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11 de janeiro de 2020

Evenepoel na Volta ao Algarve. E Van der Poel?

(© Sigfrid Eggers/Deceuninck-QuickStep)
Um dos ciclistas que está a conquistar o World Tour e um dos novos fenómenos da modalidade, confirmou a presença na Volta ao Algarve. Depois de Tadej Pogacar (UAE Team Emirates) ter conquistado a edição de 2019, partindo para uma primeira temporada de luxo, este ano teremos Remco Evenepoel. A jovem estrela belga confirmou que a corrida portuguesa faz parte do seu calendário e fica desde já como um dos candidatos à geral, pois este Evenepoel estará a preparar a sua estreia numa grande volta, o Giro.

A afirmação foi feita ao site wielerflits.be e Evenepoel será inevitavelmente um cabeça-de-cartaz, juntamente com Vincenzo Nibali (Trek-Segafredo), numa perspectiva de ciclistas que nunca estiveram nesta corrida. Mas há mais três grandes nomes que ainda se aguarda com expectativa a confirmação. Mathieu van der Poel estará por decidir se vem a Portugal ou à Ruta del Sol, prova espanhola que se realiza exactamente nas mesmas datas, de 19 a 23 de Fevereiro. Já foi dado como certo na Algarvia por alguma imprensa, mas, a nível oficial, a única garantia é a presença da Alpecin-Fenix, a antiga Corendon-Circus. Com o aproximar do arranque de temporada de estrada - o holandês tem andando dedicado à sua paixão do ciclocrosse - não deverá demorar muito a ser anunciado o seu calendário. Escusado será dizer, que será muito bem-vindo em Portugal!

Outro corredor que poderá estar a caminho, ainda que já com muita experiência na Algarvia, é Geraint Thomas. O vencedor das edições de 2015 e 2016 confessou há um ano o quanto gosta do Algarve, pois ao não estar presente, escreveu nas redes sociais o desejo de regressar. Se o galês escolher a Algarvia, poderá tornar-se no primeiro estrangeiro a ganhar a corrida por três ocasiões, algo que o seu companheiro da Ineos também o poderá fazer: Michal Kwiakowski. A equipa ainda não foi confirmada na Volta ao Algarve, mas a presença é praticamente certa. A título de curiosidade, Belmiro Silva é um único com o tri: 1977, 1981 e 1984.

E Miguel Ángel López, da Astana, também poderá escolher a Volta ao Algarve como prova de início de temporada.

Quanto a Remco Evenepoel, é o campeão europeu de contra-relógio e com apenas 19 anos é visto como um dos maiores talentos da nova geração. Como júnior praticamente só soube ganhar, saltando directamente para a Deceuninck-QuickStep em 2019. De início precisou de uma fase de adaptação, apesar da sua vontade de rapidamente mostrar serviço. Chegou a ouvir algumas críticas do director Patrick Lefevere, que procurou principalmente espicaçar o jovem atleta. Em Junho conquistou a Volta à Bélgica, foi brilhante na Clássica San Sebastián e ninguém tem dúvidas do fenómeno que é, sendo apenas incerto tudo o que poderá alcançar, pois o seu potencial é enorme.

2020 vai começar para Evenepoel na Volta a San Juan, na Argentina, sendo que depois do Algarve viajará para Itália, para o Tirreno-Adriatico, tendo como objectivos nas clássicas a Flèche Wallonne e o monumento Liège-Bastogne-Liège, antes de atacar o Giro, que será uma corrida encarada mais para ganhar experiência. Mas Evenepoel não é um ciclista que goste de "passear" quando está a competir.

Entre os jovens talentos no Algarve, igualmente com 21 anos, Mikkel Bjerg é o contra-relogista que quer conquistar o mundo nesta vertente e tornar-se recordista da hora. É tricampeão mundial de sub-23 de contra-relógio, um feito inédito neste escalão. É mais uma jovem aposta da UAE Team Emirates, que contará com o experiente Rui Costa como líder e os gémeos Oliveira também poderão estar presentes na Algarvia. Pogacar será "desviado" para a Volta aos Emirados Árabes Unidos, que começa no último dia da Volta ao Algarve.

Na luta pela geral, e entre as confirmações mais recentes para a corrida portuguesa, estará o alemão da Bora-Hansgrohe, Max Schachmann. Já no sprint haverá André Greipel (Israel Start-Up Nation), que sabe o que é ganhar no Algarve, e Alexander Kristoff (UAE Team Emirates).


25 de dezembro de 2019

Dez momentos de 2019

É tempo de olhar para trás, antes de nos concentramos definitivamente em 2020. Ou seja, é tempo de recordar alguns dos momentos marcantes da última temporada. Começando lá por fora, foi um 2019 dominado pela afirmação de uma nova geração, que está a tomar de assalto o pelotão internacional e, por isso, não surpreende que parte das escolhas para os 10 momentos do ano pertençam a exibições de ciclistas que são as novas figuras da modalidade. Mas também há espaço para um veterano e, infelizmente, nem todos os momentos foram de felicidade.

O objectivo inicial era escolher cinco momentos, acabou-se com dez e mesmo assim ficaram alguns de fora. Mas aqui ficam as escolhas do Volta ao Ciclismo. A ordem é cronológica.

Philippe Gilbert venceu Roubaix e só falta Sanremo (14 de Abril)
(Fotografia: Facebook Paris-Roubaix)
Em 2017, Gilbert reacendeu o antigo sonho de conquistar os cinco monumentos ao vencer de forma brilhante, numa fuga solitária, a Volta a Flandres. Este ano, Nils Politt (Katusha-Alpecin) tentou dar luta, mas estava destinado que o fantástico ciclista belga vencesse o Paris-Roubaix e ficasse apenas com a Milano-Sanremo por conquistar para fazer o pleno. Um emotivo Gilbert celebrou muito a vitória de Roubaix, dando mais um triunfo a uma Deceuninck-QuickStep que é uma equipa especialistas em ganhar clássicas. Trocar a BMC por esta formação em 2017 foi uma escolha muito acertada de Gilbert. Porém, aos 37 anos e perante uma oferta de três anos de contrato da Lotto Soudal contra um da actual equipa, Gilbert optou por regressar a uma casa onde alcançou as primeiras grandes vitórias na carreira. Até parece certo que tente fechar o ciclo de monumentos onde o começou.

Van der Poel e uma Amstel Gold Race para a eternidade (21 de Abril)
Vão ser imagens que hão-de ser vistas e revistas durante muito tempo. Hão-de fazer parte dos grandes momentos do ciclismo e com razão. O que Mathieu van der Poel fez na Amstel Gold Race só está ao alcance dos melhores dos melhores. Quando chegou à primeira corrida das Ardenas, já trazia vitórias espectaculares alcançadas em poucas semanas e estava a marcar a época das clássicas. Mas queria mais. Parecia que estava tudo preparado para Julian Alaphilippe (Deceuninck-QuickStep) - um dos homens que mais estava a ganhar - e Jakob Fuglsang (Astana) discutirem o triunfo. Tinham 40 segundos de vantagem e três quilómetros para a meta. Van der Poel fez o impensável. Arrancou com tamanha convicção, não se interessando quem se colava na sua roda, apenas olhando para quem tinha de apanhar na frente. Alaphilippe e Fuglsang podem ter exagerado no controlo um ao outro, mas o mérito esteve muito na força e crença de um Van der Poel que deixou todos de mãos na cabeça perante tal demonstração de ciclismo de ataque. Espectacular! Veja ou reveja este grande momento de 2019 no vídeo em baixo.


Queda de Chris Froome (12 de Junho)
O britânico jogava toda uma época na Volta a França e em conquistar a quinta vitória. Porém, no reconhecimento do contra-relógio do Critérium du Dauphiné, Froome sofreu uma aparatosa queda. Sofreu uma fractura no fémur, cotovelo e em algumas costelas, no esterno, osso situado na parte anterior e média do tórax, e na vértebra C7. Foi grave e as consequências assustaram. A época terminou ali e, passado meio ano, a dúvida mantém-se na própria Ineos: irá Froome conseguir recuperar o nível competitivo necessário para ganhar o Tour? O ciclista conseguiu regressar aos treinos mais cedo do que o esperado e já foi ao Japão mostrar-se, em ritmo de exibição, em cerca de três quilómetros, no habitual Critérium de Saitama de final de temporada. Mas a forma de Froome será uma das incógnitas para 2020.

Vitória de Bernal na Volta a França (28 de Julho)
(Fotografia: © ASO/Alex Broadway)
Após um ano de estreia no World Tour de elevadíssimo nível, deveria ser raro quem não pensasse que, mais cedo ou mais tarde, Egan Bernal ia vencer a Volta a França. Foi mais cedo. A queda de Chris Froome abriu caminho à liderança do colombiano, mesmo com Geraint Thomas, o vencedor de 2018, a seu lado. A aposta da Ineos era em Bernal. O plano inicial era o colombiano atacar o Giro, mas uma queda afastou da corrida italiana. No Tour ficou a pequena frustração de ver a mãe natureza obrigar ao final antecipado da etapa que Bernal estava a demonstrar toda a sua qualidade (a 19ª). Foi o dia das impressionantes imagens do deslizamento de terra. Mas Bernal fez o suficiente para comprovar que era o mais forte e subiu merecidamente ao pódio nos Campos Elísios com a camisola amarela. Fica na história como o primeiro colombiano a fazê-lo.

Evenepoel mostrou um pouco do que se vai ver muito mais (3 de Agosto)
Talvez alguma ânsia ou mesmo alguma pressão para estar à altura do mediatismo que rodeou a sua passagem de júnior directamente para o World Tour e para a Deceuninck-QuickStep, tenha prejudicado um pouco as primeiras exibições de Evenepoel no arranque da temporada. Tom Boonen bem avisou que o jovem ciclista ia precisar de perceber que não ia ganhar tanto como aconteceu no escalão de juniores. O abandono por opção do ciclista na Volta aos Emirados Árabes Unidos não foi muito bem visto pelos responsáveis. Mais tarde, Patrick Lefevere chegou a dizer que Evenepoel estava gordo... Mas o jovem ciclista lá conseguiu fazer a transição, que se sabia ser difícil fazer em poucos dias. Demorou umas semanas, mas as exibições tornaram-se mais consistentes, venceu pela primeira vez na Volta à Bélgica, em Junho, e depois na Clássica de San Sebastián foi o Evenepoel dos ataques de longo, como tantas vezes fez em júnior. Faltavam 20 quilómetros quando se isolou e ninguém mais o apanhou. Só tem 19 anos, mas é mais um ciclista de quem se espera o que mostrou em Espanha e muito mais.

Marcel Kittel retira-se aos 31 anos (23 de Agosto)
Já se sabia que não era um ciclista feliz na Katusha-Alpecin. A chegada do antigo corredor Erik Zabel para trabalhar com alemão pareceu, numa primeira fase, algo de positivo no ânimo do sprinter alemão, mas não. Fez uma pausa em Maio e em Agosto anunciou que colocava o ponto final na carreira. Entretanto tinha sido pai e afirmou que não queria ver o filho crescer por Skype. A carreira acabou por ser curta, mas foi o tempo mais do que suficiente para ser recordado como um dos melhores sprinters. E foi mesmo!

Tadej Pogacar estrela na Vuelta (24 de Agosto a 19 de Setembro)
(Fotografia: © La Vuelta)
Até foi um compatriota que venceu, justamente, a corrida. Mas Primoz Roglic teve mesmo de partilhar a ribalta na Vuelta com mais um dos jovens com um potencial ainda por definir até onde pode ir. Tadej Pogacar começou por vencer categoricamente a Volta ao Algarve. Como esperado, foi apenas o início da sua afirmação, no primeiro ano no World Tour. A UAE Team Emirates sabe que tem uma aposta que pode ser mais do que ganha. Não era suposto fazer nenhuma grande volta esta temporada, mas depois de vencer a Volta à Califórnia e de mais umas exibições de enorme nível, a equipa levou-o a Espanha. Foi um senhor ciclista aos 21 anos. Três vitórias de etapas, terceiro na geral, vencedor da juventude, os números dizem quase tudo. Aquele penúltimo dia, na chegada à Plataforma de Gredos, Pogacar deixou a concorrência a mais de minuto e meio, sendo um dos grandes momentos de 2019.

Dilúvio em Yorkshire (22 a 29 de Setembro)
Eram uns Mundiais aguardados com alguma expectativa. Bons percursos, garantia de bom ambiente devido ao entusiástico público e muito provavelmente alguma chuva para tornar as corridas mais desafiantes. E lá isso foram. Foi uma semana quase toda de autêntico dilúvio. Quase que era difícil acreditar que se estava a assistir ciclistas caírem no que mais pareciam ser piscinas na estrada. Algumas provas, incluindo a de elite masculina, tiveram de ser encurtadas, com a chuva a marcar por completo os Mundiais de Yorkshire. Carregue no play no vídeo em baixo e veja (ou recorde) uma das imagens fortes de 2019.



Fuga de 100 quilómetros (28 de Setembro)
"Todo o dia pensei que era super estúpido." Annemiek van Vleuten teve muito tempo para pensar no que estava a fazer, pois resolveu atacar a 100 quilómetros da meta, nos Mundiais. O ciclismo feminino vai tentando ganhar o seu espaço no mediatismo e Van Vleuten bem merece tê-lo, num dos poucos dias em que não houve dilúvio a marcar as corridas de Yorkshire. Não terá sido a única a pensar como um ataque daqueles está condenado ao insucesso, mas esta é uma ciclista que, apesar dos 36 anos, continua a estar no topo. Foi uma aventura solitária que começou com menos de 50 quilómetros feitos na corrida. Dificilmente alguém acreditou ser possível chegar ao fim como vencedora, talvez mesmo as adversárias. Mas foi possível e no fim, não foi nada estúpido a forma como Van Vleuten conquistou o título mundial, deixando as adversárias a mais de dois minutos de distância.

Época de Julian Alaphilippe
(Fotografia: © ASO/Alex Broadway)
Para o fim fica o ciclista que não é justo escolher só um momento ou só uma corrida. Foi uma temporada simplesmente fenomenal de Julian Alaphilippe (Deceuninck-QuickStep). É um homem para todo o tipo de terreno. Ganhou o seu primeiro monumento e logo o dos sprinters (Milano-Sanremo), algo que ele nem é! Mas é quase tudo o resto. Homem de ataque, novo senhor da Flèche Wallonne (segunda vitória consecutiva), ataca a subir, ataca em plano, ataca quando sente que chegou o momento para tentar vencer. Só a Amstel lhe terá provocado alguma frustração, já mais do que esquecida depois de 14 dias de amarelo na Volta a França e duas vitórias de etapa. Ao todo foram 12 triunfos em 2019. Faltou fôlego nos Mundiais, o que nem surpreendeu dada a primeira fase de temporada a todo o gás. Alaphilippe é um fora de série e em França cresce a expectativa de quando (e se) este ciclista irá pensar em tornar-se num voltista para tentar ficar com aquela camisola amarela até aos Campos Elísios. Talvez um dia, mas não para já. Ainda só tem 27 anos.

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»»Uma Bora-Hansgrohe cada vez mais para todo o terreno««

8 de dezembro de 2019

A imparável Deceuninck-QuickStep

(Fotografia: © Deceuninck-QuickStep)
Palavras para quê? É a Deceuninck-QuickStep! 68 vitórias em 2019. 15 dos 25 ciclistas ganharam corridas e quando chegou um estagiário, também esse corredor venceu. A equipa ganhou mais dois monumentos, foi a rainha das clássicas, mas também esteve no topo no Tour e vitoriosa na Vuelta. O que falta a esta equipa? Quem ganha assim, falta pouco ou nada. Julian Alaphilippe pode ter sonhado com uma vitória na Volta a França, mas nem o ciclista, nem a equipa têm esses objectivos, pelo que de todos os delineados para esta temporada falhou uma melhor prestação no Giro (até parece estranho não ter ganho nenhuma etapa) e um Enric Mas mais ao nível do épocas anteriores.

Nem tudo é perfeito e só assim esta equipa continua todos os anos em busca de ser melhor. Às vezes parece impossível, mas, tal como Alaphilippe demonstrou, não o é. O francês acabou por centrar grande parte das atenções nele, muito devido à senda de amarelo no Tour (14 dias não consecutivos) e duas vitórias de etapa (há um ano venceu também duas e foi o rei da montanha). Porém, estamos a falar de um ciclista com 12 vitórias, incluindo o seu primeiro monumento: a Milano-Sanremo. Ganhou ainda a Strade Bianche e começa a ser o rei da Flèche Wallonne, ao vencer pela segunda vez. Não há nada que este ciclista não seja capaz e em 2020 até vai experimentar a Volta a Flandres. Lutar pela geral no Tour, como se ficou a especular ainda mais depois do que fez na última edição, vai ser algo a pensar mais tarde.

Mas na Deceuninck-QuickStep há sempre espaço para mais ciclistas se destacarem. É talvez a única equipa que não sofre quando uma das suas figuras sai. Perdeu Fernando Gaviria, mas Fabio Jakobsen e Álvaro Hodeg estão em plena fase de afirmação, enquanto Elia Viviani somou 11 vitórias, incluindo a etapa que lhe faltava no Tour, e um título europeu. Está de saída para a Cofidis e não há lamentos porque a caminho vem Sam Bennett. Não há grandes dúvidas que o irlandês terá sucesso.

Kasper Asgreen, Florian Sénéchal e Rémi Cavagna são mais dois jovens a habituarem-se às grandes exibições e aos triunfos, enquanto Bob Jungels até esteve abaixo do esperado grande parte da temporada, principalmente no Giro, mas também teve os seus momentos, assim como um Zdenek Stybar, há algum tempo afastado das vitórias (uma delas foi no Alto do Malhão). Yves Lampaert não teve a época de clássicas que ambicionava, contudo, não deixou de agarrar algumas oportunidades.
Ranking: 1º (14835,15 pontos) 
Vitórias: 68 (incluindo Milano-Sanremo, Paris-Roubaix, três etapas no Tour e cinco na Vuelta) 
Ciclista com mais triunfos: Julian Alaphilippe (12)
Depois há dois belgas. Duas gerações. Philipe Gilbert (37 anos) foi o protagonista de um dos momentos da temporada. Conquistou o Paris-Roubaix e já só lhe falta a Milano-Sanremo para ter no currículo os cinco monumentos. Na Vuelta venceu duas etapas e já são sete na carreira na prova espanhola. E depois há Remco Evenepoel. Foi um início de temporada algo "tremido". Talvez a ansiedade de querer fazer muito bem rapidamente o tenha traído. O abandono na Volta aos Emirados Árabes Unidos não caiu bem na equipa, mas com apenas 19 anos e na sua primeira temporada no World Tour, não se pode dizer que seja uma surpresa que nem sempre fizesse as melhores da opções.

Habituado a ganhar tudo, passou pelo processo natural de adaptação. A certa altura, não parecia que estar tudo em harmonia. O director Patrick Levefere chegou a acusar Evenepoel de estar com peso a mais. Foi mais uma forma de "espicaçar" o jovem ciclista que em Junho começou a mostrar que está preparado para a responsabilidade que o espera. Até foi perfeito começar a ganhar em casa na Volta à Bélgica (uma etapa e a geral), mas foi a fenomenal exibição na Clássica de San Sebastián que confirmou o Evenepoel como um ciclista de topo entre os melhores. O antigo ciclista Tom Boonen alertou que o jovem belga teria de saber lidar com uma realidade completamente diferente da que estava habituado nos juniores e a boa notícia para a Deceuninck-QuickStep é que em seis meses Evenepoel demonstrou uma boa evolução a nível mental.

Aos 37 anos, Gilbert vai regressar à casa onde se tornou num dos ciclistas mais importantes do pelotão, a Lotto Soudal, pois nesta equipa não terá de dividir tanta atenção, numa altura em que não lhe resta muito mais tempo para concretizar o grande objectivo da carreira: ganhar a Milano-Sanremo. Evenepoel é agora um dos rostos do futuro da equipa Deceuninck-QuickStep, ainda que mais para as provas por etapas, já que Gilbert é um homem de clássicas. No entanto, fica reforçada a dúvida de como irá lidar a estrutura com a mais que clara vontade do belga de querer discutir uma grande volta, quando esta é uma equipa completamente virada para clássicas, sprints e vitórias de etapas.

Enric Mas está de saída precisamente porque para lutar por uma grande volta precisa de mais companheiros. Foi ao pódio no Vuelta em 2018, mas, apesar de muitas teorias que poderia utilizar o trabalho de equipas como a Ineos ou Jumbo-Visma a seu favor, esteve apagado no Tour. Lefevere chegou a prometer que contrataria ciclistas para ajudar o espanhol se este renovasse, mas Mas está a caminho da Movistar. Evenepoel poderá ser o ciclista que fará a Deceuninck-QuickStep alargar os seus objectivos, se não quiser perder o belga para outra equipa. Ou talvez até seja Alaphilippe a fazer os responsáveis da estrutura a pensar se é ou não altura de tentar ganhar uma grande volta e não "apenas" etapas.

A Deceuninck-QuickStep pode não precisar de mais nada para continuar a ser a que mais vence, mas haverá sempre caminhos novos a explorar, caso a equipa queira.

Para 2020, os objectivos vão manter-se iguais aos de sempre. O referido estagiário é o alemão Jannik Steimle, sprinter que assinou até 2021, contudo, numa perspectiva portuguesa, a atenção irá quase toda para João Almeida. Um dos mais promissores ciclistas da nova geração em Portugal vai chega ao World Tour pela porta grande e nesta equipa só se contrata os melhores ou os que têm tudo para o ser.

68 vitórias em 2019 que até foi um número mais baixo do que em 2018: 73. Mas continua muito acima dos rivais e nunca é de mais realçar como vários desses triunfos são nas principais corridas do calendário mundial.


25 de setembro de 2019

Rohan Dennis recorreu a bicicleta da BMC para ser campeão pela segunda vez

(Fotografia: © Twitter UCI)
Rohan Dennis reapareceu e foi o contra-relogista de classe superior que se conhece. Desde que estranhamente abandonou a Volta a França, no dia antes do contra-relógio para o qual era o favorito a ganhar, que o campeão do mundo se resguardou em casa, junto da sua família, enquanto treinou para o que acabou por ser o principal objectivo de uma fraca temporada. Deu uma única entrevista neste período de tempo, na qual não explicou o que o levou a deixar o Tour, limitando-se a dizer que tudo que se tinha dito e escrito havia sido exagerado. Dennis regressou e voltou a deixar a concorrência longe nos Mundiais e, no entanto, a difícil relação com a sua equipa continua a ser tema depois de não ter utilizado uma bicicleta Merida, mas sim da marca que lhe deu alguns dos seus maiores triunfos: BMC. Dennis é agora um bicampeão do mundo de contra-relógio, mas a incerteza quanto ao seu futuro é grande.

Por altura em que se publica este texto, ainda não há qualquer reacção da Bahrain-Merida quanto à conquista do seu ciclista. A Deceuninck-QuickStep e a Ineos, por exemplo, rapidamente colocaram nas redes sociais menções às conquistas de Remco Evenepoel e Filippo Ganna, medalha de prata e bronze, respectivamente.

Dennis desapareceu na 12º etapa do Tour - por momentos nem a equipa sabia o que tinha acontecido - e uma das razões adiantas nos meios de comunicação social para o abandono foi um possível descontentamento com o material que a Merida lhe estava a disponibilizar para o contra-relógio. O australiano nunca confirmou essa versão e numa entrevista ao The Advertiser, garantiu que nunca disse mal de nenhum patrocinador. Não corria desde 18 de Julho e reapareceu esta quarta-feira com uma BMC e não uma bicicleta da Merida. A bicicleta destes Mundiais foi pintada toda de preto, sem menção à marca.

O próprio ciclista admitiu a troca, referindo que foram os responsáveis da selecção australiana que determinaram que seria o melhor para ele, que aquela bicicleta seria a mais indicada para a sua posição corporal. Questionado se teria problemas com a Bahrain-Merida, limitou-se a dizer que teriam de perguntar à equipa, mas realçou como a escolha na selecção supera a da equipa que representa durante o ano. Os regulamentos permitem que ao representar o seu país nos Mundiais, os ciclistas possam escolher o seu equipamento, o que não significa que não vá ter problemas com quem lhe paga o salário.

As marcas apostam forte em ter ciclistas de renome a utilizarem as suas bicicletas. Para a Merida foi a oportunidade de ter novamente um campeão do mundo, depois de Rui Costa ter-se mudado para a então Lampre. No entanto, ao ver Dennis ser novamente campeão sem que se tenha visto a marca Merida em destaque durante a transmissão televisiva é um rude golpe mediático.

Rohan Dennis tem mais um ano de contrato com a Bahrain-Merida, equipa que escolheu depois do final da BMC. Esteve longe de ser um ano fantástico para o australiano, mas que até apareceu bem na Volta à Suíça, sendo segundo atrás de Egan Bernal (Ineos). Uma classificação algo surpreendente, mas que abriu expectativas para o Tour. Contudo, foi o Dennis do costume, com as temporadas a passar e o tal voltista em que prometeu tornar-se não se ver.

A Bahrain-Merida já contratou Mikel Landa e Wout Poels e poderá muito bem apostar mais num Dylan Teuns que se destacou tanto no Tour como na Vuelta. O problema de Dennis é que pode ser bicampeão do mundo de contra-relógio, mas o papel que poderá desempenhar numa equipa não é nesta fase da sua carreira claro. Não é um líder que dê garantias e não se tem apresentado disponível para ser gregário. Aos 29 anos, o australiano prepara-se para enfrentar um 2020 muito importante para definir o que resta da sua carreira.

Remco Evenepoel espectacular

O belga não quis competir em sub-23 - escalão a que ascendeu este ano - por respeito aos adversários. Dada a experiência que pôde viver na Deceuninck-QuickStep em 2019, Remco Evenepoel considerou mais justo saltar o escalão e ir directamente dos juniores para a elite nos Mundiais. Há um ano ganhou os títulos no contra-relógio e na prova de estrada e esta quarta-feira só um Rohan Dennis fortíssimo não permitiu um autêntico conto de fadas. Ainda assim, aos 19 anos, Evenepoel foi segundo, a 1:09 minutos, deixando atrás de si alguns dos principais nomes da especialidade, como Nelson Oliveira.

(Fotografia: © Federação Portuguesa de Ciclismo)
O português chegou a estar numa posição de conquistar finalmente uma medalha em Mundiais, mas uma ligeira quebra na fase final fê-lo perder o pódio por menos de 15 segundos. Com os ciclistas separados por pequenas diferenças, Nelson caiu de um potencial terceiro posto para oitavo, mas foi mais um excelente resultado e o quarto top dez em Mundiais de elite.

Nelson Oliveira vai continuar a perseguir a medalha que lhe tem escapado, enquanto de Remco Evenepoel se espera que mais cedo ou mais tarde vista a camisola de campeão do mundo de elite no contra-relógio e muito provavelmente numa prova de estrada, que vai participar no domingo.

De referir que Primoz Roglic teve um dia para esquecer. O esloveno esteve longe do ciclista que foi medalha de prata nos Mundiais de Bergen, há dois anos, com a Vuelta a ter o seu peso numa prestação que o fez ser ultrapassado por Rohan Dennis, que partiu três minutos depois! Tony Martin fechou mais um top dez, mas parece cada vez mais difícil que venha a conseguir o ambicionado quinto título. O recordista da hora Victor Campenaerts caiu, teve de trocar de bicicleta... outro corredor que teve um dia para esquecer. Já Alex Dowsett vai recordá-lo, pois a correr em casa foi quinto, na sua melhor classificação de sempre em Mundiais.

(O texto continua por baixo da classificação, via FirstCycling.)


Virar de página em Yorkshire
(Fotografia: © Federação Portuguesa de Ciclismo)
A partir desta quinta-feira arrancam as provas em linha, com a prova de juniores masculinos (12:10, com transmissão no Eurosport 1). Os portugueses André Domingues (dorsal 114) e João Carvalho (113) vão marcar presença na corrida de 148,1 quilómetros, com partida em Richmond e chegada em Harrogate, onde o pelotão irá cumprir três voltas ao circuito urbano. Antes os corredores vão ultrapassar duas subidas que deverão encurtar o grupo principal. Em Kidstones, ao quilómetro 44,7 há uma escalada de 3900 metros, com inclinação média de 4,3% e máxima de 11,3%. Em Summerscales (87,4), a subida terá 6,4 quilómetros, com pendente média de 3,9%.

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22 de junho de 2019

Que venha a nova geração

Egan Bernal em boa forma na Volta à Suíça (Fotografia: © Team Ineos)
Se há uma coisa que já se pode dizer de 2019 é que a nova geração está aí e pronta para agarrar o lugar de destaque. Estamos em plena renovação do pelotão. Esta semana Egan Bernal (22 anos) está a proporcionar mais um daqueles espectáculos de ciclismo que tanto se adora e que já se percebeu que o colombiano adora dar. Bernal, que este domingo poderá conquistar a Volta à Suíça, é simplesmente um prodígio rumo a uma grande carreira. A confirmação do seu talento está mais do que feita, agora é esperar por uma vitória numa grande volta e que parece estar tão perto... Bernal (Ineos) poderá ter uma tendência a "roubar" manchetes, mas cada vez mais se cria expectativa para o ver frente-a-frente com os próximos grandes voltistas.

Por agora apenas se pode imaginar o que será um Bernal a disputar uma corrida com outro ciclista com um potencial, e esta é a expressão que mais vem à cabeça, brutal! Tadej Pogacar venceu a Volta ao Algarve e foi depois tornar-se no ciclista mais novo a ganhar uma corrida World Tour por etapas. 20 anos e a fazer a UAE Team Emirates sonhar bem alto. O esloveno é diferente de Bernal, mais calculista. Mas quando aumenta a velocidade., deixa todos a "sufocar". Que grande rivalidade poderá ser esta se se mantiverem em equipas diferentes!

Remco Evenepoel tem apenas 19 anos e a par de Bernal tem sido o ciclista jovem sobre quem mais se fala. Muito devido ao facto de em júnior praticamente não ter sabido o que era perder corridas, principalmente no seu último ano, e de já estar numa das melhores equipas World Tour. A Deceuninck-QuickStep é uma estrutura de clássicas por excelência, mas Patrick Lefevere até está disposto a mudar um pouco só para manter Enric Mas no plantel. Portanto, não vai ter problemas em optar por construir um bloco forte em redor de Evenepoel em breve. Alguma ansiedade e erros normais de um jovem ciclista estavam a adiar a primeira vitória do belga. Mas nada como correr em casa para conquistar a sua primeira corrida por etapas. Muitos bons ciclistas não conseguiram fazer no profissionalismo o que prometiam nos escalões jovens. Evenepoel não vai ser um deles.

Bernal, Pogacar, Evenepoel... todos em boa forma e não há que resistir na grande volta em que se enfrentarem e noutras corridas, claro!

E juntemos Sergio Higuita. Talvez ainda um pouco desconhecido, mas foi segundo na Volta à Califórnia, na estreia pela EF Education First. Esteve uns meses a rodar na Fundação Euskadi antes de ingressar na equipa americana. O colombiano de 21 anos bem avisou que queria deixar um impacto imediato, depois de ter ganho uma etapa na Volta a Alentejo, ainda na formação espanhola. Já se está de olho nele. Segue um pouco a "escola" Bernal, no fundo a "escola" colombiana, na forma de correr. Há que esperar mais um pouco, mas que Higuita promete, lá isso promete. Na mesma equipa, mais um colombiano, Daniel Martínez. Está lesionado e vai falhar o Tour, mas tendo apenas 23 anos, a EF Education First tem dois potenciais excelentes líderes para as três semanas.

Outros nomes. Sam Oomen não convenceu esta época, mas um problema na artéria ilíaca (na perna) prejudicou as suas performances. Não vai correr mais esta temporada para recuperar e regressar em 2020 para tentar comprovar o que mais se espera dele. É o sucessor de Tom Dumoulin, mas com melhores características de trepador, menos de contra-relogista. Deseja-se que de facto possa recuperar a sua melhor forma, pois é mais um ciclista de potencial e com apenas 23 anos. Fez top dez no Giro de 2018.

Iván Ramiro Sosa ganhou este sábado a etapa na Volta à Occitânia. Mais um colombiano de talento, mas que poderá perder protagonismo por estar na Ineos. A equipa britânica não se pode dar ao luxo de apostar tudo em Bernal no futuro próximo, mas Sosa arrisca ficar muito na sombra do compatriota ou então ter de esperar pelas decisões de Bernal, para depois ter ele as suas oportunidades.

Na sombra de Bernal e de Pavel Sivakov. Não se pode esquecer este russo. É completamente diferente dos restantes ciclistas aqui falados. Vai muito a ritmo, não é nada dado a "safanões", mas quando mete uma velocidade alta, é complicado apanhá-lo. O top dez no Giro e a vitória na Volta aos Alpes foram as primeiras indicações do que este corredor de 21 anos pode fazer.

Tao Geoghegan Hart (Ineos, 24 anos), Eddie Dunbar (Ineos, 22), Jhonatan Narváez (Ineos, 22) - a equipa britânica tem vários valores em processo de amadurecimento e seria interessante que não ficassem presos ao papel de gregários - David Gaudu (Groupama-FDJ, 22), Mark Padum (Bahrain-Merida, 22) e Max Schachmann (Bora-Hansgrohe, 25) são outros ciclistas a ter em conta, ainda que este último ainda se tenha de perceber se vai mesmo optar por lutar pelas gerais nas grandes voltas.

E para fechar, dois ciclistas. Primeiro um que pode ser um sucessor de Vincenzo Nibali que Fabio Aru não foi, pelo menos até agora. Talvez até mais, porque não pensar de forma ambiciosa! 
Giulio Ciccone, 24 anos, mostrou potencial na Bardiani-CSF e no Giro, com a Trek-Segafredo, demonstrou que não pode ser gregário de ninguém. Excelente ciclista, sem medo de arriscar, talvez a precisar de evoluir um pouco tacticamente, pois é dado ao risco. O que é bom para o espectáculo, é certo!

O outro é Enric Mas. O espanhol também se pode dizer que será um sucessor, neste caso de Alberto Contador e Espanha bem espera que Mas (24 anos) confirme o que demonstrou na Vuelta em 2018 - uma vitória de etapa e segundo na geral -, tal é o receio no país que não se consiga igualar os feitos de Contador, Joaquim Rodríguez e Alejandro Valverde.

A nova geração também se estende às clássicas e sprints, mas com a Volta a França a aproximar-se, é de voltistas que nesta fase mais se fala e o Tour pode esperar por uma geração de enorme qualidade que vai "cruzar" com valor já confirmados, como é o caso dos gémeos Yates, Adam e Simon (Mitchelton-Scott), Miguel Ángel López (Astana) e claro, Richard Carapaz, o equatoriano que está prestes a tirar o espaço a Nairo Quintana na Movistar.

Romain Bardet (AG2R), Thibaut Pinot (Groupama-FDJ), Primoz Roglic (Jumbo-Visma) e mesmo Quintana caminham para se tornarem nos veteranos do pelotão quando esta jovem geração se afirmar definitivamente. Nibali, Chris Froome, Geraint Thomas e Richie Porte - ainda que o australiano não tenha conseguido sequer um pódio - vão-se preparando para passar o testemunho, mas até lá, ainda podem mostrar aos mais novos a vantagem da experiência.

Ou não, pois, voltando ao primeiro parágrafo, Bernal está a subir na cotação entre os fortes candidatos no Tour. Falhou o Giro devido a uma queda poucos dias antes num treino (partiu a clavícula), mas na Suíça está a revelar boa forma e sem Froome, só não fica estendida a passadeira vermelha para a liderança da Ineos, porque Thomas é o vencedor de 2018 e merece esse estatuto, ainda que não esteja a convencer e já abandonou a Volta à Suíça após queda. Mas Bernal pode roubar os holofotes. Pode ganhar o Tour? Dificilmente haverá alguém a não vê-lo como fortíssimo candidato. É mesmo caso para dizer, que venha a nova geração! Grandes batalhas em perspectiva!


9 de janeiro de 2019

As estreias no World Tour

O mais novo e o mais velho dos estreantes nas equipas World Tour
Uns são jovens, outros são mesmo muito jovens e depois há também alguns mais experientes, que há muito procuravam a oportunidade de competir numa equipa World Tour. Serão 61 os corredores estreantes ao mais alto nível do ciclismo mundial, entre eles três portugueses.

Amaro Antunes (CCC Team) está entre os mais velhos a chegarem em 2019 ao World Tour: 28 anos. Os gémeos Oliveira dão este passo aos 22, pela mão da UAE Team Emirates. A equipa de Amaro Antunes é quem mais estreias vai proporcionar: nove. Após a compra da estrutura da BMC, a formação que estava no escalão Profissional Continental apostou em parte do seu plantel de 2018 para esta nova fase do projecto. Só Will Barta vem da Hagens Berman Axeon e Jakub Mareczko da Willier-Triestina-Selle Italia.

De referir que a equipa americana de Axel Merckx colocou este ano cinco ciclistas no World Tour. Além de Barta e dos gémeos Oliveira, o belga Jasper Philipsen assinou pela UAE Team Emirates e o americano Sean Bennett pela EF Education First.

A Sky apenas terá um estreante, o colombiano Iván Ramiro Sosa, enquanto a Bora-Hansgrohe e a Groupama-FDJ não terão nenhum. A Movistar tem os dois mais velhos. Os espanhóis Lluís Mas e Edu Prades já contam no currículo com bons resultados e com e presenças na Vuelta, mas só aos 29 e 31 anos, respectivamente, é que finalmente conseguiram o tão desejado contrato.

O mais novo (18 anos) será Remco Evenepoel, o júnior, agora no seu primeiro ano de sub-23, que em 2018 ganhou praticamente todas as corridas em que participou, incluindo os títulos nacionais, europeus e mundiais de estrada e contra-relógio, do seu escalão. A Deceuninck-Quick Step agarrou este belga. Evenepoel será uma das duas contratações da equipa e o outro, o dinamarquês Mikkel Frolich Honoré, também é um estreante no World Tour.

Aqui fica a lista por equipas dos ciclistas que vão competir pela primeira vez numa equipa do principal escalão.

AG2R
Dorian Godon (França, 22 anos), Geoffrey Bouchard (França, 26) e Jaakko Hänninen (Finlândia, 21).

Astana
Davide Ballerini (Itália, 24 anos), Hernando Bohórquez (Colômbia, 26), Jonas Gregaard (Dinamarca, 22) e Yuri Natarov (Cazaquistão, 22).

Bahrain-Merida
Andrea Garosio (Itália, 25 anos) e Stephen Williams (Grã-Bretanha, 22).

CCC Team
Amaro Antunes (Portugal, 28 anos), Jakub Mareczko (Itália, 24), Jonas Koch (Alemanha, 25), Josef Cerny (República Checa, 25), Kamil Gradek (Polónia, 28), Lukasz Owsian (Polónia, 28), Pawel Bernas (Polónia, 28), Szymon Sajnok (Polónia, 21) e Will Barta (EUA, 23).

Deceuninck-Quick Step
Mikkel Frolich Honoré (Dinamarca, 21 anos) e Remco Evenepoel (Bélgica, 18).

Dimension Data
Gino Mäder (Suíça, 22 anos), Rasmus Tiller (Noruega, 22) e Stefan de Bod (África do Sul, 22).

EF Education First
James Whelan (Austrália, 22 anos), Jonathan Caicedo (Equador, 25), Luis Villalobos (México, 20), Sean Bennett (EF Education First, 22) e Sergio Higuita (Colômbia, 21).

Jumbo-Visma
Jonas Vinegaard (Dinamarca, 22 anos), Taco van der Hoorn (Holanda, 25) e Wout van Aert (Bélgica, 24).

Katusha-Alpecin
Dmitry Strakhov (Rússia, 23) e Harry Tanfield (Grã-Bretanha, 24 anos).

Lotto Soudal
Brent van Moer (Bélgica, 20 anos), Brian van Goethem, (Holanda, 27), Carl Fredrik Hagen (Noruega, 27), Gerben Thijssen (Bélgica, 20), Rasmus Iversen (Dinamarca, 21) e Stan Dewulf (Bélgica, 21).

Mitchelton-Scott
Dion Smith (Nova Zelândia, 25 anos), Edoardo Affini (Itália, 22), Nick Schultz (Austrália, 24) e Scott Callum (Austrália, 22).

Movistar
Edu Prades (Espanha, 31 anos) e Lluís Mas (Espanha, 29).

Sunweb
Asbjorn Kragh Andersen (Dinamarca, 26 anos), Casper Pedersen (Dinamarca, 22), Cees Bol (Holanda, 23), Joris Nieuwenhuis (Holanda, 22),  Marc Hirschi (Suíça, 20) e Max Kanter (Alemanha, 21).

Sky
Iván Ramiro Sosa (Colômbia, 21 anos).

Trek-Segafredo
Alex Kirsch (Luxemburgo, 26 anos), Giulio Ciccone (Itália, 24) e Matteo Moschetti (Itália, 22).

UAE Team Emirates
Cristian Camilo Muñoz (Colômbia, 22 anos), Ivo Oliveira (Portugal, 22), Jasper Philipsen (Bélgica, 20), Juan Sebastián Molano (Colômbia, 24), Rui Oliveira (Portugal, 22) e Tadej Pogacar (Eslovénia, 20).

»»Os portugueses no World Tour««

»»"Creio que já tinha demonstrado bons argumentos para ter esta oportunidade"««

31 de dezembro de 2018

Cinco momentos marcantes de 2018

Numa altura em que já se olha para as primeiras corridas de 2019, recorda-se um 2018 recheado de muito e bom ciclismo. Aqui ficam cinco dos vários momentos que marcaram a temporada e um extra. Ganhar uma das grandes voltas é sempre do mais importante e as conquistas de Froome, Thomas e Yates estarão sempre no topo de qualquer escolha, mas houve muito mais para recordar.

Sagan cumpriu o seu destino no Paris-Roubaix (8 de Abril)
(Fotografia: © BORA-Hansgrohe/Bettiniphoto)
Quando Peter Sagan entrou no velódromo de Roubaix, acompanhado por Silvan Dillier (AG2R), houve aquela sensação que o eslovaco estava prestes a, finalmente, cumprir o seu destino. O Inferno do Norte sempre foi uma corrida que se apontou a ser conquistada por Sagan, mas o Paris-Roubaix não parecia querer nada com este fantástico ciclista. Azares, má tácticas, o facto de ninguém querer arriscar em estar com ele numa fuga... Sagan não encontrava forma de vencer este monumento.

Mas, finalmente (palavra a repetir) Sagan conseguiu. Vê-lo com a determinação que surgiu na altura certa, com a determinação de quem pensou que "vou em frente, seja lá como for", foi ver um ciclista disposto a fazer a exibição de uma vida para ganhar em Roubaix. Curiosamente até arranjou quem não quisesse ficar apenas na sua roda. Dillier teve o seu papel, numa postura de poder não ganhar, mas pelo menos poder discutir a corrida. E no ciclismo tudo pode acontecer.

Sagan atacou a pouco mais de 50 quilómetros da meta, passou por quem estava na frente, quase caiu no último sector de pavé e no velódromo não deu espaço para surpresas, batendo Dillier no sprint. Custou, mas a conquista do Paris-Roubaix foi acompanhada por uma exibição memorável de um ciclista que é dos melhores do mundo e já dos melhores das história.

»»Se era para ganhar assim, então valeu a pena esperar para ver Sagan conquistar Roubaix««

A passagem de testemunho na Flèche Wallonne (16 de Abril)
(Fotografia: Twitter Flèche Wallonne)
A história recente da Flèche Wallonne está intimamente ligada a Alejandro Valverde. O espanhol havia vencido as últimas quatro edições e já tinha um triunfo em 2006. O muro de Huy quase que estava a ser chamado o muro de Valverde. Para bater um campeão, só outro verdadeiro campeão. Esse foi Julian Alaphilippe. O D'Artagnan da Quick-Step Floors lutou até final, num último quilómetro de tirar a respiração.

Depois de dois segundos lugares, atrás do inevitável espanhol, e de um 2017 em que ficou afastado da clássica das Ardenas por problemas físicos, Alaphilippe arrancou no muro de Huy, quebrando Valverde, que, desta feita, não escolheu bem o momento de aceleração. Ao cortar a meta, Alaphilippe pensou que tinha sido novamente segundo. É que Vincenzo Nibali tinha tentado uma fuga solitária quilómetros antes e francês não se apercebeu que o italiano tinha sido apanhado.

A vitória foi dele. E se Sagan parecia estar destinado a ser o rei do pavé, Alaphilippe tem destino idêntico, mas nas Ardenas. Até Valverde se rendeu ao francês, num momento que teve um certo simbolismo de passagem de testemunho.

»»Só um grande ciclista, um verdadeiro campeão, poderia bater outro. Até Valverde se rendeu a Alaphilippe««

O nascer de uma estrela (18 de Maio)
(Fotografia: Facebook Volta à Califórnia)
Já se esperava muito de Egan Bernal, mas chegar a uma equipa do World Tour, ainda mais a Sky e impor-se como se impôs... só está ao nível dos melhores. 21 anos de puro talento e que marcou a época de 2018. Logo na sua primeira corrida na equipa britânica, foi o melhor jovem no Tour Down Under e sexto na geral. Foi campeão nacional de contra-relógio e foi vencer a Colombia Oro y Paz, deixando Nairo Quintana e Rigoberto Uran atrás de si. Começaram os elogios que não mais terminaram nos meses seguintes.

Quando chegou à Europa ficou a poucos quilómetros do seu primeiro pódio numa corrida World Tour. Uma queda afastou-o dessa honra na Volta à Catalunha. Na Romandia conseguiu. Fez segundo, com Primoz Roglic a ser o único mais forte. Viajou até à Califórnia para deixar tudo e todos completamente rendidos ao seu talento. Já tinha ganho a segunda etapa, mas foi na sexta que impressionou ainda mais.

Parecia um senhor ciclista, com enorme experiência a ultrapassar a última e difícil subida. Nem Adam Yates ou Rafal Majka e muito menos Tejay van Garderen (o líder no início dessa etapa) conseguiram acompanhar, isto sem esquecer o brilhante trabalho de preparação de outro jovem, Tao Geoghegan Hart. Bernal acelerou nos momentos exactos, foi a ritmo (elevado) nos metros desejados. Já tem aquele hábito de olhar para o seu ciclocomputador e assim medir todos os pormenores do seu esforço. Goste-se ou não deste estilo, foi uma enorme exibição. E Bernal estava apenas a começar.

No seu primeiro ano no World Tour, ganhou logo uma corrida desse nível - venceu essa sexta etapa e garantiu a geral na Volta à Califórina - e estreou-se ainda no Tour e Chris Froome bem pode agradecer o seu pódio ao colombiano. Nasceu uma estrela.

Chris Froome e a inacreditável fuga até Bardonecchia (25 de Maio)
(Fotografia: Giro d'Italia)
Quando se falar de Froome em 2018, muito mais se falará do caso do salbutamol. Porém, e visto que foi ilibado e os seus resultados não foram anulados, então há que colocar aquela 19ª etapa da Volta a Itália como uma das melhores e mais marcantes da própria história da centenária corrida, não apenas do ano.

Quando Froome partiu naquele dia, numa etapa de montanha, com passagem no Colle delle Finestre, o britânico já não era visto como um candidato forte à vitória final, com 3:22 minutos a separá-lo de Simon Yates (Mitchelton-Scott) e com Tom Dumoulin (Sunweb) e Domenico Pozzovivo (Bahrain-Merida) pelo meio. Em 80 quilómetros tudo mudou.

Parecia inacreditável como um só homem arrancou de tão longe, com tanta dificuldade pela frente e ninguém o conseguia apanhar. Mesmo sendo Chris Froome. O ciclista metódico, que tem sempre tudo tão estudado, partiu numa aventura atípica nele, mas que foi fantástica e épica. Excelente a subir, ainda melhor a descer - onde fez as maiores diferenças - Froome ganhou em Bardonecchia e vestiu a maglia rosa. Yates quebrou, Dumoulin, Pozzovivo e Miguel Ángel López não tiveram capacidade para acompanhar o britânico.

Não foi tão espontâneo como à primeira vista se poderia pensar. Mais uma vez até estava tudo muito bem pensado. Uma loucura planeada, por assim dizer, com todos os membros do staff espalhados naqueles 80 quilómetros para garantir que o ciclista ia recebendo o abastecimento necessário para se alimentar e hidratar.

Com um Froome assim, foi inevitável ficar com o Giro, a grande volta que lhe faltava, fechando as três de forma consecutiva, ainda que em épocas diferentes. De referir ainda que Froome iniciou um ano histórico para o ciclismo britânico. Com Geraint Thomas a vencer o Tour e Simon Yates a Vuelta, a Grã-Bretanha conquistou as três grandes voltas.

»»A batalha mais esperada afinal vai mesmo acontecer«

Sagan entrega medalha de campeão do mundo a Valverde (30 de Setembro)
(Fotografia: © Bettiniphoto/Facebook UCI World Championships Innsbruck)
Já tinha seis pódios em Mundiais, mas o título não queria nada com ele. Innsbruck foi um dos objectivos da época para o espanhol de 38 anos. Nem era o máximo favorito, com aquela subida final a baralhar muito as apostas. Pendentes tão brutais não assentam bem a ninguém e qualquer um poderia falhar. Ou melhor quebrar. Valverde não falhou. Já chegava de segundos e terceiros lugares. A oportunidade foi, desta feita, agarrada com todas as forças que restavam naqueles metros finais (e já não era muitas), para garantir que não veria novamente outro ciclista vestir a icónica camisola do arco-íris.

Nada rouba o momento a quem acaba de se sagrar campeão do mundo, mas Valverde partilhou-o com outro senhor do ciclismo. Peter Sagan foi autor de um dos gestos do ano. O tricampeão do mundo, que não terminou a corrida de Innsbruck, surgiu no pódio para ser ele a entregar a medalha de ouro a Valverde. Um final perfeito para um dia de muito e bom ciclismo, num percurso que não será esquecido pela sua enorme dificuldade, mas que apenas contribuiu para tornar a vitória de Valverde ainda mais especial. Sagan viu isso e quis pessoalmente e à frente de todos dar o sinal de maior respeito por um ciclista que marcará a modalidade. Dois grandes atletas, dois senhores do ciclismo, nas vitórias e nas derrotas.

»»Finalmente Valverde««

Um momento extra: a exibição de um júnior que fica para a história (27 de Setembro)
(Fotografia: © Bettiniphoto/Facebook UCI World Championships Innsbruck)
Não é todos os dias que assistimos a exibições de um ciclista ainda júnior e temos a certeza que não a vamos esquecer. Uma coisa é ver como um corredor tem potencial e demonstra poder ter um futuro promissor. Outra coisa é simplesmente ficar de boca aberta, perante uma exibição tão inacreditável e impensável de um jovem. Se calhar, só ele acreditaria ser possível fazer a recuperação como a fez e assim, aos 18 anos, ter o mundo do ciclismo rendido a um novo talento.

Remco Evenepoel deixou o futebol para se dedicar ao ciclismo e em boa hora o fez. Em 2018 ganhou praticamente todas as corridas em que participou. Ficou com os títulos nacionais, os europeus, venceu o contra-relógio nos mundiais e ficava a faltar o de estrada. Caiu, perdeu mais de dois minutos e, em circunstâncias normais, estava perante uma missão praticamente impossível de chegar à frente da corrida. Evenepoel não esperou por ninguém. Foi um contra-relógio até à meta, deixando toda a concorrência - que não era fraca -  para trás. Ninguém conseguia seguir o seu ritmo, nem igualar a sua determinação. Acreditou até ao fim e até teve tempo para cortar a meta a pé, com a sua bicicleta erguida lá bem no alto.

Uma corrida de juniores que fica entre os melhores momentos de 2018. E por ter sido tão marcante ver aquela exibição de Evenepoel, não se poderia deixar de a aqui colocar. Para 2019, este belga, que não quer ser chamado de novo Merckx, mas sim de novo Evenepoel, vai estar no World Tour, na Deceuninck-Quick Step. 

»»O novo Merckx? Não. É o novo Remco Evenepoel, um nome a não esquecer««

27 de setembro de 2018

O novo Merckx? Não. É o novo Remco Evenepoel, um nome a não esquecer

(Fotografia: © BettiniPhoto/Facebook Mundiais de Innsbruck-Tirol)
Se nasceu uma estrela, então não nasceu o novo Eddy Merckx. Nasceu Remco Evenepoel, um belga que transformou uma corrida de juniores numa emocionante prova, que deixou a elite fascinada com um jovem de 18 anos, que não esperou para vestir as cores da Quick-Step Floors para mostrar o que se irá ver a partir de 2019. Cair, ficar a dois minutos ou mais da frente da corrida, recuperar num autêntico contra-relógio e ainda ir ganhar com quase minuto e meio de vantagem, não é para qualquer um, mesmo que se esteja a falar de um júnior. E o melhor é que nem foi por acaso (nem uma total surpresa) que fez esta tremenda exibição. Até já era expectável algo do género, tendo em conta os resultados de um ciclista cujo o nome é melhor memorizar desde já.

Estamos a falar de um corredor que está num nível tão acima a muitos do seu escalão, que basicamente ganhou todas as corridas internacionais em que participou em 2018. Em termos de camisolas, ficou com as de campeão belga de contra-relógio e fundo, com as de campeão europeu de contra-relógio e fundo e, para não destoar, ficou agora com as de campeão mundial de contra-relógio e fundo. Não é o típico belga para as clássicas - ainda que também some vitórias neste tipo de provas - e foi peremptório em afirmar que quer ganhar as três grandes voltas.

Quando um ciclista com potencial aparece assim na Bélgica, a tendência é apelidá-lo de novo Merckx. Remco não é o primeiro e não será certamente o último. Tem apenas 18 anos, mas uma personalidade bem forte. "Não me chamem de novo Merckx. Eu sou o novo eu", disse depois de ser campeão mundial de contra-relógio, com autoridade (deixou o australiano Luke Plapp a 1:24 minutos). Agora também já tem o título de estrada, pelo que o nome de Merckx vai certamente surgir mais umas vezes quando se falar deste jovem, mas Evenepoel conseguiu que já se começasse a falar do Remco, do talento que é e de como a Bélgica poderá estar perante o próximo grande voltista.

E já lá vai um tempo desde que o país tem um ciclista que com esta idade estivesse a ser apontado às provas por etapas e não às clássicas. Axel Merckx, o filho do "Canibal", conversou com Evenepoel para o levar para a sua Hagens Berman Axeon, mas este é um ciclista que não vai esperar para dar o passo para o World Tour. A Quick-Step Floors não deixou.

Ainda há uns dias aqui se falou sobre como vários jovens preferem evoluir em equipas de sub-23, algumas do escalão Profissional Continental, antes de partirem para a aventura do nível máximo do ciclismo. Mas há ciclistas que é impossível esperar. Remco tem ainda um caminho a percorrer antes de estar lado a lado com os melhores do mundo na elite, a disputar as grandes vitórias. Irá para uma equipa que trabalhará com Remco, na sua evolução, tendo como colegas alguns dos melhores "professores" que se poderia pedir. Philippe Gilbert, por exemplo, foi um dos que reagiu à vitória do jovem compatriota nas redes sociais e poderá ter uma palavra importante no desenvolvimento deste ciclista.

Dificilmente as expectativas poderiam ter ficado mais altas para Remco Evenepoel, mas há que gozar o momento que está a viver e depois resfriar os ânimos, ter os pés bem assentes na terra, para que possa de facto tornar-se no ciclista que demonstra ter o potencial para ser.

Um futebolista, internacional belga nas camadas jovens, que passou pelas escolas do Anderlecht e chegou a viajar até à Holanda para treinar na formação do PSV. O futebol não o preencheu como desportista e no ano passado fez a passagem total para o ciclismo. Chegou tarde, mas mais do que a tempo para se tornar num corredor de enorme futuro. Agora é esperar e ir aproveitando todo o espectáculo que possa dar. Sim, este ciclista é para o espectáculo e para ganhar.

A Quick-Step Floors até pode ser uma equipa mais dada às clássicas, mas se já tem ciclistas que estão a pedir uma adaptação às corridas de três semanas se não os quiser perder (Enric Mas foi terceiro na Vuelta e Bob Jungels também começa a pedir mais apoio), Remco poderá ser o corredor que dará de vez à equipa belga a motivação para se tornar numa equipa também para as grandes voltas. E para a geral, não "apenas" para as etapas.

Na elite não se espera que mantenha o ritmo de vitórias, mas se continuar a somar muitos e grandes triunfos, poderá não ser apelidado de novo Merckx - se for respeitado o seu desejo de não o tratarem assim -, mas será quase impossível escapar ser tratado como o novo "Canibal", ou seja, herdará pelo menos a alcunha.

Quedas e muita emoção


O seleccionador José Poeira com Guilherme Mota
(Fotografia: Federação Portuguesa de Ciclismo)
As quedas foram muitas e terão sido poucos os ciclistas que conseguiram escapar incólumes. Os portugueses Guilherme Mota e Afonso Silva foram apanhados em confusões, mas o primeiro conseguiu um excelente resultado: 16º lugar, a 6:41 de Evenepoel. Afonso ficou a 19 minutos, na 79ª posição, tendo ficado "cortado" numa das muitas quedas, o que o impediu de alcançar um resultado melhor.

Foi uma corrida feita a grande velocidade, com tantos incidentes a obrigar a constantes recuperações. Não havia tempo para respirar, com algo sempre a acontecer. "A primeira parte da corrida, até à primeira subida, foi muito rápida. Houve duas quedas e em ambas as ocasiões tive de recolar ao pelotão e é um pelotão de loucos. Nessa parte da corrida, a rolar a alta velocidade, não me ia a sentir nada bem, porque sou muito leve. Depois entrámos nas três subidas do dia. Aí senti-me espectacular. Tive pena de não estar no máximo, devido ao sofrimento inicial, porque acho que poderia fazer um lugar ainda melhor", afirmou Mota, citado pela Federação Portuguesa de Ciclismo.

Foi uma experiência internacional de fogo para ambos os jovens portugueses e para todos os restantes. Que o diga Karel Vacek, o checo que tanto se esperava ver no pódio, mas que um problema físico o atirou para fora da discussão. O alemão Marius Mayrhofer não teve andamento para Remco. Ninguém teve. Mas Mayrhofer mereceu a prata, ele que para o ano estará na equipa de formação da Sunweb. Já o bronze ficou para um italiano. Alessandro Fancellu salvou a honra daquele país, que conseguiu ter quatro ciclistas na frente, sem que nunca trabalhassem em equipa. Que forma estranha de encarar a corrida, com os italianos a atacarem-se uns aos outros (resultados completos neste link).

Áustria conseguiu um título

O país anfitrião podia não ter grandes favoritos às vitórias, mas do BTT chegou uma campeã do mundo, há poucos dias, para conquistar mais um título, agora na estrada. E foi apenas a sua segunda corrida de estrada! Laura Stigger vive a cerca de 50 quilómetros da zona onde se estão a disputar os Mundiais, em Innsbruck. Apesar do BTT ser a sua principal escolha, por agora, Stigger aproveitou a proximidade para treinar no percurso determinado para a corrida de juniores femininos. Conhecia bem as subidas e apesar de não ter muita prática na vertente, esse conhecimento foi determinante, pois reservou as forças necessárias para ganhar o sprint final, frente a três adversárias. A francesa Marie le Net e a canadiana Simone Boilard fecharam o pódio (resultados completos neste link).

Dois títulos mundiais num curto espaço de tempo, com Stigger a admitir que, por enquanto, o BTT será a sua escolha, mas depois de uma conquista como esta, a estrada poderá começar a chamá-la.

Esta sexta-feira, os sub-23 regressam à acção para a corrida de fundo. É uma prova só para os homens (não há este escalão na vertente feminina), com Portugal a contar com quatro ciclistas: André Carvalho, Gonçalo Carvalho, João Almeida e Tiago Antunes. A corrida começa às 11:10 (hora portuguesa), com transmissão no Eurosport (pode ler mais no link em baixo).

»»Sub-23 com miras apontadas ao topo««

»»Isso não se faz a um campeão do mundo««