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25 de dezembro de 2019

Dez momentos de 2019

É tempo de olhar para trás, antes de nos concentramos definitivamente em 2020. Ou seja, é tempo de recordar alguns dos momentos marcantes da última temporada. Começando lá por fora, foi um 2019 dominado pela afirmação de uma nova geração, que está a tomar de assalto o pelotão internacional e, por isso, não surpreende que parte das escolhas para os 10 momentos do ano pertençam a exibições de ciclistas que são as novas figuras da modalidade. Mas também há espaço para um veterano e, infelizmente, nem todos os momentos foram de felicidade.

O objectivo inicial era escolher cinco momentos, acabou-se com dez e mesmo assim ficaram alguns de fora. Mas aqui ficam as escolhas do Volta ao Ciclismo. A ordem é cronológica.

Philippe Gilbert venceu Roubaix e só falta Sanremo (14 de Abril)
(Fotografia: Facebook Paris-Roubaix)
Em 2017, Gilbert reacendeu o antigo sonho de conquistar os cinco monumentos ao vencer de forma brilhante, numa fuga solitária, a Volta a Flandres. Este ano, Nils Politt (Katusha-Alpecin) tentou dar luta, mas estava destinado que o fantástico ciclista belga vencesse o Paris-Roubaix e ficasse apenas com a Milano-Sanremo por conquistar para fazer o pleno. Um emotivo Gilbert celebrou muito a vitória de Roubaix, dando mais um triunfo a uma Deceuninck-QuickStep que é uma equipa especialistas em ganhar clássicas. Trocar a BMC por esta formação em 2017 foi uma escolha muito acertada de Gilbert. Porém, aos 37 anos e perante uma oferta de três anos de contrato da Lotto Soudal contra um da actual equipa, Gilbert optou por regressar a uma casa onde alcançou as primeiras grandes vitórias na carreira. Até parece certo que tente fechar o ciclo de monumentos onde o começou.

Van der Poel e uma Amstel Gold Race para a eternidade (21 de Abril)
Vão ser imagens que hão-de ser vistas e revistas durante muito tempo. Hão-de fazer parte dos grandes momentos do ciclismo e com razão. O que Mathieu van der Poel fez na Amstel Gold Race só está ao alcance dos melhores dos melhores. Quando chegou à primeira corrida das Ardenas, já trazia vitórias espectaculares alcançadas em poucas semanas e estava a marcar a época das clássicas. Mas queria mais. Parecia que estava tudo preparado para Julian Alaphilippe (Deceuninck-QuickStep) - um dos homens que mais estava a ganhar - e Jakob Fuglsang (Astana) discutirem o triunfo. Tinham 40 segundos de vantagem e três quilómetros para a meta. Van der Poel fez o impensável. Arrancou com tamanha convicção, não se interessando quem se colava na sua roda, apenas olhando para quem tinha de apanhar na frente. Alaphilippe e Fuglsang podem ter exagerado no controlo um ao outro, mas o mérito esteve muito na força e crença de um Van der Poel que deixou todos de mãos na cabeça perante tal demonstração de ciclismo de ataque. Espectacular! Veja ou reveja este grande momento de 2019 no vídeo em baixo.


Queda de Chris Froome (12 de Junho)
O britânico jogava toda uma época na Volta a França e em conquistar a quinta vitória. Porém, no reconhecimento do contra-relógio do Critérium du Dauphiné, Froome sofreu uma aparatosa queda. Sofreu uma fractura no fémur, cotovelo e em algumas costelas, no esterno, osso situado na parte anterior e média do tórax, e na vértebra C7. Foi grave e as consequências assustaram. A época terminou ali e, passado meio ano, a dúvida mantém-se na própria Ineos: irá Froome conseguir recuperar o nível competitivo necessário para ganhar o Tour? O ciclista conseguiu regressar aos treinos mais cedo do que o esperado e já foi ao Japão mostrar-se, em ritmo de exibição, em cerca de três quilómetros, no habitual Critérium de Saitama de final de temporada. Mas a forma de Froome será uma das incógnitas para 2020.

Vitória de Bernal na Volta a França (28 de Julho)
(Fotografia: © ASO/Alex Broadway)
Após um ano de estreia no World Tour de elevadíssimo nível, deveria ser raro quem não pensasse que, mais cedo ou mais tarde, Egan Bernal ia vencer a Volta a França. Foi mais cedo. A queda de Chris Froome abriu caminho à liderança do colombiano, mesmo com Geraint Thomas, o vencedor de 2018, a seu lado. A aposta da Ineos era em Bernal. O plano inicial era o colombiano atacar o Giro, mas uma queda afastou da corrida italiana. No Tour ficou a pequena frustração de ver a mãe natureza obrigar ao final antecipado da etapa que Bernal estava a demonstrar toda a sua qualidade (a 19ª). Foi o dia das impressionantes imagens do deslizamento de terra. Mas Bernal fez o suficiente para comprovar que era o mais forte e subiu merecidamente ao pódio nos Campos Elísios com a camisola amarela. Fica na história como o primeiro colombiano a fazê-lo.

Evenepoel mostrou um pouco do que se vai ver muito mais (3 de Agosto)
Talvez alguma ânsia ou mesmo alguma pressão para estar à altura do mediatismo que rodeou a sua passagem de júnior directamente para o World Tour e para a Deceuninck-QuickStep, tenha prejudicado um pouco as primeiras exibições de Evenepoel no arranque da temporada. Tom Boonen bem avisou que o jovem ciclista ia precisar de perceber que não ia ganhar tanto como aconteceu no escalão de juniores. O abandono por opção do ciclista na Volta aos Emirados Árabes Unidos não foi muito bem visto pelos responsáveis. Mais tarde, Patrick Lefevere chegou a dizer que Evenepoel estava gordo... Mas o jovem ciclista lá conseguiu fazer a transição, que se sabia ser difícil fazer em poucos dias. Demorou umas semanas, mas as exibições tornaram-se mais consistentes, venceu pela primeira vez na Volta à Bélgica, em Junho, e depois na Clássica de San Sebastián foi o Evenepoel dos ataques de longo, como tantas vezes fez em júnior. Faltavam 20 quilómetros quando se isolou e ninguém mais o apanhou. Só tem 19 anos, mas é mais um ciclista de quem se espera o que mostrou em Espanha e muito mais.

Marcel Kittel retira-se aos 31 anos (23 de Agosto)
Já se sabia que não era um ciclista feliz na Katusha-Alpecin. A chegada do antigo corredor Erik Zabel para trabalhar com alemão pareceu, numa primeira fase, algo de positivo no ânimo do sprinter alemão, mas não. Fez uma pausa em Maio e em Agosto anunciou que colocava o ponto final na carreira. Entretanto tinha sido pai e afirmou que não queria ver o filho crescer por Skype. A carreira acabou por ser curta, mas foi o tempo mais do que suficiente para ser recordado como um dos melhores sprinters. E foi mesmo!

Tadej Pogacar estrela na Vuelta (24 de Agosto a 19 de Setembro)
(Fotografia: © La Vuelta)
Até foi um compatriota que venceu, justamente, a corrida. Mas Primoz Roglic teve mesmo de partilhar a ribalta na Vuelta com mais um dos jovens com um potencial ainda por definir até onde pode ir. Tadej Pogacar começou por vencer categoricamente a Volta ao Algarve. Como esperado, foi apenas o início da sua afirmação, no primeiro ano no World Tour. A UAE Team Emirates sabe que tem uma aposta que pode ser mais do que ganha. Não era suposto fazer nenhuma grande volta esta temporada, mas depois de vencer a Volta à Califórnia e de mais umas exibições de enorme nível, a equipa levou-o a Espanha. Foi um senhor ciclista aos 21 anos. Três vitórias de etapas, terceiro na geral, vencedor da juventude, os números dizem quase tudo. Aquele penúltimo dia, na chegada à Plataforma de Gredos, Pogacar deixou a concorrência a mais de minuto e meio, sendo um dos grandes momentos de 2019.

Dilúvio em Yorkshire (22 a 29 de Setembro)
Eram uns Mundiais aguardados com alguma expectativa. Bons percursos, garantia de bom ambiente devido ao entusiástico público e muito provavelmente alguma chuva para tornar as corridas mais desafiantes. E lá isso foram. Foi uma semana quase toda de autêntico dilúvio. Quase que era difícil acreditar que se estava a assistir ciclistas caírem no que mais pareciam ser piscinas na estrada. Algumas provas, incluindo a de elite masculina, tiveram de ser encurtadas, com a chuva a marcar por completo os Mundiais de Yorkshire. Carregue no play no vídeo em baixo e veja (ou recorde) uma das imagens fortes de 2019.



Fuga de 100 quilómetros (28 de Setembro)
"Todo o dia pensei que era super estúpido." Annemiek van Vleuten teve muito tempo para pensar no que estava a fazer, pois resolveu atacar a 100 quilómetros da meta, nos Mundiais. O ciclismo feminino vai tentando ganhar o seu espaço no mediatismo e Van Vleuten bem merece tê-lo, num dos poucos dias em que não houve dilúvio a marcar as corridas de Yorkshire. Não terá sido a única a pensar como um ataque daqueles está condenado ao insucesso, mas esta é uma ciclista que, apesar dos 36 anos, continua a estar no topo. Foi uma aventura solitária que começou com menos de 50 quilómetros feitos na corrida. Dificilmente alguém acreditou ser possível chegar ao fim como vencedora, talvez mesmo as adversárias. Mas foi possível e no fim, não foi nada estúpido a forma como Van Vleuten conquistou o título mundial, deixando as adversárias a mais de dois minutos de distância.

Época de Julian Alaphilippe
(Fotografia: © ASO/Alex Broadway)
Para o fim fica o ciclista que não é justo escolher só um momento ou só uma corrida. Foi uma temporada simplesmente fenomenal de Julian Alaphilippe (Deceuninck-QuickStep). É um homem para todo o tipo de terreno. Ganhou o seu primeiro monumento e logo o dos sprinters (Milano-Sanremo), algo que ele nem é! Mas é quase tudo o resto. Homem de ataque, novo senhor da Flèche Wallonne (segunda vitória consecutiva), ataca a subir, ataca em plano, ataca quando sente que chegou o momento para tentar vencer. Só a Amstel lhe terá provocado alguma frustração, já mais do que esquecida depois de 14 dias de amarelo na Volta a França e duas vitórias de etapa. Ao todo foram 12 triunfos em 2019. Faltou fôlego nos Mundiais, o que nem surpreendeu dada a primeira fase de temporada a todo o gás. Alaphilippe é um fora de série e em França cresce a expectativa de quando (e se) este ciclista irá pensar em tornar-se num voltista para tentar ficar com aquela camisola amarela até aos Campos Elísios. Talvez um dia, mas não para já. Ainda só tem 27 anos.

»»A imparável Deceuninck-QuickStep««

»»Uma Bora-Hansgrohe cada vez mais para todo o terreno««

11 de outubro de 2019

Pedersen parecia "uma criança em dia de Natal" quando recebeu a nova bicicleta e camisola

(Fotografia: © Trek-Segafredo)
Ver Mads Pedersen conquistar o título mundial foi um momento inesperado e muito importante numa Trek-Segafredo à procura de uma identidade difícil de encontrar desde que a sua referência terminou a carreira, Fabian Cancellara. A aposta na contratação de ciclistas mais experientes não tem alcançado os resultados desejados, no entanto, Pedersen é o exemplo do sucesso dos jovens ciclistas que têm integrado a equipa e que muito prometem. Este ciclista irá receber muito mais atenção do que quando foi segundo na Volta a Flandres em 2018, mas antes de ter sentir o peso da responsabilidade, há que aproveitar estes dias de uma fase incrível da carreira, com direito a regalias. A bicicleta personalizada é uma delas e a Trek não desiludiu.

(Fotografia: © Trek-Segafredo)
O dinamarquês tornou-se de repente numa figura e aos 23 anos (fará 24 a 18 de Dezembro) irá então ter de lidar com o peso de uma camisola arco-íris ganha num pelotão com tantos candidatos, mas nenhum esteve à altura do momento, para confirmar favoritismo. Ganhou o "underdog" (aquele que não era de todo favorito). E esse peso não vai ser pouco. Para já, Pedersen tem desfrutado das primeiras semanas como campeão do mundo e as três corridas que disputou terminaram em abandono: Milano-Torino, Tre Valli Varesine e antes o Tour de l'Eurométropole, uma semana depois do seu grande triunfo. Neste final de 2019, Pedersen não sofrerá pressão competitiva e irá estar dedicado às responsabilidades e chamadas que um campeão do mundo terá de fazer fora da estrada, num desporto que vive de dar visibilidade aos patrocinadores.

Matt Shriver, director técnico da Trek-Segafredo, admitiu que quando viu Pedersen alcançar o impensável em Yorkshire, de imediato soube que tinha de ligar para a sede da Trek e pedir uma bicicleta digna de um campeão mundial.

(Fotografia: © Trek-Segafredo)
Minutos depois do ciclista cortar a meta (no domingo, 29 de Setembro), a personalizada Madone SLR  já estava a ser preparada. Um dia depois, a pintura e o quadro estavam aprovados. 24 horas passadas, na terça-feira após a vitória, foram colocados os últimos pormenores, os autocolantes: "All or nothing" (tudo ou nada), "Underdog" (imagem ao lado) e, claro, a referência ao título mundial (imagem em cima). Entretanto, também a camisola era preparada. Todo o equipamento, produzido nos Estados Unidos, foi enviado para a Bélgica, onde chegou na sexta-feira.

O desejo de ver a sua camisola e bicicleta fez Pedersen parecer "uma criança no dia de Natal", como é descrito no site da equipa. "Quando cheguei ao hotel fui directo ao camião para ver a minha nova bicicleta. Foi incrível. Fui dar uma volta, a primeira com o meu novo equipamento e toda a gente apitava e tirava fotografias", contou o dinamarquês. Ainda não acabou uma corrida com a nova máquina, mas terá muitas oportunidades de o fazer e de mostrar o arco-íris na próxima temporada.

2020 será de responsabilidade acrescida para um jovem que já se sabia que tinha talento, mas que até teve um 2019 abaixo das expectativas. Agora estão altíssimas. Será um enorme desafio para Pedersen e para a própria Trek-Segafredo. Apesar da contratação de Vincenzo Nibali, que acaba por ser também para agradar ao patrocinador italiano, ainda que o experiente ciclista pode sempre dar vitórias importantes, é nos mais novos que a equipa se quer centrar cada vez mais.

Giulio Ciccone, Matteo Moschetti, Ryan Mullen serão fortes apostas, com Alexander Kamp a ser mais um dinamarquês a entrar na equipa. Já Juan Pedro Lopez e Michel Ries (mais dois ciclistas a dar o salto da Kometa de Alberto Contador) e o campeão do mundo de juniores Quinn Simmons terão tempo para se adaptar à realidade do World Tour. Esta Trek-Segafredo tem três dos campeões do mundo de Yorkshire, pois também contratou Antonio Tiberi, que venceu a prova de contra-relógio de juniores. Contudo, o italiano irá competir um ano nos sub-23 antes de subir de escalão. E há que não esquecer que Mollema também ganhou o título mundial no contra-relógio de estafeta mista.

Nibali, Richie Porte, Bauke Mollema serão líderes, mas o espaço irá ficar cada vez mais reduzido, ainda mais se a nova geração confirmar as expectativas. E claro, Jasper Stuyven, Edward Theuns, Toms Skujins e o reforço Kenny Elissonde, ciclistas já com 27 e 28 anos, serão importantes para a Trek-Segafredo ter o equilíbrio necessário para conseguir concretizar o objectivo de ser uma equipa ganhadora em todo o tipo de corridas. Este ano soma apenas nove vitórias, mais a de Pedersen em Yorkshire. Muito pouco para o investimento que tem sido feito na formação americana.


7 de outubro de 2019

Sagan dá um conselho a Van der Poel

(Fotografia: © Bettiniphoto/Bora-Hansgrohe)
Se há alguém que sabe bem o que é chegar ao mais alto nível e ter quase de imediato um forte impacto é Peter Sagan. Quando em 2010 se estreou pela Liquigas-Doimo, o eslovaco rapidamente começou a ganhar nos grandes palcos, não demorando a ser visto como um fenómeno e a tornar-se numa estrela. Sagan também sabe o quanto é difícil continuar a ganhar ao mesmo ritmo e cumprir as elevadas expectativas. Por isso, é a pessoa indicada para aconselhar o mais recente fenómeno do ciclismo mundial, Mathieu van der Poel, que nos Mundiais de Yorkshire mostrou que é humano depois de umas exibições de outro mundo!

O holandês de 24 anos só esta época é que se dedicou mais à vertente de estrada - apesar de ter sido campeão nacional em 2018 - e não demorou a exibir-se a grande nível e a obter vitórias incríveis e inesquecíveis. A da Amstel Gold Race ficará para a história e recentemente na Volta à Grã-Bretanha também deixou o pelotão, nas palavras de Matteo Trentin, a parecer uns ciclistas juniores. Porém, depois de parecer que ia a caminho de mais uma performance para recordar nos Mundiais, conseguindo chegar à frente da corrida e confirmando que tinha mesmo tudo para ganhar, quebrou. E que quebra! Acabou a mais de 10 minutos do vencedor, Mads Pedersen.

Sagan conhece a sensação, tanto a de ser o super favorito, como a de ter uma quebra física depois de muito trabalhar. Tantas vezes foi o eslovaco criticado por gastar demasiada energia, que depois lhe faria falta na luta pela vitória, enquanto os seus rivais aproveitavam o seu trabalho. Para Sagan, talvez Van der Poel estivesse "demasiado motivado" em Yorkshire: "Fez a sua aposta e pagou o preço."

Outra parecença entre ambos é o passado de BTT, com o holandês a ser ainda um dos melhores no ciclocrosse. Sagan avisou como tudo é diferente na estrada e deixou então um conselho a Van der Poel: "Há que aprender a usar a cabeça." Sagan até demorou na sua carreira a seguir esta recomendação! Ao Algemeen Dagblab acrescentou: "Há uma grande diferença entre a estrada e o ciclocrosse e BTT. Nos circuitos vamos a fundo durante uma hora. Na estrada falta experiência [a Van der Poel]."

Peter Sagan disse ainda como "no princípio é tudo mais fácil". Ou seja, ninguém sabe do que um ciclista é capaz. "Ganhar uma vez está bem. Depois tens de conseguir a segunda, terceira, quarta... Então é quando começa a ficar complicado", afirmou.

Mais uma vez, Sagan sabe bem do que fala. Aos 29 anos teve uma temporada abaixo das expectativas, com apenas quatro vitórias, mas juntou a sétima camisola verde (pontos) na Volta a França, assim como a classificação dos pontos na Volta à Suíça. Nos Mundiais chegou a admitir que perdeu uma oportunidade para conquistar o seu quarto título. Sagan falhou o momento que o colocaria na frente da corrida: acompanhar Van der Poel quando o holandês atacou no grupo perseguidor.

Aos 24 anos, Van der Poel (Corendon-Circus) tem muitos triunfos por conquistar, mesmo que continue, por agora, a dividir a sua carreira entre as três vertentes. Aliás, o BTT poderá ser o seu objectivo para Tóquio 2020, enquanto Sagan não deverá repetir a presença na modalidade, depois da experiência nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016. O eslovaco anunciou que não irá participar no evento teste e considera que o percurso não lhe assenta muito bem, devido às muitas subidas. O ciclista da Bora-Hansgrohe afirmou ainda que não terá tempo para se preparar de forma adequada, pelo que fica aberta a porta para ir à prova de estrada.

Enquanto Sagan decide os objectivos para 2020, certo é que na perspectiva de quem gosta de ciclismo, um dos duelos que mais se espera ver no próximo ano é precisamente o de o eslovaco com Mathieu van der Poel. Os dois em forma poderão tornar as clássicas da Primavera ainda mais interessantes.

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30 de setembro de 2019

Portugal cumpre objectivos nuns Mundiais nada fáceis de enfrentar

(Fotografia: © Federação Portuguesa de Ciclismo)
Com o final dos Campeonatos Mundiais em Yorkshire é tempo de fazer balanços e não há dúvidas que países como Estados Unidos, Itália e Holanda saíram bastantes felizes, ainda que as últimas duas selecções tenham visto escapar o título na elite masculina. A Dinamarca também não tem razões de queixas com Mikkel Bjerg a fazer história nos sub-23 (terceiro título consecutivo no contra-relógio) e Mads Pedersen a surpreender tudo e todos na elite. A Bélgica é das equipas que sai mais cabisbaixa, enquanto a selecção de Portugal apontava mais com João Almeida, mas as condições eram difíceis para fazer melhor. Já Rui Costa cumpriu, garantindo o seu quarto top dez em Mundiais.

A comitiva nacional variou entre querer dar experiência aos mais novos - como os juniores Daniela Campos, João Carvalho e André Domingues e também a Maria Martins que, sendo sub-23, correu pela primeira vez na elite por não haver este escalão no sector feminino - e apostar no talento de João Almeida e experiência de Rui Costa, sem esquecer Nelson Oliveira.

Os eleitos para os sub-23 tinham potencial para fazer um bom resultado. João Almeida é um dos jovens que se vai estrear no próximo ano no World Tour, na Deceuninck-QuickStep, André Carvalho está numa das melhores equipas de formação, a americana Hagens Berman Axeon, enquanto Miguel Salgueiro (Sicasal-Constantinos) é um dos principais talentos a emergir em Portugal. Já Emanuel Duarte venceu a classificação da juventude da Volta a Portugal e a geral da Volta a Portugal do Futuro, numa época marcante na LA Alumínios-LA Sport como Continental sub-25.

O mau tempo dificultou a missão dos dois primeiros no contra-relógio, com João Almeida a inclusivamente cair. Na prova em linha, as dificuldades de um percurso que chegou a ser encurtado para que os ciclistas não terminassem já com pouca luz natural, devido ao mau tempo e ao horário da corrida (foi no mesmo dia das juniores femininas), acabaram por deixar Portugal longe de um bom resultado, com nenhum dos ciclistas a conseguir ficar na frente da prova quando começaram a verificar-se cortes. André Carvalho foi o melhor, na 30ª posição, com Emanuel Duarte a abandonar.

Na elite, Nelson Oliveira ficou a 14 segundos da medalha de bronze no contra-relógio, continuando a ficar constantemente entre os melhores do mundo nesta especialidade. Foi oitavo, mas o terceiro posto ficou ali tão perto! O ciclista da Movistar teve depois a missão de ajudar Rui Costa na prova em linha e fez o seu trabalho, tal como José Gonçalves e Rui Oliveira. Em condições meteorológicas miseráveis, que levaram a UCI a cortar duas subidas na fase inicial da corrida, não foi fácil conseguir depois chegar ao fim.

Os três acabariam por abandonar, com Ruben Guerreiro a resistir um pouco mais, ele que poderia funcionar como joker. Porém, também não terminaria, deixando a corrida já depois de garantir que Rui Costa ficava no grupo certo. A partir daí o campeão do mundo de 2013 ficou sozinho. Não foi com Mathieu van der Poel, na movimentação que levou os últimos ciclistas à frente da corrida, pelo que o português ficou a enfrentar a difícil missão de resistir à chuva e frio, sem que ninguém trabalhasse para fechar a diferença. O 10º lugar foi um objectivo cumprido, com Rui Costa a mostrar como tem tendência a aparecer bem nos Mundiais.

"Foi preciso estar muito forte psicologicamente para encarar um Mundial como este, porque foi um dia de muita chuva e frio. Durante uma prova tão longa como esta [261,8 quilómetros], muitas coisas nos passam pela cabeça. As sensações eram boas no início, mas a meio não estava tão bem. Foi preciso ultrapassar esses momentos difíceis, esse sofrimento, para chegar melhor aos últimos quilómetros. A corrida fez-se muito dura com o frio e com a chuva", explicou Rui Costa, citado pela Federação Portuguesa de Ciclismo. O ciclista considera que o percurso original teria feito uma maior selecção de ciclistas mais cedo, contudo ficou satisfeito com mais um top dez, terminando a 1:10 minutos de Mads Pedersen.

O seleccionador José Poeira não pôde contar com Domingos Gonçalves, que não viajou para Inglaterra, alegando motivos pessoais. Um ciclista a menos numa corrida tão difícil, é algo a lamentar, mas Rui Costa finalizou da melhor forma. "Apesar dos colegas terem ajudado o Rui Costa em determinada fase da corrida, ele ficou sozinho durante muito tempo. Nessa circunstância, não podia ter feito mais do que fez. Esteve muito bem", salientou José Poeira.

Os Mundiais não serão de grandes recordações não só para algumas equipas, mas também para a própria organização. A intempérie que marcou quase toda a semana de provas, colocou à prova o poder de decisão dos comissários e nem sempre as opções foram consensuais. O contra-relógio de sub-23 ficou marcado por quedas aparatosas devido às condições da estrada, que teve partes que mais pareciam piscinas. No entanto, a prova não foi adiada, como aconteceu depois com a das senhoras. A UCI decidiu encurtar as corridas dos sub-23 e da elite, por diferentes razões. Esta opção agradou a uns e não a outros, dependendo das características dos ciclistas e do que preferiam ver num percurso.

Depois houve a desqualificação de Nils Eekhoff, que numa fase inicial caiu e recuperou posição no pelotão pedalando atrás do carro da equipa. Os comissários só analisaram a situação no final, com recurso ao vídeo-árbitro, depois do holandês ter ganho a corrida de sub-23. Além de se questionar a dualidade de critérios, comparativamente com o que aconteceu na Volta a Espanha com Primoz Roglic e Miguel Ángel López, também se perguntou porque não foi tomada uma decisão mais cedo, evitando a enorme desilusão que o jovem ciclista foi obrigado a enfrentar ao não ser declarado o vencedor.

A nível de público, Yorkshire foi o esperado, mesmo com o mau tempo, principalmente no fim-de-semana. Afinal, é um público mais do que habituado a esta meteorologia. Porém, a chuva, vento e frio, que limitaram as transmissões televisivas e criaram constrangimentos aos ciclistas, acabando por tirar algum brilho aos Mundiais, mas houve espectáculo, surpresas, drama, um filme completo de bom ciclismo, para contrabalançar um pouco do que de mau se viu.

Para o ano, os Mundiais irão disputar-se no Cantão de Vaud e no de Valais, na Suíça.


29 de setembro de 2019

Bahrain-Merida rescindiu com Rohan Dennis em Setembro

(Fotografia: © Bahrain-Merida)
Rohan Dennis é um ciclista sem equipa. A Bahrain-Merida terminou contrato com o australiano a 13 de Setembro, mas o anúncio oficial só foi feito este domingo de forma a deixar Dennis preparar os Mundiais com a maior tranquilidade possível. A CCC será das formações mais interessadas na contratação do bicampeão do mundo de contra-relógio, mas na imprensa internacional o nome da Trek-Segafredo e da Ineos também já surgiram como possibilidade. Contudo, neste momento não há qualquer certeza quanto ao seu futuro.

Certo é que a relação entre Dennis e Bahrain-Merida estava mesmo arruinada, depois do ciclista ter abandonado sem explicações a Volta a França, na véspera do contra-relógio. Naquela 12ª etapa, a 18 de Julho, os responsáveis chegaram a ficar sem saber por alguns momentos o que tinha acontecido a Dennis. A situação nunca foi esclarecida, nem pela equipa, nem pelo australiano. O descontentamento pela bicicleta foi uma das razões referidas nos meios de comunicação social, mas sem confirmação.

"A equipa terminou o seu contrato com o Senhor Dennis a 13 de Setembro de 2019. Este término não foi anteriormente tornado público para permitir que o Senhor Dennis pudesse preparar sem perturbações os Campeonatos Mundiais", lê-se no curto comunicado da Bahrain-Merida, que acrescentou que o ciclista denunciou a rescisão de contrato à UCI, pelo que a equipa não fará mais comentários sobre o assunto. O vínculo de Dennis era até ao final de 2020.

O que fica explicado com este anúncio é a razão que levou a equipa a não comentar a vitória do ciclistas no contra-relógio de Yorkshire e fica também esclarecida a decisão de Rohan Dennis em utilizar bicicletas da marca da BMC e não da Merida, a marca que se pensava ser ainda a sua equipa. No contra-relógio a bicicleta era toda preta, sem o nome da marca, mas o próprio não desmentiu que iria utilizar a bicicleta com a qual já tinha tido sucesso anteriormente e que era a sua quando estava na BMC. Não quebrou qualquer regra, pois é permitido que ao representar a selecção, o ciclista possa escolher o material que prefere. Porém, o normal é que sejam utilizadas as bicicletas da equipa por quem compete durante toda a época. Este domingo, Dennis voltou a ser visto com uma BMC na prova em linha e de imediato surgiram muitos comentários nas redes sociais.

A Bahrain-Merida divulgou ao final da tarde o comunicado, que colocou ponto final nas dúvidas e agora a história é outra. Dennis conquistou o segundo título mundial consecutivo de contra-relógio, mas é um ciclista sem equipa e sem convencer. Não se afirma como líder para as grandes voltas, mas também não estará interessado num papel de gregário. A CCC, estrutura que ficou com a licença World Tour da BMC, já terá feito uma proposta, mas os valores monetários apresentados não terão convencido, para já, Dennis.

O australiano tinha escolhido a Bahrain-Merida para prosseguir a carreira, mas o melhor que fez foi o segundo lugar na geral na Volta à Suíça, onde ganhou o seu único contra-relógio do ano, até aos Mundiais. Até elevou as expectativas para o Tour, mas agora, aos 29 anos, vê-se numa situação de ter de procurar equipa, sem que o título mundial conquistado quarta-feira seja garantia de ter muito poder de negociação, dada a forma como saiu da Bahrain-Merida.


Um campeão mundial improvável que comprovou 2019 como o ano da nova geração

(Imagem: print screen)
Eram muitos os favoritos, mas só um apareceu. Mathieu van der Poel fez o ataque que se esperava, mas aconteceu algo inesperado: quebrou por completo (acabou a mais de 10 minutos). Com outros dos grandes nomes ou a abandonarem ou a não seguirem a roda do holandês para chegar à frente da corrida - neste último caso foi o exemplo de Peter Sagan e Greg van Avermaet -, ficou em aberto uma surpresa. E assim foi. Mads Pedersen confirmou como 2019 é mesmo o ano em que os mais novos afirmam que estão mais do que preparados para ser as principais figuras. O dinamarquês já não era um total desconhecido, mas agora garantiu que todos o conhecem e reconhecem definitivamente o seu valor.

Chuva, vento, frio... Yorkshire recebeu os Mundiais com uma meteorologia muito agreste. A prova de elite deste domingo foi encurtada de 280 para 261,8 quilómetros. Foram eliminadas duas subidas numa fase inicial e para compensar um pouco, houve mais duas voltas ao circuito final. As dificuldades foram menores, a nível de subidas, mas o tempo prejudicou muito os ciclistas que tentavam sempre estarem bem colocados, em estradas estreitas e extremamente escorregadias.

As ausências daquelas duas subidas também retiraram a possibilidade de ser feita uma selecção de candidatos mais cedo. Sem surpresa foram muitos os incidentes e entre quedas, quebras físicas ou até a admissão que não dava para suportar o frio. Entre os desistentes estiveram o campeão em título até este domingo, Alejandro Valverde, Philippe Gilbert, Remco Evenepoel, Pascal Ackermann, Sam Bennett, Richard Carapaz, Bob Jungels, Dan Martin... Foram 149 abandonos, incluindo os portugueses José Gonçalves, Nelson Oliveira, Rui Oliveira e Ruben Guerreiro. Fizeram o seu trabalho para colocar Rui Costa, que finalizou com o ambicionado top dez (10º a 1:10 minutos de Pedersen). Para dar outra perspectiva, terminaram 46 ciclistas e é preciso recuar a 1999 para se descobrir um número tão baixo: 49. Foi em Verona, com Óscar Freire a ser o campeão naquele ano.

Mas fiquemos por 2019 e há que falar de Mads Pedersen. Em 2018, surpreendeu a própria equipa, a Trek-Segafredo, ao realizar uma temporada fortíssima de clássicas do pavé, principalmente com o segundo lugar na Volta a Flandres. A Trek-Segafredo sabia que ciclista tinha contratado, mas a sua juventude fazia com que a expectativa fosse que precisaria de mais algum tempo para se adaptar e traduzir em resultados o seu potencial. 2019 não decorreu tão bem. Pedersen não confirmou a expectativa que havia aumentada, mas é caso para dizer que deixou o melhor para o fim.

Há uma semana ganhou o Grand Prix d'Isbergues, em França, mas não foi uma corrida que o colocasse no radar para os Mundiais. Nem ele próprio pensava sair de Inglaterra de arco-íris vestido. "É inacreditável. Não esperava isto quando comecei esta manhã. Foi um dia inacreditável", desabafou Pedersen. O dinamarquês não escondeu como sofreu durante as mais de seis horas de prova, mas só esperava que ao ver a meta, todo o sofrimento desaparecesse e pudesse fazer um bom sprint.

Matteo Trentin era o favorito do trio, que contava com o suíço Stefan Kung (terceiro). Gianni Moscon trabalhou mais para poupar o compatriota italiano. Trentin tentou atacar cedo, mas rapidamente ficou sentado naqueles metros finais que coroaram um campeão improvável, mas que ajuda a "refrescar" o ciclismo, que ganha assim uma nova figura, de apenas 23 anos.

A Trek-Segafredo também ganha um novo relevo, poucos dias depois de ter garantido os dois dos campeões mundiais de juniores de Yorkshire, o americano Quinn Simmons (prova em linha) e o italiano Antonio Tiberi (contra-relógio), tem agora um de elite. Mads Pedersen receberá agora outra atenção, da equipa e dos outros ciclistas, sendo um corredor que a Trek-Segafredo mais do que nunca vai esperar que possa tornar-se num homem de clássicas de respeito, na intensa procura pelo sucessor de Fabian Cancellara. A questão será agora perceber como irá reagir Pedersen a inevitável pressão de ser o campeão do mundo, ainda que seja também um ano para desfrutar.

Classificações via First Cycling.





28 de setembro de 2019

Pensou que era uma ideia estúpida. Mas não, foi uma exibição épica!

(Imagem: print screen)
Foi um autêntico show em tons laranja! As holandesas continuam a ser donas e senhoras dos Mundiais na prova em linha de elite. E foi mais uma exibição de nível e daquelas de ficar na história. Dos 149,4 quilómetros entre Bradford e Harrogate, Annemiek van Vleuten fez 100 em solitário. "Durante todo o dia pensei que era super estúpido [o que estava a fazer]!" Não nada foi estúpido e até foi algo épico. Aos 36 anos, Van Vleuten completou assim um currículo que dois títulos mundiais de contra-relógio, dois Giro Rosa e a Volta a Flandres, entre outras grandes vitórias.

São três triunfos consecutivos da Holanda, com Van Vleuten a suceder a Anna van der Breggen e Chantal Blaak. Van der Breggen foi segunda desta feita (tal como no contra-relógio), numa exibição perfeita de toda da selecção laranja, que cedo começou a partir o pelotão, com a tricampeã mundial Marianne Vos a trabalhar muito bem e a ser sexta no final. Na subida a Lofthouse, ao quilómetro 47,8, Van Vleuten atacou. Pode ter pensado que era uma ideia estúpida, muitos terão pensado que era de loucos e se calhar algumas rivais pensaram que eventualmente conseguiriam apanhar a holandesa. Mas há dias assim. Há dias em que uma boa dose de loucura, muita coragem e ainda mais vontade faz toda a diferença.

Van Vleuten terminou com mais de dois minutos de vantagem. A fechar o pódio ficou uma Amanda Spratt que juntou a medalha de bronze à de prata de 2018. Continua a faltar o ouro para esta excelente ciclista australiana, colega de Van Vleuten na Mitchelton-Scott.

Para Van Vleuten é a melhor compensação possível depois de ter sido batida categoricamente no contra-relógio por Chloe Dygert, ficando a 1:52 minutos da americana. Não surpreende, portanto, que o momento em que ficou mais nervosa este sábado foi quando soube do ataque de Dygert, a cerca de 30 quilómetros da meta. "Sei que ela é especial depois do contra-relógio de terça-feira", realçou Van Vleuten. Porém, Dygert perdeu algum fulgor na última volta do circuito e ficou à porta das medalhas, a 3:24 minutos da nova campeã.

Este poderio holandês apaga um pouco a desilusão de ter visto o jovem Nils Eekhoff ser desqualificado na corrida de sub-23. No entanto, a exibição da selecção laranja provocou também desilusão em muitas ciclistas no pelotão feminino. É que o ritmo foi de tal forma intenso e desde muito cedo, que logo na primeira dificuldade, aos 15 quilómetros, houve quem ficasse para trás e de pouco valeu o esforço para tentar regressar ao grupo principal. Inevitavelmente, perdendo tempo tão cedo, o abandono seria inevitável mais cedo ou mais tarde, ainda mais com uma fase final em circuito. Maria Martins foi uma das vítimas deste poderio laranja, naquela que foi a sua estreia em provas de elite em Mundiais.

Elite masculina portuguesa com ambição este domingo

Entre Leeds e Harrogate serão 280 quilómetros para conhecer o novo campeão mundial, ou se Alejandro Valverde faz o bis. Yorkshire tem sido palco de percursos complicados nesta semana de Mundiais, com estradas estreitas e mau tempo, que se deverá sentir este domingo. Portugal partirá com mais do que uma opção para tentar no mínimo o top dez. Mas quando se conta com um campeão do mundo na equipa, há sempre o desejo de mais, se assim a corrida o proporcionar. Rui Costa estará acompanhado por Ruben Guerreiro, Nelson Oliveira, José Gonçalves e Rui Oliveira. Domingos Gonçalves foi baixa de última hora, alegando motivos pessoais para não ter viajado para Inglaterra.

A corrida começa às 8:40 e terá transmissão no Eurosport 1, esperando-se muito espectáculo dado o leque de ciclistas candidatos: Peter Sagan, Mathieu van der Poel, Philippe Gilbert, Remco Evenepoel, Greg van Avermaet (os oito belga formam uma equipa de luxo), Julian Alaphilippe, Tadej Pogacar, Primoz Roglic (se estiver muito melhor do que no contra-relógio) e porque não olhar para um Pascal Ackermann e Sam Bennett... Alexander Kristoff disse que o percurso afinal não era assim tão duro, pelo que os candidatos são muitos, com as mais diversas características e todos eles apontaram a estar bem em Yorkshire.

Classificações via First Cycling.

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27 de setembro de 2019

Eekhoff inconformado com desqualificação. Título mundial foi para Itália

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Nils Eekhoff nem queria acreditar no que lhe estava a acontecer. Samuele Battistella demorou um pouco a perceber o que lhe estava a acontecer. O primeiro ganhou um difícil sprint para ser campeão do mundo de sub-23. Mas foi o segundo que acabou a vestir a camisola do arco-íris. Uma desqualificação que está a custar e muito a Eekhoff aceitar, deu o título ao italiano, numa decisão pouco ou nada pacífica dado o passado recente. Numa fase ainda inicial da corrida, Eekhoff caiu e para recuperar o seu lugar no grupo principal, ficou algum tempo atrás do carro da equipa. Com recurso ao video-árbitro, os comissários da UCI não perdoaram.

De repente a Volta a Espanha regressa à mente. O dia em que Primoz Roglic e Miguel Ángel López ficaram para trás após queda e os comissários autorizaram que ficassem atrás dos carros, enquanto na frente a Movistar atacava. Também fica por perceber porque a decisão não foi tomada durante a corrida, evitando toda esta situação. Eekhoff viu os regulamentos serem respeitados à risca e o holandês não se conforma. "Nem sei bem o que sentir neste momento... estou furioso", desabafou. E explicou o que aconteceu: "Caí e desloquei o ombro, meti no sítio, mas também tive um problema mecânico, por isso demorei mais. Voltei e o carro levou-me até à caravana e a partir daí fui sozinho até ao pelotão."

A queda acontece a cerca de 125 quilómetros da meta. "Na minha opinião, eu lutei. Deveria ser possível após uma queda poder ser levado até à caravana. Não sabia que estava a correr um risco", disse. Até à desqualificação passou cerca de uma hora, mas, entretanto, Eekhoff já tinha sido chamado pelo júri da corrida. Ao ser confirmado que não seria o campeão mundial, o holandês admitiu que só queria ir para casa. No hotel foi confortado pelos pais, mas não será fácil para o jovem ciclista lidar com a desilusão, apesar da SEG Cycling, que o representa, estar a analisar se poderá recorrer da decisão da UCI.

Já Samuele Battistella nem percebia o que se estava a passar quando lhe disseram que era ele o campeão mundial de sub-23, em Yorkshire. Só com a camisola do arco-íris vestida e com a medalha de ouro ao peito, finalmente acreditou e percebeu que era mesmo o seu grande momento. "Sinto-me o vencedor. Ele foi desqualificado e há uma razão porque ele não é o vencedor. Lamento por ele, mas eu sou o vencedor. Isto é o ciclismo", afirmou o italiano. O suíço Stefan Bissegger ficou com a medalha de prata, enquanto o fenómeno britânico Thomas Pidcock ganhou assim o bronze.


A corrida foi feita a grande ritmo, com os 171,6 quilómetros a serem feito a uma média horária de 44,025. Chuva, frio, vento, foi um daqueles dias que era certo que vai proporcionar uma prova acidentada e muito complicada, se não mesmo impossível, de controlar. E assim foi. O quarteto português que o diga. Nenhum conseguiu ficar no pequeno grupo que viria a discutir a vitória. Na subida de Greenhow foi feita a selecção, na qual já não estava Emanuel Duarte. Miguel Salgueiro acabou por ceder, enquanto André Carvalho e João Almeida, que não estava muito bem colocados, acabaram por ficar no corte. O primeiro ainda se viu envolvido num incidente que não ajudou nada.

Ainda assim, Carvalho foi o melhor português, na 30ª posição, a 3:02 minutos do vencedor. "Eu sabia que devia colocar-me melhor na fase decisiva e tentei fazê-lo, mas tive um toque com um corredor dos Estados Unidos. Não caí, mas perdi alguns metros para a frente e fiquei com o guiador virado para baixo, tendo de fazer mais de 50 quilómetros numa posição incómoda", explicou, citado pela Federação Portuguesa de Ciclismo. Miguel Salgueiro foi 57º e João Almeida 76º, a 12:42 minutos. Emanuel Duarte abandonou.

Da parte da manhã, competiu Daniela Campos, que se estreou na prova de juniores com um 83º lugar, a 13:21 minutos da campeã que confirmou as expectativas, a americana Megan Jastrab. "A corrida foi caótica. A dada altura, para tentar evitar uma queda, fiz um movimento da perna que me deixou com o pé preso entre o quadro e a roda de trás. A bicicleta começou a travar e as corredoras que vinham atrás chocaram comigo e caí pela segunda vez", contou a ciclista. Nesta queda, Daniela Campos teve de trocar de bicicleta e perdeu muito tempo, mas não quis abandonar, mostrando mais uma vez o seu forte carácter.

Este sábado corre Maria Martins, que pela primeira vez estará entre a elite mundial, visto não haver escalão de sub-23 nas corridas femininas. Será o dorsal 143, com a prova a começar às 11:40 (Eurosport 1), sendo 149,4 quilómetros muito exigentes.

Classificações da corrida de sub-23, via First Cycling.




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A razão porque demorou tanto tempo a chegar ajuda ao júnior colombiano

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Não era assim que Germán Gómez queria destacar-se nos Mundiais, na prova de juniores, mas o jovem colombiano tornou-se num dos ciclistas mais falados em Yorkshire depois de ter ficado em lágrimas ao não conseguir que lhe dessem uma roda rapidamente. Passaram carros atrás de carros e Gómez, com bicicleta na mão e a roda noutra, não via nem o veículo da sua equipa, nem ninguém que mostrasse algum fair play, quando faltavam cerca de 77 quilómetros para o final. O seleccionador da Colômbia veio agora explicar como ficou estragada a corrida de um ciclista que estava no grupo da frente quando um azar acabou com as suas esperanças de um bom resultado.

"O nosso carro era o número 21 da caravana", referiu Carlos Mario Jaramillo, citado pela site Ciclismo Internacional. O técnico salientou como a corrida estava a sofrer vários cortes devido aos mais diversos incidentes, muitos deles quedas. Com as estradas a serem muito estreitas em certas zonas, tornou-se complicado os carros passarem rapidamente. Ainda mais, o carro era partilhado por quatro selecções, pois os colombianos optaram por ter apenas dois representantes, apesar de puderem levar quatro.

"Quem tinha de estar [presente] naquele momento era o apoio neutro", criticou Jaramillo. Mas ninguém apareceu e também ninguém de outras equipas ajudou, uma atitude que já valeu várias críticas de ciclistas e adeptos nas redes sociais. Quem socorreu Gómez foi o pai de um outro corredor em prova, o uruguaio Thomas Silva, que finalmente deu a roda ao colombiano.

O desespero da longa espera levou Gómez a tentar correr com o material na mão, lembrando Chris Froome no Mont Ventoux há uns anos. "Não chegámos a tempo", desabafou o seleccionador, que estava a cinco minutos do seu ciclista. "Não podemos fazer mais nada do que tranquilizar o rapaz."

As imagens focaram-se depois na discussão da corrida, ganha pelo americano Quinn Simmons, mas há que salientar que Germán Gómez não baixou os braços e depois de finalmente receber a roda, foi até ao fim da prova, terminando na 60ª posição, a 16:49 minutos do vencedor, no mesmo grupo do português João Carvalho.


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26 de setembro de 2019

Domingos Gonçalves de fora dos Mundiais

(Fotografia: © Team Caja Rural-Seguros RGA)
A selecção portuguesa vai competir com menos um ciclista devido a uma baixa de última hora. Domingos Gonçalves não viajou para Yorkshire com os restantes companheiros da equipa de elite, que já se juntaram a Nelson Oliveira em Inglaterra. O ciclista alegou "motivos pessoais" para esta ausência da corrida que se realiza no domingo.

Não foram adiantadas mais explicações, apenas que o ciclista informou na terça-feira que não correria. Contudo, o seleccionador nacional, José Poeira, afirmou, citado pela Federação Portuguesa de Ciclismo: "É evidente que antes do atleta está a pessoa, mas os compromissos com a Selecção também são importantes. A seguir ao Mundial avaliaremos a situação, de modo a perceber se deverá ter alguma repercussão futura."

A equipa está em Yorshire com a ambição de alcançar um top dez e sempre apontando a algo mais, com Rui Costa a liderar, mas a não ser a única opção. José Gonçalves e Ruben Guerreiro são ciclistas que podem adaptar-se bem ao percurso complicado, técnico e que poderá ter a chuva a dificultar ainda mais. Rui Oliveira fará a sua estreia em Mundiais no escalão de elite, enquanto Nelson Oliveira mostrou boa forma na Vuelta - tal como Ruben Guerreiro - e foi oitavo no contra-relógio, ficando apenas a 14 segundos da medalha de bronze.

Para Domingos Gonçalves acaba por ser um final de temporada muito aquém do desejado, depois de um 2019 muito diferente do ano passado. Foram muitas as vitórias na Rádio Popular-Boavista, que ajudaram a Caja Rural a ficar convencida em contratá-lo por uma segunda vez o gémeo de Barcelos. A queda e grave lesão no ombro na Volta à Catalunha limitaram Domingos Gonçalves numa fase importante da época, mas, ainda assim, regressou às corridas a prometer resultados positivos. Nos Nacionais, em Junho, foi segundo no contra-relógio e 18º na prova de estrada, não conseguindo renovar os títulos que detinha. No entanto, as suas prestações deixavam em aberto uma presença na Vuelta.

Conseguiu a chamada, tendo antes vindo à Volta a Portugal, acabando por abandonar na sexta etapa, sem conseguir repetir a vitória de etapa da edição anterior. Na Volta a Espanha esteve muito discreto ao contrário de alguns dos seus companheiros e não partiria para a 14ª etapa.

O contrato com a Caja Rural era de apenas de um ano, pelo que é um dos portugueses que está numa equipa estrangeira cujo futuro ainda continua por definir. E nestes Mundiais, Ruben Guerreiro, Rui Costa e José Gonçalves também ainda não anunciaram por que equipa irão competir em 2020. A Lotto Soudal e a EF Education First serão opções para Ruben Guerreiro, enquanto Rui Costa poderá renovar por mais um ano com a UAE Team Emirates. José Gonçalves, tal como Guerreiro, está em final de contrato numa Katusha-Alpecin, estrutura que também não sabe que futuro irá ter em 2020, podendo a sua licença World Tour ser comprada pela Israel Cycling Academy, do escalão Profissional Continental.


Juniores campeões mundiais em Yorkshire já estão a caminho de uma equipa World Tour

(Imagem: © Trek-Segafredo)
O plano para Quinn Simmons se tornar campeão do mundo foi perfeito. O plano para a carreira também está a ir numa direcção muito positiva. Ainda o americano celebrava a conquista de um título (e ganhou-o de forma fantástica) e já estava a ser anunciadoda equipa do World Tour que não deixou escapar um dos bons jovens talentos a surgir nos Estados Unidos. A Trek-Segafredo agarrou Simmons, mas também contratou o campeão do mundo de contra-relógio, Antonio Tiberi, outro corredor que teve uma performance para recordar.

"Estávamos de olho no Simmons e no Tiberi muito antes dos Mundiais. Em Yorkshire só testemunhámos a confirmação do talento de ambos", afirmou Luca Guercilena. O director geral da Trek-Segafredo admitiu que a vitória de Simmons na Gent-Wevelgem, para o seu escalão, e os triunfos nos Nacionais chamaram e muito a atenção. "Ele mostrou novamente um potencial enorme ao ganhar os Mundiais. Dada a sua idade, queremos que ele ganhe maturidade calmamente, sem apressar as coisas e colocar demasiada pressão nos seus ombros. Mas sentimos que ele poderá lidar com as corridas de um dia ao mais alto nível", explicou.

Quanto a Tiberi, Guercilena olha para o italiano de 18 anos como um ciclista para lutar por classificações gerais. No entanto, Tiberi vai competir uma temporada com os sub-23 antes de dar o salto para o World Tour.

Mas esta quinta-feira foi o dia em que Simmons coroou uma temporada fantástica com um título Mundial. A equipa esteve perfeita, como o próprio admitiu, em assumir uma corrida complicada, pelo percurso técnico de 148,1 quilómetros e com a chuva a dificultar ainda mais. A estrada molhada provocou muito incidentes. Simmons não se deixou perturbar. A 33 quilómetros da meta arrancou e nunca mais foi visto pelos rivais.

Pelo segundo ano consecutivo, um júnior tem uma demonstração individual de se ovacionar bem de pé. Sem entrar em grandes comparações com Remco Evenepoel, a verdade é que Simmons tem um percurso idêntico, ao do belga em 2018. O americano pode não ter ganho praticamente todas as corridas que fez como Evenepoel, mas 23 vitórias em 2019 é de respeito (número inclui classificações gerais e por pontos). Em várias das corridas/etapas que não ganhou, não ficou longe de o fazer.

"Tivemos um grande ano e acho que [o título mundial] foi definitivamente um grande feito, especialmente para a equipa", afirmou Simmons que conhece bem a história, pois sabe que no país a sua vitória será especial, já que desde 1979 que um americano não era campeão mundial de juniores. O último havia sido Greg Lemond, que se tornaria numa das maiores referências da modalidade. E os Estados Unidos bem que está à procura de uma grande figura que lhe permita cortar de vez com os maus exemplos do passado recente.

Aos 18 anos, Simmons troca a Lux-Strading p/b Specialized pela Trek-Segafredo, que também está há procura de um ciclista que se torne uma referência e que possa colocar a equipa como uma das mais fortes nas clássicas. Ou seja, alguém que ocupe o lugar de Fabian Cancellara.

Simmons conquistou o segundo ouro para os Estados Unidos em Yorkshire, depois da vitória de Chloe Dygert no contra-relógio feminino. Mas o pódio em juniores contou ainda com Magnus Sheffield na terceira posição, uma medalha merecida para quem tanto trabalhou para o companheiro. O italiano Alessio Martinelli foi segundo.

A participação portuguesa na prova de juniores esteve a cargo de João Carvalho e André Domingues. Ambos tiveram dificuldade em aguentar o fortíssimo ritmo imposto principalmente pelos americanos. Carvalho terminou na 55ª posição, a mais de 16 minutos do vencedor, enquanto Domingues abandonou.

Esta sexta-feira há dose dupla. Pela manhã competem as juniores femininas, 86 quilómetros, entre Doncaster e Harrogate (8:40), com a portuguesa Daniela Campos presente (dorsal 85). Os sub-23 masculinos arrancam às 14:00 e terão pela frente 173 quilómetros. A parte final foi encurtada, pois em vez de três voltas ao circuito de Harrogate, os ciclistas farão apenas duas, de forma a evitar que a corrida terminasse já quase sem luz natural, devido ao mau tempo que se tem feito sentir em Yorkshire. Portugal parte com ambição e com uma equipa forte: João Almeida (dorsal 73), André Carvalho (74), Emanuel Duarte (75) e Miguel Salgueiro (76).

Classificação da prova em linha de juniores, via FirstCycling.




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