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25 de maio de 2021

Libertem o João e deixem o Remco em paz

© Tim de Waele/Getty Images/Deceuninck-QuickStep
Remco, Remco, Remco! Muito se falou do regresso de Evenepoel, ofuscando quase tudo e todos antes e durante os primeiros dias do Giro. João Almeida teve o seu merecido destaque, que Patrick Lefevere, director da Deceuninck-QuickStep resolveu "colorir" com a notícia que o ciclista português ia sair da equipa no final do ano, com direito a críticas ao empresário do atleta. Timing estranho, já que o fez no dia antes da prova arrancar. João começou bem, Remco também - ainda que tenha ficado atrás do português no contra-relógio - e até foi a um sprint intermédio para ganhar a dianteira na geral para ser o número um da Deceuninck-QuickStep. Como se houve essa questão... Depois, João perdeu tempo e teve de definitivamente ficar a ajudar o belga. Quando Evenepoel começou a dar sinais de fraqueza a equipa manteve-se unida em torno do líder, com Almeida a ter essas ordens. Nada de novo e absolutamente normal. A aposta falhou. Agora é a vez de João ir para a frente nos cinco dias que faltam de Volta a Itália. Se há corrida que está a contribuir para o crescimento do português, é este Giro.

Há uns meses, quando João Almeida foi líder durante 15 dias em Itália, foi um sonho rosa que o lançou para a ribalta e confirmou todo o seu potencial, que ainda não atingiu por completo, pelo que muito mais e melhor se vai ver deste ciclista. Mas eis que este Giro traz a realidade que bem se conhecia. A Deceuninck-QuickStep aposta grande parte do seu futuro próximo no prodígio Evenepoel. Nove meses depois da gravíssima queda na Lombardia, finalmente regressou. E logo numa prova de três semanas, que nunca tinha feito na curta carreira.

De doidos? Certo é que apesar do bom início, aconteceu o que seria de expectável: Evenepoel ainda está longe de ser o que era antes da queda. O processo de recuperação ainda não terminou, principalmente a nível mental. Aquelas descidas... Há que dar tempo ao tempo. Quem não quer ver este espectacular ciclista de volta ao seu melhor? Não está a ser óptimo ver Egan Bernal (Ineos Grenadiers) a ser... Bernal? Situações diferentes, é certo, mas posições idênticas: apesar de jovens, tiveram um sucesso rápido e souberam cedo o que é passar maus momentos e viver sob desconfiança do que podem fazer no futuro... Mesmo sendo tão jovens.

João Almeida (22 anos) merecia ser líder. Está em boa forma e, apesar de lhe faltar uma grande vitória, já mostrou que a pode alcançar. Aquela quarta etapa selou-lhe um destino que mais cedo ou mais tarde seria inevitável se Remco não cedesse. Era o número dois. Merecia que o tivessem protegido mais, por tudo o que já fez, não só no último Giro. A equipa rodeou o seu "menino bonito" e Remco foi alimentando a euforia dentro e fora da Deceuninck-QuickStep. Nove meses depois estava a lutar pelo Giro! É difícil acreditar que não se esperava de maneira nenhuma esta quebra. Talvez não de 28 minutos, mas que não estaria na luta pela vitória do Giro e que até poderia ficar fora do top dez.

Remco Evenepoel é o primeiro a querer mais e mais. Vive bem com essa pressão que se auto impõe. Mas viu-se na situação que todos pediam... exigiam o "velho" Remco (até parece mal dizer velho tendo ele 21 anos, feitos em Janeiro). Se este Giro muito pode estar a ajudar no amadurecimento de João Almeida, também acontecerá o mesmo a Remco. Não é nenhum extraterrestre, não é nenhum super-herói, é um homem que também quebra. Há que o deixar recuperar, há que o deixar ser Remco Evenepoel ao seu ritmo. O novo Eddy Merckx? Quando o chamaram isso, ainda enquanto júnior, a sua resposta foi: "Não, sou o Remco Evenepoel!" E é isso mesmo. Merckx há só um, por mais que na Bélgica se diga que há um novo Merckx sempre que surge um ciclista com talento. E Evenepoel também haverá só um e se conseguir recuperar por completo física e mentalmente, será igualmente fenomenal, à sua maneira.

Quanto a João Almeida, assentou durante a corrida depois de algumas atribulações e declarações que pareciam fomentar polémicas. O português cumpriu as ordens da equipa. Goste-se ou não, é o que tem de fazer. Se foram as melhores... Muito haverá a analisar no final do Giro por parte da formação de Lefevere. Há que recordar que a Deceuninck-QuickStep abdicou de lutar por sprints ou de estar em fugas, como é normal em grandes voltas, o que significa que trocou o habitual objectivo de conquistar etapas, por uma geral. Quando Evenepoel deu os primeiros sinais que estava a claudicar, a equipa manteve a hierarquia. Nesta segunda-feira, a equipa finalmente libertou um João Almeida em crescendo, com Remco em quebra total. Um top dez é o mínimo para a equipa salvar o Giro.

O português está em 10º. São 10:01 minutos para Egan Bernal. Uma montanha de tempo para recuperar. Só uma catástofre afastará o colombiano da conquista da sua segunda grande volta (venceu o Tour em 2019). Pódio para João Almeida? Hugh Carthy (EF Education-Nippo), terceiro, está a 3:40 de Bernal. Tem sido um Giro complicado para os líderes das equipas - menos para Bernal - pelo que o português pode muito bem alcançar mais um top dez, depois de ter sido quarto na sua estreia no Giro e numa grande volta.

Qualquer coisa que venha a mais (na classificação ou ganhar uma etapa), será bem-vindo e merecido para um ciclista que nos vai dar muitas razões para celebrar. Só precisa que o libertem das amarras de Remco, que agora diz ser a sua vez de ajudar e que vai estar ao lado do português, dentro do que as forças deixarem. Só lhe ficará bem e assim sim, é como funciona uma equipa.

Cinco dias para dar tudo! Bota lume João!

»»Lefevere sem timings anuncia saída de João Almeida««

8 de maio de 2021

Ganna, aquela máquina. Almeida começa forte

© Tim de Waele/Getty Images/Deceuninck-QuickStep
João Almeida não perdeu tempo em entusiasmar ainda mais os adeptos portugueses, meses depois de ter deixado um país apaixonado pela camisola rosa. Logo no primeiro dia da Volta a Itália mostrou que está mais do que focado em estar na luta pela geral. Desta feita, apresenta-se como candidato desde a partida e começou novamente com um forte contra-relógio, ainda que tenha sido apenas de 8,6 quilómetros em Turim. Ficou a 17 segundos daquele que é "apenas" o campeão do mundo e que tem ganho quase todos os contra-relógios que faz.

Filippo Ganna (Ineos Grenadiers) repetiu a dose de 2020. No último Giro venceu os três contra-relógios da prova e agora soma nova vitória e veste outra vez a camisola rosa. Bateu outro italiano forte na especialidade. Edoardo Affini fez mais 10 segundos, mas tirou o chapéu (literalmente) à exibição do compatriota. Porém, a Jumbo-Visma não saiu completamente desiludida de Turim. Tobias Foss tem apenas 23 anos, mas já um potencial reconhecido, para o qual contribuiu ganhar o Tour de l'Avenir em 2019.

Apesar de George Bennett ser, na teoria, o líder da Jumbo-Visma, perder 41 segundos, enquanto Foss somou apenas mais 13 que Ganna, deixa o norueguês numa boa posição inicial para poder ser também ele uma aposta.

E dos potenciais candidatos a lutar pela geral, Foss foi o único que bateu João Almeida. "Obtive um resultado melhor do que tinha pensado.  É uma excelente forma de começar a corrida. É um tipo de resultado que te dá uma importante dose extra de motivação", referiu o ciclista, citado pela Deceuninck-QuickStep.

Além de João Almeida, a equipa belga viu ainda Rémi Cavagna ser quinto, a 18 segundos - o campeão francês queria ganhar o contra-relógio - e Remco Evenepoel em sétimo, a 19 segundos. O regresso do belga foi um dos momentos do dia. "Ter três ciclistas no top 10 é excelente para a equipa", afirmou Almeida, numa altura que muito se vai começar a falar da forma física de Evenepoel.

Apesar de surgir com o dorsal um da equipa, a sua longa ausência da competição devido a uma grave queda na Lombardia, levanta dúvidas quanto à sua condição. Evenepoel começou bem, mas os verdadeiros testes chegarão com a montanha. Para João Almeida é ainda mais importante arrancar como o melhor da Deceuninck-QuickStep para que possa reclamar o estatuto de número um na equipa neste Giro.

Quanto aos outros dois portugueses em prova, Nelson Oliveira (Movistar) é um especialista no contra-relógio, mas este de Turim não era nada que pudesse beneficiar as suas características. Terminou a 29 segundos de Ganna, com Ruben Guerreiro (EF Education-Nippo) a perder 47.

Na perspectiva de João Almeida, o ciclista das Caldas da Rainha ganhou tempo aos rivais, com Aleksandr Vlasov (Astana) a ser o melhor, a 24 segundos de Ganna. Egan Bernal fez mais 39 segundos do que o companheiro de equipa e Jai Hindley (DSM), que no Giro passado esteve perto de ganhar a corrida, tem 46 segundos de atraso. Mikel Landa (Bahrain-Victorious), que assumiu que a Volta a Itália é para ganhar, pode dizer que nem foi dos seus piores contra-relógios, tendo 49 segundos para recuperar para Ganna, que não será um adversário directo.

2ª etapa: Stupinigi (Nichelino)-Novara (179 quilómetros)



15 de janeiro de 2021

Líderes começam a decidir em que grande volta vão apostar

© Wout Beel/Deceuninck-QuickStep
Com muitas das equipas nos habituais estágios de início de ano, ainda que sem saber muito bem quando e onde vão arrancar a temporada - contingências da pandemia -, vão definindo-se objectivos, nomeadamente ao que grandes voltas diz respeito.

Em 2020, Portugal teve a confirmação que tem um voltista e João Almeida (na foto) já tem a sua grande volta escolhida. A principal novidade poderá ser Egan Bernal não apostar tudo no Tour, tal como Mikel Landa.

Começando pelo ciclista português. Depois da espectacular exibição na Volta a Itália, naquela que foi a sua estreia em provas de três semanas, João Almeida aponta à corrida que chegou a ser hipótese no ano passado: a Volta a Espanha. Os planos acabaram alterados, muito devido à queda grave de Remco Evenepoel, na Lombardia, que o tirou do Giro. O resto é história e Almeida conquistou estatuto dentro da Deceuninck-QuickStep. Irá à Vuelta como líder.

Já Evenepoel recupera o plano que tinha para a temporada transacta e está marcado para o Giro, ainda que a sua recuperação continue. O próprio belga afirmou que continua a sentir algumas dores, pelo que o regresso à competição é uma incógnita.

Apesar de ser uma equipa que sempre apostou mais nas clássicas, a Deceuninck-QuickStep tem ganho outro destaque nas três semanas, além de lutar por etapas. Para completar, Julian Alaphilippe tem os olhos postos no Tour, faltando saber com que objectivo: vestir a amarela e tentar lutar por ela, etapas, montanha... um pouco de tudo, talvez...

Mas vamos então por provas. A Volta a Itália (de 8 a 30 de Maio) contará com o vencedor de 2020, Tao Geoghegan Hart, mas o seu companheiro da Ineos Grenadiers, Egan Bernal, afirmou que também gostaria de ir ao Giro, podendo mesmo fazer a dupla Giro/Tour.

Mikel Landa e Pello Bilbao (Bahrain-Victorious), Simon Yates (BikeExchange) e Vincenzo Nibali e Bauke Mollema (Trek-Segafredo) começam 2021 com o pensamento em estar em Itália e depois em França. Yates não é certo, mas a hipótese estará a ser estudada, agora que a equipa não conta com o irmão gémeo, Adam (foi para a Ineos Grenadiers).

Já Emanuel Buchmann (Bora-Hansgrohe) deixa o Tour para se estrear no Giro, com Marc Soler a espreitar a oportunidade de liderança na primeira vez que irá à Volta a Itália. O veterano Domenico Pozzovivo (Qhubeka Assos) é que não troca o Giro por nada. Soma 14 presenças, contra apenas três no Tour e outras tantas na Vuelta.

Quanto à Volta a França (de 26 de Junho a 18 de Julho), Chris Froome irá centrar novamente muita das atenções, no ano em que será estranho vê-lo sem o equipamento da Ineos Grenadiers. Agora representa a Israel Start-Up Nation e terá a seu lado o irlandês Daniel Martin e o canadiano Michael Woods. De recordar que se a Volta ao Algarve conseguir realizar-se entre 17 e 21 de Fevereiro, o britânico é uma presença muito provável na corrida.

Na Ineos Grenadiers, Geraint Thomas não desiste do Tour, mesmo tendo dificuldades em ser líder. O galês quer preparar a sua temporada a pensar em França, mas na sua equipa a concorrência é enorme, pelo que, nesta altura, poucas certezas poderá haver para Thomas.

O reforço da Movistar Miguel Ángel López deverá ir a França, ao lado de Enric Mas. A Bora-Hansgrohe, ao "desviar" Buchmann para o Giro, abriu vaga para Wilco Kelderman mostrar o que vale, depois de em 2020 ter estado tão perto de ganhar a Volta a Itália, ao serviço da Sunweb. O holandês será acompanhado pelo jovem talento alemão Lennard Kämna, que ganhou uma etapa no Tour na edição passada.

Para terminar, a Volta a Espanha (de 14 de Agosto a 5 de Setembro). Quem serão os rivais de João Almeida? A EF Education-Nippo tem estado algo silenciosa no anúncio dos calendários dos seus atletas, mas Rigoberto Uran poderá ter a Vuelta como principal objectivo. Ainda se aguarda pelo destino do rei da montanha do último Giro, Rúben Guerreiro.

Alejandro Valverde será aposta da Movistar, com Miguel Ángel López a ter planeado fazer a dupla Tour/Vuelta. Giulio Ciccone terá oportunidade de liderança por parte da Trek-Segafredo, assim como Felix Grossschartner, na Bora-Hansgrohe. No caso do austríaco será a possibilidade de confirmar o seu crescimento como voltista, depois do nono lugar, precisamente na Vuelta.

Como é habitual, a Volta a Espanha é aquela que mais tarde vai conhecendo quem nela aposta, já que surge muitas vezes como a segunda grande volta do ano para alguns ciclistas. Porém, há um que está muito entusiasmado. Fará a sua estreia em três semanas, no seu primeiro ano no World Tour. É mais um jovem que há muito anda a ser seguido e que finalmente optou por dar o salto: Thomas Pidcock.

Tem 21 anos, é um ás do ciclocrosse, mas na estrada foi campeão do mundo de contra-relógio de juniores em 2017, foi evoluindo e agora a Ineos Grenadiers abriu-lhe as portas da elite. Apesar de as clássicas fazerem parte da sua primeira fase do ano, Pidcock não esconde como também quer mostrar-se em provas como as de três semanas.

Estes planos iniciais podem, naturalmente, sofrer alterações e ainda faltam muitos corredores confirmarem os seus objectivos. Mesmo que de normal 2021 nada esteja a ter, o ciclismo tenta manter o ritmo de treinos e planeamento rumo a uma época que se espera que seja o mais próxima possível do calendário estabelecido e principalmente sem cancelamentos.

»»O regresso do bom velho Froome poderá ser no Algarve««

»»Marc Hirschi deixou DSM para se juntar a uma equipa cada vez mais forte««

15 de agosto de 2020

Que dia!

Com etapa rainha do Critérium du Dauphiné e o monumento Lombardia no mesmo dia, a expectativa era elevada. No entanto, acabou por ser uma tarde de ciclismo marcada por quedas, que talvez tenham contribuído para o que o espectáculo não fosse do nível esperado. Nada que tire mérito aos vencedores, com algumas equipas a terminarem este sábado com razões para estarem preocupadas.

Remco Evenepoel tem sido um dos principais focos nesta retoma de temporada, a par de Wout van Aert. Porém, desta feita, o jovem belga da Deceuninck-QuickStep não está a ser notícia por uma vitória na Lombardia, em que partiu como favorito, apesar de ser o seu primeiro monumento. O ciclista sofreu uma queda. E que queda!

Saiu mal numa curva e acabou por tocar no muro, caindo para o lado de lá da ponte. Ainda foi uma queda de alguma altura. Um susto enorme para uma equipa ainda a tentar recuperar do que aconteceu a Fabio Jakobsen na Volta à Polónia. E como se não bastasse este incidente para marcar negativamente a corrida, ainda se assistiu ao insólito de um carro entrar no percurso da prova.

Não sendo inédito no ciclismo, quando se está a falar de uma das mais importantes competições mundiais, é um erro tremendo de repente haver um veículo não pertencente à corrida a circular. A senhora - algo em choque com o que aconteceu - virou à esquerda, Max Schachmann é que não estava à espera e chocou com o carro, em plena descida. Sem perceber muito bem o que aconteceu, o alemão da Bora-Hansgrohe lá completou os poucos quilómetros que faltavam para fechar no top dez.

Mais quedas no Dauphiné

A equipa alemã teve um daqueles dias... Antes, no Dauphiné, Emanuel Buchamann caiu e abandonou, ele que estava a mostrar boa forma e a lutar pelo pódio. Gregor Mühlberger e Andreas Schillinger seguiram o exemplo. Ainda nada se sabe sobre a condição do líder da Bora-Hansgrohe. A equipa acabou por dar liberdade a Lennard Kämna, que aos 23 anos conquistou a sua primeira vitória como profissional. Tendo em conta que foi na etapa rainha do Dauphiné (seis subidas categorizadas em 153,5 quilómetros), nada mau para a estreia!

Também a Jumbo-Visma teve um dia menos bom, para variar. Primoz Roglic também caiu no Dauphiné e ficou com umas feridas bem visíveis no braço e perna. Nada que evitasse de manter a liderança sem problemas, mas claramente a equipa optou por controlar completamente a etapa, evitar ataques, sem um andamento muito forte, garantindo total conforto ao esloveno. Steven Kruijswijk é que foi mais um dos abandonos do dia. Caiu, deslocou o ombro e a ver vamos como fica a sua situação para o Tour, que arranca no dia 29.

E ainda temos Egan Bernal. Nem partiu, alegadamente por dores nas costas. A Ineos, claro, nem se preocupou mais com o Dauphiné, ainda que Michal Kwiatkowski tenha ambicionado a vitória de etapa. Mas, mesmo na frente da corrida, ficou longe da discussão.

Voltando à Lombardia...

Na Lombardia, George Bennett cumpriu o esperado, três dias depois de vencer esteve novamente na luta. Mas não era mesmo o dia para a Jumbo-Visma conquistar o segundo monumento, depois de Wout van Aert ter ganho há uma semana a Milano-Sanremo. O neozelandês nem teve problema por estar sozinho num grupo que chegou a ter três Trek-Segafredo (Bauke Mollema - vencedor de 2019 -, Vincenzo Nibali - vencedor em 2015 e 2017 - e Giulio Ciccone) e dois Astanas (Jakob Fuglsang e Aleksandr Vlasov). Também não se incomodou por ter ficado depois apenas com os dois Astanas.

No entanto, quando já só tinha Fuglsang como concorrência quebrou e estendeu a passadeira a um dinamarquês que pode ter falhado na sua afirmação nas grandes voltas, mas em clássicas e provas de uma semana surge, numa fase tardia da carreira, como um dos mais fortes.

Foi uma corrida interessante (231 quilómetros entre Bergamo e Como), já muito lançada quando ainda faltavam 50 quilómetros para o final. Mas é difícil não pensar que, sem Evenepoel, acabou por perder alguma espectacularidade, sendo mais uma prova de eliminação, do que propriamente de ataque e contra-ataque, como muitas vezes acontece.

Inevitavelmente, após a corrida, um dos maiores pontos de interesse continua a ser como estará Evenepoel, ele que estava imparável em 2020, ganhando as quatro corridas por etapas que disputou e que estava a mostrar manter a boa forma para dar luta no monumento.

A Deceuninck-QuickStep informou que o ciclista fracturou a pélvis e sofreu uma contusão pulmonar, o que o vai afastar das corridas durante algum tempo. Vai permanecer internado pelo menos até domingo, quando deverá regressar à Bélgica, segundo a equipa.

Os portugueses

João Almeida (Deceuninck-QuickStep) estreou-se num monumento, enquanto Ruben Guerreiro (EF Pro Cycling) fez a sua primeira Lombardia, depois de duas Liège-Bastogne-Liège. Foi a primeira corrida de fundo do ciclista português no pós-confinamento (participou no contra-relógio da Prova de Reabertura, em Anadia, no início de Julho) e esteve em bom plano.

Guerreiro fechou na 17ª posição, a 10:25 minutos do vencedor, num regresso à competição muito prometedor para quem tem a ambição de regressar a uma grande volta para tentar repetir e mesmo melhorar a prestação da Vuelta de 2019. Já Almeida não foi feliz, estando entre os muitos ciclistas que não terminaram a Lombardia.


1 de agosto de 2020

João Almeida a conquistar o seu espaço no World Tour

© João Fonseca Photographer
Dizer que João Almeida começa a mostrar-se ao mundo do ciclismo não seria de todo justo para este ciclista. Faz apenas 22 anos na próxima quarta-feira, mas há muito que se percebeu que este jovem tem muito talento, muito potencial. Ainda como júnior já revelava que não era mais um no pelotão. Como sub-23 afirmou-se na Hagens Berman Axeon e ainda é desse escalão agora que está no World Tour. E não perdeu tempo a obter  bons resultados no seu ano de estreia.

Naturalmente que a máquina Remco Evenepoel rouba os holofotes quando na sua terceira corrida do ano, vence pela terceira vez na geral e junta mais uma etapa. Também como júnior deixou tudo e todos rendidos à sua classe quando em 2018 fez uma recuperação incrível na prova de fundo do escalão no Mundial. Venceu com uma categoria que então se percebeu que estava destinado ao sucesso.

A Deceuninck-QuickStep concordou e assinou com o ciclista que aos 20 anos, feitos em Janeiro, tem um senhor como Vincenzo Nibali a alertar que o belga é para seguir com atenção quando se estrear numa grande volta, no Giro. Mas com muita atenção também se segue cada vez mais João Almeida, tal como aliás foi cotado pela imprensa especializada no início de 2020.

Em 2017 surpreendeu quando assinou pela equipa búlgara (com fortes ligações italianas) Unieuro Trevigiani-Hemus 1896. Foi um passo que quis dar. Sair de Portugal, depois de dominar nos juniores, formando uma dupla incrível com Daniel Viegas, actualmente na Kometa Xstra.

O ano correu bem e saltou para a Hagens Berman Axeon, vista como uma das melhores equipas de formação e que nas duas temporadas em que Almeida lá esteve, foi Profissional Continental. Aí somou bons resultados, boas exibições, com destaque para a conquista da Liège-Bastogne-Liège de sub-23. Entretanto já a Deceuninck-QuickStep de Patrick Levefere estava de olho no português, que estagiou inclusivamente com a equipa.

Em 2020 foi considerado pronto para saltar para a fortíssima estrutura belga. E estava mesmo mais do que pronto, como se está a perceber. A equipa é perfeita para João Almeida. Apesar das muitas estrelas, a mentalidade na Deceuninck-QuickStep passa por dar oportunidades a todos. Almeida nem está à espera de uma, está a agarrar todos os momentos que tem para se mostrar.

O segundo lugar na primeira etapa da Volta a Burgos foi já o exemplo. O aviso. Então até ficou à frente de Evenepoel, 10º, apesar de ambos terem ficado a oito segundos do vencedor Felix Grossschartner (Bora-Hansgrohe).

A jovem dupla acabaria por tomar conta das operações num pelotão de respeito, com Evenepoel a vencer a terceira etapa (Almeida foi quinto) e a não sair mais da liderança até final (cinco tiradas). Neste sábado, no último teste em Lagunas de Neila, João Almeida esteve com o seu líder até muito perto de final.

Evenepoel assegurou a geral, Almeida subiu a terceiro, a 1:12 minutos do companheiro. Que lugar tão merecido! A equipa destacou isso mesmo no Twitter.

João Almeida é um daqueles ciclistas que tem nas provas por etapas uma relação perfeita, mas também se pode esperar dele bons resultados em certas clássicas. Por isso mesmo, a equipa já o escolheu para fazer desde já a estreia em monumentos, na Lombardia (15 de Agosto). Três dias depois estará no Giro dell'Emilia.

Contudo, antes, vai ao Tour de l'Ain. Três etapas (de 7 a 9 de Agosto) sem Remco Evenepoel a seu lado, que nem lhe permite ficar com uma classificação da juventude, por exemplo. Terá luz verde para procurar vitórias?

Almeida é de facto um guerreiro, como se lê no twit. Este português acabou de chegar ao World Tour e retomou a competição tal como tinha terminado quando a pandemia interrompeu as corridas: em grande forma. Chegou ao World Tour, onde é o lugar dele. Até onde vai chegar? Certo é que ainda se vai falar muito de João Almeida.

Veja aqui a classificação final da Volta a Burgos, via ProCyclingStats.

»»Efapel e Feirense vão competir em Espanha««

»»João Almeida no pelotão de luxo da Volta a Burgos««

27 de julho de 2020

João Almeida no pelotão de luxo da Volta a Burgos

Evenepoel e João Almeida, a dupla que funcionou tão bem na Volta ao Algarve,
estará novamente junta em Burgos (© João Fonseca Photographer)
Se algo já compensou o esforço da organização em colocar na estrada a Volta a Burgos é a lista de luxo que apresenta de ciclistas. A vontade é muita (mesmo muita) de regressar à competição, pelo que se todos vão estar, por um lado, a tentar perceber em que fase estão na na sua forma física, por outro, serão poucos aqueles que não vão apontar a vitórias. Afinal a Volta a Burgos vai arrancar esta terça-feira (até sábado), mas nunca se sabe se no dia de amanhã haverá corridas.

Os grandes nomes têm objectivos bem mais altos que esta prova espanhola, é certo. Porém, num calendário encaixado em tão poucas semanas e sempre com a ameaça que a pandemia pregue nova partida e leve ao cancelamento de provas - recentemente foram as duas clássicas do Canadá -, não há tempo a perder para alcançar resultados.

A Volta a Burgos acabou por beneficiar da colocação no calendário. Não foi fácil receber luz verde das autoridades espanholas, dada numa altura em que os contágios diminuíam. Já se sabe que em certas zonas de Espanha as notícias são agora outras, mas em Burgos vai viver-se a festa do ciclismo... de uma forma diferente, claro.

O calendário World Tour arranca a 1 de Agosto (sábado), com a Strade Bianche, mas para quem não se vai focar tanto nas clássicas, Burgos foi o ponto de partida eleito principalmente por voltistas, mas também por alguns sprinters.

Estarão presentes 14 equipas World Tour na corrida do segundo escalão (o mesmo da Volta ao Algarve). No ano passado e em 2018 foram apenas quatro! E que pelotão de luxo vai ter.

Vejamos: Alejandro Valverde e Enric Mas (Movistar), Mikel Landa e Mark Cavendish (Bahrain-McLaren), Richard Carapaz e Iván Ramiro Sosa (Ineos), Fabio Aru e Fernando Gaviria (UAE Team Emirates), Rafal Majka (Bora-Hansgrohe), Simon Yates e Esteban Chaves (Mitchelton-Scott), Arnaud Démare e David Gaudu (Groupama-FDJ), Matteo Trentin (CCC), George Bennett e Sepp Kuss (Jumbo-Visma), Louis Meintjes e Giacomo Nizzolo (NTT)...

A Astana levará ciclistas menos cotados, mas em Espanha irá olhar-se para os seus: Alex Aranburu e Óscar Rodríguez. A Israel Start-Up Nation deverá apostar em Daniel Navarro e David Cimolai.

Até o campeão do mundo irá marcar presença em Burgos. É tão difícil conquistar a camisola arco-íris e Mads Pedersen só a quer mostrar e vencer com ela. Matteo Moschetti também vai regressar à competição depois de um bom início de época, que no seu caso ficou marcado não só pela pandemia, mas por uma grave queda antes do confinamento. Edward Theuns e Jasper Stuyven também vão marcar presença pela Trek-Segafredo.

Confirmadíssimo está Remco Evenepoel. O miúdo maravilha do pelotão internacional vai tentar manter o recorde de 100% de conquistas em 2020. Duas corridas, duas vitórias: Volta a San Juan e Volta ao Algarve. A Deceuninck-QuickStep levará ainda o sprinter Sam Bennett e o português João Almeida. O campeão nacional de sub-23 de fundo e contra-relógio parece começar a tornar-se num dos homens de confiança de Evenepoel. Ainda ninguém esqueceu o excelente trabalho que realizou na Volta ao Algarve, naquele que está a ser o seu ano de estreia no World Tour. Almeida foi nono na corrida.

O pelotão fica completo com algumas formações Pro Team e a Kern Pharma, que sendo Continental, já está a apontar à subida em 2021.

A Sibiu Tour deu o mote para este regresso às corridas das principais equipas, com a Bora-Hansgrohe e a Israel Start-Up Nation a marcarem presença na Roménia. O austríaco da Bora-Hansgrohe, Gregor Mühlberger, venceu (geral, pontos e montanha), ficando à frente do companheiro Patrick Konrad. A equipa alemã ganhou ainda quatro das cinco etapas, duas por Mühlberger e outras tantas com o sprinter Pascal Ackermann (pode ver aqui a classificação final, via ProCyclingStats).

Contudo, é em Burgos que se centra a maior atenção. O ciclismo está de volta e agora é esperar para perceber como será esta relação entre desporto de alta competição e a pandemia. A expectativa é alta numa altura do ano em que tanto já se deveria ter passado, mas, afinal, quase tudo ainda está por acontecer. Mesmo sendo um estranho calendário, com ausências de nota, grandes corridas a coincidirem com outras, o desejo de ciclistas, staff, directores, adeptos, organizadores é que haja ciclismo! Que comece o espectáculo em semanas que serão certamente muito, muito, muito intensas!

Veja aqui a lista completa de inscritos da Volta a Burgos, via ProCyclingStats.


22 de maio de 2020

Qual o local mais valioso no Monopólio das clássicas do ciclismo? Pode votar

Ainda falta mais de meio ano, mas fica já feito o pedido para o Natal: o Monopólio das clássicas do ciclismo. O icónico jogo tem mais uma versão especial a ser preparada, mas será limitada, pelo que é melhor optar pela pré-encomenda. As vendas arrancam em Novembro. Mas falta definir um importante pormenor. Qual deve ser o local mais valioso? A decisão fica a cargo dos fãs.

Guerra dos Tronos, Super Mario Bros., Disney, Vingadores... Há muito que a versão tradicional deixou de ser a única opção para um daqueles jogos que nunca saiu de moda, mesmo com as consolas a tomarem conta deste tipo de entretenimento. A tecnologia evolui, mas com o Monopólio continua-se a viver momentos divertidos a tentar comprar ruas importantes, colocar hotéis, levar um jogador à falência... sem estar a olhar para um ecrã!

Na versão dedicada às clássicas do ciclismo, as ruas darão lugar a locais populares deste tipo de corridas e há então que decidir qual será o mais valioso. Os criadores do jogo colocaram oito a votos: Poggio (Milano-Sanremo), Muur van Geraardsbergen (Volta a Flandres), Cauberg (Amstel Gold Race), Koppenberg (Volta a Flandres), La Redoute (Liège-Bastogne-Liège), Oude Kwaremont (Volta a Flandres), Paterberg (Volta a Flandres) e Velódromo de Roubaix (Paris-Roubaix). Pode votar neste link.

Com a excepção de Roubaix, a escolha recaiu nas subidas que marcam alguns dos monumentos, casos da Milano-Sanremo e Volta a Flandres. Esta última corrida, sem surpresa, com forte presença, não fosse ela conhecida pelos seus muros.

"Heroísmo, paixão, espírito de luta que nos une. Percursos extraordinários por paisagens 'acidentadas' [com curtas mas duras subidas], história, simbolismo e solidariedade entre os adeptos que fazem do ciclismo um dos desportos mais bonitos." É assim que começa o texto sobre este Monopólio especial no site belga. É neste país que está a ser preparado o jogo que terá a versão holandesa e francesa. Custa 50 euros e serão feitas apenas duas mil unidades.

Para ilustrar a caixa foram escolhidos dois ciclistas belgas bem conhecidos. Um tem no currículo quatro dos cinco monumentos e outras clássicas, um campeonato do mundo e sete etapas na Volta a Espanha: Philippe Gilbert. Ao lado do veterano de 37 anos está o jovem talento de 20: Remco Evenepoel. O seu currículo também já conta com conquistas importantes nas camadas jovens e como profissional começou em 2019 a vencer importantes corridas. Este ano conquistou a Volta ao Algarve, depois de triunfar na Volta a San Juan.

E qual é o local do Monopólio mais valioso para estes ciclistas? Gilbert (Lotto Soudal) opta pelo Cauberg e percebe-se porquê: "Deu-me muito sucesso na Amstel Gold Race e, claro, nos Mundiais de 2012." Evenepoel (Deceuninck-QuickStep) prefere a La Redoute, apesar de ainda não ter tido a possibilidade de a fazer como profissional. A estreia planeada para este ano ficou adiada para 2021. "Infelizmente não vou testar as minhas pernas e mostrar-me esta época, mas espero fazê-lo no futuro", confirmando-se como a Liège-Bastogne-Liège é um monumento que Evenepoel quer muito vencer.

As encomendas podem ser feitas no site oficial da nova versão do Monopólio https://monopolykoers.be/. E neste mesmo site pode-se ler que ainda vão ser revelados mais pormenores sobre o jogo até ao seu lançamento.

»»Quando Paris-Roubaix passou a ser dia santo««

»»Ciclismo virtual veio para ficar?««

23 de fevereiro de 2020

Fenómeno belga deixa marca na Volta ao Algarve

© João Calado/Volta ao Algarve
"Parabéns rapaz!" Remco Evenepoel certamente que não percebeu ou sequer ouviu as palavras de uma senhora cuja idade não a demoveu de estar umas horas à espera de saber quem seria o vencedor da Volta ao Algarve. Enquanto o belga se dirigia para o pódio, muitos foram os que o chamaram, aplaudiram, tentaram a fotografia, num ambiente espectacular em Lagoa. Todos os presentes tiveram a oportunidade de assistir a uma vitória de alguém destinado a grandes conquistas. E sim, um dia há-de ter significado dizer: "Eu vi o Evenepoel ganhar no Algarve". 

Se Evenepoel é visto na equipa como um fenómeno que aparece a cada 20 anos, então estamos perante um daqueles que marcará profundamente o ciclismo e que assim junta o seu nome a uma lista cada vez mais de luxo de vencedores da Algarvia. E as suas exibições são de alguém que pode evoluir ainda mais. Pode mesmo ser impossível não herdar a alcunha de "Canibal" do mítico Eddy Merckx.

Valeu a pena aguardar pelo "rapaz" em Lagoa. Assistiu-se a um contra-relógio canhão de Evenepoel, que derrotou o bicampeão do mundo da especialidade, Rohan Dennis. Mas é algo que vamos começar a ver cada vez mais. Este fenómeno da Deceuninck-QuickStep tem 20 anos, bate os melhores ao ataque em clássicas, ao ataque na montanha e também se pode dizer ao ataque no contra-relógio. Afinal, se se quer ser o melhor, há que vencer os melhores. Evenepoel é de topo, um perfeccionista, algo tímido na abordagem com os adeptos e sempre focado no que quer alcançar.

Este foi o melhor tempo neste percurso de Lagoa nas três últimas edição em que esta etapa ali se realizou, batendo o de Geraint Thomas em 2018 por dois segundos. 24:07 minutos para cumprir 20,3 exigentes quilómetros. Dennis (Ineos) o especialista-mor do momento ficou a dez segundos, Stefan Küng (Groupama-FDJ), vencedor há um ano em Lagoa, fez mais 19. Evenepoel é o campeão da Europa e ser o do mundo é apenas mais um título que se espera que um dia venha a conquistar.

Durante uns anos a Algarvia viu ciclistas consagrados vencerem. Geraint Thomas, Tony Martin, Richie Porte, Alberto Contador são exemplo disso. Agora, esta corrida está a ser um dos palcos do aparecimento da nova geração. Em 2019, Tadej Pogacar (UAE Team Emirates) começou no Algarve um trajecto de sucesso, agora Evenepoel - o mais novo a conquistar a Algarvia - está a continuar o seu, que também teve os primeiros sucessos na época passada. Dez vitórias como profissional, três nestes cinco dias, pois além do contra-relógio e da geral, Evenepoel venceu na Fóia. Mas há que realçar que vestiu ainda a camisola da juventude.

Duas corridas em 2020, duas vitórias. Em San Juan mostrou que não sabe correr sem ser para ganhar. Há um ano era Julian Alaphilippe que ia somando triunfos, agora é Evenepoel que vai tendo protagonismo na Deceuninck-QuickStep neste arranque de temporada. A equipa vai levar o belga ao Giro para o testar pela primeira vez numa grande. O ciclista já vai dizendo que estará em Itália para lutar por a única coisa que sabe: vitórias.

Mas a ascensão de Evenepoel, assim como a perspectiva que, mais cedo ou mais tarde, Alaphilippe poderá querer atacar a geral da Volta a França - principalmente depois de na edição passada ter andado tanto tempo de amarelo - levanta uma questão: vai a Deceuninck-QuickStep alterar um pouco a sua filosofia para apoiar estes dois ciclistas na geral? Para já, as clássicas e sprints continuam a ser o objectivo, com as gerais de corridas por etapas de uma semana a começarem a ganhar importância, com boa resposta dos ciclistas que têm de trabalhar. Para pensar nas provas de três semanas, será preciso mais.

Agora é tempo de aproveitar e ver as exibições de Evenepoel, começando a imaginar o que poderá ser quando estiver pronto para defrontar Egan Bernal (Ineos) e Tadej Pogacar, por exemplo. Quis ser futebolista, até esteve na formação do PSV e foi internacional nas camadas jovens, mas o ciclismo foi a escolha de um atleta que vai marcar uma era.

João Almeida em destaque, Rui Costa falhou pódio

Evenepoel ganhou tendo a seu lado outro jovem ciclista, que foi essencial no trabalho realizado em todas as etapas em linha. João Almeida chegou ao World Tour e em dois meses já convence na Deceuninck-QuickStep. Protegeu os líderes (incluiu-se Fabio Jakobsen no sprints), respondeu a ataques, impôs ritmo... Um gregário de luxo, cujo trabalho foi reconhecido por todos na equipa. O campeão nacional de sub-23 de fundo e contra-relógio aproveitou para em Lagoa entrar no top dez (nono a 1:40 minutos do companheiro), ficando em segundo na juventude.

Rui Costa terminou fora do pódio. Uma pequena surpresa, com o ciclista da UAE Team Emirates a não conseguir ficar à frente de Miguel Ángel López. O português ficou a 53 segundos de Evenepoel, enquanto o colombiano fez um contra-relógio bem melhor do que o esperado, somando mais 38 segundos. Bons sinais para quem vai estrear-se no Tour. Com Daniel Martin (Israel Start-Up Nation) a ser um autêntico descalabro, López fechou terceiro, atrás de Max Schachmann (Bora-Hansgrohe). Martin deu o que se tem de chamar de trambolhão na geral: passou de segundo, com o mesmo tempo de Evenepoel após a etapa do Malhão, para 11º a 1:59 minutos. Sim, o belga quando que ultrapassou o irlandês no contra-relógio.

Enquanto Rui Costa foi o melhor português (quarto, a 56 segundos), Amaro Antunes foi o melhor entre as equipas nacional. O corredor da W52-FC Porto segurou o top dez por dois segundos sobre Daniel Martin e a 1:57 de Evenepoel. Tal como tinha ficado definido ontem, Dries de Bondt (Alpecin-Fenix) foi o rei da montanha (camisola azul) e Fabio Jakobsen ficou com a camisola vermelha dos pontos. Apesar de tantas vitórias no Algarve - Jakobsen venceu o sprint em Lagos - a Deceuninck-QuickStep ainda assim não cumpriu todos os objectivos. Queria ganhar todas as etapas!

De referir ainda a Ineos. Individualmente foi uma desilusão, pois nem Geraint Thomas, nem Michal Kwiatkowski estiveram ao nível de anos anteriores, sendo que ambos poderiam ganhar pela terceira vez a corrida. Rohan Dennis só apareceu no contra-relógio. Porém, a equipa fez o suficiente para conquistar a classificação colectiva, com menos 25 segundos que a UAE Team Emirates de Rui Costa e Ivo Oliveira.

A 46ª edição da Volta ao Algarve Cofidis (este ano ganhou um naming) finalizou com espectáculo e o único problema... falta um ano para a próxima!

Classificação via FirstCycling.




22 de fevereiro de 2020

Malhão deixa tudo por decidir mas a pender para Evenepoel

Se há algo que muito se tem ouvido pelo Algarve nos últimos dias é "isto até parece o Tour". Curiosamente, nem Miguel Ángel López, o vencedor no Malhão, nem Remco Evenepoel, o camisola amarela, estiveram na Volta a França (ainda), mas entendamos a expressão como o estarmos perante um pelotão que não fica a dever muito a grandes voltas. A sequência de nomes que se ouviu no Malhão numa fase de ataques, pode enganar o mais distraído, pensando que está a assistir uma grande corrida no estrangeiro. Mas não. A grande corrida, com os grandes nomes e um grande espectáculo está aqui bem perto. Cada vez mais o Algarve não só é palco das principais estrelas - mais experientes ou mais recentes -, como as exibições são emocionantes e justificam em pleno as muitas horas que tantas e tantas pessoas passaram nos 2700 metros do Malhão, por exemplo.

Com a camisola amarela em causa e distâncias de tempo muito curtas, Remco Evenepoel e a Deceuninck-QuickStep sabiam que era dia para controlar e defender... e eventualmente atacar, pois sabe-se que não é fácil segurar esse ímpeto natural do belga. Com o contra-relógio ainda pela frente - algo que não acontecia desde 2013, quando venceu Tony Martin - Evenepoel tem vantagem sobre a concorrência mais próxima, já que outros especialistas e também fortes na montanha, estão fora da luta pela amarela. Casos de Geraint Thomas (Ineos), para dizer um nome.

No Malhão era dia para os adversários tentarem ganhar segundos preciosos, para que os 20,3 quilómetros de Lagoa este domingo não sejam apenas os de consagração para Evenepoel. Tentativas não faltaram e até Vincenzo Nibali (Trek-Segafredo) resolveu aparecer em destaque, mas o ataque não passou de um teste que fez à sua própria forma, depois de dois estágios em altitude.

Daniel Martin (Israel Start-Up Nation) foi dos mais activos, com Rui Costa (UAE Team Emirates) a comprovar o bom arranque de temporada. Max Schachmann (Bora-Hansgrohe) esteve sempre muito atento ao camisola amarela, mas foi Miguel Ángel López que conseguiu definitivamente quebrar um pouco a resistência do grupo de candidatos. Um pouco, porque as diferenças entre o primeiro e quinto (Rui Costa) ficaram-se pelos cinco segundos.

Para o colombiano da Astana, o objectivo do dia até passou mais por vencer a etapa, pois ao não conseguir ser o mais forte na Fóia, López sabia que não seria no Malhão que se colocaria numa posição de ganhar a corrida. Só está a um segundo de Evenepoel, mas seria uma enorme surpresa se acabasse a Algarvia de amarelo. De referir que o Super-Homem do ciclismo está a preparar-se para fazer a estreia precisamente na Volta a França.

Em teoria, a emoção para o contra-relógio é muita. Martin e Schachmann têm o mesmo tempo que o belga da Deceuninck-QuickStep, Rui Costa está a três segundos. Porém, na prática, a vantagem está do lado do prodígio belga de 20 anos, que já é uma figura no esforço individual. Só não vai exibir a camisola de campeão da Europa, porque terá de vestir a amarela de líder da Volta ao Algarve. Além de ser candidato a vencer a prova, também já era um dos favoritos para vencer a etapa.

Daniel Martin tem dificuldades nesta especialidade, Rui Costa sabe defender-se e certamente que irá a fundo para chegar ao pódio, mas o favoritismo está quase todo do lado de Evenepoel. Quase porque Schachmann (26 anos) tem vindo a trabalhar o seu contra-relógio e a vitória nessa etapa da Volta ao País Basco em 2019 - corrida que acabaria por conquistar - foi um sinal da sua melhoria. Mas foi uma tirada de 11,3 quilómetros.

Evenepoel tem tudo para conquistar a 46ª edição e assim suceder a outro jovem talento, Tadej Pogacar (UAE Team Emirates), mas como o ciclismo não se faz de certezas antecipadas, o belga não poderá facilitar. Quem já pode relaxar um pouco é o companheiro Fabio Jakobsen, que tem a camisola vermelha dos pontos garantida.

Também a azul da montanha está entregue, com o belga Dries de Bondt a intrometer-se na fuga na etapa do Malhão para lutar por esta classificação, que teve um pretendente português. Tiago Antunes, da Efapel, bem tentou, mas será o ciclista da Alpecin-Fenix a subir ao pódio final em Lagoa. Mathieu van der Poel pode ter vindo ao Algarve para começar a ganhar ritmo para as clássicas, mas a sua equipa acaba por mostrar que tem mais ciclistas com ambição de aproveitar as oportunidades que lhes forem dadas.

Algarvios da W52-FC Porto mostraram-se

Um problema mecânico na etapa da Fóia afastou João Rodrigues de repetir a proeza de ficar no top dez da corrida, tal como em 2019. O ciclista da W52-FC Porto tentou no Malhão ter protagonismo e na primeira passagem estava destacado do grupo da fuga. Mas com a qualidade de ciclistas que estava de olhos postos na vitória na Algarvia ou na etapa, o vencedor da Volta a Portugal acabou por ver o seu esforço não ser compensado.  Outro algarvio da equipa, Amaro Antunes, assumiu novamente o protagonismo numa subida onde viveu um dos grandes momentos da sua carreira, quando venceu no Malhão em 2017. Esteve sempre com os candidatos, quebrando um pouco nos metros finais. Ficou a 14 segundos (sétimo).

Quem também esteve muito bem foi Frederico Figueiredo (Atum General-Tavira-Maria Nova Hotel). Depois do sétimo lugar na Fóia, terminou na 14ª posição no Malhão, a 14 segundos de Miguel Ángel López. Boas indicações do "senhor regularidade" do pelotão nacional, num ano em que assume sem discussão a liderança da equipa de Vidal Fitas.

Ao falar-se de portugueses, há que terminar com João Almeida. Mais um dia de trabalho essencial para Evenepoel, estando a revelar ser um aliado muito importante para o companheiro. Almeida está na sua primeira época no World Tour e as indicações começam a ser muito boas, ocupando a segunda posição na juventude que tem Evenepoel como líder, com 37 segundos de vantagem. Sem reconhecimento no pódio, certamente que não o faltará dentro da equipa quando este domingo a Volta ao Algarve terminar.

Almeida está à porta do top dez, sendo 12º a seis segundos do 10º, Frederico Figueiredo e até pode subir mais uns lugares. É campeão nacional de contra-relógio de sub-23 (e em linha), pelo que não é de afastar que consiga um lugar bem honroso e merecido.

5ª etapa: Lagoa-Lagoa (20,3 quilómetros)


Contra-relógio já conhecido, com algumas zonas técnicas e curtas, mas duras subidas que quebram o ritmo. O suíço Stefan Küng e o britânico Geraint Thomas venceram em 2019 e 2018, respectivamente.

Evenepoel é um dos favoritos, mas as atenções também se vão centrar muito em Rohan Dennis. O bicampeão do mundo nunca venceu um contra-relógio com a camisola do arco-íris vestida e tem estado muito discreto no Algarve. Será que poupou forças para Lagoa?

O primeiro a partir será David Livramento (Atum General-Tavira-Maria Nova Hotel), às 13:04. O top dez vai para a estrada às 15:42, com dois minutos a separar os ciclistas, ou seja, Evenepoel, o último a sair, estará em acção às 16:00.

Classificação via FirstCycling.




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20 de fevereiro de 2020

Fóia marca uma estreia na carreira de Evenepoel

Se há uns anos houve uma emoção especial ao ver ao vivo Alberto Contador e aquele estilo tão inconfundível a subir o Malhão e a ali ganhar - afinal era Contador e mais palavras para quê - há que admitir que, desta feita na Fóia, poder ver primeiro Tadej Pogacar (em 2019) e esta quinta-feira Remco Evenepoel vencer, também faz pensar que vir até à Volta ao Algarve é simplesmente imperdível quando tanto se gosta de ciclismo. Estamos a falar de dois nomes que estão em ascensão, mas já ninguém tem dúvidas que são as estrelas do presente e com um futuro em que tudo pode acontecer. Mas na Fóia, já se pode dizer que se viu um pouco do talento destes de dois nomes que vão ser enormes na modalidade.

Remco Evenepoel tem apenas 20 anos, mas já começou a ganhar desde que chegou há um ano à Deceuninck-QuickStep, directamente do escalão de juniores. Venceu a Volta a Bélgica, mas o primeiro sinal forte de grandeza foi deixado na Clássica de San Sebastian. Deixou todos para trás, numa fuga que parecia de loucos e que ficou para a história como a primeira grande exibição deste prodígio belga ao mais alto nível. Em 2020 foi à Argentina vencer San Juan, numa temporada em que a equipa o vai levar à primeira grande volta, em Itália. Até é suposto ser para se adaptar e aprender um pouco. Contudo, para Evenepoel não há melhor maneira de aprender do que a lutar por vitórias!

A Volta ao Algarve apareceu neste caminho de preparação para o Giro e já se sabia que Evenepoel não vinha para aproveitar o sol do sul do país. Na Fóia deu espectáculo. Não foi um daqueles ataques em que deixa a concorrência longe, mas foi o suficiente para tirar Miguel Ángel López (Astana) e Vincenzo Nibali (Trek-Segafredo), por exemplo, da discussão, numa subida que marcará a sua carreira: pela primeira vez, como atleta de elite, Evenepoel ganhou uma etapa a terminar em alto. A equipa destacou isso mesmo nas redes sociais.

Este facto tem significado quando se se tem em conta que o belga quer tornar-se num voltista e conquistar as mais míticas subidas e as mais míticas corridas. A Fóia foi assim uma demonstração que Evenepoel tem capacidade para fazer ataques em qualquer terreno, mesmo numa subida mais longa. Bateu Max Schachamann (Bora-Hansgrohe) por poucos centímetros, com Daniel Martin (Israel Start-Up Nation), Rui Costa (UAE Team Emirates) e Tim Wellens (Lotto Soudal) a ficarem a apenas dois segundos.

Na Algarvia, Evenepoel tem mantido uma postura discreta. Talvez focado num objectivo, a tentar não se deixar levar pela imensa euforia que o rodeia, o belga pouco sorri e opta por escapar a longas trocas de palavras. Este é um jovem que quer estar em correr, é ali o seu terreno e não lidar com o mediatismo que o persegue desde a sua performance nos Mundiais de 2018 - ainda no escalão de juniores - e consequente contratação da Deceuninck-QuickStep. A sua dedicação e a sua juventude ficam bem patentes pela forma como se emociona quando ganha. Na Fóia não foi excepção. E finalmente sorriu!

Já era candidato à geral, agora reforça esse estatuto, vestindo uma camisola amarela que pertencia ao seu companheiro Fabio Jakobsen, vencedor da etapa ao sprint, em Lagos. O holandês ficou com a camisola vermelha dos pontos, Evenepoel apoderou-se de todas as outras, isto é, classificação da montanha e, naturalmente, da juventude.

O Malhão, no sábado, será mais um teste importante. É uma subida mais curta e mais explosiva, mas com o contra-relógio a concluir esta edição da Volta ao Algarve, Evenepoel poderá obrigar os seus adversários a não se guardarem para a etapa final. O belga é forte no contra-relógio, vestindo inclusivamente a camisola de campeão europeu.

Mas uma palavra para João Almeida. O jovem português já tinha trabalhado muito bem para Jakobsen no primeiro dia e na Fóia repetiu a exibição, sendo um aliado essencial para Evenepoel. Terminou na 13ª posição a 17 segundos, o que mantém em aberto de também ele poder alcançar uma classificação de relevo no Algarve.

3ª etapa: Faro-Tavira (201,9 quilómetros)


Depois de 183,9 quilómetros da primeira etapa de montanha da corrida - Sagres marcou o início da tirada que passou por terras alentejanas - chega o dia mais longa na bicicleta para o pelotão. Tavira não só tem tradição por ter uma equipa com 41 anos de existência - a agora Atum General-Tavira-Maria Nova Hotel -, como é o local de um sprint também tradicional. E ali já ganharam André Greipel, Marcel Kittel e nos dois últimos anos Dylan Groenewegen. A lista também inclui, por exemplo, Tony Martin e Alberto Contador, mas em 2013 e 2009, respectivamente, Tavira foi palco de um contra-relógio. Por curiosidade, o último português a ali vencer foi Cândido Barbosa, com a equipa da Banesto.

A etapa tem duas terceiras categorias em Portela da Corcha e Cachopo, mas será uma surpresa que o final não se dispute ao sprint. Jakobsen vai tentar manter o pleno da Deceuninck-QuickStep no Algarve, enquanto Elia Viviani (Cofidis) e Alexander Kristoff (UAE Team Emirates) procuram a primeira vitória de 2020.

Classificação via FirstCycling, com destaque para três portugueses no top dez: Rui Costa, Frederico Figueiredo (Atum General-Tavira-Maria Nova Hotel) e Amaro Antunes (W52-FC Porto).




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