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20 de dezembro de 2018

Dois anos, dois monumentos, mas uma enorme desilusão no Tour

(Fotografia: @bettiniphoto.net/Bahrain-Merida)
No ano de estreia, a Bahrain-Merida não ganhou muito, mas também não é qualquer equipa que possa dizer que chegou ao World Tour e venceu um monumento (Lombardia), uma etapa no Giro e Vuelta e ainda teve dois pódios nestas mesmas grandes voltas. Tudo da autoria de Vincenzo Nibali. No entanto, os 12 triunfos não igualaram a enorme ambição e investimento da equipa, que queria mais para 2018. E em termos de números conseguiu. Mais do que duplicou as vitórias, somou mais um monumento e uma vitória de etapa no Giro. Contudo, a grande aposta foi perdida devido a um adepto que estragou o Tour a Nibali, prejudicando o resto da temporada. A desilusão foi enorme.

Esta frustração está a assombrar Nibali - que começou tão bem o ano ao ganhar a Milano-Sanremo - e os responsáveis da Bahrain-Merida, que inclusivamente vêem o sucedido a ser investigado pela polícia. A fractura numa vértebra levou-o a uma recuperação que não o permitiu estar ao melhor nível nos Mundiais, como tanto ambicionava, não conseguindo discutir, antes, a Vuelta. Na Lombardia tentou terminar como em 2017, mas Thibaut Pinot (Groupama-FDJ) estava forte de mais e Nibali foi segundo.

Com a Bahrain-Merida a jogar muito no Tour, com Nibali a abdicar mesmo de participar no Giro por considerar que, então com 33 anos, estaria perante uma última oportunidade de ganhar pela segunda vez a corrida francesa, ver o seu líder desperdiçar uma época devido a uma desatenção de um adepto no Alpe d'Huez está a ser algo difícil de superar. No entanto, a época da Bahrain-Merida teve aspectos positivos, principalmente tendo em conta ao crescimento da equipa além de Nibali.

A equipa quer ser das mais fortes e ganhadoras e viu Sonny Colbrelli a melhorar nos sprints, tendo feito cinco top dez no Tour, incluindo dois segundos lugares. Nas clássicas foi mais irregular, mas foi igualmente um aspecto em que revelou melhorias. Colbrelli ainda poderá ser um ciclista de vitórias na Bahrain-Merida.

O esloveno Matej Mohoric (24 anos) confirmou que é ciclista de futuro, com sete triunfos e muitas mais exibições de nível. O ucraniano Mark Padun (22) deixou as primeiras indicações convincentes que podem apostar mais nele, ao que ajudou bastante ter ganho em Innsbruck, na última etapa da Volta aos Alpes.


Ranking: 7º (7409 pontos)
Vitórias: 26 (incluindo a Milano-Sanremo e uma etapa no Giro)
Ciclista com mais triunfos: Matej Mohoric (7)

Os irmãos Izagirre tentaram assumir algum protagonismo. No Tour, Ion fez dois segundos lugares e Gorka um. Durante a época somaram resultados de topo, mas nunca foram os líderes de garantias em grandes voltas como a Bahrain-Merida procura. Talvez por isso os responsáveis não tenham lamentado excessivamente a decisão de ambos mudarem-se para a Astana.

Brent Copeland, director da estrutura, está a querer construir uma equipa com base nos jovens com quem está a trabalhar. Além de Mohoric e Padun, há um espanhol que também começou a destacar-se ainda mais, depois de já em 2017 ter mostrado o seu potencial. Ivan García Cortina aproveitou bem a liberdade que teve na Vuelta, sendo um ciclista que a Bahrain-Merida quer ver ainda desenvolver as suas características para as clássicas do pavé. Abandonou algumas das principais, mas são poucos os que chegam a dominam a particularidade deste terreno. Vai ganhando experiência e é um jovem a ter em atenção em 2019.

Talvez 2018 possa ser visto como um ano de passagem depois de um aparecimento mediático na época anterior, com Nibali a ser o ciclista que se deu ao luxo de escolher quem queria a seu lado. Conquistado o lugar e o respeito no pelotão do World Tour com grandes vitórias que equipas com muitos mais anos não têm, a Bahrain-Merida quer dar um passo em frente... Ou vários! Aos jovens talentos, a equipa irá juntar ciclistas com mais experiência e que explorar outras possibilidade que não incluam Nibali.

Vão chegar três homens da BMC. Rohan Dennis quer continuar o trabalho iniciado na equipa americana para ser um voltista de nível. Se será possível o australiano discutir uma grande volta, é algo que ainda gera muita desconfiança, mas a Bahrain-Merida ganha o campeão do mundo de contra-relógio, o que também poderá ser sinónimo de mais vitórias e mais camisolas. Dennis já vestiu as três do Giro, Tour e Vuelta. Com o australiano chegará Damiano Caruso e Dylan Teuns. Ambos tanto podem ser valiosos a trabalhar para os líderes, como podem ir atrás de vitórias com garantias de competitividade.

O esloveno Jan Tratnik (CCC) reforça o bloco das corridas por etapas, enquanto o estagiário Stephen Williams (SEG Racing Academy) recebeu um contrato e vai fazer a sua adaptação ao World Tour. Marcel Sieberg (Lotto Soudal) e Phil Bauhaus (Sunweb) são homens de clássicas, comprovando como a equipa quer lutar em várias frentes, não centrando tanto as atenções num só homem.

Ainda assim, Vincenzo Nibali será novamente o líder nas grandes voltas, estando confirmado que vai regressar ao Giro. A Bahrain-Merida quer que 2019 seja o ano em que vencerá uma prova de três semanas. O pequeno Domenico Pozzovivo ainda ambiciona a alcançar algo especial na carreira. Porém, mesmo com um Giro de elevado nível esta época, coroado com o quinto lugar, é Nibali quem tem prioridade, pelo que aos 36 anos Pozzovivo poderá ter de regressar ao papel de gregário e esperar por outras oportunidades na próxima época. Talvez na Vuelta, ainda que com a chegada de Dennis, a vida poderá complicar-se para o veterano ciclista.

2019 poderá ainda ficar marcado por uma novela fora da estrada. A renovação de Nibali já começou a ser falada este ano. O italiano quer dois anos de contrato, mas a sua continuidade na Bahrain-Merida está longe de estar garantida. Se Nibali chegou como a única referência, agora os planos são outros. Até já foi piscando o olho à Sky, mas a equipa britânica vai perder o patrocinador e desconhece-se se vai sequer continuar. Se fechar portas, no mercado estarão um grupo de ciclistas que serão muito disputados. Se Nibali procurava um último grande contrato, poderá ver-se com uma concorrência enorme no momento de discutir negociações com equipas, inclusivamente com a Bahrain-Merida, que tem poderio financeiro para tentar contratar algum homem da Sky.

2018 ficou ainda marcado pelo positivo por EPO de Kanstantsin Siutsou. O bielorrusso venceu a Volta à Croácia, havia expectativa para o Giro, mas caiu no reconhecimento do contra-relógio e nem partiu. Mais tarde, deu positivo por EPO, estando suspenso provisoriamente. A Bahrain-Merida anunciou que, ainda antes de conhecer o resultado do teste, tinha alertado o corredor de 36 anos que não iria renovar o contrato.

Mas para acabar em grande o ano, a equipa revelou a chegada da McLaren, numa parceria de cooperação tecnológica, rumo ao objectivo de tornar a estrutura numa das mais fortes do mundo (pode ler mais neste link).

Permanências: Vincenzo Nibali, Sonny Colbrelli, Domenico Pozzovivo, Matej Mohoric, Valerio Agnoli, Grega Bole, Yukiya Arashiro, Ivan García Cortina, Chun Kai Feng, Henrich Haussler, Antonio Nibali, Domen Novak, Mark Padun, Luka Pibernik, Meiyin Wang e Hermann Pernsteiner.

Contratações: Rohan Dennis (BMC), Damiano Caruso (BMC), Dylan Teuns (BMC), Marcel Sierberg (Lotto Soudal), Phil Bauhaus (Sunweb), Jan Tratnik (CCC), Stephen Williams SEG Racing Academy) e Andrea Garosio (D'Amico-Utensilnord).

»»A aposta falhada num trio que não foi maravilha««

»»Sunweb entre um senhor Dumoulin e as infelicidades de Matthews e Kelderman««

29 de novembro de 2017

Nibali cumpriu o mínimo exigido na equipa em que os petrodólares prometiam mais

(Fotografia: Giro d'Italia)
Numa outra situação poder-se-ia dizer que para uma equipa que foi construída do zero para entrar directamente no principal escalão do ciclismo, vencer uma etapa e fazer pódio no Giro, ganhar depois uma tirada na Vuelta e alcançar mais um pódio e ainda terminar a temporada a conquistar um monumento, seria uma época fantástica. E é claro que são excelentes resultados. Tomara a muitas equipas. Contudo, para quem chegou com milhões de petrodólares para entrar de rompante no World Tour, o certo é que a Bahrain-Merida ficou um pouco aquém da grandeza que quis ostentar, ou que pelo menos o seu patrão assim quis passar.

O xeque Nasser bin Hamad Al Khalifa queria uma equipa de ciclismo, aliciou o amigo Vincenzo Nibali a precisar de novos ares, depois de ver a relação com Alexander Vinokourov deteriorar-se na Astana, e contratou o muito experiente director, então na Lampre-Merida, Brett Copeland. Além dos milhões em causa para convencer Nibali a arriscar a carreira num projeto novo, também ajudou ter dado liberdade ao italiano de escolher a maioria dos seus companheiros. Nibali seria sempre o líder indiscutível. Em troca exigiam-se resultados.

Num misto de experiência e juventude, o plantel da Bahrain-Merida apresentou-se interessante: os espanhóis Ion Izagirre (que seria o segundo na hierarquia nas grandes voltas), Javier Moreno, Jon Insausti e o inevitável contingente italiano composto por exemplo por Valerio Agnoli, Manuele Boaro, Enrico Gasparotto, Giovanni Visconti e o veteraníssimo Franco Pellizotti, que cinco anos depois regressou ao World Tour, numa fase em que já pensava mais em terminar a carreira. Nibali levou ainda o irmão Antonio, com Janez Brajkovic, Ramunas Navardauskas, Kanstantsin Siutsou e Luka Pibernik a contribuir para um grupo de qualidade.


Ranking: 14º (5277 pontos)
Vitórias: 12 (incluindo uma etapa no Giro e uma na Vuelta e a Il Lombardia)
Ciclista com mais triunfos: Vincenzo Nibali (4)

Nibali não entrou em loucuras e deixou de parte o Tour (ou seja Chris Froome e a Sky) para estar presente no Giro100, opção perfeitamente justificável, tendo em conta a sua nacionalidade e o percurso passava pela sua Sicília. Chegou a Itália com uma pouco convincente vitória na Volta à Croácia e a Bahrain-Merida tentou apresentar uma união ao estilo Sky, mas também rapidamente se percebeu que era para durar pouco. Não ajudou Javier Moreno ser expulso da corrida por conduta imprópria (empurrou Diego Rosa, da Sky), mas ajudou Pellizotti continuar a ser um ciclista consistente e em boa forma, mesmo aos 39 anos. Foi difícil ver Nibali como verdadeiro candidato, mas ganhou na subida de Bormio, na etapa rainha, e fechou em terceiro. Ainda assim, por mais que se mostrasse feliz, ganhar o Giro era o objectivo e não se viu um ciclista com esse potencial. Claro que quando se recorda 2016... Também parecia a corrida estar mais do que perdida e Nibali acabou com a camisola rosa.

Uma das grandes curiosidades era Ion Izagirre. O espanhol deixou a Movistar para deixar o papel de gregário de Nairo Quintana ou Alejandro Valverde e poder ele ser líder. Ao contrário de Nibali, havia uma elevada expectativa para Izagirre no Tour. Não para ganhar, mas, de resto, tudo parecia possível. Nunca se conseguiu perceber, nem um bocadinho, o que valeria Izagirre como líder. Caiu no contra-relógio inaugural e a época terminou ali, em Dusseldorf, tal como a do antigo companheiro, Valverde.

A responsabilidade recaiu novamente toda em Nibali e em Espanha esteve melhor, mas tanto estava com toda a força, como numa subida mais inclinada e o italiano fraquejava. Ganhou uma etapa e só Chris Froome o bateu. Ainda foi depois até à Lombardia vencer pela segunda vez o último monumento do ano.

O que faltou então à Bahrain-Merida? Faltou mostrar um maior protagonismo e não ficar tanto na expectativa, faltou apostar mais noutras corridas e não centrar-se tanto nas grandes voltas, pois tinha plantel para tal e faltou principalmente estar no Giro ou na Vuelta para ganhar. Apesar dos pódios, Nibali nunca convenceu que poderia bater Tom Dumoulin ou Nairo Quintana em Itália, ou Froome em Espanha. Mantém-se aquele estigma que ganha quando os melhores não estão... Não é justo que tal marque a sua carreira, mas Nibali tem de conseguir bater os grandes nomes da actualidade.

Não fica esquecido uma das estrelas do ano para a equipa: Sonny Colbrelli. Finalmente deu o salto mais do que merecido para o World Tour, depois de muito ajudar a que se falasse da Bardiani-CSF. A etapa no Paris-Nice, prova do principal calendário, foi um momento marcante para o sprinter de 27 anos. Ainda conquistou mais dois triunfos em 2017 e apresentou algumas exibições interessantes. Porém, ficou a sensação que Colbrelli pode fazer mais, mas sofrerá com o facto das atenções centrarem-se em Nibali e depois em Izagirre. Colbrelli tem potencial para estar na luta em algumas clássicas, contudo, terá de desenvolver ainda mais a sua capacidade de trabalhar sozinho pelo melhor posicionamento. Já o fazia na Bardiani-CSF, mas é muito diferente ter de o fazer quando tem pela frente Peter Sagan ou Greg van Avermaet. Nos sprints tem uma missão difícil perante os actuais dominadores da especialidade. Será uma pena (e desperdício) se a Bahrain-Merida não tirar maior partido de Sonny Colbrelli.

Em 2018 chegarão ciclistas que poderão ser importantes para Nibali e para Izagirre, que contará com o seu irmão Gorka. A Movistar perde mais um ciclista de qualidade. Domenico Pozzovivo (AG2R) procura um novo desafio, ainda que vá perder protagonismo, enquanto da Eslovénia chega Kristijan Koren (Cannondale-Drapac) e Matej Mohoric. E este último poderá revelar-se ser uma grande contratação. A UAE Team Emirates abriu os cordões à bolsa para garantir Fabio Aru, Daniel Martin e Alexander Kristoff, mas deixou sair este jovem de 23 anos com um potencial ainda por perceber na totalidade. Venceu uma etapa na Vuelta e andou bem em toda a prova. Como trepador demonstra capacidade para evoluir e tornar-se num caso sério de competitividade, precisando de trabalhar o contra-relógio, onde também revela ter margem de manobra para, pelo menos, se defender bem. Pode ser um ciclista para o futuro se o xeque Nasser bin Hamad Al Khalifa quiser de facto construir um projecto sólido e duradouro.

»»Um ano com Scarponi no pensamento e com as vitórias a escassearem««

»»Bons ciclistas a ficarem cada vez melhor, mas falta mais equipa à Lotto-Jumbo««

»»Um pouco (mas pouco) de Pinot e Démare a confirmar-se nas clássicas. FDJ precisa de mais e melhor««

11 de julho de 2017

A equipa de luxo que já não está na Volta a França

(Fotografia: ASO/Pauline Ballet)
Perante uma etapa em que nada aconteceu - sem desprimor para mais um triunfo avassalador de Marcel Kittel - e perante a perspectiva de mais um dia exactamente igual na quarta-feira, resta esperar que chegue a 12ª tirada, quando se irá voltar à montanha. Até lá podemos olhar para a lista de desistências e ver que poderíamos formar uma equipa de sonho. A Volta a França não está a ser marcadas por aquelas quedas colectivas impressionantes, mas as quedas solitárias estão a afastar ciclistas importantes de uma corrida que apesar das etapas planas bem aborrecidas, tem na luta pela geral um interesse que não tem sido comum em anos recentes. Os que já abandonaram dariam para formar uma super equipa. Alguns teriam de aceitar funções diferentes, mas vamos entrar no campo das suposições. Portanto, suponhamos que todos aceitariam o que aqui se escreveu.

Antes de mais, apenas um nota prévia: com dez etapas concluídas o Tour já viu sair 17 ciclistas, por abandono, exclusão ou chegada fora do tempo limite. Comparando com o Giro, na mesma etapa o número era oito, sendo que dois (Stefano Pirazzi e Nicola Ruffoni) nem sequer começaram a corrida devido a uma suspensão por doping, conhecida no dia antes do início da competição.

Apresentada esta curiosidade, vamos então ao nove que daria uma fantástica formação que muitos directores desportivos não se importariam de ter. De forma a criar uma equipa coesa, serão então atribuídas funções a alguns que não correspondem às que tinham de facto neste Tour, ou seja, será aqui construída uma possível táctica.

O líder para geral seria Richie Porte (32 anos). O ciclista da BMC estava numa forma invejável, provavelmente a melhor da sua carreira. Era um sério candidato a fazer frente a Chris Froome. Surgiu em França com uma equipa construída para si, algo que não tinha acontecido em 2016, quando Tejay van Garderen foi co-líder. Porte estava a corresponder às expectativas até àquela etapa nove. Teve uma queda aparatosa numa descida e partiu a clavícula e a pélvis.

Como gregários de luxo, Richie Porte teria ao seu lado na alta montanha Geraint Thomas e Rafal Majka. O britânico da Sky (31 anos) é um dos infelizes do ano. Caiu no Giro e no Tour e acabou por abandonar as duas corridas. Com Porte em tão boa forma, Thomas teria de ser o seu braço direito (de recordar que ambos já foram companheiros na Sky). Não se conseguiu perceber bem como estava Thomas fisicamente, mas seria provavelmente um homem importante. Quanto a Majka, o homem da Bora-Hansgrohe (27 anos) foi mais uma vítima da nona etapa. Acabou no domingo, mas hoje não partiu, devido aos ferimentos que até lhe dificultavam a respiração. Nesta equipa imaginária, seria um apoio decisivo para Porte, mas não é de afastar a hipótese de lhe dar uma oportunidade de integrar uma fuga e deixá-lo lutar por uma etapa, até porque há mais homens ajudar Porte.

Ion Izagirre seria mais um ciclista para a montanha. O espanhol (28), líder da Bahrain-Merida para este Tour, seria um corredor de trabalho. Talvez o primeiro a ser chamado quando o terreno inclinasse. Como caiu logo no contra-relógio é impossível dizer que estava numa grande forma. Caso estivesse melhor do que Thomas, então poderia ser ele a assumir a função de braço-direito de Porte, com o britânico a entrar mais cedo ao trabalho nas etapas de montanhas.

E claro, Alejandro Valverde. Colocá-lo apenas como gregário quase que parece desperdiçar um dos ciclistas que está em melhor forma em 2017. Um crime, mesmo! Com 14 primeiros lugares este ano, o espanhol da Movistar seria um plano B. Mesmo não sendo um voltista por excelência, com uma forma destas seria inteligente mantê-lo como candidato, ainda que também tivesse um papel de ajuda ao líder, Richie Porte. E que importância poderia ter quando chegassem as perigosas descidas dos Alpes e Pirenéus... Valverde também poderia ser aposta para ganhar determinadas etapas.

Quanto aos sprints, quando se fala em gestão de egos... Isto seria uma missão quase impossível, mas vamos tentar imaginar alguma harmonia entre estes homens. Apesar da mononucleose que afectou a sua preparação, como está tão perto do recorde de Eddy Merckx (quatro para igualar), Mark Cavendish teria a primazia, mas com um Arnaud Démare a ser a segunda hipótese, caso o britânico desse mostras que não estava em condições. O francês da FDJ (25) ganhou uma etapa, é certo, mas o currículo de Cavendish (32 anos) tem o seu peso: é uma vitória no Tour contra 30! Démare como lançador de Cavendish? Que luxo! Seria necessário mais um lançador. Após alguma indecisão entre Matteo Trentin (27 anos, Quick-Step Floors) e Mark Renshaw (34, Dimension Data), a escolha recaiu no australiano. É que em nome da tal difícil harmonia, seria um risco não ter o homem de confiança de quase toda uma carreira de Cavendish.

Para terminar, Peter Sagan. Como não é de todo boa ideia ter dois sprinters na mesma equipa a lutar pela vitória e como o eslovaco não é o chamado sprinter puro, então poder-se-ia colocar o bi-campeão do mundo a disputar etapas cujas chegadas são marcadas por rampas, ou então precedidas quilómetros antes por subidas onde Sagan consegue fazer diferenças. Ou seja, não iria aos sprints e tentar-se-ia tirar partido da explosão que este ciclista tem e da capacidade em resistir nas fugas, em solitário ou em pequenos grupos. De todos estes exemplos, dizer a Sagan que não poderia lutar nos sprints seria impensável no mundo real e mesmo no campo das suposições, a vontade é colocá-lo como o líder para as etapas, ao lado de Richie Porte que lutaria pela geral.

Caso se quisesse ter um ciclista para o contra-relógio, a escolha poderia ser para Jos van Emden (Lotto-Jumbo), mas tendo em conta a exibição de Geraint Thomas na primeira etapa do Tour, a equipa estaria bem servida, mesmo sem o vencedor do esforço individual final da Volta a Itália.

Isto tudo é no campo da imaginação. Mas se todos estivessem em forma (e se se entendessem) seria uma equipa de sonho... e certamente só nos sonhos é que existiria!

Em suma, a equipa de luxo que já não está no Tour é constituída por: Richie Porte, Geraint Thomas, Rafal Majka, Ion Izagirre, Alejandro Valverde, Mark Cavendish, Arnaud Démare, Mark Renshaw e Peter Sagan.

Em baixo fica o perfil para a etapa desta quarta-feira. Marcel Kittel vai tentar a quinta vitória e começar assim a ficar cada vez mais próximo de segurar a camisola verde que nunca pensou ser possível ganhar com Peter Sagan em prova. Sem o eslovaco, o alemão tem outra motivação, ainda que diga que o objectivo é ganhar etapas. Mas uma coisa pode muito bem resultar na outra.



Veja aqui o resultado da 10ª etapa e as classificações do Tour.

A tirada desta terça-feira não teve pontos de interesse até àquele final demolidor de Marcel Kittel. O sprinter da Quick-Step Floors recuperou a sua melhor versão e só isso faz valer a pena esperar mais de 200 quilómetros para ver uns metros de emoção.

De destacar ainda que Nacer Bouhanni foi penalizado em um minuto depois de imagens terem captado o sprinter da Cofidis a empurrar um ciclista da Quick-Step Floors. O incidente não resultou em queda, ainda que a atitude tenha sido perigosa. Ainda assim, valeu uma sanção bem mais simpática do que a aplicada a Peter Sagan.


Résumé - Étape 10 - Tour de France 2017 por tourdefrance


»»Majka é mais uma vítima de uma etapa que teve tanto de espectacular como de dramática««

»»Descidas fizeram diferenças demasiado duras e tristes««

1 de julho de 2017

Como ficar com uma Volta a França ameaçada logo na primeira etapa

Geraint Thomas é o primeiro líder da Volta a França
(Fotografia: A.S.O./Pauline Ballet)
Eusebio Unzué deve ter levado as mãos à cabeça. Começar o Tour da pior maneira só se perdesse Alejandro Valverde e Nairo Quintana. Porém, ver o espanhol cair no contra-relógio inaugural de apenas 14 quilómetros e ficar de fora... Deve ter sentido um aperto no coração. A Movistar tem a vida dificultada ainda longe das primeiras grandes dificuldades.

O mau tempo que tanto costuma marcar o Giro deu este ano tréguas em Itália, mas atacou o Tour fazendo vítimas. Além de Valverde, a Bahrain-Merida perdeu o seu líder, Ion Izagirre, curiosamente ex-Movistar. Um pouco de chuva e a ver vamos se as contas não vão mesmo a começar a ser feitas logo com a influência na primeira etapa. Sem Valverde a Movistar fica debilitada. Isso é um facto que vai obrigar a mudar a forma de actuar da equipa e poderá fazer tremer Quintana, que muito confiava na ajuda do espanhol que tem estado numa super forma em 2017.

A chuva fez com que muitos ciclistas tivessem mais cuidado, o que também se traduziu em diferenças maiores do que o esperado e um vencedor que não se pode dizer que tenha sido uma surpresa, mas dá uma demonstração que poderá estar numa melhor forma do que o próprio quis deixar entender antes do arranque em Düsseldorf.

A versão de Thomas que era para lutar pelo Giro

Geraint Thomas não escondeu o espanto por ter ganho o contra-relógio, que permite que vista a camisola amarela. E é mesmo caso para dizer, o Tour mal começou e a Sky já veste a cor que tanto gosta e está habituada. Depois de um Giro estragado por uma queda provocada por uma péssima paragem de uma moto da polícia, o britânico ainda foi ao contra-relógio fazer segundo atrás de Tom Dumoulin e eventual vencedor da Volta a Itália. Desistiu depois e agora recebe a recebe a recompensa que não chegou no momento em que desejava. "Não tenho tido sorte este ano. É espectacular alcançar esta vitória", afirmou.

Passou uma parte do tempo a pensar que este ou aquele ciclista acabaria por o tirar da liderança. Não aconteceu e Thomas parte para as primeiras etapas em linha com cinco segundos de vantagem sobre Stefan Küng (BMC) e sete sobre o colega Vasil Kiryienka, campeão do mundo da especialidade em 2015. Tony Martin (Katusha-Alpecin), que tinha a tirada de Düsseldorf como principal objectivo da temporada, foi quarto, com mais oito segundos.

A outra conquista da Sky

A chuva não afectou a formação britânica, que além da amarela viu aquele que quer que esteja com a camisola em Paris daqui a três semanas ganhar tempo à concorrência. E a distância já é de respeito. Já são mais de 30 segundos o que separa Chris Froome dos principais adversários. Alberto Contador ficou a 42 do britânico e a Trek-Segafredo certamente que ficou algo desconfortável com a prestação do espanhol.

Com um contra-relógio a abrir, mesmo sendo curto, é normal que se façam algumas diferenças. Mas este Tour teve um início atípico, ainda que com algo bem típico: a Sky está em grande e a corrida só tem 14 quilómetros!

Será que se pode arriscar que isto promete? É melhor esperar mais um pouco para evitar uma desilusão!

Veja aqui a classificação da primeira etapa.

A vez dos sprinters


Conhecido o primeiro camisola amarela, este domingo é a vez dos sprinters começarem a sua corrida. A grande dúvida é se Mark Cavendish estará em condições de medir forças com Marcel Kittel, André Greipel, Peter Sagan e restantes adversários. O britânico sofre de uma mononucleose e nem ele sabe bem como se irá apresentar. Não pensa bater o recorde de Eddy Merckx e uma vitória de etapa saberá a uma enorme conquista.

A etapa de 203,5 quilómetros, que levará o pelotão da Alemanha até à Bélgica, terá duas subidas de quarta categoria que servirão para determinar quem veste a camisola da montanha. Outro final que não seja ao sprint será uma surpresa.

Além dos nomes já referidos, de destacar ainda o embate que os franceses vão estar muito atentos. Nacer Bouhanni e Arnaud Démare vão estar novamente em confronto no Tour. Nenhum conta com vitórias de etapas na corrida apesar de nos últimos anos serem as referências do sprint gaulês. O primeiro foi preterido pela FDJ quando a equipa teve de escolher entre os dois. Bouhanni foi para a Cofidis e entretanto Démare ganhou menos vezes, mas tem um monumento, Milano-Sanremo, e é o campeão francês em título.


Summary - Stage 1 - Tour de France 2017 por tourdefrance_en


»»Esta Volta a França não é para amigos««

»»"Espero que no dia em que tiver alguma liberdade no Tour possa fazer alguma coisa bonita"««