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4 de abril de 2021

O espectáculo do inesperado

© Tim de Waele/Getty Images/Deceuninck-QuickStep
Van der Poel, Van Aert, Alaphilippe. Van der Poel, Van Aert, Alaphilippe. Três nomes ditos/escritos até à exaustão nos dias que antecederam a Volta a Flandres. O trio que em 2020 só não disputou a vitória porque o francês chocou com uma das motas, centrava quase toda a atenção. Na época passada houve aquele emocionante sprint entre os rivais do ciclocrosse, agora também na estrada e no pavé e muros da Flandres. Meses depois, novo sprint, mas apenas com Van der Poel do referido trio presente, com um Kasper Asgreen que quase parecia condenado a ver o holandês conquistar pela segunda vez consecutiva este monumento. Como o ciclismo é bonito precisamente porque consegue ser tão imprevisível. Asgreen foi o vencedor contra as expectativas do que parecia que só poderia acontecer naquele último quilómetro.

Quando arranca Van der Poel? Era dúvida. Asgreen, dinamarquês de sangue frio, aguentou, aguentou, aguentou. A 250 metros da meta, Van der Poel arrancou, Mas não foi aquele ciclista que quando acelera deixa todos sufocados. Asgreen, esse, mostrou porque é mais um homem de clássicas de enorme qualidade da Deceuninck-QuickStep (Elegant-QuickStep na Volta a Flandres). Foi frio não só naquele último quilómetro, mas desde que Van der Poel deixou Van Aert para trás no Kwaremont, que soube gerir o seu esforço e teve capacidade para resistir ao ritmo elevado que o holandês tanto gosta de impor.

Sim, Van der Poel (Alpecin-Fenix) falhou ao não guardar um pouco de força para um eventual sprint. Mas todo o mérito está no Asgreen, que dificilmente se poderá dizer que era apenas segunda escolha, atrás do líder assumido, Julian Alaphilippe. Foi um ataque do campeão dinamarquês que tirou o francês da decisão final. Alaphilippe não estava no seu melhor. Asgreen estava.

Seria mais expectável ver Asgreen tentar um ataque de longe, como fez na E3 Saxo Bank Classic, corrida que conquistou há pouco mais de uma semana. Asgreen assumiu o risco de ir a um sprint com a "máquina" Van der Poel. Na Flandres já havia sido segundo em 2019 e no ano passado venceu a Kuurne-Bruxelles-Kuurne, deixando atrás de si Giacomo Nizzolo, Alexander Kristoff e Fabio Jakobsen. Sabe o que é ganhar neste tipo de corridas. Mas nenhuma é uma Volta a Flandres.

Aos 26 anos, já havia demonstrado que era mais um ciclista que a Deceuninck-QuickStep contava para grandes momentos. Não ficou na sombra de Alaphilippe e, conquistando um monumento do pavé - que o seu director, Patrick Levefere, não queria nem pensar ficar novamente em branco em 2021 - sobe o seu estatuto, a sua cotação e, principalmente, fica com um triunfo para a história e para mais tarde recordar. Bateu Van der Poel... ao sprint!

Van der Poel pode estar também ele a construir a sua carreira na estrada. Mas a forma como Chegou e conquistou vitórias, somou exibições impressionantes, já o tornam numa referência. Na Flandres talvez fosse mesmo "a" referência, à frente de Van Aert. Afinal era o vencedor de 2020 e 2021 está a correr-lhe bastante bem. Porém, também esta época já demonstrou que esta opção de correr à base de ataques de longe, com acelerações de uma força que não deixa ninguém indiferente, tem o seu lado negativo.

A forma como acabou por se sentar no sprint e viu Asgreen vencer não é algo novo. Van der Poel dá espectáculo - aquele final da Strade Bianche é um excelente exemplo, ou a forma como ganhou uma etapa no Tirreno-Adriatico -, mas por vezes paga caro o não ter medo de assumir essa responsabilidade. É assim que compete e vai continuar, mas esta é uma derrota que custará digerir, bem mais do que os Mundiais de Yorkshire, quando parecia estar com tanta força e depois, não aguentou até ao fim. Vai digerir a derrota na Flandres como tão bem sabe. Irá à procura de uma vitória na próxima corrida. Sabe "cair de pé", o que também é importante. Não teve problema em dizer que Asgreen foi o mais forte e que assim não custa tanto perder.

Asgreen bateu ao sprint um ciclista que poderá estar a caminho de se tornar num dos grandes da história. Mas o dinamarquês também já conseguiu o seu lugar ao ganhar um monumento, contribuindo para que o seu país esteja a tornar-se em mais um caso sério de sucesso no ciclismo actual.

Que se vejam e revejam as imagens da vitória deste domingo, mas que não se esqueça que o vencedor de uma Volta a Flandres não se decide apenas pelo que faz no último quilómetro, ou neste caso, nos últimos 250 metros. Foram 254 quilómetros e durante muitos, Asgreen demonstrou que podia ser o melhor. E foi.

Wout van Aert (Jumbo-Visma) desiludiu, mas os belgas viram o veterano Greg van Avermaet (AG2R-Citroën) fechar o pódio. Pela quarta vez conseguiu um lugar entre os três primeiros, mas nunca subiu ao lugar mais alto. Aos 35 anos, a Flandres parece ser cada vez mais aquela vitória que lhe escapou na carreira. Contudo, não parece estar disposto a desistir em tentar, mesmo que a geração mais nova esteja a "roubar" toda a ribalta.

Para terminar, os portugueses. Rui Oliveira (UAE Team Emirates) esteve ao serviço de Kristoff e Matteo Trentin. Não foi uma corrida feliz para a equipa. O ciclista de Gaia foi 56º, a quatro minutos de Asgreen. André Carvalho continua a receber a confiança da Cofidis nesta fase das clássicas, no seu ano de estreia ao mais alto nível. Cortou a meta 13 minutos depois do vencedor, na 111ª posição. A aprendizagem continua e nas principais corridas do pavé.

Classificação completa da 105ª Volta a Flandres, via ProCyclingStats.

Entre as senhoras, Annemiek van Vleuten (Movistar) venceu a sua segunda Volta a Flandres, dez anos depois da primeira. E como? Ao seu estilo. Quando arranca faz autênticos contra-relógios e é tão difícil de a apanhar. Aos 38 anos, a holandesa campeã da Europa em título demonstra porque a equipa espanhola apostou nela para liderar a equipa (classificação completa, via ProCyclingStats).

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2 de março de 2021

Van der Poel é quase tudo, mas Alpecin-Fenix vai mais além

© Photo News/Alpecin-Fenix
Alpecin-Fenix, a ProTeam com regalias World Tour. Vencer o ranking do segundo escalão do ciclismo em 2020, abriu as portas das grandes corridas mundiais, sem ter de esperar por convites. Foi um passo importante numa equipa que tem um dos ciclistas mais importante e mais popular do pelotão. Mathieu van der Poel por si só atrai muitos patrocinadores. Porém, não basta. Há que somar bons resultados, até porque, se não há pretensão de obter uma licença World Tour, mas se se quer ter esse calendário, há que ganhar novamente o ranking. A Alpecin-Fenix está a mostrar isso mesmo. Que pode ser mais do que Van der Poel.

Porém, não restam dúvidas, o holandês será sempre a principal história. Um companheiro ganhou esta terça-feira o Le Samyn... Van der Poel é o destaque porque com a manete direita partida, abdicou de lutar pela vitória e ajudou a preparar o sprint final! Não é qualquer um que faz isso, é certo. No entanto, Tim Merlier merece ser "primeira página" pelo excelente sprint que realizou... E sim, finalizando de forma perfeita o trabalho e esforço de Van der Poel.

O holandês já tem uma vitória, na primeira etapa da Volta aos Emirados Árabes Unidos - a equipa abandonou logo de seguida devido a um caso positivo de covid-19 entre o staff - e, depois de uma época de ciclocrosse onde ganhou, ganhou e ganhou, está na estrada para juntar mais uns grandes triunfos ao monumento da Flandres, conquistado em 2020.

A Alpecin-Fenix fez o que muitos considerariam impossível quando Van der Poel começou a mostrar-se na estrada. "Segurou" o ciclista, mesmo não sendo equipa World Tour. E pretendentes com muito dinheiro não faltaram. O holandês também quis ficar onde se sente bem. Onde é rei e tem uma palavra (ou muitas) a dizer sobre o que faz ou deixa de fazer.

Para equipas que apostam muito num ciclista, há sempre o risco de num ano menos bom, haver poucas vitórias, menor notoriedade e já se sabe que é preciso manter os patrocinadores felizes.

Mesmo sabendo que Van der Poel é notícia por quase tudo (caso da manete é exemplo disso), esteja bem ou esteja menos bem, contratar atletas como Jasper Philipsen (quebrou contrato com a UAE Team Emirates para se juntar à equipa belga), Silvan Dillier (AG2R), Xandro Meurisse (Circus-Wanty Gobert), Edward Planckaert (Sport Vlaanderen-Baloise) ou Laurens de Vreese (Astana), demonstra como a pretensão é não só garantir que a sua estrela tem apoio quando quiser - da forma como anda a atacar, para já tem andado muito por sua conta -, mas também opções para disputar vitórias.

© Photo News/Alpecin-Fenix
Merlier (na foto ao lado, a vencer o Le Samyn) comprovou como há mais soluções, principalmente no que a clássicas e sprints diz respeito. Meurisse pode dar algo mais nas gerais em provas por etapas. Petr Vakoc, Dries de Bondt, Louis Vervaeke são outros ciclistas que podem ser chamados a um papel de primeiro plano em certas ocasiões, tal como Sacha Modolo, ainda que o sprinter italiano há muito que anda longe da melhor forma. E há mais dentro de um vasto plantel, de uma formação que quer aproveitar bem esta regra da UCI que permite uma ProTeam ter vida de World Tour.

É também importante para que todos saibam que Van der Poel é a estrela, mas que eles também têm são valorizados. Um bom ambiente numa equipa é essencial e Van der Poel demonstrou que se for preciso trabalha para um companheiro. Outro pormenor muito importante.

Saber ir além das suas estrelas é uma forma de garantir a sobrevivência. Que o diga a Bora-Hansgrohe que apostou quase tudo em Peter Sagan, mas com o passar das épocas soube contratar e ir além do eslovaco. Quando Sagan começou a obter menos resultados, tinha ciclistas para cobrir o sucesso desportivo, enquanto Sagan continuou a ser a referência para os patrocinadores, mesmo ganhando menos.

Mas claro, por mais que a Alpecin-Fenix queira que vários dos seus ciclistas tragam bons resultados, é Mathieu van der Poel que suporta quase todo o mediatismo da equipa. E vitórias procuram-se nesta fase das clássicas e muita atenção vai haver sobre o holandês quando se estrear no Tour, mais à frente na temporada. Sábado é dia de Strade Bianche e do que se vai falar? Van der Poel vs Wout van Aert (Jumbo-Visma).

Percebe-se porque uma marca como a Alpecin deixou de patrocinar uma equipa do World Tour para se mudar para uma ProTeam que tem Van der Poel. Percebe-se porque a Canyon tenha feito um contrato específico com o ciclista, para que este fosse a imagem da marca de bicicletas. Percebe-se também que a forma de estar do holandês é de correr de forma livre, atacando a 80 quilómetros da meta, como fez na Kuurne-Bruxelles-Kuurne, mas também terá de selar grandes vitórias, daquelas que o colocarão na história como um dos melhores. Contudo, para já, gosta de as alcançar em grande estilo. Alguém consegue esquecer-se da Amstel Gold Race em 2019?!

Classificação completa, via Pro CyclingStats. De referir que o único português em prova, Bernardo Gonçalves (Lviv Continental Cycling Team), não terminou a corrida devido a uma queda aos 86 quilómetros, dos 205,4.

A prova feminina foi ganha ao sprint pela belga Lotte Kopecky (Liv), com a portuguesa Maria Martins (Drops-Le Col s/p Tempur) a também abandonar.

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31 de janeiro de 2021

Primeiro grande duelo de 2021 ganho por Van der Poel

© UCI Cyclo-cross
No primeiro frente-a-frente numa das principais corridas que ambos tinham como objectivo para 2021 - Mundial de ciclocrosse -, Mathieu van der Poel levou a melhor sobre Wout van Aert. Os dois ciclistas têm estado dedicados a esta vertene que tanto adoram durante o Inverno, com o holandês a conquistar o seu quarto título, terceiro consecutivo, tendo agora mais um que o seu grande rival. E a prova deste domingo pode muito bem ter sido apenas o aperitivo do que aí vem. 

A Volta a Flandres, na época passada, como que marcou o inicio na estrada desta já popular rivalidade no ciclocrosse. Van der Poel bateu ao sprint o belga. Em Ostende, precisamente na região da Flandres, foi Van Aert quem chegou a parecer estar bem encaminhado para o seu quarto título mundial. Começou a ganhar vantagem e uma queda de Van der Poel fez com que Van Aert ganhasse maior conforto na frente. Porém, no ciclismo tudo pode mudar num instante e assim foi.

Um furo alterou o rumo da corrida. Van der Poel não só recuperou, como acabaria por deixar para trás Van Aert, que admitiu que psicologicamente acabou por ficar afectado com a situação. Na Flandres, voltou a ver-se numa amarga segunda posição, atrás do rival. Mas 2021 está só a começar.

Strade Bianche, Milano-Sanremo - monumento ganho por Van Aert em 2020 -, Volta a Flandres e um muito aguardado Paris-Roubaix, que no ano passado não se realizou devido à pandemia, estão no calendário de ambos. As clássicas apresentam-se antes de um encontro na Volta a França, onde Van der Poel fará a sua estreia em grandes voltas. Recorde-se que a Alpecin-Fenix foi a melhor equipa do ranking entre as ProTeam, pelo que tem acesso directo a todas as principais provas mundiais, sem ter de esperar por convites.

Van Aert demonstra ser alguém que sabe perder. Elogiou Van der Poel, considerando que acabou por ser um justo vencedor. Sobre a sua prova afirmou ao Sporza: "Em certa altura estava numa situação favorável, mas pedalar com um furo fez-me perder muito tempo. E não ficou logo furado, foi um furo lento. Mas perdi meio minuto ali. Eventualmente aproximei-me do Mathieu, mas depois explodi... Estava na situação que queria, mas o furo deu cabo das minhas hipóteses."

Van Aert considera que fez duas boas primeiras voltas (foram oito no total) e que estava forte. Depois furou. "Tudo tem de correr bem. Algo quebrou mentalmente em mim e estou particularmente desiludido com isso", realçou.

Van der Poel não escondeu que o furo foi uma ajuda para recuperar e reentrar na discussão do título mundial, que conquistou com 38 segundos de vantagem, com o belga Toon Aerts a fechar o pódio, a 1:24 minutos do vencedor, pelo terceiro ano consecutivo.

"O percurso mudou e eu fiquei um pouco mais rápido na secção da praia e senti-me um pouco melhor. Senti que as estava com melhores pernas e melhorei a cada volta a correr sobre a areia. Por isso, o sentimento positivo estava a crescer de volta para volta e isso fez a diferença hoje", explicou.

Van der Poel selou a exibição perfeita da selecção holandesa em Ostende, que conquistou todos os títulos em disputa (devido à pandemia não se realizaram as provas de juniores). Lucinda Brand venceu em elite feminina - com o pódio a ser 100% dos Países Baixos (Annemarie Worst e Denise Betsema) - e em sub-23 Fem van Empel foi a campeã, à frente da compatriota Aniek van Alphen. O terceiro ficou para a húngara Blanka vas Kata.

Nos sub-23 masculinos, foi mais um atleta vestido de laranja a ganhar: Pim Ronhaar. Em segundo ficou outro holandês, Ryan Kamp, e o belga Timo Kielich fechou o pódio.

»»Jumbo-Visma segura Wout van Aert««

19 de outubro de 2020

Van der Poel vs Van Aert, o primeiro capítulo (na estrada)

© Team Jumbo-Visma
Desde que Mathieu van der Poel e Wout van Aert começaram a mostrar-se na estrada, nunca deixando o ciclocrosse, que muito se esperava que a rivalidade entre ambos na vertente em que dominam, fosse transportada para as grandes corridas de estrada. Tivemos de esperar mais de um ano, mas neste domingo, na Volta a Flandres, escreveu-se o primeiro capítulo de uma batalha que, principalmente nas clássicas do pavé, poderá tornar-se das mais históricas do ciclismo.

Com o calendário em tempo de pandemia a forçar que grandes provas coincidam, o que mais desiludiu na Volta a Flandres foi não ser possível assistir a toda, como este monumento merece, com ou sem estes dois excelentes ciclistas. Mas foi possível ver a parte mais importante, pelo que não ficou tudo perdido.

Os 243,3 quilómetros do último monumento do ano - não haverá Paris-Roubaix - ficaram marcados pela ausência de público nas principais subidas. Desolador! Apenas se pôde imaginar como seria uma autêntica loucura quando os adeptos vissem os dois rivais sozinhos na frente.

A corrida também ficou marcada pelo choque de Julian Alaphilippe contra uma moto da organização, que o tirou da prova e terminou com a sua temporada da pior forma. Dois dedos partidos na mão direita, foi o resultado da aparatosa queda na sua estreia na corrida. A moto estava a reduzir a velocidade para deixar passar o trio da frente. Van Aert e Van der Poel desviaram-se, Alaphilippe viu tarde de mais o obstáculo. Resta ao campeão do mundo ter ficado a saber que também se adapta aos muros em empedrado da Flandres.

Porém, quis o destino que Van der Poel (Alpecin-Fenix) e Van Aert (Jumbo-Visma) tivessem o seu primeiro grande frente-a-frente no palco em que ambos mais queriam brilhar. Um holandês e um belga. A Flandres tem algo de especial para os dois.

Van Aert já tem um 2020 para recordar, com seis vitórias, que incluem o seu primeiro monumento: a Milano-Sanremo. Van der Poel também lá esteve, mas não conseguiu estar na luta final. O holandês andou mais discreto este ano, mas foi mostrando durante Setembro que a sua forma estava a melhorar. Quatro vitórias em 2020 e num Fevereiro que parece tão longínquo, não se esquecerá como esteve na Volta ao Algarve, ainda que tenha vindo para preparar a época e não tentar vitórias.

Para Van der Poel, muito da temporada (mesmo quase tudo), jogava-se na Flandres. Van Aert "apenas" queria reforçar o excelente 2020. Sem Alaphilippe - foi o francês que lançou o ataque que acabaria por formar o trio na frente -, os dois rivais tiveram de colaborar para garantir que mais ninguém se intrometeria entre eles.

Até aquela fase da corrida, a expectativa era enorme. O ambiente estava bem quentinho. Não na meteorologia, mas na troca de palavras entre ambos, que faz prever que só se está mesmo no início de uma rivalidade intensa, mais do que no ciclocrosse, até pelo peso que a estrada tem no mundo do ciclismo.

Desde a Gent-Wevelgem que "as coisas aqueceram" muito. Van Aert até ganhou... na luta pelo oitavo lugar. Contudo, era ali, na Flandres que mais se queria a maior das vitórias! Aquele último quilómetro foi de grande tensão. Van der Poel à frente, sempre a olhar para um Van Aert atento a um possível ataque do rival.

E foi mesmo o holandês que lançou o sprint. Terminou assim (ver fotografia em baixo).

Van der Poel não escondeu a emoção. Tal como aconteceu na Amstel Gold Race, no ano passado, venceu uma corrida que também o pai, Adrie van der Poel, havia conseguido, em 1986. Mas a Flandres é um monumento. Mathieu começa a colocar o seu lugar na história das principais provas do ciclismo mundial.

Van Aert, mais do que desiludido, era um homem chateado. Percebe-se. É sempre mais difícil perder para um rival, tendo em conta o passado entre ambos. Mas, há algo muito importante numa rivalidade: respeito. Mal cortou a meta, Van Aert cumprimentou o seu adversário e ambos repetiram o gesto no pódio.

Agora que venha 2021, com as corridas no seu calendário normal. As clássicas, principalmente as do pavé, vão ser quentinhas, quentinhas!

Aqui fica o sprint da Volta a Flandres, para ver e rever. E neste link pode ver as classificações completas, via ProCyclingStats.

»»A Canyon Aeroad de Mathieu Van der Poel««

16 de outubro de 2020

A Canyon Aeroad de Mathieu Van der Poel

© Canyon
Para os melhores ciclistas só se pode dar as melhores bicicletas. E Mathieu van der Poel e Alejandro Valverde não podem ter nada que não seja o topo do topo É um mercado em constante evolução e a Canyon é a mais recente marca a apresentar a nova máquina que já serve alguns dos melhores do mundo. A Aeroad é descrita como "pura velocidade", sendo mais leve e mais rápida, segundo a marca, do que a sua antecessora.

Este domingo, Van der Poel vai tentar conquistar a Volta a Flandres, para assim juntar ao seu palmarés um monumento. A concorrência será muita, mas o holandês da Alpecin-Fenix tem mostrado boa forma. Com a nova bicicleta, o ciclista já conquistou o BinckBank Tour.

Aqui ficam algumas características da Canyon Aeroad, marca que tornou Van der Poel a sua referência, tal como a Specialized fez com Peter Sagan.

"Até 7.4 watts mais rápida. Até 170 g mais leve. Até 14% mais rígida, e tudo isto sem fazer cessões no conforto. Estes resultados conseguiram-se depois de três anos de desenvolvimento muito intensivo, em que os nossos departamentos de desenvolvimento trabalharam numa colaboração muito próxima com sócios externos, como os especialistas em aerodinâmica de Swiss Side", explica a Canyon.

Devido às fibras de carbono exclusivas Toray M4OX, a Canyon refere que esta bicicleta é mais rígida e mais leve, pesando 7,3 quilos.

© Canyon

Cockpit aerodinâmico CP0018: segundo a marca é possível "ajustar a altura em +/- 15 mm sem necessidade de modificar o tubo da forqueta", ou seja, os ciclistas podem subir ou baixar o guiador segundo as suas necessidades. 

"O CP0018 permite ajustar o largo em +/- 20 mm sobre a medida de série standard. Esta característica exclusiva também facilita a montagem e transporte da Aeroad, já que o guiador pode dobrar-se sem necessidade de ser desmontado", acrescenta a Canyon.

Quando ao novo espigão SP0046 é "mais aerodinâmico e tão confortável como o seu predecessor", assegura a Canyon. Estará disponível nas três versões do modelo 2021 (CF SL, CF SLX e CFR).

Todos os tamanhos dos modelos CFSLX e CFR têm rodas 700C. A Canyon realça: "Graças às escoras de 5 mm mais curtas e à combinação de pneu dianteiro de 25 mm e traseiro de 28 mm, a nova Aeroad 6 é ainda mais ágil. Em termos de geometria, os três modelos são idênticos."

As Canyon da Alpecin-Fenix têm grupos Shimano Ultrega e as rodas DT Swiss.

O modelo topo de gama, o Aeroad CFR 9 EPS terá um preço de 8999 euros. O modelo mais acessível é o Aeroad CF SL 7, que custa 3299 euros, enquanto o Aeroad CF SLX 8 Di2 custará 4999 euros.

Para mais informações, basta visitar o site da Canyon.

»»UCI Gran Fondo World Series em Portugal no próximo ano««

23 de agosto de 2020

Van der Poel em destaque num fim-de-semana de Nacionais

Fim-de-semana de campeonatos nacionais, ainda que em moldes diferentes do habitual em certos países e mais tarde no calendário devido à pandemia. Isto é, em alguns só se realizaram as provas de fundo, ou só os contra-relógios, mas ainda assim, foram atribuídos vários títulos, com destaque para Mathieu van der Poel. O holandês parece finalmente estar a ganhar forma e teve um daqueles desempenhos para mais tarde recordar.

O ciclista da Alpecin-Fenix atacou a 44 quilómetros da meta (dos 182,5 quilómetros percorridos em Wijster) e pedalou sozinho até ao seu segundo título nacional de estrada. Nils Eekhoff, da Sunweb, e Timo Roosen, da Jumbo-Visma completaram o pódio. O companheiro de equipa de Van der Poel, Marcel Meisen, levou outra camisola de campeão nacional para a Alpecin-Fenix, ao surpreender Pascal Ackermann (Bora-Hansgrohe) na corrida alemã.

De realçar também o segundo título de Wout van Aert (Jumbo-Visma) no contra-relógio da Bélgica, com Arnaud Démare (Groupama-FDJ) a somar o terceiro na prova de fundo francesa. No Luxemburgo, Bob Jungels, foi destronado por Kevin Geniets (Groupama-FDJ), mas o ciclista da Deceuninck-QuickStep foi o melhor no contra-relógio.

De referir ainda como Giacomo Nizzolo está a conseguir dar um novo fôlego à carreira ao mudar-se para a NTT. Tem alcançado bons resultados, incluindo três vitórias em 2020, com a terceira a ser um sempre especial título nacional. Ainda em Itália, o jovem Filippo Ganna impôs-se sem surpresa no contra-relógio, mas ficou de fora da prova de fundo devido ao coronavírus.

O colega de equipa da Ineos Leonardo Basso testou positivo por covid-19 e como Ganna havia treinado no início da semana com este ciclista, foi de imediato colocado em isolamento, tal como Gianni Moscon e Salvatore Puccio. A Ineos também colocou membros do staff em quarentena durante duas semanas, como medida de prevenção.

Em baixo fica a lista de alguns dos títulos atribuídos este fim-de-semana (certas provas decorreram na quinta e sexta-feira), recordando também competições que se realizaram noutras semanas, casos de Portugal - com títulos para Rui Costa e Ivo Oliveira -, Eslovénia e Rússia. Aqui foi um ciclista da equipa lusa Aviludo-Louletano a vencer: Sergey Shilov.

E como às vezes parece já ter sido noutro ano, recorda-se ainda quem venceu na Colômbia, Austrália e África do Sul, competições realizadas quando 2020 estava ainda a desenrolar-se normalmente.

Os títulos de contra-relógio estão identificados como CRI, os restantes são de fundo.

Bélgica
Wout van Aert (Jumbo-Visma) - CRI

Países Baixos
Mathieu van der Poel (Alpecin-Fenix)

Espanha
Luis León Sánchez (Astana)
Pello Bilbao (Bahrain-McLaren) - CRI

Itália
Giacomo Nizzolo (NTT)
Filippo Ganna (Ineos) - CRI

França
Arnaud Démare (Groupama-FDJ)
Rémi Cavagna (Deceuninck-QuickStep) - CRI

Alemanha
Marcel Meisen (Alpecin-Fenix)

Noruega
Sven Erik Bystrom (UAE Team Emirates)
Andreas Leknessund (Uno-X Pro Cycling Team) - CRI

Dinamarca
Kasper Asgreen (Deceuninck-QuickStep)

Luxemburgo
Kevin Geniets (Groupama-FDJ)
Bob Jungels (Deceuninck-QuickStep) - CRI

Eslováquia
Juraj Sagan (Bora-Hansgrohe)
Ján Andrej Cully (Dukla Banska Bystrica) - CRI

Hungria
Barnabás Peák (Mitchelton-Scott) - CRI

Lituânia
Gediminas Bagdonas (AG2R)
Evaldas Siskevicius (Nippo Delko One Provence) - CRI

Polónia
Stanislaw Aniolkowski (CCC Development Team)
Kamil Gradek (CCC) - CRI

Áustria
Valentin Götzinger (WSA KTM Graz)
Matthias Brändle (Israel Start-Up Nation) - CRI

República Chega
Adam Toupalík (Elkov-Kasper)
Josef Cerny (CCC) - CRI

Portugal
Rui Costa (UAE Team Emirates)
Ivo Oliveira (UAE Team Emirates) - CRI

Suíça
Stefan Küng (Groupama-FDJ) - CRI

Eslovénia
Primoz Roglic (Jumbo-Visma)
Tadej Pogacar (UAE Team Emirates) - CRI

Rússia
Sergey Shilov (Aviludo-Louletano)
Artem Ovechkin (Terengganu Inc. TSG Cycling Team) - CRI

Colômbia
Sergio Higuita (EF Pro Cycling)
Daniel Martínez (EF Pro Cycling) - CRI

Austrália
Cameron Meyer (Mitchelton-Scott)
Luke Durbridge (Mitchelton-Scott) - CRI

África do Sul
Ryan Gibbons (NTT)

4 de fevereiro de 2020

Van der Poel, López, Dennis, Martin... Aqui ficam mais umas razões para ir ao Algarve

© Volta ao Algarve
Ainda é preciso mais alguma razão para ver in loco a Volta ao Algarve? Então fica a confirmação oficial da vinda de Mathieu van der Poel, a quem se junta um bicampeão do mundo de contra-relógio, Rohan Dennis. Daniel Martin também está de regresso. É inevitável olhar com entusiasmo para a vinda de Miguel Ángel López, o Super-Homem do ciclismo. Em dia de apresentação oficial da corrida, ficou-se a conhecer mais uns nomes que escolheram o sul do país para este início de temporada. E haverá corredores para todos os gostos: grandes sprinters, grandes trepadores e grandes contra-relogistas... e Van der Poel!

O holandês da Alpecin-Fenix é um dos ciclistas que mais entusiasma os adeptos e só em 2019 começou a apostar mais na estrada. Este ano já conquistou o terceiro título mundial de ciclocrosse, depois de mais uma temporada em que dominou nesta vertente. Na estrada vai alargar o seu calendário e já muito se antecipa a sua estreia no Paris-Roubaix. O Algarve é local de eleição para muitos corredores com estas características, para preparar as clássicas e Philippe Gilbert (Lotto Soudal) e Jasper Stuyven (Trek-Segafredo) são mais uma prova disso. Mas haverá mais uma das figuras neste tipo de provas: Greg van Avermaet (CCC). É o campeão olímpico, um vencedor em Roubaix, mas tem andado algo afastado das boas exibições nas clássicas. Em 2020 optou por não viajar ao Médio Oriente, preferindo começar a época na Europa. Já tinha aberto a porta ao Algarve e agora é oficial.

Entre as novidades há um forte candidato a ser um dos mal-amados do pelotão internacional, mas não deixa de ser o bicampeão do mundo de contra-relógio. Rohan Dennis é mais um dos grandes nomes a juntar-se aos já conhecidos na Volta ao Algarve e, naturalmente, será um dos que mais se vai querer ver na última etapa, em Lagoa, independentemente de estar ou não na luta pela geral.

Este ano a Algarvia termina precisamente com o contra-relógio e Dennis já admitiu que não vai continuar a perseguir a evolução para voltista, querendo apostar em provas de uma semana. Depois de ter sido despedido da Bahrain-Merida numa relação que nunca foi fácil - e que acabou com a saída do Tour antes da etapa em que era o principal favorito -, o australiano quer reavivar a carreira na Ineos e a Volta ao Algarve pode assentar-lhe muito bem. A seu lado terá dois ciclistas que já venceram a prova: Geraint Thomas e Michal Kwiatkowski. Qualquer um poderá tornar-se no primeiro estrangeiro a vencer três edições. 

De regresso também estará Daniel Martin, agora com a camisola da Israel Start-Up Nation. O irlandês triunfou no Alto da Fóia em 2017. Será também candidato à geral, assim como Rui Costa, este um nome já conhecido. O português não vem à Algarvia desde 2014, quando vestia a camisola do arco-íris. De referir que Kwiatkowski e Gilbert também foram campeões do mundo, tal como Roger Kluge (Lotto Soudal), mas este na pista, em madison.

Vincenzo Nibali e Bauke Mollema (Trek-Segafredo) e Tim Wellens (Lotto Soudal) são mais três ciclistas para lutar pela camisola amarela. Mas haverá Miguel Ángel López (Astana). É um dos colombianos de grande talento e que persegue a sua a vitória numa grande volta. Este ano fará a sua estreia no Tour e a mudança de calendário acabou por o levar até ao Algarve. A sua postura costuma ser de tentar sempre estar na frente, mesmo que seja numa fase da temporada ainda muito precoce.

No sprint haverá André Greipel (Israel Start-Up Nation), o campeão europeu Elia Viviani (Cofidis), Fabio Jakobsen (Deceuninck-QuickStep), John Degenkolb (Trek-Segafredo), Matteo Trentin (CCC), Alexander Kristoff (UAE Team Emirates) e Cees Bol (Sunweb). Já no contra-relógio haverá mais um ciclista a ver com muita atenção. Chama-se Mikkel Bjerg, é tricampeão mundial da especialidade em sub-23 e deu o salto para o World Tour com a UAE Team Emirates. É um dos jovens talentos a seguir com muita atenção e um assumido candidato a bater o recorde da hora.

E claro, acaba-se com outra das novas estrelas, recordando como Remco Evenepoel (Deceuninck-QuickStep) também está a caminho do Algarve, tendo começado a temporada a conquistar a Volta a San Juan. Este belga não compete para passar despercebido.

Entre 19 e 23 de Fevereiro todos os caminhos dos adeptos de ciclismo vão dar ao Algarve, que terá um pelotão de luxo. A corrida foi escolhida pela UCI para fazer parte da nova categoria ProSeries e contará com 12 formações do World Tour, cinco ProTeam e oito Continentais, que são as portuguesas. Só o Feirense estará ausente.

De salientar que a 46ª edição da Volta ao Algarve Cofidis será transmitida para 83 países em quatro continentes.

Pode ver os perfis das cinco etapas no link em baixo.


11 de janeiro de 2020

Evenepoel na Volta ao Algarve. E Van der Poel?

(© Sigfrid Eggers/Deceuninck-QuickStep)
Um dos ciclistas que está a conquistar o World Tour e um dos novos fenómenos da modalidade, confirmou a presença na Volta ao Algarve. Depois de Tadej Pogacar (UAE Team Emirates) ter conquistado a edição de 2019, partindo para uma primeira temporada de luxo, este ano teremos Remco Evenepoel. A jovem estrela belga confirmou que a corrida portuguesa faz parte do seu calendário e fica desde já como um dos candidatos à geral, pois este Evenepoel estará a preparar a sua estreia numa grande volta, o Giro.

A afirmação foi feita ao site wielerflits.be e Evenepoel será inevitavelmente um cabeça-de-cartaz, juntamente com Vincenzo Nibali (Trek-Segafredo), numa perspectiva de ciclistas que nunca estiveram nesta corrida. Mas há mais três grandes nomes que ainda se aguarda com expectativa a confirmação. Mathieu van der Poel estará por decidir se vem a Portugal ou à Ruta del Sol, prova espanhola que se realiza exactamente nas mesmas datas, de 19 a 23 de Fevereiro. Já foi dado como certo na Algarvia por alguma imprensa, mas, a nível oficial, a única garantia é a presença da Alpecin-Fenix, a antiga Corendon-Circus. Com o aproximar do arranque de temporada de estrada - o holandês tem andando dedicado à sua paixão do ciclocrosse - não deverá demorar muito a ser anunciado o seu calendário. Escusado será dizer, que será muito bem-vindo em Portugal!

Outro corredor que poderá estar a caminho, ainda que já com muita experiência na Algarvia, é Geraint Thomas. O vencedor das edições de 2015 e 2016 confessou há um ano o quanto gosta do Algarve, pois ao não estar presente, escreveu nas redes sociais o desejo de regressar. Se o galês escolher a Algarvia, poderá tornar-se no primeiro estrangeiro a ganhar a corrida por três ocasiões, algo que o seu companheiro da Ineos também o poderá fazer: Michal Kwiakowski. A equipa ainda não foi confirmada na Volta ao Algarve, mas a presença é praticamente certa. A título de curiosidade, Belmiro Silva é um único com o tri: 1977, 1981 e 1984.

E Miguel Ángel López, da Astana, também poderá escolher a Volta ao Algarve como prova de início de temporada.

Quanto a Remco Evenepoel, é o campeão europeu de contra-relógio e com apenas 19 anos é visto como um dos maiores talentos da nova geração. Como júnior praticamente só soube ganhar, saltando directamente para a Deceuninck-QuickStep em 2019. De início precisou de uma fase de adaptação, apesar da sua vontade de rapidamente mostrar serviço. Chegou a ouvir algumas críticas do director Patrick Lefevere, que procurou principalmente espicaçar o jovem atleta. Em Junho conquistou a Volta à Bélgica, foi brilhante na Clássica San Sebastián e ninguém tem dúvidas do fenómeno que é, sendo apenas incerto tudo o que poderá alcançar, pois o seu potencial é enorme.

2020 vai começar para Evenepoel na Volta a San Juan, na Argentina, sendo que depois do Algarve viajará para Itália, para o Tirreno-Adriatico, tendo como objectivos nas clássicas a Flèche Wallonne e o monumento Liège-Bastogne-Liège, antes de atacar o Giro, que será uma corrida encarada mais para ganhar experiência. Mas Evenepoel não é um ciclista que goste de "passear" quando está a competir.

Entre os jovens talentos no Algarve, igualmente com 21 anos, Mikkel Bjerg é o contra-relogista que quer conquistar o mundo nesta vertente e tornar-se recordista da hora. É tricampeão mundial de sub-23 de contra-relógio, um feito inédito neste escalão. É mais uma jovem aposta da UAE Team Emirates, que contará com o experiente Rui Costa como líder e os gémeos Oliveira também poderão estar presentes na Algarvia. Pogacar será "desviado" para a Volta aos Emirados Árabes Unidos, que começa no último dia da Volta ao Algarve.

Na luta pela geral, e entre as confirmações mais recentes para a corrida portuguesa, estará o alemão da Bora-Hansgrohe, Max Schachmann. Já no sprint haverá André Greipel (Israel Start-Up Nation), que sabe o que é ganhar no Algarve, e Alexander Kristoff (UAE Team Emirates).


25 de dezembro de 2019

Dez momentos de 2019

É tempo de olhar para trás, antes de nos concentramos definitivamente em 2020. Ou seja, é tempo de recordar alguns dos momentos marcantes da última temporada. Começando lá por fora, foi um 2019 dominado pela afirmação de uma nova geração, que está a tomar de assalto o pelotão internacional e, por isso, não surpreende que parte das escolhas para os 10 momentos do ano pertençam a exibições de ciclistas que são as novas figuras da modalidade. Mas também há espaço para um veterano e, infelizmente, nem todos os momentos foram de felicidade.

O objectivo inicial era escolher cinco momentos, acabou-se com dez e mesmo assim ficaram alguns de fora. Mas aqui ficam as escolhas do Volta ao Ciclismo. A ordem é cronológica.

Philippe Gilbert venceu Roubaix e só falta Sanremo (14 de Abril)
(Fotografia: Facebook Paris-Roubaix)
Em 2017, Gilbert reacendeu o antigo sonho de conquistar os cinco monumentos ao vencer de forma brilhante, numa fuga solitária, a Volta a Flandres. Este ano, Nils Politt (Katusha-Alpecin) tentou dar luta, mas estava destinado que o fantástico ciclista belga vencesse o Paris-Roubaix e ficasse apenas com a Milano-Sanremo por conquistar para fazer o pleno. Um emotivo Gilbert celebrou muito a vitória de Roubaix, dando mais um triunfo a uma Deceuninck-QuickStep que é uma equipa especialistas em ganhar clássicas. Trocar a BMC por esta formação em 2017 foi uma escolha muito acertada de Gilbert. Porém, aos 37 anos e perante uma oferta de três anos de contrato da Lotto Soudal contra um da actual equipa, Gilbert optou por regressar a uma casa onde alcançou as primeiras grandes vitórias na carreira. Até parece certo que tente fechar o ciclo de monumentos onde o começou.

Van der Poel e uma Amstel Gold Race para a eternidade (21 de Abril)
Vão ser imagens que hão-de ser vistas e revistas durante muito tempo. Hão-de fazer parte dos grandes momentos do ciclismo e com razão. O que Mathieu van der Poel fez na Amstel Gold Race só está ao alcance dos melhores dos melhores. Quando chegou à primeira corrida das Ardenas, já trazia vitórias espectaculares alcançadas em poucas semanas e estava a marcar a época das clássicas. Mas queria mais. Parecia que estava tudo preparado para Julian Alaphilippe (Deceuninck-QuickStep) - um dos homens que mais estava a ganhar - e Jakob Fuglsang (Astana) discutirem o triunfo. Tinham 40 segundos de vantagem e três quilómetros para a meta. Van der Poel fez o impensável. Arrancou com tamanha convicção, não se interessando quem se colava na sua roda, apenas olhando para quem tinha de apanhar na frente. Alaphilippe e Fuglsang podem ter exagerado no controlo um ao outro, mas o mérito esteve muito na força e crença de um Van der Poel que deixou todos de mãos na cabeça perante tal demonstração de ciclismo de ataque. Espectacular! Veja ou reveja este grande momento de 2019 no vídeo em baixo.


Queda de Chris Froome (12 de Junho)
O britânico jogava toda uma época na Volta a França e em conquistar a quinta vitória. Porém, no reconhecimento do contra-relógio do Critérium du Dauphiné, Froome sofreu uma aparatosa queda. Sofreu uma fractura no fémur, cotovelo e em algumas costelas, no esterno, osso situado na parte anterior e média do tórax, e na vértebra C7. Foi grave e as consequências assustaram. A época terminou ali e, passado meio ano, a dúvida mantém-se na própria Ineos: irá Froome conseguir recuperar o nível competitivo necessário para ganhar o Tour? O ciclista conseguiu regressar aos treinos mais cedo do que o esperado e já foi ao Japão mostrar-se, em ritmo de exibição, em cerca de três quilómetros, no habitual Critérium de Saitama de final de temporada. Mas a forma de Froome será uma das incógnitas para 2020.

Vitória de Bernal na Volta a França (28 de Julho)
(Fotografia: © ASO/Alex Broadway)
Após um ano de estreia no World Tour de elevadíssimo nível, deveria ser raro quem não pensasse que, mais cedo ou mais tarde, Egan Bernal ia vencer a Volta a França. Foi mais cedo. A queda de Chris Froome abriu caminho à liderança do colombiano, mesmo com Geraint Thomas, o vencedor de 2018, a seu lado. A aposta da Ineos era em Bernal. O plano inicial era o colombiano atacar o Giro, mas uma queda afastou da corrida italiana. No Tour ficou a pequena frustração de ver a mãe natureza obrigar ao final antecipado da etapa que Bernal estava a demonstrar toda a sua qualidade (a 19ª). Foi o dia das impressionantes imagens do deslizamento de terra. Mas Bernal fez o suficiente para comprovar que era o mais forte e subiu merecidamente ao pódio nos Campos Elísios com a camisola amarela. Fica na história como o primeiro colombiano a fazê-lo.

Evenepoel mostrou um pouco do que se vai ver muito mais (3 de Agosto)
Talvez alguma ânsia ou mesmo alguma pressão para estar à altura do mediatismo que rodeou a sua passagem de júnior directamente para o World Tour e para a Deceuninck-QuickStep, tenha prejudicado um pouco as primeiras exibições de Evenepoel no arranque da temporada. Tom Boonen bem avisou que o jovem ciclista ia precisar de perceber que não ia ganhar tanto como aconteceu no escalão de juniores. O abandono por opção do ciclista na Volta aos Emirados Árabes Unidos não foi muito bem visto pelos responsáveis. Mais tarde, Patrick Lefevere chegou a dizer que Evenepoel estava gordo... Mas o jovem ciclista lá conseguiu fazer a transição, que se sabia ser difícil fazer em poucos dias. Demorou umas semanas, mas as exibições tornaram-se mais consistentes, venceu pela primeira vez na Volta à Bélgica, em Junho, e depois na Clássica de San Sebastián foi o Evenepoel dos ataques de longo, como tantas vezes fez em júnior. Faltavam 20 quilómetros quando se isolou e ninguém mais o apanhou. Só tem 19 anos, mas é mais um ciclista de quem se espera o que mostrou em Espanha e muito mais.

Marcel Kittel retira-se aos 31 anos (23 de Agosto)
Já se sabia que não era um ciclista feliz na Katusha-Alpecin. A chegada do antigo corredor Erik Zabel para trabalhar com alemão pareceu, numa primeira fase, algo de positivo no ânimo do sprinter alemão, mas não. Fez uma pausa em Maio e em Agosto anunciou que colocava o ponto final na carreira. Entretanto tinha sido pai e afirmou que não queria ver o filho crescer por Skype. A carreira acabou por ser curta, mas foi o tempo mais do que suficiente para ser recordado como um dos melhores sprinters. E foi mesmo!

Tadej Pogacar estrela na Vuelta (24 de Agosto a 19 de Setembro)
(Fotografia: © La Vuelta)
Até foi um compatriota que venceu, justamente, a corrida. Mas Primoz Roglic teve mesmo de partilhar a ribalta na Vuelta com mais um dos jovens com um potencial ainda por definir até onde pode ir. Tadej Pogacar começou por vencer categoricamente a Volta ao Algarve. Como esperado, foi apenas o início da sua afirmação, no primeiro ano no World Tour. A UAE Team Emirates sabe que tem uma aposta que pode ser mais do que ganha. Não era suposto fazer nenhuma grande volta esta temporada, mas depois de vencer a Volta à Califórnia e de mais umas exibições de enorme nível, a equipa levou-o a Espanha. Foi um senhor ciclista aos 21 anos. Três vitórias de etapas, terceiro na geral, vencedor da juventude, os números dizem quase tudo. Aquele penúltimo dia, na chegada à Plataforma de Gredos, Pogacar deixou a concorrência a mais de minuto e meio, sendo um dos grandes momentos de 2019.

Dilúvio em Yorkshire (22 a 29 de Setembro)
Eram uns Mundiais aguardados com alguma expectativa. Bons percursos, garantia de bom ambiente devido ao entusiástico público e muito provavelmente alguma chuva para tornar as corridas mais desafiantes. E lá isso foram. Foi uma semana quase toda de autêntico dilúvio. Quase que era difícil acreditar que se estava a assistir ciclistas caírem no que mais pareciam ser piscinas na estrada. Algumas provas, incluindo a de elite masculina, tiveram de ser encurtadas, com a chuva a marcar por completo os Mundiais de Yorkshire. Carregue no play no vídeo em baixo e veja (ou recorde) uma das imagens fortes de 2019.



Fuga de 100 quilómetros (28 de Setembro)
"Todo o dia pensei que era super estúpido." Annemiek van Vleuten teve muito tempo para pensar no que estava a fazer, pois resolveu atacar a 100 quilómetros da meta, nos Mundiais. O ciclismo feminino vai tentando ganhar o seu espaço no mediatismo e Van Vleuten bem merece tê-lo, num dos poucos dias em que não houve dilúvio a marcar as corridas de Yorkshire. Não terá sido a única a pensar como um ataque daqueles está condenado ao insucesso, mas esta é uma ciclista que, apesar dos 36 anos, continua a estar no topo. Foi uma aventura solitária que começou com menos de 50 quilómetros feitos na corrida. Dificilmente alguém acreditou ser possível chegar ao fim como vencedora, talvez mesmo as adversárias. Mas foi possível e no fim, não foi nada estúpido a forma como Van Vleuten conquistou o título mundial, deixando as adversárias a mais de dois minutos de distância.

Época de Julian Alaphilippe
(Fotografia: © ASO/Alex Broadway)
Para o fim fica o ciclista que não é justo escolher só um momento ou só uma corrida. Foi uma temporada simplesmente fenomenal de Julian Alaphilippe (Deceuninck-QuickStep). É um homem para todo o tipo de terreno. Ganhou o seu primeiro monumento e logo o dos sprinters (Milano-Sanremo), algo que ele nem é! Mas é quase tudo o resto. Homem de ataque, novo senhor da Flèche Wallonne (segunda vitória consecutiva), ataca a subir, ataca em plano, ataca quando sente que chegou o momento para tentar vencer. Só a Amstel lhe terá provocado alguma frustração, já mais do que esquecida depois de 14 dias de amarelo na Volta a França e duas vitórias de etapa. Ao todo foram 12 triunfos em 2019. Faltou fôlego nos Mundiais, o que nem surpreendeu dada a primeira fase de temporada a todo o gás. Alaphilippe é um fora de série e em França cresce a expectativa de quando (e se) este ciclista irá pensar em tornar-se num voltista para tentar ficar com aquela camisola amarela até aos Campos Elísios. Talvez um dia, mas não para já. Ainda só tem 27 anos.

»»A imparável Deceuninck-QuickStep««

»»Uma Bora-Hansgrohe cada vez mais para todo o terreno««

7 de outubro de 2019

Sagan dá um conselho a Van der Poel

(Fotografia: © Bettiniphoto/Bora-Hansgrohe)
Se há alguém que sabe bem o que é chegar ao mais alto nível e ter quase de imediato um forte impacto é Peter Sagan. Quando em 2010 se estreou pela Liquigas-Doimo, o eslovaco rapidamente começou a ganhar nos grandes palcos, não demorando a ser visto como um fenómeno e a tornar-se numa estrela. Sagan também sabe o quanto é difícil continuar a ganhar ao mesmo ritmo e cumprir as elevadas expectativas. Por isso, é a pessoa indicada para aconselhar o mais recente fenómeno do ciclismo mundial, Mathieu van der Poel, que nos Mundiais de Yorkshire mostrou que é humano depois de umas exibições de outro mundo!

O holandês de 24 anos só esta época é que se dedicou mais à vertente de estrada - apesar de ter sido campeão nacional em 2018 - e não demorou a exibir-se a grande nível e a obter vitórias incríveis e inesquecíveis. A da Amstel Gold Race ficará para a história e recentemente na Volta à Grã-Bretanha também deixou o pelotão, nas palavras de Matteo Trentin, a parecer uns ciclistas juniores. Porém, depois de parecer que ia a caminho de mais uma performance para recordar nos Mundiais, conseguindo chegar à frente da corrida e confirmando que tinha mesmo tudo para ganhar, quebrou. E que quebra! Acabou a mais de 10 minutos do vencedor, Mads Pedersen.

Sagan conhece a sensação, tanto a de ser o super favorito, como a de ter uma quebra física depois de muito trabalhar. Tantas vezes foi o eslovaco criticado por gastar demasiada energia, que depois lhe faria falta na luta pela vitória, enquanto os seus rivais aproveitavam o seu trabalho. Para Sagan, talvez Van der Poel estivesse "demasiado motivado" em Yorkshire: "Fez a sua aposta e pagou o preço."

Outra parecença entre ambos é o passado de BTT, com o holandês a ser ainda um dos melhores no ciclocrosse. Sagan avisou como tudo é diferente na estrada e deixou então um conselho a Van der Poel: "Há que aprender a usar a cabeça." Sagan até demorou na sua carreira a seguir esta recomendação! Ao Algemeen Dagblab acrescentou: "Há uma grande diferença entre a estrada e o ciclocrosse e BTT. Nos circuitos vamos a fundo durante uma hora. Na estrada falta experiência [a Van der Poel]."

Peter Sagan disse ainda como "no princípio é tudo mais fácil". Ou seja, ninguém sabe do que um ciclista é capaz. "Ganhar uma vez está bem. Depois tens de conseguir a segunda, terceira, quarta... Então é quando começa a ficar complicado", afirmou.

Mais uma vez, Sagan sabe bem do que fala. Aos 29 anos teve uma temporada abaixo das expectativas, com apenas quatro vitórias, mas juntou a sétima camisola verde (pontos) na Volta a França, assim como a classificação dos pontos na Volta à Suíça. Nos Mundiais chegou a admitir que perdeu uma oportunidade para conquistar o seu quarto título. Sagan falhou o momento que o colocaria na frente da corrida: acompanhar Van der Poel quando o holandês atacou no grupo perseguidor.

Aos 24 anos, Van der Poel (Corendon-Circus) tem muitos triunfos por conquistar, mesmo que continue, por agora, a dividir a sua carreira entre as três vertentes. Aliás, o BTT poderá ser o seu objectivo para Tóquio 2020, enquanto Sagan não deverá repetir a presença na modalidade, depois da experiência nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016. O eslovaco anunciou que não irá participar no evento teste e considera que o percurso não lhe assenta muito bem, devido às muitas subidas. O ciclista da Bora-Hansgrohe afirmou ainda que não terá tempo para se preparar de forma adequada, pelo que fica aberta a porta para ir à prova de estrada.

Enquanto Sagan decide os objectivos para 2020, certo é que na perspectiva de quem gosta de ciclismo, um dos duelos que mais se espera ver no próximo ano é precisamente o de o eslovaco com Mathieu van der Poel. Os dois em forma poderão tornar as clássicas da Primavera ainda mais interessantes.

»»Investir no ciclismo permitiu à Hansgrohe crescer 30% mais rápido««

»»Um campeão mundial improvável que comprovou 2019 como o ano da nova geração««