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19 de dezembro de 2019

Sobreviver em 2019, crescer em 2020

(Fotografia: © Podium/Paulo Maria)
Com a perda dos dois principais patrocinadores, um dos quais já numa fase tardia de 2018, a então Liberty Seguros-Carglass entrou em modo de sobrevivência para continuar com o projecto na estrada. Chegaram a UD Oliveirense e a InOutBuild que ajudaram a assegurar a continuidade da equipa, ainda que a aposta se tenha centrado quase por completo em ter ciclistas muito jovens, sem contratar inicialmente um de maior experiência. Mesmo com muitas limitações financeiras, Manuel Correia e Luís Pinheiro garantiram um grupo de ciclistas lutador, com talento e ambição.

Apesar de prosseguir como Continental, a equipa tem mantido a sua forte ligação às origens de uma das estruturas mais importantes de formação em Portugal. Contudo, para 2020, os responsáveis vão conseguir o que desejavam: aliar essa juventude a ciclistas mais experientes, que possam permitir à equipa ser ainda mais competitiva.

Desses jovens destacaram-se esta época Fábio Costa e Rafael Lourenço. Dois ciclistas rápidos, combativos e que deram as duas vitórias da equipa em 2019. Fábio conquistou a Taça de Portugal de sub-23 e Rafael foi o mais forte na segunda etapa da Volta a Portugal do Futuro. A equipa somou ainda várias classificações da juventude, Fábio Costa foi medalha de prata nos Nacionais de Melgaço, enquanto Guilherme Mota ficou com o bronze no contra-relógio, ambos no escalão de sub-23.

A UD Oliveirense-InOutBuild não conseguiu repetir a vitória na geral da Volta a Portugal do Futuro, mas terminou 2019 com a sensação de dever cumprido e com a pequena frustração de uma queda de Rafael Lourenço, que o tirou da discussão de uma etapa na Volta a Portugal. Que momento teria sido! Por esta altura, a equipa já se tinha reforçado com Josu Zabala (chegou em Março oriundo da Caja Rural) e com o colombiano Juan Filipe Osório (ex-Manzana Postobón), que assinou em Junho. Ciclistas que deram mais opções e um pouco mais de experiência. Guilherme Mota foi uma contratação de Maio, quando decidiu regressar a Portugal para melhor conciliar a vida académica com a de ciclista. Estava na Caja Rural de sub-23.

Este último vai continuar em 2020, assim como Pedro Lopes e Pedro Miguel Lopes (outros dois corredores muito importantes, regulares e com uma evolução interessante, com o primeiro a começar aos poucos a mostrar-se em terrenos mais difíceis), José Sousa, o benjamim da Volta ao Algarve Hélder Gonçalves (aos 18 anos foi chamado e não se intimidou por estar ao lado de alguns dos melhores do mundo) e também Venceslau Fernandes, que vai tentando agora afirmar-se entre a elite.

Há que não esquecer João Carneiro. Fez um bom primeiro ano como sub-23 em 2018, mas um problema de saúde afastou-o da competição praticamente toda a temporada. Com o futuro ainda incerto, a equipa espera poder contar com o corredor em 2020 e este quer regressar mais forte.

Os responsáveis da estrutura procuravam mais um patrocinador que permitisse contratar ciclistas com mais experiência e com outros argumentos. A Kelly Services, empresa de Gestão de Recursos Humanos, reforçou o orçamento e em 2020 o nome desta formação passará a ser Kelly-InOutBuild-UD Oliveirense (imagem da nova camisola do lado direito). E terá no seu plantel um dos melhores trepadores do pelotão nacional, Henrique Casimiro (Efapel) e Luís Gomes (Rádio Popular-Boavista), vencedor de uma etapa na Volta a Portugal na Serra do Larouco e um filho da casa, pois esteve na equipa em 2015 e 2016.

Com estes dois ciclistas, de 33 e 25 anos respectivamente, a Kelly-InOutBuild-UD Oliveirense ganha perspectivas diferentes. Ou pelo menos amplia-as, logo a começar com a Volta a Portugal, mas não só. Principalmente Casimiro procurará ter uma maior liberdade que escasseava e iria escassear ainda mais se tivesse permanecido na Efapel. O vencedor da última edição do Troféu Joaquim Agostinho será um líder indiscutível, com Luís Gomes a poder tanto ajudar o seu novo companheiro, como a ser mais um carta a jogar quando a opção for estar ao ataque.

Ambos serão uma influência essencial nos jovens que vão continuar a ser uma forte aposta. Porém, haverá um ciclista que irá receber certamente atenção, a começar pelo apelido que tem. Não será apenas Venceslau Fernandes a ter um nome que marca o ciclismo nacional. Vai chegar um corredor com o apelido de um ciclista que fez história ao vestir a camisola rosa do Giro e a amarela do Tour. Tiago da Silva é sobrinho de Acácio da Silva e corria no Luxemburgo (a sua nacionalidade), na formação orientada pelo pai (Francisco da Silva), a Differdange-GeBa.

Para fechar as contratações, uma promoção de júnior a sub-23. André Domingues vai ter a oportunidade de continuar a sua evolução na Kelly-OutInBuild-UD Oliveirense. Estava na Escola de Ciclismo Bruno Neves e foi o vencedor da Volta a Portugal do seu escalão.

Equipa para 2020: Hélder Gonçalves, Pedro Lopes, Fábio Costa, Venceslau Fernandes, Rafael Lourenço, José Sousa, Pedro Miguel Lopes, Guilherme Mota, João Torres, Henrique Casimiro (Efapel), Luís Gomes (Rádio Popular-Boavista), Tiago da Silva (Team Differdange-GeBa), André Domingues (Escola de Ciclismo Bruno Neves).

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7 de dezembro de 2018

"Eles [tio e pai] sabem muito de ciclismo e eu aprendi muito com ambos"

(Fotografia: © João Calado/Federação Portuguesa de Ciclismo)
O apelido não passa despercebido e não é coincidência. Tiago da Silva é sobrinho de Acácio da Silva, uma das principais figuras do ciclismo português, que vestiu a camisola amarela no Tour, a rosa no Giro, vencendo ainda etapas. Tiago é um ciclista diferente do tio, descrevendo-se como sprinter e puncheur, garantindo que passa bem alguma montanha, mais pequena. Não esconde o orgulho que tem tanto do seu tio, como também do pai, Francisco, que é o director desportivo da equipa luxemburguesa Differdange-Losch, que Tiago representa há três temporadas. Aos 21 anos, está a relançar a sua carreira depois de uma operação a uma veia pulmonar. Viajou até Portugal para preparar a nova época, estando a competir no Troféu Internacional Município de Anadia, que decorre no Velódromo Nacional até domingo.

A cirurgia foi em Agosto de 2017 e as semanas que se seguiram foram difíceis. Quando regressou às corridas, enfrentou dificuldades para recuperar o ritmo necessário para a alta competição. "Não foi fácil... Mas tinha a motivação de estar a correr no nível Continental. As primeiras três corridas [já em 2018] foram muito complicadas, mas depois comecei a apanhar o ritmo e, nas últimas, andei melhor", contou ao Volta ao Ciclismo. Está completamente recuperado e já só pensa em discutir os sprints, uma vez que será uma das apostas neste tipo de chegadas da Differdange-Losch na próxima temporada.

Nasceu no Luxemburgo, mas tem dupla nacionalidade. Será que uma chamada à Selecção Nacional seria algo a ponderar? "É uma boa pergunta! Estou muito feliz na equipa nacional luxemburguesa. Não há muitos corredores, mas somos uma família. Quando venho aqui também vejo que são como uma família e isso abre-me o coração. Não fecho a porta. São muito simpáticos... Porque não!"

A ligação a Portugal é naturalmente forte, mas é no Luxemburgo que está a sua vida. Bob Jungels (Quick-Step Floors) é actualmente a grande figura do país no ciclismo, mas os irmãos Schleck marcaram uma era. Tiago da Silva explicou que existem bons jovens talentos, já com resultados interessantes em sub-23, que poderão seguir os exemplos das recentes referências luxemburguesas. No entanto, estamos a falar de uma realidade complicada, com apenas duas equipas Continentais no país. Por outro lado, a geografia favorece e muito o desenvolvimento dos atletas.


"De facto nasci no ciclismo! Mas quando era mais novo corri muito e experimentei o taekwondo e o karate, mas não deu em nada"

Estando no centro da Europa, as equipas facilmente se deslocam a outros países para competir, tendo assim acesso a corridas com pelotões fortes na Bélgica, Holanda, Itália e França, por exemplo. "Temos muitas possibilidades [de escolha de provas] e isso ajuda-nos a progredir como ciclistas", salientou.

Differdange-Losch esteve na Volta a Portugal, mas Tiago da Silva ficou de fora das escolhas devido a ainda a estar à procura de melhorar forma após a operação. E numa corrida com uma exigência elevada, ficou adiada a presença de Tiago na Grandíssima. "Gostava de a fazer. É uma prova bem dura, mas também há umas etapas para os sprinters em que me posso mostrar", afirmou. Agora é esperar para saber se a equipa regressará à Volta em 2019, num ano em que será mais pequena, passando de 16 para 12 corredores. Para o ciclista, o importante é que todos trabalhem bem juntos, para alcançarem bons resultados.

Bem diferente nas características como atleta do tio Acácio da Silva, para Tiago, tornar-se ciclista foi algo completamente natural, ainda que tivesse passado por outros desportos. "De facto nasci no ciclismo! Mas quando era mais novo corri muito e experimentei o taekwondo e o karate, mas não deu em nada. O ciclismo é uma paixão e há-de ser sempre", realçou.

Tiago com o pai e director desportivo da sua equipa, Francisco da Silva
Nem o tio, nem o pai o acompanham em pedaladas. "Gostam mais de ver", disse, esboçando um grande sorriso. Porém, se Francisco além de pai, mas também como director desportivo, está sempre presente no momento de dar conselhos, Tiago contou que mantém-se em contacto com Acácio da Silva.

As conversas também passam por histórias do passado e comparações com a realidade do ciclismo actual. Tiago recordou como o tio lhe conta como competiu no meio de neve no Giro de Itália, em disputas intensas com outros ciclistas, por exemplo. Essas histórias também o inspiraram a querer tornar-se profissional e ambicionar chegar ao World Tour. "Eles [tio e pai] sabem muito de ciclismo e eu aprendi muito com ambos."

O Luxemburgo tem um terreno muito propício para treino de sprinter, com algumas subidas para treinar. Porém, quando se fala de alta montanha, então a conversa muda para Portugal. Nunca subiu uma Serra da Estrela ou Senhora da Graça, duas das etapas míticas da Volta. Mas já se aventurou noutra serra. "Nunca fiz essas [da Volta], mas temos uma casa mesmo ao pé da Serra do Larouco e já lá fiz uns treinos. Ajuda", admitiu. O terreno, a meteorologia e aproveitar para estar com a família que está cá, são razões que fazem Tiago gostar de vir a Portugal, até porque, como disse, "agora os voos são baratos"!

Tiago da Silva segue assim uma tradição de família no ciclismo, com um apelido de peso de uma figura que marcou profundamente a história da modalidade em Portugal. Na última Volta a Portugal, Acácio da Silva esteve em Montalegre, a sua terra, para apresentar um livro sobre a sua vida: "Acácio da Silva – A carreira excepcional de um ciclista cosmopolita”. Henri Bressler e Rosa Carvalhal são os autores da obra escrita em português e francês.