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25 de dezembro de 2019

Dez momentos de 2019

É tempo de olhar para trás, antes de nos concentramos definitivamente em 2020. Ou seja, é tempo de recordar alguns dos momentos marcantes da última temporada. Começando lá por fora, foi um 2019 dominado pela afirmação de uma nova geração, que está a tomar de assalto o pelotão internacional e, por isso, não surpreende que parte das escolhas para os 10 momentos do ano pertençam a exibições de ciclistas que são as novas figuras da modalidade. Mas também há espaço para um veterano e, infelizmente, nem todos os momentos foram de felicidade.

O objectivo inicial era escolher cinco momentos, acabou-se com dez e mesmo assim ficaram alguns de fora. Mas aqui ficam as escolhas do Volta ao Ciclismo. A ordem é cronológica.

Philippe Gilbert venceu Roubaix e só falta Sanremo (14 de Abril)
(Fotografia: Facebook Paris-Roubaix)
Em 2017, Gilbert reacendeu o antigo sonho de conquistar os cinco monumentos ao vencer de forma brilhante, numa fuga solitária, a Volta a Flandres. Este ano, Nils Politt (Katusha-Alpecin) tentou dar luta, mas estava destinado que o fantástico ciclista belga vencesse o Paris-Roubaix e ficasse apenas com a Milano-Sanremo por conquistar para fazer o pleno. Um emotivo Gilbert celebrou muito a vitória de Roubaix, dando mais um triunfo a uma Deceuninck-QuickStep que é uma equipa especialistas em ganhar clássicas. Trocar a BMC por esta formação em 2017 foi uma escolha muito acertada de Gilbert. Porém, aos 37 anos e perante uma oferta de três anos de contrato da Lotto Soudal contra um da actual equipa, Gilbert optou por regressar a uma casa onde alcançou as primeiras grandes vitórias na carreira. Até parece certo que tente fechar o ciclo de monumentos onde o começou.

Van der Poel e uma Amstel Gold Race para a eternidade (21 de Abril)
Vão ser imagens que hão-de ser vistas e revistas durante muito tempo. Hão-de fazer parte dos grandes momentos do ciclismo e com razão. O que Mathieu van der Poel fez na Amstel Gold Race só está ao alcance dos melhores dos melhores. Quando chegou à primeira corrida das Ardenas, já trazia vitórias espectaculares alcançadas em poucas semanas e estava a marcar a época das clássicas. Mas queria mais. Parecia que estava tudo preparado para Julian Alaphilippe (Deceuninck-QuickStep) - um dos homens que mais estava a ganhar - e Jakob Fuglsang (Astana) discutirem o triunfo. Tinham 40 segundos de vantagem e três quilómetros para a meta. Van der Poel fez o impensável. Arrancou com tamanha convicção, não se interessando quem se colava na sua roda, apenas olhando para quem tinha de apanhar na frente. Alaphilippe e Fuglsang podem ter exagerado no controlo um ao outro, mas o mérito esteve muito na força e crença de um Van der Poel que deixou todos de mãos na cabeça perante tal demonstração de ciclismo de ataque. Espectacular! Veja ou reveja este grande momento de 2019 no vídeo em baixo.


Queda de Chris Froome (12 de Junho)
O britânico jogava toda uma época na Volta a França e em conquistar a quinta vitória. Porém, no reconhecimento do contra-relógio do Critérium du Dauphiné, Froome sofreu uma aparatosa queda. Sofreu uma fractura no fémur, cotovelo e em algumas costelas, no esterno, osso situado na parte anterior e média do tórax, e na vértebra C7. Foi grave e as consequências assustaram. A época terminou ali e, passado meio ano, a dúvida mantém-se na própria Ineos: irá Froome conseguir recuperar o nível competitivo necessário para ganhar o Tour? O ciclista conseguiu regressar aos treinos mais cedo do que o esperado e já foi ao Japão mostrar-se, em ritmo de exibição, em cerca de três quilómetros, no habitual Critérium de Saitama de final de temporada. Mas a forma de Froome será uma das incógnitas para 2020.

Vitória de Bernal na Volta a França (28 de Julho)
(Fotografia: © ASO/Alex Broadway)
Após um ano de estreia no World Tour de elevadíssimo nível, deveria ser raro quem não pensasse que, mais cedo ou mais tarde, Egan Bernal ia vencer a Volta a França. Foi mais cedo. A queda de Chris Froome abriu caminho à liderança do colombiano, mesmo com Geraint Thomas, o vencedor de 2018, a seu lado. A aposta da Ineos era em Bernal. O plano inicial era o colombiano atacar o Giro, mas uma queda afastou da corrida italiana. No Tour ficou a pequena frustração de ver a mãe natureza obrigar ao final antecipado da etapa que Bernal estava a demonstrar toda a sua qualidade (a 19ª). Foi o dia das impressionantes imagens do deslizamento de terra. Mas Bernal fez o suficiente para comprovar que era o mais forte e subiu merecidamente ao pódio nos Campos Elísios com a camisola amarela. Fica na história como o primeiro colombiano a fazê-lo.

Evenepoel mostrou um pouco do que se vai ver muito mais (3 de Agosto)
Talvez alguma ânsia ou mesmo alguma pressão para estar à altura do mediatismo que rodeou a sua passagem de júnior directamente para o World Tour e para a Deceuninck-QuickStep, tenha prejudicado um pouco as primeiras exibições de Evenepoel no arranque da temporada. Tom Boonen bem avisou que o jovem ciclista ia precisar de perceber que não ia ganhar tanto como aconteceu no escalão de juniores. O abandono por opção do ciclista na Volta aos Emirados Árabes Unidos não foi muito bem visto pelos responsáveis. Mais tarde, Patrick Lefevere chegou a dizer que Evenepoel estava gordo... Mas o jovem ciclista lá conseguiu fazer a transição, que se sabia ser difícil fazer em poucos dias. Demorou umas semanas, mas as exibições tornaram-se mais consistentes, venceu pela primeira vez na Volta à Bélgica, em Junho, e depois na Clássica de San Sebastián foi o Evenepoel dos ataques de longo, como tantas vezes fez em júnior. Faltavam 20 quilómetros quando se isolou e ninguém mais o apanhou. Só tem 19 anos, mas é mais um ciclista de quem se espera o que mostrou em Espanha e muito mais.

Marcel Kittel retira-se aos 31 anos (23 de Agosto)
Já se sabia que não era um ciclista feliz na Katusha-Alpecin. A chegada do antigo corredor Erik Zabel para trabalhar com alemão pareceu, numa primeira fase, algo de positivo no ânimo do sprinter alemão, mas não. Fez uma pausa em Maio e em Agosto anunciou que colocava o ponto final na carreira. Entretanto tinha sido pai e afirmou que não queria ver o filho crescer por Skype. A carreira acabou por ser curta, mas foi o tempo mais do que suficiente para ser recordado como um dos melhores sprinters. E foi mesmo!

Tadej Pogacar estrela na Vuelta (24 de Agosto a 19 de Setembro)
(Fotografia: © La Vuelta)
Até foi um compatriota que venceu, justamente, a corrida. Mas Primoz Roglic teve mesmo de partilhar a ribalta na Vuelta com mais um dos jovens com um potencial ainda por definir até onde pode ir. Tadej Pogacar começou por vencer categoricamente a Volta ao Algarve. Como esperado, foi apenas o início da sua afirmação, no primeiro ano no World Tour. A UAE Team Emirates sabe que tem uma aposta que pode ser mais do que ganha. Não era suposto fazer nenhuma grande volta esta temporada, mas depois de vencer a Volta à Califórnia e de mais umas exibições de enorme nível, a equipa levou-o a Espanha. Foi um senhor ciclista aos 21 anos. Três vitórias de etapas, terceiro na geral, vencedor da juventude, os números dizem quase tudo. Aquele penúltimo dia, na chegada à Plataforma de Gredos, Pogacar deixou a concorrência a mais de minuto e meio, sendo um dos grandes momentos de 2019.

Dilúvio em Yorkshire (22 a 29 de Setembro)
Eram uns Mundiais aguardados com alguma expectativa. Bons percursos, garantia de bom ambiente devido ao entusiástico público e muito provavelmente alguma chuva para tornar as corridas mais desafiantes. E lá isso foram. Foi uma semana quase toda de autêntico dilúvio. Quase que era difícil acreditar que se estava a assistir ciclistas caírem no que mais pareciam ser piscinas na estrada. Algumas provas, incluindo a de elite masculina, tiveram de ser encurtadas, com a chuva a marcar por completo os Mundiais de Yorkshire. Carregue no play no vídeo em baixo e veja (ou recorde) uma das imagens fortes de 2019.



Fuga de 100 quilómetros (28 de Setembro)
"Todo o dia pensei que era super estúpido." Annemiek van Vleuten teve muito tempo para pensar no que estava a fazer, pois resolveu atacar a 100 quilómetros da meta, nos Mundiais. O ciclismo feminino vai tentando ganhar o seu espaço no mediatismo e Van Vleuten bem merece tê-lo, num dos poucos dias em que não houve dilúvio a marcar as corridas de Yorkshire. Não terá sido a única a pensar como um ataque daqueles está condenado ao insucesso, mas esta é uma ciclista que, apesar dos 36 anos, continua a estar no topo. Foi uma aventura solitária que começou com menos de 50 quilómetros feitos na corrida. Dificilmente alguém acreditou ser possível chegar ao fim como vencedora, talvez mesmo as adversárias. Mas foi possível e no fim, não foi nada estúpido a forma como Van Vleuten conquistou o título mundial, deixando as adversárias a mais de dois minutos de distância.

Época de Julian Alaphilippe
(Fotografia: © ASO/Alex Broadway)
Para o fim fica o ciclista que não é justo escolher só um momento ou só uma corrida. Foi uma temporada simplesmente fenomenal de Julian Alaphilippe (Deceuninck-QuickStep). É um homem para todo o tipo de terreno. Ganhou o seu primeiro monumento e logo o dos sprinters (Milano-Sanremo), algo que ele nem é! Mas é quase tudo o resto. Homem de ataque, novo senhor da Flèche Wallonne (segunda vitória consecutiva), ataca a subir, ataca em plano, ataca quando sente que chegou o momento para tentar vencer. Só a Amstel lhe terá provocado alguma frustração, já mais do que esquecida depois de 14 dias de amarelo na Volta a França e duas vitórias de etapa. Ao todo foram 12 triunfos em 2019. Faltou fôlego nos Mundiais, o que nem surpreendeu dada a primeira fase de temporada a todo o gás. Alaphilippe é um fora de série e em França cresce a expectativa de quando (e se) este ciclista irá pensar em tornar-se num voltista para tentar ficar com aquela camisola amarela até aos Campos Elísios. Talvez um dia, mas não para já. Ainda só tem 27 anos.

»»A imparável Deceuninck-QuickStep««

»»Uma Bora-Hansgrohe cada vez mais para todo o terreno««

8 de dezembro de 2019

A imparável Deceuninck-QuickStep

(Fotografia: © Deceuninck-QuickStep)
Palavras para quê? É a Deceuninck-QuickStep! 68 vitórias em 2019. 15 dos 25 ciclistas ganharam corridas e quando chegou um estagiário, também esse corredor venceu. A equipa ganhou mais dois monumentos, foi a rainha das clássicas, mas também esteve no topo no Tour e vitoriosa na Vuelta. O que falta a esta equipa? Quem ganha assim, falta pouco ou nada. Julian Alaphilippe pode ter sonhado com uma vitória na Volta a França, mas nem o ciclista, nem a equipa têm esses objectivos, pelo que de todos os delineados para esta temporada falhou uma melhor prestação no Giro (até parece estranho não ter ganho nenhuma etapa) e um Enric Mas mais ao nível do épocas anteriores.

Nem tudo é perfeito e só assim esta equipa continua todos os anos em busca de ser melhor. Às vezes parece impossível, mas, tal como Alaphilippe demonstrou, não o é. O francês acabou por centrar grande parte das atenções nele, muito devido à senda de amarelo no Tour (14 dias não consecutivos) e duas vitórias de etapa (há um ano venceu também duas e foi o rei da montanha). Porém, estamos a falar de um ciclista com 12 vitórias, incluindo o seu primeiro monumento: a Milano-Sanremo. Ganhou ainda a Strade Bianche e começa a ser o rei da Flèche Wallonne, ao vencer pela segunda vez. Não há nada que este ciclista não seja capaz e em 2020 até vai experimentar a Volta a Flandres. Lutar pela geral no Tour, como se ficou a especular ainda mais depois do que fez na última edição, vai ser algo a pensar mais tarde.

Mas na Deceuninck-QuickStep há sempre espaço para mais ciclistas se destacarem. É talvez a única equipa que não sofre quando uma das suas figuras sai. Perdeu Fernando Gaviria, mas Fabio Jakobsen e Álvaro Hodeg estão em plena fase de afirmação, enquanto Elia Viviani somou 11 vitórias, incluindo a etapa que lhe faltava no Tour, e um título europeu. Está de saída para a Cofidis e não há lamentos porque a caminho vem Sam Bennett. Não há grandes dúvidas que o irlandês terá sucesso.

Kasper Asgreen, Florian Sénéchal e Rémi Cavagna são mais dois jovens a habituarem-se às grandes exibições e aos triunfos, enquanto Bob Jungels até esteve abaixo do esperado grande parte da temporada, principalmente no Giro, mas também teve os seus momentos, assim como um Zdenek Stybar, há algum tempo afastado das vitórias (uma delas foi no Alto do Malhão). Yves Lampaert não teve a época de clássicas que ambicionava, contudo, não deixou de agarrar algumas oportunidades.
Ranking: 1º (14835,15 pontos) 
Vitórias: 68 (incluindo Milano-Sanremo, Paris-Roubaix, três etapas no Tour e cinco na Vuelta) 
Ciclista com mais triunfos: Julian Alaphilippe (12)
Depois há dois belgas. Duas gerações. Philipe Gilbert (37 anos) foi o protagonista de um dos momentos da temporada. Conquistou o Paris-Roubaix e já só lhe falta a Milano-Sanremo para ter no currículo os cinco monumentos. Na Vuelta venceu duas etapas e já são sete na carreira na prova espanhola. E depois há Remco Evenepoel. Foi um início de temporada algo "tremido". Talvez a ansiedade de querer fazer muito bem rapidamente o tenha traído. O abandono na Volta aos Emirados Árabes Unidos não caiu bem na equipa, mas com apenas 19 anos e na sua primeira temporada no World Tour, não se pode dizer que seja uma surpresa que nem sempre fizesse as melhores da opções.

Habituado a ganhar tudo, passou pelo processo natural de adaptação. A certa altura, não parecia que estar tudo em harmonia. O director Patrick Levefere chegou a acusar Evenepoel de estar com peso a mais. Foi mais uma forma de "espicaçar" o jovem ciclista que em Junho começou a mostrar que está preparado para a responsabilidade que o espera. Até foi perfeito começar a ganhar em casa na Volta à Bélgica (uma etapa e a geral), mas foi a fenomenal exibição na Clássica de San Sebastián que confirmou o Evenepoel como um ciclista de topo entre os melhores. O antigo ciclista Tom Boonen alertou que o jovem belga teria de saber lidar com uma realidade completamente diferente da que estava habituado nos juniores e a boa notícia para a Deceuninck-QuickStep é que em seis meses Evenepoel demonstrou uma boa evolução a nível mental.

Aos 37 anos, Gilbert vai regressar à casa onde se tornou num dos ciclistas mais importantes do pelotão, a Lotto Soudal, pois nesta equipa não terá de dividir tanta atenção, numa altura em que não lhe resta muito mais tempo para concretizar o grande objectivo da carreira: ganhar a Milano-Sanremo. Evenepoel é agora um dos rostos do futuro da equipa Deceuninck-QuickStep, ainda que mais para as provas por etapas, já que Gilbert é um homem de clássicas. No entanto, fica reforçada a dúvida de como irá lidar a estrutura com a mais que clara vontade do belga de querer discutir uma grande volta, quando esta é uma equipa completamente virada para clássicas, sprints e vitórias de etapas.

Enric Mas está de saída precisamente porque para lutar por uma grande volta precisa de mais companheiros. Foi ao pódio no Vuelta em 2018, mas, apesar de muitas teorias que poderia utilizar o trabalho de equipas como a Ineos ou Jumbo-Visma a seu favor, esteve apagado no Tour. Lefevere chegou a prometer que contrataria ciclistas para ajudar o espanhol se este renovasse, mas Mas está a caminho da Movistar. Evenepoel poderá ser o ciclista que fará a Deceuninck-QuickStep alargar os seus objectivos, se não quiser perder o belga para outra equipa. Ou talvez até seja Alaphilippe a fazer os responsáveis da estrutura a pensar se é ou não altura de tentar ganhar uma grande volta e não "apenas" etapas.

A Deceuninck-QuickStep pode não precisar de mais nada para continuar a ser a que mais vence, mas haverá sempre caminhos novos a explorar, caso a equipa queira.

Para 2020, os objectivos vão manter-se iguais aos de sempre. O referido estagiário é o alemão Jannik Steimle, sprinter que assinou até 2021, contudo, numa perspectiva portuguesa, a atenção irá quase toda para João Almeida. Um dos mais promissores ciclistas da nova geração em Portugal vai chega ao World Tour pela porta grande e nesta equipa só se contrata os melhores ou os que têm tudo para o ser.

68 vitórias em 2019 que até foi um número mais baixo do que em 2018: 73. Mas continua muito acima dos rivais e nunca é de mais realçar como vários desses triunfos são nas principais corridas do calendário mundial.


11 de setembro de 2019

A etapa de loucos que recolocou Quintana na luta pela geral

(Fotografia: © Sarah Meyssonnier/La Vuelta)
Se na segunda-feira assistiu-se a uma das etapas de montanha mais aborrecida das grandes voltas este ano, esta quarta-feira assistiu-se a uma das melhores sem montanha de 2019 e de há muito tempo! Foi simplesmente um dia de loucos, palavra utilizada por muitos dos ciclistas, que estão de acordo ao considerarem que viveram um momento inesquecível e talvez até único numa carreira. Philippe Gilbert, o vencedor da etapa, é há 17 anos profissional e admitiu que nunca tinha visto algo igual. Foram 219,6 quilómetros - a tirada mais longa da Volta a Espanha - feitos a uma média de 50,63 quilómetros por hora! Entre a velocidade e o vento foi o caos. E até houve algum pânico, principalmente na Jumbo-Visma e houve também mais uma reviravolta: Nairo Quintana está de regresso na luta pela vitória.

É de deixar qualquer adepto da modalidade ainda mais apaixonado ao ver que na terceira grande volta do ano, com os ciclistas com tantos quilómetros já feitos, há vontade (e força) para dar um espectáculo destes, numa etapa que poderia muito bem ter sido encarada como uma para fazer com calma, um dia para os sprinters, com os homens da geral a pensar mais no que aí vem amanhã, quinta-feira. Poderia, mas não foi.

O vento fazia-se sentir na partida em Aranda de Duero e desde logo se percebeu no pelotão que alguém iria aproveitar esse factor. Talvez não se pensasse que ainda nem estivessem decorridos cinco quilómetros e já estavam 40 corredores a fugir, incluindo Quintana, acompanhado por três ciclistas da Movistar, entre eles Nelson Oliveira. O outro destaque era para os seis homens da Deceuninck-QuickStep que foram os principais responsáveis pelo ritmo alto, com a ajuda de equipas como a Movistar e Sunweb, por exemplo.

Lá atrás, Primoz Roglic acabou por ter um teste surpresa. O esloveno passou, a equipa nem por isso. É certo que houve um desgaste na perseguição e para garantir que Roglic ficava com Alejandro Valverde (Movistar), Miguel Ángel López (Astana) e Tadej Pogacar (UAE Team Emirates). Porém, numa subida não categorizada (não houve nenhuma nesta 17ª etapa), a Movistar acelerou e toda a Jumbo-Visma ficou para trás. Roglic ficou isolado e bem pode agradecer à Astana por provavelmente ainda estar de vermelho.

Quintana começou o dia a 7:43 minutos de Roglic. Estava mais do que afastado da luta pela vitória. Terminou a 2:24! Foi a Astana que assumiu o grupo, mais pequeno do que aquele que estava na frente (entretanto já reduzido a cerca de metade), e com a ajuda de um ciclista da Bora-Hansgrohe evitou o pior para Roglic, ainda que não tenha evitado que o seu próprio líder, López, caísse para quinto e tivesse agora mais um rival com quem se preocupar na luta pelos menos pelo pódio. A Astana ainda viu o seu líder a ser sancionado com dez segundos, tal como Jakob Fuglsang. Segundo a Marca, o dinamarquês terá empurrado o seu companheiro, numa ajuda ao colombiano e os comissários castigaram os dois. López está agora a 4:09 minutos de Roglic. Em quarto está Pogacar, líder da juventude - está em luta com López -, a 3:42.

Houve algum pânico entre os responsáveis da Jumbo-Visma e ficou a certeza que a equipa não pode deixar Roglic abandonado como aconteceu esta quarta-feira. Quando a etapa de loucos chegou ao fim em Guadalajara, não houve ciclista que não precisasse de recuperar o fôlego. Falta saber se vão recuperar para esta quinta-feira aguentar a muita montanha que o pelotão terá pela frente.

Roglic acabou por não perder assim tanto tempo. Quintana passou Valverde, que continua a 2:48, mas são ainda mais de dois minutos para o esloveno gerir. E Quintana tem falhado na montanha, tendo ganho uma etapa num dia com poucas dificuldades. Ou seja, as suas melhores exibições aconteceram em terrenos que não eram os mais propícios para as suas características, mas acaba por fraquejar nas etapas que deveria estar bem.

Porém, deixar o colombiano reentrar nas contas dá uma arma importante à Movistar, que tem duas cartas para jogar. O líder da Jumbo-Visma continua bem encaminhado para uma vitória histórica, mas nada está garantido e qualquer um dos candidatos pode pagar caro o enorme esforço da etapa de hoje, depois do dia descanso.

Neste dia de loucos, Wilco Kelderman da Sunweb (a 5:05 minutos) e James Knox da Deceuninck-QuickStep (a 8:03) entraram no top dez, de onde saíram Nicolas Edet (Cofidis) e Hermann Pernsteiner (Bahrain-Merida). Quem também não teve um dia fácil foi Ruben Guerreiro (Katusha-Alpecin), que chegou mais de 23 minutos depois de Gilbert. Desceu quatro posições na geral, sendo 19º a 35:33, numa altura em que se fala que a Lotto Soudal estará interessada no português.

(Fotografia: © La Vuelta)
Para a história ficará a terceira etapa mais rápida de sempre na Vuelta, que Lawson Craddock chamou de "etapa que viverá na infâmia" quando colocou os seus dados no Strava. E claro, ficará também para a história a sétima vitória de etapa em Espanha de um Philippe Gilbert em grande forma aos 37 anos, pois foi o seu segundo triunfo na corrida. Sam Bennett (Bora-Hansgrohe) tentou sozinho contrariar o trabalho de seis ciclistas da Deceuninck-QuickStep, mas estava escrito que seria um dia para a equipa belga e para o grande ciclista que é Gilbert.

Classificações completas, via ProCyclingStats.

18ª etapa: Comunidad de Madrid. Colmenar Viejo - Becerril de la Sierra (177,5 quilómetros)


É uma etapa com percurso idêntico àquela que proporcionou uma reviravolta na classificação em 2015, quando Fabio Aru tirou a liderança a Tom Dumoulin, acabando por conquistar aquela que é a sua única grande volta. O italiano já abandonou, o holandês está a recuperar da lesão no joelho contraída no Giro.

Os actores principais serão outros e terão quatro primeiras categorias para ultrapassar, com a etapa a não ter chegada em alto, ao contrário do que tem sido normal, apesar de terminar com uma pequena subida. Qualquer uma das subidas categorizadas acaba acima ou dos 1700 ou dos 1800 metros de altitude. Não haverá aquelas pendentes brutais de 20%, mas serão subidas longas e desgastantes. Puerto de Navacerrada: 11,8 quilómetros a 6,3% de pendente média; Puerto de la Morcuera: 13,2 a 5%; Puerto de la Morcuera: 10,4 a 6,7%; Puerto de Cotos: 13,9 a 4,8%.




»»Dez anos de camisola vermelha««

»»Roglic vai aproveitando todos os rivais para consolidar a liderança««

5 de setembro de 2019

Philippe Gilbert mostra como se reage a uma desilusão

(Fotografia: © Sarah Meyssonnier/La Vuelta)
Como se encara uma desilusão? Olha-se em frente, estabelece-se um novo objectivo e empenha-se todas as forças no que se quer ganhar e não no que se perdeu. Assim mostrou Philippe Gilbert na 12ª etapa da Vuelta. O belga nunca escondeu como ficou desiludido ao não ser incluído no oito eleito pela Deceuninck-QuickStep para a Volta a França. Mas conseguiu tirar uma motivação extra para pensar nos Mundiais, com uma Volta a Espanha pelo meio. Entretanto, anunciou que está de saída da equipa, mas para que não existam dúvidas do seu profissionalismo, foi à procura de uma vitória nesta grande volta. E alcançou-a bem aos seu estilo. Há muito que não é um ciclista de muitos triunfos, mas quando vence, é quase sempre nos grandes palcos e de uma forma que demonstra o ciclista de enorme nível que é.

Gilbert cortou a meta em Bilbau de mãos bem abertas. Sinalizava as dez vitórias de etapas em grandes voltas, seis na Vuelta, três no Giro e uma no Tour. E se só isto já seria um marco na carreira da maioria dos ciclistas, na do belga estes triunfos são apenas o início de um lista impressionante. Ganhou quatro dos cinco monumentos (falta a Milano-Sanremo), a Lombardia duas vezes.  Fez a tripla das Ardenas, vencendo a Amstel Gold Race quatro vezes. Foi ainda campeão do mundo em 2012, numa lista que conta com mais de 70 vitórias.

Aos 37 anos está dedicado em vestir novamente a camisola do arco-íris, que agora está com Alejandro Valverde (Movistar). Gilbert sabe bem o que é estar em alta e depois viver momentos maus e que testam a resistência física e mental de um ciclista. Foi assim quando se mudou para a BMC, depois de três anos fenomenais na Lotto. Na BMC, Gilbert até foi campeão do mundo, mas não viveu uma fase de sucesso com aquela desejada camisola vestida. Só venceu por uma vez, precisamente na Vuelta.

O percurso de Yorkshire tem vários ingredientes que agradam a Gilbert. Qualquer ciclista de clássicas, seja do pavé, seja das Ardenas - e o belga dá-se bem nos dois terrenos - gosta do que o espera a 29 de Setembro. Gilbert admitiu que estava a preparar um pico de forma para o Tour, depois de ter ganho o Paris-Roubaix. A sua exclusão da grande volta francesa, mudou-lhe os planos. "Tive de começar de novo, passar de novo pelo processo [de ganhar forma] e de fazer todas aqueles sacrifícios necessários para estar em forma. Foi complicado. Mas encontrei a motivação pensando na oportunidade de ser campeão do mundo este ano", admitiu.

Podia deixar passar as semanas e começar a pensar no regresso à equipa na qual viveu a maioria dos seus principais momentos da carreira: Lotto-Soudal. Assinou por três anos, mas não quis despedir-se de uma Deceuninck-QuickStep de costas voltadas para os responsáveis e para os companheiros. Afinal foi esta equipa que lhe permitiu regressar ao topo.

Foi a Espanha a querer ganhar e esta quinta-feira, com a preciosa ajuda de Tim Declerq. O companheiro ajudou-o a estar confortável na fuga e a não perder contacto quando houve ataques. Gilbert fez o resto na última e complicada subida do dia (2,2 quilómetros a 12,2% de pendente média) deixando toda a concorrência para trás. Depois foi dar tudo nos últimos quilómetros até à meta para não ser apanhado por dois espanhóis ávidos em vencer: Alex Aranburu (terceiro segundo lugar para a Caja Rural e segundo para este corredor) e Fernando Barceló (Euskadi-Murias).

Já vai falando em tom de despedida da formação belga, mas mesmo triste por não ter ido ao Tour, ficam os elogios de Gilbert: "Penso que fomos inovadores durante três ou quatro anos. Penso que desde 2017, quando eu cheguei, esta equipa mudou a forma de correr, competindo com muitos líderes que se sacrificavam uns pelos outros", salientou. Considera que as equipas vêem agora como esta táctica funciona e os números fabulosos de vitórias, muitas delas nas principais corridas em clássicas ou por etapas, são a prova disso mesmo.

Agora Gilbert quer continuar a pensar nos Mundiais e depois do que se viu na etapa que terminou no País Basco, há que ter o belga muito em conta para Yorkshire.

13ª etapa: Bilbau - Los Machucos. Monumento Vaca Pasiega (166,4 quilómetros)


Depois dos 171,4 quilómetros entre o Circuito de Navarra e Bilbau, a 45,5 de média (não houve tanto descanso para o pelotão como na quarta-feira) chega mais uma etapa que pode ser muito importante. Será o primeiro grande teste à liderança de Primoz Roglic (Jumbo-Visma). Serão sete contagens de montanha em 166,4 quilómetros, com pouco tempo para recuperar entre elas.

A questão será se Astana e Movistar vão tentar isolar Primoz Roglic antes da subida de categoria especial de Los Machucos (gráfico à direita), ou se todos se guardarão para 6,8 quilómetros finais. Estes começam logo com quase 18% de pendente e depois de uma pequena fase de descanso, os ciclistas enfrentarão 19%, 25% e tirando as fases que dará para respirar um pouco, o mais fácil será a 10%. Perto do final haverá novamente uma parte a 25%.

Subida dura, onde quem quer estar na luta pela Volta a Espanha está proibido de falhar.

Classificações completas, via ProCyclingStats.




»»A vitória que poderá dar um empurrão à continuidade da equipa««

»»Tem a palavra Primoz Roglic««

20 de abril de 2019

Será ano de tripla nas Ardenas? Alaphilippe é o candidato e tem a seu lado o último ciclista a alcançar o feito

(Fotografia: © Deceuninck-QuickStep)
É altura de deixar o pavé e atacar os muros das Ardenas. A famosa semana de clássicas começa com a Amstel Gold Race que, objectivamente, não fica nas Ardenas! Mas faz parte do trio de corridas que este ano tem Julian Alaphilippe como a grande figura. Em 2018 como que houve uma espécie de passagem de testemunho entre Alejandro Valverde e o francês. Perante a temporada que o ciclista da Deceuninck-QuickStep está a realizar, a questão é se vai conseguir fazer a tripla. O favoritismo é dele, mas a concorrência é grande, tanto em qualidade, como em número de adversários, neste último caso principalmente na Amstel Gold Race.

Apesar de esta ser uma semana que muito tem tido Valverde como figura, o espanhol nunca ganhou a Amstel. É rei na Flèche Wallonne: cinco vitórias, quatro consecutivas, com Alaphilippe a quebrar a senda no ano passado, mostrando que o Muro de Huy afinal não era o Muro Valverde. Ficou a sensação de uma passagem de testemunho... Na Liège-Bastogne-Liège, Valverde vai em quatro conquistas e no ano em que está de arco-íris vestido, o campeão do mundo não se importaria nada de juntar mais umas vitórias ao seu vasto currículo, a começar pela Amstel Gold Race. A época não tem sido pródiga em triunfos como no passado recente, mas ninguém coloca Valverde como carta fora do baralho.

Porém, é inevitável que Alaphilippe chegue às Ardenas como o grande favorito. É o ciclista mais em forma, com oito vitórias, tendo conquistado o seu primeiro monumento na Milano-Sanremo. Pensou-se que seria na Liège-Bastogne-Liége que abriria a contagem pessoal, mas o francês está feito num todo o terreno. No entanto, é este terreno, das próximas três corridas, que lhe assenta tão bem. Desde 2011 que ninguém faz a tripla e Alaphilippe pode pedir uns conselhos ao último autor da proeza: o companheiro de equipa, Philippe Gilbert. Claro que será de contar que o belga terá também alguns planos próprios, ainda mais com a motivação que traz ao ter ganho o Paris-Roubaix. E já se sabe, nesta Deceuninck-QuickStep há sempre mais do que uma opção, o que se tem revelado um formato de sucesso.

É já na Amstel Gold Race deste domingo que Alaphilippe poderá encontrar o maior entrave a fazer a tripla. É a corrida com um maior lote de candidatos, porque tendo alguns "berg" (os famosos muros), não são os que esperam ao pelotão nas duas corridas seguintes. Por isso, a prova holandesa seduz tanto ciclistas que apostam na fase do pavé, como os que têm as Ardenas como objectivo.

Peter Sagan (Bora-Hansgrohe), Wout van Aert (Jumbo-Visma), Oliver Naesen (AG2R) e Greg van Avermaet (CCC) são exemplo disso mesmo. Sagan - que em 2018 estreou-se na Amstel com um quarto lugar - vai fugir à regra e este ano irá estrear-se na Liège, enquanto os restantes terminarão esta fase da época na Amstel. E não, não nos estamos a esquecer de Mathieu van der Poel. O ciclista da Corendon-Circus é o único a conseguir ofuscar um pouco o estrelato de Alaphilippe e até bateu o francês no sprint da Brabantse Pijl, naquela que foi a primeira prova de 2019 que Alaphilippe não venceu. Até então tinha conquistado as duas clássicas em que tinha participado (Strade Bianche e Milano-Sanremo) e pelo menos uma tirada nas corridas por etapas.

Van der Poel tem, em cada corrida que se tem estreado este ano, deixado o seu impacto. Soma cinco vitórias e é um dos principais favoritos numa corrida que o pai, Adrie, ganhou em 1990. Para Mathieu a maior preocupação prende-se na distância, pois está pouco habituado a fazer provas acima dos 200 quilómetros. Mas o quarto lugar na Volta a Flandres mostrou que não é um problema de maior!

Todos os nomes até agora mencionados estão entre os candidatos, mas podemos juntar mais alguns há lista. A começar pelo vencedor de 2018: Michael Valgren. Não está a ser uma mudança nada feliz do dinamarquês para a Dimension Data, depois de um ano tão forte na Astana. Contudo, regressar a um palco de uma grande vitória poderá ser o tónico que precisa. A seu lado estará outro vencedor da Amstel: Enrico Gasparotto. Venceu em 2012 e 2016, sendo terceiro há um ano, ao serviço da Bahrain-Merida. Já tem 37 anos, mas as Ardenas traz sempre ao de cima o melhor deste italiano.

E é curioso como a Dimension Data contratou o pódio da Amstel de 2018, pois o segundo classificado foi Roman Kreuziger, que trocou a Mitchelton-Scott pela formação sul-americana. Boa equipa para a Amstel, a ver vamos se a equipa encontra o caminho de uma bem vitória bem necessária.

Precisamente na Mitchelton-Scott temos outro nome do pavé, Matteo Trentin, mas atenção a Michael Albasini e Daryl Impey. Alexey Lutsenko é uma das figuras de 2019 da Astana, que terá ainda Jakob Fulgsang e não será de esperar um Luis León Sánchez à espera de pedir licença para atacar. Depois de vencer a Volta a Flandres, Alberto Bettiol (EF Education-First) ganhou outro destaque, com Tim Wellens (Lotto Soudal) e Michael Matthews (Sunweb) a serem dos mais fortes candidatos. Michal Kwiatkowski (Sky) é outro homem a ter em conta e atenção a Dylan Teuns (Bahrain-Merida).

Entre os portugueses temos Rui Costa (UAE Team Emirates) que sempre gostou muito desta semana das Ardenas. A Katusha-Alpecin chamou Ruben Guerreiro para a Amstel, com José Gonçalves a ficar guardado para a Flèche Wallonne (quarta-feira) e Liège-Bastogne-Liège (domingo, dia 28).

O pelotão para as corridas belgas já terá algumas alterações, mas antes temos então a Amstel Gold Race, a corrida que tem à espera dos três primeiros umas cervejas para o brinde no pódio, não fosse o nome da prova o de uma cerveja!

É uma corrida que se tornou bem mais interessante desde que o seu percurso foi alterado, principalmente com a retirada do Cauberg como ponto de decisão. A tentação do pelotão era esperar por esta subida, o que retirava aos mais de 200 quilómetros anteriores um ponto de interesse. Depois do Cauberg há então ainda mais duas subidas: Geulhemmerberg e Bemeleberg. Antes de aqui se chegar, acaba por se verificar uma maior eliminação de ciclistas e o percurso pode proporcionar mais ataques. Serão 265,7 quilómetros, com partida em Maastricht e o final em Berg en Terblijt. O Eurosport 1 tem previsto o início da transmissão para as 14:15, depois da última etapa da Volta à Turquia.

Lista completa de inscritos, via ProCyclingStats.

(Gráfico: La Flamme Rouge)


14 de abril de 2019

Gilbert a um monumento de um dos grupos mais exclusivos do ciclismo

(Fotografia: Facebook Paris-Roubaix)
"Os vencedores do Paris-Roubaix são, por vezes, bastante velhos!" A frase de Philippe Gilbert ganhou um novo destaque. Foi o que disse antes de uma corrida que sempre alertou que poderia ganhar e até parece inacreditável que, aos 36 anos, só a tenha feito por três vezes (2007, 2018 e 2019)! Mas quando se tem a classe de Gilbert, quando se é um ciclista do melhor quando se fala em clássicas, não são precisas muitas oportunidades para alcançar o seu objectivo. E a idade pode mesmo ser só um número. Ali, no mítico velódromo de Roubaix, apresentou-se finalmente a oportunidade por que tanto sonhou. Só Nils Politt (12 anos mais novo) lhe podia estragar o momento. Mas é Gilbert. Pode não ter a experiência no Paris-Roubaix, mas tem toda a experiência de uma carreira que está a apenas um monumento de o colocar num dos grupos mais exclusivos do ciclismo.

Só falta a Milano-Sanremo para o belga completar o ciclo de cinco monumentos. Durante a sua carreira, tão depressa se falava que Gilbert tinha tudo para igualar o feito de Eddy Merckx, Roger De Vlaeminck e Rik Van Looy, como rapidamente o belga entrava numa fase mais discreta e longe das vitórias. E tanto se falou deste feito depois daquela simplesmente brilhante vitória na Volta a Flandres em 2017, naquele que foi o ano do renascimento de Gilbert, coincidindo com a saída da BMC para a sua actual equipa, Deceuninck-QuickStep. O entusiasmo parecia, entretanto estar a esmorecer. Agora, depois de conquistar o famoso troféu de pedregulho de Roubaix, o assunto ficará novamente na ordem do dia. Só falta mesmo a Milano-Sanremo! Neste monumento italiano já fez terceiro em 2008 e 2011.

Feitas as contas, Gilbert tem agora duas Lombardias (2009 e 2010), uma Liège-Bastogne-Liège (em 2011, ano em que fez a tripla na Ardenas), uma Volta a Flandres (2017) e um Paris-Roubaix. É certo que já não restam muito tempo a Gilbert para fechar o ciclo dos monumentos, mas, mais do que nunca, está certamente definido o objectivo para as épocas que continuar a competir: tudo pela Milano-Sanremo.

Fala-se aqui apenas de monumentos, pois a história que o belga fez este domingo, foi numa dessas históricas corridas. Contudo, não se poderá esquecer que é um ciclista com triunfos em mais clássicas, grandes voltas e estamos perante um campeão do mundo (2012).

Na sua passagem pela BMC, uma das grandes frustrações de Gilbert foi ver a porta de Roubaix completamente fechada. A equipa dava o pavé a Greg van Avermaet. Gilbert sempre disse que poderia ganhar no Inferno do Norte. Aqui está Gilbert no topo, enquanto o seu compatriota, esse sim, ameaça estar mesmo a eclipsar-se aos 33 anos. Desde que venceu Roubaix em 2017 que não mais conquistou uma clássica e este domingo foi um dos principais derrotados. Entre um mau posicionamento no grupo, uma equipa incapaz de ser decisiva e um próprio Avermaet demasiado egoísta, a querer resolver sozinho o que talvez tivesse tido solução com alianças, deitou por terra as aspirações.

Por outro lado, Gilbert foi perfeito tacticamente. Claro que ajuda estar numa das melhores equipas de clássicas. Porém, quando foi preciso ser ele a resolver, a atacar ou responder a ataques, fê-lo na perfeição, tal como soube trabalhar com os rivais, mesmo tendo no grupo de seis o companheiro Yves Lampaert. Nunca se escondeu.

Além dos dois ciclistas da Deceuninck-QuickStep e Politt (Katusha-Alpecin), estava Peter Sagan (Bora-Hansgrohe), Wout van Aert (Jumbo-Visma) - que exibição monstruosa deste ciclista - e Sep Vanmarcke (EF Education First). Foi Politt quem começou por mexer e ajudou à formação deste grupo com mais de 50 quilómetros para a meta, com Sagan a dar a "sacudidela" decisiva num grupo que ainda tinha vários dos candidatos. Foi Politt que mexeu a 14 quilómetros e Gilbert respondeu. Trabalharam para não mais serem apanhados. Depois, a experiência de Gilbert e um melhor fôlego final fizeram a diferença no velódromo. Lampaert fechou o pódio.

Na Bélgica havia uma sensação de desilusão por nenhum dos seus ciclistas ter ganho as clássicas que por ali se realizaram, Gilbert compensou indo a França fazer mais um pouco de história. Só falta a Milano-Sanremo. Quantas vezes vai esta frase passar pela mente de Gilbert?

Classificação completa neste link, via ProCyclingStats.

Van Aert e a mentalidade do tudo é possível

Num Paris-Roubaix percorrido a grande velocidade, 43 quilómetros/hora de média, a expressão "corrida por eliminação" dificilmente descreve melhor uma clássica como este monumento. Continuamos numa fase de Roubaix seco, ou seja, a espera continua por uma edição com chuva. Mas houve espectáculo. Poucas quedas comparativamente com edições recentes, mas incidentes suficientes para deixar fora muitos pretendentes. Que o diga Alexander Kristoff. Não há boa forma que resista a três furos! A UAE Team Emirates ficou Fernando Gaviria ainda antes de partir devido a uma febre e o norueguês foi um dos  mais azarados do dia.

Mas houve um homem que quis lutar contra todos os azares e se tivesse vencido teria também ele tido direito a uma história épica em Roubaix. É difícil não imaginar Wout van Aert como um futuro vencedor deste monumento. Perder tempo em Trouée d'Arenberg (Floresta de Arenberg), um dos sectores de pavé mais famoso, devido a uma saída de "estrada", mas conseguir recuperar, mudar de bicicleta e sofrer quase de imediato uma aparatosa queda no asfalto, mas recuperar mais de um minuto de vantagem, ter força e discernimento para entrar no sexteto que ficou na frente nos últimos 50 quilómetros... Quanto ciclistas serão capazes de tal.

E tudo sozinho, sem ajuda dos colegas da Jumbo-Visma. Pelo meio evitou chocar em carros, cair na berma, evitou todo o tipo de obstáculos, como se de uma corrida de ciclocrosse se tratasse. Não se lhe poderia pedir mais. O belga quis tanto finalizar em grande uma corrida monstruosa, mas acabou por ficar para trás num ataque dos companheiros de fuga. A estatística dirá que foi 22º, pois ao perder contacto com a frente, abrandou o ritmo. As forças finalmente faltaram-lhe, mas será uma exibição que tão cedo não será esquecida.

Van Aert merece ser destacado ao lado de um Nils Politt que se vai confirmando. Aos 25 anos, o alemão realizou uma tremenda época de clássicas do pavé. Foi quinto na Volta a Flandres, por exemplo. A Katusha-Alpecin ficou perto da grande vitória que tanto precisa. Politt pode não ser a estrela da equipa, mas confirmou expectativas. As clássicas terão ganho mais um excelente ciclista para discutir vitórias.

Em baixo, o vídeo do último quilómetro dos 257 (29 sectores de pavé) da 117ª edição do Paris-Roubaix.


»»Uma vitória num monumento que vale muito mais do que o nome na história««

»»Van der Poel é já um grande ausente do Paris-Roubaix e até dos seus calções se fala««

30 de dezembro de 2018

Quando ganhar é completamente natural

Alaphilippe foi um dos ciclistas que muito contribuiu para a sensacional
época da equipa belga (Fotografia: Facebook Quick-Step Floors)
Resumir a época da Quick-Step Floors até se consegue fazer numa só palavra: ganhar! Será mais justo repeti-la: ganhar, ganhar, ganhar! A histórica equipa belga está habituada a ser das que mais vence, ou mesmo a que mais vence. Mais de 50 vitórias, não é nada de anormal, nem chegar às 60, mas 73? Número impressionante (um recorde da formação) ainda mais se se tiver em conta que entre elas estão monumentos, vitórias de etapas em grandes voltas e nem entra outros grande resultados que foram o pódio de Enric Mas na Vuelta, ou a camisola da montanha no Tour de Julian Alaphilippe.

Patrick Lefevere tem construído ano após ano equipas com um espírito de luta e união que se traduz em vitórias, divididas por vários dos seus ciclistas. Em 2018 foram 14 em 28 que compunham o plantel (acresce dois estagiários a partir de Agosto). Pode haver um ou outro que se destaque mais, mas há espaço para todos irem atrás do seu momento. Não foi há muito tempo que Lefevere via a Quick-Step Floors ter dificuldades em ganhar nas clássicas da casa. Uma pequena crise mais do que resolvida nas últimas duas épocas.

2018 foi simplesmente memorável: Volta a Flandres (Niki Terpstra) e Liège-Bastogne-Liège (Bob Jungels), cinco etapas do Giro, quatro no Tour e outras tantas na Vuelta. Mas há mais: E3 Harelbeke, Através da Flandres, Flèche Wallonne (que enorme exibição de Julian Alaphilippe para quebrar a senda de Alejandro Valverde), Clássica de San Sebastian, uma etapa no Critérium du Dauphiné, duas na Volta à Catalunha e no País Basco, três na Volta à Califórnia... Recorrendo ao ProCyclingStats, aqui fica o link para a lista de vitórias deste ano em que ganhar pareceu ser algo absolutamente natural para os ciclistas de azul.

E talvez esta naturalidade tenha uma base de que todos terão a sua oportunidade, tal como todos terão de ajudar outros, quando assim se impõe. É de salientar isso mesmo, que corredores como Alaphilippe, Bob Jungels e o capitão Philippe Gilbert são líderes natos que são também os primeiros a trabalharem para os companheiros. Esta capacidade e respeito pela entre-ajuda faz com que além das principais figuras, possam surgir as potenciais figuras do futuro. Álvaro Hodeg e Fabio Jakobsen são a prova disso. Quando lhes foi dada liberdade, estes dois jovens não só tiveram a ajuda dos colegas mais experientes, como aproveitaram para vencer.

A comprovar como esta equipa consegue tirar o melhor de todos os ciclistas há Elia Viviani. Quebrou contrato com a Sky, onde era um sprinter solitário, que lá ia conquistando umas vitórias, para assinar por uma equipa que fez dele o homem mais ganhador da temporada entre as formações do World Tour. Foram 19, mais nove do que em 2017, que até tinha sido a sua melhor época. A diferença esteve ainda na qualidade dos triunfos: quatro etapas no Giro e três na Vuelta como maior destaque, além do título nacional, por exemplo.

Ranking: 1º (13.385,97 pontos)
Vitórias: 73 (incluindo Volta a Flandres, Liège-Bastogne-Liège, cinco etapas no Giro, quatro no Tour e Vuelta)
Ciclista com mais triunfos: Elia Viviani (19)

Chegou para ocupar a vaga deixada por um Marcel Kittel que não queria competir por espaço com Fernando Gaviria. Viviani parecia ser uma segunda opção possível, mas foi uma de primeira categoria. De tal forma, que com a saída do colombiano, Viviani irá assumir o papel principal nos sprints e já pisca o olho ao Tour.

Gaviria teve uma temporada de altos e baixos. A aposta nas clássicas correu francamente mal, muito devido a quedas. Porém, no principal objectivo, a Volta a França, Gaviria confirmou tudo o que era esperado. Vestiu de amarelo logo a abrir e na sua estreia no Tour. Foram duas etapas ganhas antes de um abandono na fase montanhosa da corrida. Questão a melhorar se quiser ir discutir o mais famoso dos sprints, nos Campos Elísios. Kittel tinha ganho cinco em 2017, mas para quem foi pela primeira vez ao Tour, Gaviria confirmou que quer e pode ser o sprinter de referência desta grande volta nos próximos anos.

Falta saber se na UAE Team Emirates irá encontrar o comboio de qualidade que tinha na Quick-Step Floors. Custa acreditar que uma equipa que ganha o que ganha tenha dificuldades em garantir a sua estabilidade financeira. Sem um patrocinador principal para 2019 - a Quick-Step mantém-se, mas com um investimento menor - Lefevere viu-se obrigado a abrir mão de alguns dos seus ciclistas para aliviar o gasto com os ordenados, precavendo a eventualidade de ter um orçamento menor para o próximo ano.

Não renovou com Terpstra e permitiu que Gaviria ouvi-se propostas, ainda que tivesse  contrato com a Quick-Step Floors. Apesar de ter aparecido a Deceuninck, Lefevere percebeu que o dinheiro da UAE Team Emirates tinha dado a volta à cabeça de Gaviria. Deixou o seu sprinter sair e agora irá ver-se se o colombiano consegue quebrar o famoso enguiço do ciclista que sai da Quick-Step Floors e não mais consegue atingir o nível que tinha quando ali estava.

Max Schachmann (Bora-Hansgrohe), Laurens de Plus (Jumbo-Visma) e Jhonathan Narváez (Sky) também seguem novos rumos nas carreiras. Contudo, perante o historial desta estrutura, é difícil dizer que a Quick-Step Floors fica mais fraca, mesmo que tenha perdido Gaviria. A capacidade de se auto-renovar é incrível e o que mais se espera é ver como Hodeg, Jakobsen, Kasper Asgreen e Rémi Cavagna possam aparecer anda mais. E claro, ficaram Alaphilippe, Jungels, Stybar, Gilbert, Enric Mas...

O espanhol acaba por ser uma das questões que se coloca para 2019. Depois da tremenda exibição na Vuelta - vitória numa etapa e segundo na geral -, será que Lefevere aumentará a sua aposta nas grandes voltas, pensando também mais numa eventual vitória ou em mais pódios? Esta é uma equipa cuja génese se prende às clássicas e etapas. Jungels é outro voltista, mas dá mais indicações de ser um top dez, do que homem de discutir essas corridas, pelo menos para já.

Contudo, Enric Mas deixou indicações bem diferentes, de que pode ir mais longe e o seu discurso não engana. Vai atrás de ganhar e até já pensa em conquistar o Tour, onde estará em 2019, época que começará na Volta ao Algarve. Vai entrar no seu último ano de contrato, pelo que o director terá uma decisão a tomar, ainda que não se adivinhe ser fácil ficar com Mas tendo em conta o interesse que despertou.

Já Alaphilippe, apesar do Tour a todos os níveis impressionante - duas etapas e foi o rei da montanha -, o francês quer continuar a ser um ciclista para vencer corridas de uma semana, apostar tudo e mais alguma coisa nas Ardenas e depois ir até ao Tour fazer mais uns brilharetes. Tem 26 anos e não está afastada a hipótese de ainda se tornar num voltista, mas não para já.

Quase parece mal não falar de mais ciclistas que se mostraram em 2018 e contribuíram para o memorável ano, mas a época da Quick-Step Floors daria um livro de muitas páginas. De texto e de bonitas fotografias! Uma delas seria a da última equipa a vencer o contra-relógio colectivo nos Mundiais, vertente que o presidente da UCI decidiu terminar.

Termina-se com uma das contratações que vai receber muita atenção. O "miúdo maravilha" da Bélgica só podia assinar por esta equipa. Remco Evenepoel dá o salto de júnior directamente para o profissionalismo, depois de vencer quase todas as corridas em que participou em 2018. Títulos nacionais, europeus, mundiais, foi tudo dele. A exibição na corrida de estrada, em que fez uma recuperação incrível até chegar à frente da corrida e vencer, deu logo a entender que Evenepoel não ia ficar longe dos holofotes do World Tour.

A diferença de realidades é muita, pelo que 2019 será um ano de adaptação para Evenepoel. Não será ciclista para clássicas do pavé, querendo tornar-se num voltista. É quase inevitável colocá-lo no topo da lista de ciclistas jovens a seguir em 2019. Para já, o belga é apenas um dos dois reforços da equipa que se chamará Deceuninck-Quick Step.


Permanências: Philippe Gilbert, Julian Alaphilippe, Bob Jungels, Elia Viviani, Yves Lampaert, Enric Mas, Zdenek Stybar, Kasper Asgreen, Eros Capecchi, Rémi Cavagna, Tim Declercq, Dries Devenyns, Álvaro Hodeg, Fabio Jakobsen, James Knox, Iljo Keisse, Davide Martinelli, Michael Morkov, Fabio Sabatini, Maximiliano Richeze, Pieter Serry, Florian Sénéchal e Petr Vakoc.

Contratações: Remco Evenepoel e Mikel Frolich Honoré (Virtu Cycling).

»»A Sky de grandes vitórias, da revelação do ano e da polémica««

»»Uma Bora-Hansgrohe que não foi só Peter Sagan««

26 de julho de 2018

Sagan e Gilbert, ciclistas da mesma estirpe

(Fotografia: © BORA-hansgrohe/Bettiniphoto)
Desistir não faz parte do vocabulário da maioria dos ciclistas. Multiplicam-se as histórias daqueles que ensanguentados, até com fracturas, acabam corridas, quando o comum dos mortais iria direitinho para o hospital. Porém, quando se está na mais icónica das corridas de três semanas, este tipo de postura ganha outra dimensão. O Tour começou logo com um Lawson Craddock a fracturar a omoplata e um corte no sobrolho transformou-se logo numa das imagens da competição. Ainda está em prova. Em dois dias, dois dos melhores ciclistas da actualidade mostraram do que são feitos. Philippe Gilbert e Peter Sagan são da mesma estirpe na forma como lutam, como acreditam, como nunca baixam os braços e como não há queda que os assuste.

Peter Sagan bem diz que a camisola verde só estará ganha quando cortar a meta em Paris, mesmo que matematicamente já esteja garantida. O eslovaco não é muito de quedas, mas numa das descidas da curta etapa dos Pirenéus (65 quilómetros) caiu a alta velocidade. Com o equipamento rasgado, sangue na perna e no braço e muito, muito dorido. Foi assim que terminou um dos dias mais difíceis do Tour. Pairou a possibilidade de abandono, mas Sagan lá estava em Trie-sur-Baïse para partir para a 18ª etapa e completar o que falta desta corrida.

Tentou sprintar pela vitória, mas faltou-lhe aquela explosão, numa preparação muito complicada para se colocar bem. Mas estava lá, a responder ao trabalho e apoio da Bora-Hansgrohe. Já tem três vitórias de etapa e a camisola verde. Aconteça o que acontecer, ganhe ou não em Paris, Sagan é uma das figuras deste Tour e mais uma vez um exemplo de profissionalismo.

E Gilbert então... 60 quilómetros com uma rótula partida?! O belga pode já não estar no seu melhor, mas continua a ser um senhor no pelotão e um elemento de extrema importância na Quick-Step Floors. Um verdadeiro capitão. Ia na liderança da 16ª etapa quando, numa descida, falhou uma curva, não evitou um choque com um muro baixo e foi parar do outro lado. Um enorme susto. Gilbert acabou a fazer sinal para a câmara que estava tudo bem. Estava? Acabou a etapa e ainda foi ao pódio para receber o prémio da combatividade. Os exames médicos confirmaram a fractura e só um joelho no estado que se pode ver na fotografia em baixo parou Gilbert.


Démare sob suspeita

(Fotografia: © ASO/Pauline Ballet)
Não são perfeitos. Também já tiveram atitudes menos bonitas, mas Sagan e Gilbert são líderes de quem ninguém duvida. Arnaud Démare até poderia entrar neste grupo de lutadores. O francês tem sofrido tanto na montanha, escapado por pouco à exclusão por falhar o tempo limite, como aconteceu em 2017. Tudo para alcançar o que finalmente conseguiu: ganhar uma etapa. Até esta quinta-feira Démare foi falado mais por andar a lutar contra o tempo, do que propriamente por estar a fazer valer a aposta quase total da Groupama-FDJ nele, na ausência de Thibaut Pinot. Ganhou a etapa três dias depois do seu contrato ter sido renovado, mas mais uma vez tem uma grande vitória ensombrada por suspeitas de ter recebido ajuda do carro de equipa nas subidas.

Desta feita foi André Greipel quem as lançou. O alemão abandonou o Tour quando percebeu, nos Alpes, que não ia cumprir o tempo limite. Então foi logo bem claro: "Outros podem escolher agarrar-se ao carro de equipa, mas se eu não consegui chegar por mim próprio, então prefiro ir para casa. Não estou triste. Sou realista e um desportista justo." Já em casa a assistir à corrida, Greipel publicou um twit após a etapa dos 65 quilómetros: "Talvez alguém deva dizer à Groupama-FDJ e ao Arnaud Démare que há GPS para seguir [os ciclistas] no Tour. Tiro o chapéu por ter perdido apenas nove minutos para Quintana numa subida de 17 quilómetros." O sprinter da Lotto Soudal terminou com a hashtag #notforthefirsttime, isto é, "não foi a primeira vez".

Greipel está a referir-se à vitória de Démare no monumento da Milano-Sanremo em 2016. Então o francês foi acusado de ter recebido ajuda do carro de equipa para ultrapassar a Cipressa, depois de ter caído e ficado atrasado relativamente ao grupo da frente. Matteo Tosatto, então na Tinkoff, e Eros Capecchi, da Astana, serviram de testemunhas. Surgiram relatos que também um comissário teria visto Démare, mas o ciclista não recebeu qualquer sanção.

Na altura, como agora, Démare afirmou que há quem esteja na estrada para ver estas situações e este ano junta-se o vídeo-árbitro. Para o sprinter, ganhar esta quinta-feira em Pau foi a resposta perfeita a Greipel que, entretanto, apagou o twit. Num aspecto Démare tem razão, perante as palavras do alemão, a suspeita irá permanecer, mesmo que nada tenha feito de mal. Contudo, a fama e o respeito têm de ser construídos por ele e este tipo de acusações não estão a ajudar a um estatuto que Démare não está a conseguir conquistar. Também não ajudou que tenha ganho hoje com um "chega para lá" a Christophe Laporte (Cofidis). O problema deste tipo de suspeitas é que se torna difícil de não pensar que onde há fumo...

Mas vamos ao que é um facto e não suspeita. Foi a segunda vitória numa etapa no Tour, a primeira foi em 2017. E a Groupama-FDJ bem precisava dela. David Gaudu e Rudy Molard já se mostraram em fugas, mas sem resultados. Démare precisava corresponder à aposta com este triunfo e ainda faltam os Campos Elísios. Se lá chegar...

Pode ver aqui as classificações.

(O texto continua por baixo do vídeo.)




19ª etapa: Lourdes - Laruns, 200,5 quilómetros

Depois de um dia para ganhar fôlego - menos para Nairo Quintana (Movistar) que caiu e irá partir para a derradeira etapa de montanha algo dorido -, chegam os dois momentos decisivos. Antes do contra-relógio de 31 quilómetros, há 200,5 por percorrer, com passagem pelo mítico Tourmalet. 17 quilómetros com pendentes a chegar aos 10% e o topo a 2115 metros de altitude. Mas o Tourmalet está a meio da etapa. É o Col d'Aubisque  (16 quilómetros, com pendente média de 4,9%) que marca o final da montanha no Tour, ainda que a chegada esteja à distância de cerca de 20 quilómetros, depois dos ciclistas ultrapassarem a dificuldade.

Ao todo teremos duas quartas categorias, uma primeira, uma especial, uma segunda e outra especial. Mikel Landa (Movistar) lançou o repto que é preciso atacar cedo. Que assim seja. Que se jogue tudo, para deixar em aberto um contra-relógio complicado. Nem Geraint Thomas, nem a Sky dão o Tour como ganho, apesar do 1:59 sobre Tom Dumoulin (Sunweb). Se se juntar aquele Primoz Roglic (Lotto-Jumbo) de quarta-feira, naqueles intensos 65 quilómetros - o esloveno está à espreita de um surpreendente pódio -, então a Sky não terá sossego, mesmo com Chris Froome como gregário de luxo.



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