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11 de março de 2021

Atitude muito pouco de Wolfpack

© Tim de Waele/Getty Images/DeceuninckQuickStep
Estava ali à vista. Naqueles momentos que a meta parece estar tão perto, mas, ao mesmo tempo, a sensação que falta uma eternidade para lá chegar. João Almeida deu tudo. Poderia estar naqueles metros finais o caminho para a sua primeira vitória como ciclista do World Tour. Ficou sozinho, os "companheiros de fuga" não tiveram pernas. Almeida não desistiu apesar da perseguição feroz do que restava do pelotão. Geraint Thomas, Mathieu van der Poel, Wout van Aert, Julian Alaphilippe... que perseguidores de luxo. Bom, Alaphilippe não. Afinal é colega de equipa de Almeida. Pois...

O que se viu no final da segunda etapa do Tirreno-Adriatico foi uma exibição muito pouco de Wolfpack. Sim, esteve lá a garra, a táctica e a execução final para selar mais uma vitória em 2021. E já são 10. Porém, atacar um colega de equipa que está a dar tudo o que tem e não tem para ganhar, é simplesmente desleal. Vê-se pouco no ciclismo (felizmente), mais inesperado é ver-se numa Deceuninck-QuickStep que se auto-intitula de Wolfpack (alcateia) para dar ênfase à sua forma de estar na modalidade, sempre em prol do colectivo, em que todos (ou quase) acabam por ter a sua oportunidade para brilhar e todos ajudam para que o faça.

Claro que há estatutos. E Julian Alaphilippe tem um muito, muito alto. Não só na equipa, como no pelotão em geral. E vestir a camisola de campeão do mundo é apenas um dos feitos que ajudaram a cimentar o francês como um dos ciclistas mais respeitados. Contudo, um verdadeiro campeão também sabe respeitar quem num dia, em vários dias, pode estar ao seu lado a trabalhar para que Alaphilippe possa vencer.

O ataque de Geraint Thomas (Ineos Grenadiers) tinha encurtado em muito a já escassa vantagem de João Almeida. Para trás tinha ficado Pavel Sivakov e só depois Thomas, seu colega de equipa, atacou... Se Alaphilippe não tivesse acelerado, talvez Almeida tivesse sido igualmente ultrapassado. Não se apresentava fácil a missão, mesmo com a meta ali tão perto. Se, se, se... A história não se escreve de "ses". Alaphilippe, como colega, como até líder, deveria ter respeitado o português e esperado que outro ciclista acelerasse primeiro.

Claro que na sua mente esteve, provavelmente, o receio de voltar a perder para Mathieu van der Poel, como aconteceu na Strade Bianche. E quase assim foi. Se não tem arrancado naquele momento, Alaphilippe teria tido dificuldade em bater o holandês da Alpecin-Fenix. Viu a oportunidade de conquistar mais uma vitória e não hesitou. Desportivamente nada a dizer. Cumpriu. Mas a que custo?

João Almeida nada tem com que se preocupar. Está a crescer como ciclista. A fazer  seu caminho.. Fez o que lhe competia. Infelizmente ficou sem "companheiros de fuga" um pouco cedo e fazer o que acabou por ser um autêntico sprint a subir, durante mais de 1500 metros para fugir aos perseguidores, não é fácil. Grande exibição, grande atitude. A vitória há-de chegar.

Numa altura em que se fala que a UAE Team Emirates estará a tentar contratar o ciclista para 2022 - está em final de contrato com a Deceuninck-QuickStep - sentir o respeito de todos, principalmente de alguém como Alaphilippe é importante. João Almeida já tem o seu estatuto, mas, naturalmente, ainda não está ao nível de Alaphilippe.

Já na Volta a Itália, que revelou todo o talento e potencial de Almeida ao mais alto nível do ciclismo, Fausto Masnada não tinha sido um corredor com atitude de Wolfpack. Tinha acabado de chegar à equipa, é italiano... mas não lhe ficou bem não ajudar mais. Esta atitude de Alaphilippe, ainda assim, custa mais a digerir.

A João Almeida resta continuar o seu trabalho e espera-se que possa também ele contribuir para o elevado número de triunfos que, ano após ano, a Deceuninck-QuickStep alcança. Com as exibições que tem feito, já ninguém o perde de vista e a continuar assim, poderá ver-se na situação bem agradável de poder escolher o que pretende para 2022 e adiante, seja na equipa belga, ou não. E este Tirreno-Adriatico ainda não acabou. Está na luta.

Classificações completas, via ProCyclingStats.

Veja o vídeo dos metros finais da segunda etapa da prova italiana (Camaiore-Chiusdino, 202 quilómetros).

»»A afirmação de Pedersen no pós-título mundial««

»»Corridas em Portugal só em Abril. Ciclistas desiludidos com adiamentos««

5 de outubro de 2020

Como não estrear-se como campeão do mundo

© Jumbo-Visma
Parecia tirado de um manual de como não agir num final de corrida. Julian Alaphilippe irá ter o seu nome entre um dos melhores momentos do ano (sagrar-se campeão do mundo em Imola), como num dos mais insólitos. Até Tadej Pogacar levou a mão à cabeça ao ver o disparate do francês. Alaphilippe queria tanto começar de forma perfeita o seu reinado com a camisola arco-íris, que acabou a cometer um erro de principiante.

Antes disso, realizou um desvio que, mesmo que tivesse ganho, ter-lhe-ia custado a vitória na Liège-Bastogne-Liège, que se realizou este domingo. Começando por aí. No início do sprint, Alaphilippe desviou-se de tal forma, que prejudicou Marc Hirschi. O suíço da Sunweb venceu a Flèche Wallonne e depois das exibições no Tour, ganhou definitivamente o respeito de todos. Porém, Alaphilippe "meteu-o de fora" da luta pelo monumento. Primeiro disparate, que felizmente não teve qualquer consequência física para Hirschi.

Segundo disparate. Ser campeão do mundo motiva qualquer um e Alaphilippe apresentou  na clássica belga aquela capacidade de sprintar em grupos pequenos. Eis a meta à sua frente, adversários um pouco atrás. É tempo de celebrar, pensou. Levantou os braços e lá do fundo veio um Primoz Roglic, bem mais concentrado, que, sobre a meta, venceu.

Foi o momento de esperar pela repetição. Sim, Roglic tinha mesmo vencido. Entre o poder voltar para trás a imagem televisiva ou ver o vídeo na internet, é ver e rever. É inacreditável que um ciclista como Alaphilippe tenha cometido um erro crasso. Já no Tour tinha passado pelo episódio de receber um bidão dentro dos 20 quilómetros finais de uma etapa, na qual não era permitido. Perdeu a camisola amarela, ainda que neste caso a responsabilidade é de quem se colocou mal na estrada. Está a ser um 2020 atípico para este fenomenal ciclista.

© Jumbo-Visma
Roglic é que já tem o seu monumento, enquanto o francês acabou o dia a dizer que era melhor ser relegado do segundo lugar, do que do primeiro. Isto porque os comissários penalizaram o ciclista da Deceuninck-QuickStep pelo gesto que prejudicou Hirschi. Alaphilippe desceu para o quinto lugar, o suíço foi segundo e Tadej Pogacar (UAE Team Emirates) fechou o pódio.

Alaphilippe pode ter razão. Teria sido pior perder a vitória, mas não apaga a imagem de como celebrou cedo de mais. Prometeu que nunca mais o faria. Lição aprendida. Mas ainda mais importante, depois de ver as imagens do que fez a Hirschi, admitiu prontamente a responsabilidade de como havia agido mal.

Já para Primoz Roglic e para a Jumbo-Visma, vencer um monumento pode não ter a mesma sensação se tivessem selado a vitória na Volta a França, naquele contra-relógio que o esloveno não irá esquecer. Mas Roglic merecia uma grande vitória e ainda não tinha ganho nenhuma das principais clássicas. E a forma como acreditou até ao fim, demonstra que não terá sido fácil assimilar a derrota no Tour para Pogacar, mas Roglic soube reagir. Também assim se vê quem é um verdadeiro vencedor.

Rui Costa foi o único português. Há muito que esta é uma clássica que deseja vencer e em 2016 até fez pódio. Nos 257 quilómetros ainda tentou um ataque, mas terminou na 40ª posição, a 1:18 de Roglic. Pogacar também começa a tomar conta de lugar de líder na UAE Team Emirates em certas corridas de um dia.

Classificações completas, via ProCyclingStats.

»»Alaphilippe com uma camisola que lhe fica tão bem««

»»O mundo amarelo de Tadej Pogacar««

27 de setembro de 2020

Alaphilippe com uma camisola que lhe fica tão bem

© UCI
Julian Alaphilippe era um daqueles ciclistas que se imaginava o quanto ficaria bem de camisola do arco-íris. O seu palmarés deixava antever que na sua carreira teria de estar o título de campeão do mundo, mais cedo ou mais tarde. Já tem um monumento (Milano-Sanremo), com vitórias no Tour, andou de amarelo (em França até se sonhou com a sua vitória em 2019) e tem mais triunfos não só em corridas importantes, mas normalmente acompanhados de espectáculo. O título mundial chega curiosamente num ano menos explosivo de Alaphilippe. Parecia que os seus famosos ataques simplesmente não estavam a resultar. Faltava algo. Pode não ser o ciclista de 2019 (não era fácil repetir a fantástica temporada), mas continua a ser o grande Alaphilippe. A conhecida aceleração que deixa todos para trás, resultou. E a camisola assenta-lhe mesmo bem!

"Um dia de sonho", desabafou um Alaphilippe (28 anos) muito emocionado. O pai do ciclista morreu há pouco tempo e esta época, o francês nunca esconde o quanto lhe é importante continuar a vencer, sempre a pensar no pai. A época pode não estar ao nível da de 2019, mas Alaphilippe tem demonstrado um enorme carácter. Não deixa de tentar, não deixa de conseguir ter uma equipa unida a ajudá-lo. A selecção francesa trabalhou, acreditando que Alaphilippe poderia conquistar um título que Wout van Aert era um dos super favoritos.

Julian Bernard, Kenny Elissonde, Valentin Madouas, Guillaume Martin, Rudy Molard, Quentin Pacher e Nans Peters tinham a responsabilidade de fazer frente a uma Bélgica fortíssima e que foi uma equipa que muito assumiu a perseguição a quem tentou escapar. Um deles foi Tadej Pogacar. O esloveno tentou a vitória épica, de longe, para juntar à Volta a França, mas o Mundial vai ter de esperar.

Itália foi outra selecção em destaque, com a Espanha de Alejandro Valverde e Mikel Landa a ficar mais na expectativa e a ficar apenas com o oitavo lugar. Valverde, foi o melhor, a 53 segundos de Alaphilippe.

A corrida não foi particularmente emocionante. Os 258,2 quilómetros num circuito de Imola, a começar e a acabar no Autódromo Enzo e Dino Ferrari, nove voltas, duas subidas que faziam o acumulado chegar aos cinco mil, o pelotão fez o esperado. Com o passar dos quilómetros, a velocidade aumentou e os ciclistas iam sendo "eliminados".

Com a excepção de Pogacar - que também tentou preparar um possível ataque do compatriota de Primoz Roglic (sexto) - todas as principais movimentações ficaram guardadas para a última Volta. Alaphilippe teve o timing perfeito, além de Wout van Aert preocupar tanto, que centrou as atenções dos adversários. O belga mantém a boa forma, mas não faz milagres.

O francês cortou a meta com 24 segundos de vantagem. O segundo? Van Aert, ao sprint (já havia sido segundo no contra-relógio). E em terceiro, mais uma das figuras da Volta a França: Marc Hirschi. O suíço é um campeão de fundo de sub-23 (2018) e está cada vez mais a assumir-se como mais um dos jovens a ter em atenção nesta nova geração.

Portugal fora do top dez

Não foi um Mundial feliz para a Equipa Portugal. Rui Costa (campeão do mundo em 2013), Nelson Oliveira, Rúben Guerreiro e Ivo Oliveira tinham como o objectivo alcançar mais um top dez. Porém, a corrida não decorreu como o esperado, a começar logo com a avaria de Guerreiro na pior das alturas.

"O Rúben trocou de bicicleta. Ainda esteve perto de reentrar, mas, quando o grupo acelerou, teve nova avaria e perdeu todas as possibilidades, sendo um dos nossos homens que poderia estar mais perto da frente", explicou o seleccionador José Poeira, citado pela Federação Portuguesa de Ciclismo. Guerreiro acabaria por abandonar.

Rui Costa, manteve-se no grupo da frente até à última volta, mas não conseguiu intrometer-se nas movimentações que acabaram por ditar o desfecho da corrida. O poveiro foi 26º classificado, a 2:03 minutos. Nelson Oliveira foi 38º, a 8:49, e Ivo Oliveira terminou na 88ª posição, a 32:08.

Classificações completas, via ProCyclingStats.

Os campeões de Imola

Foram uns Mundiais em versão reduzida, a possível dada a pandemia. A organização Aigle-Martigny, na Suíça, cancelou as provas e a opção foi Imola, em Itália, mas só para a elite.

Além de Julian Alaphilippe, no contra-relógio venceu o ciclista da casa, Filippo Ganna. Entre as mulheres, venceu uma grande senhora, que fez a dobradinha. A holandesa Anna van der Breggen começou por vencer pela primeira vez na carreira o título de contra-relógio (uma das poucas vitórias importantes que lhe faltava no palmarés), concluindo os dias em Imola com o seu segundo título de fundo.

»»Filippo Ganna, a confirmação««

»»O mundo amarelo de Tadej Pogacar««

2 de setembro de 2020

Alaphilippe perdeu a camisola amarela (afinal aconteceu algo na quinta etapa)

© ASO/Alex Broadway
Uma situação que custa a entender custou a camisola amarela a Julian Alaphilippe. Num dia em que o vento poderia provocar alguns problemas, afinal nem foi muito forte, mas nem assim o pelotão se preocupou em fazer desta etapa uma minimamente interessante. Valeram os 10 quilómetros finais e o sprint. Ou assim se pensava. Afinal, com cerca para 17 quilómetros do fim, um pequeno gesto acabaria por se tornar na história do dia. Julian Alaphilippe recebeu um abastecimento ilegal, foi sancionado com 20 segundos e entregou de bandeja a camisola amarela a Adam Yates.

O abastecimento não era permitido nos 20 quilómetros finais, mas as imagens televisivas não deixam dúvidas. Alaphilippe recebeu um bidão de um membro do staff da Deceuninck-QuickStep já dentro desse limite. Um erro que custou muito caro. A equipa ainda tirou uma fotografia orgulhosa por Sam Bennett ter vestido a camisola verde - mais um estranho pormenor do dia: Peter Sagan perdeu a verde (!) - e de ter Alaphilippe de amarelo. Mas afinal, a liderança está agora a 16 segundos, com o francês a cair para a 16ª posição na geral.

Uma desilusão para Alaphilippe, mas que preferiu olhar para a frente e para a possibilidade de continuar a ser uma das figuras do Tour. Disse mesmo que amanhã não se falaria mais nisso, numa etapa em que é novamente apontado como candidato à vitória.

O director desportivo Tom Steels admitiu o erro, justificando com dificuldades em escolher um local seguro para poder abastecer os ciclistas naquela zona do percurso (vídeo em inglês).


A Deceuninck-QuickStep vai ser forçada a ainda mais trabalho se quiser recuperar já a amarela. Não pode "apenas" controlar. A acção irá decorrer toda nos últimos 50 quilómetros, com duas terceiras categorias e uma primeira. Haverá ainda segundos bónus na última subida (oito, cinco e dois). A Alaphilippe não basta a vitória de etapa, terá de ser aquele ciclista que em 2019 deslumbrou se quer recuperar rapidamente a camisola amarela.

Já para Adam Yates é um dia de orgulho, mas com uma sensação algo estranha, como foi, aliás, todo o dia. O britânico da Mitchelton-Scott admitiu que não era assim que queria vestir a camisola amarela. Realçou que esta quinta-feira ia tentar ganhá-la a Alaphilippe. Mesmo sendo líder, Yates - um vencedor da juventude no Tour e quarto classificado, mas que está a demorar a confirmar credenciais na luta pela geral das grandes voltas -, afirmou que vai manter-se fiel ao plano: ganhar etapas. A amarela é algo para mostrar enquanto for possível.

Dia estranho

Foi assim a etapa quase toda. Até deu para pôr a conversa em dia entre os ciclistas
© ASO/Alex Broadway
É o que se pode dizer desta quarta-feira no Tour. Foi um dia estranho. O pelotão fez uma espécie de pacto de não agressão. Ninguém sequer atacou para uma fuga. 183 quilómetros entre Gap e Privas que deram para mais do que para fazer uma sesta. Quase deu para colocar o sono em dia!

O dia foi tão estranho que o prémio da combatividade foi entregue a Wout Poels (Bahrain-McLaren), que passou grande parte da etapa na parte de trás do pelotão. Um prémio por continuar em prova depois de partir uma costela e sofrer uma contusão pulmonar numa queda na primeira etapa.

Nos últimos 50 quilómetros lá se aumentou um pouco o ritmo (no final foi de 42,01 quilómetros/hora). Mas foram nos últimos dez que todos tiveram de se preocupar com a corrida. A Ineos Grenadiers acelerou e bem, provocando cortes no pelotão, com a ajuda do vento. Não houve continuidade no trabalho, pelo que a maioria dos que chegaram a perder o contacto com o pelotão, conseguiram regressar.

© ASO/PresseSports/Bernard Papon
E depois o sprint. A Sunweb foi a única equipa que conseguiu fazer o comboio para o seu sprinter. Cees Bol começa a ameaçar ganhar, mas Wout van Aert está simplesmente incrível. Um dia depois de trabalhar de forma perfeita para Primoz Roglic ganhar na primeira chegada em alto do Tour, o belga conquistou a sua etapa, repetindo o sucesso de 2019.

Strade Bianche, Milano-Torino, etapa e classificação dos pontos no Critérium du Dauphiné, campeão nacional de contra-relógio e agora etapa no Tour. Que 2020 memorável está a ter Van Aert. Ganha e ajuda a ganhar. A Jumbo-Visma tem mesmo um super ciclista.

Classificações complestas, via ProCyclingStats.

6ª etapa: Le Teil - Mont Aigoual, 191 quilómetros


Percurso sem dificuldades até aos 50 quilómetros finais. A situação de Julian Alaphilippe poderá alterar um pouco os planos para a etapa, mas os principais candidatos deverão ficar mais na expectativa, do que pensar em ataques. Claro que se repetir uma situação como a de terça-feira, cuidado com Primoz Roglic. Poderá ser um bom dia para uns ciclistas mais atrasados na classificação arriscarem uma fuga e talvez "terem autorização" do pelotão para disputar a vitória.

»»Assim Roglic é imbatível««

»»Caleb Ewan feito para o Tour««

30 de agosto de 2020

Segundos bónus não seduzem a todos. Mas Alaphilippe agradece

© ASO/Alex Broadway
A ASO, organizadora da Volta a França, repete em 2020 a fórmula de segundos de bónus em algumas etapas, depois da experiência no ano passado. Na prática a intenção é fazer com que haja maior movimentação na tentativa de procurar ganhar tempo, além das habituais bonificações em todas as metas, para os três primeiros. Este domingo estiveram os primeiros em jogo, mas será que os que lutam pelo Tour estão assim tão preocupados com estes segundos?

Em jogo estão oito, cinco e dois segundos, que vão estar disponíveis em mais sete etapas, depois da de hoje. Primoz Roglic (Jumbo-Visma) é um ciclista que gosta de lutar por qualquer segundo que possa estar disponível. A prova é, mesmo quando já não pode ganhar uma etapa, tenta sempre um segundo ou terceiro posto nas provas. E aquelas bonificações têm sido importantes.

Porém, é diferente desgastar-se um pouco na meta e ir à procura de bónus durante a etapa, mesmo que estejam colocados mais perto do final como é o caso neste Tour. Os ciclistas que começam por tentar aproveitar mais estas oportunidades, são atletas como Julian Alaphilippe. O corredor da Deceuninck-QuickStep não é um candidato a vencer a geral, mas para repetir a exibição de 2019, em que esteve 14 dias de camisola amarela vestida, somar estes segundos pode ser uma garantia que vai adiando a entrega da liderança àqueles que a procuram como objectivo máximo.

O trio que disputou os segundos bónus da 2ª etapa
© ASO/Pauline Ballet
Alaphilippe tinha esta segunda etapa marcada para tentar ganhar e vestir a amarela. Atacou na última subida, que nem era categorizada, mas tinha os tais segundos de bónus. Por acaso até foi apenas segundo, com Adam Yates (Mitchelton-Scott) a sprinter para ficar com os oito e o francês com os cinco. Em comum, estes ciclistas têm quererem ganhar etapas e estar de amarelo, mas sem pensar em chegar na condição de líder aos Campos Elísios.

Marc Hirschi (Sunweb) ficou com os dois segundos que restaram, com o pelotão, na altura comandado pela Ineos Grenadiers, a não se preocupar minimamente em colocar os seus líderes na luta pelos bónus. Para Egan Bernal, Roglic, Thibaut Pinot, as diferenças vão fazer-se nas grandes etapas de montanha.

Sprint final, com Hirschi a dar muito espaço a Alaphilippe,
que já não conseguiu recuperar
© ASO/Alex Broadway
Talvez mais adiante na corrida estes segundos de bónus possam tornar-se mais valiosos para os chamados favoritos, principalmente se ninguém estiver a conseguir fazer grande diferença. Se for o caso, então a Jumbo-Visma, que quer de facto ser a patroa do Tour, pode tentar explorar o lado rápido de Roglic em sprints em pequenos grupos.  E, lá está, o esloveno adora ir atrás de qualquer segundo que possa ajudar. Mas a preferência irá sempre para uma vitória de etapa. Pelo prestígio, claro, e porque são 10 segundos para o vencedor, seis para o segundo classificado e quatro para o terceiro.

A ideia de tentar que haja mais luta e logo mais espectáculo com a colocação destes bónus não resultou no imediato, mas Alaphilippe agradece, pois conquistou 15 segundos de bonificação e mais dois na estrada para o pelotão. Yates está a quatro e Hirschi - o novo líder da juventude, tirando a camisola branca a Mads Pedersen (Trek-Segafredo) - a sete.

© ASO/Alex Broadway
Início de nova saga no Tour?

O francês ainda não tinha vencido em 2020, apesar de ter estado perto na Milano-Sanremo (foi segundo, atrás de Wout van Aert) e nos Campeonatos Nacionais, há uma semana. Julian Alaphilippe viveu momentos difíceis com a morte do pai, a quem de imediato dedicou a vitória em Nice. Chorou de emoção, ao mesmo tempo que não escondeu algum alívio. Já se instalava algum nervosismo no ciclista pela falta de vitórias, depois de um 2019 memorável.

Apesar da Deceuninck-QuickStep não ser uma equipa para a montanha, já se percebeu que Alaphilippe é um lutador, que na edição passada até fez os franceses sonharem. Acabou em quinto, mas ainda assim, muito melhor do que se esperaria. Agora já não surpreenderá que faça algo idêntico. Contudo, apesar da exibição de hoje, este não é o Alaphilippe de 2019.

© ASO/Alex Broadway
Mesmo na forma como atacou, sem conseguir que Hirschi e Yates ficassem para trás, é notório que falta algo ao francês. Porém, pode compensar com aquela bem conhecida garra. Alaphilippe pode muito bem manter a camisola amarela por vários dias, com a oitava etapa a ser o pior dos testes, quando surgir a primeira categoria especial, no Port de Balès.

O senão é que Alaphilippe vai ter adversários que também querem vestir a amarela, nem que seja por um só dia. Dentro da margem dos 17 segundos estão, por exemplo, Sergio Higuita (EF Pro Cycling), Esteban Chaves (Mitchelton-Scott), Greg van Avermaet (CCC) e Pierre Latour (AG2R). E exclui-se aqueles que tem objectivos mais altos, ainda que não é de afastar que Tadej Pogacar (UAE Team Emirates) vá tentar fazer um pouco de história para a Eslovénia (Roglic tem concorrência nesta luta nacional).

Sempre que houver mais montanha, qualquer um destes ciclistas (e não só) podem fazer o mesmo que Alaphilippe. Procurar uns segundos bónus para ter aquele momento de amarelo.

Classificação completa, via ProCyclingStats.

Etapas com segundos bónus

  • 2ª - Col des Quatre Chemins
  • 6ª - Col de la Lusette
  • 8ª - Col de Peyresourde
  • 9ª - Col de Marie Blanque
  • 12ª - Suc au May
  • 13ª - Col de Neronne
  • 16ª - Montée de Saint-Nizier-du-Moucherotte
  • 18ª - Montée du plateau des Glières
3ª etapa: Nice-Sisteron, 198 quilómetros



Mesmo com quatro subidas categorizadas, é um dia que os sprinters não vão querer desperdiçar. Vai ser preciso as suas equipas trabalharem, pois também deverá haver quem vai apostar forte na fuga.

»»Lembram-se deste Kristoff««

»»Muito mais do que um Tour««

25 de dezembro de 2019

Dez momentos de 2019

É tempo de olhar para trás, antes de nos concentramos definitivamente em 2020. Ou seja, é tempo de recordar alguns dos momentos marcantes da última temporada. Começando lá por fora, foi um 2019 dominado pela afirmação de uma nova geração, que está a tomar de assalto o pelotão internacional e, por isso, não surpreende que parte das escolhas para os 10 momentos do ano pertençam a exibições de ciclistas que são as novas figuras da modalidade. Mas também há espaço para um veterano e, infelizmente, nem todos os momentos foram de felicidade.

O objectivo inicial era escolher cinco momentos, acabou-se com dez e mesmo assim ficaram alguns de fora. Mas aqui ficam as escolhas do Volta ao Ciclismo. A ordem é cronológica.

Philippe Gilbert venceu Roubaix e só falta Sanremo (14 de Abril)
(Fotografia: Facebook Paris-Roubaix)
Em 2017, Gilbert reacendeu o antigo sonho de conquistar os cinco monumentos ao vencer de forma brilhante, numa fuga solitária, a Volta a Flandres. Este ano, Nils Politt (Katusha-Alpecin) tentou dar luta, mas estava destinado que o fantástico ciclista belga vencesse o Paris-Roubaix e ficasse apenas com a Milano-Sanremo por conquistar para fazer o pleno. Um emotivo Gilbert celebrou muito a vitória de Roubaix, dando mais um triunfo a uma Deceuninck-QuickStep que é uma equipa especialistas em ganhar clássicas. Trocar a BMC por esta formação em 2017 foi uma escolha muito acertada de Gilbert. Porém, aos 37 anos e perante uma oferta de três anos de contrato da Lotto Soudal contra um da actual equipa, Gilbert optou por regressar a uma casa onde alcançou as primeiras grandes vitórias na carreira. Até parece certo que tente fechar o ciclo de monumentos onde o começou.

Van der Poel e uma Amstel Gold Race para a eternidade (21 de Abril)
Vão ser imagens que hão-de ser vistas e revistas durante muito tempo. Hão-de fazer parte dos grandes momentos do ciclismo e com razão. O que Mathieu van der Poel fez na Amstel Gold Race só está ao alcance dos melhores dos melhores. Quando chegou à primeira corrida das Ardenas, já trazia vitórias espectaculares alcançadas em poucas semanas e estava a marcar a época das clássicas. Mas queria mais. Parecia que estava tudo preparado para Julian Alaphilippe (Deceuninck-QuickStep) - um dos homens que mais estava a ganhar - e Jakob Fuglsang (Astana) discutirem o triunfo. Tinham 40 segundos de vantagem e três quilómetros para a meta. Van der Poel fez o impensável. Arrancou com tamanha convicção, não se interessando quem se colava na sua roda, apenas olhando para quem tinha de apanhar na frente. Alaphilippe e Fuglsang podem ter exagerado no controlo um ao outro, mas o mérito esteve muito na força e crença de um Van der Poel que deixou todos de mãos na cabeça perante tal demonstração de ciclismo de ataque. Espectacular! Veja ou reveja este grande momento de 2019 no vídeo em baixo.


Queda de Chris Froome (12 de Junho)
O britânico jogava toda uma época na Volta a França e em conquistar a quinta vitória. Porém, no reconhecimento do contra-relógio do Critérium du Dauphiné, Froome sofreu uma aparatosa queda. Sofreu uma fractura no fémur, cotovelo e em algumas costelas, no esterno, osso situado na parte anterior e média do tórax, e na vértebra C7. Foi grave e as consequências assustaram. A época terminou ali e, passado meio ano, a dúvida mantém-se na própria Ineos: irá Froome conseguir recuperar o nível competitivo necessário para ganhar o Tour? O ciclista conseguiu regressar aos treinos mais cedo do que o esperado e já foi ao Japão mostrar-se, em ritmo de exibição, em cerca de três quilómetros, no habitual Critérium de Saitama de final de temporada. Mas a forma de Froome será uma das incógnitas para 2020.

Vitória de Bernal na Volta a França (28 de Julho)
(Fotografia: © ASO/Alex Broadway)
Após um ano de estreia no World Tour de elevadíssimo nível, deveria ser raro quem não pensasse que, mais cedo ou mais tarde, Egan Bernal ia vencer a Volta a França. Foi mais cedo. A queda de Chris Froome abriu caminho à liderança do colombiano, mesmo com Geraint Thomas, o vencedor de 2018, a seu lado. A aposta da Ineos era em Bernal. O plano inicial era o colombiano atacar o Giro, mas uma queda afastou da corrida italiana. No Tour ficou a pequena frustração de ver a mãe natureza obrigar ao final antecipado da etapa que Bernal estava a demonstrar toda a sua qualidade (a 19ª). Foi o dia das impressionantes imagens do deslizamento de terra. Mas Bernal fez o suficiente para comprovar que era o mais forte e subiu merecidamente ao pódio nos Campos Elísios com a camisola amarela. Fica na história como o primeiro colombiano a fazê-lo.

Evenepoel mostrou um pouco do que se vai ver muito mais (3 de Agosto)
Talvez alguma ânsia ou mesmo alguma pressão para estar à altura do mediatismo que rodeou a sua passagem de júnior directamente para o World Tour e para a Deceuninck-QuickStep, tenha prejudicado um pouco as primeiras exibições de Evenepoel no arranque da temporada. Tom Boonen bem avisou que o jovem ciclista ia precisar de perceber que não ia ganhar tanto como aconteceu no escalão de juniores. O abandono por opção do ciclista na Volta aos Emirados Árabes Unidos não foi muito bem visto pelos responsáveis. Mais tarde, Patrick Lefevere chegou a dizer que Evenepoel estava gordo... Mas o jovem ciclista lá conseguiu fazer a transição, que se sabia ser difícil fazer em poucos dias. Demorou umas semanas, mas as exibições tornaram-se mais consistentes, venceu pela primeira vez na Volta à Bélgica, em Junho, e depois na Clássica de San Sebastián foi o Evenepoel dos ataques de longo, como tantas vezes fez em júnior. Faltavam 20 quilómetros quando se isolou e ninguém mais o apanhou. Só tem 19 anos, mas é mais um ciclista de quem se espera o que mostrou em Espanha e muito mais.

Marcel Kittel retira-se aos 31 anos (23 de Agosto)
Já se sabia que não era um ciclista feliz na Katusha-Alpecin. A chegada do antigo corredor Erik Zabel para trabalhar com alemão pareceu, numa primeira fase, algo de positivo no ânimo do sprinter alemão, mas não. Fez uma pausa em Maio e em Agosto anunciou que colocava o ponto final na carreira. Entretanto tinha sido pai e afirmou que não queria ver o filho crescer por Skype. A carreira acabou por ser curta, mas foi o tempo mais do que suficiente para ser recordado como um dos melhores sprinters. E foi mesmo!

Tadej Pogacar estrela na Vuelta (24 de Agosto a 19 de Setembro)
(Fotografia: © La Vuelta)
Até foi um compatriota que venceu, justamente, a corrida. Mas Primoz Roglic teve mesmo de partilhar a ribalta na Vuelta com mais um dos jovens com um potencial ainda por definir até onde pode ir. Tadej Pogacar começou por vencer categoricamente a Volta ao Algarve. Como esperado, foi apenas o início da sua afirmação, no primeiro ano no World Tour. A UAE Team Emirates sabe que tem uma aposta que pode ser mais do que ganha. Não era suposto fazer nenhuma grande volta esta temporada, mas depois de vencer a Volta à Califórnia e de mais umas exibições de enorme nível, a equipa levou-o a Espanha. Foi um senhor ciclista aos 21 anos. Três vitórias de etapas, terceiro na geral, vencedor da juventude, os números dizem quase tudo. Aquele penúltimo dia, na chegada à Plataforma de Gredos, Pogacar deixou a concorrência a mais de minuto e meio, sendo um dos grandes momentos de 2019.

Dilúvio em Yorkshire (22 a 29 de Setembro)
Eram uns Mundiais aguardados com alguma expectativa. Bons percursos, garantia de bom ambiente devido ao entusiástico público e muito provavelmente alguma chuva para tornar as corridas mais desafiantes. E lá isso foram. Foi uma semana quase toda de autêntico dilúvio. Quase que era difícil acreditar que se estava a assistir ciclistas caírem no que mais pareciam ser piscinas na estrada. Algumas provas, incluindo a de elite masculina, tiveram de ser encurtadas, com a chuva a marcar por completo os Mundiais de Yorkshire. Carregue no play no vídeo em baixo e veja (ou recorde) uma das imagens fortes de 2019.



Fuga de 100 quilómetros (28 de Setembro)
"Todo o dia pensei que era super estúpido." Annemiek van Vleuten teve muito tempo para pensar no que estava a fazer, pois resolveu atacar a 100 quilómetros da meta, nos Mundiais. O ciclismo feminino vai tentando ganhar o seu espaço no mediatismo e Van Vleuten bem merece tê-lo, num dos poucos dias em que não houve dilúvio a marcar as corridas de Yorkshire. Não terá sido a única a pensar como um ataque daqueles está condenado ao insucesso, mas esta é uma ciclista que, apesar dos 36 anos, continua a estar no topo. Foi uma aventura solitária que começou com menos de 50 quilómetros feitos na corrida. Dificilmente alguém acreditou ser possível chegar ao fim como vencedora, talvez mesmo as adversárias. Mas foi possível e no fim, não foi nada estúpido a forma como Van Vleuten conquistou o título mundial, deixando as adversárias a mais de dois minutos de distância.

Época de Julian Alaphilippe
(Fotografia: © ASO/Alex Broadway)
Para o fim fica o ciclista que não é justo escolher só um momento ou só uma corrida. Foi uma temporada simplesmente fenomenal de Julian Alaphilippe (Deceuninck-QuickStep). É um homem para todo o tipo de terreno. Ganhou o seu primeiro monumento e logo o dos sprinters (Milano-Sanremo), algo que ele nem é! Mas é quase tudo o resto. Homem de ataque, novo senhor da Flèche Wallonne (segunda vitória consecutiva), ataca a subir, ataca em plano, ataca quando sente que chegou o momento para tentar vencer. Só a Amstel lhe terá provocado alguma frustração, já mais do que esquecida depois de 14 dias de amarelo na Volta a França e duas vitórias de etapa. Ao todo foram 12 triunfos em 2019. Faltou fôlego nos Mundiais, o que nem surpreendeu dada a primeira fase de temporada a todo o gás. Alaphilippe é um fora de série e em França cresce a expectativa de quando (e se) este ciclista irá pensar em tornar-se num voltista para tentar ficar com aquela camisola amarela até aos Campos Elísios. Talvez um dia, mas não para já. Ainda só tem 27 anos.

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»»Uma Bora-Hansgrohe cada vez mais para todo o terreno««

8 de dezembro de 2019

A imparável Deceuninck-QuickStep

(Fotografia: © Deceuninck-QuickStep)
Palavras para quê? É a Deceuninck-QuickStep! 68 vitórias em 2019. 15 dos 25 ciclistas ganharam corridas e quando chegou um estagiário, também esse corredor venceu. A equipa ganhou mais dois monumentos, foi a rainha das clássicas, mas também esteve no topo no Tour e vitoriosa na Vuelta. O que falta a esta equipa? Quem ganha assim, falta pouco ou nada. Julian Alaphilippe pode ter sonhado com uma vitória na Volta a França, mas nem o ciclista, nem a equipa têm esses objectivos, pelo que de todos os delineados para esta temporada falhou uma melhor prestação no Giro (até parece estranho não ter ganho nenhuma etapa) e um Enric Mas mais ao nível do épocas anteriores.

Nem tudo é perfeito e só assim esta equipa continua todos os anos em busca de ser melhor. Às vezes parece impossível, mas, tal como Alaphilippe demonstrou, não o é. O francês acabou por centrar grande parte das atenções nele, muito devido à senda de amarelo no Tour (14 dias não consecutivos) e duas vitórias de etapa (há um ano venceu também duas e foi o rei da montanha). Porém, estamos a falar de um ciclista com 12 vitórias, incluindo o seu primeiro monumento: a Milano-Sanremo. Ganhou ainda a Strade Bianche e começa a ser o rei da Flèche Wallonne, ao vencer pela segunda vez. Não há nada que este ciclista não seja capaz e em 2020 até vai experimentar a Volta a Flandres. Lutar pela geral no Tour, como se ficou a especular ainda mais depois do que fez na última edição, vai ser algo a pensar mais tarde.

Mas na Deceuninck-QuickStep há sempre espaço para mais ciclistas se destacarem. É talvez a única equipa que não sofre quando uma das suas figuras sai. Perdeu Fernando Gaviria, mas Fabio Jakobsen e Álvaro Hodeg estão em plena fase de afirmação, enquanto Elia Viviani somou 11 vitórias, incluindo a etapa que lhe faltava no Tour, e um título europeu. Está de saída para a Cofidis e não há lamentos porque a caminho vem Sam Bennett. Não há grandes dúvidas que o irlandês terá sucesso.

Kasper Asgreen, Florian Sénéchal e Rémi Cavagna são mais dois jovens a habituarem-se às grandes exibições e aos triunfos, enquanto Bob Jungels até esteve abaixo do esperado grande parte da temporada, principalmente no Giro, mas também teve os seus momentos, assim como um Zdenek Stybar, há algum tempo afastado das vitórias (uma delas foi no Alto do Malhão). Yves Lampaert não teve a época de clássicas que ambicionava, contudo, não deixou de agarrar algumas oportunidades.
Ranking: 1º (14835,15 pontos) 
Vitórias: 68 (incluindo Milano-Sanremo, Paris-Roubaix, três etapas no Tour e cinco na Vuelta) 
Ciclista com mais triunfos: Julian Alaphilippe (12)
Depois há dois belgas. Duas gerações. Philipe Gilbert (37 anos) foi o protagonista de um dos momentos da temporada. Conquistou o Paris-Roubaix e já só lhe falta a Milano-Sanremo para ter no currículo os cinco monumentos. Na Vuelta venceu duas etapas e já são sete na carreira na prova espanhola. E depois há Remco Evenepoel. Foi um início de temporada algo "tremido". Talvez a ansiedade de querer fazer muito bem rapidamente o tenha traído. O abandono na Volta aos Emirados Árabes Unidos não caiu bem na equipa, mas com apenas 19 anos e na sua primeira temporada no World Tour, não se pode dizer que seja uma surpresa que nem sempre fizesse as melhores da opções.

Habituado a ganhar tudo, passou pelo processo natural de adaptação. A certa altura, não parecia que estar tudo em harmonia. O director Patrick Levefere chegou a acusar Evenepoel de estar com peso a mais. Foi mais uma forma de "espicaçar" o jovem ciclista que em Junho começou a mostrar que está preparado para a responsabilidade que o espera. Até foi perfeito começar a ganhar em casa na Volta à Bélgica (uma etapa e a geral), mas foi a fenomenal exibição na Clássica de San Sebastián que confirmou o Evenepoel como um ciclista de topo entre os melhores. O antigo ciclista Tom Boonen alertou que o jovem belga teria de saber lidar com uma realidade completamente diferente da que estava habituado nos juniores e a boa notícia para a Deceuninck-QuickStep é que em seis meses Evenepoel demonstrou uma boa evolução a nível mental.

Aos 37 anos, Gilbert vai regressar à casa onde se tornou num dos ciclistas mais importantes do pelotão, a Lotto Soudal, pois nesta equipa não terá de dividir tanta atenção, numa altura em que não lhe resta muito mais tempo para concretizar o grande objectivo da carreira: ganhar a Milano-Sanremo. Evenepoel é agora um dos rostos do futuro da equipa Deceuninck-QuickStep, ainda que mais para as provas por etapas, já que Gilbert é um homem de clássicas. No entanto, fica reforçada a dúvida de como irá lidar a estrutura com a mais que clara vontade do belga de querer discutir uma grande volta, quando esta é uma equipa completamente virada para clássicas, sprints e vitórias de etapas.

Enric Mas está de saída precisamente porque para lutar por uma grande volta precisa de mais companheiros. Foi ao pódio no Vuelta em 2018, mas, apesar de muitas teorias que poderia utilizar o trabalho de equipas como a Ineos ou Jumbo-Visma a seu favor, esteve apagado no Tour. Lefevere chegou a prometer que contrataria ciclistas para ajudar o espanhol se este renovasse, mas Mas está a caminho da Movistar. Evenepoel poderá ser o ciclista que fará a Deceuninck-QuickStep alargar os seus objectivos, se não quiser perder o belga para outra equipa. Ou talvez até seja Alaphilippe a fazer os responsáveis da estrutura a pensar se é ou não altura de tentar ganhar uma grande volta e não "apenas" etapas.

A Deceuninck-QuickStep pode não precisar de mais nada para continuar a ser a que mais vence, mas haverá sempre caminhos novos a explorar, caso a equipa queira.

Para 2020, os objectivos vão manter-se iguais aos de sempre. O referido estagiário é o alemão Jannik Steimle, sprinter que assinou até 2021, contudo, numa perspectiva portuguesa, a atenção irá quase toda para João Almeida. Um dos mais promissores ciclistas da nova geração em Portugal vai chega ao World Tour pela porta grande e nesta equipa só se contrata os melhores ou os que têm tudo para o ser.

68 vitórias em 2019 que até foi um número mais baixo do que em 2018: 73. Mas continua muito acima dos rivais e nunca é de mais realçar como vários desses triunfos são nas principais corridas do calendário mundial.


15 de outubro de 2019

Uma Volta a França de assustar o melhor dos trepadores

(Imagem: Le Tour de France)
Se a edição de 2019 foi das melhores em anos recentes, a organização do Tour resolveu deixar todos a sonhar com algo inacreditável para 2020. Uma coisa é certa, não se poderá dizer tão cedo que a Volta a França não tem as dificuldades de uma Vuelta por exemplo. Para o ano será montanha, mais um pouco de montanha e quando alguém pensar em descansar, terá mais um pouco de montanha para enfrentar antes de chegar a Paris.

A expressão de Caleb Ewan demonstrou perfeitamente o sentimento de um sprinter, mas diga-se que os candidatos à geral também não pareceram muito tranquilos com o que estavam a ver durante a apresentação desta terça-feira, em Paris. Sorrisos só da parte de Thibaut Pinot (um Tour à sua medida) e de Julian Alaphilippe. Romain Bardet também não tem razões de queixa. E sim, são todos franceses! Tom Dumoulin não esteve presente, mas não tem razões para sorrir, tal como Primoz Roglic (ambos serão colegas na Jumbo-Visma em 2020), é que a ASO apenas colocou um contra-relógio e... é a subir... e não é numa subida qualquer!

Começando precisamente por esta etapa, a penúltima. Não é uma crono-escalada pura, já que dos 36 quilómetros, uma boa parte são planos. Haverá a subida ao Col de la Chevestraye antes da La Planche des Belles Filles, um local que está cada vez mais a tornar-se uma referência no Tour. São cerca de seis quilómetros a 8,4% de média, com a fase final a chegar aos 14%. Para Pinot (Groupama-FDJ), que consegue defender-se bem no contra-relógio, ter um perfil de montanha beneficia-o, já para não falar de Bardet. O líder da AG2R é muito mau no esforço individual, mas talvez consiga minimizar perdas sendo a subir. E claro que há que recordar: esta é a penúltima etapa de um Tour que irá massacrar o melhor dos trepadores. Não haverá tempo para corrigir falhas. O dia seguinte é de consagração.

Haverá muito a pensar nas equipas sobre as escolhas a fazer, ainda mais quando se estará em ano de Jogos Olímpicos. O Tour até começará uma semana mais cedo, mas ainda assim, quem for até ao fim e quiser ir a Tóquio, só terá seis dias para recuperar. Vincenzo Nibali, por exemplo, é um ciclista que está inclinado a escolher o Giro e depois os Jogos Olímpicos, não indo a França. E não será de surpreender que mais ciclistas sigam o mesmo plano em 2020, mas as decisões deverão ser tomadas quando forem conhecidos os percursos da Volta a Itália e da corrida em Espanha. Principalmente do Giro.

Na Volta a França esperam ao pelotão nove etapas de montanha, seis finais em alto, num total de 29 subidas categorizadas. Há ainda três tiradas que a organização apelida de "acidentadas" e as restantes são consideradas planas, mas muitas terão pequenas armadilhas (atenção ao vento em algumas das tiradas). Estas poderão criar dificuldades às equipas que apostem no sprint em conseguir garantir que de facto os homens mais rápidos disputem as vitórias. Este poderá ser um Tour com muito menos sprinters do que o normal. Chegar a Paris será um inferno que nenhum deles alguma vez enfrentou. Até Peter Sagan poderá enfrentar mais dificuldades para continuar a senda de conquistas de camisolas verdes.

Algo pouco habitual no Tour, além de apenas um contra-relógio (nem um colectivo foi incluído), é existir uma etapa de montanha logo ao segundo dia. Se um sprinter pode vestir a camisola amarela no primeiro dia, também a perderá logo de seguida. Nice receberá duas etapas e o início da terceira. E para não se ter dúvidas que este é de facto um Tour diferente, só haverá uma etapa acima dos 200 quilómetros.

O norte de França não entra no percurso, mas regressa o Maciço Central. Os Pirenéus chegarão primeiro do que os Alpes e a ASO procurou incluir novas subidas, deixando de fora locais míticos como o Mont Ventoux e o Alpe d'Huez. Mas haverá o Col de la Madeleine, na 17ª etapa, considerada a rainha. Na descrição do director da corrida, Christian Prudhomme, lê-se: "Apenas um grande campeão poderá ganhar no Col de la Loze." É uma subida a 2304 mil metros de altitude, que se tornará no sétimo ponto mais alto da Volta a França. Será uma etapa em que os ciclistas vão procurar reconhecer muito bem antes, pois haverá muitas estradas que nunca foram passadas, incluindo uma via construída apenas para bicicletas que levará até Méribel. E no dia seguinte haverá mais de quatro mil metros de acumulado para fazer!

Entre a 16ª e 18ª etapa muito poderá ficar decidido, mas claro que o objectivo deste percurso é que a decisão vá até La Planche des Belles Filles. Num Tour tão difícil que até levou Chris Froome a dizer que nunca tinha visto nada assim, descrevendo-o como "brutal", será muito difícil a equipas como a Ineos e a Jumbo-Visma controlarem. São etapas que convidam a ataques, o que faz com que Julian Alaphilippe tenha gostado do percurso, com o ciclista da Deceuninck-QuickStep a garantir que não quer lutar pela geral, mas não se importará de repetir o brilharete de 2019, ganhando etapas e andando de amarelo.

Tanta dureza pode resultar em espectáculo, mas poderá haver algum cuidado nos primeiros dias, com as equipas e ciclistas a preocuparem-se em poupar forças a pensar que haverá muito sofrimento pela frente. Uma Volta a França como esta acaba por ser uma incógnita como será enfrentada e até levanta a dúvida de quem a quererá enfrentar.

À primeira vista, assenta bem aos colombianos de características de trepador, com Egan Bernal, o vencedor de 2019, à cabeça. Nairo Quintana poderá estar satisfeito com o que viu. Além dos francesas referidos, Pinot e Bardet, o espanhol Mikel Landa (que vai para a Bahrain-Merida) também gostará da muita montanha e do pouco contra-relógio. Chris Froome (Ineos) teria apreciado mais contra-relógio, tal como Dumoulin e Roglic. Steven Kruijswijk será uma aposta da Jumbo-Visma que talvez se adapte melhor. A Mitchelton-Scott tem os irmãos Yates para um percurso com esta dificuldade.

As etapas e a indicação do tipo de percurso: 

1ª etapa (27 de Junho): Nice - Nice (156 quilómetros, plana)

2ª etapa (28): Nice - Nice (187, montanha)

3ª etapa (29): Nice - Sisteron (198, plana)

4ª etapa (30): Sisteron - Orcière-Merlette (157, montanha)

5ª etapa (1 de Julho): Gap - Privas (183, plana)

6ª etapa (2): Le Teil - Mont Aigoual (191, montanha)

7ª etapa (3): Millaur - Lavaur (168, plana)

8ª etapa (4): Czères-sur-Garonne - Loudenvielle (140, montanha)

9ª etapa (5): Pau - Laruns (154, montanha)

Dia de descanso em La Charente-Maritime (6)

10ª etapa (7): Îled'Oleron - Île de Ré (170, plana)

11ª etapa (8): Châtelaillon-Plage - Poitiers (167, plana)

12ª etapa (9): Chauvigny - Sarran (218, acidentada)

13ª etapa (10): Châtel-Guyon - Puy Mary (191, acidentada)

14ª etapa (11): Clermont-Ferrand - Lyon (197, acidentada)

15ª etapa (12): Lyon - Grand Colombier (175, montanha)

Dia de descanso em Isère (13)

16ª etapa (14): La-Tour-du-Pin - Villard de Lans (164, montanha)

17ª etapa (15): Grenoble - Méribel Col de la Loze (168, montanha)

18ª etapa (16): Méribel - La Roche-sur-Foron (168, montanha)

19ª etapa (17): Bour-en-Bresse - Champagnole (160, plana)

20ª etapa (18): Lure - La Planche des Belles Filles (36, contra-relógio)

21ª etapa (19): Mantes-la-Jolie - Paris (122, plana)