Mostrar mensagens com a etiqueta Daniel Martin. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Daniel Martin. Mostrar todas as mensagens

22 de outubro de 2020

A importância da força mental

© Team Jumbo-Visma
A força psicológica de um atleta, seja em que modalidade for, tem uma influência profunda no sucesso que possa ter. Muitas promessas não passam disso mesmo e, por vezes, a questão mental tem o seu papel. Também já aconteceu o contrário. Serem atletas com menor fulgor nos tempos de formação, mas com a evolução, com a ajuda de uma boa mentalidade e/ou acompanhando psicológico, tornam-se atletas de referência. Na Vuelta há, ou havia, dois casos diferentes. Um já abandonou.

Primoz Roglic é o exemplo de como uma mente forte ajuda a colocar um ciclista no topo. Thibaut Pinot é o exemplo de como quando não se está bem, não se consegue ir buscar qualquer motivação por si próprio. Foram dois anos a recuperar este francês para que pudesse atingir as expectativas criadas no seu país, para que soubesse lidar com essa pressão, principalmente na Volta a França. Porém, em 2020 há um novo retrocesso.

Pinot abandonou a Vuelta, não partindo para o terceiro dia. Tinha avisado que ainda não estava bem das costas. O problema surgiu no primeiro dia do Tour, quando sofreu uma queda. Foi quase um fantasma na Volta a França e na Vuelta começou logo a perder 25:19 minutos em duas etapas. Desde aquele 29 de Agosto que Pinot é um homem derrotado. Manteve-se no Tour apesar de não estar bem, mas nem se percebeu bem porquê. Nada fez e aparentemente nem conseguia fazer. Nem lutar por uma etapa.

No Twitter surgiu uma mensagem de um adepto espanhol de ciclismo que questionava porque razão as equipas enviaram à Vuelta corredores que não estão em condições. No caso de Pinot a questão coloca-se de facto. Se não está bem fisicamente, para quê sujeitá-lo a este embaraço de abandonar ao terceiro dia, depois de dois para esquecer. Pinot não precisava disto, se o problema das costas de facto persiste.

Enquanto a Pinot poderá fazer bem a longa pausa que se segue até 2021, Primoz Roglic precisou de poucas semanas para se recompor da desilusão do Tour. Seria compreensível se se mantivesse discreto depois de perder a Volta a França naquele contra-relógio final. Pelo menos até ao fim do ano. Mas não. Entrou na Vuelta a não perder tempo para mostrar que está forte. A desilusão será difícil de esquecer, mas faz parte do passado. Roglic quer mais e quer mais já, em Espanha, onde venceu em 2019, já liderando em 2020. Grande atitude. É de um verdadeiro vencedor e de alguém que transmite confiança e motivação aos companheiros da Jumbo-Visma.

Outro exemplo pode ser Daniel Martin. Carreira de altos e baixos deste irlandês. Quando está bem, está mesmo bem. Mas tem problemas em lidar com os piores momentos. Tem, no entanto, a característica de ser um ciclista que não gosta de atirar a toalha ao chão. Tenta perceber o que está mal e mudar para melhor.

Teve uma passagem infeliz pela UAE Team Emirates. Dois anos, durante os quais pareceu não encaixar na equipa, apesar de até ter ganho uma etapa no Tour. Mudou para a Israel Start-Up Nation, podendo aí ser líder sem tanta concorrência (pelo menos para já). Foi preciso esperar dois anos, mas venceu novamente numa grande volta, ao ser o mais forte na terceira etapa da Vuelta (Lodosa - La Laguna Negra de Vinuesa, 166,1 quilómetros). Martin mostra que ainda tem algo para dar.

Tão importante como ganhar a tirada, aos 34 anos o irlandês está a recuperar aquela sua versão, que sempre sonhou pelo menos com um pódio. A Vuelta é difícil, mas, lá está: quando Martin está bem, está mesmo bem. A ver se consegue manter o bom momento até à 18ª etapa final. Está a cinco segundos de Primoz Roglic.

Classificações completas, via ProCyclingStats.

4ª etapa (23 de Outubro): Garray. Numancia - Ejea de los Caballeros, 191,7 quilómetros

Ao quarto dia, não haverá montanha! Mas não se espere que seja uma etapa para descansar. Nem seria uma tirada da Vuelta se assim fosse. Caso o vento marque presença, será preciso muita atenção. Com a vontade que muitos dos candidatos têm demonstrado em impor ritmos altos, há equipas que sabem bem como colocar em prática os famosos "abanicos" e gerar o caos.

Os sprinters é que não podem desperdiçar as oportunidades. Não são muitas, porque as etapas para eles também não abundam. Espera-se um frente-a-frente entre Pascal Ackermann (Bora-Hansgrohe) e Sam Bennett (Deceuninck-QuickStep), mas Matteo Moschetti (Trek-Segafredo) é um jovem talento que vai tentar intrometer-se na luta, tal como Jasper Philipsen (UAE Team Emirates).

»»Duas etapas e há quem só pense em tentar chegar a Madrid««

»»Não era bluff de Chris Froome««

21 de outubro de 2020

Duas etapas e há quem só pense em tentar chegar a Madrid

© La Vuelta
Dois dias de Volta a Espanha e já há quem apenas queira chegar a Madrid, apesar de ter começado como candidato. É o caso de Tom Dumoulin (Jumbo-Visma), que não hesita em entregar a liderança da equipa a Primoz Roglic e só espera ainda poder ser útil. E mesmo assim, estar a 9:08 minutos nem é das piores situações. Thibaut Pinot está a 25:19, com David Gaudu a ser o líder da Groupama-FDJ, mas, ainda assim, tem 3:20 para recuperar. Outro francês, Guillaume Martin (Cofidis) também desiludiu (9:25). Daniel Martínez (EF Pro Cycling) está a 23:30, mas sofreu uma queda na primeira etapa. E Chris Froome (Ineos Grenadiers) já vai em 29:53 de desvantagem!

Está a ser um início de Vuelta muito atípico. Com as etapas na Holanda canceladas devido à pandemia, a corrida começou logo com duas tiradas de média montanha. O ritmo elevado ajudou a eliminar rapidamente alguns ciclistas, colocando muitos a fazer contas desde cedo.

Porém, também se verifica o oposto. Ou seja, quem esteja a começar bem melhor do que o esperado. É o caso de Daniel Martin e Esteban Chaves. O irlandês da Israel Start-Up Nation está à procura de salvar algo de um 2020. Depois de uma queda no Critérium du Dauphiné, Martin ficou fisicamente limitado para o seu grande objectivo: o Tour. Martin é segundo na Vuelta, a apenas nove segundos de Roglic.

Sabe bem o que é fazer top dez em grandes voltas, tendo quatro, incluindo um na Vuelta (em 2014). Porém, o irlandês tem vindo a ser cada vez mais irregular nas suas exibições. Seria mais expectável que estivesse em Espanha à procura de etapas, mas, por agora, talvez possa pensar noutras ambições.

Se há muito que não se vê Martin no seu melhor nas grandes voltas, Esteban Chaves anda a ser riscado de qualquer candidatura. O ciclista da Mitchelton-Scott falhou grande parte da temporada de 2018 ao ser diagnosticado o vírus Epstein-Barr. No regresso, na época seguinte, venceu uma etapa no Giro, mas tem sido uma luta para ser competitivo.

Está a 17 segundos de Roglic e pelo menos será bom para o motivar e a própria equipa, ainda que seja cedo para perceber se pode estar de facto na luta por um pódio, ou, pelo menos, pelo top dez.

Com Primoz Roglic e Richard Carapaz (Ineos Grenadiers - a 11 segundos) a assumirem-se como os principais candidatos após este início louco de Vuelta, a Movistar vê Enric Mas a mostrar que poderá ser a salvação da equipa em 2020. O espanhol está também a 17 segundos da camisola vermelha, com Marc Soler a querer entrar na equação. A primeira etapa não foi muito positiva, mas na segunda recuperou algum tempo, estando agora a 1:04. O problema da Movistar poderá ser se Soler quiser estar por conta própria e não ficar preso na ajuda a Mas. Não seria um cenário inédito.

O melhor para a Movistar foi que Soler venceu a etapa entre Pamplona e Lekunberri (151.6k). E é mesmo razão para uma grande celebração. É que foi apenas segunda vitória da época para a equipa. Não é engano. Duas vitórias em 2020, a primeira tendo sido numa prova de categoria 1.1 (Pollença-Andratx), em Fevereiro. Foi Soler quem ganhou. Mesmo com um ano marcado pela pandemia é, ainda assim, um péssimo registo para a Movistar.

Esta Vuelta começou a mil à hora e mesmo com Roglic e Carapaz a destacarem-se, há que não esquecer que ambos fizeram o Tour. O primeiro já se sabe, perdeu no contra-relógio final a camisola amarela para Tadej Pogacar (UAE Team Emirates). O segundo começou por ter de ajudar Egan Bernal e acabou a tentar sarar um pouco do orgulho ferido da Ineos Grenadiers. Poderão pagar o esforço com o avançar da Volta da Espanha.

Esta Vuelta ainda vai ter muita história para contar.

Os portugueses

Rui Costa (UAE Team Emirates) foi novamente o melhor português. Até está a 2:36 minutos de Roglic, o que não é nada mau, tendo em conta o resultado de ciclistas que pretendiam estar bem mais perto do esloveno. Porém, o plano de Rui Costa continua a ser lutar por etapas.

Nelson Oliveira teve muito trabalho na segunda tirada e vai continuar a ter, ainda mais com Enric Mas e Marc Soler a quererem discutir a corrida. E sem esquecer que Alejandro Valverde está a 1:07 do líder. O português vai ter uma Vuelta intensa.

Ivo e Rui Oliveira, companheiros de Rui Costa, e Ricardo Vilela (Burgos-BH) também têm estado a trabalhar, ainda que o ciclista da equipa espanhola poderá mais adiante na corrida tentar lutar por uma etapa.

3ª etapa: Lodosa - La Laguna Negra-Vinuesa, 166,1 quilómetros

Ao terceiro dia... mais montanha. Será uma chegada inédita, de primeira categoria, com a subida em Laguna negra a ter 8,6 quilómetros, com uma pendente média de 5,8%. A parte final será a mais difícil, acima dos 9% e a 10& já perto da meta.

»»Não era bluff de Chris Froome««

»»Uma Vuelta de despedida para Froome e com muitos portugueses««

4 de fevereiro de 2020

Van der Poel, López, Dennis, Martin... Aqui ficam mais umas razões para ir ao Algarve

© Volta ao Algarve
Ainda é preciso mais alguma razão para ver in loco a Volta ao Algarve? Então fica a confirmação oficial da vinda de Mathieu van der Poel, a quem se junta um bicampeão do mundo de contra-relógio, Rohan Dennis. Daniel Martin também está de regresso. É inevitável olhar com entusiasmo para a vinda de Miguel Ángel López, o Super-Homem do ciclismo. Em dia de apresentação oficial da corrida, ficou-se a conhecer mais uns nomes que escolheram o sul do país para este início de temporada. E haverá corredores para todos os gostos: grandes sprinters, grandes trepadores e grandes contra-relogistas... e Van der Poel!

O holandês da Alpecin-Fenix é um dos ciclistas que mais entusiasma os adeptos e só em 2019 começou a apostar mais na estrada. Este ano já conquistou o terceiro título mundial de ciclocrosse, depois de mais uma temporada em que dominou nesta vertente. Na estrada vai alargar o seu calendário e já muito se antecipa a sua estreia no Paris-Roubaix. O Algarve é local de eleição para muitos corredores com estas características, para preparar as clássicas e Philippe Gilbert (Lotto Soudal) e Jasper Stuyven (Trek-Segafredo) são mais uma prova disso. Mas haverá mais uma das figuras neste tipo de provas: Greg van Avermaet (CCC). É o campeão olímpico, um vencedor em Roubaix, mas tem andado algo afastado das boas exibições nas clássicas. Em 2020 optou por não viajar ao Médio Oriente, preferindo começar a época na Europa. Já tinha aberto a porta ao Algarve e agora é oficial.

Entre as novidades há um forte candidato a ser um dos mal-amados do pelotão internacional, mas não deixa de ser o bicampeão do mundo de contra-relógio. Rohan Dennis é mais um dos grandes nomes a juntar-se aos já conhecidos na Volta ao Algarve e, naturalmente, será um dos que mais se vai querer ver na última etapa, em Lagoa, independentemente de estar ou não na luta pela geral.

Este ano a Algarvia termina precisamente com o contra-relógio e Dennis já admitiu que não vai continuar a perseguir a evolução para voltista, querendo apostar em provas de uma semana. Depois de ter sido despedido da Bahrain-Merida numa relação que nunca foi fácil - e que acabou com a saída do Tour antes da etapa em que era o principal favorito -, o australiano quer reavivar a carreira na Ineos e a Volta ao Algarve pode assentar-lhe muito bem. A seu lado terá dois ciclistas que já venceram a prova: Geraint Thomas e Michal Kwiatkowski. Qualquer um poderá tornar-se no primeiro estrangeiro a vencer três edições. 

De regresso também estará Daniel Martin, agora com a camisola da Israel Start-Up Nation. O irlandês triunfou no Alto da Fóia em 2017. Será também candidato à geral, assim como Rui Costa, este um nome já conhecido. O português não vem à Algarvia desde 2014, quando vestia a camisola do arco-íris. De referir que Kwiatkowski e Gilbert também foram campeões do mundo, tal como Roger Kluge (Lotto Soudal), mas este na pista, em madison.

Vincenzo Nibali e Bauke Mollema (Trek-Segafredo) e Tim Wellens (Lotto Soudal) são mais três ciclistas para lutar pela camisola amarela. Mas haverá Miguel Ángel López (Astana). É um dos colombianos de grande talento e que persegue a sua a vitória numa grande volta. Este ano fará a sua estreia no Tour e a mudança de calendário acabou por o levar até ao Algarve. A sua postura costuma ser de tentar sempre estar na frente, mesmo que seja numa fase da temporada ainda muito precoce.

No sprint haverá André Greipel (Israel Start-Up Nation), o campeão europeu Elia Viviani (Cofidis), Fabio Jakobsen (Deceuninck-QuickStep), John Degenkolb (Trek-Segafredo), Matteo Trentin (CCC), Alexander Kristoff (UAE Team Emirates) e Cees Bol (Sunweb). Já no contra-relógio haverá mais um ciclista a ver com muita atenção. Chama-se Mikkel Bjerg, é tricampeão mundial da especialidade em sub-23 e deu o salto para o World Tour com a UAE Team Emirates. É um dos jovens talentos a seguir com muita atenção e um assumido candidato a bater o recorde da hora.

E claro, acaba-se com outra das novas estrelas, recordando como Remco Evenepoel (Deceuninck-QuickStep) também está a caminho do Algarve, tendo começado a temporada a conquistar a Volta a San Juan. Este belga não compete para passar despercebido.

Entre 19 e 23 de Fevereiro todos os caminhos dos adeptos de ciclismo vão dar ao Algarve, que terá um pelotão de luxo. A corrida foi escolhida pela UCI para fazer parte da nova categoria ProSeries e contará com 12 formações do World Tour, cinco ProTeam e oito Continentais, que são as portuguesas. Só o Feirense estará ausente.

De salientar que a 46ª edição da Volta ao Algarve Cofidis será transmitida para 83 países em quatro continentes.

Pode ver os perfis das cinco etapas no link em baixo.


2 de abril de 2019

Martin e Bardet roubados quando caíram em Barcelona

(Fotografia: Facebook UAE Team Emirates)
Já não bastava ter sofrido uma queda aparatosa e que tirou o top dez a Daniel Martin e deixou Romain Bardet sem saber o que esperar do seu futuro próximo, os dois ciclistas foram roubados quando estavam no chão. Ambos caíram na última etapa, no circuito de Barcelona, na Volta à Catalunha, e ficaram sem os seus ciclocomputadores.

Os ciclistas confirmaram o roubo no Twitter e, mais do que o valor do equipamento, ficar sem os importantes dados das suas performances deixou-os bastante aborrecidos. Martin (UAE Team Emirates) escreveu que precisava de actualizar os seus valores dos treinos e "apelou" a quem roubou o ciclocomputador que envie os dados. Romain Bardet (AG2R) partilhou a mensagem de Martin, dizendo que "alguém não tinha ficado de mãos vazias perante a falta de sorte" dos ciclistas, confirmando que também ele tinha ficado sem a importante ferramenta.
Para os dois ciclistas foi um final de corrida, no domingo, muito infeliz, ainda mais para o francês. Martin acabou por se levantar e ainda terminou a prova. Caiu da quinta para a 23ª posição na geral, mas não ficou com grandes mazelas. Já Bardet perdeu um potencial oitavo lugar, tendo abandonado. Aguarda para conhecer o seu tempo de paragem, com suspeita de fractura nas costelas.

Este foi mais um episódio infeliz de uma Volta à Catalunha que desportivamente até proporcionou muito espectáculo. Na primeira etapa um homem filmou a queda de Domingos Gonçalves (Caja Rural), rindo-se do sucedido e, ao aproximar-se do português, brincou a dizer que ia ficar com a bicicleta, enquanto o ciclista gemia de dores, pois tinha fracturado o ombro e a omoplata.

Martin e Bardet, conheceram o lado pior de certas pessoas, ao contrário de Wout van Aert. Na Omloop Het Nieuwsblad, o belga da Jumbo-Visma perdeu o seu ciclocomputador. Fez um apelo no Twitter, explicando em quando sector o equipamento tinha caído e um adepto encontrou e devolveu-o. Em troca recebeu uma camisola autografada (ver link em baixo).

6 de dezembro de 2018

Mais investimento, novas figuras, mas o mesmo velho problema e um Aru irreconhecível

(Fotografia: © BettiniPhoto/UAE Team Emirates)
Há dois anos pairava a incerteza quanto ao futuro de uma estrutura com história no ciclismo. A Lampre saiu e do Médio Oriente chegou a salvação. Primeiro com o investimento necessário, por assim dizer, mas que evoluiu até um poderio económico que lhe permite contratar ciclistas mais caros e até convencer aquele que é um dos melhores sprinters do mundo a quebrar contrato e que não saiu da Quick-Step Floors por tostões. A UAE Team Emirates tem dinheiro, mas na temporada em que investiu forte, os resultados desiludiram. E não fosse as vitórias de Dan Martin e Alexander Kristoff no Tour e teria sido uma época perdida. A maior das desilusões chamou-se Fabio Aru, que esteve irreconhecível. Rui Costa não foi feliz, com uma queda no Paris-Nice a afectá-lo grande parte da temporada. Contudo, o contrato foi renovado e irá se o "padrinho" dos dois novos portugueses que em 2019 chegarão ao World Tour.

Ter dinheiro traz estabilidade e a possibilidade de reforçar a equipa. Porém, contratar três estrelas do ciclismo não chega, principalmente se as individualidades não têm um colectivo forte e coeso no seu apoio. A UAE Team Emirates sofreu muito de um problema que vem do tempo da Lampre-Merida - que o diga Rui Costa -, com os seus líderes a ficarem muito sós, muito cedo, nos momentos decisivos das corridas. Já se sabe que há corredores com especial talento para sozinhos conseguirem, ainda assim, alcançar resultados. Contudo, são poucos os fora-de-série e se Aru, por exemplo, não esteve nada bem, também a equipa como um todo demonstrou que continua a não funcionar, apesar da qualidade de muitos dos seus ciclistas.

A fraca prestação de Aru foi uma das lições que teve de ser muito bem estudada, na esperança de recuperar o melhor do italiano para 2019. Apesar da equipa querer colocar as suas três novas estrelas - Aru, Martin e Kristoff - no Tour, Aru concretizou o desejo de estar no Giro. Uma queda na Volta a Catalunha acabaria por ser um primeiro indicativo que o esperava uma época complicada. Corrida após corrida foi um Fabio Aru em esforço sempre que a alta montanha chegava. Aquele movimento que lhe é típico de se mexer muito de um lado para o outro na bicicleta quando sobe, foi muito intenso, revelando um corredor em constante dificuldade.

Num momento de união, Aru foi escoltado pela sua equipa no Giro quando quebrou, numa imagem que não deixou de ser de um ciclista derrotado. Reapareceu no contra-relógio, mas foi sancionado por aproveitar o cone de vento de um carro. Passou completamente ao lado da época. Nem na Vuelta, que conquistou em 2015, teve capacidade para se mostrar, com uma queda e o momento de fúria misturado com frustração que se seguiu a ser o principal destaque. Para um ciclista que deixou a Astana à procura de um ordenado mais alto e de outros ares, foi uma aposta perdida da UAE Team Emirates, que espera um Aru bem diferente em 2019.

Dan Martin também não começou bem. O próprio admitiu que estava a colocar demasiada pressão em si mesmo. Quando relaxou e voltou ao sentimento mais básico de simplesmente aproveitar todos os momentos em que está a fazer o que mais gosta, Martin apareceu. Ganhou uma etapa no Critérium du Dauphiné e foi ao Tour ganhar no Mûr de Bretagne. Foi ainda nono na Lombardia depois de uma Vuelta que abandonou para acompanhar a mulher grávida de gémeas.

Ranking: 12º (5495 pontos)
Vitórias: 12 (incluindo duas etapas no Tour)
Ciclista com mais triunfos: Alexander Kristoff (5)

Kristoff recuperou a alegria após um ano difícil na Katusha-Alpecin. Ganhar nos Campos Elísios faz a época de qualquer sprinter. No entanto, apesar dos cinco triunfos, é mais do que claro que o norueguês não é aquele sprinter de quem se pode esperar muitas e grandes vitórias. A contratação de Fernando Gaviria é a prova que os responsáveis da equipa, pensam precisamente isso. A Kristoff pode restar a possibilidade de ainda ser aposta em algumas clássicas.

Dos ciclistas que já eram da casa, Diego Ulissi foi regular, mas sem entusiasmar e sem estar muito na luta por vitórias, tendo alcançado uma na Volta à Suíça. Este italiano é capaz de muito melhor, pelo que foi mais uma desilusão. Também Rui Costa esteve muito abaixo do esperado, com uma lesão no joelho a limitá-lo durante muito tempo. Queria regressar ao Tour depois de em 2017 ter apostado no Giro e Vuelta. Em Abril, apesar de se mostrar nas Clássicas das Ardenas sem entusiasmar, fez uma grande Volta à Romandia (foi quinto) e parecia estar a subir de forma, até que anunciou que não iria à Volta à Suíça devido ao problema no joelho. Falharia depois o Tour. Também não foi à Vuelta e pela primeira vez desde que chegou ao World Tour, o campeão do mundo de 2013 não fez nenhuma grande volta.

Na recta final da época surgiu mais forte, foi 10º nos Mundiais e finalmente chegou a confirmação que ficaria mais um ano na UAE Team Emirates, em mais uma oportunidade para mostrar o que pode dar, mesmo com a equipa a contratar cada vez mais estrelas.

Ben Swift e John Darwin Atapuma foram dois nomes que quase deu para esquecer que estavam na equipa e ambos estão de saída. Jan Polanc e Valerio Conti foram algo irregulares, enquanto Sven Erik Bystrom confirmou credenciais, ainda mais quando ficou perto de ganhar uma etapa na Vuelta.

A UAE Team Emirates quer ser uma equipa de topo rapidamente, mas sabe que 12 vitórias num ano não chega. Fabio Aru vai continuar a ser a aposta para as grandes voltas e um dos reforços poderá ser uma preciosa ajuda para o italiano. Sergio Henao deixa a Sky e tem tudo para ser o novo braço direito do italiano. Dan Martin não desiste de perseguir o sonho de um pódio no Tour, mas é em Aru em quem está a maior esperança de um bom resultado numa corrida de três semanas.

No entanto, é em Fernando Gaviria que se aposta praticamente tudo para aumentar o número de vitórias e, claro, que sejam além de muitas, nas principais corridas. A UAE Team Emirates vai colocar rum comboio à disposição do colombiano, com Kristoff esperançoso que não seja reduzido a esse papel, mas poderá não conseguir escapar a tal se quiser estar, por exemplo, no Tour. A vida não tem sido fácil para muitos dos ciclistas que deixam a Quick-Step Floors. A ver vamos se Gaviria quebra esse enguiço.

A UAE Team Emirates também já olha para o futuro. Quase se esquece que Gaviria tem apenas 24 anos dada as vitórias que já alcançou, pelo que o sprinter é o presente e o futuro. Já Ivo e Rui Oliveira, Jasper Philipsen e Tadej Pogacar são ciclistas que vão estrear-se no World Tour, pelo que terão a sua oportunidade para se adaptar, antes da pressão de resultados e boas exibições começar a pesar.

Joxean 'Matxin' Fernández, é um dos directores desta equipa. Com uma enorme experiência na modalidade, antes de se juntar à UAE Team Emirates em 2018, foi olheiro para a Quick-Step Floors, pelo que teve a sua influência na escolha de Gaviria. É um profundo conhecedor de jovens ciclistas e muito atento ao que se passa em Portugal. A evolução dos gémeos não lhe passou naturalmente despercebida, na pista e na estrada. Depois de dois anos numa das melhores estruturas para jovens, a Hagens Berman Axeon, Ivo e Rui, campeão nacional de contra-relógio e de fundo de sub-23, respectivamente, dão o salto mais do que esperado, com Rui Costa à espera de os receber.

O companheiro da formação americana, Jasper Philipsen, segue o mesmo caminho. É um belga de talento para as clássicas, enquanto Tadej Pogacar, tem o potencial para as provas por etapas. Estamos perante um esloveno que ganhou o Tour de l'Avenir e que acumulou muitos e bons resultados em corridas idênticas. Mais um ciclista a ter em atenção, num conjunto de jovens de qualidade que esta UAE Team Emirates assegurou para os próximos dois anos.

Permanências: Fabio Aru, Dan Martin, Alexander Kristoff, Rui Costa, Diego Ulissi, Valerio Conti, Sven Erik Bystrom, Simone Consonni, Roberto Ferrari, Vegard Stake Laengen, Marco Marcato, Manuel Mori, Simone Petilli, Jan Polanc, Edward Ravasi, Rory Sutherland, Oliviero Troia, Kristijan Durasek, Alexandr Riabushenko e Yousif Mirza.

Contratações: Fernando Gaviria (Quick-Step Floors), Ivo Oliveira (Hagens Berman Axeon), Rui Oliveira (Hagens Berman Axeon), Jasper Philipsen (Hagens Berman Axeon), Sergio Henao (Sky) Tadej Pogacar (Ljubljana Gusto Xaurum), Tom Bohli (BMC) Sebastián Molano (Manzana Postobón), Cristian Camilo Muñoz (Coldeportes Zenu Sello Rojo).


3 de setembro de 2018

Daniel Martin abandona Volta a Espanha

(Fotografia: © PhotoGomezSport/UAE Team Emirates)
Numa corrida em que apenas um ciclista abandonou após nove etapas realizadas, a Vuelta vai perder um dos seus principais nomes. Daniel Martin não vai partir para a 10ª tirada, esta terça-feira, tendo sido anunciado a sua retirada durante o dia de descanso. O irlandês vai ser pai de gémeas e pediu autorização à equipa para acompanhar a mulher neste momento tão especial, pois as filhas podem nascer a qualquer momento.

"O momento chegou, um pouco mais cedo do que tínhamos previsto, de ir para casa e apoiar a minha mulher neste período incrivelmente emocionante das nossas vidas", salientou o ciclista, de 32 anos. No comunicado, Martin referiu que não obteve os resultados esperados naquela que foi a sua sexta participação na Vuelta. No entanto: "Gostei muito de ter sido o capitão de estrada deste jovem grupo." Acrescentou que não é fácil deixar os seus companheiros, agradecendo aos responsáveis da UAE Team Emirates de lhe terem dado a oportunidade de estar na Volta a Espanha, sabendo que poderia ter de abandonar devido ao nascimento das filhas.

O nome de Daniel Martin foi muito falado quando se aproximou a etapa do último domingo. Em 2011, o irlandês venceu na La Covatilla, local que recebeu o final da nona tirada da actual edição da Vuelta. Depois do bom Tour que realizou, com uma vitória de um oitavo lugar na geral, Martin surgiu na Vuelta sem a pressão da corrida francesa. A sua função era um pouco de papel livre, mas tentando estar na ajuda a Fabio Aru.

O italiano perde aquele que poderia ser um homem importante nas etapas mais difíceis. Martin não esteve na disputa de nenhuma etapa, contudo, a sua experiência era uma mais valia, ainda mais quando Aru bem pode vir a precisar de alguém que o ajude a ultrapassar a pressão que, no caso do italiano, aumenta a cada dia que passe, face à falta de resultados em 2018.

De recordar que Rui Costa ficou de fora dos seleccionados da UAE Team Emirates para a Vuelta, ficando com o calendário das clássicas. Pela primeira vez na sua carreira desde que chegou ao World Tour, não participou em nenhuma grande volta numa temporada. Outro ciclista que ficou de fora foi Diego Ulissi. O italiano fez o Giro, mas está agora também a competir em algumas das clássicas desta fase da época.

Em Espanha está uma equipa muito jovem, a acompanhar Aru estão: Simone Consonni (23 anos/está a fazer a sua primeira grande volta), Edward Ravasi (24/segunda grande volta), Valerio Conti (25/sete, venceu uma etapa na Vuelta em 2016), Simone Petilli (25/três), Sven Erik Bystrom (26/três) e Vegard Stake Laengen é o segundo mais velho depois de Martin: 29 anos/três. Aru tem 28 anos e ganhou a Vuelta em 2015.

Martin é casado com a atleta olímpica Jessica Martin e vivem em Andorra. Este abandono é então o segundo na Vuelta, depois do holandês Maurits Lammertink (Katusha-Alpecin) ter ido para casa devido a persistentes dores abdominais.

A 10ª etapa começará em Salamanca, com a meta instalada em Fermoselle, Bermillo de Sayago. É propícia para os sprinters, mas a subida de cerca de cinco quilómetros de terceira categoria, quando faltarem menos de 40 para o fim, poderá proporcionar ataques que darão trabalho às equipas que quiserem controlar a etapa para a disputar.

»»Pouca acção, muito estudo e uma Vuelta com poucas certezas««

»»As apostas de Contador para a Vuelta««

31 de agosto de 2018

Pelotão furioso com condições da estrada

Os últimos 20 quilómetros foram muito complicado
com quedas e furos (Fotografia: © PhotoGomezSport/La Vuelta)
Num dia, o helicóptero voou baixo de mais e provocou a queda de alguns ciclistas já depois da etapa terminar. Escusado será dizer que as críticas vieram de todo o lado. Mas o pior estava por acontecer. Os últimos 20 quilómetros da tirada desta sexta-feira provocaram a ira do pelotão. A estrada em mau estado e muito estreita causou vários incidentes. Michal Kwiatkowski foi dos mais afectados, mas a insatisfação não foi expressa apenas pela Sky.

"Não sei o que os organizadores estavam a pensar ao levarem-nos para estradas como aquela. Condições terríveis. Queriam quedas e tiveram-nas", afirmou Simon Yates (Mitchelton-Scott), um dos mais duros nas palavras. O australiano conseguiu chegar a são e salvo à meta em Pozo Alcón, mas um dos seus colegas, Damien Howson, foi um dos vários ciclistas a cair. "Foi muito perigoso", desabafou Yates, desiludido com a fase final do percurso da sétima etapa.

Sentimento partilhado por Daniel Martin. Além das quedas, os furos também foram um problema. O irlandês foi um dos azarados e perdeu 4:27 minutos. "Teria sido simpático limparem a estrada", disse Martin, referindo-se ao facto de haver muita gravilha, o que só contribuiu para a dificuldade dos ciclistas em manobrarem as bicicletas e para originar problemas mecânicos. "Eram estradas mesmo, mesmo más. Estivemos em boas estradas largas durante todo o dia e depois atiram-nos para isto. Foi o caos", salientou.

Em sete etapas, ainda ninguém abandonou na Vuelta, o que muito se deve ao tipo de estradas por onde o pelotão tem andado. Na sexta etapa houve um primeiro erro, com um obstáculo mal identificado a originar uma queda que envolveu vários ciclistas. Depois da meta em San Javier, Mar Menor houve então o incidente com o helicóptero. Ao voar demasiado baixo, a deslocação de ar que criou fez com que umas barreiras de plástico fossem, para o meio da estrada e houve quem não as conseguisse evitar, chegando mesmo a cair. Julien Duval (AG2R) foi um dos afectados, por exemplo e ficou incrédulo com a situação.

Porém, as condições da estrada da sétima etapa, resultou em mais problemas do que quase todos juntos até a este dia. Daniel Martin não hesitou em colocar o dedo na ferida: "É bonito para a televisão, mas não é bonito pedalar nelas."

Alejandro Valverde juntou-se ao coro de críticas: "O asfalto era mesmo mau. Estávamos avisados que ia ser complicado, mas foi mais difícil do que o esperado." O espanhol da Movistar acabou por beneficiar da queda de Kwiatkowski e com a bonificação do terceiro lugar na etapa, saltou para o segundo lugar, a 47 segundos de Rudy Molard (Groupama-FDJ). Valverde lamentou que o polaco tenha perdido tempo devido a uma queda, ficando , por outro lado, satisfeito que tanto ele como Nairo Quintanha tenham passado incólumes num final tão complicado. Ou quase. O colombiano da Movistar foi dos que furou, mas a rápida intervenção do companheiro Richard Carapaz - cedeu a sua bicicleta -, permitiu que Quintana perde-se pouco tempo e recuperasse posição no grupo principal.

Outro colombiano, Rigoberto Uran (EF Education First-Drapac p/b Cannondale) limitou-se a dizer que foi "uma zona muito complicada e há que contar com a sorte para não cair". Sorte que Kwiatkowski não teve. Nem ele nem os colegas Tao Geoghegan Hart e Sergio Henao. Os três caíram na mesma curva, com David de la Cruz a escapar. O polaco desceu de segundo para sexto, perdendo 25 segundos para Molard, estado agora a 1:06. Ainda assim, na Sky tenta-se ver o lado positivo. "Podia ter sido pior", disse o director desportivo Gabriel Rasch. "O Kwiato teve de mudar de bicicleta, mas felizmente os rapazes estavam mesmo atrás dele e deram-lhe uma rapidamente. O Sergio fez um trabalho extraordinário e quase conseguiram fechar a distância para o grupo da frente", acrescentou.

Mas não foi só Henao quem ajudou. Quando o colombiano ficou sem força, o próprio Kwiatkowski trabalhou no grupo e teve uma preciosa contribuição de Bauke Mollema (Trek-Segafredo) e Ilnur Zakarin (Katusha-Alpecin). Ambos acabaram também por não durar até ao fim e o holandês chegou mesmo a perder o contacto com este grupo.

Franceses brilham em Espanha

No Tour as coisas não correram muito bem para os ciclistas da casa, com excepção para Julian Alaphilippe (Quick-Step Floors) e Arnaud Démare (Groupama-FDJ), este último lá conseguiu uma etapa. Porém, na Vuelta, em três dias os gauleses viram um seu ciclista vestir a camisola da liderança - Rudy Molard -, depois Nacer Bouhanni (Cofidis) regressou às vitórias em grandes voltas, terminando com um jejum de quatro anos, e agora foi Tony Gallopin que terminou com um hiato igual ao do compatriota. As três equipas francesas na Vuelta já deixaram a sua marca.

Numa fase de ataques e contra-ataques, Gallopin tentou a sua sorte a três quilómetros do fim e foi feliz, frustrando um Peter Sagan (Bora-Hansgrohe) que ultrapassou as dificuldades, mas para ficar apenas em segundo. Bateu ao sprint Valverde, outro interessado em vencer, que no seu caso teria sido a segunda vitória.

O espanhol não só subiu ao segundo lugar, como ficou com a camisola dos pontos de Kwiatkowski, liderando ainda no combinado. Luis Ángel Maté mantém-se com a da montanha. A Astana é a primeira na classificação colectiva.

Os quatro ciclistas portugueses em prova perderam tempo para o grupo principal (Gallopin cortou a meta com cinco segundos de vantagem). Nos 185,7 quilómetros entre Puerto Lumbreras e Pozo Alcón, José Mendes (Burgos-BH) cortou a meta a 1:48 minutos do francês da AG2R, Tiago Machado (Katusha-Alpecin) a 5:40, Nelson Oliveira a 7:49 e José Gonçalves chegou a 15:11 do vencedor.

Pode ver aqui as classificações completas.

Oitava etapa: Linares - Almadén, 195,1 quilómetros

Vai ser um dia algo nervoso, muito porque se aproxima a primeira etapa que pode ser decisiva na Vuelta. Espera-se um final ao sprint, que tendo os últimos metros em subida, coloca Peter Sagan como favorito, mas a concorrência continuará a ser forte.

Os homens da geral quererão ter um dia o mais tranquilo possível numa Vuelta, pois no domingo terão de enfrentar La Covatilla, uma categoria especial, que chegará depois de uma subida de primeira, outra de terceira e ainda uma de segunda, com muito sobe e desce pelo meio. Serão ainda 200,8 quilómetros, sendo a segunda etapa mais longa da corrida. Mas primeiro há mais um dia para sobreviver.



12 de julho de 2018

Uma vitória no Tour e a época já não está a ser tão má

(Fotografia: ©ASO/Alex Broadway)
É o efeito da influência que a Volta a França tem. Ganhar uma etapa no Tour é algo que pode fazer uma temporada para algumas equipas, principalmente se forem uma das quatro convidadas do escalão Profissional Continental. Para as do World Tour não se pode ir tão longe. Porém, quando a temporada está muito abaixo das expectativas, vencer no Tour é algo que, pelo menos, ameniza um pouco a falta de resultados. É o que acontece com a UAE Team Emirates. Daniel Martin conquistou o Mûr de Bretagne (muro da Bretanha) e tirou uma enorme pressão sobre a equipa.

Era uma etapa que tinha o nome do irlandês. O problema é que tinha também o de Julian Alaphilippe (Quick-Step Floors), Alejandro Valverde (Movistar) e nem se podia afastar a hipótese de Peter Sagan (Bora-Hansgrohe) intrometer-se. Martin já nada tem haver com aquele ciclista em esforço, mas sem força para lutar por umas corridas que tanto gosta: a semana das Ardenas. A melhor versão de Martin começou a aparecer no Critérium du Dauphiné. Ganhou uma etapa ao seu estilo e fez uma excelente recuperação na geral para ficar à porta do pódio. Esta quinta-feira foi mais uma vez aquele Martin de ataque, que sabe quando deve sair e já não deixa ninguém se aproximar. Na segunda passagem pelo "muro", Martin atacou a pouco mais de um quilómetro da meta. Até pareceu ser cedo de mais, mas não. Quem sabe, sabe. Martin venceu e deixou um Pierre Latour (AG2R) frustrado, com Valverde e Alaphilippe a cortar a meta logo a seguir.

São só nove vitórias em 2018, muito pouco para uma equipa que se reforçou com Martin, Fabio Aru - que falhou por completo na Volta a Itália - e ainda um Alexander Kristoff que até começou o ano a dar indicações que estava de regresso às vitórias, mas aos poucos tornou-se de novo naquele ciclista que sprinta, mas nunca está verdadeiramente na discussão. Contudo, não desiste, pois o norueguês tem sido dos que mais aparece atrás de Fernando Gaviria e Peter Sagan.

Com esta vitória no Tour e perante o tal efeito de ganhar na Volta a França, a UAE Team Emirates já pode mesmo fazer-se valer de outro pormenor. É que cinco dos triunfos este ano foram em corridas do World Tour.

Com Aru a evitar a Volta a França para se apresentar na Vuelta com o objectivo (e a pressão) de apagar a má imagem deixada no Giro, com Rui Costa a falhar o Tour devido a uma lesão no joelho, a UAE Team Emirates estará muito dependente do que fará Daniel Martin. John Darwin Atapuma é sempre um ciclista a ter em conta, mas se Martin estiver mesmo com intenções de tentar pelo menos o top dez, o colombiano poderá ficar preso à função de ajudar o líder. Kristoff não está a demonstrar ter capacidade para bater Gaviria e Sagan, mas se Martin mantiver o nível que está a demonstrar e que começou no Critérium du Dauphiné, talvez a equipa ainda tenha mais razões para sorrir até Paris.

E para o irlandês reaparecer novamente como um ciclista temível, longe daquele que se apresentou nas Ardenas, bastou lembrar-se por que razão compete: para se divertir. Foi o próprio que o admitiu após o Dauphiné. Ao retirar a pressão que ele próprio colocou sobre os seus ombros, conseguiu alcançar os resultados que a UAE Team Emirates queria.

(O texto continua por baixo do vídeo.)




Avermaet sobreviveu, Dumoulin e Bardet nem por isso

Com Richie Porte a chegar a aparecer na frente na subida final, o companheiro da BMC e líder da geral, Greg van Avermaet, agarrou-se como pôde ao grupo para não deixar escapar a camisola amarela que Geraint Thomas está desejoso de vestir. O ciclista da Sky foi buscar dois segundos de bonificação antes da meta, mas no final não conseguiu nem ficar nos três primeiros, nem que houvesse um corte para Avermaet. A amarela continua na BMC e se não houver surpresas, deverá mantê-la até ao início da segunda semana, já que a etapa de domingo, no pavé até Roubaix, certamente que não assusta o ciclista da BMC. Afinal é um vencedor do monumento Paris-Roubaix (2017).

A etapa entre Brest e Mûr de Bretagne Guerlédan (181 quilómetros) ficou marcada pela acção da Quick-Step Floors a pouco mais de 100 quilómetros do fim, quando provocou vários cortes no pelotão devido ao vento. Nairo Quintana (Movistar) apanhou um valente susto! Já Tom Dumoulin (Sunweb) e Romain Bardet (AG2R) é que foram, desta feita, o alvo dos azares que têm andado a "apanhar" quase todas as principais figuras na luta pela geral. O holandês furou, perdeu 53 segundos e ainda foi penalizado com em 20 por ter ficado demasiado tempo atrás do carro da equipa na tentativa de reentrar no grupo da frente. Bardet teve problemas mecânicos que lhe custaram 31.

De referir que Chris Froome também deixou escapar cinco segundos para Thomas, Vincenzo Nibali (Bahrain-Merida), Quintana e o companheiro da Movistar Mikel Landa, Porte, Adam Yates (Mitchelton-Scott) e Rafal Majka (Bora-Hansgrohe).

Agora é esperar por domingo, pela tal etapa de Roubaix. Até lá, serão dois dias para os sprinters tentarem bater Fernando Gaviria e Peter Sagan que somam duas vitórias cada um no Tour, com o eslovaco a liderar a classificação dos pontos. O colombiano venceu o sprint intermédio, mas ficou depois para trás mal o terreno começou a inclinar. Sagan foi oitavo na etapa e somou mais pontos. São agora 43 os que os separam.

Pode ver aqui as classificações.

Sétima etapa: Fougères - Chartres, 231 quilómetros



17 de abril de 2018

Como bater Valverde na Flèche Wallonne? "Só podemos esperar que ele esteja a ficar mais lento"

(Fotografia: Facebook Flèche Wallonne)
Para Alejandro Valverde as coisas são simples nesta fase da sua carreira, numa altura a que está a pouco mais de uma semana de celebrar 38 anos (25 de Abril): "Enquanto continuar a ganhar, vou continuar a competir." Tendo em conta que já são nove vitórias este ano (contando com etapas e classificações gerais e montanha), é caso para dizer que a reforma está longe. O que poderá estar bem perto é mais um triunfo na Flèche Wallonne, corrida em que o espanhol da Movistar conta com cinco vitórias, as últimas quatro consecutivas. O Muro de Huy já se confunde com o Muro de Valverde, pois ninguém parece encontrar forma de bater o espanhol nesta corrida das Ardenas.

Que o diga Daniel Martin e Julian Alaphilippe. Das recentes quatro vitórias de Valverde - ele que é o recordista nesta prova -, Martin foi ao pódio em três, falhando 2015 por ter sofrido uma queda. Já o francês foi segundo em 2014 e 2015. São dois ciclistas a quem o percurso da corrida assenta bem, ainda que este ano seja um pouco mais duro, o que pode levar a uma maior selecção quando chegar a decisão no mítico Huy. É preciso ter em conta que além do habitual sobe e desce, o Muro de Huy será ultrapassado duas vezes, antes da derradeira subida até à meta.

Mas afinal, como se pode bater Alejandro Valverde numa corrida que lhe é tão perfeita? "Só podemos esperar que ele esteja a ficar mais lento." Melhor resposta é impossível e veio de Daniel Martin. O irlandês também vê esta Flèche Wallonne com condições ideiais para as suas características e acredita mesmo que a maior dureza o pode beneficiar. Para Martin não há dúvidas que tudo se voltará a decidir naqueles 900 metros finais (1300 se contarmos a fase de 6/7%), com uma pendente média 11,9%, mas que quase chega aos 26 na segunda metade.

Portanto é preciso ter explosão e Julian Alaphilippe já demonstrou que a tem. Só que Valverde tem tido mais... O francês da Quick-Step Floors colocou esta fase das Ardenas como um dos principais objectivos de temporada. Na Amstel Gold Race, no domingo, demonstrou estar forte, mas desgastou-se talvez um pouco cedo de mais. Ainda assim, é a corrida de amanhã que lhe favorece mais, tal como aos dois adversários. E é na corrida de quarta-feira que se concentra este texto, mas este é um trio que no domingo, no monumento Liège-Bastogne-Liège, estará igualmente no topo de candidatos.

Alaphilippe até está a realizar uma temporada bastante interessante, já com três vitórias, as últimas duas na Volta ao País Basco. No entanto, também já sente a pressão de uma Quick-Step Floors que lhe exige mais, depois de quatro anos de amadurecimento. O director, Patrick Levefere, chegou mesmo a criticá-lo quando se afundou na classificação no Paris-Nice, mas o ciclista francês reagiu com as vitórias em Espanha. Ainda assim, é nas Ardenas que joga parte da sua época, antes de se concentrar na Volta a França.

Regressando a Daniel Martin, a pressão também é grande, pois a UAE Team Emirates apostou forte na sua contratação, na de Fabio Aru e Alexander Kristoff, mas só o último rendeu vitórias, duas, as únicas da equipa em 2018. Muito pouco. E Martin tem estado muito discreto. De olhos postos no Tour, a Semana das Ardenas sempre foi um objectivo seu, principalmente as próximas duas corridas. Só um novo pódio pode saber a pouco para o irlandês e para os responsáveis da equipa. Rui Costa estará ao seu lado, mas o Muro de Huy não é bem para o português que tanto sonha, isso sim, com a Liège-Bastogne-Liège. E que importante seria um bom resultado nessa corrida por parte do campeão mundial de 2013.

Se Valverde lidera a lista de candidatos destacado, com Martin e Alaphilippe na perseguição mais perto, Tim Wellens tem estado numa grande forma, com vitórias na Brabantse Pijl e na Ruta del Sol. A Lotto Soudal leva também Tiesj Benoot. O problema é aquele Huy, que parece estar feito à medida de Valverde.

Bauke Mollema (Trek-Segafredo), Rafal Majka (Bora-Hansgrohe), Rigoberto Uran (EF Education First-Drapac p/b Cannondale), Sergio Henao e Michal Kwiatkowski (Sky) estarão presentes, mas talvez quando se olha para a tal explosividade necessária para os metros finais, Romain Bardet (AG2R), Vincenzo Nibali (Bahrain-Merida), Dylan Theuns (BMC) e porque não Ilnur Zakarin (Katusha-Alpecin) podem ser as maiores ameaças a Valverde. Warren Barguil tem andado tão desaparecido nesta sua primeira temporada na Fortuneo-Samsic, que acaba por se colocar um ponto de interrogação na sua forma. Mas eis a oportunidade perfeita para se mostrar.

Ruben Guerreiro será o outro português em prova e a sua prestação estará dependente do trabalho que lhe for definido na ajuda a Bauke Mollema. Nas senhoras, Daniela Reis volta a estar entre as eleitas da Doltcini-Van Eyck Sport.

Veja aqui a lista de inscritos da Flèche Wallonne, 198,5 quilómetros entre Seraing e Huy. Como curiosidade, além de Valverde, o único antigo vencedor desta corrida em prova será Philippe Gilbert, que ainda procura a primeira vitória em 2018.



»»Valgren a tornar o seu nome num dos grandes da Astana««

»»Antes das Ardenas, os mais e menos de uma grande época de clássicas do pavé««

9 de janeiro de 2018

Daniel Martin e Ben Swift lideram UAE Team Emirates. Sunweb vem ao Algarve mostrar jovens talentos

Daniel Martin, agora na UAE Team Emirates, venceu em 2017 no Alto da Fóia
Não haverá Rui Costa, nem Fabio Aru, mas Daniel Martin regressa à Volta ao Algarve e este é um ciclista que não tem por hábito competir apenas para cumprir calendário. E há um ano demonstrou isso mesmo, ao vencer a etapa no Alto da Fóia. O irlandês trocou a Quick-Step Floors pela UAE Team Emirates e tem como objectivo da temporada a Volta a França. Swift também não estará com meias medidas. O britânico deixou a Sky para procurar mais oportunidades, mas o primeiro ano na nova equipa foi para esquecer. Resultados exigem-se e Swift junta-se assim a Arnaud Démare (FDJ) na luta pelos sprints, que poderá contar ainda com John Degenkolb (Trek-Segafredo), Edvald Boasson Hagen (Dimension Data) e Dylan Groenewegen (Lotto-Jumbo), mas é de salientar que há muitas equipas que ainda não confirmaram os seus eleitos.

Além de Martin, a UAE Team Emirates traz uma equipa muito interessante na perspectiva de disputar a geral. Valerio Conti é um bom trepador e já venceu uma etapa na Vuelta. Outro italiano, Edward Ravasi, tem apenas 23 anos, mas com potencial para a montanha. Jan Polanc pertence a uma geração que está a colocar a Eslovénia no mapa do ciclismo e se Martin não estiver à altura dos acontecimentos, Polanc pode espreitar entrar na luta pela vitória. Aos 25 anos, já conta com duas etapas no Giro. O norueguês Vegard Stake Laengen estará no apoio a Swift, mas dêem-lhe uma oportunidade e não a desperdiçará. Aos 35 anos, o australiano Rory Sutherland agarrou um novo desafio, deixando a Movistar. Poderá ser um ciclista importante ao lado de Daniel Martin e de Jan Polanc.

A UAE Team Emirates fará a sua estreia na Volta ao Algarve, tal como a Sunweb. Enquanto a equipa de Abu Dhabi traz um conjunto cheio de intenções, a alemã irá mostrar alguns dos jovens talentos, que serão liderados por um muito experiente Laurens ten Dam. Não estarão Tom Dumoulin nem Wilco Kelderman, mas atenção a ciclistas como Sam Oomen e Louis Vervaeke.

E Sam Oomem merece que se siga a sua prestação com muita (mesmo muita) atenção. Este holandês de 22 anos é desde já um forte candidato à classificação da juventude. Estamos a falar de um ciclista que venceu a Volta a França do Futuro em 2016, estava na equipa que foi campeã mundial em Bergen na especialidade e só para se perceber melhor o talento deste jovem, em 2017 foi: 15º na Ruta del Sol, 14º no Paris-Nice, 19º na Volta ao País Basco, nono na Califórnia, 14º no Critérium du Dauphiné, sétimo na Volta à Polónia e 11º no último monumento do ano, Il Lombardia. Estreou-se numa grande volta na Vuelta, tendo abandonado na 14ª etapa, mas até lá estava a ser de uma regularidade tremenda, com tops 20 e 30 e um oitavo lugar em Cumbre del Sol, além do terceiro no contra-relógio colectivo que abriu a corrida.

Enquanto Dumoulin atinge a maturidade, a Sunweb vai já preparando a próxima geração e "prendeu" Oomen até 2020. O alemão Kämna é vice-campeão mundial de sub-23, o belga Vervaeke (24) deixou a Lotto Soudal para tentar procurar um diferente protagonismo. Lennard Hofstede (holandês de 23 anos) e Jai Hindley (australiano de 21 e um dos reforços de 2018) irão ganhar experiência, enquanto o veterano Laurens ten Dam (37) terá uma das poucas oportunidades durante o ano para lutar por uma vitória, com Simon Geschke - o barbudo do pelotão, como é conhecido - a poder assumir um papel de apoio ou então procurar estar um pouco em destaque, pois é um ciclista que tendo liberdade gosta de entrar em fugas.

A Volta ao Algarve arranca a 14 de Fevereiro, em Albufeira, e termina no dia 18, no Alto do Malhão. É o segundo ano em que tem a categoria 2.HC, a segunda mais importante depois das corridas do World Tour. Bateu mais um recorde ao garantir 13 equipas das 18 equipas do World Tour, mais uma do que em 2017. Terá transmissão televisiva no Eurosport e TVI24.

Além da UAE Team Emirates e Sunweb, também a FDJ, Katusha-Alpecin e Caja Rural já enviaram a lista de pré-inscritos. Ciclistas como Peter Kennaugh (Bora-Hansgrohe), Geraint Thomas (Sky) e Louis Meintjes (Dimension Data) também já confirmaram a pretensão de estar na Algarvia, que poderá ainda contar com nomes como Bauke Mollema e Jasper Stuyven (Trek-Segafredo) e Dylan Teuns (BMC), por exemplo.

»»Tony Martin e Arnaud Démare inscritos na Volta ao Algarve««

»»Pelotão da Volta ao Algarve com recorde de equipas World Tour mas sem Amaro Antunes««

Pub

18 de outubro de 2017

Fabio Aru na UAE Team Emirates. Que papel terá Rui Costa em 2018?

(Fotografia: Facebook UAE Team Emirates)
Fabio Aru é o mais recente reforço de luxo de uma equipa que começou o ano com um dos orçamentos mais baixos do World Tour, mas que com a entrada de novos patrocinadores assumiu um poderio económico que já lhe permitiu garantir Alexander Kristoff e Daniel Martin. Nenhum destes ciclistas é barato! Também já estão garantidos Sven Erik Bystrom e Rory Sutherland. Aru estaria a pedir mais de dois milhões de euros por temporada, o que fez a Trek-Segafredo recuar na intenção de o contratar. Dinheiro à parte, a formação que pegou na estrutura da Lampre-Merida quer colocar-se rapidamente entre as melhores do World Tour e não está com medo de abrir os cordões à bolsa. No plantel já lá estão bons ciclistas, como Diego Ulissi, Ben Swift (um pouco apagado este ano, mas ninguém coloca em causa a sua qualidade), John Darwin Atapuma, Valerio Conti e Jan Polanc, por exemplo. E claro, está lá o campeão do mundo de 2013 e líder da equipa nas últimas quatro temporadas: Rui Costa.

Em 2013, o ciclista português juntou o título mundial às duas etapas conquistas no Tour. Para Rui Costa era a oportunidade de ouro para se afirmar numa negociação de contrato. A Movistar não iria dar-lhe uma liderança num Tour quando tinha Nairo Quintana e Alejandro Valverde. A então Lampre era a equipa que precisava de um líder para as corridas de três semanas, principalmente para a Volta a França. Não era a equipa mais forte do pelotão e há muito que se vinha a apagar, mas sempre ia conseguindo vitórias aqui e ali relevantes. 

Compreendeu-se a escolha do ciclista, contudo, a formação italiana nunca cumpriu com a obrigação de rodear Rui Costa de corredores que o apoiassem. Nelson Oliveira foi um fiel escudeiro, mas em 2016 também ele procurou novas oportunidades na Movistar. Rui tentou sozinho aquilo que muitos normalmente fazem apoiados por colegas. Se por vezes falhou, não foi por falta de tentativa de lutar contra a corrente, sozinho, sem ajuda de companheiros.

Não tem sido fácil para Rui Costa. Acabou por nunca mais repetir as exibições na Volta a França, naquele que era o seu sonho de terminar no top 10. Quando tentou antes conquistar etapas, andou perto, mas também não conseguiu. A Lampre acabou e depois das peripécias de um projecto chinês que não avançou e dos Emirados Árabes Unidos acabarem por ser a salvação, Rui Costa apareceu em 2017 de ambição renovada. Esqueceu o Tour e virou-se para o Giro e Vuelta. Em Itália esteve muito bem no objectivo de ganhar etapas. Só não esteve excelente porque três segundos lugares deixaram alguma frustração. Merecia mais. Porém, foi a confirmação de um grande arranque de temporada, com destaque para a conquista da Volta a Abu Dhabi, algo ainda mais relevante tendo em que era a nova casa da equipa.

Na segunda metade da época não apareceu tão bem e a Vuelta acabou por ser uma pequena desilusão. A corrida foi dura e Rui Costa não resistiu às subidas curtas e intensas que marcam a Volta a Espanha. O melhor que conseguiu foi um quarto lugar, ainda que o tenhamos visto activo em algumas fugas. No Mundiais tentou aparecer, mas o que fazer quando há um Peter Sagan...

Terão acabado as oportunidades de ser líder para o português? Rui Costa tem estatuto para manter a sua liderança em determinadas corridas, mas a sua posição fica muito enfraquecida nas grandes voltas e mesmo em algumas clássicas. O Tour será para Aru e Martin, numa situação que será interessante perceber como irão os responsáveis da formação gerir. Rui Costa poderá ter o seu espaço novamente no Giro, se Aru optar por se concentrar na Volta a França. Nas clássicas das Ardenas, o poveiro terá Martin à sua frente na hierarquia.

Rui Costa poderá assim ter de abraçar novamente a função de homem de trabalho. O seu contrato termina no final de 2018 e será um ano de reflexão para o português. Para continuar no World Tour terá, se calhar, de abdicar não por completo, mas quase, do seu desejo de ser líder. Estão a verificar-se alguns casos de ciclistas que não se importam de descer de escalão para garantir o seu estatuto. Warren Barguil, por exemplo, ainda que seja uma situação um pouco diferente (rei da montanha no Tour, vai para uma equipa francesa e assim deverá garantir o convite para a corrida rainha em 2018).

Ainda é cedo para se falar do que será de Rui Costa depois de 2018, mas para o ano terá de dividir as atenções com dois grandes nomes do ciclismo mundial, sabendo que em muitas corridas ficará em segundo plano. Claro que a determinação que marca este ciclista também poderá vir ainda mais ao de cima. Será um desafio, mas Rui Costa não irá deixar-se ficar para trás, habituado que está a partilhar os holofotes com grandes nomes, como aconteceu na Movistar. Uma oportunidade e lá estará ele, certamente, a demonstrar que continua a ser uma boa aposta numa UAE Team Emirates que sonha alto e não se importa de pagar por isso.

Haverá muitos egos para gerir, mas não é nada de novo a este nível no ciclismo. Aos 31 anos, Rui Costa entrará numa nova fase de uma brilhante carreira. Se estiver ao lado de Aru e Martin, será um elemento de elevada importância por toda a experiência que já tem, especialmente para o italiano. A inteligência táctica de Rui Costa é uma das suas maiores virtudes e Aru pode aprender muito com o português. A UAE Team Emirates irá apostar forte no Tour e é possível que jogue todas as suas armas nesta corrida. No entanto, ainda se quer ver mais deste ciclista com liberdade para lutar por vitórias. Falta-lhe também pelo menos uma clássica nas Ardenas, nomeadamente a sua querida Liège-Bastogne-Liège. Ganhar um monumento seria excelente. O problema será que Daniel Martin também o irá querer vencer...