Ajudar uma equipa de jovens, neste caso até dar o nome (ou o diminutivo), não é exactamente invulgar para um ciclista profissional. No entanto, estamos a falar de um corredor também ele ainda muito jovem e que há pouco tempo estava nessa equipa a sonhar com a Volta a França... que ganhou em 2020! A influência de Tadej Pogacar já se faz sentir na Eslovénia, muito além de ter contribuído para o ciclismo a tornar-se numa modalidade de referência no país, com uma grande ajuda do compatriota Primoz Roglic, claro. Em 2021 vai estar na estrada a Pogi Team.
"Quero dar algo de retribuição à equipa na qual treinei e me formei como ciclista. Esta camisola será para os mais pequenos, até aos juniores", anunciou Pogacar enquanto mostrava o equipamento da agora Pogi Team, num programa de televisão do seu país, Športnih 366 (ver em baixo).
Um gesto importante para reforçar o crescimento do ciclismo na Eslovénia, que nos últimos anos passou de uma quase desconhecida nação neste desporto, para uma com dois vencedores de grandes voltas e Roglic também já tem um monumento (Liège-Bastogne-Liège), sem esquecer que Matej Mohoric, por exemplo, foi campeão do mundo de sub-23 em 2013, com outros ciclistas daquele pequeno país a já terem alcançado bons resultados em grandes corridas.
Once ours Tadej Pogačar is already helping out. His nickname on a jersey that young cyclists of @KDRogLJ will wear in the future. Congrats, Tadej. https://t.co/SXfe61DaDR
A equipa em causa dos primórdios de Pogacar é a Cycling Clube KD Rog, uma formação satélite das equipas profissionais do Ljubljana Gusto e Alé BTC Ljubljana, esta última para as senhoras. Foi lá que Pogacar começou a ganhar as bases para o excelente ciclista que se tornou e o esloveno não esquece isso mesmo. Por isso, vai ajudar a equipa e até a UAE Team Emirates, actual formação do corredor, deverá também dar a sua contribuição. Quem sabe num futuro próximo saia de lá mais um campeão do Tour...
Tadej Pogacar ainda está nos primeiros dias como vencedor da Volta a França e já admite que a sua vida ficou "virada do avesso" desde o contra-relógio de sábado, em La Planche de Belles Filles. O mundo amarelo do ciclista começou quando acordou no domingo, com as marcas ligadas à UAE Team Emirates a não falharam no momento de celebrar o feito do jovem que esta segunda-feira celebrou 22 anos.
Equipamento da cabeça aos pés, bicicleta, bidão, até a máscara, nada faltou em amarelo, como se pode ver nas fotografias. Tudo para guardar e mais tarde recordar. A bicicleta da Colnago teve de ser substituída rapidamente, pois Pogacar admitiu numa entrevista ao L'Equipe que na sexta-feira à noite tinha visto os mecânicos a prepararem uma toda branca, para o ciclista utilizar na derradeira etapa e assim assinalar a conquista da classificação da juventude. Sábado tudo mudou, com Pogacar a vencer não só a camisola branca, como a das bolinhas vermelhas da montanha e, claro, a amarela.
Da noite para o dia, tudo mudou, incluindo a vida do esloveno, que ainda está só a começar a experimentar todas as responsabilidades que advêm de um vencedor da Volta a França. "Penso que o segredo do meu sucesso é que comecei sem acreditar em algum momento que poderia ganhar. Era um espírito livre. Nem sequer tinha um ciclo-computador", contou o ciclista ao jornal francês. "O contra-relógio virou a minha vida do avesso e tudo ainda está do avesso", afirmou.
Pogacar não esquece Primoz Roglic, o seu compatriota e rival durante o Tour. Realçou como considerou que o ciclista da Jumbo-Visma reagiu bem à derrota, lamentando que não tenha ganho. Afirmou mesmo que Roglic foi o melhor durante todo o Tour, mas que teve um mau dia no contra-relógio, para o qual havia partido com 57 segundos de vantagem e acabou a 59 de distância de Pogacar. "Tenho pena por ele, mas o desporto é assim. Queremos ganhar, damos tudo e, infelizmente, ele perdeu a camisola e sou eu que a tenho, apesar de ele ser um dos melhores ciclistas dos últimos três anos", afirmou.
Há três anos, Pogacar nem no World Tour estava - representava uma equipa Continental de Liubliana -, mas já ganhava o Tour de l'Avenir e tinha a UAE Team Emirates a garantir a sua contratação para 2019. E nunca é de mais recordar: a primeira vitória como ciclista do World Tour foi na Volta ao Algarve, primeiro no Alto da Fóia e depois conquistando a geral.
Tivemos Volta a França! Depois de tanta incerteza e de tanto as equipas desejarem terem um Tour para salvar uma temporada que a pandemia ameaça tornar perdida, a corrida realizou-se mesmo, com um ou outro sobressalto, como os cinco casos positivos no primeiro dia de folga e os dois membros de staff mandados para casa pela Lotto Soudal ainda antes da prova. Porém, foi possível o destaque ser a competição. Não foi um Tour tão emocionante como o de 2019, mas contra-relógio final valeu uma Volta a França. Recordaremos aquela exibição de Tadej Pogacar durante anos e anos. Foi uma performance para a história de um jovem que esta segunda-feira vai celebrar 22 anos.
Como sempre, há aspectos positivos e negativos. Aqui ficam as prestações das equipas uma a uma, com a classificação por equipas a determinar a ordem. E lá aparece a Movistar a liderar, com Nelson Oliveira a somar mais uma subida a um pódio de uma grande volta.
Próxima paragem nas grandes voltas: Volta a Itália, de 3 a 25 de Outubro.
Movistar: Está em fase de renovação e está a ser lenta. Ainda assim, Enric Mas acabou por fazer um bom Tour, fechando num excelente quinto lugar, a 6:07 minutos de Pogacar. O espanhol foi crescendo de forma, manteve-se sempre muito discreto, mas de olhos postos num bom resultado. Falta é equipa. Alejandro Valverde também quase não se viu, contudo, um desastroso contra-relógio tirou-lhe o que seria mais um top dez. Mas lá está, não trabalha para companheiros. A equipa acaba por ganhar a classificação colectiva, o que é algo habitual, mas, mais uma vez, não apaga que a Movistar precisa de mais e melhor, com Mas a salvar a honra. Mas a equipa nem uma etapa ganhou. Nelson Oliveira cumpriu com a sua função e não é por acaso que continua a ser um dos gregários que os responsáveis não abdicam.
Jumbo-Visma: Que Tour tão amargo! A Jumbo-Visma tirou a Ineos Grenadiers do pedestal e terminou com a era Sky/Ineos. Porém, não conseguiu substitui-la como a força vencedora. A equipa holandesa foi a mais forte, mas também mostrou falhas - deveria ter ganho mais tempo na montanha, tal era a diferença para as outras equipas -, que não foram mais graves porque tinha um líder, Primoz Roglic, também ele forte. Ou seja, foi uma equipa completa. Uma das falhas acabou por ser a falta de maior controlo a Pogacar. Custou caro.
É inevitável destacar três ciclistas, além do esloveno. Sepp Kuss está feito num gregário de luxo aos 26 anos e já começa a pedir mais do que um papel secundário. Dumoulin foi um senhor. Não era o objectivo, mas o holandês sacrificou-se por Roglic. A ideia da equipa era tê-lo preparado para entrar na luta pela amarela, mas quando a equipa funcionou pior, Dumoulin fez tudo para ver Roglic ganhar. O sétimo lugar é uma recompensa, mas este Dumoulin já deixa antever um regresso aos melhores tempos.
Por fim, Wout van Aert. É um ciclista a quem faltam adjectivos para o elogiar. Venceu duas etapas, se calhar até poderia ter ganho mais e até a camisola verde, mas sempre disse que estava no Tour para ajudar Roglic. E que ajuda deu! Acabou por ser dos mais importantes na montanha, quando se esperaria que fosse dos primeiros a acabar o trabalho nas etapas. Afinal, foi dos últimos. Lealdade suprema, qualidade que nunca mais acaba, foi um super Van Aert, que está muito ganhador em 2020, mas que é também um verdadeiro homem de equipa.
Quanto a Roglic, esteve praticamente sempre bem e venceu uma etapa. Foi autoritário, foi somando bonificações que pareciam estar a ser tão importantes. Mas as forças faltaram-lhe quando 57 segundos de vantagem deveriam ter garantido o Tour, que a Jumbo-Visma esperava ser o culminar do trabalho feito nos últimos anos para se tornar numa potência. Há que perceber o que aconteceu, levantar a cabeça e tentar de novo.
Bahrain-McLaren: O quarto lugar de Mikel Landa (a 5:58) foi um menos mal para um espanhol que desiludiu como líder. É a segunda vez que fecha nesta posição - na outra foi como gregário da Sky -, mas tendo em conta que sempre assumiu que olhava para a vitória, ou pelo menos para o pódio, houve pouco Landa. Nem no dia em que a equipa tão bem preparou o seu ataque, o fez. 24 horas depois atacou só para mostrar que estava presente. Deveria ter mostrado muito mais. Mas a Bahrain-McLaren teve uma prestação colectiva muito positiva e ainda colocou Damiano Caruso no 10º lugar.
EF Pro Cycling: Tour de altos e baixos. Um última semana menos boa tirou o pódio a Rigoberto Uran (terminou em oitavo, a 8:02). Uma sequência de quedas, a começar no Critérium du Dauphiné e que continuaram no Tour, tiraram Sergio Higuita da corrida. Daniel Martínez desiludiu na geral, mas foi dele o momento alto, ao ganhar uma etapa, em Pas de Peyrol. Neilson Powless esteve em bom plano nas fugas, já Hugh Carthy esteve aquém do esperado e Tejay van Garderen esteve na corrida (caso não não se saiba!), mas o americano esteve completamente apagado. Ainda assim, Tour positivo para a EF Pro Cycling dada as armas que tinha e os azares que teve com Higuita.
Ineos Grenadiers: Os tempos da Sky terminaram, mas a nova era da equipa britânica, apostando de uma vez por todas nos seus jovens na Volta a França e deixando Chris Froome Geraint Thomas de fora, não correu nada bem. Egan Bernal esteve longe do seu melhor e nem terminou a corrida. Que estranho foi ver o colombiano sofrer tanto nas montanhas, mas melhores tempos virão para este fenomenal ciclista. A equipa também se pode queixar de muitos infortúnios. Pavel Sivakov e Andrey Amador começara o Tour a cair duas vezes no primeiro dia, Sivakov ainda voltou a sofrer incidentes, o que o limitou na missão de estar ao lado de Bernal. Richard Carapaz acabou por ser o maior destaque, mas perdeu a camisola da montanha no contra-relógio para um super Pogacar. Para a Ineos Grenadiers valeu aquele momento em que Carapaz e Kwiatkowski trabalham juntos numa fuga para cortar a meta lado-a-lado, com vitória para o polaco. Porém, perante os objectivos, esta foi uma Volta a França para esquecer... ou, se calhar, para aprender.
Trek-Segafredo: Não foi uma corrida fácil, mas no final houve uma compensação já merecida para Richie Porte. Foi dos anos em que melhor surgiu, talvez só comparável a 2016 e em 2017, neste último em que parecia estar fortíssimo, mas sofreu uma queda que lhe acabou com a temporada. O australiano assumiu que era a última vez que seria um líder no Tour e isso até parece lhe ter retirado alguma pressão, curiosamente. Talvez por achar que já não tinha nada a perder, esteve audaz, de olhos na frente da corrida. Porém, acontece sempre algo a Porte. Perdeu tempo na etapa do vento e na última de montanha teve um furo numa zona de sterrato, onde teve de pedalar com pneu em baixo enquanto não chegava ajuda. No final, no contra-relógio, tudo se compôs. O pódio assenta-lhe bem por tudo o que fez na sua carreira, de super gregário a um líder a quem escapava um bom resultado numa grande volta. Falta-lhe ainda a etapa. Bauke Mollema não terminou a corrida, o que terá tirado a Trek-Segafredo a possibilidade de alcançar algo mais. Mas com Porte no pódio a nota só podia ser muito positiva.
Astana: Ai Miguel Ángel López! Grande vitória de etapa, para depois estragar tudo com um contra-relógio de baixo nível, que lhe custou o pódio e até o top cinco (foi sexto). Mas a Astana pode ainda queixar-se que teve ciclistas abaixo do desejado (os irmãos Izagirre, por exemplo, com Ion a abandonar a meio devido a uma queda), que pouco ajudaram o colombiano na montanha. Ficou sozinho muito cedo quase sempre, com o estreante Harold Tejada até a ser dos que mais acompanhou López. Alexey Lutsenko fez a sua corrida, como era de esperar, porque também garante resultados. Uma vitória de etapa e missão cumprida. Tour com um lado positivo, mas a podia ter sido bem melhor. López tem de trabalhar mais o contra-relógio. Bem precisa se quiser ganhar uma grande volta.
AG2R: Romain Bardet queria etapas, acabou por perceber que poderia lutar por um bom lugar na geral, mas caiu na etapa que terminava onde tanto treina e abandonou. Pierre Latour também não terminou. Nans Peters salvou a equipa terminar um Tour de mãos a abanar, algo que seria muito mau tendo em conta que é uma das principais equipas francesas. A vitória na oitava etapa (grande exibição de Peters) foi o ponto alto e o que AG2R terá para recordar no Tour em que se despediu de Bardet e Latour (nesta corrida). Ambos estão a caminho de novos projectos - Sunweb e Total Direct Energie, respectivamente - e a equipa está de facto a precisar de algo novo.
UAE Team Emirates: Não foi a equipa para apoiar um líder candidato a vencer o Tour, mas acaba com resultados fenomenais. Tadej Pogacar resolveu muito sozinho, é certo, mas David de la Cruz merece uma menção, pois foi um dos muitos ciclistas que começou a corrida a cair e quando recuperou fez o que pôde para estar ao lado do esloveno. Os restantes também fizeram o possível, mas há que melhorar a qualidade em redor de Pogacar rapidamente, ainda mais agora que é o vencedor de um Tour e logo na estreia. Fabio Aru nem acabou a prova e deixou a equipa algo irritada. Mas no final, interessam os números: vitória na geral, na montanha e na juventude. Pogacar venceu três etapas e Alexander Kristoff ganhou logo a primeira, vestindo a amarela pela primeira vez na carreira. Mais palavras para quê. Sucesso para a UAE Team Emirates que tem um fora-de-série de apenas 21 anos, com uma maturidade e inteligência táctica pouco habitual, dada a idade.
Mitchelton-Scott: O centro das atenções era Adam Yates, que tinha o plano de conquistar etapas. Só que a amarela caiu-lhe no colo na quinta etapa, quando Julian Alaphilippe (Deceuninck-QuickStep) foi penalizado por receber um bidão numa zona proibida (dentro dos 20 quilómetros finais). Foram quatro dias como líder e quando perdeu a camisola amarela, o britânico (que está de saída para a Ineos Grenadiers) e a equipa perceberam que o pódio era possível, ainda mais quando Egan Bernal abandonou, mudaram a aposta. Yates quebrou nas últimas etapas de montanha, o contra-relógio não foi o melhor, pelo que o nono lugar não foi mau. A Mitchelton-Scott teve o seu destaque e mais não se poderia pedir perante os ciclistas presentes.
Groupama-FDJ: Volta a França para esquecer. Thibaut Pinot falhou na primeira etapa de montanha, queixando-se de dores nas costas devido à queda que teve logo no primeiro dia de corrida. Ele e outros companheiros caíram e foi o prenúncio de um Tour negativo. David Gaudu também ficou mal-tratado pelo que nem outra solução houve. Com a equipa a deixar o sprinter Arnaud Démare de fora, todo um plano caiu por terra quando Pinot mostrou que não seria o ciclista de 2019. Esperou-se que talvez tentasse uma etapa, mas nada. "Arrastou-se" até final. Stefan Küng foi um dos que ainda tentou duas fuga, mas foi um Tour muito mau, ainda mais para uma equipa francesa tão importante como a Groupama-FDJ.
Arkéa Samsic: Havia alguma expectativa quanto a Nairo Quintana que tão bem começou 2020. O confinamento não lhe fez bem e não ajudou ter sido atropelado num treino, pouco antes de regressar à Europa. O colombiano até deu indicações nos primeiros dias que talvez pudesse entrar nas contas de um top cinco, ou talvez um pódio. Mas não. Mais um ciclista que não se livrou de quedas e afundou-se na geral (17º a mais de uma hora de Pogacar). Warren Barguil mal se viu, Winner Anacona mostrou muito mais quando esteve na Movistar e Dayer Quintana... é difícil não pensar que foi ao Tour por ser irmão de quem é. Arkéa Samsic quer ser uma ProTeam de qualidade World Tour, mas Quintana foi mais uma vez uma desilusão.
Cofidis: Apostou alto e perdeu tudo. Guillaume Martin é um excelente reforço. Teve uma boa primeira semana, mas algo inesperadamente quebrou na segunda. De potencial lugar no pódio, ficou fora do top dez. A equipa precisa de ter mais força na montanha para ver Martin ir mais longe. Tem potencial para tal. A maior desilusão chama-se Elia Viviani. Mais um daqueles ciclistas que deu para esquecer que foi ao Tour. A sua missão era dar a primeira vitória na Volta a França à equipa em mais de dez anos. O último foi Sylvain Chavanel, em 2008. A equipa subiu a World Tour, mas a contratação de Viviani para o sprint está a ser uma aposta falhada. Foi um Tour muito mau para o italiano que mal se viu nos sprints.
CCC: A indefinição quanto ao futuro da equipa com a anunciada saída do patrocinador, não terá ajudado os ciclistas chamados a manterem-se focados. A CCC passou ao lado do Tour. Intrometeu-se em fugas, Ilnur Zakarin ainda esteve na luta por uma etapa, mas acabou por abandonar a corrida. Greg van Avermaet deveria ter-se mostrado mais, Michael Schär foi dos mais activos. Há pouco a dizer sobre a formação polaca que teve em Matteo Trentin o maior destaque. Tentou entrar na luta pela camisola verde, tendo sido terceiro, mas não teve hipóteses nos sprints para ganhar uma etapa.
Bora-Hansgrohe: Não correu bem. Lennard Kämna alcançou uma vitória de etapa que o confirma como ciclista de futuro (muito próximo), ele já que havia ganho no Critérium du Dauphiné. Porém, a Bora-Hansgrohe viu os seus objectivos saírem gorados bastante cedo. Emanuel Buchamnn foi uma desilusão. Aquela queda no Dauphiné deixou marcas e o alemão não recuperou em condições. Apontava ao pódio depois de ter ficado à porta em 2019, mas mal chegou a montanha, percebeu que não dava para estar na frente. Uma pena para um ciclista de quem muito se esperava. Mas para piorar as coisas, Peter Sagan também não está nada, nada bem. A camisola verde que parecia ter o seu nome foi parar a Sam Bennett (Deceunick-QuickStep). Sagan ainda a vestiu, mas cedo se percebeu que a missão seria difícil. O eslovaco está muito longe dos seus tempos áureos e com os sprints intermédios colocados este ano antes das montanhas, Sagan perdeu a luta com Bennett. E continua sem ganhar em 2020. A Bora-Hansgrohe trabalhou muito para Sagan e essa união e qualidade de trabalho, foi um ponto positivo, além de Kämna, claro.
B&B Hotels-Vital Concept p/b KTM: Valeu Pierre Rolland. É um ciclista com altos e baixos na carreira, mas quando corre sem grande pressão e com liberdade em alcançar o seu resultado, mostra-se na montanha e foi isso que fez. Não conseguiu a etapa, mas mostrou as cores de um equipa que só recebeu o convite para o Tour na terceira tentativa. Porém, o que Rolland fez não chega para evitar que a formação francesa ProTeam continue a viver no limbo. Bryan Coquard não se apresentou tão competitivo no sprint como o esperado, mas esteve na luta. Também caiu e terminou o Tour em esforço. A equipa tentou algumas fugas, mas sem resultado.
Sunweb: Não ganhou a classificação colectiva, mas há que lhe entregar um prémio de melhor equipa no Tour, a par da Jumbo-Visma. Estilos e objectivos diferentes claro, com a holandesa a trabalhar para ganhar a corrida e esta Sunweb a trabalhar para vencer etapas. E dar muito espectáculo. Quem diria! Pouco se esperava de uma equipa sem líderes para a geral, com Michael Matthews a ficar de fora das escolhas, com ciclistas muito jovens, mas a táctica não só deu resultado, como levou a Sunweb até à ribalta no Tour. A forma como atacava em grupo, no mínimo com dois ciclistas, mas muitas vezes com três, o timing com que depois um deles tentava a sua sorte e se não resultava um, havia outro para ir para a frente... Houve muita audácia e compensou. Três vitórias de etapa e não esteve longe de conquistar mais, principalmente com Marc Hirschi, que foi eleito o super combativo do Tour. O suíço ganhou uma, o dinamarquês Soren Kragh Andersen duas (e mal podia acreditar). Foi uma grande Sunweb!
Deceuninck-QuickStep: Terminar o Tour com duas vitórias e mesmo andar de amarelo era pouco. Vencer a camisola verde era algo bem melhor, mas continuava ser algo curto para uma equipa cujo ADN é ganhar, ganhar, ganhar. Porém, vencer nos Campos Elísios com Sam Bennett (já vencedor de uma das etapas) e confirmar assim a classificação dos pontos, abrilhantou mais a exibição da equipa belga. Não se poderia comparar com a fantástica edição de 2019, mas esperava-se ver mais desta formação. E perder a amarela de Julian Alaphilippe (longe do ciclista de 2019, mas ganhou a sua tirada) por receber um bidão quando era proibido... Isso foi mau de mais. Mas o Tour acabou bem.
Israel Start-Up Nation: Está a tentar criar uma grande equipa em redor de Chris Froome para 2021. Mas neste 2020, a estreia no Tour foi fraca. Nils Politt e Daniel Martin ainda entraram em fugas, mas principalmente o irlandês estava muito em baixo de forma, ele que foi mais um que não recuperou de uma queda sofrida antes da corrida. André Greipel já não é sprinter para estas andanças. As atenções nesta equipa talvez estejam mesmo centradas na próxima época.
NTT: É difícil fazer algo quando se perde as duas principais figuras por quedas. Giacomo Nizzolo estava a realizar uma excelente temporada, chegou ao Tour como campeão europeu, mas abandonou. Domenico Pozzovivo ia tentar mostrar-se na montanha, mas abandonou. Edvald Boasson Hagen ainda fez segundo numa etapa. Porém, a formação africana passou muito ao lado do Tour e bem precisava de algo melhor, já que vive alguma incerteza quanto ao futuro.
Total Direct Energie: Para quem foi a melhor equipa do segundo escalão em 2019 e para uma estrutura que recebeu um reforço financeiro no ano passado com a chegada da Total, por esta altura esperava-se mais e melhor. A formação francesa teve uma prestação apagada, viu Lilian Calmejane abandonar e ninguém conseguiu muito mais do que entrar numa fuga.
Lotto Soudal: Fez o Tour possível. Começar a corrida a perder John Degenkolb por chegar fora do tempo limite na primeira etapa depois de ajudar Caleb Ewan a recuperar terreno perdido, já foi mau. Mas ver Philippe Gilbert não partir para a segunda etapa devido à queda do dia anterior... Foi péssimo! Ficou quase toda a responsabilidade sobre os ombros de Ewan. Venceu duas etapas. A desilusão acabou por ser Thomas de Gendt. Pouco se viu daquele ciclista de ataque que anima etapas. Não foi o seu Tour e a equipa também se ressentiu disso.
Um dia para a história da Volta a França. Este 19 de Setembro de 2020, esta 20ª etapa do Tour ficará entre um dos grandes momentos da corrida centenária e que tanto se diz que é maior do que o ciclismo. Tadej Pogacar esteve à altura da exigência e da pressão de um Tour. Até superou. Que exibição! Que contra-relógio fenomenal! Que ciclista excepcional. E só tem 21 anos. A festa dos 22, na segunda-feira, vai ter uma camisola amarela como prenda. Que dia memorável de ciclismo!
Durante muitos minutos a pergunta foi: o que está a acontecer? Era com incredulidade que se assistia à quebra de Primoz Roglic. Tinha 57 segundos de vantagem. Não era uma margem que desse para celebrar a vitória antecipadamente, mas poucos acreditariam no descalabro a que se assistiu. Não só viu esse tempo desaparecer, como no final, Pogacar tinha deixado mais 59 segundos de diferença para vencer com uma autoridade que impressiona.
Há que confessar que a crença era mesmo que Roglic, em condições normais, tinha o Tour praticamente garantido. Praticamente... Mas afinal, não tinha. Roglic não teve uma prestação nada normal. O que aconteceu foi um dia péssimo do esloveno. Ele que tinha estado tão bem durante três semanas. Ele que tinha sido um líder exemplar, que quando a equipa não esteve no seu melhor (foram raras as vezes, mas aconteceu), Roglic resolveu as situações. No dia em que dependeu só dele, falhou e numa especialidade sua. Disse que não teve a força necessária. Não havia muito mais a dizer.
Pogacar até havia batido Roglic no título nacional da vertente, em Junho, mas esta exibição, num percurso que terminou na difícil La Planche des Belles Filles, foi algo de sonho. Aliás, Pogacar bem disse que tudo parecia um sonho. Um pesadelo para Roglic, certamente. A maior experiência de um esloveno foi batida pela irreverência de outro.
Este jovem Pogacar esteve durante todo o Tour com uma postura descontraída, mas nem por isso menos ambiciosa. Frente-a-frente estiveram duas personalidades completamente. Como reagiu quando perdeu mais de um minuto na etapa do vento? Rapidamente disse que não havia problema e tratou de começar a recuperar a desvantagem. Nada de pânico, nada de discursos derrotistas.
Atacou, animou etapas, venceu, foi ganhando tempo. Nos últimos dois dias de montanha, esta semana, Pogacar não esteve tão forte. Roglic controlou e até deu uma demonstração de como era o líder. Porém, Pogacar esteve fortíssimo quando foi preciso. A Roglic... faltaram forças.
Há ano e meio, Pogacar estava a estrear-se a vencer ao mais alto nível na Volta ao Algarve - no Alto da Fóia e depois conquistando a geral -, semanas depois de se estrear no World Tour pela UAE Team Emirates. Já então estava rotulado como promissor talento. Não demorou a expor todo esse potencial, de tal maneira que a equipa antecipou a sua estreia numa grande volta, levando-o à Vuelta. E pensava-se que se tinha visto um grande espectáculo de Pogacar, com três vitórias de etapa, a classificação da juventude e o terceiro lugar no pódio. Roglic foi o vencedor.
Com este ciclista já se percebeu que o melhor está sempre para vir. No Tour, num ano em que o ciclismo finalmente tem algo para se falar que não confinamento e pandemia, Pogacar repetiu a dose de triunfos em etapas, venceu a juventude, juntou a montanha e leva uma camisola amarela algo inesperada, mas que lhe assenta bem pela forma como nunca desistiu e nunca se intimidou perante a força da Jumbo-Visma.
Ao perder tempo Pogacar foi sempre tratando de recuperar, com Roglic sempre atrás de bonificações que, desta feita, não lhe valeram de nada. Ou quase, o segundo lugar não deixa de ser de mérito, ainda que frustrante. Os eslovenos dividem assim méritos: Roglic foi o primeiro esloveno a vencer uma grande volta (em Espanha), Pogacar é o primeiro a vencer em França, sucedendo a outra estreia. Bernal foi o primeiro colombiano a vencer no Tour em 2019. É de facto uma nova e emocionante era do ciclismo.
Uma aposta de sucesso
Desde que Joxean Fernández Matxin foi chamado para integrar o projecto da UAE Team Emirates (recorde-se que é a herdeira da estrutura italiana Lampre), que jovens de talento começaram a ser contratados (incluí-se dois portugueses, Ivo e Rui Oliveira). O futuro era e é promissor, mas o presente é já de sucesso. Talvez mais cedo do que o esperado, mas Pogacar é um fora de série.
Tanto se fala da mudança de geração entre os voltistas e o Tour já tem dois dos novos rostos como vencedores. Uma nova era se abre, com a UAE Team Emirates a ter agora ainda mais responsabilidade em construir uma equipa mais forte. Porque se algo faltou nesta vitória foi um conjunto que mais coeso em redor de Pogacar nas montanhas. David de la Cruz ainda tentou. Foi um dos muitos que começou a corrida a cair, mas quando recuperou, deu o apoio possível.
Pode parecer estranho criticar a equipa, afinal funcionou o suficiente para ver Pogacar ser o vencedor, pois pode ter feito muito sozinho, mas precisou sempre dos companheiros. Porém, esta UAE Team Emirates precisa de mais e melhor se quiser continuar este sucesso e não ficar demasiado dependente do seu líder (veja-se o que aconteceu a Bernal). Vestir a amarela nesta 20ª etapa foi perfeito, pois este domingo é dia de consagração e não haverá necessidade de defesa, algo importante quando se pudesse estar a falar de um frente-a-frente entre UAE Team Emirates e Jumbo-Visma.
A derrota Jumbo-Visma
Não vai ser fácil digerir perder assim o Tour. O trabalho dos últimos anos era suposto ter tido este sábado o seu culminar. Tudo se desmoronou. Em vez de festa, a formação holandesa terá um trabalho duro pela frente para recuperar Primoz Roglic animicamente e também os restantes ciclistas que tanto deram durante três semanas para que a conquista da Volta a França fosse finalmente uma realidade para uma equipa com tantos anos de World Tour.
No final ficou a imagem de união. Tom Dumoulin e Wout van Aert estavam incrédulos a ver como Roglic estava a perder a camisola amarela. Mas estiveram ao lado do seu líder quando este esboçou finalmente uma pequena reacção naquele rosto que sempre mantém a mesma expressão, sem revelar qualquer sentimento. Mas perder o Tour já foi difícil esconder.
A Roglic (30 anos) restará tentar de novo, mesmo sabendo que dentro da equipa poderá ter de enfrentar concorrência em 2021. Já Pogacar tem o seu lugar de destaque garantido, mas sobe a responsabilidade. Mas agora é tempo de celebrar. Bem merece!
Este Tour pode ter ficado abaixo das expectativas a nível de espectáculo durante as três semanas - com a excepção de Pogacar -, mas afinal valeu mesmo a pena esperar. Foi mesmo no fim, mas foi um dia de ciclismo para recordar. São etapas assim que escrevem a mítica história desta grande volta.
Uma palavra para Richie Porte (Trek-Segafredo). Aos 35 anos está a despedir-se da condição de líder de uma equipa, por opção. Continua sem ganhar uma etapa numa grande volta, mas finalmente conseguiu um resultado de nota. Também realizou um excelente contra-relógio (foi terceiro) e vai subir ao pódio final, num terceiro lugar merecido pelo que fez nesta Volta a França e até pela carreira que teve. Sofreu novamente azares (perdeu tempo na etapa do vento, sofreu um furo anteontem), mas desta feita alcançou um dos seus objectivos, talvez quando menos se esperava.
Os sprinters aguentaram tanta montanha para chegar aqui: Paris. Os Campos Elísios esperam pelo vencedor, numa etapa que este tipo de ciclista sempre sonha ganhar. Outros também o querem, mas é raro um ataque resultar.
Em disputa ainda está a camisola verde e apesar de Peter Sagan (Bora-Hansgrohe) querer ganhar a etapa, já deu os parabéns, via redes sociais, pela conquista de uma classificação que conquistou sete vezes. Já se terá rendido às evidências que 55 pontos são difíceis de recuperar.
Falta apenas decidir esse lugar no pódio, pois a Movistar de Nelson Oliveira venceu mais uma classificação por equipas, enquanto Marc Hirschi (Sunweb) foi considerado o super combativo do Tour.
Quando se fala de Volta a França já não pode ser uma completa surpresa as expectativas serem altas e depois saírem goradas. Vai-se esperando que, depois de uma etapa ter desiludido, que a próxima seja melhor. Ainda falta uma na montanha, mais o contra-relógio que acaba em estilo crono-escalada no sábado (além de duas para sprinters). Bom, talvez, estando tão perto do fim, se mantenha alguma esperança. Miguel Ángel López (Astana) merece o reconhecimento por ter feito jus à alcunha e tal como Superman (Super-Homem) voou Col de la Loze acima, mesmo quando a pendente ultrapassou os 20%. O colombiano animou e poderá ajudar a animar a etapa desta quinta-feira, mas de resto... soube a pouco. Tadej Pogacar tem direito a ter um dia menos bom, mas o espectáculo ressente-se logo.
Com duas categorias especiais, o conhecido Col de la Madeleine e com a nova subida a terminar o dia (nunca havia sido feita até tão ao topo) e com o Tour a aproximar-se do seu epílogo, a expectativa era precisamente que Primoz Roglic e a Jumbo-Visma fossem testados. E luta pelo terceiro lugar e pelo top dez poderem ser outros pontos de interesse. No entanto, saiu a Sky/Ineos/Ineos Grenadiers de cena enquanto a equipa dominante, entra a Jumbo-Visma e o Tour cai na toada de todos mostrarem tanto respeito muito misturado com receio pela equipa holandesa, que preferem mais esperar para ver se à uma falha de Roglic, do que forçar essa falha.
López tentou, com o objectivo de ganhar a etapa e de entrar no pódio e aproximar-se do líder. Conseguiu e numa etapa em que se sentiu em casa (subidas que acabem acima dos dois mil metros de altitude é o terreno favorito dos colombianos). Recuperou 15 segundos na estrada, mas quatro de bonificação (somou dez e Roglic seis, ao ser segundo). 1:26 minutos não é uma montanha para recuperar, mas não é nada fácil, dado que López e o contra-relógio não têm a relação que Roglic tem com esta especialidade. Porém, o colombiano animou o dia. Se Pogacar estiver melhor na etapa desta quinta-feira, então talvez ainda se venha a confirmar algumas expectativas mais emocionantes para este final de Tour. O jovem esloveno da UAE Team Emirates perdeu tempo, 17 segundos (entre estrada e bonificações) e está agora a 57. Mas se não desmoralizou com a etapa do vento, não irá desmoralizar agora. Contudo, também se percebeu o quanto este Tour está dependente da irreverência de Pogacar para que as etapas sejam mais atacadas.
Egan Bernal (Ineos Grenadiers) nem partiu em Grenoble e a Colômbia olha agora para López, já que Rigoberto Uran (EF Pro Cycling) também não foi feliz. Nem foi Adam Yates (Mitchelton-Scott), nem Richie Porte (Trek-Segafredo), ainda que no caso do australiano, subir ao quarto lugar seja um resultado bem positivo. Mas Porte queria e quer mais. Apesar de estar longe de lutar por vitórias, há que referir que Enric Mas (Movistar) lá vai fazendo a sua corrida rumo ao top dez. Discreto, mas eficaz, dentro do possível, numa equipa espanhola que está uma sombra do que foi em anos recentes.
Mas o pior foi outro espanhol. O "Landismo" sofreu um rude golpe e na Bahrain-McLaren não se deve estar particularmente feliz pelo trabalho do seu líder. Mikel Landa não se pode queixar da equipa, apenas dele mesmo. Quando teve todos a cumprirem com a sua função, só Landa falhou. Que bom foi ver Wout Poels em acção, ele que continua no Tour depois de partir costelas partidas logo no primeiro dia. Pello Bilbao esteve em grande nível, Damiano Caruso um pouco abaixo, mas esteve lá para Landa, assim como Matej Mohoric e Sonny Colbrelli. O italiano subiu como se calhar nunca o fez uma categoria especial ao liderar a Bahrain-McLaren no Col de la Madeleine.
Nessa subida, com o trabalho da equipa que acabou por dizer à Jumbo-Visma "hoje mando eu" (sem que a equipa holandesa se chateasse, até poupou algum esforço), o grupo de candidatos começou a ser seleccionado. A tendência manteve-se no Col de la Loze (já sem Colbrelli). A Bahrain-McLaren merecia muito mais do que um Landa a ficar imediatamente para trás quando chegou o momento de assumir a responsabilidade de atacar. Mas viu os outros fazê-lo, sem responder. Tem a sua oportunidade de ser um líder único numa equipa, mas não está a corresponder ao que durante tanto tempo apregoou.
A vitória de López - a primeira no Tour, em ano de estreia - e o desaire de Landa são os dois pontos que se destacam da 17ª etapa (Grenoble - Méribel Col de la Loze, 170 quilómetros). Afinal, ver Roglic atacar e escapar aos adversários quase não é notícia. Está fortíssimo, não há dúvidas e ate conseguiu finalmente bater Pogacar sem ajuda do vento. Tem mais dois dias de montanha para aguentar e conquistar uma Volta a França histórica para a Eslovénia, no ano seguinte a ter ganho a Vuelta.
A Jumbo-Visma ainda não pode celebrar. Pogacar não desiste e López poderá ter ideias... O esloveno até teve um dia menos exuberante, mas, ainda assim, juntou a liderança da montanha à da juventude. E o foco continua a ser tentar a amarela. Classificações completas, via ProCyclingStats.
18ª etapa: Méribel - La Roche-sur-Foron, 175 quilómetros
Na recta final do Tour, não há tempo para descansar entre duas tiradas muito exigentes nos Alpes. Vai ser um daqueles dias infernais para os sprinters que vão estar constantemente a subir e descer. Mas sexta-feira será dia para eles. Também não será um dia mais fácil para os trepadores. Não há margem de erro, independentemente dos objectivos. Depois desta etapa só sobra o contra-relógio para a geral, que terminará em La Planches des Belles Filles. Roglic terá, teoricamente, vantagem. López demonstrou querer deixar de parte conservadorismos, Pogacar já se sabe, é para ganhar. Mas mais alguém assume o risco? De salientar o Col des Glières, de categoria especial. Seis quilómetros com pendente média de 11,2%. A máxima é de 15% e nunca baixa muito dos 10%.
No dia em que finalmente a Bora-Hansgrohe conseguiu a etapa que tanto perseguia, fê-lo com mais um dos ciclistas da nova geração, que pode não ter o mediatismo de um Egan Bernal ou Tadej Pogacar (para falar de dois que estão no Tour), mas tem muita qualidade e potencial: Lennard Kämna (24 anos). Apesar de na Alemanha até ser sido dado como candidato a um bom resultado na geral, a missão tem sido outra e tem cumprido muito bem, principalmente desde que Emanuel Buchmann saiu da luta pela geral e os restantes ciclistas ou ajudam Peter Sagan na luta pela camisola verde, ou entram em fugas para ganhar etapas. O seu caso.
É mais um jovem a comprovar que o ciclismo tem novos protagonistas, depois de Marc Hirschi (Sunweb) já ter deixado a sua marca neste Tour. Porém, a partir desta quarta-feira, Kämna e todos os outros jovens sabem que há um que vai ser o centro de todas as atenções. Chegou o momento de Tadej Pogacar mostrar se pode ou não provocar uma pequena surpresa e destronar o super favorito Primoz Roglic.
Quarta, quinta e sábado. 40 segundos a separar os dois eslovenos. Já se percebeu que Pogacar não se intimida com nada. Não se intimida por ser o seu primeiro Tour e apenas a sua segunda grande volta, não se intimida por ter de enfrentar não só Roglic, mas toda uma Jumbo-Visma, não se intimida por o fazer sem ter praticamente qualquer ajuda da sua equipa. Perder tempo na etapa do vento não o preocupou e tem mostrado não só ser audaz, como inteligente nos momentos de colocar em prática essa audácia. Se resulta, ganha tempo. Se não resulta, não perde tempo, como aconteceu esta terça-feira, na 16ª etapa (La Tour-du-Pin - Villard-de-Lans, 164 quilómetros). Mas arrisca. O adversário é alguém completamente oposto. Mais calculista, ataca nos momentos programados, controla muito bem as movimentações dos adversários. Faz mais um jogo do espera, para tentar dar uma machada final. Tem resultado. E tem uma equipa a ajudá-lo, ainda que quando fica sozinho, também não tem problemas. Estas formas de estar no ciclismo completamente diferentes têm sido sinónimo de espectáculo, no ano em que Egan Bernal (Ineos Grendiers) falhou por completo. O colombiano perdeu ainda mais tempo na etapa de hoje, queixando-se de dores nas costas (razão que o levou a abandonar o Critérium du Dauphiné) e no joelho. Já são 19:04 minutos para Roglic. Algo inimaginável quando o Tour começou. Classificações completas, via ProCyclingStats. A etapa que inicia as decisões finais As lições para a 17ª etapa têm de estar muito bem estudadas. Roglic pode potencialmente ter o dia mais difícil no Tour. A organização colocou o bem conhecido Col de la Madeleine. Porém, o final é no desconhecido Col de la Loze, na estância de Méribel. Se na primeira subida os ciclistas subirão aos dois mil metros de altitude, em Méribel chegarão aos 2304. Tudo em cerca de 81 quilómetros, dos 170 quilómetros totais. São duas subidas de categoria especial.
Duas subidas longas, mais ao estilo de Bernal, mas esse já não conta. Para Roglic serão dois testes para alguém que dá-se muito bem em ascensões mais curtas, mas com finais a pedir capacidade de "explosão". Vai ter um final destes, mas muitos quilómetros antes... E 24% de máxima para enfrentar!
O Col de la Madeleine tem 17,1 quilómetros, a 8,4% de média (ver gráfico em cima), mas em Méribel serão 21,5 quilómetros a 7,8%. O final é de uma dureza extrema (ver gráfico em baixo), com a pendente a chegar então aos 24%!
Para quando um ataque? E mais alguém arrisca? A questão não se impõe apenas a Pogacar. Se mais alguém estiver interessado em colocar em causa a liderança de Roglic, esta é a etapa para mostrar. Com um contra-relógio no sábado, que acaba em estilo crono-escalada na La Planche des Belles Filles, as diferenças podem não ser tão grandes como se fosse um contra-relógio, digamos, "normal". Porém, Roglic terá vantagem, na teoria. Richie Porte (Trek-Segafredo) - está a 2:13 minutos - tem sido dos mais activos dos restantes candidatos. Será que Mikel Landa (Bahrain-Merida) vai decidir aparecer? Está a 2:16 minutos e para quem tanto reclamou ser líder único de uma equipa, para quem sempre assumiu que queria lutar pelo Tour, o espanhol tem estado demasiado discreto. Porém, pode haver quem irá antes à procura do terceiro lugar, pois com Bernal fora da luta, o lugar vago no pódio poderá ser o mais almejado por ciclistas como Rigoberto Uran (EF Pro Cycling) - que ocupa o terceiro posto a 1:34 minutos - e mesmo Miguel Ángel López (Astana), a 1:45. Adam Yates (Mitchelton-Scott) também já abandonou a ideia de perseguir etapas. Afinal, estando o pódio a 29 segundos e o britânico tem-se apresentado bem (algum sofrimento em certos momentos, mas recuperou sempre), estar no pódio tem de ser o objectivo. Haverá muitos interesses em jogo, incluindo pelo top dez. A Jumbo-Visma e Primoz Roglic terão de escolher as suas batalhas, incluindo sacrificar o top dez de Tom Dumoulin. A expectativa é que esta quarta-feira seja um dia de ataques. Só falta saber se, perante tanta dureza, quando é que alguém irá arriscar. Quem quiser recuperar mais tempo, poderá atacar logo no Col de Madeleine, mas Méribel tem extensão e dificuldade suficiente para se fazer diferenças interessantes. E não esquecer, quinta-feira há mais montanha, com duas primeiras categorias, uma segunda e uma terceira, com uma especial a fechar as contagens, ainda que a chegada não seja em alto. »»Egan Bernal, o homem«« »»Sunweb com mais uma reinvenção de sucesso««
Ciclistas como Egan Bernal, Tadej Pogacar e Remco Evenepoel tomaram de assalto o ciclismo mundial. Jovens, talentosos, mas com capacidade de desde que chegaram ao World Tour de rapidamente começar a ganhar aos grandes nomes, com currículos de meter muito respeito. Em pouco tempo, este trio conquistou também ele o respeito, com vitórias impressionantes e que estão a marcar esta mudança de geração que o ciclismo vive. Habituámo-nos de tal maneira a vê-los vencer, que quase olhamos para eles como autênticas máquinas de bom ciclismo. E são, ninguém tem dúvidas, apesar da idade. Porém, este domingo Bernal recordou a todos que é humano.
Em comum, estes três ciclistas têm que chegaram ao World Tour muito jovens, aos 20 anos ou nem isso, e não demoram a vencer. No segundo ano ao mais alto nível, Bernal colocou uma Volta a França no seu palmarés. Ao terceiro conhece a sensação de ser derrotado. O próprio admite que foi o seu pior dia numa bicicleta. Até foi difícil acreditar que com 13 quilómetros para a meta no Grand Colombier, Bernal ficasse para trás. Perdeu 7:20 minutos para Primoz Roglic (Jumbo-Visma) e Tadej Pogacar (UAE Team Emirates), este último o vencedor do dia.
A máquina deu lugar ao homem. Bernal nem capacidade teve de sequer minimizar perdas. Michal Kwiatkowski e Jonathan Castroviejo limitaram-se a estar ao lado do seu líder na subida mais difícil da sua carreira. O Tour está perdido. O top dez pouco ficou a mais de três minutos. Caiu de terceiro, a 59 segundos, para 13º, a 8:25 minutos. É tempo de Egan Bernal e a Ineos Grenadiers analisar o que levou a tal descalabro e de decidir o que ainda querem fazer nesta Volta a França. Tornou-se muito penosa para um ciclista habituado a vencer. Habituado a ser o melhor.
2020 foi tudo menos normal. Confinamento, dificuldades em poder treinar, incerteza de como iria viajar para a Europa, poucas corridas... Egan Bernal foi dando nas vistas por fazer treinos com números assustadores de quilómetros e de acumulado. Fez as delícias de todos numa altura em que não havia ciclismo. Quando regressou, até venceu a Route d'Occitanie, mas os sinais de alarme dispararam no Tour de l'Ain e no Critérium du Dauphiné, que abandonou com dores nas costas. A Jumbo-Visma deu uma lição à Ineos Grenadiers e Roglic avisou Bernal que tinha rival.
Durante estas duas semanas de Tour viu-se um Bernal em dificuldades, mas sempre se esperou que acabasse por melhorar. Hoje, no Grand Colombier, deveria ter sido o dia em que aparecia. Afinal...
Até chegar ao Tour, Bernal não teve vida fácil. Há que perceber o que falhou na preparação, mas também o ambiente da Ineos Grenadiers não foi o melhor, com Chris Froome e Geraint Thomas a dizerem que iam ao Tour para ganhar. As últimas duas corridas antes do Tour colocaram todos no seu lugar. O de Froome é na Vuelta e de Thomas no Giro.
A equipa esperava ter resolvido a questão da união. Talvez o tenha feito, mas este bloco não tem a força dos tempos da Sky. Não ajudou Pavel Sivakov cair na primeira etapa e ficar muito limitado, tal como Andrey Amador. Richard Carapaz também não está a ser particularmente feliz. A equipa teve muitas quebras. Já tinha acontecido o mesmo no Tour de l'Ain e Dauphiné.
Bernal viu-se na posição de ser um líder indiscutível da equipa que nos últimos anos foi rainha do Tour. Mas aos 23 anos, ainda não tem a voz de comando de um Froome. Vivem-se novos tempos na estrutura britânica, que para piorar perdeu um dos directores desportivos que tanto marcou a equipa: Nicolas Portal faleceu em março e deixou um vazio na liderança. A era Bernal sem os britânicos a fazerem-lhe sombra no Tour, não começou bem.
O colombiano há-de voltar a mostrar a máquina que é. Há-de ser um grande líder. Contudo, por agora, mostrou ser humano. Mostrou ser um jovem que ainda tem muito para aprender. O Tour de 2020 servi-lhe-á de lição, sendo que agora é testado mentalmente. Terá de saber reagir. Também nos maus momentos se definem os grandes campeões.
Com Bernal a ceder tão cedo, a Jumbo-Visma teve um dia quase perfeito. Unida em redor de Roglic, tudo correu bem. Ou, lá está, quase. Tadej Pogacar vai ser a pedra no sapato da equipa holandesa. O líder da UAE Team Emirates não foi tão activo como noutras etapas porque mais uma vez destaca-se a inteligência táctica deste ciclista.
Com a Jumbo-Visma a impor um ritmo tão elevado durante toda a corrida (duas primeiras categorias antecederam a de categoria especial), a estar forte no Grand Colombier, com seis ciclistas a iniciarem a subida... Pogacar percebeu que era dia para esperar. Ainda há Tour para recuperar o restante tempo.
Deixou os rivais trabalharem e até viu Roglic tentar atacar para a vitória. Mas o jovem esloveno foi lá ganhar e recuperar quatro segundos nas bonificações (ficou com 10 segundos e Roglic com seis, do segundo lugar). São 40 a separá-los, não se podendo esquecer que perdeu mais de um minuto na etapa do vento. Segunda etapa para Pogacar no Tour. Está a uma de repetir o feito na Vuelta, onde venceu três. Reforçou ainda a classificação da juventude, que em condições normais não perderá. Mas quer mais, naturalmente! Mesmo sem equipa para o ajudar, está de olhos postos na amarela.
A finalizar a segunda semana, o Tour tem definido quem lutará pela vitória na geral, mas ficou em aberto um lugar no pódio. Rigoberto Uran (EF Pro Cycling) ocupa a posição a 1:34 minutos, mas até ao oitavo lugar de Enric Mas, todos são candidatos, tendo em conta a montanha que ainda há pela frente. De repente, ganha-se nova motivação entre os restantes líderes das equipas.
A saber, além de Uran: Miguel Ángel López (Astana), a 1:45 minutos; Adam Yates (Mitchelton-Scott), a 2:03; Richie Porte (Trek-Segafredo), a 2:13; Mikel Landa (Bahrain-McLaren), a 2:16 e Enric Mas (Movistar), a 3:15. Um pouco mais difícil para este espanhol, mas não impossível.
Nairo Quintana (Arkéa Samsic) e as quedas não combinam e um limitado fisicamente colombiano desceu para o nono lugar, a 5:08. Tom Dumoulin (Jumbo-Visma) reentrou no top dez, a 5:12. Guillaume Martin (Cofidis) teve uma segunda semana abaixo do desejado. Voltou a perder tempo para Roglic, mas o top dez ainda é possível. Está a 6:45 da amarela. Classificações completas, via ProCyclingStats.
16ª etapa (15 de Setembro): La Tour-du-Pin - Villard-de-Lans, 164 quilómetros
Dia de folga esta segunda-feira. Dia de testes à covid-19. Alguma ansiedade, como aconteceu há uma semana, quando o director da prova, Christian Prudhomme, e um elemento da Ineos Grenadiers, Mitchelton-Scott, Cofidis e AG2R deram positivo. A última versão do regulamento apontava para que esta segunda-feira estivesse tudo a zero. Ou seja, com dois positivos uma equipa é excluída do Tour, mas como passou uma semana, os casos da última segunda-feira não contam. No regresso à corrida, serão três dias de montanha consecutivos. Na terça-feira talvez seja um bom dia para os que queiram entrar numa fuga, já que não será de afastar que as atenções na geral estejam mais focadas para os dois dias seguintes, antes do contra-relógio no sábado. »»Sunweb com mais uma reinvenção de sucesso«« »»Aliança eslovena? Nem pensar!««