Cannondale foi o segundo exemplo do ano de como a força mental pode ser tão decisiva como a boa condição física.

Ranking: 16º (4373 pontos)
Vitórias: 6 (incluindo duas etapas na Vuelta)
Ciclista com mais triunfos: Rigoberto Uran (2)

A época da equipa acabou por ir muito além do sucesso, ou falta dele, a nível desportivo. No Tour tinha sido Lawson Craddock o herói. Foi orgulhosamente último do primeiro ao último dia e são poucos que o poderão dizer. Tinham decorrido apenas os primeiros 100 quilómetros da corrida quando Craddock caiu. Foi de rosto ensanguentado, com o corpo muito mal tratado que acabou o dia. Soube depois que tinha uma omoplata fracturada.

Decidiu continuar, criando um crowdfunding para angariar dinheiro para recuperar o velódromo da sua terra, destruído por um furacão. Comprometeu-se a dar 100 dólares (cerca de 85 euros) por cada dia que cortasse a meta e apelou a doações. Chegou aos Campos Elísios! Angariou mais do dobro do pretendido, ultrapassando os 200 mil euros. Os seus companheiros apoiaram-no neste desafio, chegando ao ponto de lhe abrir os pacotes da barras energéticas, por exemplo, porque até isso custava a Craddock fazer. Mas sobreviveu à etapa de Roubaix, subiu o Alpe d'Huez e chegou tanta vez a fechar o pelotão, mas acabou sempre as etapas. Este ano não houve pódio para a equipa americana, mas o que fez Craddock, tornou-o numa das figuras da Volta a França.

Como uma equipa não pode viver apenas de momentos de forte emoção, 2019 foi preparado com um misto de esperança na juventude e de ver um ciclista finalmente atingir o seu potencial, quando já poucos acreditam que o faça. Tejay van Garderen foi um dos dois atletas que foram contratados à BMC (Alberto Bettiol irá reforçar o bloco das clássicas). Uma aposta arriscada e, talvez por isso, tenha sido assinado apenas um vínculo para 2019. Ao contrário de Sean Bennett. 22 anos, muito talento, escola Axel Merckx (Hagens Berman Axeon), este americano é visto como uma estrela em ascensão... tal como foi visto, em tempos, Van Garderen. Assinou por duas temporadas. Sem entrar em comparações, pois cada ciclista segue o seu caminho, certo é que Bennett será um dos ciclistas cuja evolução será seguida atentamente. Já Van Garderen poderá ter a sua derradeira oportunidade como líder.

O equatoriano Jonathan Caicedo (25 anos, Medellin) é uma incógnita. Corredor de qualidade para a montanha, a adaptação a este nível será muito importante. Mas se for boa, poderá ser um atleta interessante. Para o sprint foi contratado um jovem colombiano. Começam a surgir os seguidores de Fernando Gaviria, num país que é cada vez menos visto como apenas de bons trepadores. Sergio Higuita tem 21 anos e esteve os últimos dois na Manzana Postobón.

Mas é outro colombiano que pode ser o presente vitorioso da equipa americana. Daniel Martinez não teve o ano de estreia que procurava no World Tour, muito devido a um incidente com um condutor de um carro durante um treino. O colombiano chegou a perder a consciência ao ser agredido. Recuperou e foi possível perceber que Uran tem um compatriota preparado para ser algo mais do que um gregário. Só tem 22 anos, mas é mais um ciclista de uma geração de ouro da Colômbia e que vai procurar ganhar definitivamente um lugar entre as principais figuras da EF Education First-Drapac p/b Cannondale.

Uma referência a José Neves, que teve a oportunidade de viver o ambiente de uma equipa World Tour. O ciclista da W52-FC Porto - vai para a Burgos-BH - realizou um estágio desde Agosto, participando em oito corridas. Não foi contratado para 2019, mas a experiência e o facto de ter chamado a atenção de uma equipa do escalão principal, são pormenores que poderão fazer a diferença na sua carreira.

Permanências: Rigoberto Uran, Sep Vanmarcke, Michael Woods, Matti Breschel, Nathan Brown, Hugh Carthy, Simon Clarke, Lawson Craddock, ulián Cardona, Mitchell Docker, Joe Dombrowski, Alex Howes, Sebastian Langeveld, Daniel Martinez, Daniel McLay, Lachlan Morton, Sacha Modolo, Logan Owen, Taylor Phinney e Julius van den Berg.

Contratações: Tejay van Garderen (BMC), Sean Bennett (Hagens Berman Axeon), Alberto Bettiol (BMC), Jonathan Caicedo (Medellin), Moreno Hofland (Lottou Soudal), Sergio Higuita (Manzana Postobón), Tanel Kangert (Astana), Lachlan Morton (Dimension Data), James Whelan (Drapac EF Cycling) e Luis Villalobos (Aevolo).


12 de setembro de 2018

Carros da caravana da Vuelta foram vandalizados

O público no País Basco proporcionou um ambiente espectacular, que o vencedor da etapa, Michael Woods, não deixou passar quando falou sobre a sua vitória em Balcón de Bizkaia. A última subida contou com as bermas preenchidas de fãs que o canadiano não escondeu terem sido importantes para o motivarem. No entanto, a manhã para a sua equipa começou em sobressalto. Alguns veículos da EF Education First-Drapac p/b Cannondale foram vandalizados durante a noite, com mensagens pintadas a pedir amnistia para os membros da ETA que se encontram presos e também a dizer para a Vuelta sair do País Basco.

Mas não foram os únicos afectados. A Bahrain-Merida também foi vítima do mesmo acto, tal como carros da comunicação social. Ao todo foram nove os carros da caravana da corrida que apareceram com as frases. A polícia explicou que os veículos estavam estacionados no passeio de La Canilla, na região de Portugalete, e na rua Río Castaños, em Barakaldo, segundo escreve o jornal Marca.

A Volta a Espanha não passou pelo País Basco durante 34 anos. Regressou em 2011 e desde então que a região tem sido presença habitual na corrida, com etapas que agradam aos ciclistas, tanto pela dificuldade, como pelo adeptos. No entanto, o passado ainda não está esquecido por algumas pessoas, o que deixou triste um dos vários bascos que fazem parte da caravana da Vuelta. Juanma Garate, um dos directores desportivos da EF Education First-Drapac p/b Cannondale, partilhou no Twitter a fotografia de um dos carros vandalizados com a mensagem: "Ainda somos assim?"


As frases pintadas nos veículos eram "Amnistía osoa" (amnistia geral) e "Vuelta alde hemendik" (Volta fora daqui). Também durante a etapa aparecem mensagens como "aqui não é Espanha", mas em dia de trabalho, o que mais se viu foi um enorme apoio aos ciclistas e a última subida contou com um corredor de fãs que esperaram horas para ver passar os corredores numa das subidas mais difíceis da Vuelta e nem o nevoeiro que pouco deixava ver no Alto del Balcón de Bizkaia afastou os adeptos.

Já no ano passado a Volta a Espanha também teve um caso de polícia. Foi noutra ponta do país, em Almeria, que o autocarro da Aqua Blue Sports ardeu, deixando a equipa sem transporte. Foi de Portugal que chegou a ajuda, com a então LA Alumínios-Metalusa-BlackJack a emprestar o seu à equipa irlandesa.

No País Basco as razões e a história são bem diferentes, mas no final, ganhou o ciclismo, pois foi um excelente dia de espectáculo, no qual os fãs tiveram forte contribuição pelo ambiente que criaram.

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30 de agosto de 2018

"Estou calmo. O que tiver de ser, será"

(Fotografia: © Gruber Images/EF Education First-Drapac p/b Cannondale)
O crescimento de José Neves em 2018 foi tal que até parece que foi há muito que admitiu que lhe tinha custado "um pouco sair da Liberty Seguros-Carglass". No entanto, na W52-FC Porto não só confirmou todo o seu valor, como o fez conquistando uma das principais corridas do calendário nacional: o Troféu Joaquim Agostinho. Oito meses depois de ter vestido pela primeira vez o equipamento azul e branco, trocou por um cor-de-rosa e verde. Tinha muitas expectativas para 2018, mas dar um salto tão grande, tão cedo, não deixou de ser algo inesperado. As exibições de José Neves, não só este ano, não passaram despercebidas lá fora e o ciclista está a estagiar na EF Education First-Drapac p/b Cannondale.

A equipa americana levou José Neves até à altitude da Volta ao Colorado. O ciclista português confessou que não foi fácil e quase meteu o pé no chão. Apesar de não se mostrar particularmente satisfeito com o resultado final, ficou numa positiva 48ª posição, a 15:19 do vencedor, Gavin Mannion (UnitedHealthcare). No contra-relógio, Neves comprovou um dos seus pontos fortes e durante mais de uma hora ninguém bateu o seu tempo, num pormenor que foi destacado no site da equipa, já que se tratava da estreia do jovem de 22 anos ao mais alto nível.

"[O resultado] foi mais ou menos", afirmou José Neves. "Integrei-me bem na equipa, os colegas foram porreiros. Falavam um pouco espanhol e conseguimos entender-nos", preferiu destacar. Ao Volta ao Ciclismo, o ciclista explicou que não foi fácil correr no Colorado devido à altitude e só pensa em fazer mais e melhor na próxima corrida. "Tenho de mostrar o meu valor lá fora e a ver se a experiência corre um pouco melhor na Grã-Bretanha, porque lá andei muito em altitude e não estava habituado. Mas fiz tudo o que me pediram e estão contentes comigo. Vamos ver se fico para o ano."


"O que me pedem tento fazer ao máximo, mesmo que fique quase a pé"

Houve um sorriso que não largou José Neves durante toda a conversa. "O sonho é mesmo ficar lá, mas estagiar já está a ser bastante bom", salientou o ciclista, que mostra-se tranquilo quanto ao futuro, não deixando transparecer qualquer ansiedade. Para Neves só o facto de estar numa equipa do World Tour, mesmo como estagiário, poderá significar a abertura de outras portas, seja essa na EF Education First-Drapac p/b Cannondale, ou noutra formação estrangeira. Contudo, revela de imediato o respeito que tem pela equipa que o levou para o profissionalismo, a W52-FC Porto. "Não, não estava à espera [de ir para uma equipa World Tour tão cedo na carreira]. Eu quero ir para fora, mas cá também me sinto bem. Vamos ver o que o futuro me reserva", referiu.

Foi através do seu empresário que conseguiu o estágio. Depois de uma primeira experiência no Colorado, será então na Grã-Bretanha (de 2 a 9 de Setembro) que irá estar ao lado de alguns dos grandes nomes do ciclismo mundial, como Christopher Froome, Geraint Thomas, Primoz Roglic, Julian Alaphilippe e muito mais. Nada de novo, já que na Volta ao Algarve já teve contacto com ciclistas deste nível, mas agora terá vestido o equipamento de uma equipa do World Tour.

"Estão a pedir-me para quando é preciso para trabalhar, trabalhar e para mostrar que tenho valor para lá estar. O que me pedem tento fazer ao máximo, mesmo que fique quase a pé. Foi o que aconteceu no primeiro dia no Colorado. Quase parei! Mas eles [responsáveis] ficaram contentes e o director desportivo depois disse para eu ir com calma, para recuperar para o contra-relógio", contou. Depois da Volta à Grã-Bretanha, José Neves terá ainda a oportunidade de se mostrar em algumas clássicas em Itália, em Outubro.


"Lá fora querem ciclistas completos porque as provas são todas discutidas nas montanhas e nos contra-relógios"

Se em Portugal não lhe falta nada para evoluir na equipa de Nuno Ribeiro, claro que na EF Education First-Drapac p/b Cannondale há grandes diferenças, não fosse uma equipa do escalão mais alto do ciclismo mundial: "É tudo diferente. Mais à grande. Tudo o que é preciso está lá. Um pequeno detalhe, se é preciso trocar qualquer coisa troca-se... Não se olha a custos, não se olha nada. Na comida se é preciso algo, vai-se buscar." Não esconde que se sentiu um pouco como um rei.

Pode não ter conhecido a principal estrela da equipa, Rigoberto Uran, ou Sep Vanmarcke, Pierre Rolland (que está de saída no final da temporada), Sacha Modolo... Mas esteve ao lado de um Taylor Phinney e também Hugh Carthy, Joe Dombrowski, Daniel Martínez e Nathan Brown. Neves contou ainda que conheceu o australiano Brendan Canty, apesar do ciclista não ter competido no Colorado, além de ficar a conhecer parte do staff. Não esconde que estar numa equipa que conta com grandes figuras da modalidade mexe com ele, mas não se deixa levar por ilusões.

"Estou calmo. O que tiver de ser, será. Se não ficar poderá aparecer outra oportunidade de ir para fora na mesma. É uma porta que se abriu. Lá fora querem contra-relogistas que passem bem a montanha, querem ciclistas completos porque as provas são todas discutidas nas montanhas e nos contra-relógios", disse. Tendo em conta as características de José Neves, perante a descrição, questionou-se se não é perfeito para o que procuram. "Tem dias", respondeu, muito bem disposto e naturalmente feliz pela fase que está a viver.

Neves é um dos três estagiários que a equipa americana está a testar. Além do português, foram chamados os australianos Cyrus Monk e James Whelan, corredores com características diferentes, mais a pensar nas clássicas.

29 de agosto de 2018

Vestiu a camisola vermelha e renovou contrato

(Fotografia: © Photo Gomez Sport/La Vuelta)
Ao contrário das outras etapas, o pelotão pareceu que desta vez estava com alguma pressa de terminar a etapa. Talvez tenha ajudado que a fuga tenha tido inicialmente 25 ciclistas, o que pode ter contribuído para um ritmo mais acelerado (41 quilómetros/hora de média). Porém, isso não significou que a Sky tivesse grande vontade de estar a controlar e muito menos a perseguir. Sem surpresa houve uma mudança no dono da camisola vermelha, num dos raros momentos em que se viu a equipa britânica a não querer estar com a camisola de líder. Rudy Molard, da Groupama-FDJ, subiu a uma posição que vai mudar o panorama das próximas etapas a nível táctico.

Na chegada à Sierra de la Alfaguara, na terça-feira, ficou claro que o bloco da Sky está a anos-luz do normal. Só David de la Cruz ficou no grupo da frente na subida final e nem esteve na ajuda a Michal Kwiatkowski. Antes, a equipa limitou-se a guiar o pelotão, sem nunca se preocupar em perseguir a fuga. Não significa que a equipa não queira lutar pela Vuelta, significa apenas que assume que não está tão forte como normalmente se apresenta e prefere guardar forças para uma fase mais decisiva da corrida. Não tendo de controlar, "só" precisa a partir de agora proteger Kwiatkowski e De la Cruz.

Quem quer apostar nas fugas terá ficado triste, pois com a postura da Sky, era provável que mais triunfassem. Porém, com a Groupama-FDJ tudo será diferente. Thibaut Pinot é o líder, ainda que tenha dito estar em Espanha para ganhar etapas. Mas ter Molard no primeiro lugar e inicialmente com 1:01 de vantagem sobre o polaco da Sky, deixa a equipa francesa numa posição inesperada e com uma oportunidade de ouro. Contudo, essa margem já foi reduzida para 41 segundos. O francês foi sancionado com 20 segundos por ter recebido abastecimento após o limite permitido.

Molard é um dos bons homens de trabalho que a Groupama-FDJ tem. O próprio diz que é um gregário e que estar com a camisola vermelha é um bónus, num dia em que teve liberdade. No entanto, a táctica poderá agora passar por tentar jogar um pouco com duas armas, tendo sempre Pinot pronto a assumir o papel que lhe é habitual. A questão prende-se com a condição física de ambos. Pinot falhou a última etapa do Giro devido a uma pneumonia e acabou por ficar fora do Tour. Será que está a 100%? O francês não tem falado muito sobre como a sua condição, mas está a 1:24 de Molard, ou seja, dentro da margem na qual estão quase todos os que estão pela disputa da geral.

Molard é um bom ciclista em provas por etapas e soma alguns pódios em corridas secundárias. Este ano conquistou a sua vitória mais importante ao vencer uma tirada no Paris-Nice. Está a menos de um mês de cumprir 29 anos e para acabar um dia que marcará a sua carreira, além de vestir a camisola vermelha a equipa anunciou a renovação de contrato por mais dois anos como Molard. Eis uma boa dose de motivação em tons de vermelho e de garantia de continuidade na equipa que representa desde 2017, depois de cinco anos na Cofidis.

Falta agora saber se está preparado para tamanha responsabilidade, como é liderar uma grande volta, quando a alta montanha regressar à Vuelta. Na quarta etapa tinha perdido cerca de três minutos para o grupo de Kwiatkowski. Recuperou-os e agora não será apenas um gregário, pelo menos até domingo, quando a etapa de La Covatilla colocar muito provavelmente no seu lugar quem de facto está na disputa pela Vuelta. Se Molard pode ser um outsider inesperado, ficaremos a saber nesse dia.

A Groupama-FDJ irá controlar as etapas de forma bem diferente da Sky, irá perseguir, irá tentar defender a camisola vermelha. Será o regresso à normalidade no pelotão, numa corrida que ganha outra indefinição não estando a Sky na liderança. Mesmo a postura de outras equipas poderá ser a partir de agora diferente.

A vez da EF Education First-Drapac p/b Cannondale suspirar de alívio

(Fotografia: EF Education First-Drapac p/b Cannondale)
Um dia depois da Dimension Data ter quebrado um enguiço de mais de um ano sem vitórias no World Tour, foi a vez da formação americana fazer o mesmo. Simon Clarke fechou com chave de ouro uma etapa em que a fuga triunfou. O último triunfo em corridas do principal calendário havia sido na Volta a França, quando Rigoberto Uran venceu a nona etapa, no dia 9 de Julho. de 2017.

Foi apenas a quinta vitória da temporada para a EF Education First-Drapac p/b Cannondale, que sofreu uma enorme desilusão quando Rigoberto Uran abandonou o Tour, depois de há um ano ter sido segundo. O colombiano está na Vuelta para ganhar, mas a vitória de Clarke retira alguma pressão de uma equipa a precisar desesperadamente de uma grande conquista. O australiano bateu ao sprint Bauke Mollema (Trek-Segafredo) e Alessandro de Marchi (BMC), um trio que se formou na frente à medida que o grande grupo de fugitivos se foi desfazend. Rudy Molard, o novo líder, cortou a meta oito segundos depois. O pelotão chegou a 4:55 de Clarke.

Para o australiano há um sentimento ainda mais especial por vencer na Vuelta. Foi nesta grande volta que se estreou em corridas de três semanas em 2012 e ganhou uma etapa, então ao serviço da Orica GreenEDGE, actual Mitchelton-Scott. Clarke só pensa agora em regressar à sua função de estar ao lado de Uran, pois se a questão de um triunfo de etapa está resolvido, a equipa quer colocar o seu líder pelo menos no pódio em Madrid.

Nelson Oliveira (Movistar), Tiago Machado e José Gonçalves (Katusha-Alpecin) terminaram np pelotão. José Mendes (Burgos-BH) perdeu 6:11 minutos para Clarke.

Pode ver aqui as classificações completas. Atenção à geral, que no momento em que o texto é publicado ainda não está corrigida. São 41 segundos entre Molard e Kwiatkowski e não 1:01, devido à sanção que o francês sofreu.

Depois de fazer uma sondagem no Twitter se deveria ou não entrar pelo quarto dia consecutivo na fuga, Luis Ángel Maté "descansou", mas o ciclista da Cofidis continua como líder da montanha. Michal Kwiatkowski (Sky) vai vestir a camisola verde dos pontos que estava a "emprestar" a Alejandro Valverde (Movistar) enquanto foi líder da geral. O espanhol vai envergar a  do prémio do combinado e a Astana é primeira por equipas.

O regresso dos sprinters

A etapa entre Granada e Roquetas de Mar (188,7 quilómetros) teve uma segunda categoria já perto do final que retiraria a oportunidade aos sprinters. Porém, a fuga também foi quem triunfou, até porque a Quick-Step Floors a não quis fazer a perseguição sozinha, quando a etapa de hoje é bem melhor para o seu chefe-de-fila. Esta quinta-feira será bem diferente. É uma etapa para os sprinters, que tem duas terceiras categorias para ultrapassar, um terreno pouco plano, mas na Vuelta é assim. A equipa belga terá desta feita a ajuda da Groupama-FDJ para controlar a fuga, com Elia Viviani a espreitar a sua segunda vitória na corrida, mas com Peter Sagan (Bora-Hansgrohe), Nacer Bouhanni (Cofidis) e Giacomo Nizzolo (Trek-Segafredo - foi segundo há dois dias), por exemplo, a querem tentar impor-se ao sprinter que mais ganha este ano.

Serão 155,7 quilómetros entre Huércal-Overa e San Javier, Mar Menor.



25 de agosto de 2018

Lawson Craddock passou o cheque

(Fotografia: Twitter EF Education First-Drapac p/b Cannondale)
Para terminar um notável desafio de superação pessoal em prol de terceiros, Lawson Craddock teve direito a uma celebração digna daquilo que alcançou. O velódromo de Alkek recebeu cerca de 450 pessoas para aplaudir e agradecer a um dos heróis da Volta a França, que finalmente passou o prometido cheque num valor que nunca esperaria. Foram angariados quase 280 mil dólares (240 mil euros), quase o triplo do que Craddock tinha proposto. A este número há que juntar ainda o dinheiro ganho através do leilão de uma das bicicletas que utilizou no Tour.

Tudo começou na primeira etapa da mítica corrida. A meio, o americano da EF Education First-Drapac p/b Cannondale caiu, fracturando a omoplata, além de abrir o sobrolho. Craddock não quis abandonar e tornou o seu sacrifício numa forma de angariar dinheiro para recuperar o velódromo onde tanta vezes treinou na sua juventude e que tinha ficado danificado aquando da passagem do furacão Harvey, há um ano. O ciclista comprometeu-se a dar 100 dólares por cada etapa que terminasse, iniciando assim um crowdfunding. Convidou quem quisesse ajudar a contribuir também, fosse qual fosse o valor. O objectivo era chegar aos 100 mil dólares. Superou qualquer expectativa. A equipa resolveu leiloar uma das bicicletas utilizada por Craddock no Tour e devidamente autografada. Foi vendida por 11.050 dólares, cerca de 9500 euros e todos os tostões foram para a recuperação do velódromo.

O americano de 26 anos terminou a Volta a França, admitindo que sem o crowdfunding teria provavelmente desistido. Ficou com o "título" de "lanterna vermelha", mas é mesmo um caso em que se é orgulhosamente último.

Ainda não está previsto o regresso de Craddock à competição, mas o ciclista esteve bem animado na festa preparada no velódromo de Houston. Muitos jovens marcaram presença e o corredor teve direito a uma primeira volta de reconhecimento, antes de continuar com a animação.

No início da sua carreira, Craddock deu nas vistas na então Bontrager, a estrutura de Axel Merckx, agora Hagens Berman Axeon. Foi um dos muitos ciclistas que o belga ajudou a colocar no World Tour. Esteve na Giant-Alpecin (2014 e 2015), antes de assinar pela actual EF Education First-Drapac p/b Cannondale. Soma alguns top dez na Volta à Califórnia e em 2016 foi sexto no entretanto extinto Critérium International. Tem-se destacado mais como homem de trabalho e está em final de contrato.

Apesar de ser um ciclista de qualidade, a fama acabou por chegar em força este ano, tudo porque soube transformar um mau momento em algo extremamente positivo. Os grandes exemplos não advêm apenas dos resultados desportivos.


30 de julho de 2018

Orgulhosamente último para angariar mais do dobro do dinheiro que pretendia

(Fotografia: © EF Education First-Drapac p/b Cannondale)
Ter um último classificado da Volta a França a ser quase tão falado como o vencedor deve ser algo quase inédito. Mas nem tudo é competição, nem tudo são vitórias que ficam na história e a que se tem direito a um bonito troféu. Por vezes, a atitude, a força mental e a solidariedade também têm espaço na alta competição. É por tudo isto que Lawson Craddock, o número 13 deste Tour, pode dizer que foi orgulhosamente último da corrida, do primeiro ao último dia. 

Só durante 100 quilómetros não sofreu com as dores de quem fracturou a omoplata logo na primeira etapa. Uma queda que o deixou ainda com um rosto ensanguentado devido a um corte no sobrolho. Uma das imagens desta Volta a França. Poderia ter abandonado ao saber que tinha fracturado a omoplata, mas decidiu continuar e tornar a sua presença no Tour uma forma de angariar dinheiro para a reconstrução do velódromo de Alkek, em Houston, muito afectado pelo furacão Harvey, há um ano. Craddock comprometeu-se a doar 100 dólares (cerca de 85 euros) por cada etapa que terminasse. Apelou a que mais também ajudassem com o valor que quisessem.

O seu esforço não foi inglório. Na campanha criada na página Go Fund Me pode-se ver que vai em mais de 233 mil dólares, quase 200 mil euros. Mais do dobro do inicialmente pretendido. "Sem a campanha, eu se calhar teria ido para casa há duas semanas", admitiu Craddock, no comunicado da equipa EF Education First-Drapac p/b Cannondale. "Fui além dos meus limites. Muitas vezes durante a corrida não sabia se conseguiria, mas as palavras de encorajamento e a generosidade que todo o mundo mostrava, motivaram-me. Cortar a meta em Paris é algo extremamente emotivo", salientou.

Com o líder Rigoberto Uran a abandonar, a equipa não conseguiu obter nenhum resultado de nota neste Tour, depois do segundo lugar do colombiano na edição passada. Porém, o último lugar de Craddock foi um feito que até o director da equipa destacou. "O que o Lawson fez foi muito altruísta", referiu Jonathan Vaughters, que contou como toda a equipa o apoiou. Pierre Rolland, por exemplo, abria-lhe os géis durante a corrida.

Para aguentar as 21 etapas, incluindo a do pavé - que se foi infernal para muitos, ninguém a fez com uma fractura na omoplata -, Craddock foi submetido a três sessões de quiroprática por dia, além de ser constantemente acompanhado pelos médicos da equipa, directores e sempre pelos companheiros.

Muitas vezes se viu aquele número 13 no final do pelotão e até pode ter ficado com o título de lanterna vermelha, no entanto, quando se olha para os resultados nas etapas, há um que salta à vista: no Alpe d'Huez.  Dos 153 ciclistas que nesse dia terminaram, Craddock foi 42º a "apenas" 23:39 de Geraint Thomas (Sky). De resto terminou sempre entre os últimos, mas é mesmo caso para dizer que Craddock foi orgulhosamente último: 145º, a 4:34:19 horas do camisola amarela, Geraint Thomas.


12 de julho de 2018

O que comem os ciclistas durante uma grande volta?

(Fotografia: ©ASO/Alex Broadway)
A nutrição é um ponto essencial para os ciclistas realizarem boas prestações. Actualmente os famosos pratos a abarrotar de massa já são variados com refeições preparadas ao pormenor, mas há também que ter em conta os gostos pessoais dos ciclistas. Estamos a falar de gastos de cinco mil calorias por dia, ou mais, durante 21 etapas. Há uma descrição que é fantástica: uma grande volta "é como uma festa de Halloween que dura três semanas!"

É referência é da responsabilidade de Sophie Roullois, uma das responsáveis por esta área na EF Education First-Drapac p/b Cannondale, equipa de Rigoberto Uran. "Eu coloco uns mini Snickers [nos sacos entregues durante a corrida]", admitiu, num artigo publicado no site Bicycling. Lê-se ainda mais uns exemplos, como as gomas que Peter Sagan tornou famosas, mas que afinal têm mais fãs no pelotão. O chef da Mitchelton-Scott afirma que há pelo menos um ciclista da equipa que não as dispensa. Nicki Strobel explicou também que durante a temporada não incentiva muito as dietas "gordas", mas, quando chega um Tour, ou outra grande volta, não tem dúvidas: "Os hidratos de carbono são reis!"

Outra perspectiva diferente é como gerir não só os gostos pessoais, mas as diferentes nacionalidades, que tem enorme influência de como os ciclistas preferem as suas refeições. Olga Belenko, chef da EF Education First-Drapac p/b Cannondale, explica como é inevitável que o arroz, massa e batatas façam parte das refeições, mas os ciclistas latinos "gostam das coisas simples e separadas, como os vegetais, carne grelhada, molhos e nada muito picante". Quanto aos nórdicos, preferem "batata cozida e sabores cremosos" e os americanos "são doidos" por caril e especiarias. Mas diz Belenko que há algo que todos os ciclistas gostam: panquecas!

A chef da equipa americana conta ainda como não pode estar sempre a servir as mesmas comidas todos os dias, tentando adaptar algumas receitas às necessidades específicas deste tipo de atletas. E há espaço para pedidos especiais. Olga Belenko contou que o mais estranho que recebeu foi quando quiseram um jantar tipicamente russo.

Como pequenas curiosidades, Uran parece que gosta muito de bananas da terra e de vez em quando lá aparece com umas para serem cozinhadas. Na Mitchelton-Scott não se revelaram nomes, mas Strobel referiu como há um ciclista que gosta apenas de uma omelete com banana: "É a primeira vez que ouço falar disto, apenas uma normal omelete de três ovos com banana esmagada nela!" 

Também a Gazzetta dello Sport pegou neste tema da nutrição, desta feita com Vincenzo Nibali como foco. O italiano acredita que poderá estar perante uma última possibilidade de ganhar o Tour pela segunda vez e não está a deixar nada ao acaso. Está a ser acompanhado por uma nutricionista que prepara diariamente os menus que o chef deverá preparar para Nibali. Como bom italiano que é não dispensa uma boa "pasta" ou um saboroso risotto, mas não dispensa a carne e a preferência de peixe vai para o atum e salmão. Para sobremesa, os gelados estão fora de questão por questões higiénicas, mas um cheesecake, uma mousse de chocolate proteica ou um tiramisu podem entrar no menu.

Para terminar, não se pense que um ciclista não cede a tentações. Phil Gaimon, ciclista americano que se retirou em 2016, contou ao Bicycling que a manteiga de amêndoas é uma das preferidas entre os corredores e que uma tigela de cereais à noite também era algo muito normal. Pessoalmente, Gaimon confessou como se "atirava" às bolachas que pessoas que não conhecia lhe ofereciam. Os médicos da equipa obrigavam-no a prometer que não as comeria, mas Gaimon não resistia.

»»Uma vitória no Tour e a época já não está a ser tão má««

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9 de julho de 2018

Cada etapa que Craddock terminar "custar-lhe-á" 100 dólares

(Fotografia: EF Education First-Drapac p/b Cannondale)
Lawson Craddock preparou-se "apenas e só" para ser um bom apoio a Rigoberto Uran na Volta a França. Porém, tornou-se na figura da equipa logo no primeiro dia, sendo mais um exemplo de dedicação e profissionalismo. Fazer metade de uma longa etapa de 201 quilómetros com o sobrolho a sangrar e ainda com uma omoplata fracturada - que só soube depois -, elevou-o a um estatuto de herói. Se fosse para casa ninguém lhe apontaria nada, contudo, Craddock nem colocou essa hipótese. Ao saber do estado da sua omoplata a reacção foi que tudo iria fazer para continuar no Tour. Mas resolveu acrescentar algo mais, algo solidário.

O ciclista de 26 anos é do Texas e resolveu doar 100 dólares (cerca de 85 euros) por cada etapa que terminar, com o objectivo de ajudar na recuperação do velódromo de Alkek, em Houston. Já lá vão 300 dólares e Craddock tem desafiado os seus seguidores nas redes sociais a seguirem o exemplo. O velódromo ficou danificado após a passagem do furacão Harvey, há quase um ano, e o corredor explicou que quer dar o seu contributo, visto ser um local importante na formação de jovens ciclistas.

Na segunda etapa, Craddock foi uma presença assídua no final do pelotão, mas sempre se foi aguentando. Apesar do enorme desconforto devido à lesão na omoplata, a esperança é que a situação vá melhorando e que o americano possa ainda desempenhar o papel (ou pelo menos parte dele) na ajuda a Rigoberto Uran. Ainda nesta segunda-feira, só a cerca de três quilómetros do final, dos 35,5 quilómetros do contra-relógio colectivo, é que o corredor descolou. O número 13 não lhe trouxe sorte, mas a atitude optimista de Craddock tem sido muito falada durante estes primeiros dias do Tour, até porque foi quase inevitável fazer uma comparação com o que se tinha visto dias antes no Mundial de futebol.

Um Neymar em agonia a rebolar na relva após simular uma falta tornou-se viral e ao lado a imagem de Craddock a sangrar, mas a continuar na corrida demonstra bem a diferença de atitudes. "É uma imagem divertida, mas o ciclismo e o futebol são desportos completamente diferentes. Quando cais da bicicleta ninguém pára por ti. A corrida não pára. É uma grande diferença. Para mim o ciclismo é dos desportos mais difíceis", afirmou Craddock sobre a montagem que se tornou um sucesso na internet.


Sobre o que aconteceu naquela primeira etapa, o ciclista explicou que caiu na zona de reabastecimento. "Alguém deixou cair um bidão e quando se está em bicicletas como estas, com rodas como estas, mais valia ser uma granada de mão! Bati em cheio e, sinceramente, nem vi. Quando me apercebi estava a sair disparado para a berma da estrada", contou. A fase de reabastecimento é sempre muito sensível, com Craddock a referir que está cada vez mais perigosa, também muito por culpa das estradas estreitas nas quais, por vezes, decorre.

Agora é tentar ultrapassar um dia de cada vez, pois a folga só chegará na segunda-feira, 16 de Julho, sendo que no domingo haverá uma etapa que será um teste à omoplata de Craddock: terá de ultrapassar os pavés rumo a Roubaix.

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»»Com tanta queda... "A redução de ciclistas é um disparate"««

30 de março de 2018

Antigo ciclista da Efapel atropelado em Espanha e dois colombianos agredidos em Itália

(Fotografia: © Burgos BH)
Os últimos dias têm sido tristes para o ciclismo. Dois colombianos foram agredidos enquanto treinavam em Itália, um corredor espanhol que já representou a Efapel chocou de frente com um automóvel que circulava fora de mão e uma paraciclista morreu numa colisão com um camião. Nestes dois países tem crescido movimentos que apelam a uma maior segurança na estrada, sendo que em Espanha a luta tem sido intensa. #PorUnaLeyJusta tem sido a causa que está a apelar junto do governo a penas mais pesadas.

Esta sexta-feira, Diego Rubio, companheiro de José Mendes na Burgos BH e que em 2014 e 2015 representou a Efapel, publicou uma imagem no Twitter a mostrar o seu capacete partido depois de ter chocado de frente com um automóvel. O ciclista espanhol, de 26 anos, treinava em Navaluenga, zona de Ávila, quando o carro saiu da sua faixa. Rubio não conseguiu desviar-se e acabou por embater de frente. Já o companheiro que estava com o corredor teve mais sorte e evitou o embate. O ciclista foi transportado para o hospital, mas já garantiu que está bem, sem nada partido. "Seguimos sem endurecer as regras na estrada?" Lê-se na mensagem deixada por Rubio.

Na terça-feira, Daniel Martínez e Kristian Yustre foram agredidos por um condutor, num incidente que faz lembrar o que aconteceu no ano passado com Luís Mendonça e que afastou o ciclista do Louletano-Hospital de Loulé da Volta a Portugal. Os dois jovens colombianos, de 21 e 24 anos respectivamente, treinavam em Pistoia, na região da Toscana quando um condutor partiu para a agressão. Martinez chegou mesmo a perder a consciência.

Martinez e Yustre estavam acompanhados por outros dois ciclistas. O primeiro explicou ao El Tiempo o que aconteceu: "Estava a trabalhar e um carro queria praticamente matar-nos. Protestámos e ele ficou louco. Saiu do carro e agrediu-me, deu-me um murro e deixou-me KO. A um companheiro [Yustre] abriu-lhe o lábio e depois fugiu." A situação de Martinez foi preocupante, pois o ciclista da EF Education First-Drapac powered by Cannondale chegou a perder a memória.

Ao mesmo jornal, Yustre explicou que o compatriota já está a recuperar da amnésia, mas na terça-feira viveu momentos difíceis. O corredor da equipa italiana Amore & Vita-Prodir contou que algumas pessoas que estavam perto do local do incidente sabem quem é o homem e que ele e os companheiros apresentaram queixa na polícia. Yustre e Martinez foram levados para o hospital. O segundo passou lá na noite, mas ambos já estão em casa a recuperar. A formação americana que este ano contratou Martinez, ainda não sabe quando o seu ciclista poderá voltar à competição.


Novamente em Espanha, na quarta-feira o campeão nacional de 2016 de paraciclismo, José Angel Aceitón Chaparro, morreu após uma colisão com um camião, em Badajoz. A informação foi avançada pela Guarda Civil espanhola, mas não foram divulgados pormenores do acidente. O atleta tinha 34 anos.

Em Janeiro, Laurens De Plus e Petr Vakoc foram atropelados durante um treino na África do Sul e ainda estão a recuperar. Ainda não se sabe se Vakoc irá competir este ano. Bob Jungels treinava com os colegas da Quick-Step Floors, mas não foi afectado. O luxemburguès deixou uma mensagem a apelar ao respeito de todos os que andam na estrada, seja em que veículo for: "Todos devem considerar se vale a pena perder um ou dois minutos a ultrapassar-nos, ou a ver-se envolvido numa situação como a que estivemos há dois dias. Não estou a dizer que os ciclistas fazem tudo bem. Muitas vezes ocupamos demasiado da estrada, muitas vezes não respeitamos as regras, o que é justo dizer que também não é correcto."

São vários os casos e não apenas com ciclistas profissionais ou pertencentes a equipas. Em 2016, seis ciclistas da então Giant-Alpecin (actual Sunweb) foram atropelados em Espanha por uma condutora britânica que conduzia em contra-mão. No ano passado Michele Scarponi foi atropelado mortalmente perto de casa, a poucos dias do início da Volta a Itália. O homem que conduzia a carrinha estaria alegadamente a ver um vídeo no telemóvel. Em Portugal, o sub-23 Tiago Alves, da equipa Sport Ciclismo de São João de Ver, faleceu ao ser atingido por um veículo ligeiro.


9 de setembro de 2017

Crowdfunding acabou mesmo por salvar a Cannondale-Drapac

A precisar de sete milhões de dólares (quase seis milhões de euros) para garantir a continuidade da equipa em 2018, Jonathan Vaughters, tentou um acto já perto do desespero. Criou uma campanha de crowdfunding para tentar angariar algum desse dinheiro, de forma a manter a Cannondale-Drapac na estrada. Parecia uma tentativa condenada ao fracasso por parte do director, ainda que até já tenha reunido mais de 500 mil dólares. Porém, o crowdfunding acabou mesmo por salvar o conjunto americano. Ao saber da iniciativa, uma empresa sueca quis saber mais sobre a equipa e vai mesmo tornar-se no principal patrocinador. É um respirar de alívio, duas semanas depois dos ciclistas e staff terem recebido um e-mail a dizer que estavam livres para procurar novas equipas, mesmo tendo contrato por mais temporadas com a Cannondale-Drapac.

Foi um choque para muitos. Michael Woods, por exemplo, admitiu que a notícia estava a afectar o seu rendimento na Volta a Espanha, ainda que o canadiano vá terminar na sétima posição da geral. Rigoberto Uran, que tinha já assumido uma renovação de contrato, deu 15 dias para que a situação fosse resolvida antes de estudar propostas, enquanto outros, como Sep Vanmarcke, começaram imediatamente a olhar para as suas escolhas no mercado. Com a incerteza a dominar, para os ciclistas que estavam na Vuelta tornou-se praticamente uma corrida para garantir um contrato. Porém, na sexta-feira surgiu a notícia que havia um novo e-mail. Desta vez dizia que os ciclistas que tinham vínculo contratual iriam ter de o cumprir. Tinha sido encontrado um patrocinador.

Vaughters fez este sábado o anúncio público  este sábado, sabendo-se que Uran e Vanmarcke vão mesmo continuar, mas Dylan van Baarle poderá não fazer o mesmo. Entretanto, já vários ciclistas tinham confirmado a sua saída, mesmo antes do anúncio da falta de dinheiro, porque estavam em final de contrato. Para Vaughters, aqueles que vão sair da equipa reflectem apenas um normal movimento no mercado de transferências. Andrew Talansky surpreendeu ao anunciar o final de carreira, mas Davide Formolo vai para a Bora-Hansgrohe, Davide Villella para a Astana, Alberto Bettiol irá representar a BMC, Tom-Jelte Slagter assinou pela Dimension Data e Kristijan Koren vai continuar a carreira na Bahrain-Merida.

A equipa em 2018 vai então chamar-se EF Education First-Drapac powered by Cannondale. Mais uma vez uma equipa do World Tour conseguiu salvar-se. As novelas repetem-se, mas lá vamos vendo uns finais felizes. Há um ano foi a Lampre-Merida de Rui Costa, agora a Cannondale-Drapac e também a Quick-Step Floors (está última não foi um caso tão problemático, já que o seu principal patrocinador sempre disse que manteria o apoio, "apenas" era preciso um reforço financeiro que terá sido garantido, faltando confirmação oficial, mas os contratos com os ciclistas já estão a ser renovados e Elia Viviani será reforço). 

"Estou bastante feliz e exausto", confessou Vaughters, que disse que nas últimas duas semanas trabalhou mais horas do que nunca, entre telefonemas e viagens, de forma a garantir o vital patrocínio. De recordar que durante a Volta a França foi anunciado a entrada da Oath, ficando ainda por anunciar um outro patrocinador forte que a equipa precisava. Esse alegado acordo acabou por não se tornar realidade. Surge então agora a EF Education First, empresa sueca de ensino de línguas, que promove estudos no estrangeiro. Tem escritórios e escolas em mais de 50 países, incluindo Portugal.