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14 de outubro de 2019

Froome e Bernal. Líder e gregário no Tour?

(Fotografia: Facebook Team Ineos)
Não é novo ver Chris Froome dar entrevistas aproveitando para falar sobre companheiros de equipa que podem rivalizar com ele a liderança da equipa na Volta a França. Foi assim com Geraint Thomas e é agora com Egan Bernal. Se com o galês Froome tentou "empurrar" o colega para o Giro no início de 2019, dizendo como o percurso italiano assentava bem a Thomas, quando este tinha deixado bem claro que queria ir ao Tour tentar uma segunda vitória, desta feita Froome parece querer ter Bernal a seu lado. No entanto, está desde já a tentar deixar bem definido quem é o número um, se a condição física o permitir. Pelas palavras do britânico, o colombiano irá usar esse dorsal por ser o vencedor de 2019, mas na prática poderá ser um gregário de luxo para Froome, o número um da Ineos. Por enquanto...

Se vai ser mesmo assim, é uma daquelas questões que muito se vai discutir até à grande volta francesa, mesmo que ainda falte cerca de nove meses para a corrida. Um dia antes da apresentação do percurso para 2020 (10:30, com transmissão no Eurosport), Froome não está a querer perder tempo em colocar todos no seu lugar. O que não será uma missão nada fácil e não se resolverá só por palavras ou por estatuto.

À France Télévisions, Froome afirmou que Bernal lhe garantiu que o iria ajudar a ganhar a quinta Volta a França, o que fará o britânico igualar o recorde. Mas Froome não quer mostrar que está a impor o quer que seja e sabe ser politicamente correcto: "Eu precisarei de ser o mais forte. Se ele [Bernal] for o mais forte, então ficarei feliz se ele ganhar porque a corrida é assim, o ciclista mais forte ganha." E de facto, a primeira questão a responder na Ineos é se Froome vai recuperar o nível depois da grave queda sofrida em Junho, no Critérium du Dauphiné. Porém, fica já publicamente dito que Bernal se disponibilizou para não ser a principal aposta da Ineos.

Egan Bernal venceu a Volta a França o que o colocou mais rapidamente no estatuto de grande figura da Ineos e do ciclismo mundial. Já se sabia que seria o sucessor de Froome, mas agora já é a confirmação de um dos maiores talentos da modalidade. Geraint Thomas não encarou muito bem ter ficado atrás de Bernal nas escolhas da Ineos no último Tour, apesar de ter sido ele a vencer em 2018 e a ver vamos como reagirá Froome se lhe acontecer o mesmo.

Froome tem a perfeita percepção que o seu tempo está a terminar, mas aos 34 anos quer pelo menos mais essa quinta conquista e na mesma entrevista disse que não está a pensar retirar-se se não conseguir ser o ciclista que era antes da queda. "Todos me dizem que devo parar enquanto estou no topo, mas eu adoro ciclismo e quero continuar. Se não conseguir ganhar, então irei ajudar alguém a ganhar", afirmou, reiterando, para que fique bem claro que ainda falta a tal quinta Volta a França.

Froome vai regressar à competição no final do mês, no Critérium de Saitama, no Japão e vai fazendo o que sempre soube fazer bem: mostrar confiança e que tendo condição física, não vai deixar de tentar ganhar, haja Bernal, Thomas ou seja quem for. Não o fez por Geraint Thomas no ano passado, mesmo quando se tornou claro que o galês era o mais forte, e Bernal poderá esperar o mesmo se Froome conseguir estar em França para discutir a vitória.

E vai ser interessante ver como a Ineos vai gerir as suas figuras. Os tempos de todos por um líder ficam para trás. Foi o estilo que marcou a imagem da Sky, mas nos últimos dois anos tudo tem mudado e vai mudar ainda mais. Se Bernal de facto aceitar ser gregário de Froome, mesmo que fique sempre como segunda opção no Tour de 2020, irá querer lutar por uma grande volta. Vai ao Giro? Thomas já percebeu que o seu estatuto caiu a pique e começou a "namorar" um regresso a Itália, mas Bernal poderá ser a principal opção.

Mas então onde encaixa Richard Carapaz? Não vai tentar vencer novamente o Giro? É um dos reforços da Ineos, oriundo da Movistar e sabe que ao Tour não irá certamente como líder, pelo que a ida a Itália e à Vuelta poderão ser objectivos, se a equipa não quiser criar uma super estrutura para o Tour, mesmo que isso signifique ter de lidar com muitos egos.

E ainda há Pavel Sivakov que esteve bem no Giro como líder - na ausência por lesão de Bernal -, terminando na nona posição, além de ter ganho a Volta aos Alpes e a Volta à Polónia. O russo tem apenas 22 anos, pelo que não se importará de esperar mais uma ou duas temporadas até que tenha a responsabilidade de fazer mais do que um top dez numa grande volta. Mas, ainda assim, é outro ciclista que a Ineos terá de saber manter motivado para as três semanas.

Thomas é cada vez mais o elemento que vê fechar-se as portas de destaque. Há um ano optou por renovar até 2021 pela Ineos, então Sky, preferindo a continuidade e não o risco de aceitar um novo projecto. A CCC bem teria gostado de contar com o galês. Estava em alta, tinha ganho brilhantemente o Tour, mas 12 meses depois tudo mudou. O próprio admitiu que ser segundo na Volta a França não lhe dava qualquer tipo de mediatismo.

A luta interna na Ineos começa a ganhar forma e muito, mas mesmo muito, se vai falar e escrever sobre uma equipa que tem os líderes aqui referidos, mas também Michal Kwiatkowski, Tao Geoghegan Hart, Iván Ramiro Sosa, Jhonatan Narváez, Eddie Dunbar, Gianni Moscon... todos ciclistas que ou já querem mais, ou em breve vão querer.


7 de maio de 2019

Ineos não mexe no bloco do Tour e vai ao Giro com a equipa mais jovem da sua história

(Imagem: Team Ineos)
Com seis dos oito ciclistas a terem 25 ou menos anos, a Ineos vai mesmo mostrar os seus jovens na Volta a Itália. Com a inesperada ausência de Egan Bernal, ficou a dúvida  quem substituiria o colombiana. A vaga foi preenchida por Eddie Dunbar, irlandês que chegou em Setembro após o fim da Aqua Blue Sport. Mas não irá como líder. Também Iván Ramiro Sosa entrou no oito do Giro, depois de Gianni Moscon não ter convencido em corridas recentes, tendo a Volta à Califórnia como destino neste mesmo de Maio.

"Nas últimas duas épocas temos estado a trazer um grupo de jovens ciclistas seleccionados cuidadosamente e que acreditamos que serão o futuro da nossa equipa. Com este desenvolvimento em mente, escolhemos preencher [com jovens] a nossa mais nova formação de sempre para uma grande volta e é adequado que seja a nossa primeira Team Ineos", explicou o director Dave Brailsford. A média de idades é de 25,25 anos.

Com Wout Poels e David de la Cruz a serem opções de maior experiência e no caso do holandês já está a pedir há algum tempo uma oportunidade de liderar a equipa em prova de três semanas, os responsáveis acabaram por premiar as boas exibições de Tao Geoghegan Hart (24 anos) e Pavel Sivakov (21), com os dois a assumirem o papel de destaque na ausência de Bernal. O colombiano sofreu uma queda num treino, fracturando a clavícula. Dunbar (22) será um homem de apoio, assim como Iván Ramiro Sosa (21). Estes dois ciclistas, mais Jhonatan Narváez (22) vão fazer a sua estreia em grandes voltas.

Hart e Sivakov estiveram na Vuelta no ano passado, pelo Brailsford salientou a necessidade de chamar homens experientes, para assim encontrar algum equilíbrio e certamente para ter vozes de comando entre jovens que, de repente, se vêem com muita responsabilidade. Christian Knees tem 38 anos e 19 grandes voltas, enquanto Salvatore Puccio, 29 anos, tem 10. Sebastián Henao vai na sua sexta temporada na formação britânica, mas alguma falta de regularidade tem afastado o colombiano de maior protagonismo. Ainda assim, tem quatro Giros feitos, aos 25 anos.

Poels é um dos gregários de luxo da estrutura no Tour, tal como Michal Kwiatkowski. Ambos poderiam ter sido eleitos, mas a Ineos não quer mexer num núcleo duro que dá tantas garantias para enfrentar o Tour. David de la Cruz poderá ficar "guardado" para a Vuelta, ainda que em 2018 tenha desiludido, não conseguindo lidar com a pressão de ter de mostrar resultados. Chris Froome e Geraint Thomas eram cartas fora do baralho para o Giro, pelo que a Ineos vai mesmo tentar que os ciclistas que quer ver como as referências da modalidade num futuro muito próximo se mostrem à altura do desafio.

Com Bernal a Ineos iria apostar na luta pela maglia rosa, pois mesmo que só tenha feito uma grande volta, os resultados e exibições demonstram que é um ciclista preparado para começar a discutir este tipo de feitos. Sem o colombiano, a esperança é bem menor. Hart e Sivakov estiveram a grande nível na Volta aos Alpes. O primeiro venceu duas etapas, o segundo ganhou uma e a geral. Porém, será uma realidade bem diferente num Giro de três semanas e com muitos corredores mais experientes e num momento de forma muito forte.

A Sky despediu-se com a juventude a ganhar nos Alpes e a Ineos estreou-se com outro jovem talento a vencer em Yorkshire (Chris Lawless). A pressão sobre Hart e Sivakov será enorme, pois estão numa equipa exemplar no que a três semanas diz respeito, mas, por outro lado, o objectivo passará muito para que os dois, tal como Dunbar, Narváez e Sosa, ganhem experiência.

Vencer a geral parece improvável. Ganhar etapas, absolutamente possível, assim como uma classificação da juventude, por exemplo. A vontade de mostrarem que podem responder a esta chamada carregada de responsabilidade com competitividade, poderá fazer destes jovens uns animadores interessantes num Giro que ficou mais pobre sem Bernal, mas a Ineos tratou de dar outro ponto de interesse.

A Volta a Itália arranca no próximo sábado em Bolonha, com um contra-relógio individual.

Aqui ficam algumas das equipas já confirmadas para a 102ª edição do Giro, salvo alguma alteração de última hora.

Ineos: Christian Knees, Eddie Dunbar,  Jonathan Narvaéz, Tao Geoghegan Hart, Pavel Sivakov, Sebastián Henao, Iván Ramiro Sosa, Salvatore Puccio;

Astana: Miguel Ángel López, Andrey Zeits, Dario Cataldo, Davide Villella, Ion Izagirre, Jan Hirt, Manuele Boaro, Pello Bilbao;

Bahrain-Merida: Vincenzo Nibali, Andrea Garosia, Antonio Nibali, Damiano Caruso, Domenico Pozzovivo, Grega Bole, Kristijan Koren, Valerio Agnoli;

Mitchelton-Scott: Simon Yates, Brent Bookwalter, Christopher Juul-Jensen, Jack Bauer, Johan Esteban Chaves, Lucas Hamilton, Luke Durbridge, Mikel Nieve;

Movistar: Mikel Landa, Andrey Amador, Antonio Pedrero, Héctor Carretero, Jasha Sütterlin, José Joaquín Rojas, Lluís Mas, Richard Carapaz;

Jumbo-Visma: Primoz Roglic, Antwan Tolhoek, Jos van Emden, Koen Bouwman, Laurens de Plus, Paul Martens, Sepp Kuss, Tom Leezer;

Sunweb: Tom Dumoulin, Chad Haga, Chris Hamilton, Jai Hindley, Jan Bakelants, Louis Vervaeke, Robert Power, Sam Oomen.

»»Bernal vai falhar o Giro. Quem irá substituir o colombiano?««

»»Moscon também não vai ao Giro««

»»A nova geração está pronta para continuar o legado Sky na Ineos««

26 de abril de 2019

A nova geração está pronta para continuar o legado Sky na Ineos

(Fotografia: Facebook Team Sky)
A Volta aos Alpes marcou o adeus vitorioso da Sky. Na especialidade desta equipa, corridas por etapas, nada como uma exibição de grande nível, ainda mais dos jovens que se preparam para ser o rosto da Ineos, o novo nome da formação a partir de 30 de Abril, na Volta à Romandia. A despedida da Sky será na Liège-Bastogne-Liège, nunca foram o ponto forte, pelo que o triunfo na corrida alpina teve um enorme significado, ainda mais por quem foi alcançado.

Pavel Sivakov chegou com Egan Bernal à estrutura em 2018. O colombiano "pegou" de imediato, o russo precisou de um maior período de adaptação. Bernal tinha a vantagem de ter passado dois anos na equipa italiana Profissional Continental Androni, de Gianni Savio, enquanto Sivakov tinha competido apenas a nível de sub-23. A experiência competitiva fez a diferença na forma como cada um singrou na Sky.

No ano antes a assinar pela equipa britânica, Sivakov foi fenomenal entre os sub-23. Somou vitórias importantes, como na Ronde de l'Isard e no Giro Ciclistico d'Italia, mas principalmente tinha somou grandes exibições. Chegou rotulado como próxima estrela, mas enquanto Bernal rapidamente se tornou cabeça-de-cartaz, Sivakov foi discreto.

Ritmo diferente para eventualmente chegar ao mesmo estatuto, com algumas lesões pelo meio. Ainda não está ao nível de Bernal, mas mostra que para lá caminha. Na Volta aos Alpes, o russo colocou na estrada de uma competição de muito espectáculo e dificuldade todo o seu potencial. Venceu uma etapa e ganhou a geral, não se intimidando com um Vincenzo Nibali (Bahrain-Merida) que muito o atacou, mas nunca conseguiu que o jovem Sivakov cedesse. No final até o italiano se rendeu à classe do russo, mas não só. É que Tao Geoghegan Hart fez algo que não se vê muito: sentar Nibali.

O britânico, de 24 anos, dois mais velho que Sivakov, também se estreou a vencer como profissional tal como o russo. Ficou com duas etapas e na chegada a Cles, no sprint com Nibali, deixou o italiano a sentar-se, derrotado pela sua força naqueles metros finais de muitos quilómetros a subir (e descer). Já no ano passado Hart tinha deixado excelentes indicações, tornando-se no escudeiro de Egan Bernal, ficando na memória como ambos estiveram tão bem na Volta à Califórnia que o colombiano conquistou. Ao ter uma oportunidade, Hart aproveitou-a e, além das etapas, subiu ao pódio na Volta aos Alpes, no segundo lugar (a 27 segundos), depois de um brilhante trabalho de ajuda a Sivakov. Com a evolução que tem demonstrado, não demorará muito para Hart merecer subir mais na hierarquia da equipa.

Chris Froome acrescentou a Volta aos Alpes ao seu calendário, para tentar ganhar mais ritmo, ele que das poucas vezes que tem competido, mal se tem visto. Na corrida italiana acabou como gregário e teve o seu papel na vitória de Sivakov, algo que certamente marcará o russo. Não é qualquer um que possa dizer que teve um vencedor das três grandes voltas, incluindo quatro Tours, a puxá-lo e a responder a ataques dos rivais para ajudar um jovem líder.

Se é o início de uma passagem de testemunho, os próximos meses o dirão. Até porque, falta saber em que ciclista se irá tornar Sivakov. Bernal é claramente um voltista. O russo tem capacidade para se adaptar a mais terrenos. Bernal tem um poder de arranque em montanha. Sivakov tem um impressionante poder de arranque em terrenos não tão inclinados. Porém, não seria de surpreender ver Sivakov tornar-se também ele num ciclista para as grandes voltas. Para já irá fazer da jovem equipa da Ineos que estará na Volta a Itália, com Bernal como líder.

Será a geração de 1997 em força, pois tanto estes dois ciclistas, como Iván Ramiro Sosa nasceram num ano muito generoso para o ciclismo. Bjorg Lambrecht (Lotto Soudal), Pascal Eenkhoorn (Jumbo-Visma), Max Kanter (Sunweb) e Gino Mäder (Dimension Data), são outros exemplos de ciclistas que muito prometem e que nasceram naquele ano. E a Sky tem mais um: Jhonatan Narváez.

Além de Bernal, Hart, Sivakov e Sosa, a Ineos (há que começar a habituar a este nome) deverá levar a Itália Gianni Moscon (25 anos), Sebastián Henao (25) e Salvatore Puccio, que poderá ser o "veterano" de 29 anos, pois ainda falta conhecer o oitavo elemento.

O tempo de Froome e Geraint Thomas ainda não acabou, mas não durará muito mais. Foram dois ciclistas que marcaram a Sky, mas os nomes que poderão marcar a Ineos estão aí, numa equipa que tem apostado forte na contratação de jovens talentos, pois há ainda a ter em conta Eddie Dunbar, Kristoffer Halvorsen, Filippo Ganna, Chris Lawless, sem esquecer Owain Doull, um especialista para as clássicas clássicas. Não perdendo a sua ligação às origens britânicas, a Sky/Ineos ameaça alargar o seu leque de grandes figuras do ciclismo a outras nacionalidades

Certo é que o futuro da Sky/Ineos já é bem presente e a expectativa para o Giro será muito alta, mesmo com a falta de experiência dos seus jovens, que em talento, capacidade física e mesmo em inteligência táctica já demonstram muita maturidade.

O nome Sky irá sair de cena na Liége-Bastogne-Liège de domingo, numa das poucas clássicas que a equipa conquistou. É um dos dois monumentos que tem. Foi o primeiro, dado por Wout Poels, em 2016, com Michal Kwiatkowski a ganhar a Milano-Sanremo no ano seguinte. E os dois estarão na edição deste ano da Liège. Não sendo os favoritos de topo, são fortes candidatos a um adeus que seria perfeito para a Sky, depois da tremenda Volta aos Alpes dos seus jovens ciclistas.


22 de agosto de 2018

A vez de Kwiatkowski, mas atenção a dois jovens ciclistas

Equipa da Sky para a Vuelta (Imagem: Team Sky)
Primeiro era Geraint Thomas que teria a Vuelta no seu calendário. Depois, Chris Froome ganhou o Giro e a Sky começou a pensar num feito que mais ninguém se atreveria a pensar: ganhar as três conquistar voltas no mesmo ano, com o mesmo ciclista. Froome acabou por não vencer o Tour, pelo que ficou imediatamente riscado da lista para Espanha. Thomas também acabou por não ser chamado. Abriram-se outras portas, com David de la Cruz desejoso de se mostrar como líder da Sky, ele que esteve a época toda à espera deste momento. Porém, por mais que se queira assumir como o número um, há um Michal Kwiatkowski que tem a oportunidade desejada: lutar por uma grande volta.

O polaco apareceu de rompante no panorama mundial, sagrando-se campeão do mundo aos 24 anos, somando vitórias em clássicas e outros resultados de topo que o destacaram numa então Omega Pharma-QuickStep (actual Quick-Step Floors). A Sky "agarrou-o" em 2016 e não foram fáceis os primeiros tempos numa equipa com uma forma de trabalhar bem diferente da formação belga. De estrela em ascensão, Kwiatkowski teve de se adaptar à mentalidade de tudo por um líder e, aos poucos, ir encontrando o seu espaço. No ano passado, o polaco ganhou um monumento, a Milano-Sanremo e regressou à consistência de resultados, além de ser um exímio homem de trabalho para Chris Froome.

É um ciclista que prima pela discrição, pelo que apesar de ser mais um dos corredores da Sky que afirmou querer ser líder numa grande volta - à imagem por exemplo de Wout Poels e de Geraint Thomas, no caso do galês o desejo está mais do que concretizado -, nunca o fez em tom de ultimato. O facto de ter um contrato até 2020 demonstra precisamente como está satisfeito com o seu papel na equipa britânica e pronto para esperar pela oportunidade.

Com as reviravoltas que a época teve para a Sky, Kwiatkowski vê-se agora onde queria. Se há clássicas que lhe assentam bem, este é um daqueles ciclistas que tem nas provas por etapas mais uma arma. Um corredor completo. Venceu duas Voltas ao Algarve e recentemente conquistou a "sua" Volta à Polónia. Mas claro, ganhar o Tirreno-Adriatico permitiu-lhe afirmar-se ainda mais como o grande ciclista que merece mais do que ser um gregário.

Esta será a sua segunda Vuelta, não tendo terminado em 2016. São sete as grandes voltas no currículo deste ciclista de 28 anos. Terá Kwiatkowski capacidade para liderar? É uma questão que se colocou sobre Geraint Thomas e a resposta foi uma vitória no Tour. Claro que para o polaco o panorama é diferente. O ciclista esteve ao lado do galês em França, pelo que o desgaste físico será um factor a ter em conta, comparativamente com alguns dos adversários que irá enfrentar.

Talvez por isso David de la Cruz fale como um líder. A Sky pode não ter o seu duo de vencedores, Froome e Thomas, mas não significa que não tenha pretensões a um pouco mais de história: vencer as três grandes voltas no mesmo ano, com três ciclistas diferentes! Esta equipa está a encontrar formas de gravar o seu nome entre as melhores de sempre do ciclismo.

No entanto, De la Cruz - que fez o Giro, mas a época foi preparada a pensar na Vuelta - poderá ver-se ofuscado não só por Kwiatkowski - que certamente quererá pelo menos uma etapa irá querer -, mas também por dois jovens que muito estão a entusiasmar. Começando por Tao Geoghegan Hart. Estagiou na Sky, mas foi amadurecer na equipa de Axel Merckx, a actual Hagens Berman Axeon, durante dois anos. Em 2017 regressou e foi colocado em corridas com menor pressão. Esta temporada apareceu como um ciclista que deixou muitos de boca aberta. Que trabalho brilhante fez na Volta à Califórnia para outro jovem, Egan Bernal! Mas as boas prestações repetiram-se noutras provas e aí está a sua primeira grande volta.

Numa entrevista ao Cycling News, Tao Geoghegan Hart disse que ainda não sabia se ficaria confinado ao trabalho de gregário. Mas seja o que for que lhe esteja destinado, o britânico de 23 está no lote de ciclistas a seguir com muita, muita atenção. Mas não está sozinho. Pavel Sivakov é o russo que muito se fala, mas que ainda está precisamente naquele ano de adaptação, durante o qual a Sky não coloca demasiada pressão num ciclista de apenas 21 anos.

Sivakov é apontado por muitos como mais um ciclista de enorme potencial. Bernal, também ele um estreante na Sky e no World Tour, "roubou" muitas das atenções em 2018, entrando desde logo a um nível muito elevado. A explosão de Sivakov está para chegar, pois não parecem existir dúvidas que irá acontecer. Se será já na Vuelta, tudo dependerá do papel que lhe está destinado, à imagem do que acontece com Tao Geoghegan Hart.

Jonathan Castroviejo, Sergio Henao, Salvatore Puccio e Dylan van Baarle completam uma equipa sem as duas principais estrelas, mas com um Kwiatkowski que é dos melhores ciclistas do pelotão internacional e com dois jovens que podem nesta Vuelta iniciar um caminho rumo a uma carreira que para já promete bastante. Agora que venha a confirmação de todo o talento que lhes é reconhecido. A nova geração está aí e a Sky pode muito bem ter três das futuras estrelas: Bernal, Hart e Sivakov.

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