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12 de setembro de 2020

Sunweb com mais uma reinvenção de sucesso

© Team Sunweb
De apostar nos sprints, a lutar pela geral e agora como caça etapas. A Sunweb, ex-Giant-Alpecin e ex-Argos-Shimano, não tem parado de se reinventar ao longo dos anos. Adapta-se aos ciclistas que tem, nunca perdendo a linha de investimento em jovens que vê tornarem-se em vencedores. A equipa alemã vive mais uma fase da sua vida que tem sido de sucesso, mas que também tem sido de saber dar o passo atrás, para depois dar um salto em frente.

A Sunweb vive precisamente uma fase de dar o passo atrás. Com a surpreendente saída de Tom Dumoulin para a Jumbo-Visma - o holandês quebrou contrato para mudar de equipa -, a Sunweb viu-se privada do seu líder, aquele que lhe deu uma Volta a Itália e esteve perto de conquistar a Volta a França. A equipa havia quebrado quase por completo com o passado ganhador em sprints com Marcel Kittel e John Degenkolb, com este último a conquistar ainda dois monumentos (Milano-Sanremo e Paris-Roubaix).

Quase, porque tem Michael Matthews, que parecia ser o inevitável líder num regresso às origens, ficou de fora das escolhas do Tour. Sam Oomen começou o ano a regressar de uma longa paragem devido a um problema numa perna, que o obrigou a terminar a época após o Giro em 2019 e foi escalado para... o Giro. E ainda há um Wilco Kelderman que depois de muito prometer, pouco ou nada cumpriu. Também vai à Volta a Itália.

Tal como aconteceu com Kittel, Degenkolb e Dumoulin, os três ciclistas mencionados também estão de saída, mas sem que a Sunweb fique muito preocupada. O caminho da equipa é outro e está a demonstrar na Volta a França que tem tudo para ser novamente de sucesso. Oomen vai para a Jumbo-Visma, Kelderman assinou pela Bora-Hansgrohe.

Matthews ficou de fora das escolhas do Tour. Uma surpresa visto a equipa não ter qualquer pretensão à geral. O australiano não escondeu a desilusão e já assinou contrato com a sua antiga formação, a Mitchelton-Scott, com regresso marcado em 2021. À 14ª etapa do Tour percebe-se melhor as escolhas feitas. A Sunweb optou por uma equipa jovem, com ciclistas com ambição de singrar e com oportunidade para o fazer, sem terem de estar "presos" a um ciclista. Algo que teria acontecido se Matthews estivesse na corrida.

A média de idades é de 26,3, com três estreantes no Tour: Joris Nieuwenhuis, Casper Pedersen e Marc Hirschi. Cees Bol está só na segunda presença. Tiesj Benoot foi um dos principais reforços e apesar do segundo lugar no Paris-Nice, não veio ao Tour com pensamento na geral. Nikias Ardnt e Soren Kragh Andersen são dois ciclistas muito fiáveis e Nicolas Roche é, aos 36 anos, a voz da experiência, sempre necessária quando há uma equipa tão nova numa competição tão importante como o Tour. Ardnt já venceu etapas no Giro, Vuelta e Critérium du Dauphiné. Andersen tem agora uma no Tour.

Sem Dumoulin, Oomen, Kelderman e Matthews, as expectativas para a Sunweb eram baixas. Pelo menos para o "mundo exterior". "Repetir coisas não é o que queremos fazer. Gostamos de inovar, tentar coisas novas e pensar em novas possibilidades", explicou o director desportivo Rudi Kemna, ao Cycling Weekly.

De uma equipa que se esperava que passasse relativamente despercebida, eis que a Sunweb se tornou numa das mais entusiasmantes. Nos sprints aposta num Cees Bol de grande talento e que venceu uma etapa na Volta ao Algarve. Anda a ameaçar uma no Tour, mas a concorrência é muito forte. Nas etapas de média montanha tem sido o espectáculo Sunweb.

© ASO/Alex Broadway
A equipa coloca três/quatro ciclistas na frente e começa a atacar à vez. Chega a ter mais do que um na frente, como quando Marc Hirschi ganhou na 12ª etapa. O suíço já tinha ficado perto em duas ocasiões, em mais duas tiradas bem trabalhadas pela Sunweb. Foi um daqueles triunfos que foi consensual em ser considerado mais do que merecido. Na 14ª, foi o dinamarquês Soren Kragh Andersen o autor do ataque vencedor, depois de Benoot ter lançado o primeiro. Ninguém o apanhou.

A Sunweb já sairá do Tour com uma corrida muito positiva e com a certeza que deu espectáculo, algo que, aliás, era também pretendido. Porém, estes jovens ciclistas, mais o veterano Nicolas Roche, não querem ficar por aqui. Têm andado constantemente em fuga e vão continuar a tentar bater aqueles que tentam controlar uma corrida e têm de lidar com ciclistas da Sunweb a atacar de todos os lados.

Esta Volta a França acaba por marcar esta reinvenção da estrutura alemã, que quer continuar a formar jovens - alguns saem da sua equipa de desenvolvimento -, mas pretende aos poucos construir novamente uma equipa para a geral. Romain Bardet (AG2R) vai chegar para dar os primeiros passos nesse trabalho, cujo objectivo é daqui a cerca de seis anos a Sunweb vencer o Tour, segundo afirmou há umas semanas Marc Reef, um dos responsáveis por equipa que tem uma capacidade impressionante de se reinventar com sucesso.

15ª etapa: Lyon - Grand Colombier, 174,5 quilómetros


Para a grande etapa que se espera este domingo, já não se contará com Romain Bardet. O francês caiu na sexta-feira e exames detectaram uma pequena hemorragia cerebral. O ciclista nem sequer partiu para a tirada deste sábado. Uma despedida inglória da AG2R no Tour, onde está há nove temporadas. A AG2R também já não conta com Pierre Latour, que abandonou.

As atenções vão estar todas nos homens da geral, ainda que a luta pela camisola verde continue animada entre Peter Sagan (Bora-Hansgrohe) e o líder da classificação dos pontos, Sam Bennett (Deceuninck-QuickStep).

É o momento de Egan Bernal (Ineos Grenadiers) mostrar a Primoz Roglic (Jumbo-Visma) que tem de contar com ele para a luta pela amarela. A subida é mais ao seu género, longa, com 17,4 quilómetros, isto depois de se ultrapassar duas primeiras categorias. O Grand Colombier tem uma pendente média de 7,1%, mas antes, os ciclistas enfrentarão o Montée de la Selle de Fromentel (11,1 quilómetros, com 8,1% de média) e o Col de la Biche (6,9 quilómetros, a 8,9% de média).

Dia muito complicado em expectativa, recordando-se que Tadej Pogacar (UAE Team Emirates) está a 44 segundos, Bernal a 59, com Rigoberto Uran (EF Pro Cycling) a ser quarto a 1:10 minutos. Luta pela amarela, pelo pódio e pelo top dez em jogo, antes do dia de folga para preparar a última semana do Tour.

»»Aliança eslovena? Nem pensar!««

»»Hirschi finalmente ganhou e ao estilo de Cancellara««

16 de abril de 2019

Sobreviver ao Paris-Roubaix incólume não é fácil. Que o diga Benoot, Keisse, Vanmarcke, Kristoff...

(Fotografia: © Gruber Images/Paris-Roubaix)
No rescaldo do Paris-Roubaix, entre quedas, choques, furos e falhas mecânicas, a corrida ficou estragada para vários ciclistas por incidentes que acontecem em qualquer prova de ciclismo, é certo, mas nesta, é quase mais provável que aconteça alguma coisa, do que um corredor sair completamente incólume dos mais de 250 quilómetros deste Inferno do Norte. Não é à toa que é assim conhecido este monumento. Que o diga Tiesj Benoot. No seu caso, foi algo mais inesperado que aconteceu, terminando não só com a sua corrida, mas com a época de clássicas. O acidentado Wout van Aert (saída de estrada, troca de bicicleta, queda e depois ficar sem forças para seguir com o grupo da frente) foi acompanhado quase todo o tempo na transmissão televisiva, mas houve pormenores com outros ciclistas - falta de energia e de atenção incluídos - que só mais tarde se percebeu o que aconteceu.

Tiesj Benoot (Lotto Soudal) foi visto a tentar recuperar terreno, numa altura em que a câmara acompanhava um Wout van Aert (Jumbo-Visma) a mostrar toda a sua mestria na bicicleta, a passar entre carros para tentar retomar o grupo da frente, depois de ter descolado após uma saída de "estrada" (leia-se pavé) na Trouée d'Arenberg (Floresta de Arenberg). Pensou-se que Benoot até poderia ser um bom aliado para o compatriota apesar de serem de equipa rivais. Porém, Benoot desapareceu das imagens. Mais tarde viu-se que um carro da Jumbo-Visma tinha o vidro traseiro completamente quebrado (imagem em baixo). Foi Benoot que chocou com muita violência contra o veículo.

(Imagem: print screen)
"Numa certa altura, o carro da Jumbo-Visma que estava à minha frente, de repente, fechou tudo [espaço]. Não consegui responder e fui direito a ele. O vidro partiu-se completamente. Um motociclista que vinha atrás de mim, tentou desviar-se de mim e acabou por cair por cima de mim. Quando estava no chão, estava com muitas dores em todo o lado", explicou Benoot ao Het Nieuwsblad.

Resultado: clavícula partida e falhará a Amstel Gold Race, que deveria ser a sua última clássica antes de uma paragem para recuperar forças e pensar na segunda metade da temporada, que terá a Volta a França como ponto alto.

Quem também não ficou nada bem tratado foi Iljo Keisse. O belga da Deceuninck-QuickStep foi contra um poste de sinalização numa ilha de tráfego. Keisse explicou que não viu aquela divisão, pois estava tapado pelo ciclista que ia à sua frente e que se desviou no último instante. Keisse já não conseguiu fazer o mesmo. As dores eram muitas e com razão. Keisse fracturou o cotovelo e teve de ser operado. Nos próximos dez dias terá um gesso no braço.

Entre os problemas mecânicos e furos, Alexander Kristoff (UAE Team Emirates) é capaz de ter ganho o prémio do mais azarado. Com três furos é impossível fazer algo de bom no Paris-Roubaix e ficou novamente bem claro como a escolha errada de equipamento pode fazer toda a diferença. Com os 29 sectores de pavé, alguns extremamente agressivos, todos os pormenores contam e Kristoff admitiu que escolheu mal as rodas e os pneus: tubeless (sem câmara de ar).

"Eu sabia que era um risco, mas estas rodas eram mesmo boas. Tive sucesso com elas nas últimas semanas [ganhou a Gent-Wevelgem e foi terceiro na Volta a Flandres] e sentia-me bem hoje [domingo] até furar. Não vou tentar de novo no próximo ano [com este equipamento]", disse Kristoff ao Cycling News, referindo-se à escolha de rodas que levam pneus tubeless. Ao fim de três furos, regressou ao sistema normal e terminou a corrida, mas a mais de 14 minutos do vencedor Philippe Gilbert.

Talvez ainda mais desiludido tenha ficado Sep Vanmarcke. O ciclista da EF Education First nem surgia como grande favorito dada a lesão no joelho que o afectou nas semanas anteriores, após uma queda. Porém, o belga apareceu em grande forma, mas com este ciclista não há nada a fazer, acontece sempre alguma coisa que o afasta de potenciais vitórias.

Quando Nils Politt (Katusha-Alpecin) atacou, levando com ele Philippe Gilbert (Deceuninck-QuickStep), Vanmarcke desesperava apontando para a sua bicicleta. No momento crucial da corrida não conseguiu mexer as mudanças, ficando preso numa que o obrigou a um enorme esforço. "Nunca me teriam deixado para trás", garantiu o ciclista, que afirmou que se estava a sentir muito bem fisicamente. A passar um dos sectores de pavé mais importantes, o Carrefour de l'Arbre, Vanmarcke ou parava ou tentava continuar até que finalmente pudesse contar com o apoio do carro da equipa que estava mais atrás.

O apoio no Paris-Roubaix é um autêntico inferno e Vanmarcke admitiu que o tempo em que teve de pedalar naquelas condições acabou por esgotar as suas forças. "Teria sido melhor ter ficado em casa no sofá. Assim não estaria tão desiludido como estou agora", afirmou, depois de cortar a meta no quarto lugar.

Para terminar temos Peter Sagan (Bora-Hansgrohe) e vencedor do Paris-Roubaix em 2018 e Greg van Avermaet (CCC), vencedor em 2017. O primeiro repetiu a história da Volta a Flandres e Milano-Sanremo. Está tudo a correr relativamente bem, até parecia estar no seu melhor esta época, mas quando se deu o ataque final: "Faltou-me alguma energia no final."

Se ao eslovaco faltou energia a Avermaet faltou atenção. O belga ficou fora da discussão no ataque feito a cerca de 50 quilómetros da meta e que permitiu formar o grupo de seis ciclistas que seguiu até perto do fim. "Não estava bem acordado quando aqueles seis homens escaparam e a minha corrida ficou praticamente terminada", admitiu Cycling News, acrescentando que não estava bem colocado, estando demasiado atrás no grupo, o que lhe tirou qualquer possibilidade de acompanhar os ciclistas que ficaram na frente.

Para o ano, há mais. Mas  aqui ficam estas imagens espectaculares da perspectiva de quem vai nesta fantástica corrida e que ajudam a perceber como é difícil fazer um Paris-Roubaix sem sofrer qualquer contratempo.


8 de março de 2019

Strade Bianche brilha por direito próprio

(Fotografia. Facebook Strade Bianche)
Pequeno intervalo nas clássicas do norte, do pavé. Faz-se a viagem até ao sul da Europa, para a espantosa paisagem da Toscana. Chamam-lhe o sexto monumento, mas é apenas uma designação oficiosa. A Strade Bianche conquistou os grandes nomes do ciclismo e as principais equipas do pelotão praticamente desde a sua primeira edição. A ascensão foi rápida. É diferente, é desafiadora, é espectacular. Tem a intensidade que faz parte da génese de qualquer monumento, contudo, é ainda jovem - vai para a 13ª edição -, pelo que terá de esperar para talvez um dia ser oficialmente o sexto monumento. Mas será que precisa de ser oficial?

O pavé há muito que faz parte do ciclismo. São percursos centenários, históricos. E são o terror de muitos voltistas, que se preparam ao máximo quando uma etapa destas surge na Volta ao França, quase com tanta preocupação como se de uma alta montanha se tratasse. No entanto, o pavé faz as delícias de outros grandes ciclistas e que o digam os ex-corredores como Peter Sagan e Greg van Avermaet. Já a terra batida foi saindo dos percursos, à medida que as estradas foram sendo alcatroadas, oferecendo melhores condições ao ciclismo. Mas a Strade Bianche prima por isso mesmo: os sectores de terra batida, ou de sterrato, palavra que acaba por fazer parte do léxico do ciclismo e que não assusta tanto ciclistas que têm as grandes voltas como principal objectivo.

Apesar desta referência ao pavé, não se compare a Strade Bianche a um Paris-Roubaix ou uma Volta a Flandres. Fabian Cancellara salientou precisamente isso numa entrevista à Gazzetta dello Sport e o suíço, já retirado, sabe melhor do que ninguém do que fala, pois ganhou três vezes em Itália. Sim, a Strade Bianche tem algumas rampas cuja dificuldade fazem lembrar a Flandres. É definida pelos sectores de sterrato, como as outras duas provas são definidas pelos sectores de pavé. Porém, tem a capacidade de atrair vários tipos de ciclistas e tem uma identidade própria e sem comparação. Thibaut Pinot (Groupama-FDJ) é um defensor que a corrida italiana seja considerada o sexto monumento. Romain Bardet (AG2R) fez segundo há um ano. Michal Kwiatkowski (Sky) já a ganhou duas vezes.

Nenhum vai estar presente neste sábado nos 184 quilómetros que têm Siena como ponto de partida e chegada. Mas haverá Geraint Thomas (Sky), Vincenzo Nibali (Bahrain-Merida), Rafal Majka (Bora-Hansgrohe), Julian Alaphilippe (Decenuninck-QuickStep) e Bauke Mollema (Trek-Segafredo), por exemplo. Até Rui Costa (UAE Team Emirates) trocou este ano o Paris-Nice pelo sterrato da Strade Bianche. Thomas e Nibali nem surpreendem muito. O galês até começou a carreira a prometer ser um forte homem de clássicas e o italiano tem a capacidade para se adaptar a todo o tipo de terreno e adora um bom desafio.

O percurso abre a possibilidade de vários tipos de ciclistas vencerem, mas o destaque vai para nomes como Greg van Avermaet (CCC), Zdenek Stybar (Deceuninck-QuickStep e vencedor em 2015) e Wout van Aert (Jumbo-Visma, fez terceiro há um ano). E claro Tiesj Benoot. Uma das provas que esta é uma corrida que vários ciclistas adoram é o facto de o belga ter feito tudo o que era possível para estar presente, depois de há uma semana ter sofrido uma queda feia na Omloop Het Nieuwsblad, que o obrigou a visitar o hospital. Temeu-se que o vencedor de 2018 não estaria presente em Itália, mas o ciclista da Lotto Soudal quer mesmo estar na luta por um segundo triunfo.

Benoot realçou que há quem subestime a Strade Bianche. Provavelmente quem o faz arrepende-se ao fim de poucos quilómetros! Mas muitos até ficam fãs. Já Wout van Aert recordou como, depois de uma grande corrida, quebrou na rampa final. As cãibras até o fizeram sair da bicicleta e fazer uns poucos metros a pé. Ainda assim foi terceiro. A Strade Bianche é uma corrida que quebra o mais forte e especialista dos ciclistas e Peter Sagan também o sabe. Tem dois segundos lugares que revelam como um grande favorito pode ser quebrado naquela chegada. O eslovaco é outra das ausências, mas que não se tema, haverá espectáculo.


Chegar aos metros finais na discussão da vitória é uma batalha contra os rivais, contra um percurso que elimina quem mostra fraqueza e proibida que se tenha azares, contra si próprio, pois a Strade Bianche exige muito a nível físico e a nível. Se a subida final é um enorme teste, há muitos antes para passar.

"Porque é tão especial? As estradas de terra batida, a paisagem da Toscana, a magia de Siena, os caminhos ondulantes, a tradição..." Quem o diz é Fabian Cancellara. Como venceu três edições (2008, 2012 e 2016) teve direito a dar o seu nome a um sector de sterrato, o único até ao momento com essa distinção e não será este ano que haverá mais alguém, já que só Kwiatkowski está a um triunfo dos três, mas não estará presente.

E há uma boa notícia para os ciclistas: a meteorologia será bem simpática, comparativamente com 2018. Chuva, frio, lama... Benoot conquistou uma daquelas vitórias épicas, mas Greg van Avermaet não se importa nada de dizer que prefere que o sol brilhe e "só" ter de lidar com o pó.

Será a 13ª edição, apenas a terceira como corrida do World Tour, mas é uma corrida digna de monumento. Não, não precisa ser oficial. Só ficará bem se o chegar a ser, mas a Strade Bianche ganhou um estatuto em tão pouco tempo, que dificilmente outra corrida mais recente conseguirá. "Por favor, vamos parar de fazer comparações com Flandres e Roubaix. As estradas de terra batida branca brilham por direito próprio." Diz Cancellara e este sábado vai-se mais uma vez perceber que tem toda a razão.

Lista de inscritos, via Procycling Stats. Além de Rui Costa, também os portugueses Nelson Oliveira (Movistar) e Ruben Guerreiro (Katusha-Alpecin) irão competir neste sábado.


21 de abril de 2018

Benoot critica diferentes decisões para ciclistas que usam ciclovias nas corridas

Tiesj Benoot criticou as recentes decisões dos comissários que tanto castigam um ciclista que passa numa ciclovia durante uma corrida, como deixam outro sem sanção. Os casos em causa envolvem Luke Rowe, na Volta a Flandres, e Peter Sagan, na Amstel Gold Race. O ciclista belga, da Lotto Soudal, não gostou de ver o primeiro ser retirado da competição, enquanto o eslovaco foi até final e não sofreu qualquer castigo. Deixa mesmo entender que há diferentes pesos e medidas dependendo de quem se trata.

"A UCI tem de ser consistente. Se diz que não é permitido e os melhores ciclistas fazem, então tens de os tirar da corrida. Só assim se marca uma posição", afirmou Benoot ao Sporza. "O Rowe ganhou menos vantagem [comparativamente com o Sagan]. Ele teve de sair [da estrada] senão caía. Ele não deveria ter sido retirado da corrida", considerou o belga. A decisão de expulsar o britânico causou alguma surpresa e levou a algumas críticas na altura. O próprio ciclista não concordou, mas foi o primeiro a tentar não criar muita polémica.

As imagens televisivas deixaram de imediato a sensação de que o ciclista viria depois a explicar, ou seja, que ao ver-se na ciclovia e, por consequência, no meio de algum público, Rowe travou e tentou regressar à estrada da forma mais segura possível. O britânico da Sky referiu que dada a luta pela colocação, acabou por ser forçado a ir para a ciclovia, de forma a evitar uma queda. Por causa disso, entrou no Kwaremont na parte de trás do grupo. Ou seja, não tirou qualquer vantagem. Ainda assim, foi obrigado a "encostar" pelos comissários.

Quanto a Sagan, o eslovaco aproveitou para cortar caminho numa curva e assim recolocar-se mais à frente no pelotão. Havia uma diferença: na Volta a Flandres o vídeo-árbitro estava em acção, na Amstel Gold Race não. Ainda assim, as imagens televisivas mostraram claramente o que o líder da Bora-Hansgrohe fez e para Benoot também está em causa quem comete a infracção. "Há dois anos houve pela primeira vez muita discussão sobre as ciclovias. Na Omlopp Het Nieuwsblad, o grupo que liderava, com o Sagan, Avermaet e Vanmacke, andou na ciclovia, mas tinha sido repetido cinco vezes que era proibido. Não foi permitido aos perseguidores seguir o mesmo exemplo e tiveram de andar no pavé. Foi onde perderam a corrida", recordou Benoot.

Este é um assunto que continua a ser muito sensível, com as organizações das corridas de pavé a considerarem que é difícil aplicar as regras da UCI em provas com características tão especiais como estas. Uma das soluções tem sido colocar barreiras, mas há certo locais em que simplesmente não é possível. Ainda recentemente na Kuurne-Brussels-Kuurne, o caminho de pavé ficou completamente vazio, enquanto o pelotão seguiu em fila indiana pela ciclovia na lateral. O director da corrida limitou-se a dizer: "O que posso fazer? Desqualificá-los a todos?"

Os casos que originaram as declarações de Benoot são diferentes e demonstraram como as regras não são aplicadas de forma uniforme, ainda que a decisão que afectou Rowe foi vista como exagerada e não só por Benoot.

Por outro lado, e como exemplo que demonstra que as desqualificações em massa não se podem evitar só porque são muitos a desrespeitar as regras, na recente Scheldeprijs foi deixada uma mensagem muito clara. 35 ciclistas foram imediatamente excluídos da corrida, depois de desrespeitarem a sinalização de uma passagem de nível e entre eles estavam alguns dos grandes nomes do pelotão, como Dylan Groenewegen (Lotto-Jumbo), Arnaud Démare (Groupama-FDJ) e Tony Martin (Katusha-Alpecin). E aqui não havia vídeo-árbitro, mas ninguém escapou. Este foi um assunto que ganhou relevo depois de no Paris-Roubaix, em 2015, alguns ciclistas não terem parado quando a cancela fechou. Houve quem passasse segundos antes do comboio surgir. As sanções endureceram desde então. Além da exclusão, os 35 ciclistas pagaram 100 francos suíços de multa (cerca de 83 euros).


3 de março de 2018

Com Boonen como conselheiro, Benoot cumpriu o que lhe estava destinado

(Fotografia: Facebook Strade Bianche)
O futuro da Bélgica chegou. O próprio sabia que mais cedo ou mais tarde conseguiria uma grande vitória. Ciclistas com a sua qualidade é algo que lhes está destinado. E nada melhor do que conquistar a primeira num cenário épico, em que a lama tornou uma corrida por si só espectacular, numa autêntica luta pela resistência do mais forte. Faltava a Tiesj Benoot uma triunfo que confirmasse as credenciais que já lhe eram reconhecidas. Ela chegou numa Strade Bianche que não será esquecida, pela lama e pela forma como o jovem belga deixou para trás praticamente sozinho toda uma forte concorrência para ganhar a corrida que já se vê como sexto monumento, para já, oficioso.

"Sabia que um dia ganharia algo grande e foi hoje. Sabia que a Strade Bianche era uma grande oportunidade para o fazer", afirmou o ciclista após a corrida que deixou todos os que nela participaram irreconhecíveis, debaixo de uma camada de lama que certamente precisou de um longo duche para sair! Para Benoot esta pode significar mais do que a primeira grande conquista. Para o belga é uma pressão que se liberta - pelo menos um pouco - depois de ter vivido os últimos três anos sob muita. Um quinto lugar na Volta a Flandres quando se tem apenas 21 anos, é uma boa razão para criar essa pressão, principalmente mediática. "É realmente agradável obter o meu primeiro triunfo como profissional. Havia muitas expectativas em meu redor depois do quinto ligar na Volta a Flandres, há três anos. Os jornalistas belgas pressionaram-me muito", desabafou.

Daqui a uma semana Benoot celebrará o 24º aniversário e uma coisa é certa, já é mais do que apenas um dos vários ciclistas que têm vindo a ser apresentados como o próximo Tom Boonen. Benoot está já a trilhar o seu caminho e a deixar uma marca com o seu nome, longe das comparações com a referência belga nas clássicas. A maior semelhança neste momento é o facto de darem espectáculo, contudo, há muito que os separa. Boonen destacou-se como sprinter, além das clássicas, enquanto Benoot já demonstrou características de trepador. O primeiro nasceu para atacar as clássicas do norte, o segundo encaixa bem em algumas destas - logo a começar pela Volta a Flandres -, mas terá nas Ardenas aquelas provas que lhe parecerão perfeitas.

Curiosamente, ou talvez não, a primeira vitória de Benoot chega pouco tempo depois de Tom Boonen ter sido anunciado como conselheiro da equipa belga, depois de falhadas as conversas para assumir um cargo idêntico na formação que representou durante praticamente toda a carreira, a Quick-Step Floors. Mesmo já tendo deixado a competição, Boonen arrisca-se a ser a melhor contratação da Lotto Soudal para as clássicas!

Em 2017 estreou-se numa grande volta, no Tour, e logo com um 20º lugar, quarto na juventude. Se continuar a evoluir como voltista, também poderá haver a tentação de não seguir a senda das clássicas de Boonen e as Ardenas serão certamente a principal aposta, longe dos pavés do norte. Já a Strade Bianche vai encaixando em cada vez mais ciclistas de diferentes características. Romain Bardet (pasme-se!) foi segundo e o homem da AG2R regressa a casa muito feliz, não só pelo resultado, mas por toda a experiência, que incluiu levar os vinhos da região!

Mas o dia é de Benoot. Eis um ciclista que nasceu no coração da Flandres e que tem este tipo de corridas no sangue, como não poderia deixar de ser. É um produto da equipa de desenvolvimento da Lotto Soudal. Em 2014, depois do quarto lugar nos Mundiais, em sub-23, foi chamado para estagiar na estrutura principal. Um oitavo posto na Binche-Chimay-Binche/Memorial Frank Vandenbroucke e dias depois um 16º no Paris-Tours (prova 1.HC) não deixou margem para dúvidas: os responsáveis ofereceram-lhe um contrato profissional.

Em 2015, o brilharete na Volta a Flandres não foi único. Foi também quinto no Grande Prémio de Montreal, quarto no Paris-Tours e deixou logo indicações que poderia ser muito mais do que um homem de clássicas, com o segundo lugar na Volta à Bélgica, atrás de Greg van Avermaet, a apenas 41 segundos. Porém, foi no Critérium du Dauphiné que deixou muitos a olhar para ele, quando se viu ao lado de Chris Froome e Alberto Contador na etapa rainha dessa edição.

Ao contrário do que era quase "exigido" nos meios de comunicação social, a Lotto Soudal não teve pressa em ver Benoot começar a ganhar ou, quanto muito, a andar na frente. A postura foi de deixar a evolução acontecer naturalmente, sem saltar etapas. Foi chamando-o para as clássicas, dando-lhe muitas vezes um papel de joker, ou seja, com liberdade para fazer o seu resultado, testando as suas capacidades. Aos poucos foi também colocando o belga em provas por etapas mais importantes, até que no ano passado levou-o à Volta a França. Antes, tinha passado pela Volta ao Algarve, onde ficou com a camisola branca da juventude.

Benoot é a próxima geração belga que já não é futuro. É o presente. A pressão não irá desaparecer. Agora irá enfrentar a responsabilidade de ter de conseguir mais e melhor... Um monumento, claro está. Porém, será de esperar que a Lotto Soudal se mantenha serena com Benoot. Afinal o caminho tem sido caminhado da forma mais correcta e os resultados estão a aparecer quando o belga demonstra estar mais preparado para os alcançar.

A dúvida será se irá apostar em força nas três semanas. O 20ª lugar no Tour abriu esta porta. É preciso recuar aos anos 70 para encontrar um belga a ganhar uma grande volta. Johan De Muynck venceu o Giro em 1978 e Lucien Van Impe o Tour dois anos antes. Antes claro, que houve o "Canibal" Eddy Merckx. Não deverá ser para já. Agora é altura de se afirmar nas clássicas e ir ganhando experiência nas três semanas, estando prevista nova presença no Tour.

Benoot seguirá agora para o Tirreno-Adriatico, antes de regressar às clássicas. Fará E3 Harelbeke a pensar na Volta a Flandres. Irá depois para a tripla das Ardenas e será muito interessante vê-lo lado a lado com o veterano Alejandro Valverde e outro jovem talento, mas francês, Julian Alaphilippe, isto para dar apenas dois nomes da lista de fortes candidatos, mas que em 2018 são três figuras dos primeiros dois meses de competições.

A corrida

Para já é altura de aproveitar este momento épico da Strade Bianche. Foram 184 quilómetros nas estradas de terra batida - o famoso sterrato - da zona da Toscânia. O mau tempo que está a afectar a Europa, principalmente a zona centro, mas a apanhar também Itália, criou um cenário que tanto pode ser visto como um inferno, ou então levado com alguma boa disposição, como muitos ciclistas o fizeram... antes da corrida, claro!

Romain Bardet estava a ser uma das figuras. O francês surpreendeu quando se chegou ao grupo da frente, onde estavam, entre outros, Valverde (Movistar), Peter Sagan (Bora-Hansgrohe), Zdenek Stybar (Quick-Step Floors) e Michal Kwiatkowski (Sky) - todos homens que já fizeram pódio, ou ganharam a corrida - e não demorou a atacar. Afastou-se juntamente com outro jovem belga de quem muito se irá falar, Wout Van Aert. O campeão do mundo de ciclocrosse está a fazer um início espectacular de época na estrada, pela Vérandas Willems-Crelan. Destacou-se na Omloop Het Nieuwsblad e agora fez pódio numa Strade Bianche com condições parecidas às da sua especialidade.

Benoot percebeu que no grupo ninguém se estava a entender e levou o compatriota Pieter Serry com ele. O ciclista da Quick-Step Floors foi uma ajuda durante alguns quilómetros, mas com os sectores de sterrato a chegarem ao fim, Benoot acelerou e acabou sozinho na perseguição. Chegou-se à frente, respirou um pouco e novo ataque. Perfeito! Grande corrida de Benoot. Grande corrida no geral.

Quanto a portugueses, José Gonçalves (Katusha-Alpecin), que há um ano ficou à porta do top dez, foi o melhor na 27ª posição, a 9:46 de Benoot. Nelson Oliveira foi 46º a 19:27 e o companheiro da Movistar, Nuno Bico, abandonou.

De referir que a Strade Bianche abriu o calendário World Tour feminino, com Anna van der Breggen (Boels-Dolmans) a vencer isolada (pode ver aqui a classificação).

Aqui fica a classificação da corrida masculina, via ProCyclingStats.


»»Tom Boonen vai ser conselheiro na rival da Quick-Step Floors««

»»Avermaet prefere ter Sagan ao seu lado nas clássicas««


30 de novembro de 2017

Apagão de Greipel e os heróis improváveis que salvaram a época da Lotto Soudal

Um gesto que se viu tão pouco este ano por parte de Greipel
(Fotografia: Giro d'Italia)
André Greipel eclipsou-se e a Lotto Soudal tremeu. Valeu que em alturas como estas, quando uma equipa tem ciclistas de qualidade, há sempre a possibilidade de surgirem uns heróis improváveis. Que o diga Tomasz Marczynski, o polaco que foi à Vuelta vencer duas etapas e ajudar a Lotto Soudal a recompor uma temporada mais discreta, muito porque o seu sprinter teve o seu pior ano desde 2007, altura em que era lançador de Mark Cavendish na T-Mobile. Mas a formação não teve só Greipel a render menos. Tony Gallopin passou mais um ano sem confirmar as eternas expectativas e tornou-se claro que o seu tempo na equipa belga tinha chegado ao fim. Com apenas uma vitória em 2017 e com uma Volta à França muito aquém - ficou fora do top 20 - o francês vai rumar à AG2R.

Porém, o que preocupa mesmo a Lotto Soudal é Greipel. Não é equipa para lutar por uma geral do Giro, Tour ou Vuelta e, por isso, não haverá grande preocupação com a saída de Gallopin, mas aposta tudo na vitória de etapas. E o alemão tem sido a grande referência. Só somou cinco triunfos, incluindo na Volta a Itália (até vestiu a camisola rosa por um dia) e no Algarve, onde ganhou também a classificação por pontos. Pior só mesmo em 2007 quando ganhou por duas vezes e desde 2011 que não somava menos de 10 triunfos. A chama apagou-se, o próprio não escondeu o desânimo: "Perdi completamente o meu instinto na bicicleta." Crónico vencedor de etapas nas grandes voltas, ganhava pelo menos uma nas que participava desde 2008. No Tour não deu para esconder mais que não tinha capacidade para fazer frente ao super Kittel e mesmo quando o rival alemão já não estava em prova, perdeu para Dylan Groenewegen nos Campos Elísios.


Ranking: 13º (5466 pontos)
Vitórias: 25 (incluindo uma etapa no Giro, quatro na Vuelta e uma na Volta ao Algarve)
Ciclista com mais triunfos: Tim Wellens (7)

Se a estatística dissesse tudo, então dir-se-ia que a Lotto Soudal fez uma temporada dentro do normal. Porém, há mais além dos número. Para uma equipa do estatuto e orçamento da belga, são precisas vitórias importantes. Valeu Marczynski, que aos 33 anos somava triunfos em provas secundárias quando esteve nos escalões inferiores, mas estava na equipa como homem de trabalho e nada mais. Dupla vitória na Vuelta é para não mais esquecer! Thomas de Gendt - que também ganhou no Critérium du Dauphiné - deu um toque de história ao tornar-se num ciclista a vencer etapas nas três grandes, enquanto Sander Armée (31) também apareceu para garantir então quatro vitórias para a Lotto Soudal na Vuelta. Mais um ciclista a conquistar a vitória mais importante da carreira, a única diga-se, de forma inesperada. Sim, é caso para dizer que a temporada ficou salva na Volta a Espanha.

Apesar dos 35 anos, a equipa não irá desistir de Greipel em 2018 e não seria descabido tentar que o alemão até apostasse um pouco mais nas clássicas. Porém, os responsáveis irão exigir mais de ciclistas que está na altura de elevarem o seu ciclismo a outro nível. Caso de Tim Wellens. Aparece aqui e ali, soma uma ou outra vitória - como no Giro no ano passado -, mas este belga de 26 anos pode e deve fazer mais. Ganhou sete vezes em 2017, mas demora a afirmar-se nas grandes corridas. Terá de assumir outra responsabilidade na equipa e não passar tanto tempo despercebido. Tem qualidade para muito mais.

A carreira de Tiesj Benoot tem sido gerida com muito cuidado e com razão. Eis um jovem de grande potencial e há que não precipitar. No entanto, já demonstrou que pode lutar por vitórias em corridas importantes, tanto em clássicas, ou mesmo em algumas por etapas. Mas é nas de um dia que a Lotto Soudal poderá tentar tirar mais partido no imediato do belga de 23 anos, que em 2017 deixou indicações que está pronto para assumir outra relevância na equipa. A chegada de Jens Keukeleire (Orica-Scott) vem reforçar o bloco de clássicas e em boa hora.

2017 foi um ano que soube a pouco para uma Lotto Soudal habituada a estar na ribalta. Será o fim de um ciclo com Greipel? Independentemente do que o ciclista faça em 2018, a equipa terá de preparar o futuro pós-Greipel e assim continuar a ser uma das mais fortes do pelotão, no que diz respeito a conquistas de etapas nos grandes palcos da modalidade.

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