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2 de outubro de 2017

Lesões de ciclista abalroado por carro nos Mundiais são mais graves

(Fotografia: Twitter Joni Kanerva)
Joni Kanerva encontra-se a recuperar no hospital das lesões que são mais graves do que o inicialmente avançado. O jovem ciclista finlandês foi abalroado pelo carro de apoio da selecção Argentina durante a corrida de sub-23, nos Mundiais de Bergen. Naquele momento circulava-se a cerca de 70 quilómetros/hora e a queda de Kanerva foi  muito aparatosa, pois acabou por ser atirado contra as barreiras. Na altura foi adiantado que o ciclista tinha partido a clavícula e umas costelas. Afinal a situação é bem pior e foi o próprio quem confirmou.

"No hospital pensei que tinha sido uma queda normal, mas afinal foi um pouco pior", afirmou ao site finlandês Kymen Sanomat. Além das lesões avançadas inicialmente, Kanerva fracturou a vértebra C1 e ficou ferido gravemente na zona da bacia. Perdeu parte da orelha, mas que os médicos conseguiram recuperar, apesar de Kanerva ter dito que não foi um trabalho fácil, tendo precisado de muitos pontos. Sofreu ainda uma concussão.

É a lesão no pescoço que poderá provocar mais problemas na recuperação do jovem corredor de 22 anos. "De acordo com os médicos a fractura está estável e não é necessário uma intervenção cirúrgica", explicou. Kanerva irá passar mais uns dias no hospital, mas serão precisas várias semanas até que possa pensar em regressar aos treinos.

A UCI multou o responsável pelo acidente em dois mil francos suíços (cerca de 1750 euros), mas poderão ser aplicadas mais sanções. Já as autoridades norueguesas estão a investigar o acidente que aconteceu há pouco mais de uma semana.

Kanerva parece tentar manter alguma boa disposição, mas referiu que ninguém da comitiva argentina lhe dirigiu qualquer palavra. "Eu tive alguma sorte. As lesões são graves, mas podiam ser piores", afirmou. "Ninguém me pediu desculpa. A polícia sabe quem era o condutor e dizem que há acusações sérias tanto da polícia, como da UCI", acrescentou.

Um veículo parou para dar apoio a um ciclista, o que levou o carro da Argentina a desviar-se. Porém, Kanerva estava naquele momento a passar. "Olhei para baixo por um breve momento e quando levantei a cabeça o carro estava à minha frente", explicou. O ciclista foi atirado ao chão, mas o condutor do carro nem sequer parou, seguindo a grande velocidade. Daniel Martin, irlandês da Quick-Step Floors, enviou uma mensagem a Kanerva, via Twitter, na qual referia precisamente esse facto: o condutor não parou para ajudar o ciclista. O ciclista diz mesmo que deveria ser banido.



28 de setembro de 2017

Contas derraparam e noruegueses estão a ajudar a pagar Mundiais de Bergen

(Fotografia: Facebook 2017 UCI Road World Championships)
A derrapagem nas contas dos Mundiais de Bergen ronda, para já, os sete milhões de euros. Porém, numa altura em que se está a terminar a contabilidade da competição de oito dias, ainda faltam registar algumas facturas, pelo que valor poderá subir. O sucesso dos Mundiais naquela cidade norueguesa foi bem visível, com o público a aderir em massa ao evento. Muitos também vêem como foi uma excelente forma de promover Bergen a nível turístico. Talvez por tudo isso, os noruegueses estão a ajudar a pagar. Ao ser divulgado o problema financeiro, somaram-se as doações, tendo sido mesmo iniciado um crowdfunding que já tem mais de 300 mil euros.

"Nós aqui em Bergen2017 estamos orgulhosos do povo norueguês pelo seu comprometimento para com os Mundiais através da iniciativa começada pelo próprio [povo]", lê-se na página de Facebook dos campeonatos. Estes casos não são novos. Os Mundiais de Ponferrada, por exemplo, ainda dão muito que falar em Espanha, três anos depois. A derrapagem já vai em 12 milhões euros...

Para se perceber melhor, os Mundiais de Bergen tinham um orçamento de 16,6 milhões de euros, mas o custo já vai em 23,5. Para agravar a situação, alguns media locais estão a noticiar que a federação norueguesa pode estar perto da bancarrota. O presidente do organismo, Harald Tiedemann, disse na semana passada que estava preocupado com os custos e como se iria pagá-los. "Não posso negar que haverá grandes perdas. Só espero que aquelas pessoas com influência possam apreciar a fantástica promoção de Bergen e de todo o país e que não permitam que a federação sangre devido a isso", afirmou o responsável.

Com o lançamento do crowdfunding, espera-se que uma parte do problema possa ser amenizado. No entanto, perante o exemplo de Ponferrada, o assustador cenário de dívidas é algo que para já não está a ser afastado.


26 de setembro de 2017

Sagan não compete mais este ano e foi relaxar no BTT

(Fotografia: Bora-Hansgrohe)
Não vamos ver mais o tricampeão do mundo com a sua camisola arco-íris na estrada este ano. Cumprido o objectivo nos Mundiais, Peter Sagan quer agora aproveitar para se dedicar à família, tendo como desejo estar presente no nascimento do seu primeiro filho. O eslovaco só regressa à competição em 2018 e tem já definido as duas corridas que vão assumir grande importância na sua temporada: a Milano-Sanremo e o Paris-Roubaix são para ganhar. Esta decisão de não competir mais em 2017 significa que não se cumprirá a tradição de ver o campeão do mundo na Lombardia, o que não é surpresa, já que não é uma das clássicas que melhor assente a Sagan. Talvez mais tarde na carreira, se quiser e estiver na condição de ser um dos ciclistas a vencer os cinco monumentos. Para já, só tem a Volta a Flandres.

"Quero fazer as coisas que não tenho tempo para fazer durante a temporada e quero dedicar-me à família. Agora vou para casa e desfrutar da família o máximo que puder. Durante a época estou longe, a viajar para algum lugar no mundo. Agora quero aproveitar estas coisas e preparar-me para a chegada do bebé", afirmou Peter Sagan, numa conferência de imprensa em Lienz, na Áustria. O filho está previsto nascer no final de Outubro ou no início de Novembro.

Peter Sagan termina a época em alta, mas 2017 foi algo aziago. Conquistou 12 vitórias, contudo, falhou dois dos objectivos. Nas clássicas não ganhou qualquer dos monumentos, conquistando apenas a Kuurne-Bruxelles-Kuurne, que apesar de uma importante corrida da fase do pavé, nem pertence ao World Tour. Foi batido por Michal Kwiatkowski na Milano-Sanremo, acabou por nem estar na discussão do Paris-Roubaix e antes caiu na Volta a Flandres quando perseguia Philippe Gilbert. Depois foi o episódio da Volta a França, numa expulsão polémica e que Sagan apenas quer deixar no passado, mas será difícil esquecer. Terminou em grande com os Mundiais, tendo antes conquistado a Grande Prémio do Quebeque.
(Fotografia: Bora-Hansgrohe)

Sagan na estrada só para o ano, em competição, claro, mas entretanto já se sabe como o eslovaco gosta de trocar a bicicleta por uma de BTT. Desde os Jogos Olímpicos que não vai a corridas, mas sempre que pode vai dar a sua volta acompanhado por amigos. A sua presença na Áustria também esteve relacionada com a apresentação do Alban Lakata Mountainbike-Trail naquele país. E Sagan não se fez de rogado e foi experimentar.


25 de setembro de 2017

Moscon entre o talento e a polémica: foi desqualificado dos Mundiais

(Fotografia: Jérémy-Günther-Heinz Jähnick
Deinze-Nokere Koerse/Wikimedia Commons)
Quis fazer de 2017 o ano da afirmação, depois de um 2016 de estreia no World Tour, e logo na Sky, com resultados que deixaram a equipa britânica a sorrir. Ficou claro que o italiano poderá ser uma boa aposta para as clássicas, mas que também poderia vir a ser útil ao serviço de Chris Froome e em corridas por etapas. Teve as oportunidades e sobre agarrá-las, só não soube afastar-se de polémicas.

Em Abril proferiu comentários racistas contra Kevin Reza, ciclista da FDJ, na Volta à Romandia. Acabou suspenso seis semanas e teve de frequentar um curso de consciencialização. Foi ainda ameaçado de despedimento se repetisse a situação. O assunto acabou por ficar por ali, mas Moscon volta agora a estar envolvido numa situação desnecessária e sempre feia. O italiano foi apanhado pelas câmaras de televisão a receber uma "boleia" do carro de apoio depois de ter sofrido uma queda. Foi anunciada a sua desqualificação.

Há quem lhe chame a manobra ao estilo Nibali (recordando quando o italiano foi expulso da Vuelta por situação igual), mas mesmo sendo de outra nacionalidade, Romain Bardet também recebeu uma boleia destas este ano. O resultado é sempre o mesmo. Moscon não foi expulso da corrida, pois já a tinha acabado, mas perdeu o 29º lugar que tinha alcançado. Aos 23 anos ambicionou fazer uns Mundiais fantásticos. Nos contra-relógios, ficou com o bronze no colectivo e foi sexto no individual. Na corrida em linha esteve em fuga com Julian Alaphilippe já nos quilómetros finais, mas acabou por ceder. Ainda assim, foi mais uma demonstração da sua qualidade, ele que se estreou em grandes voltas em Espanha e deixou Chris Froome muito agradado com o seu trabalho. E terminou numa excelente 27ª posição. Foi quinto no Paris-Roubaix, campeão nacional de contra-relógio e também quinto na prova em linha.

Porém, de pouco serviria ter feito melhor no domingo. A cerca de 35 quilómetros sofreu uma queda, juntamente com Sergio Henao. O carro de apoio chegou e ofereceu um bidão a Moscon. Foi demasiado clara que o veículo acelerou levando Moscon à boleia, enquanto Henao se esforçava para recuperar ritmo, mas viu o italiano afastar-se muito em poucos segundos. Castigo aplicado e espera-se que seja mais uma lição aprendida.

Apesar de ainda não ter sido anunciada a renovação de contrato com a Sky, será expectável que tal aconteça. Moscon tem um futuro promissor, sendo ainda uma incógnita em que tipo de ciclista poderá evoluir. Será uma aposta para as clássicas, ou irá mais para corridas por etapas. Não é de excluir que faça ambas, mas se continuar a exibir-se ao nível do que fez na Vuelta... Porém, terá de rever este tipo de atitude que não ajudam nada na construção de uma reputação de respeito. Há responsabilidade por parte de quem ia a conduzir, mas Moscon não pode afastar-se da que também é sua.

O ciclista da Sky conseguiu ainda ser o centro das atenções em 2017 por um dos momentos mais insólitos do ano. No contra-relógio colectivo que abriu o Tirreno-Adriatico, o italiano sofreu uma aparatosa queda porque a roda da frente simplesmente se desfez.

Aqui ficam as imagens que valeram a desqualificação de Moscon nos Mundiais de Bergen.
»»O discreto mas igualmente eficaz Peter Sagan faz história««

»»Joni Kanerva, o nome que também marca os Mundiais e que reacende a discussão da segurança no pelotão««

24 de setembro de 2017

O discreto mas igualmente eficaz Peter Sagan faz história

(Fotografia: Facebook UCI)
Durante a corrida, principalmente quando o ritmo aumentou, questionava-se onde está Peter Sagan? Uma espécie de "Onde está Wally", mas com a dificuldade acrescida da camisola do eslovaco ser idêntica à de outras selecções. Sagan escondeu-se no pelotão. Eram os ciclistas da Bélgica, Holanda, Grã-Bretanha e até de uma ambiciosa Polónia que mais se mostravam. Os noruegueses apareceram mais perto do fim. Sagan apareceu mesmo no final, quando era necessário aparecer. Lá estava ele a sprintar, a vir de trás e a passar todos. Atirou a bicicleta na meta e deixou Alexander Kristoff frustrado naquela que poderá ter sido a melhor oportunidade do norueguês em conquistar o título mundial. E teria sido em casa! Mas não. Tudo continuará dentro da normalidade que se vive nos últimos dois anos, com Sagan vestido com a camisola do arco-íris, a lutar pelas clássicas e com contas para ajustar na Volta a França em 2018. O australiano Michael Matthews foi terceiro, ele que já tinha ficado logo atrás de Sagan em Richmond2015.

Não foi o Sagan de ataque, de se mostrar, de controlar todas as tentativas de fugas. Deixou a corrida decorrer, deixou que fossem as selecções mais fortes a tentar apanhar as várias mexidas nuns últimos 90 quilómetros electrizantes. Teve paciência, ou sangue frio, como lhe queiram chamar. Por momentos, admitiu, pensou que nada haveria a fazer quando Julian Alaphilippe e Gianni Moscon se destacaram, com o francês a isolar-se.

Uma falha na transmissão televisiva num momento crítico não permitiu que se visse o que aconteceu durante cerca de dois quilómetros. Por momentos fomos todos membros do público em Bergen, à espera que os ciclistas aparecessem na curva, já dentro do último quilómetro. Até teve a sua piada, agora que tudo terminou. Aumentou a emoção, disso não há dúvida! Mas não repitam a falha técnica, se faz favor! O pelotão surgiu praticamente compacto. Os sprinters ganharam a luta de garantir que assim se resolveriam os Mundiais. Sagan ganhou a luta dos sprinters. É outra vez campeão. Pela terceira vez consecutiva. É o primeiro ciclista a fazê-lo. Essa parte da história ninguém lhe tirará. É já uma lenda dos Mundiais.

(Imagem: print screen)
Peter Sagan junta-se a uma curta lista de ciclistas com três títulos mundiais: o italiano Alfredo Binda (1927, 30 e 32), o belga Rik van Steenbergen (1949, 56 e 57), também da Bélgica o inevitável Eddy Merckx (1967, 71 e 74) e o espanhol Oscar Freire (1999, 2001 e 2004). O eslovaco, agora com 101 vitórias como profissional, começou o seu reinado em Richmond, nos EUA, com uma vitória a solo. Há um ano foi a Doha, Qatar, mostrar que pode não ser um sprinter puro, mas pode batê-los. Agora, em Bergen, onde no circuito muito se viram imagens de Sagan e bandeiras eslovacas, quase as únicas que quebravam o cenário de bandeiras da Noruega, Sagan foi novamente ao sprint, com homens que também o defrontam nas clássicas. Ganhou. Só falta um título à trepador e se quer o quarto consecutivo, terá de o conseguir já que em Innsbruck, na Áustria, o percurso será do agrado a ciclistas com estas características. Talvez 2018 não seja para ele, mas terá a ambição de se tornar o primeiro a eventualmente chegar aos quatro títulos.

Os Mundiais de 2018 estão longe. Até lá, Sagan tem muito a mostrar novamente com uma camisola que lhe fica tão bem. Quem conquista o título é sempre merecedor (às vezes mais do que outras), mas há ciclistas a quem o arco-íris assenta melhor. Muito se falava da maldição desta camisola, com os campeões mundiais a terem dificuldades em ganhar quando a envergavam. Recuando aos mais recentes campeões: Michal Kwiatkowski venceu duas vezes (Amstel Gold Race e prólogo do Paris-Nice), Rui Costa ganhou uma etapa na Volta à Suíça e a geral, Philippe Gilbert conquistou uma etapa na Volta a Espanha, Mark Cavendish... 14 vitórias com a camisola de campeão do Mundo!

Ficamos pelos ciclistas que ainda estão no activo, ainda que o britânico não tenha estado em Bergen. E tal como Cavendish, a famosa maldição não atinge Sagan. Em 2016 ganhou 12 vezes (sem contar com classificações dos pontos, com o título Europeu e a revalidação do Mundial), em 2017 já são 11, mais esta vitória em Bergen e também umas classificações por pontos. Começa de novo a contagem, faltando saber se irá cumprir a tradição do campeão do Mundo mostrar-se na Lombardia, quinto e último monumento do ano (há um ano isso não aconteceu, porque os Mundiais de Doha realizaram-se em Outubro devido ao calor).

Curiosidades numéricas à parte, Peter Sagan esteve tacticamente bem nesta corrida. Ele que esteve doente depois das clássicas do Canadá e tentou dizer que não era favorito (como se alguém acreditasse...), não se desgastou desnecessariamente e aproveitou a oportunidade quando ela se proporcionou. Houve sprint e Sagan foi à luta, mas nunca se o viu meter-se nos ataques que antes Tim Wellens lançou, ou Tom Dumoulin e até a perigosa movimentação de Alaphilippe e Moscon.

Não foi bem o Sagan que estamos habituados a ver, mas venceu. Falta-lhe agora estabelecer o estatuto de grande nas clássicas, principalmente nos monumentos. Apenas uma Volta a Flandres parece escasso para alguém tão dotado para estas competições de um dia. A competição é outra, as equipas do World Tour não são as selecções. Ambiente diferente, é certo, mas em 2018 pede-se - para não dizer que se exige - que Sagan conquiste pelo menos mais um monumento com a camisola do arco-íris.

27 anos e uma carreira brilhante e ainda com tanto para dar. É este tipo de ciclista que nos faz gostar tanto deste desporto! E num momento de festa, este grande atleta sobre mostrar que também é um senhor quando quer. Dedicou a vitória a Michele Scarponi, italiano que morreu em Abril, atropelado durante um treino. Esta segunda-feira faria 38 anos.

Rui Costa o melhor dos portugueses

(Fotografia: Luca Bettini/Federação Portuguesa de Ciclismo)
Já se sabe que no que diz respeito a estar bem colocado no pelotão Rui Costa é exímio. O poveiro fez-se valer dessa sua qualidade para estar com os melhores quando a corrida acelerou a 90 quilómetros do final (foram 276,5 no total). Com as equipas com sprinters a fazerem tudo para eliminar fugas, tornou-se difícil para Rui Costa sair do grupo. Ainda tentou seguir Tom Dumoulin na subida e atacou na última volta, mas numa zona mais plana e cujo o sucesso de uma fuga estava praticamente condenado ao insucesso. Quando o grupo surge na curta recta da meta, Rui Costa aparece junto aos candidatos para aquele tipo de final. Naquela altura já não se esperava muito mais do que o top 20 que alcançou (19º).

“Acabou por acontecer o que eu temia. A corrida foi muito dura, sobretudo desde a altura em que a Holanda e a Bélgica pegaram na corrida, a cerca de 90 quilómetros do fim, mas a subida não era suficientemente extensa para fazer a diferença. Passou um grupo pequeno, mas estavam lá alguns sprinters. Ainda tentei atacar, mas não era possível. Saio com a consciência de que estava bem e de que dei o meu máximo, mas o percurso não era o ideal”, afirmou o campeão do Mundo de 2013, citado pela Federação Portuguesa de Ciclismo.

Rui Costa teve quase sempre o apoio dos colegas, não havendo dúvidas que era nele que estavam centradas as opções para a corrida. No entanto, todos acabaram por se atrasar já na parte final, com uma queda a deixar o pelotão cortado. Nelson Oliveira foi 56º a 2:32 minutos. Tiago Machado e Ricardo Vilela cortaram a meta juntos no mesmo grupo de Nelson (65º e 66º, respectivamente). José Gonçalves chegou a 11:53 minutos de Sagan (131º). O campeão nacional Ruben Guerreiro abandonou quando já não faltava muito para terminar a corrida. Para o jovem de 23 anos foi a estreia nos Mundiais na categoria de elite. Experiência importante para quem chegou em 2017 ao World Tour, através da Trek-Segafredo. Muito se espera deste ciclista. Em Bergen foi apenas mais um passo na sua evolução.



Quanto ganharam os medalhados nos Mundiais

(Fotografia: Facebook UCI)
Homens e mulheres ganharam o mesmo nestes Mundiais de Bergen, como aliás já tinha acontecido no ano passado, numa política assumida pela UCI em eliminar as diferenças financeiras entre sexos. Em 2017 não houve alterações quanto aos prémios monetários pagos em Doha, Qatar, há um ano. No total foram distribuídos 273,472 euros, com a maior fatia a nível individual a ir, naturalmente, para os campeões de elite, Chantal Blaak e Peter Sagan.

A holandesa e o eslovaco receberam 7667 euros cada um. Os segundos classificados, Katrin Garfoot e Alexander Kristoff ficaram com 5367 e Amalie Dideriksen e Michael Matthews, medalhas de bronze, com 3067 euros.

Na corrida de sub-23, que apenas se realiza no sector masculino, o campeão Benoit Cosnefroy ficou com 3833, Lennard Kämna com 2683 e Michael Carbel Svendgaard com 1533. Quanto aos juniores, Julius Johansen e Elena Pirrone tiveram um cheque de 1533, Luca Rastelli e Emma Norsgaard 1150 e os terceiros classificados Michele Gazzoli e Letizia Paternoster 767.

Nos contra-relógios individuais os campeões, os holandeses Tom Dumoulin e Annemiek van Vleuten tiveram direito a 3833 euros. Primoz Roglic e Anna van der Breggen ficaram com 2300, enquanto Chris Froome e Katrin Garfoot ficam com 1633 euros. Nos sub-23, Mikkel Bjerg recebeu 3067, Brandon McNulty 1533 e Corentin Ermenault 767.

Os juniores voltam a ficar com uma fatia mais pequena do bolo financeiro, com os campeões Thomas Pidcock e Elena Pirrone a receberem 767 euros, Antonio Puppio e Alessia Vigilia 383 e Filipe Maciejuk e Madeleine Fasnacht 230.

Já no contra-relógio por equipas esteve o maior ganho, com a Sunweb a ganhar a dobrar os 33,333 euros disponíveis para as equipas campeãs do Mundo. BMC e Boels-Dolmans ficaram com 20,833 Sky e Cervélo-Bigla com 16,666.

Há um ano o valor total foi aumentado, depois de em Richmond2015 terem sido distribuídos quase 180 mil euros em prémios monetários.

Medalheiro de Bergen2017 (inclui contra-relógio por equipas):

Holanda: 4 ouros; 2 pratas
Itália: 2 ouros; 3 pratas; 2 bronzes
Dinamarca: 2 ouros; 1 prata; 2 bronzes
Alemanha: 2 ouros; 1 prata
Grã-Bretanha: 1 ouro; 2 bronzes
França: 1 ouro; 1 bronze
Eslováquia: 1 ouro
EUA: 2 pratas
Austrália: 1 prata; 3 bronzes
Eslovénia: 1 prata
Noruega: 1 prata
Polónia: 1 bronze


23 de setembro de 2017

Corrida de elite com muitos candidatos e portugueses ambiciosos

Há dois anos que Sagan anda a ganhar corridas com a camisola do arco-íris
Irá continuar? (Fotografia: Velo Imagens/Bora-Hansgrohe)
Será que Peter Sagan vai tornar-se no primeiro ciclista a conquistar três títulos mundiais consecutivos? Foi expulso da Volta a França por terem considerado que teve uma conduta perigosa que originou a queda de Mark Cavendish. O eslovaco reagiu a uma injustiça e à polémica como melhor sabe: quando voltou à competição continuou a ganhar. Quatro vitórias e a última, no Grande Prémio do Quebeque, foi a centésima de uma carreira brilhante. E só tem 27 anos! Tem capacidade para ganhar num dia para sprinters, ou num dia para ciclistas mais completos, ou seja, que ultrapassem certas subidas. Em Bergen tem um circuito deste género à sua espera. Passar 12 vezes uma difícil subida vai doer a muitos, mas também beneficia muitos mais. Sagan tem sempre rivais, mas esta corrida em solo norueguês tem a particularidade de permitir a vários tipos de ciclistas aspirarem ao título mundial. Temos sprinters, homens de clássicas e até voltistas. Tom Dumoulin quer ter os Mundiais perfeitos: contra-relógio colectivo e individual já estão, falta o título de estrada.

Dumoulin pode espreitar uma oportunidade, mas sabe que na sua Holanda, Lars Boom ou Niki Terpstra são ciclistas mais adequados para o dia. No entanto, este Dumoulin está muito motivado e acredita que pode ganhar ou pelo menos levar mais uma medalha. Mas este percurso pode proporcionar muita história. Se assim não fosse, porque razão Nairo Quintana estaria de volta aos Mundiais quatro anos depois, acompanhado por Rigoberto Uran, Sebastián e Sergio Henao e Jarlinson Pantano? E esta Colômbia... Que selecção! Fernando Gaviria é o principal candidato, mas atenção a um jovem talentoso Jhonatan Restrepo.

Michal Kwiatkowski (Polónia) e Julian Alaphilippe (França) só pensam em vencer. O primeiro é um dos quatro campeões do Mundo presentes. Peter Sagan, Philippe Gilbert e Rui Costa fecham este grupo de elite, onde faltará Mark Cavendish - dos ciclistas em actividade - que ficou de fora da convocatória, depois de uma temporada marcada por uma mononucleose. 

Quando se olha para a lista de inscritos começa-se logo a somar os ciclistas que podem muito bem chegar ao título mundial. Uns mais favoritos do que os outros. Tentando não alongar em demasia, Michael Matthews é um caso sério para levar para a Austrália a camisola do arco-íris, depois de Cadel Evans o ter feito em 2009. O australiano perdeu para Peter Sagan em 2015. Gianni Moscon, Diego Ulissi e Elia Viviani - e porque não Sonny Colbrelli - (Itália); Zdenek Stybar (República Checa), Peter Kennaugh e Ian Stannard (Grã-Bretanha), Gorka Izagirre (Espanha) e, claro, a selecção da casa, com Edvald Boasson Hagen e Alexander Kristoff. São alguns dos candidatos, mas há muitos mais...

No caso específico da Noruega e a "jogar" em casa, muito se espera. Porém, teme-se que a rivalidade e não companheirismo entre as suas duas estrelas possa provocar mais estragos do que trazer sucesso. O problema já vem dos Mundiais do Qatar. Na altura, Kristoff acusou Boasson Hagen de não o ter ajudado e de ter tentado obter ele um bom resultado. Kristoff não teve um bom ano, mesmo ao conquistar o título europeu. Hagen esteve dentro do esperado, demonstrando chegar a Bergen em boa forma, como assim pretendia. Como vai estar a Noruega organizada? São nove ciclistas que se terão de entender.

E depois temos a Bélgica. Basicamente todos podem ser campeões se os analisarmos individualmente. Além de Gilbert, há Greg van Avermaet e Oliver Naesen. Os três tiveram uma grande temporada de clássicas. Tiesj Benoot, Jasper Stuyven, Tim Wellens, Dylan Teuns, Julien Vermote e Jens Keukeleire, completam o nove belga. Que luxo! Também será interessante ver como se vai organizar esta selecção. Com tantas possibilidades, ou há entendimento e respeito em vez de rivalidade, ou tanta qualidade poderá ser desperdiçada. Se há ano em que a Bélgica voltar a ter um campeão, é este. Gilbert foi o último em 2012.

Mais? Talvez o melhor seja deixar aqui o link para a lista de inscritos, ou ficaremos a falar de candidatos até ao início da corrida! Veja aqui o pelotão da prova de elite.

E agora os portugueses

(Fotografia: Federação Portuguesa de Ciclismo)
Porque não pensar que poderemos entrar na luta? Há que ter ambição e isso existe. Rui Costa opta por um discurso mais cuidadoso. Tiago Machado alerta como a subida vai desgastar muito boa gente. O campeão nacional Ruben Guerreiro, Nelson Oliveira - quarto no contra-relógio -, José Gonçalves e Ricardo Vilela completam a equipa portuguesa. É normal que muita atenção se vá centrar em Rui Costa, o campeão de 2013, mas se não temos ninguém para disputar um sprint, temos que sobra para entrar em fugas e mexer com a corrida. E com seis ciclistas, também será possível fazer algum controlo, ainda que não seja fácil perante as grandes selecções com nove homens.

O mais provável é que seja uma corrida muito indefinida, com muitos ciclistas a tentarem evitar o sprint final e outros a trabalharem para garantir que assim seja. A experiência de Rui Costa, Tiago Machado e Nelson Oliveira poderá ser essencial. A forma de correr muito espontânea de José Gonçalves pode abrir portas. Ricardo Vilela é a maior incógnita, mas terá um papel importante na subida que poderá definir muito a corrida. O jovem Ruben Guerreiro está desejoso de se mostrar mais um pouco no ano em que chegou ao World Tour e tem características que podem beneficiá-lo neste percurso acidentado de Bergen.

"O percurso não é perfeito para a nossa equipa. Sabemos que as selecções com sprinters querem que chegue um grupo grande e não será fácil fragmentar o grupo na subida, que não é tão exigente como eu gostaria. No entanto, nas últimas voltas haverá ataques e surgirão oportunidades. É essencial que estejamos atentos a esses momentos, porque há percursos que parecem fáceis e tornam-se difíceis", disse Rui Costa, citado pela Federação Portuguesa de Ciclismo.

“Uma coisa e fazer a subida uma vez e outra é fazê-la doze vezes. Já diz o ditado que 'carga leve, ao longe pesa'. Teremos cerca 3200 metros acumulado, o que fará mossa. Acredito que será um grupo pequeno a discutir a corrida. Temos ciclistas para estar nessa luta, precisamos é de ter os olhos abertos", acrescentou Tiago Machado.

Serão 276,5 quilómetros de espectáculo para saber quem irá vestir a desejada camisola do arco-íris. Tudo começa às 9:05 (hora de Portugal Continental), com transmissão no Eurosport.


Joni Kanerva, o nome que também marca os Mundiais e que reacende a discussão da segurança no pelotão

O ambiente de festa e de grandes corridas em Bergen recuperou a imagem que se espera de uns Mundiais e que há um ano em Doha tinha faltado. Porém, há uma realidade a que o ciclismo não escapa e Joni Kanerva é mais um nome de uma lista já longa de corredores que sofreram quedas devido a choques com veículos da caravana durante uma competição. As imagens são arrepiantes e sublinha-se de imediato que o jovem finlandês encontra-se em estado estável, tendo fracturado a clavícula, além das costelas também terem sofrido com a queda aparatosa e tem ainda vários cortes.

Joni Kanerva tem 22 anos e em Agosto conseguiu o seu primeiro contrato profissional ao assinar pela equipa Continental do Kuwait, mas com base na Suécia, Memil Pro Cycling. No Mundiais estava a pedalar a cerca de 70 quilómetros/hora - durante a prova de sub-23, na sexta-feira - entre os carros quando o acidente ocorreu. Uma sequência de eventos infeliz para Kanerva, mas que reacende a discussão sobre a segurança dos ciclistas e os veículos que circulam no pelotão.

"Ouvimos que tinha havido uma queda e quando lá chegámos vimos o Joni. Sempre que há uma colisão destas parece sempre má, mas felizmente os médicos chegaram rapidamente ao local", explicou ao site finlandês Keskisuomalainen o responsável finlandês Kjell Carlström, que estava no carro de apoio da selecção nórdica. A família já está com o ciclista, com Carlström a explicar que está em análise a possibilidade de transportar Kanerva para o seu país, mas também poderá ter de ficar na Noruega mais uns dias. Como curiosidade, Kjell Carlström é um antigo ciclista que esteve na Sky no final da sua carreira.

Como foi referido, Kanerva foi vítima de uma infeliz sequência de eventos. Um ciclista precisou de apoio e o carro da equipa teve de parar numa zona onde se circulava a grande velocidade. O condutor do veículo que vinha imediatamente atrás teve o reflexo de se desviar, não reparando que a seu lado estava Kanerva. O finlandês foi empurrado violentamente contra as barreiras, caindo de forma aparatosa. Ficou imobilizado no chão, mas relatos indicam que respondeu quando os médicos falaram com ele. Testemunhas salientaram que havia muito sangue na estrada.

A UCI tem implementado algumas regras na tentativa de reduzir este tipo de incidentes, principalmente desde que Antoine Demoitié morreu em 2016, na Gent-Wevelgem, depois de um acidente com uma moto. Foi reduzido o número de veículos permitidos na caravana e os condutores e motards podem ser expulsos ou suspensos caso sejam responsáveis por algum problema. No próximo ano, o pelotão será mais pequeno em mais um esforço de assegurar maior segurança para os ciclistas. Nas grandes voltas serão permitidos oito ciclistas por equipa em vez de nove e nas restantes corridas serão sete e não oito, como até agora.

Porém, haverá ainda muito a fazer e o caso de Kanerva é a prova. O condutor do carro deveria ter travado e não desviado? Teria tempo? São duas questões das muitas que a polícia está a tentar responder, porque apesar do acidente ter acontecido durante uma competição, em estrada fechada, as autoridades norueguesas estão a investigar.

A Joni Kanerva resta-lhe recuperar e espera-se que possa regressar à competição, nem que seja em 2018. É um momento marcante numa curta carreira e não era assim que o jovem finlandês queria ver o seu nome ligado a uns Mundiais.

Está na altura de se assistir a mais corridas de ciclismo feminino

(Fotografia: Facebook UCI)
Tem sido uma longa luta, com batalhas perdidas, mas quando são ganhas são dados passos rumo a um crescimento há muito procurado no ciclismo feminino. Nos últimos anos esse crescimento tem sido notório e a UCI começou a dedicar-se mais ao desenvolvimento da modalidade para a senhoras, tendo criado um Women's World Tour ainda com muito para melhorar, mas que tem ajudado as ciclistas a terem um palco mais importante e consistente a nível de corridas. As competições têm aumentado, em 2018 serão mais três. E a qualidade?

Na internet é possível ir assistindo, nem que seja alguns resumos, e uma ou outra corrida já vai tendo transmissão por cá, através do Eurosport. Um panorama bem diferente de há alguns anos - ainda que actualmente uma das provas mais importantes, a Volta a Itália, não tenha direito a transmissão televisiva... -, quando, quanto muito, se referia uma vencedora, principalmente se fosse uma das principais figuras, que normalmente tinha aparecido na pista. A realidade é diferente.

Actualmente já há uma formação sem ser apenas na pista, já há mais condições, já há mais patrocínios, já há mais corridas. Longe da perfeição, é certo, mas melhor do que num passado recente. E nesse passado recente assistíamos a corridas com um pelotão curto, com pouca emoção, pouco interesse táctico. Nesse pelotão estavam nomes que são agora grandes figuras, como Marianne Vos. Sim, porque não foi assim há tanto tempo que o ciclismo feminino lutava por ser mais competitivo. Agora já o é e a julgar pelas jovens que se viu nestes Mundiais, só tem a melhorar a curto prazo se assim houver condições.

Falemos então desta corrida dos Mundiais. Uma fuga triunfar foi quase impossível, algo normal no ciclismo feminino, onde não há tanto aquela espécie de disciplina no pelotão masculino, em que se deixa formar um grupo na frente, controlando-se para eventualmente o ir buscar. As senhoras são mais de ataques e contra-ataques. Porém, a grande diferença é que agora há claramente uma cultura táctica muito mais evoluída, principalmente das grandes selecções como Holanda, Itália, Grã-Bretanha, Austrália ou EUA, de onde também são algumas das principais equipas do World Tour.

Quando o hábito é ver os homens a competir, cria alguma confusão ver como não se deixa formar fugas, mas aquelas duas últimas voltas valeram toda uma corrida, que já estava interessante. Sim, houve os ataques e contra-ataques, mas deu gosto ver como a super Holanda controlou a corrida, como os EUA tentaram dar luta ou como a França espreitou intrometer-se na disputa e como uma polaca fabulosa de nome Katarzyna Niewiadoma, tentou sozinha quebrar a organização laranja (leia-se holandesa). Tem 22 anos e parece ter um título mundial à sua espera, mais cedo ou mais tarde. Mas em Bergen, na Noruega, confirmou-se a expectativa. Ganhou a Holanda. Só não foi quem se esperava.

(Fotografia: Facebook UCI)
Era a equipa com mais ciclistas (oito) e trabalhou muito bem essa vantagem. No final, Chantal Blaak aproveitou as adversárias do pequeno grupo que estava na frente estarem a marcar duas das suas colegas e escapou. Pedalou como se calhar nunca o fez. Durante aqueles quilómetros finais nem se lembrou que já tinha sofrido uma queda e que tinha uma ferida na perna. 27 anos, campeã do seu país, mas com uma função nos Mundiais mais de mulher de trabalho. Acabou campeã!  Blaak leva o título máximo de volta para a Holanda, depois de três anos por outros países (França, Grã-Bretanha e Dinamarca). São dez no geral, os mesmo que a França.

Na elite está a ser uma limpeza para a Holanda. Annemiek van Vleuten é campeã mundial de contra-relógio, tal como Tom Dumoulin, nos homens. A Sunweb feminina venceu o contra-relógio colectivo e a equipa está registada na Holanda (a masculina é uma formação alemã).

A australiana Katrin Garfoot venceu o sprint pelo segundo lugar. Ela que para o seleccionador parecia que não tinha qualidade para estar nos Mundiais. Foi uma polémica estranha. Foram chamadas cinco ciclistas, ficando duas vagas por preencher porque aquele senhor achava que não tinha corredoras de qualidade... Amalie Dideriksen, campeã em 2016, ficou com o bronze (resultados completos). Portugal não teve representantes. Daniela Reis não foi chamada por opção técnica.


(Fotografia: Federação Portuguesa de Ciclismo)
Nos juniores masculinos, o dinamarquês Julius Johansen é o novo campeão, batendo os italianos Luca Rastelli e Michele Gazzoli por 51 segundos. Quanto aos portugueses, Pedro Miguel Lopes (24º) e Afonso Silva (43º) cortaram a meta inseridos no grupo que chegou a 55 segundos do vencedor. Um excelente resultado tendo em conta a falta de experiência dos jovens ciclistas a este nível. Pedro José Lopes foi 102º a 11:07 (resultados completos).

Faltam agora os senhores da elite mundial discutirem a camisola do arco-íris, este domingo, às 9:05 (hora de Portugal Continental).

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22 de setembro de 2017

Faltou ritmo (e alguma sorte) aos nossos sub-23

Francisco Campos foi o melhor português nos sub-23
(Fotografia Luca Bettini/Federação Portuguesa de Ciclismo)

Era um grupo de qualidade. Disso não há dúvida. No entanto, os sub-23 portugueses sentiram a falta de competição ao mais alto nível, pois ou estão nas equipas portuguesas de clube, ou então no escalão Continental, casos de Ivo Oliveira (Axeon Hagens Berman) e André Carvalho (Cipollini Iseo Serrature Rime). Em corridas como a dos Mundiais, mesmo nos sub-23, sente-se muito a diferença de ritmo e foi o que aconteceu em Bergen, na Noruega. Mas como a qualidade está lá, José Neves (Liberty Seguros-Carglass) foi à luta e entrou na fuga do dia e Francisco Campos fez tudo para se aguentar no grupo, mas descolou na última volta.

(Fotografia Luca Bettini/Federação Portuguesa de Ciclismo)
Ainda assim, há que destacar a fantástica época deste jovem do Miranda-Mortágua, com destaque para a vitória na prova de Abertura Região de Aveiro e o título nacional da categoria. Saiu dos Mundiais com o 67º lugar, ficando a 4:44 minutos do vencedor, o francês Benoit Cosnefroy, naquela que foi a primeira corrida que fez com 191 quilómetros de distância. André Carvalho terminou na 96ª posição, com Ivo Oliveira a cortar a meta logo atrás, no 101º posto, ambos a 9:16. Para o ciclista da Axeon Hagens Berman acabou por ser uma corrida estragada muito devido a um problema que obrigou-o a trocar de roda traseira. Por essa altura José Neves (na fotografia à direita) já tinha sido absorvido pelo pelotão - o grupo onde estava foi apanhado a cerca de 70 quilómetros do fim -  e foi ele quem cedeu a roda ao colega de selecção. O campeão nacional de contra-relógio de sub-23 não resistiu ao ritmo elevado e ao ficar para trás, acabou por abandonar. Mas foi uma corrida corajosa de um ciclista que começa a ser cada vez mais interessante de seguir. Quanto a Ivo Oliveira, o ciclista teve de fazer um grande esforço para recolar depois da troca de roda. Poderá ter pago precisamente esse desgaste físico quando o ritmo aumentou e Ivo não conseguiu manter-se na frente.

Perante a qualidade  destes ciclistas já aqui referida e que deve ser bem salientada, é uma pena que não tenha sido possível estar na luta por um melhor resultado. Porém, há que referir que a experiência que adquiriram em Bergen poderá ser importante já no futuro próximo, principalmente Francisco Campos e José Neves que competem em Portugal e só na selecção têm este tipo de contacto com uma realidade tão diferente.

Maria Martins foi a única participante feminina
portuguesa nos Mundiais de Bergen
(Fotografia Luca Bettini/Federação Portuguesa de Ciclismo)
E não nos vamos esquecer da "nossa" Maria Martins. Esta jovem é a prova que o ciclismo feminino no país vai aos poucos caminhando pelo rumo certo. Muito lentamente, é certo, mas vai. Não teve a sorte dos compatriotas e correu de manhã sob chuva, sendo a única representante feminina portuguesa nos Mundiais. A júnior foi 44ª classificada (percurso de 76,4 quilómetros), a 8:52 minutos da campeã Elena Pirrone. "As sensações não foram más, mas também não foram as melhores. A prova foi disputada com uma intensidade muito grande e senti que preciso ainda de perder algum peso para estar bem num terreno como este", explicou a ciclista, citada pela Federação Portuguesa de Ciclismo.

Mais um passo na aprendizagem de Maria Martins, que se destacou este ano na pista em provas internacionais, mas também com resultados interessantes na estrada. Daniela Reis está no World Tour e merece toda a atenção por este feito, mas em Portugal Maria Martins lidera uma geração que quer de uma vez por todas colocar o ciclismo feminino no mapa.

Os campeões

Quando se diz que faltou ritmo aos portugueses, temos de olhar para os dois primeiros classificados, dois ciclistas que já competem ao nível do World Tour. Lá está, uma realidade bem diferente da dos jovens portugueses. Benoit Cosnefroy é da AG2R (desde 1 de Agosto, mas estagiou na formação gaulesa em 2016) e Lennard Kämna está na Sunweb, tendo ganho a medalha de ouro no contra-relógio colectivo no domingo. Do alemão pode-se mesmo dizer que já é uma aposta segura da Sunweb, pois esteve na Volta a Espanha (não terminou, mas esteve em 16 etapas), Volta à Polónia, Ster ZLM, Volta à Romandia, Volta à Catalunha, entre outras corridas em que competiu com os melhores. 

Tal como Cosnefroy tem 21 anos e foi entre os dois que se disputou o sprint final nos Mundiais. O francês levou a melhor, confirmando assim a sua apetência para corridas de um dia. Ao contrário de Kämna não participou em provas tão mediáticas, contudo, esteve em muitas clássicas e algumas corridas por etapas. Somou resultados interessantes, tendo vencido mesmo antes de viajar para Bergen a corrida francesa Grand Prix d'Isbergues-Pas de Calais. A AG2R está a preparar um jovem de talento para as grandes clássicas e com este título mundial, quem sabe o vejamos em algumas já no próximo ano.

A medalha de bronze ficou para o dinamarquês Michael Carbel Svendgaard, 22 anos e ciclista da Virtu Cycling. Veja aqui a classificação dos sub-23.

Nas juniores, Elena Pirrone teve uns Mundiais de sonho. Aos 18 anos fez a dobradinha, juntando o título de estrada ao de contra-relógio. A italiana fez valer um ataque, deixando a dinamarquesa Emma Cecilie Norsgaard a lutar pela prata, com o bronze a ficar para a também italiana Letizia Paternoster (resultados completos).

Mais duas corridas este sábado antes da prova mais aguardada

Este sábado, a primeira corrida arranca logo às 8:30 (hora de Portugal Continental). A prova de juniores masculinos que contará com três representantes portugueses: Afonso Silva, Pedro José Lopes e Pedro Miguel Lopes. Será um percurso com 133,8 quilómetros. Da parte da tarde (12:30) teremos a corrida de elite feminina, na qual se espera uma luta acesa.

Só a Holanda tem três potenciais candidatas: Anna van der Breggen (campeã da Europa em 2016), Annemiek van Vleuten (campeã do Mundo de contra-relógio) e a eterna Marianne Vos (campeã em 2006, 2012 e 2013 e actual campeã da Europa). Megan Guarnier (EUA), Lizzie Deignan (britânica campeã mundial em 2015 e que recentemente foi operada ao apêndice) e a italiana Elisa Longo Borghini aparecem entre as favoritas. A dinamarquesa Amalie Dideriksen não vai ter vida fácil para defender a camisola do arco-íris que vestiu nos últimos 12 meses.

Domingo é o dia mais esperado. Será que Peter Sagan vai entrar na história como o primeiro a conquistar três títulos mundiais consecutivos? Adversários desejosos de vestir aquela camisola do arco-íris não faltam...



20 de setembro de 2017

Que sofrimento Nelson!

(Fotografia: Federação Portuguesa de Ciclismo)
Em cada ponto intermédio Nelson Oliveira aproximava-se do primeiro lugar. Lá se ficou com o problema de não se saber como se estar no sofá. Aquela troca de bicicleta faz suster a respiração. Não correu como se desejaria, mas nada estava perdido. "Força Nelson", pensava-se. Bom, disse-se numa voz mais alta do que o pretendido, como se quisesse que o ciclista ouvisse! As imagens teimavam em não mostrar o português na subida final. Quando se é fã de ciclismo, tende-se a apreciar tudo o que acontece numa grande corrida, como é o contra-relógio nos Mundiais, mas é inevitável sentir-se aquele sentimento mais nacionalista. No meu caso pelo menos é assim! Lá apareceu Nelson, finalmente. Dá para bater Wilco Kelderman... Não dá... Não vai dar, vai dar e...deu mesmo. Por cinco segundos Nelson Oliveira foi sentar-se no trono dos contra-relogistas. Que momento. Que sensação! Se foi para quem estava apenas a assistir, só se pode tentar imaginar como se sentiria Nelson. No topo do mundo, talvez!

Ainda faltavam os principais candidatos. Rohan Dennis, Jonathan Castroviejo, Chris Froome, Tom Dumoulin e mesmo Tony Martin, ainda que não fosse um percurso muito para o alemão. Nas câmaras apareciam umas gotas de água que passaram a chuva pouco depois. Injusto numa perspectiva desportiva, mas naquela perspectiva nacionalista era uma chuva abençoada. Não era preciso Rohan Dennis estragar a sua corrida com uma queda. Infeliz o australiano. Froome estava extremamente cuidadoso. Dumoulin voava sobre a estrada (que contra-relógio fantástico!). Jungels, Zakarin, Kiryienka, Moscon, todos iam passando e Nelson continuava no trono. Que sofrimento!

Pelo meio ligou-se a um amigo também louco por ciclismo: "Estás a ver isto?" Estava a trabalhar. Lá entrou o messenger em acção para se partilhar o sofrimento. Era um acompanhamento ao vivo personalizado!

Por essa altura já se tinha percebido que só um enorme azar tiraria o título mundial a Tom Dumoulin. E sejamos sinceros: merecia! Completamente! Continuando... "Vai lá às medalhas Nelson!" (Muito se falou com a televisão.) Com a emoção até deu para esquecer Primoz Roglic, o vencedor da Volta ao Algarve. Parecia que seria possível fazer pior que Nelson, mas este esloveno está cada vez melhor. Recuperou muito na subida... "Não faz mal. Ainda dá para o bronze." Ainda nem se tinha acabado de dizer e Chris Froome estava a fazer valer toda a sua qualidade de trepador. O britânico corta a meta e logo de seguida aparece Dumoulin, que quase dobrou Froome. Momento confuso de emoções: por um lado a desilusão por ver uma medalha fugir, por outro uma admiração profunda pelo ciclista holandês. Que bem entregue que ficou a camisola arco-íris. Faltava Tony Martin, mas ficou pelo nono lugar e viu Dumoulin, um super Dumoulin, assim é que é, suceder-lhe na lista de campeões.

Repetiu-se o resultado dos Europeus de 2016 para o português da Movistar, mas como disse Nelson Oliveira, "alguém tem de ser quarto". Foi um sofrimento que fez recordar Florença 2013, quando Rui Costa foi campeão do Mundo, mas de estrada. Talvez por acreditar que Nelson Oliveira tem valor para um dia dar alegria idêntica se tenha sofrido tanto. Afinal há uns anos disse que o ciclista de Anadia poderia ser um dos melhores do Mundo. Já o é (já o era antes destes Mundiais, agora reforçou o estatuto), mesmo sem medalha em Bergen.

Froome não vai ter umas férias descansadas

(Fotografia: SWPix/UCI)
Deixando as emoções fortes do dia de parte, foi um contra-relógio para recordar de Tom Dumoulin. O próprio achou que estava a ver mal quando olhou para o seu power meter. O holandês deixou Froome a 1:21 minutos. Tinha partido 1:30 depois do britânico. O líder da Sky ficou com a plena noção, sem margens para dúvidas, que Dumoulin está em condições de ser o seu grande rival em 2018. Falta ao homem da Sunweb, vencedor do Giro, aproximar-se mais das capacidades de trepador de Froome. Porém, como demonstrou na Volta a Itália, está muito melhor e ainda pode melhorar mais. Até ao Tour de 2018 tem tempo para aprimorar as suas qualidades. Roglic ficou com a prata, a 57 segundos de Dumoulin.

O holandês fez um pouco de história: é o primeiro do seu país a sagrar-se campeão do mundo de contra-relógio e desde o espanhol Abraham Olano que ninguém ganhava uma grande volta e o esforço individual nos Mundiais (1998). No domingo Dumoulin estava na equipa da Sunweb que levou o ouro no contra-relógio por equipas e disse que não haverá tempo para muita festa. O ciclista quer no próximo domingo tentar a medalha na prova em linha. E com tanto sucesso, a medalha que quer vem com uma camisola do arco-íris...

Nelson fez mais 1:28 minutos que Dumoulin. E é difícil afastar o pensamento se a mudança de bicicleta tivesse corrido melhor... Froome não trocou, tal como Dumoulin. Roglic preferiu fazer a mudança. As opiniões nesse aspecto dividiram-se e o esloveno, por exemplo, claramente beneficiou, pois fez uma grande subida, o que naturalmente também influenciou a força que poupou para o final. Dumoulin não precisou de trocar.

Rui Costa manteve-se na bicicleta de contra-relógio. O poveiro partiu bem antes de Nelson Oliveira e pôde passar informações valiosas ao compatriota. Mesmo sem o objectivo de estar entre os melhores, o ciclista deixou boas indicações para a corrida de domingo. Foi 33º a 3:10 minutos, batendo alguns corredores com melhores qualidades de contra-relogista.

"A verdade é que não estava à espera de fazer este resultado, mas senti-me bem em todo o percurso. Sabia que tinha de regular para a última subida. Muitas pessoas vão perguntar se a troca de bicicleta foi uma boa opção. Perdi algum tempo na mudança, mas foi a melhor decisão. Tenho a certeza de que com a bicicleta de contra-relógio não faria a subida que fiz. Reconheço que a chuva na última série pode ter-me favorecido", explicou Nelson Oliveira, citado pela Federação Portuguesa de Ciclismo.


Dois contra-relógios dois grandes resultados para Portugal. Ivo Oliveira foi 21º nos sub-23 e Nelson ficou à porta das medalhas. Esta quinta-feira descansa-se em Bergen, a bonita cidade norueguesa. Descansam os ciclistas, pois haverá eleições na UCI. Sexta tudo recomeça com a única representante feminina da selecção nacional (9:05, hora de Portugal Continental). Maria Martins estará na corrida em linha de juniores e atenção a esta talentosa jovem, que está a realizar uma excelente temporada, com bons resultados na pista e na estrada. Da parte da tarde (12:15) entram em acção os ambiciosos - e com razão para tal - sub-23: Ivo Oliveira (Axeon Hagens Berman), André Carvalho (Cipollini Iseo Serrature Rime), Francisco Campos (Miranda-Mortágua) - campeão nacional de estrada na categoria - e José Neves (Liberty Seguros-Carglass) - campeão nacional de contra-relógio.

Esta é uma corrida importante para os ciclistas deste escalão. Serão muitos os olheiros. Falando de um português, há um ano Nuno Bico esteve muito bem em Doha ao integrar a fuga e trabalhar afincadamente para que resultasse. Não teve a ajuda necessária para que tal acontecesse, mas no final do ano assinou pela Movistar e a performance nos Mundiais teve um peso importante na proposta da equipa espanhola.