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18 de abril de 2021

Pidcock afirma-se ao lado de um Van Aert a vencer por milímetros

© Amstel Gold Race
Esta semana pode dizer-se que ficou completo o trio do ciclocrosse que chegou para conquistar a estrada. Wout van Aert e Mathieu van der Poel em pouco tempo tornaram-se grandes figuras do ciclismo mundial. Thomas Pidcock estreou-se este ano ao mais alto nível, depois de já ter feito algumas corridas com a extinta Team Wiggins, e após algumas boas exibições, incluindo um pódio na Kuurne-Bruxelles-Kuurne, na quarta-feira bateu Van Aert De Brabantse Pijl-La Flèche Brabançonne e este domingo ficou a milímetros de repetir o feito na Amstel Gold Race.

Nos últimos dias Mark Cavendish (Deceuninck-QuickStep) até foi notícia por ter regressado às vitórias quase três anos depois e logo com quatro etapas na Volta à Turquia. Porém, é na nova geração que está o foco na Grã-Bretanha, com os resultados de Pidcock a animarem os adeptos daquele país. Tal como já havia acontecido com Van Aert e Van der Poel, Pidcock há muito que ganhou destaque, com as suas performances no ciclocrosse. Nos escalões jovens somou vitórias e ficou conhecido por celebrar ao estilo Super-Homem.

Outro ponto idêntico com os rivais foi a forma como encarou a passagem para a estrada. Era inevitável, mas não teve pressa, pois sempre sublinhou o quanto queria fazer o que mais gostava. E apesar de ter assinado pela toda poderosa Ineos Grenadiers, esta forma de estar não mudou e Pidcock, depois do ciclocrosse e desta auspiciosa estreia na estrada, irá ter o seu momento no BTT.

Aos 21 anos, teve o condão de definitivamente levar a Ineos Grenadiers a apostar ainda mais nas clássicas, principalmente nas do pavé, mas também mostra como podem contar com ele em corridas como a Amstel e vai à Flèche Wallonne experimentar o Muro de Huy. Por pouco, não ganhou a prova de abertura, por assim dizer, da semana das Ardenas, mas a sua exibição já eleva as expectativas para o que possa vir nas próximas temporadas, quando evoluir.

É o primeiro a admitir o quanto está a aprender a cada corrida que passa. Por exemplo, nesta Amstel, salientou como tentar seguir Primoz Roglic, quando o esloveno impôs ritmo, não foi a melhor ideia. Terminada a prova, considera que o melhor teria sido resguardar-se um pouco mais. 

Perder num photo finish no qual não foi fácil determinar que Wout van Aert (Jumbo-Visma) era o vencedor, "belisca". A vitória só foi decidida já com os ciclistas preparados a ir para o pódio... Só não sabiam em que lugar se colocariam. Contudo, Pidcock é mais um ciclista que não fica a moer no que falhou. Pensa, isso sim, em fazer mais e melhor na próxima corrida.

Ao pé dos dois ciclistas que também vieram do ciclocrosse para serem reis na estrada, Pidcock pode perder em tamanho e peso, mas o talento que demonstrou ao conquistar o Paris-Roubaix espoirs, o Giro de sub-23 na época passada e um título mundial de contra-relógio em juniores, está agora a ser confirmado na elite, tal como fizeram o belga e o holandês.

Até já consegue perder uma corrida para um Wout van Aert, mas ser ele o foco no final da Amstel Gold Race! Mais um jovem ciclista que não perde tempo a afirmar-se e apesar de, por agora, serem as clássicas a aposta inicial, quando chegou à Ineos Grenadiers deixou o aviso que quer ser um ciclista completo, com possibilidade de se mostrar também em provas por etapas. Está na lista da equipa como hipótese para ir à Volta à Espanha.

Quanto a Van Aert, numa altura em que se prepara para uma pausa competitiva depois de uma intensa fase de clássicas, despede-se com uma vitória que estava a precisar. Apesar do pior resultado ter sido um 11º lugar na E3 Saxo Bank, só ter ganho a Gent-Wevelgem não lhe estava a cair muito bem. É um ciclista habituado a vencer, pelo que conquistar a Amstel Gold Race era quase uma questão de honra. Até Roglic trabalhou para o belga, pelo menos até um problema mecânico o tirar da frente da corrida.

Van Aert vai agora preparar a próxima fase da época. E é uma fase em que tem sido irresistível nas temporadas passadas: Critérium du Dauphiné e Volta a França.

Van der Poel anda pelo BTT e nem foi à Amstel Gold Race, corrida que teve uma edição para história em 2019, com a vitória do holandês. Vamos ter de esperar para ver este trio a disputar corridas. No ciclocrosse, Pidcock andou, nas semanas antes de vestir o equipamento da Ineos Grenadiers, a assistir às vitórias dos rivais, apesar de também ele somar bons resultados. Como irá ser na estrada? Van Aert já percebeu que não pode dar um centímetro (ou mesmo milímetro) a este irreverente britânico.

Classificação completa, via ProCyclingStats. De referir que a Jumbo-Visma teve um domingo perfeito, pois também ganhou a Amstel Gold Race feminina, com Marianne Vos.

Rui Costa em acção

Numa Amstel Gold Race em que o circuito final tirou algum do interesse durante uma parte da corrida, a movimentação de Max Schachmann (Bora-Hansgrohe) a cerca de 15 quilómetros do final, acabou por ser decisiva. Pidcock e Van Aert juntaram-se ao alemão, que ao não conseguir distanciar num ataque a dois mil metros da meta, ficou a ver o sprint de perto, mas sem capacidade para entrar na discussão.

Porém, houve várias movimentações até esse momento, uma delas de Rui Costa. O português da UAE Team Emirates tem a Liège-Bastogne-Liège como a sua prova preferida nas Ardenas - já fez pódio -, mas com Tadej Pogacar a juntar-se à equipa para essa corrida e, antes, para a Flèche Wallonne, Rui Costa aproveitou para tentar a sua sorte.

Não esteve sozinho, mas a companhia acabou por não ser a ideal para que a tentativa de fuga triunfasse. Ficou o teste, na esperança que possa surgir a oportunidade para, mesmo com Pogacar na equipa, Rui Costa seja uma carta a jogar por parte da UAE Team Emirates nas próximas duas corridas, quarta-feira e domingo.

Rui Costa terminou a Amstel Gold Race na 54ª posição, a 2:12 do vencedor. O companheiro de equipa Ivo Oliveira abandonou.

9 de abril de 2021

Qual a melhor camisola para a Jumbo-Visma no Tour? Pode votar

Excepcionalmente, a Jumbo-Visma irá mudar a sua habitual camisola amarela durante a Volta a França. Não sendo nada de inédito, com outras formações a já o terem feito, a equipa holandesa resolveu tornar esta alteração especial, envolvendo os fãs na escolha. Foram criados três modelos que estão agora a votos. Mas há mais, as camisolas vão incluir os nomes de adeptos da Jumbo-Visma.

A opção por mudar a camisola durante o Tour não tem tanto a ver com marketing, mas mais para evitar que a camisola amarela da liderança da corrida se confunda com a da equipa.

No ano passado, Primoz Roglic vestiu a amarela durante metade da prova, até ao dramático e inesquecível contra-relógio que levou Tadej Pogacar (UAE Team Emirates) a surpreender e conquistar a Volta a França.

O objectivo da Jumbo-Visma é exactamente o mesmo. Colocar Roglic de amarelo, mas à partida, em Brest, será em tons mais escuros que toda a equipa irá apresentar-se. A votação começou no dia 7 e o modelo Rapid Rebel está em vantagem (modelo do meio na fotografia), segundo os resultados que a equipa vai mostrando na sua conta de Twitter. Há ainda a Black Bee (esquerda) e Transition (direita).

Qual é a sua preferida? Para votar basta ir ao site da Jumbo-Visma (aqui fica o link) até ao dia 15 (quinta-feira). Na sexta será anunciada a camisola preferida dos adeptos, sendo que até 28 de Abril será possível comprar a edição especial.

No que diz respeito a equipas que, para evitar que as suas camisolas tirassem destaque à amarela do líder da corrida, mudaram os equipamentos no Tour, temos exemplos de formações bem conhecidas da história do ciclismo. ONCE de Alex Zülle e Joseba Beloki, Mercatone Uno de Marco Pantani e, recuando um pouco mais no tempo, a KAS.

»»O espectáculo do inesperado««

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31 de janeiro de 2021

Primeiro grande duelo de 2021 ganho por Van der Poel

© UCI Cyclo-cross
No primeiro frente-a-frente numa das principais corridas que ambos tinham como objectivo para 2021 - Mundial de ciclocrosse -, Mathieu van der Poel levou a melhor sobre Wout van Aert. Os dois ciclistas têm estado dedicados a esta vertene que tanto adoram durante o Inverno, com o holandês a conquistar o seu quarto título, terceiro consecutivo, tendo agora mais um que o seu grande rival. E a prova deste domingo pode muito bem ter sido apenas o aperitivo do que aí vem. 

A Volta a Flandres, na época passada, como que marcou o inicio na estrada desta já popular rivalidade no ciclocrosse. Van der Poel bateu ao sprint o belga. Em Ostende, precisamente na região da Flandres, foi Van Aert quem chegou a parecer estar bem encaminhado para o seu quarto título mundial. Começou a ganhar vantagem e uma queda de Van der Poel fez com que Van Aert ganhasse maior conforto na frente. Porém, no ciclismo tudo pode mudar num instante e assim foi.

Um furo alterou o rumo da corrida. Van der Poel não só recuperou, como acabaria por deixar para trás Van Aert, que admitiu que psicologicamente acabou por ficar afectado com a situação. Na Flandres, voltou a ver-se numa amarga segunda posição, atrás do rival. Mas 2021 está só a começar.

Strade Bianche, Milano-Sanremo - monumento ganho por Van Aert em 2020 -, Volta a Flandres e um muito aguardado Paris-Roubaix, que no ano passado não se realizou devido à pandemia, estão no calendário de ambos. As clássicas apresentam-se antes de um encontro na Volta a França, onde Van der Poel fará a sua estreia em grandes voltas. Recorde-se que a Alpecin-Fenix foi a melhor equipa do ranking entre as ProTeam, pelo que tem acesso directo a todas as principais provas mundiais, sem ter de esperar por convites.

Van Aert demonstra ser alguém que sabe perder. Elogiou Van der Poel, considerando que acabou por ser um justo vencedor. Sobre a sua prova afirmou ao Sporza: "Em certa altura estava numa situação favorável, mas pedalar com um furo fez-me perder muito tempo. E não ficou logo furado, foi um furo lento. Mas perdi meio minuto ali. Eventualmente aproximei-me do Mathieu, mas depois explodi... Estava na situação que queria, mas o furo deu cabo das minhas hipóteses."

Van Aert considera que fez duas boas primeiras voltas (foram oito no total) e que estava forte. Depois furou. "Tudo tem de correr bem. Algo quebrou mentalmente em mim e estou particularmente desiludido com isso", realçou.

Van der Poel não escondeu que o furo foi uma ajuda para recuperar e reentrar na discussão do título mundial, que conquistou com 38 segundos de vantagem, com o belga Toon Aerts a fechar o pódio, a 1:24 minutos do vencedor, pelo terceiro ano consecutivo.

"O percurso mudou e eu fiquei um pouco mais rápido na secção da praia e senti-me um pouco melhor. Senti que as estava com melhores pernas e melhorei a cada volta a correr sobre a areia. Por isso, o sentimento positivo estava a crescer de volta para volta e isso fez a diferença hoje", explicou.

Van der Poel selou a exibição perfeita da selecção holandesa em Ostende, que conquistou todos os títulos em disputa (devido à pandemia não se realizaram as provas de juniores). Lucinda Brand venceu em elite feminina - com o pódio a ser 100% dos Países Baixos (Annemarie Worst e Denise Betsema) - e em sub-23 Fem van Empel foi a campeã, à frente da compatriota Aniek van Alphen. O terceiro ficou para a húngara Blanka vas Kata.

Nos sub-23 masculinos, foi mais um atleta vestido de laranja a ganhar: Pim Ronhaar. Em segundo ficou outro holandês, Ryan Kamp, e o belga Timo Kielich fechou o pódio.

»»Jumbo-Visma segura Wout van Aert««

21 de janeiro de 2021

Jumbo-Visma segura Wout Van Aert

© Jumbo-Visma
A entrar no seu último ano de contrato, Wout van Aert já tinha certamente uma lista de pretendentes e a Ineos Grenadiers estaria à cabeça. A Jumbo-Visma é que não quis arriscar nem um bocadinho e, ainda antes da época arrancar, já garantiu que o belga fica na equipa até 2024. Van Aert tornou-se rapidamente numa das grandes figuras do ciclismo mundial e não escondeu que o seu desejo era continuar na estrutura na qual considera ter dado "enormes passos em frente".

Em apenas dois anos com a Jumbo-Visma, Van Aert venceu três etapas no Tour, a Strade Bianche, já tem um monumento (Milano-Sanremo)... E além das vitórias, as suas grandes exibições estendem-se a ser um gregário de luxo para Primoz Roglic na Volta a França. Aos 26 anos, a sua passagem do ciclocrosse (que não abandona) para a estrada só não foi perfeita porque, em 2019, sofreu uma grave queda no Tour, que não só o obrigou a uma longa e difícil recuperação, como ainda levantou a questão se conseguiria regressar ao seu melhor. Conseguiu e muito melhor!

"Queria mesmo prolongar [o contrato] porque tornei-me muito melhor nesta equipa. Acho que todos viram que dei enormes passos em frente como ciclista em anos recentes. Estive sempre em forma quando precisava. Devo muito à equipa por poder trabalhar em prol dos meus objectivos", afirmou Van Aert, que vê o seu contrato ser renovado por três anos.

O ciclista admitiu que a decisão de assinar o novo vínculo foi tomada muito rapidamente, apesar de terem sido analisados alguns pormenores. No entanto, realçou que nunca duvidou que se chegaria a um acordo.

"Sinto-me muito bem aqui", assegurou, salientando que nunca conversou com outra formação, pois afinal está naquela que diz se ter tornado na melhor do mundo. "Era o melhor para mim ficar. Estou feliz que isto [contrato assinado] esteja feito", afirmou.

A Ineos Grenadiers era apontada como uma das interessadas em Van Aert, na perspectiva de construir um grupo que pudesse discutir as clássicas - principalmente as do pavé -, com o belga como líder, claro.

Richard Plugge, director da Jumbo-Visma, não escondeu como era importante manter Wout van Aert no plantel. "O Wout é um dos grandes nomes, uma das grandes estrelas do ciclismo", disse o responsável, que frisou como a equipa ajudou o belga a desenvolver-se como atleta. Referiu ainda que acertar pormenores demorou o seu tempo, mas: "Estou muito feliz por termos conseguido ficar com ele."

Van Aert terá como primeiro objectivo desta temporada as clássicas, seguindo-se a Volta a França, como aliás é habitual. A Volta a Flandres e o Paris-Roubaix estarão entre as principais provas que quererá ganhar. A primeira perdeu ao sprint para o rival Mathieu van der Poel em 2020, sendo que o monumento de Roubaix não se realizou devido à pandemia.

Para já, está actualmente em estágio com a equipa, mas ainda irá regressar ao ciclocrosse, até porque no final do mês haverá Mundiais da vertente.

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18 de dezembro de 2020

Quem quer a bicicleta de Roglic da Vuelta? Ou a de Van Aert da Milano-Sanremo?

© PhotoGomezSport/La Vuelta
Há poucos dias, falou-se neste blog de como a Bianchi renovou a sua imagem para a nova parceria com a GreenEdge Cycling (a Mitchelton-Scott até ao fim do ano). Mas para aqueles que não resistem à tradicional cor celeste, sem travões de disco - ou seja, a bicicleta que tanta história tem e que muita história escreveu juntamente com a Jumbo-Visma durante sete anos - então tem uma hipótese de a comprar. Ou melhor, de as comprar, pois há bastante escolha. E claro que não se está a falar de umas bicicletas quaisquer.

A Jumbo-Visma iniciou um leilão para os mais ávidos coleccionadores ou para "continue the ride" (continuar a pedalar), como diz o slogan adoptado. Que tal uma das bicicletas com que Primoz Roglic venceu a Volta a Espanha (com direito à fita do guiador em vermelho)? Ou então a que Wout van Aert conquistou o seu primeiro monumento, Milano-Sanremo? Ou se alguém gostar mais de uma de contra-relógio de Tom Dumoulin, também há, assim como as máquinas de outros ciclistas, como Steven Kruijswijk, Sepp Kuss, Tony Martin e Robert Gesink, por exemplo.

É uma fantástica oportunidade para se ter bicicletas de grandes ciclistas, mas claro que é melhor preparar para abrir os cordões à bolsa. O leilão arrancou esta sexta-feira e dura até 27 de Dezembro. Para já, a que tem o valor mais alto é precisamente a de Van Aert, que ultrapassa os oito mil euros, no momento em que se escreve este texto.

O leilão está a decorrer no site Catawiki e se carregar aqui, pode ver ao pormenor as 28 bicicletas que a Jumbo-Visma quer tentar dar uma nova vida, ou enviar para um museu pessoal de um admirador.

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19 de outubro de 2020

Van der Poel vs Van Aert, o primeiro capítulo (na estrada)

© Team Jumbo-Visma
Desde que Mathieu van der Poel e Wout van Aert começaram a mostrar-se na estrada, nunca deixando o ciclocrosse, que muito se esperava que a rivalidade entre ambos na vertente em que dominam, fosse transportada para as grandes corridas de estrada. Tivemos de esperar mais de um ano, mas neste domingo, na Volta a Flandres, escreveu-se o primeiro capítulo de uma batalha que, principalmente nas clássicas do pavé, poderá tornar-se das mais históricas do ciclismo.

Com o calendário em tempo de pandemia a forçar que grandes provas coincidam, o que mais desiludiu na Volta a Flandres foi não ser possível assistir a toda, como este monumento merece, com ou sem estes dois excelentes ciclistas. Mas foi possível ver a parte mais importante, pelo que não ficou tudo perdido.

Os 243,3 quilómetros do último monumento do ano - não haverá Paris-Roubaix - ficaram marcados pela ausência de público nas principais subidas. Desolador! Apenas se pôde imaginar como seria uma autêntica loucura quando os adeptos vissem os dois rivais sozinhos na frente.

A corrida também ficou marcada pelo choque de Julian Alaphilippe contra uma moto da organização, que o tirou da prova e terminou com a sua temporada da pior forma. Dois dedos partidos na mão direita, foi o resultado da aparatosa queda na sua estreia na corrida. A moto estava a reduzir a velocidade para deixar passar o trio da frente. Van Aert e Van der Poel desviaram-se, Alaphilippe viu tarde de mais o obstáculo. Resta ao campeão do mundo ter ficado a saber que também se adapta aos muros em empedrado da Flandres.

Porém, quis o destino que Van der Poel (Alpecin-Fenix) e Van Aert (Jumbo-Visma) tivessem o seu primeiro grande frente-a-frente no palco em que ambos mais queriam brilhar. Um holandês e um belga. A Flandres tem algo de especial para os dois.

Van Aert já tem um 2020 para recordar, com seis vitórias, que incluem o seu primeiro monumento: a Milano-Sanremo. Van der Poel também lá esteve, mas não conseguiu estar na luta final. O holandês andou mais discreto este ano, mas foi mostrando durante Setembro que a sua forma estava a melhorar. Quatro vitórias em 2020 e num Fevereiro que parece tão longínquo, não se esquecerá como esteve na Volta ao Algarve, ainda que tenha vindo para preparar a época e não tentar vitórias.

Para Van der Poel, muito da temporada (mesmo quase tudo), jogava-se na Flandres. Van Aert "apenas" queria reforçar o excelente 2020. Sem Alaphilippe - foi o francês que lançou o ataque que acabaria por formar o trio na frente -, os dois rivais tiveram de colaborar para garantir que mais ninguém se intrometeria entre eles.

Até aquela fase da corrida, a expectativa era enorme. O ambiente estava bem quentinho. Não na meteorologia, mas na troca de palavras entre ambos, que faz prever que só se está mesmo no início de uma rivalidade intensa, mais do que no ciclocrosse, até pelo peso que a estrada tem no mundo do ciclismo.

Desde a Gent-Wevelgem que "as coisas aqueceram" muito. Van Aert até ganhou... na luta pelo oitavo lugar. Contudo, era ali, na Flandres que mais se queria a maior das vitórias! Aquele último quilómetro foi de grande tensão. Van der Poel à frente, sempre a olhar para um Van Aert atento a um possível ataque do rival.

E foi mesmo o holandês que lançou o sprint. Terminou assim (ver fotografia em baixo).

Van der Poel não escondeu a emoção. Tal como aconteceu na Amstel Gold Race, no ano passado, venceu uma corrida que também o pai, Adrie van der Poel, havia conseguido, em 1986. Mas a Flandres é um monumento. Mathieu começa a colocar o seu lugar na história das principais provas do ciclismo mundial.

Van Aert, mais do que desiludido, era um homem chateado. Percebe-se. É sempre mais difícil perder para um rival, tendo em conta o passado entre ambos. Mas, há algo muito importante numa rivalidade: respeito. Mal cortou a meta, Van Aert cumprimentou o seu adversário e ambos repetiram o gesto no pódio.

Agora que venha 2021, com as corridas no seu calendário normal. As clássicas, principalmente as do pavé, vão ser quentinhas, quentinhas!

Aqui fica o sprint da Volta a Flandres, para ver e rever. E neste link pode ver as classificações completas, via ProCyclingStats.

»»A Canyon Aeroad de Mathieu Van der Poel««

9 de setembro de 2020

A arte de um espectacular sprint

© ASO/Alex Broadway
São quilómetros e quilómetros, quase quatro horas em que é difícil convencer alguém que não goste de ciclismo que é uma modalidade interessante e de grande espectáculo. Foi daquelas etapas em que quase nada aconteceu - tinha de haver quedas, infelizmente -, em que o percurso não é particularmente interessante a não ser que haja vento e com os ciclistas a também querer recuperar do dia anterior e preparar o que aí vem no Tour. No entanto, temos depois a preparação do sprint. Normalmente os dez quilómetros finais. Aí é o momento de olhar com atenção. As tácticas, as colocações, os imprevistos que fazem com que sobressaiam os grandes gregários dos sprinters e claro aquele momento final em que é preciso saber atirar uma bicicleta sobre a linha de meta.

Aqui está uma etapa em que as imagens televisivas podem servir para ensinar os mais novos como se deve fazer, quando se deve fazer. Caleb Ewan, Peter Sagan e Sam Bennett acabaram lado a lado, com Wout van Aert no meio, mas a ser prejudicado pelo eslovaco. Mas já lá se irá. O pequeno Ewan continua a mostrar como é um grande sprinter e ao atirar a bicicleta como mandam as regras, conseguiu bater a concorrência.


© ASO
É tudo uma questão de momento, de potência e, claro, de posicionamento. Mas tendo em conta a alta velocidade de um sprint, estamos perante atletas que após o desgaste físico, não só de hoje, têm de tomar decisões em centésimos de segundo. Ewan não só decidiu bem, como demonstra como está em boa forma e como já não é conhecido pelo ciclista que sprintava "deitado" no guiador. Já é conhecido como um dos melhores sprinters. Foi a segunda vitória no Tour e está a uma de igualar a marca na sua estreia em 2019.

O sprint foi algo caótico (o que muitas vezes ajuda à espectacularidade), com as equipas a ficarem fora das posições pretendidas com as curvas e estreitamentos de estrada nos últimos quilómetros, o que dificultou a muito importante colocação. Aqui entram ciclistas como Michael Morkov (Deceuninck-QuickStep) - um dos melhores lançadores da actualidade agora ao serviço de Bennett - Daniel Oss (Bora-Hansgrohe) - o braço-direito de Sagan - e Roger Kluge (Lotto Soudal) - o inseparável companheiro de Ewan. Mas no final, foi a classe de cada um dos sprinters que fez a diferença.

Desta vez, Ewan foi o melhor depois de ter sido batido no dia anterior pelo Bennett e deixou a garantia que pretende ultrapassar a muita montanha que vai ter agora pela frente, para chegar aos Campos Elísios. Antes ainda haverá mais uma oportunidade na 19ª etapa.

Foi muito tempo à espera do sprint numa etapa com pouca história - Matthieu Ladagnous (Groupama-FDJ) também não deve ter tido o dia mais divertido na fuga solitária, sabendo que não resultaria -, mas quando se assiste a sprints assim, com os melhores do mundo a mostrarem porque o são, então percebe-se e é mais fácil mostrar porque o ciclismo é tão bonito.


Também o exemplo do que não de pode fazer

Foi mesmo um sprint que pode servir de lição. O muito bom que se viu teve o lado negativo por um gesto de Sagan, na procura de ganhar posição. A recta da meta tinha uma espécie de separadores publicitários encostados às barreiras que obrigaram a uma linha mais afastada das grades de protecção. Ao desviar-se de um, Sagan encontrou Wout van Aert no caminho e encostou-se com o ombro e ainda a cabeça ao ciclista da Jumbo-Visma.

Nada aconteceu, felizmente, a não ser que Van Aert foi prejudicado depois de ter saído na frente no início do sprint. O belga protestou de imediato com Sagan. Os comissários não deixaram passar o gesto sem uma penalização. O ciclista da Bora-Hansgrohe foi relegado de segundo classificado para o final do pelotão (85ª posição) e retiram-lhe todos os pontos conquistados na etapa, incluindo os do sprint intermédio.

A conquista da oitava camisola verde ficou seriamente ameaçada. São 68 pontos a separá-lo de Sam Bennett, o seu antigo companheiro de equipa. Das sete que Sagan ganhou, só não são provavelmente oito consecutivas porque em 2017 o eslovaco, ao sentir Mark Cavendish encostar-se a ele (num gesto idêntico ao que se viu hoje) acabou por o afastar com o braço. A queda aparatosa do britânico acabou por levar à expulsão do eslovaco da corrida.

12ª etapa: Chauvigny - Sarran Corrèze, 218 quilómetros



É a etapa mais longa do Tour. A subida de segunda categoria antes dos quilómetros finais com segundos bónus disponíveis (oito, cinco e dois) poderá dar ideias a alguém que esteja de olhos postos na geral a tentar ganhar vantagem. Já se sabe o quanto o camisola amarela Primoz Roglic (Jumbo-Visma) adora amealhar todos os segundos bónus que pode.

Contudo, tendo em conta a dificuldade que espera a todos na sexta-feira, esta tirada poderá ser uma boa oportunidade para aqueles que procuram vitórias em etapas e que já perderam tempo suficiente para não serem perseguidos pelas equipas dos candidatos.

Julian Alaphilippe (Deceuninck-QuickStep), Pierre Latour (AG2R), Daniel Martin (Israel Start-Up Nation), Hugh Carthy (EF Pro Cycling) foram ciclistas que na etapa desta quarta-feira já pouparam algumas forças.


4 de setembro de 2020

Bora-Hansgrohe e Ineos Grenadiers em trabalho de alta velocidade. Mas no final ganhou a Jumbo-Visma

© BettiniPhoto/Bora-Hansgrohe
Qual montanha, qual quê. Um pouco de vento e finalmente a Volta a França animou. Primeiro foi a Bora-Hansgrohe a partir do pelotão, para deixar para trás os sprinters - e principalmente Sam Bennett - de forma a garantir que Peter Sagan voltasse a vestir a camisola verde e talvez ganhar a etapa sem uma concorrência tão forte. Depois foi a Ineos Grenadiers que repetiu a dose de liderar o grupo, como na sexta etapa, mas desta vez, "estilhaçou" com a ajuda do vento o grupo, com alguns candidatos a ficarem para trás. Porém, a Jumbo-Visma não quebra. E até ganha!

Tem sido algo comum em anos recentes. Uma etapa relativamente plana com vento e vários ciclistas que ambicionam à geral vêem as contas complicarem-se. Costuma ter o condão de animar as tiradas de montanha que se seguem. E há que dizer que o Tour estava mesmo a precisar de um abanão destes. O pensamento de todos parecia estar mais nas dificuldades que estão mais adiante, do que arriscar já no início. Claro que não ajudou aquela primeira etapa recheada de quedas, mas mesmo assim, tem sido muito controlo e pouco ataque.

Se em dias anteriores o ritmo nem sempre entusiasmou, nos 168 quilómetros da sétima etapa - entre Millau e Lavaur - foi registada uma média de 47,5 quilómetros/hora, ao que se juntou então um vento com rajadas a rondar os 30 a 40 quilómetros/hora. Percebe-se desde logo porque foi irresistível alguém tentar um "abanico", utilizando a expressão espanhola. Para a animação, contribuiu ainda a luta pela camisola verde juntar-se à luta pela amarela.

A Bora-Hansgrohe começou por acelerar de tal forma na primeira subida que deixou a maioria dos sprinters para trás. Já se sabe que Peter Sagan tem capacidade para ultrapassar melhor estas dificuldades e o eslovaco tem nos últimos anos mostrado como se ganha a classificação dos pontos, sem ser preciso dominar nos sprints finais. Foi segundo no intermédio, já no final, saltou a corrente da bicicleta e foi apenas 13º. Mas recuperou a camisola verde, com nove pontos de vantagem sobre Sam Bennett. Por enquanto parece que há luta por esta classificação.

Depois do trabalho inicial da Bora-Hansgrohe - foi ainda recompensada com o prémio da combatividade para Daniel Oss -, o trabalho a alta velocidade continuou, com a Ineos Grenadiers a entrar em acção no último terço da etapa. Rapidamente começaram ciclistas a perder o contacto com o grupo da frente.

Mikel Landa (Bahrain-McLaren) continua a escrever a sua habitual história. Arranja sempre maneira de perder tempo na primeira semana. Tadej Pogacar (UAE Team Emirates) teve azar. Furou pouco antes da Ineos Grenadiers iniciar a aceleração e acabou por ceder a liderança da juventude a Egan Bernal. Richie Porte é outro que não se dá bem com abanicos, com o companheiro da Trek-Segafredo, Bauke Mollema também a ficar para trás.

Com a táctica da equipa britânica a resultar, Jumbo-Visma e Groupama-FDJ saltaram também elas para a frente. A Ineos Grenadiers acabou por falhar na sua maior pretensão: Primoz Roglic e Tom Dumoulin permaneceram intocáveis na frente, assim como o líder da formação francesa, Thibaut Pinot. Os principais adversários de Egan Bernal não perderam tempo, nem mostraram fraqueza.

A Ineos Grenadiers queria um dia para recordar, mas viu Richard Carapaz ser um dos prejudicados. Mais um furo a estragar os planos de um ciclista. A equipa deu ordem a Jonathan Castroviejo para ajudar o equatoriano, mas não havia nada a fazer. O facto de não ter ficado sozinho demonstra que esta Ineos Grenadiers não queria ver Carapaz a já 2:02 minutos na geral. Se precisar de um plano B, a opção estará mais complicada, ao contrário do que acontece com a Jumbo-Visma, que continua a ter Primoz Roglic e Tom Dumoulin na luta pela geral.

Tal é a discrição, que quase dá para esquecer que o camisola amarela é Adam Yates. Com outras equipas a assumirem as rédeas das etapas, a Mitchelton-Scott "só" teve nestes últimos dois dias de se preocupar em proteger Yates. O que não foi nada fácil hoje, mas o britânico sobreviveu a uma etapa louca, emotiva e muito interessante a nível táctico.

© ASO/Alex Broadway
No final ganhou a Jumbo-Visma

Não deixará de ser algo frustrante para quem tanta trabalhou ver a equipa rival não só não quebrar, como ainda a ganhar a etapa. Esta Jumbo-Visma dá para tudo e ainda nem foi forçada a intenso trabalho na montanha. Esse talvez surja este fim-de-semana.

Com o esforço na primeira fase da etapa, a Bora-Hansgrohe esperava que fosse desta que Peter Sagan ganhasse. Parte da missão está cumprida ao recuperar a camisola verde, mas começa a ser difícil perceber como irá este eslovaco quebrar um longo jejum de triunfos. Que coisa estranha em dez anos como profissional!

Bryan Coquard (B&B Hotels-Vital Concept) e Christophe Laporte (Cofidis) conseguiram ficar na frente e com razão sonharam à ambicionada vitória no Tour, com Edvald Boasson Hagen (NTT) a mostrar que a idade passa, mas não é um ciclista que se deva menosprezado.

Mas não foi nenhum destes ciclistas a aproveitar a falta de sprinters na discussão. No grupo estava Wout van Aert. Que mais dizer sobre este belga? Mais uma vez trabalhou na frente depois da Ineos Grenadiers forçar o andamento. Expôs-se, mas nem assim perdeu forças para bater a concorrência nos metros finais. Lá foi ele ganhar e até com relativa tranquilidade. Segunda vitória para o belga, terceira para a Jumbo-Visma - venceu com Primoz Roglic na primeira chegada em alto no Tour - em sete etapas.

Classificações completas, via ProCyclingStats.

8ª etapa: Cazères-Sur-Garonne - Loudenvielle, 141 quilómetros


Perante a perda de tempo na sétima etapa, o fim-de-semana pode ter ganho outro interesse. Com cerca de minuto e meio para recuperar, ciclistas como Mikel Landa, Tadej Pogacar e os líderes da Trek-Segafredo, vão ter de começar a procurar forma de recuperar tempo. Com um dia de descanso à espera na segunda-feira, principalmente a etapa deste sábado tem um percurso interessante para estes atletas, mesmo sem ter chegada em alto. O pelotão chega à fase dos Pirenéus.

Haverá a primeira categoria especial deste Tour, no Port de Balès. São 11,7 quilómetros, com uma pendente média de 7,7%. Atenção aos segundos de bónus no Col de Peyresourde (oito, cinco e dois). Chegou a altura de este Tour começar a mexer mais na geral, com a expectativa de ver se Roglic ou Bernal vão continuar na expectativa, ou se a Jumbo-Visma e a Ineos Grenadiers vão finalmente medir forças. A vontade de ver este frente-a-frente cresce...

»»Ineos Grenadiers mostrou-se. Jumbo-Visma esteve atenta mas sem razões para se preocupar««

»»Alaphilippe perdeu a camisola amarela (afinal aconteceu algo na quinta etapa)««

23 de agosto de 2020

Van der Poel em destaque num fim-de-semana de Nacionais

Fim-de-semana de campeonatos nacionais, ainda que em moldes diferentes do habitual em certos países e mais tarde no calendário devido à pandemia. Isto é, em alguns só se realizaram as provas de fundo, ou só os contra-relógios, mas ainda assim, foram atribuídos vários títulos, com destaque para Mathieu van der Poel. O holandês parece finalmente estar a ganhar forma e teve um daqueles desempenhos para mais tarde recordar.

O ciclista da Alpecin-Fenix atacou a 44 quilómetros da meta (dos 182,5 quilómetros percorridos em Wijster) e pedalou sozinho até ao seu segundo título nacional de estrada. Nils Eekhoff, da Sunweb, e Timo Roosen, da Jumbo-Visma completaram o pódio. O companheiro de equipa de Van der Poel, Marcel Meisen, levou outra camisola de campeão nacional para a Alpecin-Fenix, ao surpreender Pascal Ackermann (Bora-Hansgrohe) na corrida alemã.

De realçar também o segundo título de Wout van Aert (Jumbo-Visma) no contra-relógio da Bélgica, com Arnaud Démare (Groupama-FDJ) a somar o terceiro na prova de fundo francesa. No Luxemburgo, Bob Jungels, foi destronado por Kevin Geniets (Groupama-FDJ), mas o ciclista da Deceuninck-QuickStep foi o melhor no contra-relógio.

De referir ainda como Giacomo Nizzolo está a conseguir dar um novo fôlego à carreira ao mudar-se para a NTT. Tem alcançado bons resultados, incluindo três vitórias em 2020, com a terceira a ser um sempre especial título nacional. Ainda em Itália, o jovem Filippo Ganna impôs-se sem surpresa no contra-relógio, mas ficou de fora da prova de fundo devido ao coronavírus.

O colega de equipa da Ineos Leonardo Basso testou positivo por covid-19 e como Ganna havia treinado no início da semana com este ciclista, foi de imediato colocado em isolamento, tal como Gianni Moscon e Salvatore Puccio. A Ineos também colocou membros do staff em quarentena durante duas semanas, como medida de prevenção.

Em baixo fica a lista de alguns dos títulos atribuídos este fim-de-semana (certas provas decorreram na quinta e sexta-feira), recordando também competições que se realizaram noutras semanas, casos de Portugal - com títulos para Rui Costa e Ivo Oliveira -, Eslovénia e Rússia. Aqui foi um ciclista da equipa lusa Aviludo-Louletano a vencer: Sergey Shilov.

E como às vezes parece já ter sido noutro ano, recorda-se ainda quem venceu na Colômbia, Austrália e África do Sul, competições realizadas quando 2020 estava ainda a desenrolar-se normalmente.

Os títulos de contra-relógio estão identificados como CRI, os restantes são de fundo.

Bélgica
Wout van Aert (Jumbo-Visma) - CRI

Países Baixos
Mathieu van der Poel (Alpecin-Fenix)

Espanha
Luis León Sánchez (Astana)
Pello Bilbao (Bahrain-McLaren) - CRI

Itália
Giacomo Nizzolo (NTT)
Filippo Ganna (Ineos) - CRI

França
Arnaud Démare (Groupama-FDJ)
Rémi Cavagna (Deceuninck-QuickStep) - CRI

Alemanha
Marcel Meisen (Alpecin-Fenix)

Noruega
Sven Erik Bystrom (UAE Team Emirates)
Andreas Leknessund (Uno-X Pro Cycling Team) - CRI

Dinamarca
Kasper Asgreen (Deceuninck-QuickStep)

Luxemburgo
Kevin Geniets (Groupama-FDJ)
Bob Jungels (Deceuninck-QuickStep) - CRI

Eslováquia
Juraj Sagan (Bora-Hansgrohe)
Ján Andrej Cully (Dukla Banska Bystrica) - CRI

Hungria
Barnabás Peák (Mitchelton-Scott) - CRI

Lituânia
Gediminas Bagdonas (AG2R)
Evaldas Siskevicius (Nippo Delko One Provence) - CRI

Polónia
Stanislaw Aniolkowski (CCC Development Team)
Kamil Gradek (CCC) - CRI

Áustria
Valentin Götzinger (WSA KTM Graz)
Matthias Brändle (Israel Start-Up Nation) - CRI

República Chega
Adam Toupalík (Elkov-Kasper)
Josef Cerny (CCC) - CRI

Portugal
Rui Costa (UAE Team Emirates)
Ivo Oliveira (UAE Team Emirates) - CRI

Suíça
Stefan Küng (Groupama-FDJ) - CRI

Eslovénia
Primoz Roglic (Jumbo-Visma)
Tadej Pogacar (UAE Team Emirates) - CRI

Rússia
Sergey Shilov (Aviludo-Louletano)
Artem Ovechkin (Terengganu Inc. TSG Cycling Team) - CRI

Colômbia
Sergio Higuita (EF Pro Cycling)
Daniel Martínez (EF Pro Cycling) - CRI

Austrália
Cameron Meyer (Mitchelton-Scott)
Luke Durbridge (Mitchelton-Scott) - CRI

África do Sul
Ryan Gibbons (NTT)

8 de agosto de 2020

Jumbo-Visma em dia de vitórias. Van Aert já tem o seu monumento

Van Aert venceu na Milano-Sanremo, uma semana depois ganhar a Strade Bianche
Dia importante para a Jumbo-Visma. Primeiro viu no primeiro grande teste do seu tridente frente à Ineos - no Tour de l'Ain -, Primoz Roglic e Steven Kruiswijk passar com distinção. Tom Dumoulin ainda tem trabalho pela frente até à Volta a França. Depois foi Wout van Aert. Como aqui se escreveu há uma semana, está a tornar-se num senhor no seu domínio. Depois da Strade Bianche, conquistou o seu primeiro monumento: Milano-Sanremo. Curiosamente está a "copiar" esta parte da época de Julian Alaphilippe, o ciclista que bateu ao sprint e que em 2019 havia precisamente conquistado estas duas corridas.

O que se viu este sábado foram duas exibições, duas vitórias, que por si só seriam importantes. No entanto, é impossível separá-las de uma semana difícil com a situação de Dylan Groenewegen. Além do ciclista estar sob fogo após ter provocado a muito grave queda de Fabio Jakobsen, a própria imagem da equipa fica sempre inevitavelmente afectada. A melhor resposta foi precisamente aquela dada este sábado. É preciso centrar novamente as atenções nas corridas e no poderio que esta equipa já demonstra, numa altura em que a Volta a França não está assim tão longe (começa a 29 de Agosto, em Nice).

Finalmente um monumento para ver

Com todo o respeito por Roglic, o dia pertence a Wout van Aert. Foi preciso esperar por Agosto para se ter um monumento na estrada. E para a semana há já outro: a Lombardia. A clássica da Primavera, normalmente em Março, foi disputada em pleno Verão e com direito a tudo o que esta época do ano traz: muito calor! É impossível não recordar como em 2013 foi um Milano-Sanremo disputada debaixo de chuva, vento e muito frio!

Em 2020 as circunstâncias são excepcionais, mas valeu a pena esperar. Foi uma corrida um pouco diferente do habitual. Já costuma ser longa, mas desta feita ultrapassou os 300 quilómetros. 305, mais concretamente. Sem surpresa, toda esta quilometragem serviu para desgastar os ciclistas até que se chegasse à tradicional Cipressa e depois ao Poggio, as duas subidas míticas  da Milano-Sanremo.

Estas mantiveram-se, mas até lá o percurso foi diferente, pois algumas das habituais localidades não quiseram este ano receber a prova. Fugiu-se da costa, mais para o interior, o que levou ao tal aumento de quilometragem.

No entanto, foi dentro dos 50 quilómetros finais que o pelotão começou a acelerar, depois de um andamento mais controlado, numa clara gestão de esforço perante tantos quilómetros e tanto calor. Mas sem deixar a fuga afastar-se em demasia. Houve uma corrida digna de ser chamada de monumento, houve um final digno de uma corrida assim definida e um vencedor que provavelmente poderá dizer que este foi apenas o primeiro monumento de mais uns quantos.

Nunca é de mais de recordar que há pouco mais de ano Wout van Aert sofreu uma queda gravíssima no Tour, que ameaçou o sua carreira. Mas este belga, de 25 anos, está destinado a muito sucesso. Inteligente a ler as corridas, calmo nos momentos em que parece que as coisas não estão a correr bem (chegou a estar mal colocado no pelotão em zonas difíceis de recuperar posição e mais tarde ainda viu Alaphilippe afastar-se um pouco) e, principalmente, muito confiante nas suas capacidades e forma física. Três pormenores essenciais.

Depois da Cipressa ter mostrado que este não era dia para os sprinters puros, o Poggio foi o momento dos ataques decisivos. Vincenzo Nibali (Trek-Segafredo) tentou repetir a vitória de 2018, mas foi contra-atacado pelo vencedor de 2019. Julian Alaphilippe (Deceuninck-QuickStep) está de regresso à melhor forma. Tentou ser matreiro com Van Aert, como foi há um ano com Peter Sagan.

Quando os dois ficaram isolados e depois da descida ter terminado, "escondeu-se" atrás de Van Aert. Há que elogiar a postura de Van Aert. Não se incomodou. Ficou na frente, sempre de olho no adversário. Dois ciclistas de classe. Dois ciclistas de espectáculo. O belga partiu para o sprint e já se sabe que o faz bem. Alaphilippe também é forte quando o grupo é pequeno. Assim ganhou em 2019. Talvez tenha pago o esforço que fez para recuperar lugar no pelotão quando teve um problema com a bicicleta. Mas 2020 é o ano de Van Aert, que venceu com todo, todo o mérito.

É tempo de viajar para França e competir nas duas corridas que mais brilhou há um ano, antes da assustadora queda. No Critérium du Dauphiné e Volta a França ver-se-á provavelmente duas versões de Van Aert: esta de procurar vitórias - e atenção aos contra-relógios onde é fortíssimo - e a de homem de trabalho para os líderes voltistas que procuram fazer desde 2020 um ano para recordar para a Jumbo-Visma. Van Aert não tem problema em ficar em segundo plano, em nome do colectivo.

Classificação da Milano-Sanremo, via ProCyclingStats.

De referir Philippe Gilbert. Muito se olhava para o ciclista da Lotto Soudal. Seria desta que fecharia os cinco monumentos? Tentou, fechou top dez, mas terá de tentar de novo em 2021. Tem 38 anos, mas só planeia retirar-se no final de 2022. Difícil, sim... Mas ainda tem tempo!

E falando de líderes voltistas...

O Tour de l'Ain termina amanhã pelo que há que esperar para ver o que acontece. Porém, este sábado foi dada uma lição à Ineos, precisamente numa disciplina em que a equipa britânica domina. Ou se calhar, dominava... Sem medo e sem problema para desde já mostrar que está preparada para assumir uma Volta a França como a Ineos tantas vezes vez, esta Jumbo-Visma quebrou a rival.

Grande trabalho de George Bennett, que talvez nunca venha a ser o líder que chegou a mostrar que talvez pudesse ser, mas pode ser um daqueles gregários tão importante como um líder. Só Egan Bernal resistiu na Ineos, mas o colombiano não consegue sprintar como Primoz Roglic em inclinações menores, como foi a da meta em Lélex Monts-Jura. São dez segundos que separam ambos, num Tour de l'Ain que está a ser uma bela montra para o que nos poderá esperar na Volta a França.

Do tridente da Ineos, Geraint Thomas perdeu quase cinco minutos. Chris Froome, mais de 12!

Uma palavra para João Almeida. Mais um top dez e uma merecida liderança da juventude. Tem 1:04 minutos de vantagem sobre Ilan van Wilder, da Sunweb. O português da Deceuninck-QuickStep está a uma etapa da sua primeira grande conquista na época de estreia no World Tour.

Classificações do Tour de l'Ain, via ProCyclingStats.


3 de agosto de 2020

Van Aert no seu domínio

© Team Jumbo-Visma
Depois de uma autêntica novela de transferência da Vérandas Willems-Crelan para a Jumbo-Visma e que antecipou a sua ida para a equipa do World Tour em um ano, Wout van Aert chegou às clássicas em 2019 com muita vontade, bons resultados, mas a vitória não chegou. Uma ligeira desilusão para o belga, cujas expectativas era altíssimas depois de um 2018 de grande nível. Alcançou pódios e outros resultados de nota, mas faltou aquele triunfo. Acabaria por mostrar-se em sprints e contra-relógios, revelando que podiam esperar mais dele do que simplesmente nas clássicas. Porém, ao vencer neste último sábado a Strade Bianche, é difícil não pensar que Van Aert venceu no seu principal domínio. E está só a começar!

Há pouco mais de um ano, depois de um Critérium du Dauphiné brilhante (vitória no contra-relógio e numa etapa ao sprint, mais a camisola dos pontos), o título nacional de contra-relógio, Van Aert estava a ser uma das figuras da Volta a França. Foi a sua estreia em grandes voltas e além de ser um excelente homem de trabalho, quando chegou a sua vez de se mostrar, lá foi ele comprovar que sabia sprintar, vencendo em Albi os chamados sprinters puros como Elia Viviani e Caleb Ewan, por exemplo.

Dias depois, em Pau, estavam bem encaminhado para mais um resultado promissor no contra-relógio, até que ao tocar numa barreira teve uma queda aparatosa, com consequências muito graves. Aquele 19 de Julho terminou não só com uma época de estreia no World Tour promissora, como lançaram dúvidas se Van Aert iria conseguir regressar ao mesmo nível, tal foram a gravidade das lesões.

A 1 de Agosto de 2020, depois de confinamentos e com uma pandemia a ser notícia todos os dias, Van Aert surgiu para mostrar que não só o bom ciclismo estava de volta na Strade Bianche, como provou que podem contar com ele para lutar por um lugar entre aqueles que deixam a sua marca na modalidade. E no domínio que mais se esperava dele, nas clássicas.

Em 2020 só se o tinha visto na Omloop Het Nieuwsblad e o 11º lugar desapontou um pouco. No entanto, aí está Van Aert no seu elemento. A Strade Bianche é uma corrida que só pode assentar bem a um ciclista que tem no currículo títulos mundiais de ciclocrosse.  Foi uma corrida com mais pó do que está habituado, afinal o ciclocrosse é uma modalidade de Outono/Inverno, mas não o atrapalhou nem um pouco. Quando ficou no pequeno grupo da frente, era difícil não pensar que estava perto de ter o seu momento: vencer a sua primeira clássica World Tour.

A seu lado estavam nomes de respeito, vencedores de monumentos, como Jakob Fuglsang (Astana) - segundo na Strade Bianche em 2019 - ou Alberto Bettiol (EF Pro Cycling). Mas a prova do sterrato italiano é perfeita para as características de Van Aert. Só aquela subida final em Siena poderia causar preocupações.

Nas duas edições anteriores, o belga foi terceiro e muito por culpa daquela curta mas muito inclinada subida. A experiência também já se nota, apesar de ter apenas 25 anos. Davide Formolo (UAE Team Emirates) e Max Schachmann (Bora-Hansgrohe), segundo e terceiro respectivamente, sobem bem melhor do que Van Aert.

Destemido e muito confiante na suas capacidades e na sua condição física, o belga aproveitou o último sector de sterrato, a pouco mais de 12 quilómetros da meta, para dar a machadada final nos companheiros de fuga. 

Ganhou vantagem suficiente para chegar à tal subida sem nervosismos. A vitória era sua e mais do que merecida! Formolo e Schachmann chegaram a 30 e 32 segundos. O 10º, Diego Rosa (Arkéa Samsic) cortou a meta 7:45 minutos depois. O grande rival do ciclocrosse, Mathieu van der Poel, demorou mais 10:06 (15º) para completar os 184 quilómetros. Ainda não foi desta que a rivalidade passou para a estrada. Mas havemos de lá chegar... Muito calor, muitos incidentes - Julian Alaphilippe, vencedor de 2019, furou seis vezes (!) -, mas Van Aert esteve perfeito e fez por ser e merecer o seu dia de glória.

As próximas corridas

Ganhar no seu domínio só pode encher ainda mais de confiança Wout van Aert. Tendo em conta que já demonstrou que não teme os sprints, o belga vai surgir entre um dos favoritos para a Milano-Sanremo, o primeiro monumento que finalmente vamos ver este ano.

Mas antes de sábado, haverá ainda a Milano-Torino esta quarta-feira. Van Aert seguirá depois para França para o Critérium du Dauphiné e Tour. Os seus principais objectivos serão mais tarde perseguir mais vitórias nas principais clássicas do pavé, com Volta a Flandres e Paris-Roubaix em destaque, claro.

O mais importante de sábado, além da vitória, foi Van Aert e a Jumbo-Visma saberem que o pior não só já passou como parece estar num passado muito distante. Van Aert está pronto para agarrar o seu lugar entre os grandes.

Veja aqui a classificação completa da 14ª edição da Strade Bianche, com Rui Costa (UAE Team Emirates) a ser o único português em prova. Terminou na 39ª posição, a 19:27 minutos de Van Aert.