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25 de dezembro de 2019

Dez momentos de 2019

É tempo de olhar para trás, antes de nos concentramos definitivamente em 2020. Ou seja, é tempo de recordar alguns dos momentos marcantes da última temporada. Começando lá por fora, foi um 2019 dominado pela afirmação de uma nova geração, que está a tomar de assalto o pelotão internacional e, por isso, não surpreende que parte das escolhas para os 10 momentos do ano pertençam a exibições de ciclistas que são as novas figuras da modalidade. Mas também há espaço para um veterano e, infelizmente, nem todos os momentos foram de felicidade.

O objectivo inicial era escolher cinco momentos, acabou-se com dez e mesmo assim ficaram alguns de fora. Mas aqui ficam as escolhas do Volta ao Ciclismo. A ordem é cronológica.

Philippe Gilbert venceu Roubaix e só falta Sanremo (14 de Abril)
(Fotografia: Facebook Paris-Roubaix)
Em 2017, Gilbert reacendeu o antigo sonho de conquistar os cinco monumentos ao vencer de forma brilhante, numa fuga solitária, a Volta a Flandres. Este ano, Nils Politt (Katusha-Alpecin) tentou dar luta, mas estava destinado que o fantástico ciclista belga vencesse o Paris-Roubaix e ficasse apenas com a Milano-Sanremo por conquistar para fazer o pleno. Um emotivo Gilbert celebrou muito a vitória de Roubaix, dando mais um triunfo a uma Deceuninck-QuickStep que é uma equipa especialistas em ganhar clássicas. Trocar a BMC por esta formação em 2017 foi uma escolha muito acertada de Gilbert. Porém, aos 37 anos e perante uma oferta de três anos de contrato da Lotto Soudal contra um da actual equipa, Gilbert optou por regressar a uma casa onde alcançou as primeiras grandes vitórias na carreira. Até parece certo que tente fechar o ciclo de monumentos onde o começou.

Van der Poel e uma Amstel Gold Race para a eternidade (21 de Abril)
Vão ser imagens que hão-de ser vistas e revistas durante muito tempo. Hão-de fazer parte dos grandes momentos do ciclismo e com razão. O que Mathieu van der Poel fez na Amstel Gold Race só está ao alcance dos melhores dos melhores. Quando chegou à primeira corrida das Ardenas, já trazia vitórias espectaculares alcançadas em poucas semanas e estava a marcar a época das clássicas. Mas queria mais. Parecia que estava tudo preparado para Julian Alaphilippe (Deceuninck-QuickStep) - um dos homens que mais estava a ganhar - e Jakob Fuglsang (Astana) discutirem o triunfo. Tinham 40 segundos de vantagem e três quilómetros para a meta. Van der Poel fez o impensável. Arrancou com tamanha convicção, não se interessando quem se colava na sua roda, apenas olhando para quem tinha de apanhar na frente. Alaphilippe e Fuglsang podem ter exagerado no controlo um ao outro, mas o mérito esteve muito na força e crença de um Van der Poel que deixou todos de mãos na cabeça perante tal demonstração de ciclismo de ataque. Espectacular! Veja ou reveja este grande momento de 2019 no vídeo em baixo.


Queda de Chris Froome (12 de Junho)
O britânico jogava toda uma época na Volta a França e em conquistar a quinta vitória. Porém, no reconhecimento do contra-relógio do Critérium du Dauphiné, Froome sofreu uma aparatosa queda. Sofreu uma fractura no fémur, cotovelo e em algumas costelas, no esterno, osso situado na parte anterior e média do tórax, e na vértebra C7. Foi grave e as consequências assustaram. A época terminou ali e, passado meio ano, a dúvida mantém-se na própria Ineos: irá Froome conseguir recuperar o nível competitivo necessário para ganhar o Tour? O ciclista conseguiu regressar aos treinos mais cedo do que o esperado e já foi ao Japão mostrar-se, em ritmo de exibição, em cerca de três quilómetros, no habitual Critérium de Saitama de final de temporada. Mas a forma de Froome será uma das incógnitas para 2020.

Vitória de Bernal na Volta a França (28 de Julho)
(Fotografia: © ASO/Alex Broadway)
Após um ano de estreia no World Tour de elevadíssimo nível, deveria ser raro quem não pensasse que, mais cedo ou mais tarde, Egan Bernal ia vencer a Volta a França. Foi mais cedo. A queda de Chris Froome abriu caminho à liderança do colombiano, mesmo com Geraint Thomas, o vencedor de 2018, a seu lado. A aposta da Ineos era em Bernal. O plano inicial era o colombiano atacar o Giro, mas uma queda afastou da corrida italiana. No Tour ficou a pequena frustração de ver a mãe natureza obrigar ao final antecipado da etapa que Bernal estava a demonstrar toda a sua qualidade (a 19ª). Foi o dia das impressionantes imagens do deslizamento de terra. Mas Bernal fez o suficiente para comprovar que era o mais forte e subiu merecidamente ao pódio nos Campos Elísios com a camisola amarela. Fica na história como o primeiro colombiano a fazê-lo.

Evenepoel mostrou um pouco do que se vai ver muito mais (3 de Agosto)
Talvez alguma ânsia ou mesmo alguma pressão para estar à altura do mediatismo que rodeou a sua passagem de júnior directamente para o World Tour e para a Deceuninck-QuickStep, tenha prejudicado um pouco as primeiras exibições de Evenepoel no arranque da temporada. Tom Boonen bem avisou que o jovem ciclista ia precisar de perceber que não ia ganhar tanto como aconteceu no escalão de juniores. O abandono por opção do ciclista na Volta aos Emirados Árabes Unidos não foi muito bem visto pelos responsáveis. Mais tarde, Patrick Lefevere chegou a dizer que Evenepoel estava gordo... Mas o jovem ciclista lá conseguiu fazer a transição, que se sabia ser difícil fazer em poucos dias. Demorou umas semanas, mas as exibições tornaram-se mais consistentes, venceu pela primeira vez na Volta à Bélgica, em Junho, e depois na Clássica de San Sebastián foi o Evenepoel dos ataques de longo, como tantas vezes fez em júnior. Faltavam 20 quilómetros quando se isolou e ninguém mais o apanhou. Só tem 19 anos, mas é mais um ciclista de quem se espera o que mostrou em Espanha e muito mais.

Marcel Kittel retira-se aos 31 anos (23 de Agosto)
Já se sabia que não era um ciclista feliz na Katusha-Alpecin. A chegada do antigo corredor Erik Zabel para trabalhar com alemão pareceu, numa primeira fase, algo de positivo no ânimo do sprinter alemão, mas não. Fez uma pausa em Maio e em Agosto anunciou que colocava o ponto final na carreira. Entretanto tinha sido pai e afirmou que não queria ver o filho crescer por Skype. A carreira acabou por ser curta, mas foi o tempo mais do que suficiente para ser recordado como um dos melhores sprinters. E foi mesmo!

Tadej Pogacar estrela na Vuelta (24 de Agosto a 19 de Setembro)
(Fotografia: © La Vuelta)
Até foi um compatriota que venceu, justamente, a corrida. Mas Primoz Roglic teve mesmo de partilhar a ribalta na Vuelta com mais um dos jovens com um potencial ainda por definir até onde pode ir. Tadej Pogacar começou por vencer categoricamente a Volta ao Algarve. Como esperado, foi apenas o início da sua afirmação, no primeiro ano no World Tour. A UAE Team Emirates sabe que tem uma aposta que pode ser mais do que ganha. Não era suposto fazer nenhuma grande volta esta temporada, mas depois de vencer a Volta à Califórnia e de mais umas exibições de enorme nível, a equipa levou-o a Espanha. Foi um senhor ciclista aos 21 anos. Três vitórias de etapas, terceiro na geral, vencedor da juventude, os números dizem quase tudo. Aquele penúltimo dia, na chegada à Plataforma de Gredos, Pogacar deixou a concorrência a mais de minuto e meio, sendo um dos grandes momentos de 2019.

Dilúvio em Yorkshire (22 a 29 de Setembro)
Eram uns Mundiais aguardados com alguma expectativa. Bons percursos, garantia de bom ambiente devido ao entusiástico público e muito provavelmente alguma chuva para tornar as corridas mais desafiantes. E lá isso foram. Foi uma semana quase toda de autêntico dilúvio. Quase que era difícil acreditar que se estava a assistir ciclistas caírem no que mais pareciam ser piscinas na estrada. Algumas provas, incluindo a de elite masculina, tiveram de ser encurtadas, com a chuva a marcar por completo os Mundiais de Yorkshire. Carregue no play no vídeo em baixo e veja (ou recorde) uma das imagens fortes de 2019.



Fuga de 100 quilómetros (28 de Setembro)
"Todo o dia pensei que era super estúpido." Annemiek van Vleuten teve muito tempo para pensar no que estava a fazer, pois resolveu atacar a 100 quilómetros da meta, nos Mundiais. O ciclismo feminino vai tentando ganhar o seu espaço no mediatismo e Van Vleuten bem merece tê-lo, num dos poucos dias em que não houve dilúvio a marcar as corridas de Yorkshire. Não terá sido a única a pensar como um ataque daqueles está condenado ao insucesso, mas esta é uma ciclista que, apesar dos 36 anos, continua a estar no topo. Foi uma aventura solitária que começou com menos de 50 quilómetros feitos na corrida. Dificilmente alguém acreditou ser possível chegar ao fim como vencedora, talvez mesmo as adversárias. Mas foi possível e no fim, não foi nada estúpido a forma como Van Vleuten conquistou o título mundial, deixando as adversárias a mais de dois minutos de distância.

Época de Julian Alaphilippe
(Fotografia: © ASO/Alex Broadway)
Para o fim fica o ciclista que não é justo escolher só um momento ou só uma corrida. Foi uma temporada simplesmente fenomenal de Julian Alaphilippe (Deceuninck-QuickStep). É um homem para todo o tipo de terreno. Ganhou o seu primeiro monumento e logo o dos sprinters (Milano-Sanremo), algo que ele nem é! Mas é quase tudo o resto. Homem de ataque, novo senhor da Flèche Wallonne (segunda vitória consecutiva), ataca a subir, ataca em plano, ataca quando sente que chegou o momento para tentar vencer. Só a Amstel lhe terá provocado alguma frustração, já mais do que esquecida depois de 14 dias de amarelo na Volta a França e duas vitórias de etapa. Ao todo foram 12 triunfos em 2019. Faltou fôlego nos Mundiais, o que nem surpreendeu dada a primeira fase de temporada a todo o gás. Alaphilippe é um fora de série e em França cresce a expectativa de quando (e se) este ciclista irá pensar em tornar-se num voltista para tentar ficar com aquela camisola amarela até aos Campos Elísios. Talvez um dia, mas não para já. Ainda só tem 27 anos.

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»»Uma Bora-Hansgrohe cada vez mais para todo o terreno««

8 de dezembro de 2019

A imparável Deceuninck-QuickStep

(Fotografia: © Deceuninck-QuickStep)
Palavras para quê? É a Deceuninck-QuickStep! 68 vitórias em 2019. 15 dos 25 ciclistas ganharam corridas e quando chegou um estagiário, também esse corredor venceu. A equipa ganhou mais dois monumentos, foi a rainha das clássicas, mas também esteve no topo no Tour e vitoriosa na Vuelta. O que falta a esta equipa? Quem ganha assim, falta pouco ou nada. Julian Alaphilippe pode ter sonhado com uma vitória na Volta a França, mas nem o ciclista, nem a equipa têm esses objectivos, pelo que de todos os delineados para esta temporada falhou uma melhor prestação no Giro (até parece estranho não ter ganho nenhuma etapa) e um Enric Mas mais ao nível do épocas anteriores.

Nem tudo é perfeito e só assim esta equipa continua todos os anos em busca de ser melhor. Às vezes parece impossível, mas, tal como Alaphilippe demonstrou, não o é. O francês acabou por centrar grande parte das atenções nele, muito devido à senda de amarelo no Tour (14 dias não consecutivos) e duas vitórias de etapa (há um ano venceu também duas e foi o rei da montanha). Porém, estamos a falar de um ciclista com 12 vitórias, incluindo o seu primeiro monumento: a Milano-Sanremo. Ganhou ainda a Strade Bianche e começa a ser o rei da Flèche Wallonne, ao vencer pela segunda vez. Não há nada que este ciclista não seja capaz e em 2020 até vai experimentar a Volta a Flandres. Lutar pela geral no Tour, como se ficou a especular ainda mais depois do que fez na última edição, vai ser algo a pensar mais tarde.

Mas na Deceuninck-QuickStep há sempre espaço para mais ciclistas se destacarem. É talvez a única equipa que não sofre quando uma das suas figuras sai. Perdeu Fernando Gaviria, mas Fabio Jakobsen e Álvaro Hodeg estão em plena fase de afirmação, enquanto Elia Viviani somou 11 vitórias, incluindo a etapa que lhe faltava no Tour, e um título europeu. Está de saída para a Cofidis e não há lamentos porque a caminho vem Sam Bennett. Não há grandes dúvidas que o irlandês terá sucesso.

Kasper Asgreen, Florian Sénéchal e Rémi Cavagna são mais dois jovens a habituarem-se às grandes exibições e aos triunfos, enquanto Bob Jungels até esteve abaixo do esperado grande parte da temporada, principalmente no Giro, mas também teve os seus momentos, assim como um Zdenek Stybar, há algum tempo afastado das vitórias (uma delas foi no Alto do Malhão). Yves Lampaert não teve a época de clássicas que ambicionava, contudo, não deixou de agarrar algumas oportunidades.
Ranking: 1º (14835,15 pontos) 
Vitórias: 68 (incluindo Milano-Sanremo, Paris-Roubaix, três etapas no Tour e cinco na Vuelta) 
Ciclista com mais triunfos: Julian Alaphilippe (12)
Depois há dois belgas. Duas gerações. Philipe Gilbert (37 anos) foi o protagonista de um dos momentos da temporada. Conquistou o Paris-Roubaix e já só lhe falta a Milano-Sanremo para ter no currículo os cinco monumentos. Na Vuelta venceu duas etapas e já são sete na carreira na prova espanhola. E depois há Remco Evenepoel. Foi um início de temporada algo "tremido". Talvez a ansiedade de querer fazer muito bem rapidamente o tenha traído. O abandono na Volta aos Emirados Árabes Unidos não caiu bem na equipa, mas com apenas 19 anos e na sua primeira temporada no World Tour, não se pode dizer que seja uma surpresa que nem sempre fizesse as melhores da opções.

Habituado a ganhar tudo, passou pelo processo natural de adaptação. A certa altura, não parecia que estar tudo em harmonia. O director Patrick Levefere chegou a acusar Evenepoel de estar com peso a mais. Foi mais uma forma de "espicaçar" o jovem ciclista que em Junho começou a mostrar que está preparado para a responsabilidade que o espera. Até foi perfeito começar a ganhar em casa na Volta à Bélgica (uma etapa e a geral), mas foi a fenomenal exibição na Clássica de San Sebastián que confirmou o Evenepoel como um ciclista de topo entre os melhores. O antigo ciclista Tom Boonen alertou que o jovem belga teria de saber lidar com uma realidade completamente diferente da que estava habituado nos juniores e a boa notícia para a Deceuninck-QuickStep é que em seis meses Evenepoel demonstrou uma boa evolução a nível mental.

Aos 37 anos, Gilbert vai regressar à casa onde se tornou num dos ciclistas mais importantes do pelotão, a Lotto Soudal, pois nesta equipa não terá de dividir tanta atenção, numa altura em que não lhe resta muito mais tempo para concretizar o grande objectivo da carreira: ganhar a Milano-Sanremo. Evenepoel é agora um dos rostos do futuro da equipa Deceuninck-QuickStep, ainda que mais para as provas por etapas, já que Gilbert é um homem de clássicas. No entanto, fica reforçada a dúvida de como irá lidar a estrutura com a mais que clara vontade do belga de querer discutir uma grande volta, quando esta é uma equipa completamente virada para clássicas, sprints e vitórias de etapas.

Enric Mas está de saída precisamente porque para lutar por uma grande volta precisa de mais companheiros. Foi ao pódio no Vuelta em 2018, mas, apesar de muitas teorias que poderia utilizar o trabalho de equipas como a Ineos ou Jumbo-Visma a seu favor, esteve apagado no Tour. Lefevere chegou a prometer que contrataria ciclistas para ajudar o espanhol se este renovasse, mas Mas está a caminho da Movistar. Evenepoel poderá ser o ciclista que fará a Deceuninck-QuickStep alargar os seus objectivos, se não quiser perder o belga para outra equipa. Ou talvez até seja Alaphilippe a fazer os responsáveis da estrutura a pensar se é ou não altura de tentar ganhar uma grande volta e não "apenas" etapas.

A Deceuninck-QuickStep pode não precisar de mais nada para continuar a ser a que mais vence, mas haverá sempre caminhos novos a explorar, caso a equipa queira.

Para 2020, os objectivos vão manter-se iguais aos de sempre. O referido estagiário é o alemão Jannik Steimle, sprinter que assinou até 2021, contudo, numa perspectiva portuguesa, a atenção irá quase toda para João Almeida. Um dos mais promissores ciclistas da nova geração em Portugal vai chega ao World Tour pela porta grande e nesta equipa só se contrata os melhores ou os que têm tudo para o ser.

68 vitórias em 2019 que até foi um número mais baixo do que em 2018: 73. Mas continua muito acima dos rivais e nunca é de mais realçar como vários desses triunfos são nas principais corridas do calendário mundial.


15 de outubro de 2019

Uma Volta a França de assustar o melhor dos trepadores

(Imagem: Le Tour de France)
Se a edição de 2019 foi das melhores em anos recentes, a organização do Tour resolveu deixar todos a sonhar com algo inacreditável para 2020. Uma coisa é certa, não se poderá dizer tão cedo que a Volta a França não tem as dificuldades de uma Vuelta por exemplo. Para o ano será montanha, mais um pouco de montanha e quando alguém pensar em descansar, terá mais um pouco de montanha para enfrentar antes de chegar a Paris.

A expressão de Caleb Ewan demonstrou perfeitamente o sentimento de um sprinter, mas diga-se que os candidatos à geral também não pareceram muito tranquilos com o que estavam a ver durante a apresentação desta terça-feira, em Paris. Sorrisos só da parte de Thibaut Pinot (um Tour à sua medida) e de Julian Alaphilippe. Romain Bardet também não tem razões de queixa. E sim, são todos franceses! Tom Dumoulin não esteve presente, mas não tem razões para sorrir, tal como Primoz Roglic (ambos serão colegas na Jumbo-Visma em 2020), é que a ASO apenas colocou um contra-relógio e... é a subir... e não é numa subida qualquer!

Começando precisamente por esta etapa, a penúltima. Não é uma crono-escalada pura, já que dos 36 quilómetros, uma boa parte são planos. Haverá a subida ao Col de la Chevestraye antes da La Planche des Belles Filles, um local que está cada vez mais a tornar-se uma referência no Tour. São cerca de seis quilómetros a 8,4% de média, com a fase final a chegar aos 14%. Para Pinot (Groupama-FDJ), que consegue defender-se bem no contra-relógio, ter um perfil de montanha beneficia-o, já para não falar de Bardet. O líder da AG2R é muito mau no esforço individual, mas talvez consiga minimizar perdas sendo a subir. E claro que há que recordar: esta é a penúltima etapa de um Tour que irá massacrar o melhor dos trepadores. Não haverá tempo para corrigir falhas. O dia seguinte é de consagração.

Haverá muito a pensar nas equipas sobre as escolhas a fazer, ainda mais quando se estará em ano de Jogos Olímpicos. O Tour até começará uma semana mais cedo, mas ainda assim, quem for até ao fim e quiser ir a Tóquio, só terá seis dias para recuperar. Vincenzo Nibali, por exemplo, é um ciclista que está inclinado a escolher o Giro e depois os Jogos Olímpicos, não indo a França. E não será de surpreender que mais ciclistas sigam o mesmo plano em 2020, mas as decisões deverão ser tomadas quando forem conhecidos os percursos da Volta a Itália e da corrida em Espanha. Principalmente do Giro.

Na Volta a França esperam ao pelotão nove etapas de montanha, seis finais em alto, num total de 29 subidas categorizadas. Há ainda três tiradas que a organização apelida de "acidentadas" e as restantes são consideradas planas, mas muitas terão pequenas armadilhas (atenção ao vento em algumas das tiradas). Estas poderão criar dificuldades às equipas que apostem no sprint em conseguir garantir que de facto os homens mais rápidos disputem as vitórias. Este poderá ser um Tour com muito menos sprinters do que o normal. Chegar a Paris será um inferno que nenhum deles alguma vez enfrentou. Até Peter Sagan poderá enfrentar mais dificuldades para continuar a senda de conquistas de camisolas verdes.

Algo pouco habitual no Tour, além de apenas um contra-relógio (nem um colectivo foi incluído), é existir uma etapa de montanha logo ao segundo dia. Se um sprinter pode vestir a camisola amarela no primeiro dia, também a perderá logo de seguida. Nice receberá duas etapas e o início da terceira. E para não se ter dúvidas que este é de facto um Tour diferente, só haverá uma etapa acima dos 200 quilómetros.

O norte de França não entra no percurso, mas regressa o Maciço Central. Os Pirenéus chegarão primeiro do que os Alpes e a ASO procurou incluir novas subidas, deixando de fora locais míticos como o Mont Ventoux e o Alpe d'Huez. Mas haverá o Col de la Madeleine, na 17ª etapa, considerada a rainha. Na descrição do director da corrida, Christian Prudhomme, lê-se: "Apenas um grande campeão poderá ganhar no Col de la Loze." É uma subida a 2304 mil metros de altitude, que se tornará no sétimo ponto mais alto da Volta a França. Será uma etapa em que os ciclistas vão procurar reconhecer muito bem antes, pois haverá muitas estradas que nunca foram passadas, incluindo uma via construída apenas para bicicletas que levará até Méribel. E no dia seguinte haverá mais de quatro mil metros de acumulado para fazer!

Entre a 16ª e 18ª etapa muito poderá ficar decidido, mas claro que o objectivo deste percurso é que a decisão vá até La Planche des Belles Filles. Num Tour tão difícil que até levou Chris Froome a dizer que nunca tinha visto nada assim, descrevendo-o como "brutal", será muito difícil a equipas como a Ineos e a Jumbo-Visma controlarem. São etapas que convidam a ataques, o que faz com que Julian Alaphilippe tenha gostado do percurso, com o ciclista da Deceuninck-QuickStep a garantir que não quer lutar pela geral, mas não se importará de repetir o brilharete de 2019, ganhando etapas e andando de amarelo.

Tanta dureza pode resultar em espectáculo, mas poderá haver algum cuidado nos primeiros dias, com as equipas e ciclistas a preocuparem-se em poupar forças a pensar que haverá muito sofrimento pela frente. Uma Volta a França como esta acaba por ser uma incógnita como será enfrentada e até levanta a dúvida de quem a quererá enfrentar.

À primeira vista, assenta bem aos colombianos de características de trepador, com Egan Bernal, o vencedor de 2019, à cabeça. Nairo Quintana poderá estar satisfeito com o que viu. Além dos francesas referidos, Pinot e Bardet, o espanhol Mikel Landa (que vai para a Bahrain-Merida) também gostará da muita montanha e do pouco contra-relógio. Chris Froome (Ineos) teria apreciado mais contra-relógio, tal como Dumoulin e Roglic. Steven Kruijswijk será uma aposta da Jumbo-Visma que talvez se adapte melhor. A Mitchelton-Scott tem os irmãos Yates para um percurso com esta dificuldade.

As etapas e a indicação do tipo de percurso: 

1ª etapa (27 de Junho): Nice - Nice (156 quilómetros, plana)

2ª etapa (28): Nice - Nice (187, montanha)

3ª etapa (29): Nice - Sisteron (198, plana)

4ª etapa (30): Sisteron - Orcière-Merlette (157, montanha)

5ª etapa (1 de Julho): Gap - Privas (183, plana)

6ª etapa (2): Le Teil - Mont Aigoual (191, montanha)

7ª etapa (3): Millaur - Lavaur (168, plana)

8ª etapa (4): Czères-sur-Garonne - Loudenvielle (140, montanha)

9ª etapa (5): Pau - Laruns (154, montanha)

Dia de descanso em La Charente-Maritime (6)

10ª etapa (7): Îled'Oleron - Île de Ré (170, plana)

11ª etapa (8): Châtelaillon-Plage - Poitiers (167, plana)

12ª etapa (9): Chauvigny - Sarran (218, acidentada)

13ª etapa (10): Châtel-Guyon - Puy Mary (191, acidentada)

14ª etapa (11): Clermont-Ferrand - Lyon (197, acidentada)

15ª etapa (12): Lyon - Grand Colombier (175, montanha)

Dia de descanso em Isère (13)

16ª etapa (14): La-Tour-du-Pin - Villard de Lans (164, montanha)

17ª etapa (15): Grenoble - Méribel Col de la Loze (168, montanha)

18ª etapa (16): Méribel - La Roche-sur-Foron (168, montanha)

19ª etapa (17): Bour-en-Bresse - Champagnole (160, plana)

20ª etapa (18): Lure - La Planche des Belles Filles (36, contra-relógio)

21ª etapa (19): Mantes-la-Jolie - Paris (122, plana)



31 de julho de 2019

Quem ganhou mais dinheiro na Volta a França

Bernal e Alaphilippe, dois dos ciclistas em destaque
(Fotografia: © ASO/Alex Broadway)
Foram distribuídos mais de dois milhões de euros em prémios na Volta a França. Se não se está a correr a pensar que se vai ganhar dinheiro, mas sim uma etapa ou uma camisola, também é verdade que ninguém fica indiferente aos valores, que no final são normalmente divididos por todos os membros de uma a equipa. Sem surpresa, a Ineos foi quem mais amealhou, sendo decisivo o factor camisola amarela. Ou seja, só a conquista de Egan Bernal valeu 500 mil euros. O segundo classificado fica com 200 mil e como foi outro ciclista da equipa, Geraint Thomas, significa que o final do Tour tem um peso enorme do tamanho da bolsa.

Steven Kruijswijk, terceiro, ficou com 100 mil euros, mas a Jumbo-Visma teve mais ciclistas a contribuírem directamente para o mealheiro na Volta a França. Cada vitória de etapa, por exemplo, garantia 11 mil euros. A formação holandesa ganhou quatro. Andar de amarelo, mesmo que não se mantenha a camisola até final, rende 300 euros por dia. Mike Teunissen andou dois dias.

Mas neste aspecto é Julian Alaphilippe (Deceuninck-QuickStep) o rei: 14 dias de líder, ao que se juntou 20 mil euros por ter sido o ciclista mais combativo do Tour. Também ganhou duas etapas. De referir que quem veste a amarela e a ganha no final, recebe 500 euros por cada dia que a envergou, ou seja Bernal, deu mais uma ajuda ao bolo da Ineos.

A nível de etapas ganhas, a Lotto Soudal e a Mitchelton-Scott também somaram quatro cada uma, pelo que ajudou muito à sua "classificação" na tabela financeira. Já a Bora-Hansgrohe teve Peter Sagan a dar 25 mil euros pela conquista da camisola dos pontos, sendo que o eslovaco também venceu uma etapa. Porém, Emanuel Buchamann também contribuiu bastante, pois são dados prémios monetários até aos 20 primeiros da geral e das etapas. O alemão foi muito regular na montanha - tal como Sagan nos sprints - e terminou no quarto lugar.

O vencedor da classificação da montanha também ganha 25 mil euros (Romain Bardet, AG2R), o camisola branca da classificação da juventude 20 mil (mais um cheque para Bernal) e a melhor equipa leva 50 mil euros, prémio que ficou para a Movistar.

Entre os valores atribuídos estão, por exemplo, os 1500 euros para quem ganhou os sprints intermédios, mil para o segundo e 500 para o terceiro. Já nos prémios da montanha, dependeu da categoria. Uma especial rende 800 euros, de primeira categoria 650, segunda 500, terceira 300 e quarta 200. No entanto, há subidas que não podem ser equiparadas a todas as outras. O Tourmalet tinha de ser uma delas, mas também o foi o Col de l'Iseran, neste caso por ser o ponto mais alto do Tour, que é sempre premiado. Ambas as subidas renderam 5000 euros.

Aqui fica a "classificação financeira" nas contas feitas pelo site Cycling Weekly.

Ineos: 779,200 euros
Jumbo-Visma: 203,400
Deceuninck-QuickStep: 89,940
Bora-Hansgrohe: 159,050
Lotto Soudal: 134,760
Movistar: 132,470
Trek-Segafredo: 81,590
Mitchelton-Scott: 76,520
Bahrain-Merida: 71,890
Groupama-FDJ: 60,200
AG2R: 55,140
EF Education First: 41,710
Wanty-Groupe Gobert: 34,940
Sunweb: 31,310
CCC: 27,250
Astana: 24,250
UAE Team Emirates: 22,930
Arkéa Samsic: 22,800
Cofidis: 21,170
Dimension Data: 19,300
Katusha-Alpecin: 18,220

26 de julho de 2019

Lágrimas, espectáculo e um deslizamento

(Fotografia: © ASO/Alex Broadway)
Que dia no Tour! Se o abandono de Thibaut Pinot já seria drama suficiente para a etapa, a meteorologia resolveu pregar uma partida bem diferente do calor das etapas desta última semana de corrida. No entanto, há um momento que marcará a Volta a França, já longe da estrada. É o momento em que Egan Bernal não aguenta mais e deixa-se levar pela emoção de algo tão especial, com que há muito sonhava. Aproveitando a vantagem de poder apresentar um vídeo com o texto, desta feita começa-se por mostrar como reagiu o colombiano ao dar a entrevista como líder do Tour e com a vitória a estar ali tão perto.


Um Bernal que sempre demonstrou tanta tranquilidade, sabendo gerir bem as emoções em fases tensas de corrida, seja como gregário ou como líder, vai ter um sábado de nervos. "Só quero passar amanhã e chegar a Paris", disse entre muitas lágrimas. Será pedir muito?

Aos 22 anos, Egan Bernal está tão perto de cumprir o destino. Ganhar a Volta a França parecia ser uma questão de tempo. Desde que chegou à Ineos em 2018 que se falava quando ganhará e não se ganhará. Não era o plano para 2019. Afinal era o Giro o seu objectivo, mas uma queda afastou-o da prova dias antes do seu arranque. Uma queda que poderá ter precipitado um momento histórico. No Tour iria para ajudar Chris Froome. No entanto, mais uma queda tirou um líder da Ineos de uma grande volta. Geraint Thomas tem o número um, mas não conseguiu reunir nem a crença, nem a atenção de uma maioria que olhava para Bernal como o ciclista principal da equipa britânica. Olhava para ele como o vencedor.

Quando se fala de talento, Bernal é um dos melhores exemplos. Junta-se a isso a dedicação e trabalho para desenvolver esse talento e ter o apoio de uma das melhores equipas do mundo (ainda a melhor no que diz respeito a grandes voltas) e não nunca demoraria muito a Bernal começar a ganhar nos maiores palcos. E no maior palco: o Tour.

Ainda não ganhou. Não se festeje antes de tempo. Um último momento de nervosismo no Tour aguarda Bernal e toda uma Colômbia. Basta ver o que aconteceu a Thibaut Pinot. Num instante, o melhor Tour da sua carreira terminou em lágrimas, estas de uma desilusão profunda. Uma ruptura muscular na coxa acabou com um sonho que poderia ter-se tornado realidade, mas nunca o saberemos: finalmente um francês ganhar o Tour e acabar com o jejum de mais de 30 anos. A espera continua...

Esperava-se uma etapa intensa, com muito espectáculo, pois era bem ao estilo do que já se assistiu de melhor na Vuelta. Poucos quilómetros, 126,5 quilómetros, com constante sobe e desce, uma categoria especial como o Col de l'Iseran, antes de uma última dificuldade mais curta, mas que tinha pouco ou nada de fácil. Foi tudo o que se esperava e um pouco mais, que era desnecessário.

A meteorologia adversa confirmou-se e a intensa chuva, que foi acompanhada com queda de granizo, contribuiu para um deslizamento de terra que deixou a subida para a meta impossível de se fazer (as impressionantes imagens podem ser vistas no vídeo do resumo da etapa no final do texto). Os ciclistas já desciam rumo ao local à subida para Tignes, quando a organização mando parar. Ninguém ficou contente até perceberem a gravidade da situação. Não havia outra opção. Os tempos para a classificação geral foram contabilizados no Col de l'Iseran, onde Bernal passou em primeiro. Mas não foi o vencedor da etapa. A decisão passou por não ser atribuída classificação na tirada, o que significa que ninguém beneficiou de segundos de bonificação.


(Fotografia: © ASO/Pauline Ballet)
Bernal parecia ir a caminho de uma etapa para não mais esquecer. Certamente que ficará na sua memória na mesma, mas merecia ter tido a oportunidade de cortar a meta e saborear o momento, mesmo que Simon Yates (Mitchelton-Scott) eventualmente aguentasse o ritmo do colombiano e ganhasse a etapa.

Mas a amarela é de Bernal. Julian Alaphilippe (Deceuninck-QuickStep) desta feita cedeu. Será uma das figuras do Tour, mas agora passa o foco para o colombiano. A neutralização da etapa até o ajudou, pois a diferença para Bernal ficou-se nos 45 segundos e manteve-se no pódio. Porém, Alaphilippe admitiu que não se vê a ainda discutir a vitória e percebe-se porquê ao se olhar para a etapa de montanha que falta. Não tem nada a perder e até poderá tentar, mas também poderá apostar antes em garantir um merecido lugar no pódio de Paris. A missão não será fácil, contudo, depois de tudo o que fez, nada parece impossível para o francês neste Tour.

Na Ineos acabaram-se as tácticas estranhas e as disputas internas. Geraint Thomas está a 1:11 minutos de Bernal, no terceiro lugar, e garantiu que fará tudo para que o companheiro faça história. Um ano depois, o galês poderá estar na posição de Froome: a ser o último vencer, mas a ver um companheiro ganhar, enquanto sobe ao último lugar do pódio.

Egan Bernal é o terceiro colombiano a vestir a camisola amarela no Tour, depois de Víctor Hugo Peña em 2003 (durante três dias) e Fernando Gaviria em 2018 (um dia). Mas mais importante, está a 130 quilómetros* pelos Alpes de, no domingo, ter o seu momento de consagração e um encontro com a história a caminho de Paris, para finalmente colocar um colombiano como o grande vencedor da Volta a França.

20ª etapa: Albertville - Val Thorens, 130 quilómetros (a etapa foi posteriormente encurtada após a publicação deste texto, ver mais baixo)*



Há muito que não se tinha um Tour tão incerto no vencedor até tão perto do final. Apesar de parecer muito difícil Egan Bernal deixar escapar a camisola amarela, a verdade é que as diferenças são boas, mas não permitem descansar. A luta de pelo menos alcançar um lugar no pódio pode provocar alguns sustos a uma Ineos que não dá garantias colectivamente (alguma vez se pensou dizer isto?), pelo que Thomas poderá ainda ter um papel importante na defesa de Bernal, caso o colombiano não consiga ele próprio eliminar qualquer tentativa de ataque.

Steven Kruijswijk (Jumbo-Visma) está a 1:23 minutos de Bernal, a 12 segundos de Thomas, com um discreto mas extremamente competente Emanuel Buchmann (Bora-Hansgrohe) a 1:50 da frente, a 39 segundos de Thomas. Segue-se Mikel Landa (Movistar) a já 4:30, ainda que a luta por um melhor lugar no top dez possa ajudar a animar a etapa.

A derradeira subida, uma categoria especial, tem 33,4 quilómetros de extensão. A fase mais difícil é logo nos primeiros, quando se ultrapassa os 9% de pendente, mas a restante é muito constante entre os 6% e 8%, com algumas zonas de descanso. Mas depois de tantos quilómetros, de um Tour que apostou na altitude (vão terminar a 2365 metros), as dificuldades até Val Thorens vão parecer intermináveis.

Classificações completas, via ProCyclingStats.

* Após a publicação deste texto, foi anunciado que, devido ao mau tempo, a penúltima etapa seria encurtada para cerca de 60 quilómetros, com passagem apenas na última subida. Aqui fica o gráfico.



Veja toda a acção do dia no vídeo em baixo.




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21 de julho de 2019

Temos Tour!

(Fotografia: © ASO/Pauline Ballet)
Estava difícil! Já se tentava manter as expectativas pouco elevadas para evitar uma desilusão maior. A Volta a França tem sido tão previsível e tantas vezes mesmo monótona, que o que se está a assistir este ano é o exemplo do que esta corrida de facto representa. Foi com exibições e etapas emocionantes como as que temos assistido que se escreveu parte da mítica histórica do Tour. E claro, nada melhor para os da casa ver que dois dos grandes responsáveis são franceses, numa altura em que a esperança não tinha morrido, mas não andava particularmente em alta para ver acabar o jejum de 34 anos sem um ciclista gaulês vencer o Tour.

Esperava-se um Tour mais emotivo depois da infelicidade de Chris Froome. Não que a desgraça de um seja o benefício de outros. Se uma Volta a França como a que estamos a assistir, com a mesma atitude dos ciclistas, tivesse Froome... Porém, é incontornável que a sua ausência deu uma motivação e principalmente uma crença extra que era possível bater a toda poderosa Ineos. Já há um ano a então Sky tinha mostrado debilidades, pelo que não é novo que a equipa britânica pode falhar. Contudo, mesmo com Froome menos bem depois de ter ganho a Volta a Itália, os rivais esconderam-se atrás do receio de perder, em vez de arriscar para ganhar. Geraint Thomas foi excelente e um merecedor vencedor desse Tour, mas os adversários ficaram presos a um domínio que não era igual da Sky, mas ninguém quis tentar testá-lo.

Sem Froome isso está a acontecer. Julian Alaphilippe (Deceuninck-QuickStep) e Thibaut Pinot (Groupama-FDJ) estão a ser as principais figuras individuais, mas é a Jumbo-Visma que colectivamente está a marcar a diferença. Tanto no Tourmalet, no sábado, como este domingo em Foix, Laurens de Plus e George Bennett foram dois ciclistas que muito contribuíram para a quebra da Ineos. Steven Kruijswijk não aproveitou tão bem hoje esse trabalho, mas está na luta.

A excelente forma de Pinot e a ajuda do seu leal gregário David Gaudu e o sonho de Alaphilippe estão a fazer o resto para animar este Tour, incerto à saída dos Pirenéus e com a sensação que tudo pode acontecer nos Alpes. A Ineos ainda vai muito a tempo de restabelecer-se e vencer, mas esta Volta a França está longe de ter um prognóstico que parece bastante fiável, ao contrário de anos recentes.

Alaphilippe cedeu, mas não quebrou

(Fotografia: © ASO/Alex Broadway)
É o primeiro a admitir que não está habituado a estas andanças de defender uma camisola amarela numa grande volta. Cometeu o erro de tentar seguir Thibaut Pinot quando este atacou na subida final. A cinco quilómetros do fim (dos 185 entre Limoux e Foix) e já na terceira subida de primeira categoria do dia, depois do Tourmalet e de um brilhante contra-relógio, Alaphilippe cedeu. Mas não quebrou. Conseguiu evitar grandes perdas, mas passou de 2:02 minutos de vantagem para Thomas, para 1:35, com Pinot a começar a ser a grande ameaça, pois passou de 3:12 para 1:50. Na 10ª etapa, aquele corte proporcionado pelos "abanicos" custou-lhe 1:40 minutos.

Depois de vencer no Tourmalet, Pinot foi agora segundo, com Simon Yates (Mitchelton-Scott) a aproveitar que o seu irmão Adam não vai lutar pela geral para conquistar a segunda vitória de etapa. Egan Bernal (Ineos) tentou perseguir Pinot, mas também claudicou, enquanto Thomas disse após a tirada que se sentiu muito bem, ao contrário do que aconteceu no Tourmalet, mas não atacou para não prejudicar o companheiro. Com Alaphilippe ao pé de si naqueles quilómetros finais, percebe-se, mas com Pinot a ser claramente um perigo à solta, o galês viu o francês aproximar-se.

Nos "recados" deixados para a última semana, Thomas garantiu que está bem depois de um Tourmalet que quase o vergou; Pinot assegurou que vai fazer tudo pela geral e é para a ganhar, não "só" o pódio; Alaphilippe afirmou que continua a sonhar, realçou que é ele quem continua de amarelo e que está a aprender com os erros, como o que cometeu este domingo.

E ainda há Mikel Landa. Desta feita a Movistar jogou bem, com o espanhol a beneficiar da ajuda de Andrey Amador e Marc Soler para ganhar terreno, ainda que tenha sido depois apanhado por Pinot. Contudo, quando chegou a altura de Nairo Quintana entrar ao serviço, pois entrou na fuga do dia, nada fez! O colombiano não está a ser o líder que a equipa precisava e quando poderia contribuir para o resultado do colega, ficou apenas rapidamente para trás. Também pouco se percebe o papel de Alejandro Valverde. Não ajuda, mas também não se mexe para a geral. Parece estar a correr apenas por si. No Giro ficou bem claro qual é o poderio da Movistar quando funciona como um todo em prol de um, mas os egos continuam a ter uma palavra a dizer quando se junta o chamado tridente.

Diferenças entres candidatos, com Nairo Quintana e Daniel Martin a serem cada vez menos candidatos até a um top dez. Emanuel Buchmann continua a ser uma das figuras discretas, mas muito bem posicionada.

1º Julian Alaphilippe (Deceuninck-QuickStep)
2º Geraint Thomas (Ineos) a 1:35 minutos
3º Steven Kruijswijk (Jumbo-Visma) a 1:47
4º Thibaut Pinot (Groupama-FDJ) a 1:50
5º Egan Bernal (Ineos) a 2:02
6º Emanuel Buchmann (Bora-Hansgrohe) a 2:14
7º Mikel Landa (Movistar) a 4:54
8º Alejandro Valverde (Movistar) a 5:00
9º Jakob Fuglsang (Astana) a 5:27
10º Rigoberto Uran (EF Education First) a 5:33
11º Richie Porte (Trek-Segafredo) a 6:30
12º Warren Barguil (Arkéa Samsic) a 7:22
13º Nairo Quintana (Movistar) a 8:28
15º Daniel Martin (UAE Team Emirates) a 11:39

Classificações completas, via ProCyclingStats.

16ª etapa (23 de Julho): Nîmes - Nîmes, 177 quilómetros


A terceira semana vai começar com um problema: temperaturas próximas dos 40 graus! O calor tem sido inimigo do espectáculo. Segunda-feira é dia de descanso e terça-feira haverá uma etapa que é perfeita para os sprinters, mas atenção ao vento. Sim, é mais uma tirada em que poderá ser preparada novamente essa armadilha. Todos estão avisados, mas também o estavam na 10ª etapa!




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20 de julho de 2019

Chapeau Alaphilippe!

Sofreu, mas não quebrou. E até ganhou tempo a quase todos.
Este é um fenomenal Julian Alaphilippe (à esquerda)
(Fotografia: © ASO/Thomas Maheux)
O sonho continua e está cada vez mais vivo! A euforia francesa começa a contagiar além fronteiras, tudo porque Julian Alaphilippe surpreende a cada dia que passa e não só mantém a camisola amarela, como consegue ir ampliando a vantagem. No Tourmalet, só Thibaut Pinot foi melhor do que o compatriota, mas o ciclista da Groupama-FDJ tem ainda tempo para recuperar devido a uma etapa que espera não vá mesmo amaldiçoar um Tour em que não só aparece em boa forma, mas também está mentalmente forte. Porém, esta Volta a França está a pertencer a Julian Alaphilippe. Perguntava-se se poderia no futuro próximo ser um voltista. Agora, depois de passar exemplarmente o teste do Tourmalet, já se pergunta se pode mesmo ganhar o Tour de 2019.

O mais impressionante em Alaphilippe não é só por não ser visto como um homem para lutar pela geral de uma corrida de três semanas. O mais impressionante é mesmo ver como este fantástico ciclista tem estado a fundo desde Janeiro. Ganhou duas etapas e foi segundo na geral na Volta a San Juan no final de Janeiro e início de Fevereiro, pouco depois venceu mais uma tirada na Colômbia e a classificação dos pontos. Duas etapas no Tirreno-Adriatico, em Março, uma na Volta ao País Basco em Abril e mais uma no Critérium du Dauphiné e a camisola da montanha, em Junho.

Foi intercalando estes resultados com uma exibição avassaladora nas clássicas: venceu a Strade Bianche, o seu primeiro monumento na Milano-Sanremo e ainda conquistou a sua segunda Flèche Wallonne. Só não ganhou em Maio... porque não competiu! Aqui sim, já estava a pensar no Tour. Mas para ganhar?!

Na Volta a França queria vestir a camisola amarela para ir um além do brilharete de há um ano, quando venceu duas etapas e foi o rei da montanha. Então, tanto aparecia forte numa etapa, como descansava noutras. O normal e esperado. Agora está no máximo, ou quase, todos os dias. Foi a fundo no contra-relógio, ganhou-o e não pagou o preço no Tourmalet, ao contrário de corredores como Geraint Thomas e Rigoberto Uran. A capacidade de sofrimento e de se superar e superar quaisquer expectativas está a começar a deixar todos os rivais preocupados.

Além dos segundos que ganhou na estrada, 30 para Thomas por exemplo, somou ainda seis de bonificação pelo segundo lugar na etapa. Já se começa a comparar como Richard Carapaz (Movistar) também não foi levado inicialmente a sério na Giro quando vestiu a camisola rosa e acabou por ganhar. Alaphilippe é um ciclista diferente do equatoriano. Não é visto como um trepador puro, muito menos como voltista, mas claramente é melhor não menosprezar. Depois do Tourmalet (19 quilómetros, com pendente média de 7,4%), se não claudicar na última etapa nos Pirenéus este domingo, os 2:02 minutos que tem de vantagem para Thomas, os 2:14 para Steven Kruijswijk (boa etapa do holandês e da Jumbo-Visma), com todos os outros a estarem a mais de três minutos, vão obrigar a fazer contas com Alaphilippe na equação.

Nesta Volta a França de uma vida que o francês está a realizar, resta dizer, independentemente do que venha a acontecer, chapeau Alaphilippe!

Pinot à conquista das grandes montanhas


(Fotografia: © ASO/Pauline Ballet)
Já tinha sido rei do Alpe d'Huez em 2015 e agora junta o Tourmalet, outra das subidas mais míticas da Volta a França, aumentando para três as vitórias na corrida (a primeira foi em 2012, em Porrentruy). Fica bem no qualquer currículo de um ciclista do nível de Pinot, ainda mais sendo francês, contudo, o que mais importa neste momento é que foi outra exibição convincente de um Pinot rejuvenescido. Este é o corredor que se queria ver há muito no Tour, depois de ter sido terceiro em 2014. Que bem fizeram os dois anos que esteve mais dedicado ao Giro e Vuelta. Também a Groupama-FDJ esteve à altura dos acontecimentos, principalmente um David Gaudu que a exibir-se a este nível, não será gregário toda a sua carreira.

Pinot recuperou algum tempo e certamente que a sua motivação subiu novamente uns degraus depois daquela frustrante 10ª etapa, marcada pelo corte provocado pelo vento. Ainda assim tem 3:12 minutos para recuperar para Alaphilippe. Porém, tendo em conta como Thomas vacilou, Pinot vai continuar ao ataque, num Tour que está a ser de sonho para os franceses, pois, após o Tourmalet, são dois ciclistas daquele país que demonstram estar mais fortes, juntamente com o holandês Kruijswijk. E com a Ineos a não ter sido de todo dominadora, cresce o sentimento que é possível derrotar a equipa britânica.

Já o outro francês que tem vindo a ser um candidato a quebrar o longo jejum de vitórias na geral no Tour - Bernard Hinault foi o último em 1985 -, Romain Bardet, resta dizer que vai querer riscar esta corrida da sua memória. Perdeu contacto com o grupo de candidatos a 60 quilómetros da meta, na subida antes do Tourmalet. 20:19 minutos acumulados só hoje, ou seja, são 26:05 no total para Alaphilippe. Agora é tentar perceber se Bardet vai tentar salvar a honra ganhando uma etapa, ou se abandona e vai pensar na Vuelta. Talvez lhe fizesse bem uma fase idêntica à de Pinot, com as outras grandes voltas a serem os principais objectivos.

Descalabro Movistar

Andrey Amador foi brilhante no serviço de partir o pelotão. Foram muitos quilómetros a impor um ritmo infernal que um a um foi deixando ciclistas para trás e deixando aflitos outros tantos. O único senão é que nem Nairo Quintana aguentou... Mais uma exibição estranha da equipa espanhola, que deixou o seu líder ficar para trás. Amador saiu da frente, entrou Marc Soler ao trabalho e ainda trabalhou uns minutos até que finalmente ficou para trás para ajudar o colombiano.

O espanhol nem conseguiu ficar ao lado do companheiro, com Quintana a acabar por ter de se salvar sozinho. Mas com 3:24 minutos perdidos no Tourmalet, são 7:19 de desvantagem. Resta pensar no top dez para um ciclista cujo o sueño amarillo fica ano após ano adiado. Já Mikel Landa só perdeu contacto nos metros finais, perdeu 14 segundos para Pinot e os 6:14 não desanimam o espanhol que saiu do Tourmalet satisfeito com a sua exibição. Até é Alejandro Valverde o melhor classificado da equipa.


Multidão sempre impressionante no Tourmalet
(Fotografia: © ASO/Alex Broadway
Adam Yates (Mitchelton-Scott) foi outro dos principais derrotados do dia. Perdeu 6:42 minutos, sendo mais de dez para recuperar em relação a Alaphilippe.

Aqui ficam as diferenças entre candidatos, num dia em que Bernal recuperou a liderança da juventude, depois de Enric Mas ter fraquejado e nem ter conseguido acompanhar o companheiro Alaphilippe. O colombiano da Ineos não esperou por Thomas e explicou que essas foram as ordens da equipa. A Ineos está a apostar em dois ciclistas e não deixa que a quebra de um, prejudique o outro. Perante as exibições de Alaphilippe, as diferenças têm agora de ser feitas para este ciclista e não para Thomas.

1º Julian Alaphilippe (Deceuninck-QuickStep)
2º Geraint Thomas (Ineos) a 2:02 minutos
3º Steven Kruikswijk (Jumbo-Visma) a 2:14
4º Egan Bernal (Ineos) a 3:00
5º Emanuel Buchamann (Bora-Hansgrohe) a 3:12
6º Thibaut Pinot (Groupama-FDJ) a 3:12
7º Rigoberto Uran (EF Education First) a 4:24
8º Jakob Fuglsang (Astana) a 5:22
9º Alejandro Valverde (Movistar) a 5:27
10º Enric Mas (Deceuninck-QuickStep) a 5:38
11º Mikel Landa (Movistar) a 6:14
12º Richie Porte (Trek-Segafredo) a 6:49
14º Nairo Quintana (Movistar) a 7:19
16º Daniel Martin (UAE Team Emirates) a 9:50
18º Adam Yates (Mitchelton-Scott) a 10:37

15ª etapa (21 de Julho): Limoux - Foix, 185 quilómetros



Este está a ser o Tour mais emocionante dos últimos anos e na última etapa dos Pirenéus, com um dia de folga à espera, poderá ser mais uma etapa movimentada. A contar com a tirada deste domingo, ficam a faltar quatro de alta montanha. Ainda há tempo para recuperar, mas pode não haver tempo para adiar movimentações.

segundos bónus à espera no Mur de Péguère, com os últimos três quilómetros dos nove a serem feitos sempre acima dos 10% de pendente, chegando aos 18%. Os quase 12 quilómetros finais também não será fáceis, com alguns momentos acima dos 10%, com a maior parte a ser entre os 6% e os 9%.




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