Rod Ellingworth foi preponderante em tornar a Sky (actual Ineos) numa referência, além de, antes de integrar a equipa, ter ajudado ciclistas a notabilizarem-se, como foi o caso de Mark Cavendish e Geraint Thomas. O director de performance da formação britânica já abraçou a sua nova função na Bahrain-Merida, que tem estado muito activa no mercado de transferências. Termina a era Vincenzo Nibali e, para já, a aposta está a ser principalmente em ciclistas com experiência ao mais alto nível, numa clara tentativa de procurar vitórias importantes rapidamente. Só esta quarta-feira foram anunciados seis reforços, com destaque para Pello Bilbao e Rafael Valls, dois espanhóis que podem tornar-se nos principais aliados de Mikel Landa, o novo líder para as três semanas e que, finalmente, assina por uma equipa que lhe dá esse estatuto sem concorrência interna.
Eros Capecchi (33 anos, Deceuninck-QuickStep), Scott Davies (24, Dimension Data), Marco Haller (28, Katusha-Alpecin) e o Kevin Inkelaar (22, Groupama-FDJ Continental) foram anunciados juntamente com Bilbao (29, Astana) e Valls (32, Movistar). O jovem holandês Inkelaar é o único que não tem experiência World Tour, pois o britânico Davies tem dois anos de Dimension Data e este ano fez o Giro, a sua primeira grande volta. Antes de "dar o salto" passou pela Team Wiggins. Com a excepção de Haller, todos são ciclistas com características para provas por etapas.
"A equipa vai concentrar-se nas três semanas. Há corredores com experiência em idade e vamos dar o máximo rendimento. O projecto tem boa pinta", afirmou Bilbao à Rádio Marca, admitindo que o acordo há muito que estava fechado e que não foi difícil decidir ao saber que Landa iria para a Bahrain-Merida, deixando a Movistar, tal como Valls. A estes nomes junta-se Wout Poels, homem de confiança na Ineos (ex-Sky) e que Ellingworth conhece bem. Aos 32 anos, o holandês sabia que dificilmente iria liderar a equipa numa grande volta, ainda que tenha tido essa hipótese na última Vuelta, que correu muito mal à Ineos. Poels tanto poderá estar ao lado de Landa, como poderá ter algum protagonismo na Volta a Itália ou Espanha.
Quanto ao austríaco Marco Haller poderá ser a preparação de um comboio para Mark Cavendish. O britânico tem sido dado como provável reforço da Bahrain-Merida, mas ainda nada foi oficializado. Mas a equipa mantém Sonny Colbrelli no plantel, pelo que Haller poderá sempre ser importante na ajuda ao italiano tanto nos sprints, mas também nas clássicas, duas vertentes em que o jovem espanhol Iván Cortina (23 anos) vai começando a confirmar alguns créditos.
Matej Mohoric (24), Mark Padun (23), Hermann Pernsteiner (29) e, claro, Dylan Teuns (27) serão ciclistas que Ellingworth quererá tirar maior rendimento, com o belga a ganhar muito crédito depois de se destacar no Tour e na Vuelta deste ano. Na primeira corrida venceu uma etapa, na segunda vestiu a camisola vermelha da liderança. O director também queria contar com Rohan Dennis, mas a equipa decidiu terminar o contrato depois de uma relação difícil e que culminou com o abandono aparentemente sem explicação do ciclista no Tour.
Para trás fica a ligação entre o xeque Nasser bin Hamad Al Khalifa, dono da equipa, e Vincenzo Nibali, que em 2017 assumiu a liderança da equipa, tendo escolhido ciclistas da sua confiança. Venceu dois monumentos, venceu etapas em grandes voltas e o pódio no Giro e Vuelta, além de outros momentos de destaque. Faltou um sucesso no Tour para Nibali.
O caminho agora é outro para ambos. Nibali vai para a Trek-Segafredo e o desejo na Bahrain-Merida é atingir o nível de uma Ineos e nada melhor do que contratar um dos homens que muito contribuiu para tornar a formação britânica no que é hoje. Ellingworth é desde logo uma das grandes contratações da Bahrain-Merida e sem esquecer que a estrutura neste último ano tem contado com o apoio da McLaren na colaboração técnica, performance humana de alto nível e serviços de marketing e comercial.
Adepto provocou queda de López que reagiu (Imagem: print screen)
E aqui estamos de novo. Sempre que um adepto se esquece de comportar como tal e acaba a arruinar meses de trabalho de um ou até mais ciclistas, fica aquela muito ínfima esperança que se aprenda de vez a lição. Mas claro que já se sabe que tal não acontece. Hoje foi Miguel Ángel López. Há uns meses havia sido Vincenzo Nibali no Tour e os exemplos vão-se sucedendo. Para a maioria não é difícil perceber que há que, acima de tudo que respeitar os ciclistas. Mas haverá sempre aquela minoria que procura os seus segundos de fama na televisão, ou que tenta tirar selfies em pleno andamento (!) e o tradicional "vamos lá correr ao lado dos ciclistas, só porque sim".
Já neste Giro se tinha visto um adepto dar um trambolhão ao tentar correr ao lado dos ciclistas. Felizmente estava já um pouco para trás do grupo e acabou por ser apenas um momento que ficará bem no programa Watts do Eurosport. O momento de López será um que exemplificará toda a frustração de quem vê uma etapa estragada por quem não sabe ser adepto. Ganhar a tirada seria complicado numa fase em que o colombiano da Astana tinha perdido contacto com o grupo de Richard Carapaz. Mas ainda estava em jogo melhorar a classificação na geral.
Faltavam cerca de cinco quilómetros para o final da última montanha da Volta a Itália. Ambiente espectacular, uma multidão a apoiar os ciclistas. Numa zona que parecia ser um pouco mais tranquila, um adepto provoca a queda de López quando estava a correr ao lado dos ciclistas e ficou sem espaço porque havia mais espectadores na berma, parados, "apenas" a aplaudir. Como deve ser. López reagiu com fúria. Agrediu com umas chapadas o homem. Meses a preparar uma corrida como esta, para num instante tudo ficar estragado. López não ia ganhar o Giro, mas ainda tinha objectivos. O colombiano perdeu 1:49 para o vencedor, o companheiro Pello Bilbao. Menos quatro segundos para Carapaz, o líder do Giro.
A reacção de López até se pode dizer que é compreensível, contudo, não deixa de ser errada, pelo que rapidamente surgiram os rumores de uma possível expulsão da Volta a Itália. O regulamento da UCI assim o prevê, com o acréscimo de uma multa de 200 francos suíços, cerca de 178 euros. Porém, segundo o Cycling Weekly, os comissários terão considerado que López teve uma reacção humana e o ciclista da Astana vai poder terminar o Giro. Se assim for, ainda bem. O ciclista da Astana já pediu desculpa, mas não escondeu o descontentamento pelo sucedido, pedindo respeito e realçando o grave que uma situação destas pode ser se se fractura algo e se é obrigado a ir para casa. Foi o que aconteceu com Nibali no Tour, numa queda provocada por um adepto que lhe estragou a restante temporada.
López bem pode dizer que lhe aconteceu de tudo numa Volta a Itália que queria tanto conquistar. Furos, avarias mecânicas, quebras físicas, um adepto a atirá-lo ao chão... Também teve bons momentos, mas sairá do Giro sem uma vitória de etapa, sem a camisola rosa e sem pódio. Isto no que diz respeito à geral, pois subirá ao pódio para levar novamente a camisola branca da juventude, a não ser que faça um péssimo contra-relógio, pois, mesmo com a queda, ficou com 1:53 minutos para gerir sobre Pavel Sivakov (Ineos).
Já Primoz Roglic não recebeu benevolência alguma dos comissários. Não é preciso provocar quedas para estragar corridas. Empurrar ciclistas mais uma vez só porque sim, também faz estragos. Não é inédito corredores receberem ajudas do público, principalmente quando estão longe da frente da corrida e a tentar sobreviver às etapas de montanha. Muitos deles são sprinters. Não é legal, mas tem sido algo que se fecha os olhos.
Porém, quando em directo se empurra um dos candidatos à geral, tem tudo para correr mal para o ciclista visado. Durante vários segundos Roglic foi empurrado por um adepto, que foi "rendido" por outro. O esloveno da Jumbo-Visma não fez qualquer gesto para afastar os dois homens e isso foi fatal. Dez segundos de penalização até acaba por ser simpático, mas ao juntar ao tempo perdido na estrada, significa que está a 3:16 de Richard Carapaz e a vitória no Giro está longe de depender só da sua classe como contra-relogista. Além disso, saiu do pódio, apesar dos 23 segundos para Mikel Landa certamente não assustarem Roglic.
Atenção aos empurrões aos ciclistas, podem prejudicar como aconteceu a Roglic e podem, em casos mais graves, provocar quedas, pois muitas vezes não estão à espera e a mudança de velocidade pode desequilibrar o atleta.
Há ainda mais um exemplo de mau comportamento. Recuando uma semana, Marco Haller tinha andado em fuga, estava esgotado e quando tentava passar pela confusão que é sempre a zona da chegada, com adeptos, staff da organização, das equipas, jornalistas, o ciclista da Katusha-Alpecin tinha o bidão seguro pelos dentes quando um homem lhe tenta tirá-lo. Pequena dica: normalmente basta pedir! Se o ciclista não precisar da bebida, costuma aceder ao pedido. Haller reagiu também com fúria, sendo muito pouco simpático e com razão.
O ciclismo sem adeptos na estrada é uma modalidade triste - será difícil esquecer aquele ambiente desolador do Mundial do Qatar, por exemplo -, mas com adeptos a estragar corridas, o ciclismo vive muito bem sem eles. Respeito, por favor!
Dezassete quilómetros separam Richard Carapaz de um triunfo pouco ou nada esperado. Se alguém apostou no equatoriano, terá a conta bancária certamente bem mais preenchida amanhã. Era um candidato, um outsider, na sombra de Mikel Landa. Se confirmar o que neste momento se vê como provável, Carapaz não estará na sombra de mais ninguém na Movistar, com a equipa a ganhar mais um líder. O ciclista de 26 anos estava a ser preparado para um dia assumir essa responsabilidade, mas resolveu que estava na altura e não quis ser um plano B se Landa falhasse. O espanhol até começou mal o Giro, mas Carapaz fez a sua corrida, ganhou duas etapas e deixou Landa na sua sombra.
Dezassete quilómetros para que em Verona possa tornar-se no primeiro equatoriano a ganhar uma grande volta e a dar uma saudável dor de cabeça à equipa. Todos os líderes estão em final de contrato, tal como Carapaz. Em quem Eusebio Unzué irá apostar? É certo que Alejandro Valverde terá sempre lugar na equipa até se retirar, mas também já não é ciclista para discutir grandes voltas, salvo uma surpresa. A pressão aumenta para Nairo Quintana na Volta a França... E também mantém-se a incógnita com Landa.
Carapaz tem 1:54 para segurar a maglia rosa sobre Vincenzo Nibali. O italiano da Bahrain-Merida é melhor do que o equatoriano nesta vertente, mas em condições normais será muito complicado haver uma última reviravolta. Mikel Landa também dificilmente cumprirá o objectivo de pelo menos chegar ao pódio, mas depois de uma má primeira semana, o espanhol foi dos mais activos e quando foi preciso, soube ser um verdadeiro companheiro de equipa. Desta vez, colocou mesmo de lado os seus interesses em prol de Carapaz.
Ganhou a Movistar que está toda de parabéns! Funcionou como um colectivo coeso, sem divisões e eis a diferença para o que tem acontecido nos últimos dois anos: está perto de conquistar novamente uma grande volta.
Roglic seria uma preocupação, mas os 3:16 são de mais. Mas claro, o imprevisto acontece. O esloveno só tem de ir a fundo para fechar pelo menos no pódio e esperar que Carapaz tenha um mau dia. Depois do que já se viu neste Giro, é de pensar que tudo pode acontecer. Como curiosidade, por três vezes o Giro assistiu a uma mudança de líder no contra-relógio da derradeira etapa: 1984, de Laurent Fignon para Francesco Moser; 2012, de Joaquim Rodriguez para Ryder Hesjedal e em 2017, de Nairo Quintana para Tom Dumoulin. Classificações completas, via ProCyclingStats.
21ª e última etapa: Verona - Verona (contra-relógio), 17 quilómetros
E assim chegamos ao fim de três semanas de competição. As forças já não são muitas, mas há um contra-relógio individual para completar, com uma subida de 4,5 quilómetros, com uma pendente média de 5% pelo meio. Será um contra-relógio com fases algo técnicas devido às estradas estreitas, curvas que exigem atenção e cuidado para não se perder muito tempo nelas.
A primeira longa semana do Giro aproxima-se do fim. Ainda faltam duas etapas para a primeira pausa, mas já lá vão sete, a maioria longas. Muito longas. A Volta a Itália quebrou com uma tendência recente de se ter etapas mais curtas e explosivas e menos destas maratonas. Estas vão continuar a aparecer nas próximas duas semanas e há que esperar por aquelas que vão ter a alta montanha a acompanhar. É que se o Giro tem tido pontos de interesse, o espectáculo tem estado muito reduzido a um bom contra-relógio inicial, às discussões pelas vitórias de etapas, com destaque para os sprints de Pascal Ackermann. Os homens da geral andam sossegados. Ninguém se tem mostrado.
Faz pensar "que bom seria ter aquele Simon Yates a mexer nas subidas logo de início". Mas o britânico aprendeu o preço que se paga por ser um homem a dar espectáculo tão cedo e nenhum dos candidatos está disposto a desgastar-se mais, principalmente em etapas longas que, dia após dia vão deixando as suas marcas, mesmo que não tenham encontrado as maiores das dificuldades. As subidas já têm tido as suas fases exigentes, mas são uma ou duas por dia e de primeira categoria, nem vê-las.
Têm-se ficado à espera de ver quando alguém tentará fazer um teste. Porém, só uma queda acabou por fazer as primeiras diferenças, além do contra-relógio inaugural, e atirou para fora da corrida um antigo vencedor do Giro: Tom Dumoulin. Nem nas subidas mais curtas e explosivas, nem nas mais longas, ninguém se mexe.
A sétima etapa, desta sexta-feira, até se pode dizer que foi curta: 185 quilómetros. E foi bastante rápida, quebrando com alguma apatia de certos dias. A menos extensa foi a de quarta (140). Já são quatro tiradas acima dos 200 e este sábado serão 239, antes de mais um contra-relógio. Será o dia mais longo e a maioria dos quilómetros serão planos. O cansaço nas pernas já se vai sentindo, não esquecendo que o mau tempo que já apareceu no Giro também tem o seu efeito. E domingo é dia de um contra-relógio que, esse sim, fará novas diferenças que uns querem que sejam significativas (Primoz Roglic, por exemplo), outros vão tentar minimizar perdas (Simon Yates e Miguel Ángel López).
Mas então, quando é que os homens da geral vão começar a mostrar-se? Se este sábado se mantiverem todos sossegados como até agora, a pensar mais no contra-relógio, talvez na próxima quinta-feira, quando surgir a primeira grande subida. Segunda é dia de descanso, terça e quarta são duas etapas completamente planas, a primeira com 145 quilómetros, a segunda com 221. A não ser que o vento, ou outro factor externo se intrometa no controlo do pelotão, então espera-se que seja a subida a Montoso anime um Giro a precisar de um abanão que não se limite a reviravoltas estranhas, como a liderança de Valerio Conti (UAE Team Emirates), que deixou os principais candidatos a mais de cinco minutos da maglia rosa.
A boa notícia é que quinta, sexta e sábado da próxima semana haverá alta montanha e depois de tantos dias com tão pouca actividade das principais figuras da geral, cresce a ânsia de ver os favoritos em acção e começar a perceber como estão. Não está a ser inesperada esta primeira fase do Giro mais discreta de alguns ciclistas, pois se a organização resolveu recuperar a versão das etapas longas numa grande volta, também colocou juntas etapas decisivas mais à frente na corrida e que vão testar não só a forma, mas a capacidade de recuperação, depois de tantos quilómetros feitos.
Desta feita não houve uma distância tão grande dos fugitivos do dia, até porque a UAE Team Emirates deu tudo o que tinha e ainda teve uma ajuda preciosa da Trek-Segafredo para garantir que José Joaquín Rojas (Movistar) não tirava a rosa a Valerio Conti. O espanhol foi novamente para a frente e quase viveu um dos dias mais importantes da sua carreira, ele que é um eterno gregário. Conti sobreviveu na liderança e Pello Bilbao venceu pela primeira vez numa grande volta e abriu a contagem de uma Astana que aposta forte em Miguel Ángel López, ainda que o espanhol até esteja agora à frente do líder na classificação.
As principais novidades do dia acabaram por ser dois dos três abandonos. A UAE Team Emirates pode concentrar-se por completo na defesa da maglia rosa, pois perdeu Fernando Gaviria, que se queixou de dores no joelho. O colombiano sai de Itália com uma etapa que o próprio admitiu não sentir que tivesse ganho, pois considerou que o sprint de Elia Viviani tinha sido legal. O italiano da Deceuninck-QuickStep foi desclassificado por ter desviado a trajectória, prejudicando Matteo Moschetti. A UAE Team Emirates está reduzida a seis ciclistas, pois Juan Sebastián Molano foi mandado para casa devido a resultados anómalos em testes realizados internamente.
Um daqueles pormenores a analisar mais à frente na corrida será o abandono de Laurens de Plus. Tem sido um dos braços direitos de Primoz Roglic em 2019, mas uma infecção na garganta estava a limitar o belga praticamente desde o início do Giro. Com uma sétima etapa feita a um ritmo mais elevado, De Plus não aguentou. Que falta fará quando as principais tiradas chegarem? É uma perda para Roglic.
De referir que Sacha Modolo, o sprinter da EF Education First, também já não está em prova, em mais uma corrida em que o italiano passou despercebido. Classificações completas, via ProCyclingStats.
Os últimos 100 quilómetros serão de sobe e desce, com uma terceira categoria e duas quartas. Atenção aos derradeiros sete, que serão em descida técnica.
Uns acabam por não estar na linha da frente, mas estão a realizar uma boa Volta a Itália. Outros andam perdidos no pelotão e quase dá para esquecer que lá estão. Muito se fala de Simon Yates, Chris Froome, Elia Viviani ou pela negativa de Miguel Ángel López, mas aqui ficam outros nomes que também merecem destaque, depois de uma primeira semana de corrida bastante intensa, com a segunda a arrancar esta terça-feira e que começa logo com uma segunda categoria nos primeiros quilómetros.
Ben O'Connor (Dimension Data): Anda, como quem não quer a coisa, entre os melhores. Já foi perdendo algum tempo, mas ainda assim são apenas 2:36 (14º lugar) para o maglia rosa Simon Yates. Este jovem australiano (22 anos) apresentou-se na Volta ao Alpes, com uma excelente vitória de etapa, numa fuga solitária bem sucedida. Foi sétimo na geral e venceu a classificação da juventude. Então esteve muito melhor do que o líder Louis Meintjes e o mesmo está a acontecer no Giro. O sul-africano está a 5:44. O'Connor está com um papel livre dentro da equipa, visto que Meintjes não está a corresponder e o australiano aproveita para agarrar a oportunidade. Exibição muito positiva até agora e terá agora a possibilidade de perceber como o corpo reagirá a uma prova de três semanas. Sim, está a fazer a sua estreia em grandes voltas. A juventude poderá ser uma luta a pensar, pois tem 1:16 a recuperar para Richard Carapaz (Movistar).
Patrick Konrad (Bora-Hansgrohe): Está um pouco com Ben O'Connor. Como quem não quer a coisa, lá anda ele a muito bom ritmo. Davide Formolo, o líder, caiu na sexta etapa, do Etna, e perdeu tempo, o que coloca Konrad como o melhor da equipa na geral: 12º, a 2:34. Formolo está a 5:49. O austríaco, de 26 anos, está na Bora-Hansgrohe desde que esta ainda estava no escalão Profissional Continental. Já tem top dez em corridas como Paris-Nice e Volta ao País basco, tendo sido 16 no Giro há um ano. Numa formação que muito apostou na contratação de estrelas, Konrad não perdeu nem a confiança, nem espaço, mesmo que Rafal Majka seja o número um, no que diz respeito a grandes voltas. Konrad continua a sua evolução e com uma primeira semana muito regular, enquanto Formolo poderá ir à procura de etapas, o austríaco poderá pensar em chegar ao top dez.
Jack Haig (Mitchelton-Scott): Que luxo de gregário está este australiano a ser. Se Simon Yates está de rosa e Johan Esteban Chaves em segundo muito se deve ao brilhante trabalho de Haig. Vasil Kiryienka costuma ser uma locomotiva a impor ritmo na Sky, mas neste Giro é Haig que está a ter esse papel, que muitas dificuldades tem provocado aos adversários, "destruindo" as equipas, isolando os líderes. Não é justo salientar apenas Haig, quando Roman Kreuziger e Mikel Nieve também têm estado muito bem, sem esquecer Christopher Juul-Jensen, Sam Bewley e Svein Tuft, estes dois últimos mais chamados antes da alta montanha aparecer. Porém, Haig tem sido uma figura imponente na frente do grupo de favoritos e Yates bem pode oferecer-lhe já uma das maglias rosas que vestiu até ao momento! E atenção, só tem 24 anos!
Sam Oomen (Sunweb): A maioria dos ciclistas escolhidos para estar ao lado de Tom Dumoulin no Giro são muito jovens. Mas qualidade não lhes falta e Sam Oomen continua a comprovar isso mesmo. Estreou-se em grande voltas no ano passado em Espanha, tendo abandonado. No Giro, o holandês tenta afirmar-se no tipo de corridas que aspira um dia estar a discutir. A consistência deste corredor, de apenas 22 anos, está bem patente nos seus números: só num dia terminou fora do top 30 e mesmo assim foi 32º. Seja etapa plana ou de montanha, onde é mais chamado a trabalhar, Oomen está "colado" ao seu líder. Está a 2:54 de Simon Yates, na 17ª posição, o que faz dele o melhor gregário na geral depois de Pello Bilbao (Astana) e que acaba assim por estar também na discussão da juventude, a 1:34 de Carapaz.
Pello Bilbao (Astana): O espanhol ia ser um homem importante na ajuda a Miguel Ángel López, mas perante o descalabro do colombiano, vê-se como o ciclista que está melhor colocado na geral da equipa cazaque. Tem vindo a perder tempo e a diferença entre ambos é de 29 segundos, mas isso significa que Bilbao está no top dez e López não. O espanhol é um bom trepador e cumpre a sua sexta grande volta. É o seu segundo Giro e tem quatro Vueltas. A Astana não estará disposta a "deixar cair" o seu líder, nem que seja para o levar à vitória de uma etapa e à classificação da juventude (tem 1:14 minutos de desvantagem para Carapaz). Porém, com ambos os ciclistas a mais de dois minutos, mas com Bilbao a mostrar-se regular, o espanhol poderá ficar à espera de eventualmente ter um pouco de liberdade. Poderá estar dependente se López recupera ou não tempo neste início de primeira semana. E se ele próprio não continuar a perder tempo.
Depois destes exemplos positivos, temos os ciclistas de quem se esperaria já ter falado bastante mais por boas razões. No entanto, andam discretos. Caso de John Darwin Atapuma. O colombiano tem de ajudar Fabio Aru, é certo, mas o italiano tem ficado isolado muito cedo e Atapuma também não apareceu na luta por uma etapa. Talvez por não ter ordens para o fazer, devido à ajuda a Aru, mas desaparece tão rápido da frente que é uma desilusão não se ver mais deste ciclistas da UAE Team Emirates. Ben Hermans e Ruben Plaza foram contratados pela Israel Cycling Academy para serem figuras durante este Giro, que começou precisamente na casa da equipa. Já se viu um pouco de Hermans, mas pouco. O veterano espanhol, de 38 anos, vai acumulando tempo - já tem mais de 25 a mais que Yates -, e talvez esteja a tentar um dos seus famosos ataques para conquistar a sonhada etapa por esta equipa. Seja qual for o plano, esperava-se um pouco mais de ambos.
Hugh Carthy (EF Education First-Drapac p/b Cannondale) é um daqueles ciclistas que dá vontade de perguntar: o que é que se passa? Só tem 23 anos, mas está no segundo ano na equipa americana e ainda não conseguiu mostrar o nível que atingiu na Caja Rural. A responsabilidade é diferente, é certo, mas tendo em conta que está com alguma liberdade, como se viu na fuga que integrou no domingo, este britânico não está a conseguir confirmar o que se esperava dele. Mas ainda vai muito a tempo. Uma pneumonia é algo que dá cabo de qualquer preparação, seja para que corrida for. Foi em Março, a recuperação não foi fácil e se não se esperava que Gianluca Brambilla andasse a discutir a geral (longe disso). Já animar algumas fugas seria um objectivo. Foi muito fugaz o que fez no domingo e não foi convincente. O ciclista viveu momentos incríveis em 2016, quando venceu uma etapa e andou de rosa dois dias. Mudou-se para a Trek-Segafredo, deixando a Quick-Step Floors - para ter um papel de maior destaque, mas terá de fazer bem melhor para justificar a aposta da equipa.
Para terminar, Wout Poels. Que falta está a fazer a Chris Froome. Tudo corre mal ao britânico, mas é impossível não notar como esta Sky está tão diferente daquela que se vê no Tour, com Poels a ser o principal destaque, pela negativa. Desaparece cedo da frente, estando longe da forma desejada.
Que venha a segunda semana do Giro, que terá um fim-de-semana muito interessante à espera do pelotão, mas começa logo com duas etapas de sobe e desce. A desta terça-feira, tem então uma segunda categoria logo no início (ver imagem em baixo), ainda antes dos dez quilómetros. Será também a tirada mais longa da corrida, com 239 quilómetros a ligar Penne a Gualdo Tadino.
Pello Bilbao é a prova como dar um passo atrás pode mesmo significar mais tarde dar dois à frente. Ainda como sub-23 abriram-se as portas do World Tour através da Euskaltel-Euskadi. A famosa equipa do País Basco, de onde é o ciclista, revelou ser uma grande escola para este então jovem talento espanhol. Depois de três temporadas, passou por um momento sempre difícil. A formação não teve condições para continuar e Bilbao, tal como os restantes ciclistas - entre eles o português Ricardo Mestre - viram-se obrigados a procurar novos rumos. Para quem ainda estava a tentar afirmar-se, foi na Caja Rural que viu a melhor estrutura para continuar uma evolução promissora. Agora está na segunda temporada pela Astana e nesta segunda-feira foi a figura que acabou por selar algo que simplesmente parecia ser o mais correcto, para não dizer óbvio, acontecer: ser um ciclista da equipa cazaque a ganhar a primeira etapa da Volta aos Alpes. Há um ano, Michele Scarponi vencia, quebrando um péssimo momento da Astana, que ainda não tinha vencido em 2017. Vestiu a camisola da liderança e foi uma das figuras da corrida, numa altura em que se preparava para voltar a ser o chefe-de-fila no Giro. Dias depois, ainda mal tinha chegado a casa após a corrida, saiu para treinar e não mais voltou. Morreu vítima de atropelamento. "É [a vitória] mais especial devido às circunstâncias. Há um ano o Scarpa venceu esta etapa. Durante todo o ano ele tem estado no nosso pensamento. É uma honra vestir esta camisola [da liderança] em Itália, no seu país. Claro que a vitória é para ele e para a sua família", salientou Bilbao, que acrescentou: "Ele foi uma importante inspiração para toda a equipa." Foram três anos na Caja Rural a trabalhar para conseguir regressar ao World Tour. Foi na Astana que Bilbao conseguiu dar os dois passos à frente que o próprio admitiu. Foi uma aventura bem-vinda, para sair do ambiente espanhol a que estava habituado, como então o próprio chegou a admitir. Bilbao chegou a uma equipa que tinha Michele Scarponi como um dos principais mentores dos mais novos, cuja experiência nunca se importava de partilhar. O italiano tinha um papel muito relevante nesse aspecto e era também por isso que, aos 37 anos, Alexander Vinokourov tinha completa confiança em Scarpa. 12 meses depois a Astana está transformada numa equipa ganhadora, não se concentrando tanto apenas nas grandes voltas. Naturalmente que contribui para isso ter perdido Fabio Aru, mas também porque os ciclistas encontraram uma diferente forma de retirar inspiração de Scarponi. Uma mudança de mentalidade que não hesitam em ligar ao italiano, mas claro que vai além disso. Vejamos o caso de Pello Bilbao. Ir para uma equipa cazaque, com uma forma bem diferente de trabalhar de uma Caja Rural ou de uma Euskaltel-Euskadi, com ciclistas de várias nacionalidades - entra a questão do idioma - e com uma ambição e responsabilidade muito mais elevada, tudo isto obrigou a uma adaptação. No final da temporada passada, depois de ter sido dos ciclistas do World Tour que somou mais dias de competição, Bilbao não escondeu que precisou de alguns meses para se sentir completamente integrado. Prometeu mais e melhor para 2018 e eis a resposta vitoriosa, depois de um início de temporada animador, com destaque para o oitavo lugar na Volta ao País Basco. Bom trepador, contra-relogista quanto baste e ainda um rolador que é melhor não dar muito espaço, como mostrou nesta primeira etapa da Volta ao Alpes, na chegada a Folgaria. Depois de ataques de Thibaut Pinot (FDJ), Fabio Aru (UAE Team Emirates), Chris Froome (Sky), Bilbao aguentou bem na subida, veio de trás para escapar a todos e com a ajuda da bonificação deixou os principais candidatos a 20 segundos ou mais. Esta foi a vitória mais importante na sua carreira, tendo duas etapas na Volta à Turquia, uma na Volta a Castela e Leão, venceu a Klasika Primavera de Amorebieta em 2014 e o Tour de Beauce no ano seguinte. Sempre ao serviço da Caja Rural, onde encontrou liberdade que agora goza menos na Astana. Falta a afirmação numa grande volta, mas há um enorme ponto de interrogação de quando essa oportunidade chegará. Vinokourov pode ter ficado furioso com saída de Aru e por este ter alegadamente avisado tarde de mais para se contratado um substituto. Porém, o director da Astana confia em Jakob Fuglsang e alimenta uma enorme esperança (e com razão) em Miguel Ángel López. A oportunidade de Bilbao é esta: ser um excelente escudeiro do colombiano no Giro. O espanhol já afirmou que o companheiro tem qualidade para aspirar a mais do que um top dez. Bilbao terá de começar por se mostrar assim e, aos 28 anos, ainda vai a tempo de conseguir um dia ter a sua liderança. Vários são os exemplos de gregários de luxo que recebem o prémio de ser um dia líderes. Contudo, sabe que tem de fazer por merecer. O espanhol terá, para já, de ser um líder num bloco forte no apoio a "Superman" López e a verdade é que esta Astana tem tido muitas parecenças nas suas vitórias, inclusivamente com a deste domingo na Amstel Gold Race, por Michael Valgren. Nos momentos decisivos é das poucas equipas, senão a única, a ter mais do que um elemento presente no grupo da frente. Depois aposta na individualidade certa para o ataque final. Se conseguir níveis exibicionais colectivos idênticos no Giro, então a individualidade López (que grande ciclista que poderá estar a aparecer) será ainda mais um caso sério a ter em conta entre os candidatos, mesmo que na lista estejam Pinot. Aru, Froome, Tom Dumoulin... E é possível que se veja já um pouco dessa Astana na Volta aos Alpes, já que o colombiano está em prova. Bilbao e López podem vir a formar uma dupla muito interessante. Pode ver aqui as classificações da primeira etapa da Volta aos Alpes, que conta com um português em prova: Amaro Antunes. O ciclista da CCC Sprandi Polkowice foi 28º, a 1:13 do vencedor. »»Valgren a tornar o seu nome num dos grandes da Astana«« »»Astana perdeu Aru, está sem financiamento, mas reencontrou-se com as vitórias««