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16 de abril de 2019

Sobreviver ao Paris-Roubaix incólume não é fácil. Que o diga Benoot, Keisse, Vanmarcke, Kristoff...

(Fotografia: © Gruber Images/Paris-Roubaix)
No rescaldo do Paris-Roubaix, entre quedas, choques, furos e falhas mecânicas, a corrida ficou estragada para vários ciclistas por incidentes que acontecem em qualquer prova de ciclismo, é certo, mas nesta, é quase mais provável que aconteça alguma coisa, do que um corredor sair completamente incólume dos mais de 250 quilómetros deste Inferno do Norte. Não é à toa que é assim conhecido este monumento. Que o diga Tiesj Benoot. No seu caso, foi algo mais inesperado que aconteceu, terminando não só com a sua corrida, mas com a época de clássicas. O acidentado Wout van Aert (saída de estrada, troca de bicicleta, queda e depois ficar sem forças para seguir com o grupo da frente) foi acompanhado quase todo o tempo na transmissão televisiva, mas houve pormenores com outros ciclistas - falta de energia e de atenção incluídos - que só mais tarde se percebeu o que aconteceu.

Tiesj Benoot (Lotto Soudal) foi visto a tentar recuperar terreno, numa altura em que a câmara acompanhava um Wout van Aert (Jumbo-Visma) a mostrar toda a sua mestria na bicicleta, a passar entre carros para tentar retomar o grupo da frente, depois de ter descolado após uma saída de "estrada" (leia-se pavé) na Trouée d'Arenberg (Floresta de Arenberg). Pensou-se que Benoot até poderia ser um bom aliado para o compatriota apesar de serem de equipa rivais. Porém, Benoot desapareceu das imagens. Mais tarde viu-se que um carro da Jumbo-Visma tinha o vidro traseiro completamente quebrado (imagem em baixo). Foi Benoot que chocou com muita violência contra o veículo.

(Imagem: print screen)
"Numa certa altura, o carro da Jumbo-Visma que estava à minha frente, de repente, fechou tudo [espaço]. Não consegui responder e fui direito a ele. O vidro partiu-se completamente. Um motociclista que vinha atrás de mim, tentou desviar-se de mim e acabou por cair por cima de mim. Quando estava no chão, estava com muitas dores em todo o lado", explicou Benoot ao Het Nieuwsblad.

Resultado: clavícula partida e falhará a Amstel Gold Race, que deveria ser a sua última clássica antes de uma paragem para recuperar forças e pensar na segunda metade da temporada, que terá a Volta a França como ponto alto.

Quem também não ficou nada bem tratado foi Iljo Keisse. O belga da Deceuninck-QuickStep foi contra um poste de sinalização numa ilha de tráfego. Keisse explicou que não viu aquela divisão, pois estava tapado pelo ciclista que ia à sua frente e que se desviou no último instante. Keisse já não conseguiu fazer o mesmo. As dores eram muitas e com razão. Keisse fracturou o cotovelo e teve de ser operado. Nos próximos dez dias terá um gesso no braço.

Entre os problemas mecânicos e furos, Alexander Kristoff (UAE Team Emirates) é capaz de ter ganho o prémio do mais azarado. Com três furos é impossível fazer algo de bom no Paris-Roubaix e ficou novamente bem claro como a escolha errada de equipamento pode fazer toda a diferença. Com os 29 sectores de pavé, alguns extremamente agressivos, todos os pormenores contam e Kristoff admitiu que escolheu mal as rodas e os pneus: tubeless (sem câmara de ar).

"Eu sabia que era um risco, mas estas rodas eram mesmo boas. Tive sucesso com elas nas últimas semanas [ganhou a Gent-Wevelgem e foi terceiro na Volta a Flandres] e sentia-me bem hoje [domingo] até furar. Não vou tentar de novo no próximo ano [com este equipamento]", disse Kristoff ao Cycling News, referindo-se à escolha de rodas que levam pneus tubeless. Ao fim de três furos, regressou ao sistema normal e terminou a corrida, mas a mais de 14 minutos do vencedor Philippe Gilbert.

Talvez ainda mais desiludido tenha ficado Sep Vanmarcke. O ciclista da EF Education First nem surgia como grande favorito dada a lesão no joelho que o afectou nas semanas anteriores, após uma queda. Porém, o belga apareceu em grande forma, mas com este ciclista não há nada a fazer, acontece sempre alguma coisa que o afasta de potenciais vitórias.

Quando Nils Politt (Katusha-Alpecin) atacou, levando com ele Philippe Gilbert (Deceuninck-QuickStep), Vanmarcke desesperava apontando para a sua bicicleta. No momento crucial da corrida não conseguiu mexer as mudanças, ficando preso numa que o obrigou a um enorme esforço. "Nunca me teriam deixado para trás", garantiu o ciclista, que afirmou que se estava a sentir muito bem fisicamente. A passar um dos sectores de pavé mais importantes, o Carrefour de l'Arbre, Vanmarcke ou parava ou tentava continuar até que finalmente pudesse contar com o apoio do carro da equipa que estava mais atrás.

O apoio no Paris-Roubaix é um autêntico inferno e Vanmarcke admitiu que o tempo em que teve de pedalar naquelas condições acabou por esgotar as suas forças. "Teria sido melhor ter ficado em casa no sofá. Assim não estaria tão desiludido como estou agora", afirmou, depois de cortar a meta no quarto lugar.

Para terminar temos Peter Sagan (Bora-Hansgrohe) e vencedor do Paris-Roubaix em 2018 e Greg van Avermaet (CCC), vencedor em 2017. O primeiro repetiu a história da Volta a Flandres e Milano-Sanremo. Está tudo a correr relativamente bem, até parecia estar no seu melhor esta época, mas quando se deu o ataque final: "Faltou-me alguma energia no final."

Se ao eslovaco faltou energia a Avermaet faltou atenção. O belga ficou fora da discussão no ataque feito a cerca de 50 quilómetros da meta e que permitiu formar o grupo de seis ciclistas que seguiu até perto do fim. "Não estava bem acordado quando aqueles seis homens escaparam e a minha corrida ficou praticamente terminada", admitiu Cycling News, acrescentando que não estava bem colocado, estando demasiado atrás no grupo, o que lhe tirou qualquer possibilidade de acompanhar os ciclistas que ficaram na frente.

Para o ano, há mais. Mas  aqui ficam estas imagens espectaculares da perspectiva de quem vai nesta fantástica corrida e que ajudam a perceber como é difícil fazer um Paris-Roubaix sem sofrer qualquer contratempo.


2 de dezembro de 2018

Poucos triunfos, mas duas histórias que marcaram 2018

(Fotografia: Facebook EF Education First-Drapac p/b Cannondale)
A EF Education First-Drapac p/b Cannondale foi uma das equipas que chegou à Vuelta a precisar de bons resultados. Foi um 2018 algo frustrante, principalmente pelas expectativas criadas em redor de Rigoberto Uran, mas não só. É um pouco a história desta equipa americana: num ano alcança mais do que se está à espera, no outro, quando se pensa que tem condições para manter o nível, passa ao lado de uma temporada.

Desportivamente, o abandono de Uran no Tour (a etapa de Roubaix foi madrasta para muitos ciclistas), depois de há um ano ter vencido uma etapa e subido ao pódio nos Campos Elísios, foi um rude golpe. O colombiano jogou tudo na Volta a França e foi o primeiro a ser crítico com a sua época. Ganhou uma etapa na Colombia Oro y Paz e na Volta à Eslovénia e foi fazer sétimo na Vuelta, contudo, considerou que foi pouco para o que pretendia alcançar.

Há que não esquecer que 2017 ficou marcado pela incerteza do futuro da equipa, que demorou a encontrar um patrocinador. A EF Education First chegou a tempo não só se salvar a estrutura, mas também de manter corredores como Uran e Sep Vanmarcke. Foram criadas condições para acreditar que com estabilidade poder-se-ia fazer ainda melhor. No entanto, também Vanmarcke não conseguiu a grande vitória que tanto persegue.

É um especialista de clássicas do pavé e foi igual a ele próprio, o que começa a significar que é dos melhores neste tipo de corridas, mas falta-lhe sempre algo para chegar ao tal triunfo. Mais uma série de bons resultados, dois pódios, mas zero vitórias. No entanto, ainda não se perdeu a esperança de ver Vanmarcke alcançar pelo menos uma conquista que premeie a sua qualidade.

Joe Dombrowski, Hugh Carthy, Pierre Rolland são todos corredores que os responsáveis têm depositado a esperança, mas que demoram a afirmar-se. Para o francês já nem há tempo, pois aos 32 anos fechou-se a porta do World Tour e regressará ao seu país, para representar a Vital Concept - B&B Hotels. O americano, de 27 anos, e o britânico, de 24, vão continuar a ser apostas.

A questão é que a EF Education First-Drapac p/b Cannondale não pode apenas esperar que no futuro próximo alguns ciclistas comecem a render. E no presente, se Sacha Modolo, Daniel McLay ou Taylor Phinney também ficaram aquém, Simon Clarke e Michael Woods, dois dos mais experientes da equipa, assumiram a responsabilidade de salvar a temporada com duas vitórias na derradeira grande volta. Dois grandes momentos de ciclismo e que deixaram a equipa a respirar um pouco melhor. Para Woods, Espanha é um país em que se dá cada vez melhor, mas esta foi uma vitória que valeu mais do que um troféu ou uma subida ao pódio numa grande volta.

O canadiano ficou em lágrimas em Balcón de Bizkaia e, em directo, contou que, dois meses antes, o seu bebé tinha nascido morto. A comovente história de Woods foi mais um exemplo como muitas vezes se compete por mais do que a glória pessoal. Na EF Education First-Drapac p/b Cannondale foi o segundo exemplo do ano de como a força mental pode ser tão decisiva como a boa condição física.

Ranking: 16º (4373 pontos)
Vitórias: 6 (incluindo duas etapas na Vuelta)
Ciclista com mais triunfos: Rigoberto Uran (2)

A época da equipa acabou por ir muito além do sucesso, ou falta dele, a nível desportivo. No Tour tinha sido Lawson Craddock o herói. Foi orgulhosamente último do primeiro ao último dia e são poucos que o poderão dizer. Tinham decorrido apenas os primeiros 100 quilómetros da corrida quando Craddock caiu. Foi de rosto ensanguentado, com o corpo muito mal tratado que acabou o dia. Soube depois que tinha uma omoplata fracturada.

Decidiu continuar, criando um crowdfunding para angariar dinheiro para recuperar o velódromo da sua terra, destruído por um furacão. Comprometeu-se a dar 100 dólares (cerca de 85 euros) por cada dia que cortasse a meta e apelou a doações. Chegou aos Campos Elísios! Angariou mais do dobro do pretendido, ultrapassando os 200 mil euros. Os seus companheiros apoiaram-no neste desafio, chegando ao ponto de lhe abrir os pacotes da barras energéticas, por exemplo, porque até isso custava a Craddock fazer. Mas sobreviveu à etapa de Roubaix, subiu o Alpe d'Huez e chegou tanta vez a fechar o pelotão, mas acabou sempre as etapas. Este ano não houve pódio para a equipa americana, mas o que fez Craddock, tornou-o numa das figuras da Volta a França.

Como uma equipa não pode viver apenas de momentos de forte emoção, 2019 foi preparado com um misto de esperança na juventude e de ver um ciclista finalmente atingir o seu potencial, quando já poucos acreditam que o faça. Tejay van Garderen foi um dos dois atletas que foram contratados à BMC (Alberto Bettiol irá reforçar o bloco das clássicas). Uma aposta arriscada e, talvez por isso, tenha sido assinado apenas um vínculo para 2019. Ao contrário de Sean Bennett. 22 anos, muito talento, escola Axel Merckx (Hagens Berman Axeon), este americano é visto como uma estrela em ascensão... tal como foi visto, em tempos, Van Garderen. Assinou por duas temporadas. Sem entrar em comparações, pois cada ciclista segue o seu caminho, certo é que Bennett será um dos ciclistas cuja evolução será seguida atentamente. Já Van Garderen poderá ter a sua derradeira oportunidade como líder.

O equatoriano Jonathan Caicedo (25 anos, Medellin) é uma incógnita. Corredor de qualidade para a montanha, a adaptação a este nível será muito importante. Mas se for boa, poderá ser um atleta interessante. Para o sprint foi contratado um jovem colombiano. Começam a surgir os seguidores de Fernando Gaviria, num país que é cada vez menos visto como apenas de bons trepadores. Sergio Higuita tem 21 anos e esteve os últimos dois na Manzana Postobón.

Mas é outro colombiano que pode ser o presente vitorioso da equipa americana. Daniel Martinez não teve o ano de estreia que procurava no World Tour, muito devido a um incidente com um condutor de um carro durante um treino. O colombiano chegou a perder a consciência ao ser agredido. Recuperou e foi possível perceber que Uran tem um compatriota preparado para ser algo mais do que um gregário. Só tem 22 anos, mas é mais um ciclista de uma geração de ouro da Colômbia e que vai procurar ganhar definitivamente um lugar entre as principais figuras da EF Education First-Drapac p/b Cannondale.

Uma referência a José Neves, que teve a oportunidade de viver o ambiente de uma equipa World Tour. O ciclista da W52-FC Porto - vai para a Burgos-BH - realizou um estágio desde Agosto, participando em oito corridas. Não foi contratado para 2019, mas a experiência e o facto de ter chamado a atenção de uma equipa do escalão principal, são pormenores que poderão fazer a diferença na sua carreira.

Permanências: Rigoberto Uran, Sep Vanmarcke, Michael Woods, Matti Breschel, Nathan Brown, Hugh Carthy, Simon Clarke, Lawson Craddock, ulián Cardona, Mitchell Docker, Joe Dombrowski, Alex Howes, Sebastian Langeveld, Daniel Martinez, Daniel McLay, Lachlan Morton, Sacha Modolo, Logan Owen, Taylor Phinney e Julius van den Berg.

Contratações: Tejay van Garderen (BMC), Sean Bennett (Hagens Berman Axeon), Alberto Bettiol (BMC), Jonathan Caicedo (Medellin), Moreno Hofland (Lottou Soudal), Sergio Higuita (Manzana Postobón), Tanel Kangert (Astana), Lachlan Morton (Dimension Data), James Whelan (Drapac EF Cycling) e Luis Villalobos (Aevolo).


7 de abril de 2018

Bem-vindos ao Inferno do Norte. Sagan lidera a lista de perseguição à Quick-Step Floors

Sagan é um dos fortes candidatos, mas a concorrência é enorme
(Fotografia: © Bora-Hansgrohe-VeloImages)
Finalmente abrem-se as portas do Inferno do Norte! Uma vez por ano os ciclistas são transformados em guerreiros. Sofrem como não se sofre em mais nenhuma corrida. Arriscam muitas vezes uma época. O Paris-Roubaix é único, é emocionante. E se para quem o faz são 257 quilómetros de um esforço sem comparação, para quem assiste são cerca de seis horas do melhor que há para ver no ciclismo. Manter uma táctica é quase missão impossível, pelo que se há uma prova onde o instinto faz toda a diferença, é no Paris-Roubaix. E claro, quando se fala de sorte, então é raro não ouvir um corredor dizer o quanto precisa dela para ganhar ou até só para terminar O sofrimento é grande, a glória, essa coloca qualquer um dos vencedores num pedestal histórico apenas ao alcance de alguns eleitos.

Aqui construíram-se e constroem-se lendas. Os belgas Roger De Vlaeminck e Tom Boonen são os recordistas de vitórias e são dois exemplos de expoente máximo. Mas também aqui se alcançaram marcos únicos em carreiras que, de outra forma, se perderiam nas extensas estatísticas. Que o diga Mathew Hayman, que em 2016 deixou todos de boca aberta ao tirar o quinto triunfo a Boonen. Para os ciclistas que ano após ano fazem da temporada do pavé um dos objectivos da temporada, ganhar em Roubaix alimenta os sonhos do mais novo ao mais veterano (e voltamos a Hayman, que tinha 37 anos quando venceu).

Todos os cinco monumentos são importantes, mas há algo de épico que distingue a Volta a Flandres e o Paris-Roubaix. É entre estes que tanto se pergunta, qual é o preferido de cada um. As preferências ficam de parte quando se dá a partida. E este domingo é dia de se enfrentar pela 116ª vez aquela que é apelidada como a corrida do Inferno do Norte.

Dos 257 quilómetros, 54,5 serão de pavé. Parece que ainda não é desta que a chuva regressa, como se chegou a prever, e que simplesmente transforma o Paris-Roubaix em algo ainda mais incomparável. Porém, o mau tempo não larga a Europa e apesar do sol dos últimos dias ter ajudado a secar os sectores, muitos deles não estarão completamente marcados pelo pó, havendo ainda alguma lama para dificultar mais a passagem dos ciclistas. Todos os anos surgem imagens nos dias que antecedem a corrida do estado de alguns sectores e 2018 não foi excepção. A lama que cobria por completo alguns, já foi retirada.

Mais uma vez, o Eurosport permitirá seguir todas as pedaladas do Paris-Roubaix, com a transmissão a começar às 10:00. Há um ano foi "prego a fundo" desde o início, sendo impossível formarem-se fugas. Greg van Avermaet não só ganhou o seu primeiro monumento, como ficou com a marca daquele que demorou menos tempo a conclui-lo: 5:41:07 horas.

Tal como aconteceu há uma semana na Volta a Flandres, este é um ano atípico quanto a candidatos. Ninguém se destaca particularmente. Os nomes não variam, a questão é que é o colectivo da Qucik-Step Floors que é novamente o alvo a abater, com Philippe Gilbert a poder eventualmente receber alguma protecção (se tal for possível no caos que esta prova tem tendência a tornar-se). O Paris-Roubaix é um dos dois monumentos que lhe faltam. O outro é a Milano-Sanremo.


O mítico troféu (Fotografia: © Twitter Paris-Roubaix)
Apesar de ser um dos especialistas em clássicas, Roubaix nunca atraiu o belga. Pode parecer incrível, mas só o fez por uma fez, em 2007, tendo terminado na 52ª posição. Porém, surge 11 anos depois mais determinado que nunca a conquistar o Inferno do Norte. Niki Terpstra - que há uma semana ganhou na Flandres e foi primeiro em Roubaix em 2014 - e Yves Lampaert são cartas a jogar, com Zdenek Stybar desejoso de conseguir uma grande vitória que lhe vai escapando ano após anos. Em cinco participações alcançou dois segundos lugares, um quinto, um sexto e o pior foi um 110º em 2016.

E depois, os nomes do costume com o tricampeão do mundo à cabeça Peter Sagan (Bora-Hansgrohe) - será desta? -, Greg van Avermaet (BMC) - está uma sombra de si mesmo comparando com 2017 -, Sep Vanmarcke (EF Education-First-Drapac p/b Cannondale) - o crónico azarado -, Oliver Naesen (AG2R) - depois de uma grande temporada de clássicas em 2017, o belga não está a confirmar as expectativas - e Arnaud Démare (FDJ), que tenta ser o primeiro francês a vencer em Roubaix desde Frédéric Guesdon, em 1997, que era ciclista da FDJ.

Wout van Aert é aquele que é meio outsider, meio candidato pela fantástica temporada que está a fazer e será a última oportunidade para se mostrar ao mais alto nível, antes de "desaparecer" no calendário, da Europa Central, visto estar na Vérandas Willems-Crelan. Atenção a Edward Theuns (Sunweb). É um daqueles ciclistas que se está sempre à espera que um dia se chegue bem à frente. E porque não em Roubaix...

Jasper Stuyven tem estado em destaque pela Trek-Segafredo pela sua consistência, mas Mads Pedersen roubou as atenções com o segundo lugar na Volta a Flandres. John Degenkolb tem o dorsal um da equipa mais por respeito - e porque venceu em 2015 - do que por crença que faça algo. Está na altura do alemão se mostrar não vá a paciência começar a esgotar-se.

Alexander Kristoff (UAE Team Emirates), Dylan van Baarle (Sky), Edvald Boasson Hagen (Dimension Data), com uma das grandes curiosidades a ser o que poderá fazer Dylan Groenewegen, da Lotto-Jumbo. Na outra Lotto, a Soudal, Tiesj Benoot está a preparar as semana das Ardenas, pelo que Jens Debusschere e Jens Keukeleire deverão ser as apostas. Tony Martin aparece a liderar a Katusha-Alpecin, mas pelo que fez nas últimas duas edições (76º em ambas) e pelo que não tem feito na equipa suíça, é difícil olhar para o alemão como sequer um outsider.

Lançaram-se aqui uns nomes, mas uma das belezas destas corridas é que há tendência a aparecerem surpresas, como foi o caso de Pedersen na Flandres. Não esquecer que haverá dois portugueses: Nelson Oliveira e Nuno Bico, da Movistar. Nas duas últimas edições, Oliveira caiu e sofreu lesões que perturbaram as suas temporadas. No ano passado custou-lhe mesmo uma presença na Volta a França. E como curiosidade, Geraint Thomas (Sky) será o voltista presente, ele que admitiu que sente que é um regresso às suas origens, mas o objectivos são preparar o Tour, que tem no seu percurso alguns dos sectores de Roubaix.

O Percurso

Só aos 93,5 quilómetros surge o primeiro dos 29 sectores de pavé, mantendo-se o de Troisvilles para abrir as hostilidades. De recordar que estão classificados por estrelas, sendo os que têm uma os mais fáceis e os de cinco os mais difíceis. Estes serão três. Começa na Floresta de Arenberg, mas a confirmar-se o tempo seco, não deverá fazer muitas diferenças já que é ao quilómetro 162. Porém, servirá para deixar para trás alguns dos que vêm com poucas ou nenhumas intenções, ou então que não esteja em boas condições físicas.

No Mons-en-Pévèle (208,5 quilómetros) já não há margem para erros, muito menos no Carrefour de l'Arbre, quando estarão a faltar 17 quilómetros para o final. E mais uma razão porque está corrida é tão bela, é que um o sector de uma ou duas estrelas pode ser tão decisivo como um de quatro ou cinco. Há um ano Peter Sagan perdeu a possibilidade de disputar Roubaix, quando no duplo sector de Templeuve furou e viu a concorrência, nomeadamente Avermaet, ir irremediavelmente embora.

Sim, esta é daquelas corridas que não se desperdiçam as horas frente à televisão, para quem não tem a sorte de poder estar no local. Para trás ficam as guerras de palavras - este ano marcadas pela disputa Sagan/Boonen - e as intensas preparações para um dos grandes momentos do ano. Este domingo em Noyon, quando o pelotão estiver preparado para partir, nada do que se passou nas últimas semanas interessa, pois podem ser os 257 quilómetros da vida de um ciclista.

Antes de se terminar com a lista dos 29 sectores de pavé, algumas curiosidades: Albert Champion foi o mais novo a ganhar, tinha 20 anos em 1899; o mais velho foi o também francês Gilbert Duclos-lassalle, aos 38 anos (1993); o primeiro vencedor foi o alemão Josef Fischer (1896); a Bélgica é a nação mais vitoriosa (57), seguida pela França (30) e Itália (11); nos 54,5 quilómetros de pavé existem seis milhões de pedras; aquela que é entregue como troféu pesa uns meros 15 quilos! Mais uma: os últimos quatro vencedores estarão presentes, ou seja, Avermaet, Hayman, Degenkolb e Terpstra. De 2013 para trás, já todos se retiraram.

Sectores de pavé:

29-Troisvilles (km 93,5 - 2,2 km) ***
28-Briastre (km 100 - 3 km) ***
27-Saint-Python (km 109 - 1,5 km) ***
26-Quiévy (km 111.5 - 3,7 km) ****
25-Saint-Vaast (km 119 - 1,5 km) ***
24-Verchain-Maugré (km 130 - 1,2 km) **
23-Quérénaing (km 134.5 - 1,6 km) ***
22-Maing (km 137,5 - 2,5 km) ***
21-Monchaux-sur-Ecaillon (km 140,5 - 1,6 km) ***
20-Haveluy (km 153.5 - 2.5 km) ****
19-Trouée d'Arenberg (km 162 - 2,4 km) *****
18-Hélesmes (km 168 - 1,6 km) ***
17-Wandignies (km 174.5 - 3,7 km) ****
16-Brillon (km 182 - 2,4 km) ***
15-Sars-et-Rosières (km 185.5 - 2,4 km) ****
14-Beuvry-la-forêt (km 189 - 1,4 km) ***
13-Orchies (km 197 - 1,7 km) ***
12-Bersée (km 203 - 2,7 km) ****
11-Mons-en-Pévèle (km 208,5 - 3 km) *****
10-Avelin (km 214.5 - 0,7 km) **
9-Ennevelin (km 218 - 1.4 km) ***
8-Templeuve - L'Epinette (km 223,5 - 0,2 km) * e Templeuve - Moulin-de-Vertain (km 224 - 0,5 km) **
7-Cysoing (km 230,5 - 1,3 km) ***
6-Bourghelles (km 233 - 1,1 km) ***
5-Camphin-en-Pévèle (km 237,5 - 1,8 km) ****
4-Carrefour de l'Arbre (km 240 - 2,1 km) *****
3-Gruson (km 242,5 - 1,1 km) **
2-Hem (km 249 - 1,4 km) ***

3 de dezembro de 2017

Um ano em que as atenções dividiram-se entre Uran e o director da equipa

Uran venceu uma etapa no Tour, foi segundo na geral e acabou o ano a vencer
a Milano-Torino (Fotografia: Facebook Cannondale-Drapac)
É difícil escolher uma figura de destaque na Cannondale-Drapac. A dúvida é entre Rigoberto Uran, que regressou ao seu melhor, e Jonathan Vaughters, o director que lá vai conseguindo tirar uns coelhos da cartola e manter a equipa viva, mesmo depois de anunciar que já não dava mais. Se há um exemplo a tirar desta estrutura, é como viver na corda bamba e terminar o ano com um sorriso. Não só sobreviveu, como até conquistou novamente grandes vitórias. Seria perfeito dizer que pode ser o início de uma nova fase, muito mais tranquila e de sucesso, contudo, não deverá ser bem assim.

É justo começar pelo que de bom aconteceu a uma equipa que há dois anos nem uma vitória no World Tour conseguia. Apesar de ciclistas de qualidade, os resultados de destaque não apareciam, nem nas clássicas por Sep Vanmarcke, nem nas grandes voltas por Rigoberto Uran. Enquanto o belga vai ameaçando tornar-se numa expectativa nunca confirmada com vitórias (apesar de estar praticamente sempre na luta e até chegar a pódios), Uran reapareceu e reentra no grupo de ciclistas candidatos a algo mais do que um top dez numa grande volta.

O colombiano foi a grande figura na estrada. A Volta a França que realizou foi fantástica, mesmo que não se goste do facto de jogar muito à defesa. Porém, sem uma equipa para o ajudar como têm Chris Froome e Romain Bardet, Uran jogou e bem as cartas que tinha. Venceu uma etapa e terminou em segundo nos Campos Elísios. Seriam poucos e talvez fossem só na própria equipa que acreditavam que tal era possível. É este o Rigoberto Uran que esteve perto de ganhar a Volta a Itália, foi este o Uran que deixou uma Sky como claro homem de qualidade para ser líder. Aos 30 anos, o colombiano encontrou o equilíbrio no seu ciclismo e foi a nível táctico que mais se notou a diferença. Houve quem o criticasse, inclusivamente outros corredores, mas estar mais à defesa resultou, não resultou?


Ranking: 10º (5748 pontos)
Vitórias: 14 (incluindo uma etapa no Giro e outra no Tour)
Ciclista com mais triunfos: Rigoberto Uran, Pierre Rolland, Alex Howes e Ryan Mullen (2)

Uran acabou o ano a ganhar a Milano-Torino e a pensar se teria de mudar os planos com uma transferência inesperada. Andrew Talansky - que entretanto terminou a carreira precocemente e dedicou-se ao triatlo - foi quem quebrou a seca de dois anos de vitórias no World Tour da Cannondale-Drapac com um triunfo numa etapa na Volta a Califórnia, em Maio. Nem uma semana depois, Pierre Rolland fez ainda melhor e venceu no Giro. Não só a equipa suspirava de alívio, como o próprio francês retirava alguma da pressão que recaia nele, tendo em conta que a sua contratação em 2016 não estava a ser uma aposta ganha.

O problema da formação americana foi que os resultados desportivos não foram acompanhados por tranquilidade nos patrocinadores. Ao surgirem rumores que a Slipstream Sports poderia estar a reformular os seus objectivos e que ter uma equipa no World Tour estava a tornar-se demasiado caro, toda a estrutura abanou. É aqui que surge Jonathan Vaughters, um dos grandes especialistas em arranjar salvações para manter o projecto vivo.

O director da Cannondale-Drapac conseguiu garantir o apoio da Oath, empresa ligada aos meios de comunicação social, que permitiria dar segurança financeira à equipa. Os contratos começaram a ser renovados e tudo parecia tranquilo. Durante a Volta a Espanha o inesperado aconteceu: faltavam sete milhões de dólares (cerca de seis milhões de euros) para garantir a continuidade da estrutura em 2018. Os ciclistas receberam mesmo autorização para negociarem com outras formações. Os que estavam na Vuelta admitiram que até dormiam mal, apesar de a corrida até estar a correr bem, com Michael Woods a terminar no sétimo lugar na geral. Houve quem não perdesse tempo, outros, como Uran deram um prazo para que a situação se resolvesse.

Vaughters até recorreu ao crowdfunding para tentar angariar os sete milhões e o que pareceu ser um acto desesperado e condenado ao fracasso, acabou por ser a solução. A EF Education First soube da iniciativa e acabou por negociar com Vaughters, tornando-se no principal patrocinador. Foi da Suécia que veio a salvação. Mas, só para recordar que no ciclismo nunca nada está seguro, eis que a Oath acabou por retirar o patrocínio. Vaughters apressou-se a garantir que não prejudicaria os planos para 2018.

O trabalho de Vaughters nos bastidores, não foi suficiente para manter Davide Villella e Toms Skujins, por exemplo, mas o resultado de Uran no Tour tornou esta equipa mais ambiciosa, mesmo que o orçamento não permita loucuras. Matti Breschel (Astana) poderá ser mais aposta para as clássicas, mas chegam ainda Mitchell Docker (Orica-Scott), Kim Magnusson (da equipa Continental Tre Berg-Postnord), Daniel McLay (Fortuneo-Oscaro) e o jovem Logan Owen da Axeo Hagens Berman.

O sprinter Sacha Modolo (UAE Team Emirates) é o reforço mais sonante, ainda que dada a falta de resultados nos últimos tempos, haja um enorme ponto de interrogação quanto à sua contratação. Mais importante do que os que chegam, sãor as permanências de ciclistas como Hugh Carthy, Lawson Craddock, Joe Dombrowski e Michael Woods.

Um objectivo da equipa em 2018 será acabar o ano a falar-se do que se fez desportivamente e não tanto de como Jonathan Vaughters trabalhou para salvar a equipa. Mas não se avizinha um ano fácil para a EF Education First powered by Cannondale.

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9 de setembro de 2017

Crowdfunding acabou mesmo por salvar a Cannondale-Drapac

A precisar de sete milhões de dólares (quase seis milhões de euros) para garantir a continuidade da equipa em 2018, Jonathan Vaughters, tentou um acto já perto do desespero. Criou uma campanha de crowdfunding para tentar angariar algum desse dinheiro, de forma a manter a Cannondale-Drapac na estrada. Parecia uma tentativa condenada ao fracasso por parte do director, ainda que até já tenha reunido mais de 500 mil dólares. Porém, o crowdfunding acabou mesmo por salvar o conjunto americano. Ao saber da iniciativa, uma empresa sueca quis saber mais sobre a equipa e vai mesmo tornar-se no principal patrocinador. É um respirar de alívio, duas semanas depois dos ciclistas e staff terem recebido um e-mail a dizer que estavam livres para procurar novas equipas, mesmo tendo contrato por mais temporadas com a Cannondale-Drapac.

Foi um choque para muitos. Michael Woods, por exemplo, admitiu que a notícia estava a afectar o seu rendimento na Volta a Espanha, ainda que o canadiano vá terminar na sétima posição da geral. Rigoberto Uran, que tinha já assumido uma renovação de contrato, deu 15 dias para que a situação fosse resolvida antes de estudar propostas, enquanto outros, como Sep Vanmarcke, começaram imediatamente a olhar para as suas escolhas no mercado. Com a incerteza a dominar, para os ciclistas que estavam na Vuelta tornou-se praticamente uma corrida para garantir um contrato. Porém, na sexta-feira surgiu a notícia que havia um novo e-mail. Desta vez dizia que os ciclistas que tinham vínculo contratual iriam ter de o cumprir. Tinha sido encontrado um patrocinador.

Vaughters fez este sábado o anúncio público  este sábado, sabendo-se que Uran e Vanmarcke vão mesmo continuar, mas Dylan van Baarle poderá não fazer o mesmo. Entretanto, já vários ciclistas tinham confirmado a sua saída, mesmo antes do anúncio da falta de dinheiro, porque estavam em final de contrato. Para Vaughters, aqueles que vão sair da equipa reflectem apenas um normal movimento no mercado de transferências. Andrew Talansky surpreendeu ao anunciar o final de carreira, mas Davide Formolo vai para a Bora-Hansgrohe, Davide Villella para a Astana, Alberto Bettiol irá representar a BMC, Tom-Jelte Slagter assinou pela Dimension Data e Kristijan Koren vai continuar a carreira na Bahrain-Merida.

A equipa em 2018 vai então chamar-se EF Education First-Drapac powered by Cannondale. Mais uma vez uma equipa do World Tour conseguiu salvar-se. As novelas repetem-se, mas lá vamos vendo uns finais felizes. Há um ano foi a Lampre-Merida de Rui Costa, agora a Cannondale-Drapac e também a Quick-Step Floors (está última não foi um caso tão problemático, já que o seu principal patrocinador sempre disse que manteria o apoio, "apenas" era preciso um reforço financeiro que terá sido garantido, faltando confirmação oficial, mas os contratos com os ciclistas já estão a ser renovados e Elia Viviani será reforço). 

"Estou bastante feliz e exausto", confessou Vaughters, que disse que nas últimas duas semanas trabalhou mais horas do que nunca, entre telefonemas e viagens, de forma a garantir o vital patrocínio. De recordar que durante a Volta a França foi anunciado a entrada da Oath, ficando ainda por anunciar um outro patrocinador forte que a equipa precisava. Esse alegado acordo acabou por não se tornar realidade. Surge então agora a EF Education First, empresa sueca de ensino de línguas, que promove estudos no estrangeiro. Tem escritórios e escolas em mais de 50 países, incluindo Portugal.


5 de abril de 2017

A dolorosa descrição das lesões que afastam Sep Vanmarcke do Paris-Roubaix

Foi neste estado que Sep Vanmarcke ficou após uma aparatosa queda
na Volta a Flandres (Fotografia: Facebook de Sep Vanmarcke)
A decisão não é uma surpresa, apenas a confirmação do que as imagens da Volta a Flandres e as posteriores declarações do director desportivo e irmão do ciclista deixavam antever. Sep Vanmarcke não está em condições de enfrentar o Inferno do Norte. O belga nem está em condições para andar numa bicicleta. Foi o próprio que descreveu as razões que o levam a falhar a última corrida do pavé desta fase das clássicas, o que é naturalmente mais uma grande desilusão para o ciclista, que muito se preparou para quebrar o azar de outros anos e mostrar-se na sua nova equipa, a Cannondale-Drapac, mas afinal voltou a ser perseguido pela má sorte.

Ken Vanmarcke havia referido, na segunda-feira, que o irmão tinha o dedo mindinho da mão direita partido e que faria um teste na bicicleta para ver se aguentava as dores. Tendo em conta que o Paris-Roubaix é tudo menos uma corrida feita apenas em estradas de alcatrão em excelentes condições, já era previsível que Sep Vanmarcke não aguentasse. Porém, o ciclista nem considera o dedo partido o pior do seu estado físico. A descrição de como ficou após a aparatosa queda dói só de ler.

"O dedo mindinho partido na mão direita torna impossível colocar a mão na parte de cima do guiador. Consigo travar utilizando dois dedos, mas sempre que passo por uma lomba ou algo do género, é doloroso. Mas o maior problema é na mão esquerda porque a pele saiu em todos dos dedos. Não consigo travar com essa mão. É demasiado doloroso fazer pressão nela. E depois, o meu joelho direito é ainda um problema... Não fazia sentido estar na partida [para o Paris-Roubaix]. Perdi muita pele", explicou Sep Vanmarcke.

O terceiro lugar na Omloop Het Nieuwsblad, corrida que venceu em 2012, revelava que o belga poderia estar nas condições que desejava para conquistar mais vitórias nas clássicas do pavé este ano e assim confirmar o seu potencial, algo que se espera desde 2010. No entanto, após esse pódio, tudo voltou a ser triste para o belga de 28 anos. "A Omloop correu bem, mas desde a Strade Bianche que começou tudo a correr mal. Uma queda, as costelas, depois tive problemas no estômago, depois esta queda... Portanto, tenho andado a lutar muito e volto sempre", salientou.

E agora vai de facto regressar à luta da recuperação, na tentativa de estar em condições de alinhar na Amstel Gold Race, a 16 de Abril. Ainda assim, Vanmarcke não consegue esconder a tristeza por mais um ano ter passado e não ter conquistado qualquer vitória nas clássicas do pavé. "É uma desilusão. Nunca consegui mostrar o nível em que estava", desabafou o ciclista, que admitiu que a 1 de Novembro começou a preparação para estas corridas, que eram o seu principal objectivo para 2017.

Mas o azar não se fica por Sep Vanmarcke. A Cannondale-Drapac não consegue encontrar o caminho das vitórias e as suas principais figuras não aparecem ao seu melhor. A equipa americana está a fazer uma primeira fase de temporada muito preocupante, somando apenas uma vitória, na segunda etapa da Coppi e Bartali, por intermédio de Toms Skujins. A ausência de Vanmarcke do Paris-Roubaix é um duro golpe para a Cannondale-Drapac, que também não sabe se poderá contar com Taylor Phinney. É outro ciclista perseguido por maus momentos. Desde a queda que quase acabou com a sua carreira nos Nacionais de 2014, que o americano nunca mais se reencontrou com a sua melhor forma. Também ele caiu na Volta a Flandres e sofreu uma concussão. A decisão sobre a sua participação será feita no final da semana.

Dylan van Baarle conseguiu terminar na quarta posição na Volta a Flandres, salvando um pouco a honra da equipa e o holandês poderá ser a principal aposta da Cannondale-Drapac para o Paris-Roubaix.

Mark Cavendish com lesão no tornozelo

O sprinter britânico estava previsto voltar a marcar presença no Paris-Roubaix. É certo que não entrava na lista de candidatos, mas Mark Cavendish é... Mark Cavendish. Onde está chama sempre a atenção. Porém, a temporada do ciclista da Dimension Data também não está a correr como desejada. Apenas venceu uma etapa e a classificação por pontos na Volta a Abu Dhabi e não compete desde 18 de Março quando foi 101º na Milano-Sanremo, não tendo conseguido estar na discussão do monumento como queria.

Mark Cavendish deveria ter regressado à competição esta quarta-feira na clássica belga Scheldeprijs, mas o seu nome não apareceu na lista de ciclistas que se apresentaram pela Dimension Data. O médico da formação sul-africana explicou, num comunicado, que Cavendish lesionou-se no tornozelo direito no Tirreno-Adriatico. Jarrad Van Zuydam referiu que se pensava que o problema estava ultrapassado, mas o ciclista voltou a sentir dores. Vão ser feitos mais exames e tratamentos, se necessário, pelo que não está agendado o regresso do britânico às corridas.

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3 de abril de 2017

Na "ressaca" da Volta a Flandres: Sagan encontrou o vídeo que explica a sua queda e Vanmarcke poderá falhar o Paris-Roubaix

(Fotografia: © Bora-Hansgrohe/VeloImages)
Um dia depois de uma das mais memoráveis Volta a Flandres, muito se continua a falar da fenomenal exibição de Philippe Gilbert, mas Peter Sagan lá consegue ser também alvo das atenções. Ganhe ou não ganhe, o eslovaco parece ter um talento especial para ser quase sempre assunto de conversa. Exemplo disso foi no Tirreno-Adriatico, quando no contra-relógio que fazia apenas para cumprir a etapa, acabou por roubar as atenções porque uma mulher resolveu atravessar (na passadeira) com um cão no momento em que Sagan passava. Na Volta a Flandres aconteceu mais um momento estranho, mas mais grave. Peter Sagan foi ao chão, levando consigo Greg van Avermaet e Oliver Naesen. Na altura ficou a ideia que teria tocado nos pés das barreiras. O ciclista viria a dizer que não tinha percebido muito bem como tinha caído e que gostaria de descobrir.

Ora, o que as imagens da transmissão televisiva não conseguiram decifrar, nada como muitas e muitas pessoas "sacarem" dos telemóveis para filmarem o bicampeão do mundo para ajudar a esclarecer a queda. O próprio Peter Sagan partilhou as imagens na sua conta de Twitter, escrevendo algo resignado: "Estas coisas acontecem nas corridas"

Recordando o que se passou. No Kwaremont, Sagan resolveu acelerar a corrida numa última tentativa de apanhar Philippe Gilbert. Levou com ele os ciclistas belgas da BMC e AG2R, mas a escolha da berma para evitar o pavé, tendo em conta que estavam montadas barreiras, revelou ser um risco que não compensou. No vídeo (pode ver em baixo) vê-se que Sagan toca numa camisola que estava pendurada numa barreira. Sagan fala num toque com o braço, mas, não sendo completamente perceptível, parece que até poderá ter tocado no guiador provocando o guinar abrupto. A roda acabou por bater nos pés da barreira e o resto já se sabe: queda e fim da luta pela vitória para Sagan e Naesen. Avermaet conseguiu prosseguir para ser segundo.

Outra queda marcou a Volta a Flandres. O azar continua a perseguir Sep Vanmarcke e o belga que estava a fazer uma belíssima corrida, foi ao chão e desde logo percebeu-se que tinha ficado muito mal tratado. Hoje foi confirmado que partiu o dedo mindinho da mão direita e a participação no Paris-Roubaix está em risco.

"Hoje ainda é segunda-feira e, por isso, é muito cedo para decidir definitivamente se estará ou não na partida para o Paris-Roubaix", salientou Ken Vanmarcke, irmão do ciclista e director desportivo da Cannondale-Drapac. Acrescentou que, para já, a possibilidade de competir no domingo é muito reduzida, mas que esta terça-feira irá treinar para tentar perceber se aguenta fazer a corrida. "Temos de ser realistas. Não é uma lesão que impeça de andar de bicicleta, mas é muito dolorosa. Ainda mais, estamos a falar do Paris-Roubaix e não de uma corrida normal. É simplesmente a corrida mais dura que existe", afirmou o responsável.

Sempre que começa a aparecer em boa forma, acontece algo a Vanmarcke que o impede de confirmar todas as expectativas criadas quando há sete anos começou a aparecer nas clássicas. Em 2012 venceu a Omloop Het Nieuwsblad e no ano seguinte perdeu o Paris-Roubaix ao sprint com Fabian Cancellara. Soma ainda dois quartos lugares. Na Volta a Flandres foi terceiro por duas vezes, mas com 28 anos e numa nova equipa, Vanmarcke vê o tempo passar, o azar a continuar a persegui-lo e as vitórias a não aparecerem. Falhar o Paris-Roubaix será um rude golpe nas aspirações do belga. Mesmo que arrisque fazer com um dedo partido, também não será certamente as condições com que gostaria de se apresentar no terceiro monumento do ano.

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»»Segurança reforçada na Volta a Flandres««

25 de fevereiro de 2017

Clássicas. Tudo começou com um cenário bem conhecido: Avermaet a bater Sagan. Mas será que vão ser desqualificados?

Pódio da primeira clássica do ano (Fotografia: Twitter Omloop Het Nieuwsblad)
A corrida que abriu a época das clássicas não desiludiu. Nenhum dos principais ciclistas esteve na Omloop Het Nieuwsblad com outro pensamento que não fosse lutar pela vitória. Pavé, vento e uma queda foram os ingredientes de uma prova emocionante e que viu três dos melhores homens de corridas de um dia encetarem uma fuga de luxo, que nem um grupo com a Sky e Quick-Step Floors conseguiu apanhar: Greg van Avermaet, Peter Sagan e Sep Vanmarcke. Que trio! No entanto, há quem peça a desqualificação dos três. Mas já lá vamos.

Uma queda a cerca de 60 quilómetros da meta acabou por ser decisiva, pois ajudou a definir a frente da corrida e tirou dela alguns candidatos. Aconteceu no meio do pelotão, arrastando um elevado número de ciclistas. Entre eles Tom Boonen, Alexander Kristoff e Tiesj Benoot. O emaranhado de bicicletas, algumas delas ficaram fora de acção, e as mazelas com que ficaram fez com que a perda de tempo acabasse por ser demasiado grande. Os três não terminaram a corrida. Tom Boonen irá acabar a carreira sem nunca ter conquistado esta prova belga.

Naquela altura a corrida estava mais do que lançada na perseguição aos fugitivos. Peter Sagan foi o impulsionador do ataque que acabaria por resultar no trio já referido. Outros tentaram acompanhar, mas à medida que foram passando os sectores de pavé, ninguém conseguia acompanhar o ritmo de loucos dos três ciclistas.

Até final a corrida ficou marcada por um entendimento entre Sagan, Avermaet e Vanmarcke e por uma perseguição que não resultou, pois não houve união de esforços. E dada a qualidade que ia na frente, só assim seria possível apanhar o trio. Seria uma surpresa ver Vanmarcke bater ao sprint Avermaet e Sagan, pelo, apesar de ter atacado primeiro, a luta foi entre os dois habituais suspeitos. E foi aí que Sagan cometeu um erro incompreensível para alguém com a sua experiência. Na curva que antecedia a meta, o eslovaco abriu, dando espaço para Avermaet passar e ganhar vantagem. Demasiada vantagem. Não houve pernas para apanhar o belga e Sagan lá assistiu a mais uma vitória do rival. Este cenário foi exactamente o mesmo na Omloop Het Nieuwsblad de 2016... e de outras corridas.

As clássicas começam como há um ano. Greg van Avermaet deixou definitivamente para trás o estigma do eterno segundo. É um ciclista que enfrenta as corridas com uma confiança ganhadora e é dos poucos que não teme nem um bocadinho o poderio de Sagan, pois parece ter a receita para derrotar o bi-campeão do mundo. Foi a 11ª vitória do ano para a BMC, que está a realizar um fortíssimo início de temporada.

Para Peter Sagan foi a posição habitual. Já são quatro segundos lugares em 2017. Já se sabe que o eslovaco tem uma forma muito particular de enfrentar um mau momento: começa logo a pensar na próxima corrida e em ganhá-la. Sagan não se deixa abater, contudo, o erro que cometeu terá de servir de lição. Tanto quis controlar Avermaet que o deixou escapar. Se calhar as derrotas para o belga começam a ter algum peso na consciência de Sagan. Para a Bora-Hansgrohe fica alguma frustração. Ainda não foi desta que conquistou a primeira vitória como equipa World Tour.

Quanto a Sep Vanmarcke, também foi mais do mesmo. Está na luta, mas não consegue ter aquela ponta final que precisa para vencer. O ciclista da Cannondale-Drapac até já conquistou a Omloop Het Nieuwsblad em 2012, depois somou pódios noutras clássicas. Mas não consegue as vitórias que eram esperadas.


Porém, não há tempo para lamentações. Este domingo praticamente o mesmo pelotão estará novamente na estrada, agora na Kuurne-Bruxelles-Kuurne. Serão 200,7 quilómetros de mais espectáculo... pelo menos assim se espera.

Veja aqui a lista de inscritos.

Pedem a desqualificação dos três primeiros

A questão surgiu logo após o final da corrida e foi ganhando força nas horas seguintes, com alguns directores desportivos e ciclistas a questionarem a quebra de uma regra por parte dos fugitivos. Em causa está a utilização de um passeio para fugir a uma parte de pavé, algo que a organização tinha proibido e avisado as equipas que quem o fizesse seria desqualificado.

Ora as imagens demonstram como alguns ciclistas optaram pelo passeio para escapar ao pavé, incluindo Greg van Avermaet, Peter Sagan e Sep Vanmarcke. A polémica subiu de tom porque, apercebendo-se da situação, foi colocada uma moto da organização a impedir a utilização do passeio pelos grupos que seguiam na perseguição. Estes ciclistas tiveram de pedalar pelo pavé.

Jaspert Stuyven (Lotto Soudal), Luke Rowe (Sky) e Edward Theuns (Trek-Segafredo) foram alguns dos corredores que levantaram a questão. Todos eles salientam o facto da organização ter avisado que seriam desqualificados se utilizassem os passeios.
Os comissários foram abordados por directores desportivos que se queixaram do desrespeito da regra por parte dos ciclistas que terminaram no pódio. Greg van Avermaet foi questionado sobre a utilização dos passeios e o belga respondeu ao Cycling News que "é fácil tomar uma decisão [de proibição], mas em corridas como esta não é possível [respeitá-la]". Avermaet salientou que quando se está a correr é necessário sair da estrada para conseguir recuperar posições ou para escapar a quedas. "Não é possível controlar", afirmou.

Para já só há queixas. Se houvesse desqualificação, o vencedor seria Fabio Felline, italiano da Trek-Segafredo que terminou a 45 segundos do trio que subiu ao pódio.