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16 de fevereiro de 2020

"[O Gallego] é um bom profissional e acho que ficou provado aqui"

"Chegou, regressou e ganhou." É a versão de José Santos da expressão veni, vidi, vici sobre a vitória de Alberto Gallego na Prova de Abertura Região de Aveiro. O espanhol foi para a fuga logo aos cinco quilómetros, com mais ciclistas, mas no final dos 181,3, em Vagos, estava sozinho. Foi o regresso perfeito à competição de um corredor que a Rádio Popular-Boavista está a dar uma segunda oportunidade na carreira depois de quase quatro anos de suspensão.

"Conheço-o bem. Mantivemos contacto este tempo todo. Sempre lhe disse para treinar que tinha aqui uma equipa. Ele é um bom profissional e acho que ficou provado aqui", afirmou o director desportivo da equipa ao Volta ao Ciclismo. E acrescentou: "Sempre acreditei nele. Sei do valor que ele tem e da injustiça de que foi alvo."

É impossível contornar as circunstâncias pelas quais se fala de um regresso. Gallego já tinha estado na equipa portuguesa na segunda metade da época de 2014 e depois na de 2015. Quando se preparava para representar a Caja Rural, acusou estanozol, um esteróide anabolizante, foi suspenso, mas sempre defendeu a sua inocência. Então, numa carta aberta, escreveu: "Para mim é óbvio que se não tomei propositadamente e se não está nos rótulos [dos suplementos], então eu sou uma vítima". Considerou ser uma vítima de contaminação no laboratório. José Santos foi peremptório sobre o que aconteceu: "São águas passadas."

O responsável acreditava que Gallego poderia fazer uma boa corrida e admite que a vitória logo a abrir a temporada, depois de ter terminado 2019 de uma forma tão forte, dá esperança para que 2020 possa ser um ano muito positivo para a Rádio Popular-Boavista. Gallego quer contribuir para isso mesmo e, apesar da enorme emoção que não conseguia esconder na meta em Vagos, garantiu que já estava a pensar na próxima corrida, a Volta ao Algarve.

"Só correr, para mim, era uma vitória. Os culpados disto são a minha família, o José Santos... Nem sei como me sinto... É um regresso incrível, nem acredito", desabafou ao Volta ao Ciclismo, perante abraços da família, colegas e de ciclistas de outras equipas que pararam para felicitar Gallego.

Uma corrida atribulada

A Prova de Abertura Região de Aveiro foi uma corrida atribulada no arranque de temporada em Portugal. Ainda nem tinha começado e o percurso já tinha sido alterado, com as equipas devidamente informadas. O Carnaval já se começa a fazer sentir nesta zona do país e foi preciso escolher uma rota inicial um pouco diferente. De 174,5 quilómetros, passou-se para 181,3. Manteve-se a única subida categorizada em Talhadas, onde a corrida foi neutralizada durante vários minutos, com direito a paragem total. Uma queda que afectou vários ciclistas e que obrigou a intervenção de todos os meios disponíveis de socorro, levou à decisão dos comissários.

Na altura os fugitivos, Gallego, Hugo Sancho (Miranda-Mortágua), Marvin Scheulen (LA Alumínios-LA Sport) e Franklín Chacón (Gios-Kiwi Atlantico) levavam cerca de 15 minutos de vantagem. Quando a corrida retomou, tinham dez. "Isso é importante não ser esquecido. Não foi explicado porquê", salientou José Santos que, perante a vitória, não quis alimentar polémicas.

José Dias (Equipa Portugal) e Francisco Pereira (JV Perfis-Gondomar Cultural) tentaram alcançar a frente da corrida, mas nunca conseguiram lá chegar, enquanto a cerca de 20 quilómetros do final Gallego deixou os companheiros de fuga, que seriam alcançados pelo pelotão. Houve um sprint para o segundo lugar, com o venezuelano Leangel Linarez (Miranda-Mortágua) a ser o mais forte, celebrando o que pensou ser a vitória. Não se apercebeu que Gallego não tinha sido alcançado. Em terceiro ficou Luís Mendonça, um dos reforços da Efapel.

Alberto Gallego cumpriu em 4:15.59 horas os 181,3 quilómetros, que começaram a ser percorridos em Albergaria-a-Velha e passaram por Estarreja, Ovar, Murtosa, Sever do Vouga, Talhadas, Águeda, Oliveira do Bairro, Anadia, Nariz e Ílhavo. O pelotão cortou a meta em Vagos 18 segundos depois.

A Rádio Popular-Boavista ganhou ainda por equipas, enquanto a Sicasal-CM Torres Vedras foi a melhor de clube. O melhor jovem foi Fábio Costa (Kelly-InOutBuild-UDO) - sétimo na geral -, com Gallego a levar ainda a classificação da montanha. As chamadas meta particulares, duas foram ganhas por Franlin Chacón (Gios-Kiwi Atlantico) e uma por Hugo Sancho (Miranda-Mortágua).

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24 de novembro de 2018

Uma época para recordar

(Fotografia: © Podium/Paulo Maria)
Terminar uma temporada e ver que um dos ciclistas de quem muito se exigiu, cumpriu plenamente e ainda houve mais corredores a ter um ano de sucesso, então só pode ser um 2018 muito feliz para a Rádio Popular-Boavista.

Em Fevereiro, o director José Santos disse sobre Domingos Gonçalves: "Acho que ele tem de assumir mais responsabilidade e acho que tem de ter mais cabeça e sangue frio para assumir a liderança da equipa em algumas corridas." No fim de Agosto, o gémeo tinha somado seis vitórias, incluindo os dois títulos nacionais (contra-relógio e de fundo) e uma etapa na Volta a Portugal. Se Gonçalves centrou muita atenção em si, houve mais. David Rodrigues juntou a conquista da Taça de Portugal e aquela memorável exibição na etapa da Senhora da Graça merecia mais. E a equipa não ficou por aqui, numa temporada plena de razões para celebrar.

Este foi um ano de muita qualidade para a Rádio Popular-Boavista, com 11 vitórias, só sendo ultrapassada pela W52-FC Porto. Com armas bem diferentes da equipa do Sobrado, a formação de José Santos conseguiu igualar a ambição a muitos e bons resultados. E Domingos Gonçalves é o nome incontornável de 2018.

Respondeu por completo ao repto do seu director desportivo, começando a ganhar na Clássica da Primavera, em Março, e só terminou com a conquista de um circuito, o de Alcobaça, em Agosto. Aos 29 anos, Gonçalves realizou a sua melhor temporada - ficou ainda com a medalha de prata no contra-relógio dos Jogos do Mediterrâneo - e a recompensa veio não só no formato de triunfos, mas também numa nova oportunidade na Caja Rural, equipa a que regressará em 2019, depois de por lá ter passado em 2016, então ao lado do irmão, José Gonçalves (Katusha-Alpecin).

Mas ter mais ciclistas a conseguir triunfos, é algo que José Santos queria ver. David Rodrigues confirmou o que pode fazer de melhor. Será difícil esquecer como a meta da Senhora da Graça ficou a 250 metros de uma vitória, quando Raúl Alarcón (W52-FC Porto) o ultrapassou. Foi fuga solitária de 70 quilómetros que merecia um final diferente. A mítica subida fica para ser conquistada noutra altura, mas Rodrigues sai de 2018 com a Taça de Portugal, uma etapa no Grande Prémio Abimota e um conjunto de exibições que elevaram o seu estatuto dentro da equipa, o que lhe poderá valer mais destaque no próximo ano.


Ranking: 4º (2037 pontos)
Vitórias: 11 (incluindo os dois títulos nacionais e uma etapa da Volta a Portugal)
Ciclista com mais triunfos: Domingos Gonçalves (6)

Luís Gomes venceu no Grande Prémio Anicolor e, entre os estrangeiros, foi Óscar Pelegrí quem se mostrou com a vitória no Grande Prémio Abimota/Altice e uma etapa no Grande Prémio de Portugal Nacional 2. Para a história ficam sempre os sucessos, mas a Rádio Popular-Boavista teve em muitas corridas sempre alguém em fugas ou na discussão das vitórias, com Domingos Gonçalves a ser uma presença assídua no top dez. Aliás, há que destacar também que terminou em nono na Volta, algo que nem estava nos seus planos. João Benta - o senhor regularidade quando se entra na fase final de preparação para a Volta - foi sexto, em mais uma prova que foi um ano feliz para a Rádio Popular-Boavista e que na corrida que mais se quer brilhar, a camisola desta equipa foi muito vista.

Se a aposta nos russos Egor Silin e Yuri Trofimov foi perdida, promover o regresso de Daniel Silva deu novo alento, ainda que talvez mais a pensar em 2019. O ciclista esteve suspenso, voltou à competição em Maio e não conseguiu atingir o nível de forma que o levou ao pódio na Volta em 2016. Porém, é um elemento importante e que poderá ser novamente uma aposta forte na próxima temporada. Em boa forma, poderá constituir uma dupla interessante com João Benta, sendo que se prepara para chegar a nova aposta da equipa.

É a pensar em repetir o sucesso desta época que José Santos contratou Luís Mendonça. Domingos Gonçalves será um homem difícil de substituir, mas no que diz respeito à vontade de vencer, ambos equiparam-se. Apesar da aposta tardia no ciclismo, os dois anos na Aviludo-Louletano-Uli permitiram a Mendonça evoluir de sprinter a um ciclista que sobe cada vez melhor e, aos 32 anos, alcançou a sua primeira grande vitória. Não fez por menos: a geral da Volta ao Alentejo. Na equipa algarvia, Vicente García de Mateos é o líder principal, pelo que a ida para a Rádio Popular-Boavista poderá ser uma forma de Mendonça encontrar mais liberdade. Para o ter contratado, José Santos vai apostar forte e exigir muito de Mendonça.

Entre os jovens, que fazem sempre parte desta estrutura, João Salgado mantém-se, com a contratação que chama mais a atenção ser a de Hugo Nunes. É um dos talentos a sair do Miranda-Mortágua. Tem sido escolha na selecção nacional, sendo um bom trepador que, aos 22 anos, dá um passo importante na carreira.

Um dos melhores juniores portugueses junta-se à equipa, Afonso Silva (Sporting-Tavira-Formação Engenheiro Brito da Mana), enquanto de Espanha, da equipa amadora da Caja Rural, chega Antonio Gómez. João Benta, Daniel Silva, Luís Gomes e David Rodrigues permanecem, além de Salgado. Entre as saídas, a não renovação de Pelegrí não deixou de ser um pouco surpreendente, dado os resultados, mas há outro adeus mais marcante. Depois de duas temporadas, Filipe Cardoso deixa a Rádio Popular-Boavista e vai com Pelegrí para a Vito-Feirense-BlackJack.

Veja aqui todos os resultados da Rádio Popular-Boavista em 2018 e das restantes equipas nacionais.

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24 de junho de 2018

José Santos tinha razão. "Não há anos iguais". Desta vez, Domingos fez mesmo a dobradinha

Há um ano, Domingos Gonçalves parecia estar a caminho de ficar com os dois títulos nacionais. Porém, uma queda na prova de fundo, em Gondomar, estragou-lhe os planos. 12 meses depois, o gémeo da Rádio Popular-Boavista voltou a ganhar no contra-relógio. O director da equipa. José Santos, disse então que "não há anos iguais", retirando também alguma pressão do seu ciclista, quando questionado sobre a hipótese de Domingos ir novamente atrás da dobradinha. Acabou por ter toda a razão! Em 2018, o ciclista de Barcelos ficou com as duas camisolas.

Chegou isolado à meta em Belmonte, palco destes Nacionais. Porém, atrás de si, Joni Brandão fez uma perseguição feroz. Depois de uma época de estreia no Sporting-Tavira marcada por problemas de saúde, que o afastaram da competição durante muitos meses, é o próprio que diz que está de regresso à luta pelas vitórias. Ainda assim, não hesitou: "O Domingos acabou por ser campeão e foi uma vitória justa."

"Quando o Domingos arrancou eu sabia que tinha de ir com ele. Eu tive um problema mecânico e são fracções de segundo que se perdem e assim, por vezes, se decide uma corrida. Não vale a pena estar a lamentar. São coisas que acontecem", disse ao Volta ao Ciclismo. A corrida foi muito movimentada logo desde os primeiros quilómetros. E foi também muito quente. O tórrido calor teve o seu papel num pelotão que rapidamente se fragmentou. Sem surpresa, mais de metade dos ciclistas abandonaram.

César Fonte (W52-FC Porto), Frederico Figueiredo (Sporting-Tavira) e Luís Fernandes (Aviludo-Louletano-Uli) estão na frente, entraram na frente na última volta. A 19 segundos estavam Tiago Machado (Katusha-Alpecin), Domingos Gonçalves (Rádio Popular-Boavista), Henrique Casimiro (Efapel), Luís Mendonça (Aviludo-Louletano-Uli) e Joni Brandão (Sporting-Tavira). A 27 aparecia João Matias (Vito-Feirense-BlackJack) e António Carvalho (W52-FC Porto). Tinham andado grande parte dos 181,8 quilómetros totais da corrida juntos, mas alguns ataques foram provocando as diferenças. Foi a pouco mais de dez quilómetros da meta que Domingos Gonçalves resolveu ir sozinho. Chegou o momento de fazer mais um contra-relógio e não se deixou apanhar.

"O segredo da vitória foi conseguir poupar-me, graças à ajuda do Luís Gomes, sempre a apoiar-me. À medida que o grupo foi diminuindo, percebi que podia ganhar, porque fiz um super-contra-relógio na sexta-feira, o que é um excelente indicador. À entrada para a última volta, estiquei para me aproximar dos ciclistas que iam fugidos. Com ajuda do Tiago Machado e do Henrique Casimiro consegui fazer a junção. Depois arranquei para tentar ganhar. Ser duplo campeão enche-me de orgulho", disse Domingos Gonçalves no final da corrida.

À sua espera estava uma claque muito efusiva, liderada pelos benjamins da equipa, Francisco Moreira e João Salgado, que festejaram efusivamente a conquista. A época está a ser fortíssima para o gémeo de Barcelos (o irmão José não terminou a prova). Venceu a Clássica da Primavera e soma vários lugares no top dez. Nos Nacionais apareceu determinado e foi uma vitória de força e muito querer. Com a Volta a Portugal a aproximar-se começa a ficar a dúvida se Domingos quererá juntar-se a João Benta e Daniel Silva por algo mais do que vitórias de etapa. Foi peremptório na resposta: "A Volta não é para mim. Vou pensar fazer uma coisa ou outra nuns dias, mas depois é para os meus colegas. Eles merecem."

A camisola de campeão regressa ao pelotão nacional, depois de ter andado a ser envergada por ciclistas que estão no estrangeiro. Brandão tinha sido o último em 2013. O campeão de 2017, Ruben Guerreiro (Trek-Segafredo), não chegou ao fim. Inicialmente foi avançada a versão de uma queda, mas o jovem ciclista teve afinal uma indisposição que o levou ao hospital. De referir ainda que só Nelson Oliveira tinha conseguido uma dobradinha, em 2014.

Quanto a Joni Brandão, o segundo lugar tem sempre aquele sabor amargo, mas não deixou de ficar contente com a sua exibição: "Sinto-me feliz por estar na discussão das corridas. É isto que faz parte de mim." Já fez pódio na Clássica Aldeias do Xisto, apareceu forte no Grande Prémio Jornal de Notícias. Agora vem aí a Volta a Portugal. "Acho que ainda tenho de trabalhar muito. Tive parado no ano passado e há muitas coisas que tenho de trabalhar. Não me sinto na forma que costumava estar nos outros anos, mas espero conseguir estar ao nível que já estive noutros tempos", explicou. Ser campeão nacional pela segunda vez era um objectivo e vai continuar a ser em 2019, mas para já, Joni Brandão estará concentrado em apurar a sua forma.

O mesmo está a acontecer com Henrique Casimiro, que ficou com a medalha de terceiro classificado. O líder da Efapel, a par de Sérgio Paulinho, também está em crescendo de forma. "É um percurso com uma parte final que me favorece, mas só esses dois/três quilómetros. Os Nacionais são muito tácticos. Nem sempre o mais forte ganha, mas hoje sim, o mais forte ganhou", disse.

Os Nacionais, que regressaram à tutela da Federação Portuguesa de Ciclismo, encerraram assim com três dobradinhas, com um pequena nuance. Domingos Gonçalves repetiu o feito de Daniela Reis nas senhoras, enquanto nos sub-23 os títulos ficaram em família, com Ivo como campeão de contra-relógio e o irmão gémeo, Rui, como campeão de estrada.

Julho será um mês com a segunda etapa da Taça de Portugal - a Volta a Albergaria, dia 1 - o Troféu Joaquim Agostinho (12 a 15 de Julho) e a estreia do Grande Prémio Nacional 2 (18 a 22 de Julho).

Resultados (181,8 quilómetros, a uma média de 41,957 quilómetros/hora):
1º Domingos Gonçalves (Rádio Popular-Boavista), 4:19:59 horas
2º Joni Brandão (Sporting-Tavira), a 30 segundos
3º Henrique Casimiro (Efapel), a 34
4º Tiago Machado (Katusha-Alpecin), a 40
5º César Fonte (W52-FC Porto), a 58
6º Frederico Figueiredo (Sporting-Tavira), a 1:02 minutos
7º Luís Fernandes (Aviludo-Louletano-Uli), a 1:33
8º Luís Mendonça (Aviludo-Louletano-Uli), a 1:42
9º João Matias (Vito-Feirense-BlackJack), a 5:29
10º Bruno Silva (Efapel), a 5:36
11º António Carvalho (W52-FC Porto), a 6:14
12º Gaspar Gonçalves (Liberty Seguros-Carglass), a 8:58
13º Joaquim Silva (Caja Rural), m.t.
14º João Rodrigues (W52-FC Porto), a 13:49
15º Márcio Barbosa (Aviludo-Louletano-Uli), m.t.
16º Edgar Pinto (Vito-Feirense-BlackJack), a 13:52
17º Daniel Silva (Rádio Popular-Boavista), a 14:21
18º Rui Rodrigues (Aviludo-Louletano-Uli), a 14:42
19º Paulo Silva (LA Alumínios), a 14:50
20º Nuno Meireles (Miranda-Mortágua), a 15:02
21º Patrick Videira (LA Alumínios), a 15:15
22º Júlio Gonçalves (LA Alumínios), a 15:22
23º Luís Gomes (Rádio Popular-Boavista), a 15:42
24º Rafael Reis (Caja Rural), a 16:13
25º Luís Afonso (Vito-Feirense-BlackJack), m.t.
26º César Martingil (Liberty Seguros-Carglass), a 16:14

Outros campeões:
Peter Sagan (Bora-Hansgrohe) - Eslováquia
Gorka Izagirre (Bahrain-Merida) - Espanha
Yves Lampaert (Quick-Step Floors) - Bélgica
Antoine Duchene (Groupama-FDJ) - Canadá
Merhawi Kudus (Dimension Data) - Eritreia

22 de junho de 2018

"Já digo há algum tempo que o Domingos é o melhor contra-relogista nacional"

Foi uma luta de irmãos. José Gonçalves já não está no pico de forma que o levou ao 14º lugar na Volta a Itália, mas nem por isso andou mais devagar em Belmonte. Tirou o melhor tempo ao colega da Katusha-Alpecin, Tiago Machado. Contudo, a liderança não durou muito tempo, pois apareceu um Domingos Gonçalves, determinado em manter uma camisola que vestiu no último ano. Foram 12 os segundos a separar os gémeos, num pódio que ficou em família.

Há um ano, Domingos tinha ganho um contra-relógio marcado pela não partida de Nelson Oliveira. O tetracampeão nacional não soube da mudança da hora em que deveria começar a sua prova. Domingos ganhou em Santa Maria da Feira e agora em Belmonte comprovou todas as suas qualidades nesta vertente. "Já digo há algum tempo que o Domingos é o melhor contra-relogista nacional. É a confirmação. Só é pena que não tenha estado aqui o Nelson. Teria sido mais contundente e afirmativo para nós", afirmou José Santos, ao Volta ao Ciclismo, que se referiu ao facto do ciclista da Movistar não ter competido na prova desta sexta-feira.

O director da Rádio Popular-Boavista está muito satisfeito por ver o seu ciclista corresponder ao apelo feito para esta temporada, para assumir mais as corridas: "Ele está a responder e os novos da equipa também, como o David Rodrigues e o Óscar Pelegrí. Agora o nosso objectivo é a Volta a Portugal." Rodrigues venceu a última etapa do Grande Prémio Abimota e o espanhol Pelegrí a geral. Domingos tem estado constantemente entre os primeiros e ganhou a Clássica da Primavera, em Março.

Um pódio de irmãos e amigos
Antes de se concentrar na Volta há ainda outro título para disputar no domingo. Domingos Gonçalves esteve perto da dobradinha em Gondomar, mas uma queda tirou-o da luta na prova de fundo. Já revalidou o título de contra-relógio. Será que vai tentar ficar com as duas camisolas de campeão nacional? "Não há anos iguais, mas sim, vai tentar novamente", disse José Santos.

Domingos sentou-se no trono, enquanto ao seu lado estava o irmão que poderá muito bem ter de lhe pagar um jantar! Mas nenhum deles quis entrar no discurso de uma luta de irmãos. "É meu irmão, mas em cima da bicicleta é um rival como os outros. Fora da bicicleta é mais um amigo, como outros que tenho no pelotão", afirmou. Sobre a prova explicou: "Dei o meu máximo, tentando gerir o esforço. Deu-me algum ânimo começar a ver o Rafael Reis na segunda subida do percurso, pois vi que estava a andar bem. Depois comecei a ver o Sérgio Paulinho ao longe. Na parte final, em paralelo, a roda da frente prendeu mais um bocadinho, quebrei aqui, mas os outros também. Consegui completar o meu objectivo: vencer o nacional."

José Santos está satisfeito com os resultados de Domingos Gonçalves
Domingos Gonçalves cumpriu os 33,7 quilómetros em 43:06 minutos, com uma média de 46,914 quilómetros/hora. José ficou então a 12 segundos, com Tiago Machado a fechar o pódio a 20 do agora bicampeão nacional. José Neves, que tem dois títulos na categoria de sub-23, estreou-se na elite com um quarto lugar, a 1:28. Outro ciclista da nova geração e campeão de sub-23 em 2016, Gaspar Gonçalves, foi sexto, a 3:11.

A desilusão acabou por ser Rafael Reis. O ciclista da Caja Rural está a realizar uma época abaixo das expectativas e da sua qualidade. Ele que é um especialista do contra-relógio, também com títulos em sub-23 e sabendo já o que é ficar em segundo na elite, desta feita ficou a uns longínquos 2:55 minutos.

Atribuídos os primeiros títulos em Belmonte - Daniela Reis foi campeã na elite feminina e Ivo Oliveira nos sub-23 masculinos - é tempo de partir para as provas de fundo.

Sábado é dia de corrida de fundo. Mais uma vez, as senhoras abrem as hostilidades às 11:00. Sendo em formato de circuito (21,4 quilómetros), que tem nos 1500 metros finais, em subida, o ponto nevrálgico, vai favorecer quem assistir ao vivo, pois assim poderá ver várias vezes as e os ciclistas. A elite fará cinco voltas, ou seja, 107 quilómetros, as juniores farão menos uma (85,6) e as cadetes ficarão pelas três (64,2).

Às 15:00 será dado o tiro de partida para a corrida dos sub-23 masculinos. Inicialmente o pelotão sairá de Belmonte e fará 76 quilómetros até entrar no circuito. Serão quatro passagens na meta, numa distância total de 160,4 quilómetros.

A elite masculina, inevitavelmente a corrida mais esperada, irá para a estada no domingo às 11:00. O esquema é o mesmo dos sub-23, mas o campeão só será definido na quinta passagem na meta, após 181,8 quilómetros.


Resultados:
1º Domingos Gonçalves (Rádio Popular-Boavista), 43:06 minutos
2º José Gonçalves (Katusha-Alpecin), a 12 segundos
3º Tiago Machado (Katusha-Alpecin), a 20
4º José Neves (W52-FC Porto), a 1:28 minutos
5º Rafael Reis (Caja Rural), a 2:55
6º Gaspar Gonçalves (Liberty Seguros-Carglass), a 3:11
7º João Rodrigues (W52-FC Porto), a 3:14
8º Daniel Silva (Rádio Popular-Boavista), a 3:16
9º Edgar Pinto (Vito-Feirense-BlackJack), a 3:25
10º João Benta (Rádio Popular-Boavista), a 3:29
11º António Barbio (Miranda-Mortágua), a 4:29
12º Sérgio Paulinho (Efapel), a 4:53
13º Pedro Paulinho (Efapel), a 9:31

Outros campeões:
Maciej Bodnar (Bora-Hansgrohe) - Polónia
Edvald Boasson Hagen (Dimension Data) - Noruega
Victor Campanaerts (Lotto Soudal) - Bélgica
Joey Rosskopf (BMC) - Estados Unidos
Svein Tuft (Mitchelton-Scott) - Canadá
Jonathan Castroviejo (Sky) - Espanha

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2 de fevereiro de 2018

"Acho que este ano poderemos estar mais fortes"

(Fotografia: Facebook Rádio Popular-Boavista)
A Rádio Popular-Boavista entra na sua fase pós-Rui Sousa. A ligação do antigo ciclista irá manter-se, como o próprio director desportivo José Santos admite, contudo, há que pensar nas armas que tem para 2018 e certo é que a equipa irá manter-se igual a si própria na forma de encarar as corridas. Terá João Benta como uma das figuras principais, um Filipe Cardoso como um dos mais populares corredores do pelotão, agora sem o amigo Rui ao seu lado, um Domingos Gonçalves de responsabilidade acrescida, um reforço que o director desportivo espera vir a ser importante nas principais provas e três jovens em teste, dois deles portugueses que deram o salto para o profissionalismo, directamente dos juniores. E há ainda um Egor Silin que não terá margem de manobra para falhar.

José Santos destacou ao Volta ao Ciclismo que vamos continuar a ter uma Rádio Popular-Boavista sempre a tentar mexer com as corridas. No entanto, há quem vá ver o nível de exigência subir. "Vamos apostar muito no Domingos Gonçalves. Acho que ele tem de assumir mais responsabilidade e acho que tem de ter mais cabeça e sangue frio para assumir a liderança da equipa em algumas corridas", afirmou. O gémeo - o irmão, José, está na Katusha-Alpecin - regressou à equipa em 2017, sagrou-se campeão nacional de contra-relógio, vencendo ainda o Troféu Concelhio de Oliveira de Azeméis e o Circuito de São Bernardo, em Alcobaça.

Em 2018, Domingos Gonçalves (28 anos) terá então de apresentar maior protagonismo, enquanto Egor Silin tem de mostrar mais resultados. O russo chegou já no decorrer da temporada passada, depois de ter ficado sem espaço numa Katusha-Alpecin que cortou os seus laços com as origens russas. "Este ano é um ano de afirmação para ele. Ou sim ou sopas, como costumamos dizer", realçou o responsável. "O Egor é um ciclista que não terá a priori o mesmo nível do Trofimov, mas é um ciclista importante dentro da equipa e do panorama do ciclismo internacional", acrescentou.

"[Trofimov] é um corredor de World Tour e para nós é importante ter ciclistas que tenham experiência, que tenham conhecimento, que sejam uma mais valia nacional, mas também internacional"

Yuri Trofimov será assim mais um russo na Rádio Popular-Boavista, ele que chegou a cruzar-se com Silin na Katusha. Aos 34 anos assume um novo projecto depois do World Tour lhe ter fechado as portas quando a Tinkoff acabou. Em 2017 assinou pela Caja Rural, mas problemas com o visto acabaram por ditar um ano quase de paragem. Aliás, desvinculou-se ainda Julho da equipa espanhola. Ainda assim, venceu uma corrida no seu país. "É um ciclista de prestígio internacional. Foi campeão do mundo [cross-country, sub-23] e teve lugares de destaque no Giro e no Tour. Quando surgiu foi apontado como o novo Lance Armstrong, quando ainda era novo. O ano passado foi de interregno, mas no anterior foi um homem de confiança de Contador. Portanto, é um corredor de World Tour e para nós é importante ter ciclistas que tenham experiência, que tenham conhecimento, que sejam uma mais valia nacional, mas também internacional", explicou.

Luís Gomes, David Rodrigues e, claro, Filipe Cardoso são todos ciclistas que José Santos sabe bem o que pode esperar deles. Já Óscar Pelegrí, é um jovem espanhol que irá estar em teste. "Nós todos os anos temos sempre dois/três jovens para vermos o seu potencial. Temos uma boa convivência com a Caja Rural e fazemos um pouco a ponte. Aqueles ciclistas que eles vêem ter alguma possibilidade de serem profissionais no futuro, que deixam boas indicações, ficamos sempre com um ou dois corredores deles. Ficámos com o Óscar (23) e éramos para ficar com outro, mas pelo caminho teve um problema", recordou José Santos, que se refere a Manuel Sola. Houve acordo entre as partes, mas entretanto foi conhecido um teste positivo por testosterona, que levou à suspensão do atleta e, naturalmente, o contrato não foi assinado com a equipa portuguesa.

Não houve Sola, mas houve espaço para que dois juniores portugueses dessem o passo directamente de juniores para o profissionalismo: Francisco Moreira e João Salgado, ambos da da ACR Roriz. Com a pretensão de formar uma equipa de sub-23 a esbarrar nos regulamentos, José Santos optou por aproveitar e dar uma oportunidade de ouro aos dois jovens. "Íamos fazer uma equipa de sub-23, mas houve demasiadas contrariedades pelo caminho. A federação criou-nos alguns problemas para que a equipa avançasse e que iria ter o Rui Sousa à frente.", referiu. "Ficámos ali a partir pedra durante um certo tempo e quando passámos para outro projecto, fazer uma equipa em Viana do Castelo, já fomos algo tarde, porque alguns dos ciclistas que eram para ficar nessa equipa saíram e nós ficámos com poucos para formar a estrutura de sub-23", referiu.

"Vamos ver se têm algum potencial [Francisco Moreira e João Salgado]. Antevemos que possam ter algum futuro. Vamos apostar neles"

Moreira e Salgado eram dois dos ciclistas que fariam parte dessa equipa de sub-23. "Atendendo ao figurino da construção das equipas Continentais em Portugal, podemos ter dois ou mais sub-23. Ficámos com estes dois. Vamos ver se têm algum potencial. Antevemos que possam ter algum futuro. Vamos apostar neles", garantiu. José Santos  frisou que uma Volta ao Algarve ou ao Alentejo não estão no horizonte mais próximo para Moreira e Salgado, mas outras corridas do calendário nacional, como as clássicas, ou o Grande Prémio Abimota, por exemplo, poderão ser hipótese. A Volta a Portugal também não está nos planos, mas tendo em conta que faltam tantos meses, nenhuma possibilidade é totalmente afastada, nesta fase precoce da temporada.

E até é possível que pelo menos um deles esteja à partida na Prova de Abertura Região de Aveiro, que se realiza este domingo entre Oliveira do Bairro e Torreira (155,5 quilómetros). João Benta sofreu uma queda no treino de quarta-feira e tem o pulso muito inchado. Ainda não está afastada a possibilidade de alguma fractura e a Volta ao Algarve poderá estar em risco se se confirmar a pior das hipóteses. Para já, Benta falhará o arranque de temporada este fim-de-semana, o que abre as porta aos jovens da equipa.

A Rádio Popular-Boavista volta a apostar num misto de veterania, experiência e juventude, com José Santos a mostrar-se confiante que Yuri Trofimov poderá ser um ciclista importante, além de João Benta e Domingos Gonçalves, sem nunca afastar os restantes corredores, todos com um perfil de lutadores. "Acho que este ano poderemos estar mais fortes", realçou o director desportivo, que agora sem Rui Sousa, inicia uma nova fase da equipa, pois como o próprio frisou, "é um ciclo". Além dos resultados desportivos, José Santos assegurou ainda que a equipa irá manter a proximidade com o público - algo que Rui Sousa era rei -, pois considera que essa ligação é também muito importante.

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20 de novembro de 2017

Objectivos cumpridos, expectativas confirmadas... Menos uma

José Santos apostou para 2017 em ciclistas com características de lutadores, de quem gosta de entrar em fugas, de mexer com a corrida. Proporcionou o regresso a Portugal de Domingos Gonçalves, numa aposta mais do que ganha. João Benta voltou a uma casa que bem conhecia e isso traduziu-se em resultados. Filipe Cardoso não resistiu ao convite de estar ao lado do amigo Rui Sousa, antes de este se despedir. Além de quatro ciclistas espanhóis, a maior surpresa chegou já com a temporada a decorrer: Egor Silin. O corredor ficou sem espaço na Katusha após a reformulação do modelo da equipa, que passou a ser suíça e mais internacional a nível de ciclistas, ou seja, reduzindo drasticamente o contingente russo.

Ver uma camisola da Rádio Popular-Boavista na frente da corrida foi algo que se repetiu durante o ano. A equipa tinha ciclistas para os mais diversos percursos que foram surgindo, mas a vitória demorou a chegar. David Rodrigues abriu a contagem no Grande Prémio de Mortágua, com Domingos Gonçalves a quase proporcionar o fim-de-semana perfeito nos Nacionais. Pouco depois de ver o irmão gémeo, José, ganhar a sua primeira corrida - o Ster ZLM - ao serviço de uma equipa do World Tour, a Katusha-Alpecin, Domingos sagrou-se campeão nacional de contra-relógio e estava bem encaminhado para vestir a mesma camisola, mas na prova em linha. Uma queda estragou-lhe os planos.


Ranking nacional: 5º (1425 pontos)
Vitórias: 7 (incluindo o título nacional de contra-relógio e uma etapa na Volta a Portugal)
Ciclista com mais triunfos: Domingos Gonçalves (3)

Antes da Volta a Portugal, João Benta venceu uma etapa no Troféu Joaquim Agostinho, até que chegou a corrida mais esperada, até porque seria a última Grandíssima para Rui Sousa. A Rádio Popular-Boavista queria ver o seu líder e um dos ciclistas mais admirado e respeitado do pelotão nacional sair em grande, mas ganhar uma etapa na Volta a Portugal era o principal objectivo, fosse com quem fosse. Domingos Gonçalves esteve perto de conquistar a camisola amarela no prólogo, mas acabaria mesmo por ser Rui Sousa a ter o seu final de conto de fadas. Ou o mais próximo disso. Não ganhou a Volta, nem, foi ao pódio mas ganhou uma última tirada. Em Fafe houve festa e lágrimas. Sem este momento a época da equipa teria ficado com um vazio. Rui Sousa teve a despedida merecida.

Domingos Gonçalves ainda apareceu no final de temporada para ganhar o Troféu Concelhio de Oliveira de Azeméis e o Circuito de São Bernardo, em Alcobaça, enquanto Luís Gomes venceu o Circuito de Nafarros.

A equipa da Rádio Popular-Boavista cumpriu com os objectivos de temporada, pois há ainda que não esquecer que João Benta fechou top dez (sétimo) na Volta a Portugal. Esperava-se um pouco mais de Egor Silin, mas talvez também seja por as expectativas serem tão altas tendo em conta os sete anos de experiência do World Tour. Ainda se mostrou na Volta a Portugal, mas soube a pouco. Vamos ver o russo novamente ao serviço de José Santos em 2018. É um ciclista de qualidade e o director desportivo espera certamente tirar um maior rendimento de Silin, agora já completamente adaptado à realidade portuguesa. A sua importância será ainda maior numa altura em que se inicia um novo ciclo na estrutura: a vida pós-Rui Sousa.

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10 de agosto de 2017

Em dia de muito espectáculo venceu o ciclista que tanto gosta de os dar

(Fotografia: Podium/Volta a Portugal)
"Vai Rui! Vai!" Na berma da estrada era audível o apoio a Rui Sousa. Se há ciclista rapidamente reconhecido na Volta a Portugal é este veterano que habituou os portugueses a um ciclismo de ataque, a um ciclismo de espectáculo. É certo que foram muitas as vezes que os ataques não deram em nada. Mas de quando em vez resultam mesmo! Em Fafe o risco compensou. Mais do que risco foi a vontade enorme de vencer num ano em que termina uma carreira de 20 anos.

Em momentos como este a emoção do que o ciclista sabe ser o momento que tanto deseja supera a dor de pernas, supera tudo. A Senhora da Graça tirou-lhe o sonho da geral, mas Fafe deu-lhe a alegria de uma vitória celebrada por todos, até pelos rivais. Talvez ninguém seja mais respeitado que Rui Sousa no pelotão nacional e vê-lo vencer nesta recta final da carreira dá um brilho diferente à Volta a Portugal.

Rui Sousa não conteve as lágrimas após a vitória
(Fotografia: Podium/Volta a Portugal)
Vicente García de Mateos (Louletano-Hospital de Loulé), Raúl Alarcón (W52-FC Porto e líder da corrida) e Henrique Casimiro (Efapel) foram os primeiros a felicitar Rui Sousa, enquanto João Benta largava a bicicleta para se agarrar ao colega de equipa. Sousa não segurou as lágrimas e o director desportivo, José Santos, também não. Depois de tanto sofrer naqueles quilómetros finais em que o grupo de perseguidores ameaçou aproximar-se, Sousa deu tudo o que tinha e mais um pouco. Objectivo cumprido. Agora Sousa pode despedir-se sabendo que sai em grande.

Esta sexta-feira, dia de descanso da Volta a Portugal, o ciclista da Rádio Popular-Boavista irá dar uma conferência de imprensa na qual deverá confirmar um adeus anunciado já no ano passado e confirmado durante 2017. Os colegas bem querem que ele continue. Será que os apelos voltaram a surtir efeito? 2016 era suposto ter sido o último da carreira, mas depois mudou de ideias perante tantos pedidos da equipa e dos adeptos.

Seja qual for a decisão de Rui Sousa, numa Volta a Portugal em que tanto se fala do domínio da W52-FC Porto, o veterano deu outra cor à corrida. Será um dia recordado por muito tempo e não é só por causa de Sousa. A etapa foi um grande espectáculo de ciclismo. Aquela subida do Viso partiu o pelotão, mas antes os ataques já tinham começado (Rui Sousa esteve na fuga antes de ser alcançado pelo grupo do camisola amarela).

Enquanto Sousa lutava por um momento de glória, Alejandro Marque lutava para continuar como candidato à geral. O espanhol não resistiu ao ritmo da equipa de Raúl Alarcón e quando tentou reentrar foi o próprio camisola amarela que acelerou para garantir que um bom contra-relogista como o homem do Sporting-Tavira ficava de fora. Missão cumprida, Marque está agora a 1:56 minutos. Mas a equipa algarvia ainda tem um Rinaldo Nocentini em grande forma e agora o líder assumido da formação de Vidal Fitas.

Também Vicente García de Mateos esteve novamente em bom nível, repetindo o segundo lugar na etapa, como fez em Viana do Castelo. Já Sérgio Paulinho não deixou as melhores das indicações. Descolou no Viso, tal como Henrique Casimiro. Os dois e Bruno Silva fizeram um autêntico contra-relógio por equipas para se juntar à frente da corrida. Conseguiram, mas na segunda montanha de primeira categoria da corrida, Paulinho cedeu outra vez.

Esta sexta-feira é dia de descanso, antes de se arrancar para os quatro dias de decisão de uma Volta dominada pela W52-FC Porto, mas que ainda não está resolvida devido às curtas diferenças que deixam tudo em aberto tendo em conta que tudo termina com um contra-relógio, em Viseu.

Veja aqui as classificações.

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23 de junho de 2017

"Vou dizer ao Zé: 'Consegui ganhar o contra-relógio como tu'"

(Fotografia: João Fonseca)
Domingos Gonçalves era só sorrisos (não parece na fotografia, mas é verdade) e tinha razões para isso. É o novo campeão nacional de contra-relógio. É o primeiro a dizer que a ausência de Nelson Oliveira não lhe tirou o mérito, tal como é o primeiro a dizer que não tem mais vitórias este ano por culpa própria. Domingos foi a fundo e na segunda passagem pela meta tinha cerca de 20 segundos de vantagem para Rafael Reis. Perdeu um pouco, mas aguentou e por cinco conquistou uma vitória que não tem dúvidas ser muito importante para a sua carreira.

Antes da corrida Domingos Gonçalves foi reconhecer o percurso e fê-lo minuciosamente. Falava de algumas curvas mais apertadas e da gravilha que poderia causar problemas se não tivesse cuidado. Estava focado, mas ao mesmo tempo claramente tranquilo. "Já conhecia este percurso desde 2009 ou 2010 quando estive aqui com a Liberty Seguros. Hoje foi um dia que me correu bem. Fui a fundo", contou ao Volta ao Ciclismo.

Domingos aborda de imediato, sem que seja necessário perguntar-lhe, o insólito caso de Nelson Oliveira, que não competiu depois de ter falhado a partida - não sabia que a hora tinha sido alterada: "Houve uma ausência, mas isso não vai contar. Quem está é que conta. Não me tira o mérito."

Começa a ganhar em 2017 quase ao mesmo tempo que o irmão José Gonçalves (Katusha-Alpecin), que no domingo passado conquistou a Ster ZLM, na Holanda. "Estou orgulhoso dele, mas agora vou dizer ao Zé: 'Consegui ganhar o contra-relógio como tu'", afirmou (José Gonçalves foi campeão em 2012, também ao serviço do Boavista). Naturalmente que a boa disposição predominava, mas Domingos assumiu um tom mais sério ao falar da responsabilidade que a camisola de campeão nacional de contra-relógio traz: "Agora não posso facilitar. É uma camisola que pesa. Tenho de me aplicar mais."

O ciclista tem feito uma boa temporada, mas faltava-lhe uma vitória. "Não tinha conseguido vencer porque corri muito à toa. Devia ir na roda e gastar no momento certo. Mas não faço isso. Gasto tudo e quando é mesmo para gastar, já não tenho nada para o fazer. É asneira. Devia ter mais calma", salientou. Referiu que sempre foi assim, mas está a tentar "ter mais calma". Apesar de no domingo ter a prova em linha dos Nacionais, na qual irá tentar a dobradinha ou ajudar um companheiro se não conseguir estar na luta, Domingos Gonçalves já vai pensando na Volta a Portugal. "Este ano vou mais tranquilo. Nos outros anos aplico-me muito e chego à Volta e não faço nada. Este ano vou fazer um treino mais tranquilo e estar melhor no final da Volta", realçou. Mas não se duvide: tranquilo não significa que não irá atacar para ganhar uma etapa.

"Já lhe disse que é o melhor ciclista português a correr em Portugal"

A frase é de José Santos, director desportivo da Rádio Popular-Boavista. O triunfo de Domingos Gonçalves, uma das sonantes contratações da equipa para 2017, "é muito importante para uma equipa de clube porque são provas que ficam no historial".

O responsável elogia o seu ciclista, mas também fala da forma de correr nem sempre produtiva de Domingos. "É impulsivo, não é sagaz para usar a sua capacidade nos momentos chaves da corrida, senão já teria ganho mais vezes. Está a fazer uma época muito boa, mas falta-lhe aquele discernimento. O valor dele e do irmão gémeo não difere muito. Um ano um está melhor, noutro está o outro. O Domingos está em Portugal, mas são dois ciclistas de referência internacional", frisou ao Volta ao Ciclismo.

Para a corrida em linha José Santos não quer fazer prognósticos, pois disse que se no contra-relógio sabia que poderia ter um ciclista nos três primeiros, já na corrida de domingo há demasiados factores a ter em conta e que podem mexer com o resultado final: "É uma lotaria, mas vamos estar na luta."

Confira aqui o resultado do contra-relógio de elite, que teve ainda no pódio Sérgio Paulinho (Efapel), que cumpriu os 33,9 quilómetros em Santa Maria da Feira com mais 20 segundos do que o vencedor. Domingos Gonçalves fez a distância em 42:19 minutos.

Esta sexta-feira realizou-se ainda o contra-relógio de sub-23. José Neves (Liberty Seguros/Carglass), sagra-se pela segunda vez campeão nacional da categoria, depois de o ter feito em 2015. O ciclista cumpriu os 22,6 quilómetros em 28,01 minutos. O colega de equipa, e que defendia o título, Gaspar Gonçalves ficou em segundo a 15 segundos. João Almeida (Unieuro Trevigiani-Hemus 1896) fechou o pódio com mais 59 segundos.

Este domingo, às 15 horas arranca a prova de estrada dos sub-23 destes Nacionais, agora em Gondomar. No domingo será a vez da elite (11:30).

Outros campeões nacionais de contra-relógio na Europa:

  • Holanda: Tom Dumoulin (Sunweb)
  • Espanha: Jonathan Castroviejo (Movistar)
  • Alemanha: Tony Martin (Katusha-Alpecin)
  • Itália: Gianni Moscon (Sky)
  • Rússia: Ilnur Zakarin (Rússia)
  • Polónia: Michal Kwiatkowski (Sky)
  • França: Pierre Latour (FDJ)
  • República Checa: Jan Bárta (Bora-Hansgrohe)
  • Letónia: Aleksejs Saramotins (Bora-Hansgrohe)
  • Suécia: Tobias Ludvigsson (FDJ)
  • Noruega: Edvald Boasson Hagen (Dimension Data)
  • Suíça: Stefan Küng (BMC)
  • Bélgica: Yves Lampaert (Quick-Step Floors)
  • Grã-Bretanha: Stephen Cummings (Dimension Data)
  • Luxemburgo: Jean-Pierre Drucker (BMC)
  • Áustria: Georg Preidler (Sunweb)
  • Lituânia: Ignatas Konovalovas (FDJ)

14 de fevereiro de 2017

Volta ao Algarve entre o brilho do World Tour e a ambição das equipas nacionais

(Fotografia: Facebook Volta ao Algarve)
Aos 43 anos de história a Volta ao Algarve atinge o seu ponto áureo. Ou não? Poderá esta competição dar mais um passo e chegar ao World Tour? Valerá a pena fazê-lo ou ser uma corrida 2.HC (o segundo escalão mais importante) é o equilíbrio perfeito entre ter algumas das melhores equipas mundiais e manter a porta aberta para as portuguesas, todas do escalão Continental?

A Volta ao Algarve mexe com sentimentos diferentes comparativamente com a Volta a Portugal. A nossa "grandíssima" continua a ser a corrida do povo, aquela onde se cumprem tradições quase religiosamente. E isso é positivo. Apesar de se gostar que pudesse regressar a tempos em que atraiu outro tipo de equipas, para já, agarramos esta tradição para manter a Volta a Portugal viva. Na Volta ao Algarve é tudo diferente. Nesta corrida vê-se mais aquele adepto do ciclismo, aquele que conhece praticamente todo o pelotão internacional e que procura as grandes estrelas tratando-as pelo nome sem hesitação ou necessidade de perguntar a alguém. São adeptos de todas as idades. Não significa que não gostem ou não sigam o ciclismo português. Mas enquanto na Volta a Portugal ainda se mantém aquela tradição muito em família de ir ver o pelotão passar, na Volta ao Algarve é tudo (ou quase) pelo autógrafo, pela fotografia, por um momento com uma grande estrela, que de outra forma dificilmente se verá in loco.

Onde encaixam as equipas portuguesas? Américo Silva considera que é a oportunidade dos ciclistas terem "um contacto internacional dentro de portas", mas José Santos considera que "o pelotão é tão forte, que não há hipótese", não vendo grandes benefícios para as formações nacionais. O director desportivo da Efapel e da Rádio Popular-Boavista têm duas visões bem diferentes desta internacionalização da Volta ao Algarve.

"É um nível competitivo completamente diferente, mas também necessitamos disso. Independentemente de estarmos a falar de patamar diferentes, é bom que os objectivos sejam por vezes altos para termos a noção da dificuldade que é para chegar às vitórias e assim querermos mais e trabalharmos mais. Se os objectivos se tornarem fáceis, as coisas tornam-se demasiado monótonas", explicou Américo Silva ao Volta ao Ciclismo.

Já José Santos faz uma comparação futebolística: "É como fazermos um torneio de futebol e incluir o Real Madrid, o Barcelona, o FC Porto e o Benfica e colocarmos lá uma equipa da terceira divisão!" O mais antigo director desportivo do pelotão nacional destaca ainda que "não é normal que um país tenha o seu pico de actividade em Fevereiro. É o mês mais competitivo em Portugal". José Santos refere-se ao facto da época por cá começar neste mês e que além da Prova de Abertura e da Volta ao Algarve, seguir-se logo a Volta ao Alentejo, a outra competição mais importante do calendário, a seguir à Algarvia e à Volta ao Portugal. E este ano a Taça do Alpendre foi cancelada, ou talvez adiada, já que está em aberto a possibilidade de se realizar noutra altura do ano.

Salienta ainda que tem dúvidas que valha a pena fazer uma preparação específica para a Volta ao Algarve, tendo em conta que não há previsão de alcançar um resultado de nota, ainda que diga que "no ciclismo não há nada que não possa acontecer".

E Amaro Antunes é a prova disso. Terminou na 10ª posição em 2016, então ao serviço da LA Alumínios-Antarte. Américo Silva recorda isso mesmo e realça também que a Efapel conseguiu ficar nos 15 primeiros colectivamente, algo que diz ter sido "muito positivo" tendo em conta a forte concorrência que enfrentou.

O responsável da Efapel refere ainda a transmissão televisiva que este ano está garantida no Eurosport e na TVI24. Ou seja, uma exposição mediática sempre desejada. No entanto, José Santos considera que na Volta ao Algarve só se fala das grandes equipas, "o que é normal". Mais uma vez fala em benefícios, realçando que vão todos para as equipas do World Tour: "Nos seus países de origem não podem treinar. Vêm para o sul de Espanha e para Portugal porque o clima é bom. Na Europa não há muitas provas nesta altura. Há fora da Europa. Se colocássemos a Volta ao Algarve em Maio não viria nenhuma dessas equipas."

Mesmo a possibilidade de jovens ciclistas terem contacto com o pelotão internacional, José Santos afirma ser preferível esse contacto ser feito em corridas como a Route du Sud. "O pelotão não é tão grande e estão lá algumas dessas equipas, mas o ambiente, organização e as pessoas são diferentes", diz.

Enquanto José Santos assume um tom mais crítico, Américo Silva considera que a Volta ao Algarve está no ponto certo. Crescer mais poderá trazer mais desvantagem às equipas portuguesas: "Crescer mais depois de terem cá estado Richie Porte, Marcel Kittel, Alberto Contador? Mais que isso não se pode pedir."

A subida para a segunda categoria da UCI e a transmissão televisiva são duas grandes vitórias para a Federação Portuguesa de Ciclismo. Se as equipas do World Tour já vinham marcando presença na Algarvia, a transmissão televisiva, por exemplo, poderá aumentar a atracção, pois a partir de agora a exposição mediática é outra e principalmente é aquela que as grandes equipas querem: mostrar os seus patrocinadores ao maior número de público, algo que o Eurosport traz garantias.

A organização da Volta ao Algarve terá agora o objectivo de consolidar esta posição da corrida no calendário internacional. Uma subida à categoria World Tour poderá ser uma tentação, mas exemplos recentes demonstram que, para já, a Algarvia estará na posição ideal.

Recentemente organizações de corridas que subiram ao World Tour manifestaram a preocupação que os custos (que podem chegar a triplicar) não compensem os eventuais benefícios, que até podem não ser muitos devido à regra que as equipas do principal escalão podem escolher se querem ou não estar presentes nas novas corridas. A Volta à Turquia, por exemplo, só tem uma garantida e dificilmente terá as dez que está obrigada para se manter na categoria.

Depois há outra situação que envolve a Volta à Califórnia. Com a subida à categoria World Tour e tendo em conta que já era uma corrida popular entre as grandes equipas, as formações Continentais dos EUA estão a ver a porta fechar-se para a principal competição no país, situação que está a gerar muitas críticas, mas que pouco haverá a fazer. A Volta à Califórnia sobe de categoria, mas deixa de receber muitas das equipas nacionais.

Demorou e foi necessário muito trabalho para dar a importância que hoje a Volta ao Algarve tem actualmente. Além das equipas do World Tour - que este ano serão 12 das 25 presentes (o máximo permitido) -, também atrai nomes importantes do escalão Profissional Continental. Caso da Caja Rural que muito gosta de marcar presença em Portugal. O director desportivo Eugenio Goikoetxea considera que a Algarvia "é uma prova muito importante e com boas equipas, equipas do World Tour". Mais habituado a lidar com formações deste nível, o responsável da formação espanhola diz que será difícil conseguir um grande resultado devido "à tanta qualidade que está na prova". Mas irá, naturalmente, tentar.

Até onde poderá chegar a Volta ao Algarve? O tempo o dirá, mas ao olhar para o pelotão que estará presente, o melhor é aproveitar o presente. John Degenkolb, Mark Cavendish, André Greipel, Tony Martin, Sep Vanmarcke...  E esta quarta-feira, Albufeira recebe a grande partida (12:30), com a primeira etapa a terminar em Lagos, com chegada ao sprint a ser a mais provável (cerca das 16:50).


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