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25 de novembro de 2019

Versão avassaladora da Astana desaparece nas grandes voltas

(Fotografia: Facebook Astana Pro Team)
Durante a primeira fase da temporada foi uma disputa entre Astana e Deceuninck-QuickStep. Quando uma ganhava, a outra não demorava a responder. A equipa cazaque dominava nas provas por etapas, entre triunfos em tiradas e gerais. A belga foi implacável nas clássicas, mas também foi ganhando muitas etapas. Porém, quando chegou o grande momento de mostrar que de facto é uma equipa forte para as grandes voltas, a Astana ficou mais uma vez muito aquém. Miguel Ángel López não conseguiu disputar o Giro. Na Vuelta ainda foi líder por três vezes, mas acabou fora do pódio. Já Jakob Fuglsang continua na difícil relação com a Volta a França. Dos irmãos Izagirre esperava-se mais, principalmente de Ion, mesmo estando em segundo plano para o colombiano e dinamarquês.

Das 37 vitórias em 2019, 30 foram alcançadas até ao final de Junho. Foi uma primeira metade de temporada avassaladora, mas ainda assim com uma Volta a Itália em que a Astana não ficou plenamente satisfeita. Pello Bilbao (duas) e Dario Cataldo conquistaram vitórias em etapas, mas a Astana quer regressar ao topo do pódio de uma grande volta. López não demorou a começar a ver a possibilidade de liderança escapar e quando tentou lutar por uma posição pelo menos de top cinco ou mesmo o pódio, um espectador provocou uma queda ao ciclista, que respondeu com uma chapada, num dos momentos mais insólitos do ano.

A López aconteceu um pouco de tudo de mau e o pouco de bom que se viu, não chega para tentar ganhar um Giro - venceu a juventude, mas nesta fase não chega - ou uma Vuelta. Em Espanha a irregularidade das exibições custaram-lhe o pódio. Mas são mais dois top dez nas três semanas e a Astana não adiar mais: López vai atacar o Tour em 2020.

Jakob Fuglsang parecia que aos 34 anos se tinha reinventado mais uma vez e seria desta que ajustaria contas com o Tour. Sempre que foi como líder, a tendência foi para correr mal. Chegou à corrida depois de meses fenomenais. Já tem o seu o monumento, numa semana das Ardenas sempre em crescendo: terceiro na Amstel Gold Race, segundo na Flèche Wallonne e depois primeiro na Liège-Bastogne-Liège. Antes já tinha sido segundo na Strade Bianche (foi uma disputa particular nas clássicas com Julian Alaphilippe, da Deceuninck-QuickStep), terceiro no Tirreno Adriatico e ainda uma vitória na Ruta del Sol, em Fevereiro. E houve mais excelentes resultados.
Ranking: 5º (11474,5 pontos) 
Vitórias: 37 (incluindo a geral da Ruta del Sol, Volta à Catalunha, Volta ao País Basco, Critérium du Dauphiné, três etapas no Giro e duas na Vuelta) 
Ciclista com mais triunfos: Alexey Lutsenko (10)
No Tour acabou por abandonar devido a problemas físicos devido a uma queda. Mas Fuglsang mostrou como mentalmente estava forte neste 2019 e foi à Vuelta conquistar uma etapa. Para o ano deverá trocar de calendário com López e vai pela segunda vez ao Giro, na esperança que talvez seja mesmo azarado.

Mas esta equipa não se resume a López e Fuglsang. Bilbao e Luis León Sánchez são sempre garantia de boas exibições e vitórias, mas o primeiro está de saída para a Bahrain-Merida, uma perda grande para o bloco de apoio a López. Contudo, uma da principais figuras da Astana é um homem da casa: o campeão cazaque Alexei Lutsenko.

Aos 27 anos é um ciclista muito à imagem do director da equipa, Alexander Vinokourov. Extremamente combativo, capaz de se mostrar em corridas por etapas (venceu a Volta a Omã e Artic Race, foi sétimo no Critérium du Dauphiné e quarto na Alemanha) e sempre perigoso nas clássicas, Lutsenko somou dez vitórias. Este corredor já tem um papel de total liberdade, pois tornou-se numa garantia de sucesso.

Do lado oposto de performance esteve Ion Izagirre, cuja troca da Bahrain-Merida para a Astana acabou por significar perda de estatuto. Não foi fácil para o espanhol assimilar que nem na Vuelta seria o número um, sendo que o grande momento chegou na Volta ao País Basco e já tinha ganho a Volta à Comunidade Valenciana. Ion, tal como o irmão Gorka, vão querer mais destaque em 2020, mas não será fácil.

Mesmo com os bons ciclistas que tem, a Astana necessita de fortalecer a sua aposta nas grandes voltas, pois começa a tornar-se frustrante ser tão ganhadora antes de chegar ao Giro e depois falhar nas três semanas (Tour e Vuelta incluídos). O basco Óscar Rodríguez (Euskadi-Murias e vencedor de uma etapa na Vuelta em 2018) e o russo Aleksander Vlasov (Gazprom-RusVelo) chegarão para este tipo de corridas, mas não será fácil substituir Bilbao e Dario Cataldo (está a caminho da Movistar).

Vinokourov pode querer ganhar e muito uma grande volta, mas tal não significa que não vai querer continuar a querer vencer tudo o que puder, pelo que foram contratados Alex Aranburu (um dos mais combativos na última Vuelta ao serviço da Caja Rural) e Davide Martinelli (Deceuninck-QuickStep) para serem reforços no sprint, tal como Fabio Fellinne (Trek-Segafredo), que também irá ser aposta nas clássicas.

Independentemente de não conseguir conquistar uma grande volta, há algo que é inegável nesta Astana: é uma equipa completamente feita à imagem do seu director. Dá espectáculo e quer ganhar seja em que corrida for.


13 de setembro de 2019

Não vale tudo para ganhar

(Fotografia: © Sarah Meyssonnier/La Vuelta)
Não é uma atitude inédita, não há nada nos regulamentos que a proíba, mas o fair play não é uma treta, mesmo quando uma das equipas mais importantes do pelotão internacional, que tem nas suas fileiras o campeão do mundo, resolve quebrar a mais básica das regras de respeito no ciclismo. Atacar a corrida quando o líder tinha ficado envolvido numa queda foi uma atitude de baixo nível para a formação espanhola, com repercussões que podem ir muito além das críticas de que está a ser alvo de ciclistas e até antigos corredores. Ninguém vai esquecer tão cedo o que a Movistar fez.

A queda deu-se aos 65 quilómetros. Foi grave ao ponto do médico da corrida pedir a presença da ambulância, com vários ciclistas no chão. Tony Martin, companheiro de Primoz Roglic na Jumbo-Visma abandonou com um ferimento no olho e Marco Marcato (UAE Team Emirates) também não retomou a prova. Houve mais ciclistas afectados que demoraram a conseguir regressar à corrida. O líder, Primoz Roglic, não sofreu qualquer problema físico, mas teve de trocar de bicicleta. Miguel Ángel López (Astana), quarto na geral, ficou com mais uns arranhões. Os ciclistas da Jumbo-Visma e da Astana ficaram quase todos envolvidos na queda. Quando recomeçaram a pedalar foram surpreendidos com a decisão da Movistar em atacar.

A regra de respeito, vamos chamar assim, tem normalmente a excepção se a corrida já estiver lançada. Ou seja, se a Movistar já estivesse ao ataque quando se deu a queda, a reacção seria um pouco diferente, ainda que provavelmente nunca pacífica. Porém, não foi isso que aconteceu. A Movistar acelerou depois da queda. Marc Soler, José Joaquín Rojas e Nelson Oliveira receberam ordens para aumentar o ritmo, levando com eles Alejandro Valverde, o campeão do mundo e segundo na Vuelta.

Atitude feia, de falta de fair play e que apenas passou a imagem de uma equipa que ao não conseguir derrotar Roglic e a Jumbo-Visma na luta de igual para igual, tentou explorar o azar do líder da Volta a Espanha. Muitas eram as cabeças a abanar de ciclistas de outras equipas em sinal de repreensão à postura Movistar. No final houve críticas, mas nenhuma como a de López: "Os [ciclistas] da Movistar são sempre os mesmos estúpidos que fazem estas coisas. São sempre os mesmos tontos. [...] Estas acções estúpidas são o que a equipa do campeão do mundo faz. É com isso que estamos a lidar. Que campeão do mundo temos!" O colombiano escreveria mais tarde no Twitter um pedido de desculpas pelas palavras utilizadas, explicando que foi no calor do momento.

O colombiano da Astana não escondeu em nada o que sentia perante a acção da Movistar e de Valverde. O espanhol é uma voz de liderança no pelotão, mas não foi o exemplo que se esperaria numa situação como esta e este tipo de atitudes não são esquecidas, com a Movistar arriscar a ficar isolada não só nesta Vuelta, mas noutras corridas também. No final das etapas, Valverde é dos ciclistas que fala praticamente sempre aos jornalistas. Desta feita, rapidamente se afastou recusando fazer qualquer comentário.

A equipa emitiu entretanto um comunicado a pedir desculpa, repetindo o que o seu director desportivo José Luis Arrieta já tinha dito, ou seja, que o ataque já estava programado, para aproveitar o vento. Lê-se que a Movistar nunca quis tirar partido da queda dos rivais e a equipa pede ainda para que haja "um critério único, tanto por parte das equipas, como do regulamento da corrida, sobre como actuar em situações como esta".

As desculpas de pouco servirão, mas o comunicado refere a outra questão em causa nesta 19ª etapa. Os comissários da UCI, perante o ataque da Movistar, decidiram permitir que os ciclistas atrasados pudessem aproveitar os carros para chegar ao grupo da equipa espanhola. Arrieta ficou furioso e foi quando deu ordem aos seus ciclistas para parar o ataque. Já tinham sido percorridos 15 quilómetros. A decisão dos comissários surpreendeu, pois no regulamento nada proíbe uma equipa de atacar só porque o líder sofreu uma queda ou outro problema. Pode ter sido uma decisão feita na perspectiva de manter a verdade desportiva, mas fica aberto um precedente para situações futuras.

Rémi Cavagna, mais um jovem a triunfar na Vuelta

(Fotografia: © Sarah Meyssonnier/La Vuelta)
Como se esperava, a Volta a Espanha está a ser marcada pelas boas prestações de ciclistas com menos de 25 anos. Na etapa entre Ávila e Toledo (165,2 quilómetros), polémicas à parte, Rémi Cavagna estreou-se a ganhar numa grande volta ao estilo do veterano companheiro de equipa Philippe Gilbert. O francês, de 24 anos, deixou o grupo que estava em fuga com mais de 20 quilómetros ainda por cumprir.

Com tanta confusão no pelotão, a perseguição à frente da corrida começou mais tarde. Cavagna não esteve longe de ver a vitória escapar-lhe quase sobre o risco de meta, mas aguentou na subida em empedrado em Toledo. Pela segunda vez, Sam Bennett viu um homem da Deceuninck-QuickStep ficar à sua frente após um ataque, desta feita mais distante, já que Gilbert precisou de "apenas" uns metros para ganhar a sua segunda etapa há uns dias, frente ao irlandês da Bora-Hansgrohe. E já são quatro etapas da Vuelta para a equipa belga.

Na geral acabou por ficar tudo na mesma. A vitória e o restante pódio na Vuelta serão decididos este sábado com Roglic a ter mais 2:50 minutos sobre Valverde, 3:31 sobre Nairo Quintana (Movistar), 4:17 sobre Miguel Ángel López e 4:49 sobre Tadej Pogacar (UAE Team Emirates).

Classificações completas, via ProCyclingStats.

20ª etapa: Arenas de San Pedro - Plataforma de Gredos (190,4 quilómetros)


Seis contagens de montanha e com o vento a poder ter um papel importante para dificultar ainda mais a missão de Roglic, isto partindo do princípio que, sendo a última oportunidade para definir a geral, vão haver ataques. A ausência de Tony Martin será um rude golpe para a Jumbo-Visma no controlo da etapa, não esquecendo que perdeu no início da Vuelta Steven Kruijswijk.

Os ciclistas vão terminar as subidas praticamente sempre acima dos mil metros de altitude e a primeira categoria a enfrentar pode não ter pendentes muito difíceis - a média é de 4,4% -, mas tem 18,4 quilómetros. Depois o pelotão descerá um pouco, antes de voltar logo a subir mais nove quilómetros com dificuldade idêntica. A última primeira categoria da Vuelta será novamente extensa: Puerto de Peña Negra tem 14,2 quilómetros, a 5,9% de pendente média. E para terminar, a 1750 metros de altitude, estará a Plataforma de Gredos, uma terceira categoria com 9,4 quilómetros a 3,8% de média.

Com tanto desgaste na etapa e de toda uma Vuelta tão montanhosa, não serão uns quilómetros finais fáceis para ninguém.

»»Da vitória no Alentejo à conquista de Espanha««

»»A etapa de loucos que recolocou Quintana na luta pela geral««

12 de setembro de 2019

Da vitória no Alentejo à conquista de Espanha

(Fotografia: © La Vuelta)
Sergio Higuita chegou ao World Tour em Maio e não perdeu tempo para deixar a sua marca. Era esse o seu objectivo, pois o pequeno colombiano é grande em ambição e ainda maior na dedicação a trabalhar para alcançar o topo. Cerca de um mês antes de disputar a Volta a Califórnia com Tadej Pogacar, Higuita esteve na Volta ao Alentejo, tendo ganho na etapa que terminou em Portalegre. Meio ano depois atingiu o ponto mais alto da sua curta carreira. Até agora, claro, pois a vitória na 18ª tirada da Vuelta é apenas o início de um caminho que muito promete para este jovem colombiano.

Higuita é mais um dos ciclistas da nova geração que está a afirmar-se muito rapidamente ao mais alto nível. Foi um dos atletas que conseguiu na Manzana Postobón mostrar o seu talento, convencendo os responsáveis da EF Education First. No entanto, a equipa americana preferiu colocar o ciclista na Fundação Euskadi na primeira parte do ano, de forma a permitir uma maior adaptação à realidade europeia. Numa entrevista ao Volta ao Ciclismo, Higuita afirmava que estava a ser uma uma experiência positiva, principalmente para se adaptar ao Inverno na Europa, já que pela Manzana Postobón tinha realizado algumas corridas no Velho Continente.

A aposta da EF Education First em colocá-lo na formação espanhola foi acertada. Higuita evoluiu o suficiente para entrar pela porta grande no World Tour. Higuita sabia que a sua estreia seria na Volta à Califórnia. Logo então ficou bem clara a ambição do jovem colombiano, que queria apresentar-se forte na nova equipa. Foi segundo, a 16 segundos de Pogacar (UAE Team Emirates). Estava feita a apresentação no World Tour. Foi quarto na Volta à Polónia e chegou à Vuelta com direito a receber muita atenção, numa equipa com Rigoberto Uran e Daniel Martínez, dois compatriotas, um já veterano e outro também visto como grande promessa.

Aos 22 anos, Higuita enfrentou a Vuelta como enfrentou a sua chegada ao World Tour. Sem medo, com vontade de mostrar-se, com ainda mais vontade de vencer. A sua impetuosidade já lhe criou alguns dissabores, pois por vezes desgasta-se desnecessariamente. Porém, a Vuelta também está para aprender. É por isso que está com liberdade e sem responsabilidade. Mas também é verdade que a mesma impetuosidade teve um papel importante na sua vitória de etapa esta quinta-feira, em Becerril de la Sierra.

O jovem colombiano esteve ao ataque praticamente desde o primeiro quilómetro. Não teve problema em trabalhar para tentar manter a fuga, no que poderia parecer que estava novamente a desperdiçar forças. Mas desta feita encontrou as que precisava para aproveitar a vantagem que ganhou na descida antes da última subida do dia. Como a etapa não terminava em alto, ainda teve quase 30 quilómetros em plano ou em descida para manter à distância (15 segundos na meta) o quarteto de perseguidores: Primoz Roglic, Alejandro Valverde, Miguel Ángel López e Rafal Majka.

Foram 178,2 quilómetros que Higuita não esquecerá, mesmo que pela frente lhe esperem grandes conquistas. E a EF Education First também se irá lembrar como o jovem que chegou a meio da época garantiu a única vitória de etapa numa grande volta em 2019 para a equipa. A aposta na Vuelta foi forte, mas a queda na sexta etapa deixou Uran no hospital (está a recuperar de graves lesões) e também Hugh Carthy abandonou. Tejay van Garderen sofreria outra queda que o levaria a deixar a corrida no dia seguinte. Higuita também caiu com Uran e Carthy, mas aí está ele, a transformar a sua enorme ambição em vitórias.

Já se pode mostrar optimismo

(Fotografia: © Sarah Meyssonnier/La Vuelta)
Foi Primoz Roglic quem admitiu que pode mostrar algum optimismo, mas acrescenta de imediato que é necessário manter a concentração. A louca etapa de quarta-feira deixou marcas em todos e, sem surpresa, principalmente em Nairo Quintana. Depois de recuperar mais de cinco minutos, o colombiano perdeu um. Ainda está no pódio, mas foi novamente ultrapassado pelo companheiro da Movistar, Alejandro Valverde. Porém, mais uma vez, Quintana falhou onde deveria ser mais forte: na montanha.

Foi Miguel Ángel López quem tentou assustar Roglic. A Astana jogou as cartas na perfeição, mas o esloveno da Jumbo-Visma não se assusta facilmente nesta Volta a Espanha, não revela qualquer debilidade, apenas mostra a capacidade de manter a calma quando é atacado e, ao seu ritmo, não deixa os rivais escapar. Foi assim com López. O colombiano chegou a ganhar uma vantagem que nunca foi muito além dos 20 segundos, mas Roglic manteve-se com Valverde e acabaria por apanhar López.

Faltam apenas dois dias para a Movistar e a Astana encontrarem forma de quebrar Roglic. A tirada desta sexta-feira começa com uma terceira categoria, tem algum sobe e desce, mas sem subidas muitos complicadas ou categorizadas. O vento poderá marcar presença, pelo que a Jumbo-Visma terá de estar atenta para não deixar Roglic sozinho, como aconteceu na quarta-feira, caso alguma equipa tente partir o pelotão. Com as forças a escassearem, também é possível que se guarde os últimos ataques para sábado, para as derradeiras montanhas.

Valverde está a 2:50 minutos de Roglic, Quintana a 3:31 e López a 4:17. Trabalhou tanto na 18ª etapa, mas Roglic até foi segundo e bonificou seis segundos. Para o colombiano o esforço valeu a pena para recuperar a liderança da juventude. Ultrapassou Pogacar, que ficou agora a 32 segundos de López.


Classificações completas, via ProCyclingStats.

19ª etapa: Ávila - Toledo (165,2 quilómetros)


Tem tudo para ser uma etapa para os sprinters, mas atenção ao vento e ao quilómetro final. Será em subida e em empedrado, pelo que trará uma dificuldade extra para a preparação do sprint, caso não seja uma fuga a triunfar, como tem sido tão habitual na Vuelta.




»»A etapa de loucos que recolocou Quintana na luta pela geral««

»»Dez anos de camisola vermelha na Vuelta««

9 de setembro de 2019

Roglic vai aproveitando todos os rivais para consolidar a liderança

(Fotografia: © Sarah Meyssonnier/La Vuelta)
Por um longo momento parecia que tinham desistido. Parecia que tinham aceite a superioridade de Primoz Roglic e que a Vuelta estava entregue. Tudo se pensa quando uma etapa com tanto potencial para o espectáculo e para mexer na luta pela camisola vermelha, acaba por ser das mais aborrecidas de montanha, não só da corrida espanhola, mas das três grandes voltas de 2019. Os ataques ficaram guardados bem para o fim. Não com a meta a vista, mas quase. Espectáculo não houve, tivemos direito apenas a uns minutos em que Roglic cedeu ligeiramente após o ataque de Miguel Ángel López, ganhando depois fôlego para mais uma demonstração que será preciso os rivais fazerem muito (mas mesmo muito) mais para o baterem.

Desta 16ª etapa ficará a vitória que Jakob Fuglsang há tanto tempo perseguia. O dinamarquês está a ter o melhor ano da sua carreira. Depois de conquistar o seu primeiro monumento na Liège-Bastogne-Liège, numa campanha das Ardenas simplesmente fenomenal, Fuglsang conquistou a primeira vitória numa grande volta. Cortou a meta isolado no Alto de la Cubilla e consegue assim atenuar a desilusão que foi a Volta a França, corrida que abandonou após queda. E há que não esquecer que venceu o Critérium du Dauphiné e a Ruta del Sol, fez pódio na Amstel Gold Race, Flèche Wallonne, Strade Bianche e no Tirreno-Adriatico.

(Fotografia: © La Vuelta)
Aos 34 anos, Fuglsang não só mostrou estar de regresso à melhor forma, como vive uma época marcante, que ainda deverá passar pelos Mundiais de Yorkshire.

Tal como aconteceu com Sepp Kuss (Jumbo-Visma) no sábado, Fuglsang foi lançado na frente da corrida com Luis León Sánchez a pensar numa possível ajuda a López. Porém, a Astana acabou por optar por apostar na etapa com o dinamarquês. A conquista da geral apresenta-se muito difícil. López não está tão forte como precisaria de estar nesta fase e Roglic, o líder da Vuelta, está fortíssimo.

Em três etapas de montanha, Roglic "colou-se" a rivais para ganhar vantagem a outros. Começou por aliar-se a Pogacar a deixou Alejandre Valverde, Nairo Quintana e López, para trás. No sábado foi com Valverde e aumentou o fosso para o colombiano e afastou o compatriota da UAE Team Emirates. Neste domingo, ainda viu López e Pogacar afastarem-se um pouco, mas quando resolveu que queria juntar-se à dupla, rapidamente lá chegou e deixou Valverde, o segundo classificado, para trás. Ganhou 23 segundos e tem agora 2:48 minutos sobre o espanhol da Movistar, com Pogacar a ser terceiro a 3:42 e López quarto, a 3:59. Quintana (Movistar) está em queda livre. Perdeu mais de 2:30 e já são 7:43 para Roglic. Até foi ultrapassado por Rafal Majka (Bora-Hansgrohe) por três segundos.

Foi fraqueza ou táctica?

Quando Roglic não seguiu na roda de López e Pogacar - ainda tentou, mas não forçou em demasia o seu andamento - a vontade de se querer ver alguma acção ainda fez pensar que talvez fosse o momento em que a Vuelta deixaria de parecer que está praticamente resolvida. O esloveno é visto a olhar para trás, onde estava Valverde e chegou a deixar-se apanhar pelo espanhol. Pouco depois arrancou e foi o ciclista do costume nesta Vuelta: imbatível. Roglic explicou que tentou perceber como estava Valverde e só quando teve a certeza que o espanhol não estava bem é que foi atrás de López e Pogacar, consolidando assim a sua liderança, quando ficam a faltar cinco dias para o final da Vuelta, com dois a terem ainda muita montanha para ultrapassar.

Para López foi mais um dia frustrante. Desta feita atacou, ainda que foi muito tarde para fazer grandes diferenças, mas fica claro que as forças já não são muitas. Nem do colombiano, nem de ninguém. López não se aproximou de Roglic na geral, nem de Pogacar, com quem luta pelo pódio e pela liderança na juventude. 17 segundos separam os dois ciclistas.

Ruben Guerreiro, outra vez

Na etapa de Pravia  a  Alto de La Cubilla (144,4 quilómetros) é obrigatório falar mais uma vez do português da Katusha-Alpecin. Na longa subida final - quase 20 quilómetros -, a última de categoria especial da Vuelta, Ruben esteve quase sempre com os principais homens da geral. Perdeu menos de um minuto para Roglic e subiu mais um lugar na geral, sendo 15º, a 17:26 minutos. Nunca é de mais recordar dois pormenores: é a estreia numa grande volta e ainda não tem contrato para 2020...

Classificações completas, via ProCyclingStats.

Aranda de Duero - Guadalajara (219,6 quilómetros)



Esta terça-feira descansa-se! E quarta é um dia estranho na Vuelta. Será a etapa mais longa, 219,6 quilómetros, sem contagens de montanha! Haverá a subida ao Alto de Carrascosa, que levará o pelotão aos 1380 metros de altitude, mas não haverá pontos em jogo, numa altura em que a liderança da montanha mudou de dono. Ángel Madrazo perdeu a camisola para o francês da AG2R, Geoffrey Bouchard. O ciclista da Burgos-BH era o líder desde a segunda etapa, a primeira em linha.

Quanto à tirada de quarta-feira, na grande volta das fugas, é mais uma oportunidade para se apostar forte em escapar ao pelotão, mas as equipas dos sprinters poderão ter outras ideias. Quinta-feira volta tudo à normalidade. Haverá mais uma etapa bem complicada de montanha, na aproximação ao grande final de Madrid.




»»Kuss e Roglic em dia perfeito para a Jumbo-Visma. Mas Ruben Guerreiro é cada vez mais uma figura da Vuelta««

»»Dois dias em que falhar poderá ser o adeus à luta pela Volta a Espanha««

30 de agosto de 2019

Um filme que já se viu

(Fotografia: © La Vuelta)
Este é um filme já visto. Alejandro Valverde tem tendência a ser figura na Volta a Espanha. Começa forte, até ganha etapas, vai espreitando a liderança, mas acaba por ter o momento de quebra que o tira da luta e até do pódio. Talvez seja por isso que, apesar da exibição bem ao estilo do espanhol e de ter batido aqueles que são vistos como os dois principais candidatos, Miguel Ángel López e Primoz Roglic, a desconfiança mantém-se.

Nos 4,1 quilómetros de Mas de la Costa, com pendentes quase sempre acima dos 10% e com fases acima dos 20%, Valverde quase cedeu num dos ataques de Nairo Quintana, o seu companheiro da Movistar, ou provavelmente mais um rival. Porém, aguentou-se e nos metros finais, a 17%, ainda teve de preocupar-se um pouco com Roglic, mas não muito. Neste tipo de subidas, curtas e bem difíceis, nunca é bom para um ciclista ter Valverde a seu lado no momento de sprintar pela vitória.

Valverde começar a Vuelta forte não é novidade nenhuma. Esclarecido que está que é o espanhol o líder da equipa, pelo menos segundo Nairo Quintana, então fica afastado o suposto plano para o espanhol de perseguir etapas. Já tem uma e vai atacar a geral. Olhando para as edições mais recentes - não esquecendo que a Vuelta foi a única grande volta que Valverde ganhou, em 2009 - o ciclista andou a rondar a camisola vermelha, ainda que não a vista desde 2014, até que tem um ou dois dias em que deita tudo a perder (de recordar que falhou a edição de 2017 devido a lesão)

Talvez por isso, apesar da vitória de Valverde na sétima etapa (Onda - Mas de la Costa, 183,2 quilómetros), seja Primoz Roglic um dos focos de maior atenção. O líder da Jumbo-Visma foi o único a aguentar a pedalada final do espanhol, ainda que não tenha tido de capacidade de contrariar o rival no sprint até à meta. Mas ganhou seis segundos a Miguel Ángel López, mais seis de bonificação e na geral está a... seis do colombiano, que é novamente o líder da Vuelta.

Na terça-feira há um contra-relógio de 36,2 quilómetros que tem todas as características para que Roglic ganhe tempo à concorrência, ainda que no domingo haverá uma etapa muito complicada para os pretendentes à vitória na Volta a Espanha e pode ser muito importante para a classificação geral. López, Valverde e Quintana sabem que têm de ganhar tempo na montanha aos esloveno.

Nem Roglic, nem López têm o currículo de Valverde, mas são neste momento dois dos ciclistas em melhor forma e com equipas capazes de fazer a diferença. A Astana não tem andado muito bem nesta primeira semana de Vuelta, mas ainda há muita corrida pela frente.

Valverde ficou a 16 segundos de López, Quintana a 27. Rafal Majka (Bora-Hansgrohe) já está a 1:58 minutos e todos os outros estão a mais de 2:30. Uma etapa como a de domingo pode até mudar o panorama, mas o quarteto que está na frente dá indicações de estar demasiado forte para a concorrência. Eis o que espera aos ciclistas: duas primeiras categorias (a última a finalizar o dia), duas de segunda e uma de categoria especial em apenas 94,4 quilómetros, entre Andorra la Vella e Cortals d'Encamp.

Antes, este sábado, será o momento para preparar precisamente a difícil etapa de domingo, com uma tirada que até pode ser para os sprinters, caso passem a segunda categoria que termina a menos de 30 quilómetros da meta. Serão 166,9 quilómetros entre Valls e Igualada.

Será também uma boa oportunidade para Miguel Ángel López conseguir algo inédito para ele nesta Vuelta: aguentar mais do que um dia a camisola vermelha. É a terceira vez que a veste e nas duas anteriores perdeu no dia seguinte, muito porque a equipa não está interessada em ter de controlar a Vuelta desde tão cedo. Contudo, a não ser que uma fuga triunfe e alguém volte a tirar a liderança ao colombiano, a Astana poderá mesmo de ter de se preparar para tomar as rédeas no domingo. Dylan Teuns (Bahrain-Merida) teve o seu momento de glória, mas nem por um top dez irá lutar. Perdeu a vermelha e vai pensar em tentar ganhar uma etapa.

Quanto a Valverde, a ver vamos se encontra um final mais feliz na Vuelta para o filme que se tem repetido nos últimos anos. Para já, não há muita euforia em redor do espanhol.


Classificações completas, via ProCyclingStats.



28 de agosto de 2019

De um incidente caricato ao momento mais esperado de uma carreira

(Fotografia: © Sarah Meyssonnier/La Vuelta)
Miguel Ángel López foi um autêntico Super-Homem em Javalambre. O colombiano fez jus à alcunha e pareceu voar rumo à recuperação da camisola vermelha. Porém, se de López não há dúvidas que ainda muito se há-de falar nesta Vuelta, é justo que o destaque do dia seja para Ángel Madrazo. Há uma frase difícil de esquecer, da autoria de Rui Vinhas. Após ganhar a Volta a Portugal, o ciclista disse que "todos os gregários deveriam viver um momento assim". Madrazo, de 31 anos, certamente concordará. Tem uma carreira a trabalhar para outros e quando encontrou uma equipa que lhe deu liberdade, foi à procura do seu momento. Teve logo um muito bom no segundo dia da Vuelta, quando vestiu a camisola da montanha, o que lhe permitiu subir ao pódio. Mas agora venceu uma etapa numa grande volta, um triunfo muito especial para o ciclista e extremamente importante para a Burgos-BH.

"O triunfo da raiva, sacrifício e perseverança", escreveu a equipa no Twitter. A festa foi efusiva, pois não só a Burgos-BH alcançou uma vitória histórica para o projecto, como Jetse Bol foi segundo. A vontade era tanta que o carro até tentou dar um empurrãozinho! Agora já se pode dizer uma piada, mas a 24 quilómetros do fim da etapa, não houve vontade nenhuma de rir. A dar o apoio a Bol, quem conduzia o carro da Burgos-BH distraiu-se e acabou por tocar em Madrazo que seguia à frente. O espanhol evitou a queda a muito custo e quase que José Herrada (Cofidis) sofria por "tabela". É caso para dizer, que susto!


Um incidente caricato que poderia ter custado o momento que dá nova vida a uma Burgos-BH a precisar urgentemente de uma boa notícia. Estamos a falar de uma equipa que começou o ano a auto-suspender-se devido aos casos de doping, ainda antes da UCI a sancionar. Grande parte da estrutura foi alterada, desde ciclistas a staff, tudo para apostar num recomeço que limpasse a má imagem deixada, um ano depois de ter subido ao escalão Profissional Continental.

Este é um projecto com mais de dez anos de existência. A ambição de estar na Vuelta fez com que os seus responsáveis apostassem na mudança de nível. Mas não tem sido fácil e o futuro não irá ficar mais facilitado só porque ganhou uma etapa na Volta a Espanha. Se a UCI manter o novo regulamento quanto à atribuição de convites para as grandes voltas, as organizações passaram a ter apenas dois em vez de quatro. A Burgos-BH sabe que dificilmente receberá um em 2020 se não subir o nível das exibições e resultados.

Até ao triunfo em Javalambre, só por duas vezes a equipa havia vencido em 2019. Primeiro no Alto de Montejunto, no Troféu Joaquim Agostinho, por intermédio do português José Neves. Depois foi à China ganhar uma etapa na Volta ao Lago Qinghai com Matthew Gibson. Curiosamente, nenhum dos ciclistas foi chamado para a Vuelta.


Ficou rapidamente bem claro como a Burgos-BH ia dar o tudo por tudo para dar nas vistas na Vuelta. Madrazo tinha o objectivo de vestir a camisola de líder da montanha. Já a tem e agora quer levá-la até Madrid. Difícil, mas há que tentar. Depois queria ganhar uma etapa. Já está. Vuelta feita para Burgos-BH? De certa forma sim, mas quanto mais conseguir melhor, pois em causa pode estar um projecto que sem a presença na Volta a Espanha, poderá deixar de fazer sentido existir como Profissional Continental. Madrazo - que chegou a representar a Movistar durante cinco épocas e a Caja Rural em três, antes das duas na francesa Delko Marseille Provence KTM - irá tentar continuar a ser figura, mas quem sabe ainda se veja também os portugueses Ricardo Vilela e Nuno Bico em destaque.

López vs Roglic

Apenas com cinco etapas cumpridas e esta Vuelta já teve a capacidade para deixar exposto quem está em melhor condições para lutar pela vitória. Contudo, tendo em conta a muita montanha que ainda há pela frente, o que é verdade hoje, poderá não ser bem assim amanhã...

Após a primeira chegada em alto, Miguel Ángel López foi o Super-Homem nos 11,1 quilómetros da estreia da subida de Javalambre na Vuelta. Local muito interessante e que não surpreenderá se regressar em percursos futuros. O colombiano comprovou o que já tinha demonstrado e mesmo sem ter uma Astana a ajudá-lo, sozinho deu conta de tudo e todos. Só não apanhou o trio da frente, que chegou a ter mais de dez minutos de vantagem.

Primoz Roglic (Jumbo-Visma) não é tanto de "explosões" nas subidas, mas ao seu ritmo não deixou escapar Alejandro Valverde e com 14 segundos a separá-lo de López, tem o colombiano debaixo de olho. Poderá revelar-se uma luta muito interessante entre o esloveno e o colombiano, uma que não se viu no Giro, mas está a começar a aquecer na Vuelta.

E Valverde? Lá vai dizendo que Nairo Quintana é que é o líder, mas continua a atacar por ele, sem se preocupar com o colombiano. Quintana cedeu um pouco, mas está a 23 segundos. Valverde ficou a 28. Na Movistar vive-se mais do mesmo e não se aprendeu a lição da Volta a Itália: foi difícil, mas a equipa lá se uniu em redor de Richard Carapaz e venceu a corrida.

Rigoberto Uran, Johan Esteban Chaves, Fabio Aru, Pierre Latour, Rafal Majka, Sergio Higuita e a lista continua, todos quebraram. Aconteceu o mesmo com Nicolas Roche. Perdeu a camisola da liderança para López, mas o ciclista da Sunweb realizou uma prestação que o coloca como número um da Sunweb, pois Wilco Kelderman também entra na tal lista. Roche ficou a 57 segundos de López, enquanto o holandês já tem 1:50 minutos para recuperar.


Há um destaque português. Este é um Ruben Guerreiro (Katusha-Alpecin) que se espera ver mais vezes e ainda com margem para melhorar. Subiu 18 posições na geral, é 18º, a 3:18 minutos de López, depois de um excelente 15º lugar em Javalambre.

Classificações completas, via ProCyclingStats.

6ª etapa: Mora de Rubielos - Ares del Maestrat (198,9 quilómetros)



Será um dia mais longo na bicicleta e, para não variar, com muito sobe e desce. Tendo em conta que no sábado a etapa apresenta-se mais difícil, é possível que na geral não se tente fazer grandes diferenças nesta sexta-feira. Será mais um bom dia para uma fuga triunfar. A subida final é uma terceira categoria com 7,8 quilómetros, com uma pendente média de 5%.




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27 de agosto de 2019

Uma nova chegada em alto para ajudar a definir os candidatos

(Fotografia: © Sarah Meyssonnier/La Vuelta)
O pelotão aproveitou bem uma etapa que, apesar de não ser completamente plana, tinha um terreno mais simpático comparativamente com a maioria dos dias. Ainda houve uma tentativa de abanico por parte da EF Education First, mas ninguém importante ficou para trás (Wout Poels, da Ineos, já tinha saído da lista de candidatos logo na segunda tirada). Ass duas principais notícias do dia foram o abandono de Steven Kruijswijk e a vitória de Fabio Jakobsen, na sua estreia numa grande volta. Esta "calma", dentro do possível numa Vuelta, até se compreendeu tendo em conta que a primeira chegada em alto é já esta quarta-feira. É uma subida nova na Volta a Espanha e que ninguém terá vida fácil.

(Imagem: La Vuelta)
Com o contra-relógio por equipas a fazer mais diferenças do que o esperado, muito devido às quedas da Jumbo-Visma e UAE Team Emirates, e com a segunda etapa, de média montanha, também a ter algum impacto na geral, a meta no Alto de Javalambre, onde se situa o observatório astronómico, poderá começar a ajudar a definir de vez quem está em condições de discutir a Vuelta, mesmo que ainda se esteja numa fase tão inicial da prova.

É uma típica etapa desta grande volta, não muito longa - 170,7 quilómetros -, mas muito desgastante. A segunda categoria, logo nos primeiros quilómetros, será seguida de sobe e desce constante até à terceira categoria (ver gráfico em baixo). O pelotão poderá começar a partir muito antes dos 11,1 quilómetros finais, com uma média de 7,8% (imagem do lado direito). Não tem pendentes loucas, mas tem muitos quilómetros acima dos 10% e máxima de 16%.

Nesta fase da temporada as pernas pesam e mesmo os que apresentam uma boa forma e descansaram entre o Giro e Volta a Espanha, não deixam de estar numa fase final de temporada. Também por isso a Vuelta acaba por ser muito mais indefinida quanto a vencedores. Até a Jumbo-Visma, que se apresentou com um bloco fortíssimo, já sofreu uma baixa importante, consequência da referida queda. Steven Kruijswijk, líder a par de Primoz Roglic, abandonou. As dores no joelho não deixavam antever nada de bom quando as maiores dificuldades chegassem, pelo que o holandês jogou pelo seguro.

A quinta etapa também poderá ajudar a perceber precisamente como estão os blocos. A Astana não esteve bem na segunda tirada, enquanto a Movistar trabalhou um pouco, mais para Alejandro Valverde, com Nairo Quintana a surpreender ao fugir para ganhar a tirada. Na formação espanhola nunca se sabe muito bem o que esperar, pois Valverde poderá ir atrás da vitória, com 49 segundos a separá-lo da camisola vermelha de Nicolas Roche. Mas Quintana está a apenas dois segundos, mas já é difícil esconder - ou talvez já nem se tente fazê-lo - que é um homem algo isolado na Movistar.

Mas voltando à Astana, Miguel Ángel López começou bem a Vuelta, liderou, mas se no contra-relógio a equipa foi perfeita, na etapa em linha faltou mais união. Se López comprovar que está bem, Ion Izagirre terá de abdicar do seu objectivo pessoal. No segundo dia tentou atacar e depois quebrou quando o seu líder mais precisou dele. López também gostaria de ver Fuglsang mais próximo de si, mas o Tour pode prejudicar a força do dinamarquês, ainda que não o tenha terminado devido a queda.

Mas há uma equipa que está a gerar muita curiosidade. A EF Education First está a confirmar que o seu trio de colombianos foram a Espanha para lutar pela vitória. Daniel Martínez já perdeu 1:46 minutos, contudo, não é carta fora do baralho. Longe disso. Pode ser muito importante ao lado de Rigoberto Uran, terceiro, a oito segundos de Roche. Uran sofreu uma queda, mas aparentemente sem gravidade e tem outro ciclista que tanto o pode ajudar, como poderá lançar alguma "confusão" entre os adversários. É que Sergio Higuita não está a querer passar despercebido na sua estreia numa grande volta. 22 anos e tanto talento ainda por desenvolver.

Está a 37 segundos de Roche e é um trepador com muito potencial. Se este trio estiver bem, poderá ser o maior rival para a Jumbo-Visma de Roglic e para López e Quintana. Será que a Vuelta vai ser um esloveno entre colombianos?

Na Vuelta há tendência aos ciclistas apresentar-se mais livres de tácticas pré-definidas, o que potencia o espectáculo e uma luta mais acesa pela camisola vermelha. Não vai ser fácil para Roche mantê-la, já que terá de garantir que o líder da Sunweb, Wilco Kelderman, se mantém bem posicionado. Este holandês é sempre uma incógnita, mas foi em Espanha que se viu o seu melhor.

Se Fabio Aru (UAE Team Emirates) e Pierre Latour (AG2R) são dois ciclistas a não perder de vista, pelo que mostraram na segunda etapa, atenção à Bora-Hansgrohe. Discretamente Emanuel Buchmann foi somando resultados regulares no Tour e fechou na quarta posição. O mesmo poderá acontecer agora. Davide Formolo quer despedir-se em grande da equipa (está a caminho da UAE Team Emirates) e Rafal Majka é outro Kelderman. Pode fazer muito, mas tem ficado tantas vezes aquém. Mas foi na Vuelta que fez pódio em 2015. Ambos estão no top dez, a 46 segundos, e esta Bora-Hansgrohe não aposta apenas em Sam Bennett nos sprints. Agora também olha sempre para a geral.


Fabio Jakobsen já vence nas grandes voltas


(Imagem: La Vuelta)
A poucos dias de completar 23 anos, Fabio Jakobsen está a confirmar que é um sprinter de topo. Ou quase a lá chegar. Desde que na época passada venceu a clássica Danilith Nokere Koerse que o jovem holandês não parou de somar boas exibições. A Deceuninck-QuickStep deu-lhe a oportunidade de se estrear numa grande volta nesta Vuelta e logo com a camisola de campeão nacional, que vestiu no final de Junho. Sam Bennett foi demolidor no primeiro sprint, mas Jakobsen foi superior na segunda tentativa.

A preparação da equipa foi perfeita e Max Richeze fez um trabalho fantástico, numa altura em que faz as últimas corridas pela equipa, já que vai juntar-se a Fernando Gaviria na UAE Team Emirates na 2020. Mas o seu profissionalismo é intocável e abriu caminho a Jakobsen, enquanto Bennett errou na trajectória numa rotunda e até ficou perto de uma recuperação total, mas a quarta etapa foi para um holandês. Vencedor em Lagos na Volta ao Algarve é um ciclista que cada vez mais se espera que se junte rapidamente ao lote de luxo de nomes do sprint mundial como Dylan Groenewegen, Gaviria, Peter Sagan, Caleb Ewan... E claro, Elia Viviani, que na próxima época será um rival de Jakobsen, pois está de partida para a Cofidis. Como sempre, o director Patrick Lefevere tem uma nova estrela pronta a assumir protagonismo, quando uma sai da equipa belga.

Classificação completa, via ProCyclingStats.




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24 de agosto de 2019

Início muito acidentado de Vuelta

(Imagem: print screen)
"Só faltam 20 etapas!" Eis uma forma de encarar o bom início de Volta a Espanha de Miguel Ángel López, o primeiro líder da corrida, depois da Astana vencer o contra-relógio colectivo. O colombiano, que tão poucas razões teve para sorrir no Giro, vê os papéis inverteram-se no frente-a-frente com a Jumbo-Visma. A equipa holandesa teve dois arranques de sonho em Itália e no Tour, viveu um pesadelo na Vuelta e ainda falta saber se as consequências da queda podem afectar as ambições para a prova. E como em Espanha tudo de facto pode acontecer, um contra-relógio que não se esperava ser de grandes acontecimentos, teve ainda uma UAE Team Emirates também a cair (salvou-se um ciclista) e o carro da Euskadi-Murias a despistar-se.

O acidente com o veículo da equipa espanhola aconteceu numa curva que o condutor tentou fazer rápido de mais, na tentativa de acompanhar os ciclistas (vídeo em baixo). Os membros do staff que estavam no carro estarão todos bem.


Mas o momento que marcou a primeira etapa da Vuelta aconteceu quando alguém resolveu regar o jardim. Segundo o Cycling Weekly terá sido esta a razão para a estrada ficar de repente molhada, o que provocou a queda dos ciclistas da UAE Team Emirates - dos que ainda seguiam juntos naquela fase, Sergio Henao já tinha ficado para trás, só Valerio Conti não caiu - e de os da Jumbo-Visma: Primoz Roglic, Steven Kruijswijk, Lennard Hofstede e Neilson Powless (imagens da queda no vídeo em baixo).




Um homem que estava no local, a seis quilómetros da meta, explicou ao site que a mangueira terá rebentado e quem estava a regar o jardim não conseguiu fechar a torneira a tempo de evitar que a água escorresse para a estrada. Várias pessoas tentaram de imediato enxugar o alcatrão, numa missão impossível, ainda mais com as equipas a passarem com uma diferença de quatro minutos.

A UAE Team Emirates foi a primeira vítima. Fernando Gaviria esteve muito tempo afastado devido a uma lesão no joelho, depois de ter abandonado o Giro, na sétima etapa. Fez a Volta à Polónia e veio à Vuelta tentar salvar algo desta sua primeira época na equipa. Porém, foi dos que ficou com feridas bem visíveis, tal como Fabio Aru, outro ciclista a apostar forte na corrida espanhola. As primeiras indicações da UAE Team Emirates é que todos vão continuar em prova. Porém, foi uma estreia numa grande volta para esquecer de Tadej Pogacar, vencedor da Volta ao Algarve e à Califórnia.

A Bora-Hansgrohe passou a seguir sem problemas de maior, ao contrário da Jumbo-Visma. Depois de ganhar a primeira etapa no Giro (Primoz Roglic) e no Tour (Mike Teunissen), era a favorita para repetir o feito na Vuelta. No entanto, saiu de Torrevieja com 40 segundos de desvantagem. A UAE Team Emirates perdeu 1:07 minutos, quando estava a nove segundos do melhor tempo no ponto intermédio. Só a Burgos-BH fez pior: 1:22.

E só não houve mais um incidente por alguma sorte e destreza dos ciclistas da Deceuninck-QuickStep. Um dos carros da Jumbo-Visma demorou a arrancar, pois ficou na ajuda a um dos corredores que não conseguir prosseguir rapidamente o seu caminho até à meta. Estava muito em cima da curva e os dois polícias que estavam de moto só tiveram tempo para se colocarem de maneira a que os ciclistas tivessem de se desviar mais cedo. Foi por muito pouco que não houve um choque. A equipa perdeu o contra-relógio por dois segundos e entre água e este momento, disse muito provavelmente adeus à vitória de etapa.

A Movistar foi a última a partir e perdeu 16 segundos para a Astana. Grande contra-relógio da EF Education First, antes do problema da água, que ficou a sete segundos, com a Sunweb a perder cinco. Os ciclistas da Ineos têm 25 segundos para recuperar.

Classificações completas, via ProCyclingStats.

2ª etapa: Benidorm - Calpe (199,6 quilómetros)



E depois de 13,4 quilómetros com muito mais história para contar do que se esperava, a Vuelta começa com o seu habitual perfil: a subir. São duas segundas categorias e uma terceira e muito mais sobe e desce. Há ainda que ter atenção ao vento, que poderá criar problemas na fase inicial da etapa.

Miguel Ángel López tem na Vuelta uma corrida mais ao seu estilo, com menos contra-relógio. Ao ganhar o primeiro resolveu parte do seu handicap, mas ao ganhar tempo a especialistas como Primoz Roglic, a confiança ganhou uma dose extra. Ainda assim, não será surpresa se a Astana até ceder a liderança. É uma Vuelta com muita montanha para ter de controlar desde o primeiro instante, mas a decisão dependerá muito de quem entrar na fuga. E se há grande voltas em que as fugas muito triunfam, é na de Espanha.

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22 de agosto de 2019

A Vuelta da América Latina perde uma das principais figuras

(Fotografia: © Giro d'Italia)
Fica completa uma estranha coincidência que privou as grandes voltas do provável candidato mais favorito. Devido a quedas, o Giro não teve Egan Bernal, o Tour Chris Froome e na Vuelta não se verá Richard Carapaz, o vencedor da Volta a Itália e que fez dele o homem a ter em atenção na corrida que arranca no sábado. E numa Vuelta na qual pode ser feita um pouco mais de história num 2019 marcante para o ciclismo, perder Carapaz é um rude golpe, mas não significa que não possa ser feito o pleno de corredores latinos ganharem as três grandes.

Carapaz tornou-se no primeiro equatoriano a venceu uma grande volta. Seguiu-se Bernal (Ineos) que finalmente concretizou o sueño amarillo colombiano no Tour e quem poderá ser o senhor que se segue na Vuelta? Candidatos não faltam. Carapaz vai assistir de longe devido a uma lesão no ombro, contraída no domingo, numa queda durante uma prova na Holanda. Segundo o jornal As participou a título pessoal. A Movistar chamou o experiente José Joaquín Rojas, substituindo um líder por um homem de trabalho. Nairo Quintana não deverá importar-se.

E entre os candidatos da América Latina, Quintana tem de ser um deles, mesmo que cada vez convença menos. O seu ciclo na Movistar está a chegar ao fim, apesar de ainda não ter confirmado que equipa vai representar em 2020 (muito se fala da Arkéa-Samsic). Venceu a Vuelta em 2016, numa altura em que tudo se esperava deste ciclista, mas que aos 29 anos está a ver a carreira passar sem se afirmar como um dos grandes voltistas da história. Não perdeu qualidade, mas há muito que não se vê aquele Quintana capaz de deixar qualquer um para trás. Uma mudança de ares poderá fazer-lhe bem, mas para já, é na Movistar que vai tentar afastar a desconfiança que se instalou num favoritismo cada vez mais reduzido.

Sem Carapaz, Quintana perde a mais forte concorrência interna, mas ainda tem Alejandro Valverde (diz que vai à procura de etapas, contudo, também há um ano seria o objectivo e depois bem tentou liderar a corrida) e um Marc Soler que não vai querer continuar a adiar um maior protagonismo dentro de uma equipa em remodelação para 2020 e com espaço para ter Soler num papel mais relevante.

Com a exclusão de Carapaz, a América Latina ficou reduzida à Colômbia. O próximo nome na lista de candidatos do país é Miguel Ángel López. Aos 25 anos vai para a sua quarta Vuelta, na qual já foi terceiro em 2018. No Giro teve exibições em que falhou, depois melhorou substancialmente e acabou a ser atirado ao chão por um adepto. López e a Astana apostam muito nesta Vuelta, sendo uma das equipas mais fortes: os irmãos Izagirre, Luís León Sánchez, Omar Fraile, Dario Cataldo, Manuele Boaro e Jakob Fuglsang. A dúvida é se o dinamarquês, que abandonou no Tour devido a queda, vai também ele atrás de um bom resultado na Vuelta. E depois, como irá enfrentar a corrida Ion Izagirre? No início da época disse que seria a sua volta seria em Espanha, após trabalhar para López no Giro.

Johan Esteban Chaves é uma enorme incógnita. Ele próprio o assume, esperando que a sua carreira possa ser revitalizada depois de um 2018 para esquecer devido a uma mononucleose. A vitória na 19ª etapa no Giro foi um momento muito importante para o ciclista, que quer agora disputar novamente uma grande volta que, não há muito tempo, se pensaria que poderia ganhar, mais cedo ou mais tarde. Há um ano a Mitchelton-Scott venceu com Simon Yates, que fica de fora, após estar no Giro e Tour. 2019 é o ano para a equipa australiana saber se consegue ou não recuperar Chaves. Corrida muito importante para o futuro do ciclista.

E depois há o trio maravilha da EF Education First. Rigoberto Uran parte como líder, mas é impossível negar que é Daniel Martínez e Sergio Higuita que mais se quer ver. Martínez falhou o Tour devido a lesão e irá fazer a sua estreia na Vuelta. Tem 23 anos e um potencial tremendo. A equipa americana não o deverá prender ao trabalho de gregário e se estiver em forma, este é um ciclista que irá dar espectáculo. Se Uran conseguir manter-se na frente da corrida, Martínez até poderá procurar mais etapas do que pensar na geral. É um dos jovens colombianos que mais entusiasma além de um ausente Egan Bernal, vencedor do último Tour.

Higuita tem 22 anos e chegou à equipa já com a temporada a decorrer, depois de uma fase de adaptação à Europa na Fundação Euskadi. E passou por Portugal: ganhou uma etapa na Volta ao Alentejo. Na sua primeira corrida pela EF Education First, a Volta a Califórnia, só foi batido por Tadej Pogacar (UAE Team Emirates). Será uma Vuelta para aprender e habituar-se aos grandes palcos. No entanto, cuidado com este jovem. É mais uma prova que na Colômbia os talentos não param de aparecer.

John Darwin Atapuma (Cofidis) pode ter passado ao lado de uma carreira bem melhor. Mas aos 31 anos ainda quer mostrar que pode deixar a sua marca e principalmente quer quebrar o enguiço dos segundos lugares nas etapas. Sergio Henao (UAE Team Emirates) deverá ter de ficar ao lado de Fabio Aru, mas Fernando Gaviria, o colombiano sprinter, vai atrás de etapas para salvar uma temporada em que desiludiu e marcada por uma lesão. Juan Sebastián Molano será o plano B para os sprints e o lançador do compatriota. Sergio Henao estará dedicado ao trabalho na Ineos.

É uma pena Richard Carapaz ficar de fora da Vuelta, mas a senda latina de 2019 tem muitas hipóteses de ficar completa na Vuelta, depois de em 2018 terem sido três ciclistas britânicos a ganharem as grandes voltas: Chris Froome, Geraint Thomas e Simon Yates.

No entanto, a armada colombiana terá concorrência, que será apresentada no texto desta sexta-feira.