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19 de abril de 2019

Várias equipas já sondam Van der Poel e há uma que não surpreende

(Fotografia: print screen)
Mathieu van der Poel despertou de vez o interesse de várias equipas do World Tour. O próprio o admite. Se era um ciclista que estava a criar algumas expectativas, principalmente depois de ter sido campeão nacional em 2018, este ano confirmou-as e, se calhar, até as ultrapassou. Mas não vai ser fácil convencer o holandês a sair da Corendon-Circus e parece que nem ter a melhor equipa de clássicas interessada o faz pensar quebrar contrato.

Já são cinco vitórias esta época, mas foram as na Através da Flandres (corrida World Tour) e na De Brabantse Pijl que o tornaram num dos ciclistas mais apetecíveis do momento. Isto sem esquecer o fantástico quarto lugar na Volta a Flandres, numa estreia que mais auspiciosa, só se tivesse terminado no pódio ou mesmo ganho. A super-estrela do ciclocrosse já está a ser também uma na estrada, pelo que o contrato até 2022 com a sua actual equipa parece ser algo difícil de manter.

Ou talvez não. "Há de facto grandes equipas que me contactaram, mas não quero mencionar nomes. Disse a todas que, para já, terão de esperar. Estou sob contrato", salientou ao Sporza. Não quis dizer nomes, contudo, ao ser questionado pelo possível interesse de Patrick Lefevere, Van der Poel não o negou, recordando a relação que o director da Deceuninck-QuickStep tem com o seu pai, Adrie van der Poel. "Faz sentido que tenha havido um contacto", disse.

Deceuninck-QuickStep querer um dos ciclistas que maior potencial apresenta neste momento para as clássicas, não é certamente nenhuma surpresa, ainda mais quando é necessário pensar em contratar sangue novo. E claro, porque a formação belga sempre procura ter os melhores homens de clássicas no seu plantel.

Apesar de ser um ciclista de nível World Tour, Van der Poel sente-se bem na sua equipa e há outro pormenor a ter em conta. O seu pai, Adrie, afirmou que a Corendon-Circus já pensa em tentar subir ao principal escalão, ainda que não tenha sido uma das equipas a pedir a licença para as próximas três temporadas. Afinal, acabou de chegar ao escalão Profissional Continental e com Van der Poel nas fileiras, não terá problemas em receber convites para as grandes corridas e em cimentar a sua estrutura, provavelmente começando a reforçar mais o plantel. Com a exposição mediática que tem, mais patrocinadores poderão chegar.

Adrie van der Poel referiu que Lefevere é "suficientemente inteligente para não estar sempre a perguntar". Porém, a primeira abordagem está feita. O pai do ciclista de 24 anos, realçou que não vê razões para Mathieu mudar de equipa, vendo o actual contrato como algo para honrar.

A questão financeira interfere muitas vezes neste tipo de decisões e, no caso de Van der Poel, há uma Canyon muito interessada em ter este ciclista a competir com as suas bicicletas. Apesar de patrocinar a Movistar e a Katusha-Alpecin, por exemplo, a imagem de Van der Poel está a tornar-se extremamente valiosa, talvez só sendo comparável ao que Peter Sagan representa para a Specialized. Esta marca foi decisiva quando o eslovaco assinou pela Bora-Hansgrohe e, a título de curiosidade, é esta marca que fornece as bicicletas à Deceuninck-QuickStep. A Canyon poderá ter uma palavra a dizer no futuro do holandês, mas não será fácil, nem barato manter Van der Poel como a sua imagem.

Recentemente a Canyon lançou uma nova publicidade com o holandês.



Mathieu vai fechar a época de clássicas na Amstel Gold Race, uma corrida que o pai ganhou em 1990. Arie referiu que o filho não lhe faz muitas perguntas sobre a prova, até porque o percurso é diferente. Salientou ainda que não está surpreendido com o que Mathieu está a alcançar tão rapidamente.

O ciclista também falou da corrida de domingo, considerando que é um dos favoritos, mas não um dos principais favoritos. "Há ainda corredores que já provaram mais do que eu neste tipo de corridas", afirmou, deixando um elogio a Julian Alaphilippe (Deceuninck-QuickStep), ciclista que bateu ao sprint da De Brabantse Pijl: "Acho que é actualmente o melhor ciclista no pelotão. É bom ter a oportunidade de competir contra alguém como ele." Considerou ainda que Greg van Avermaet é outro atleta a ter em atenção na Amstel Gold Race.

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12 de abril de 2019

Van der Poel é já um grande ausente do Paris-Roubaix e até dos seus calções se fala

(Fotografia: © Photo News/Corendon-Circus)
Aproxima-se o Paris-Roubaix (domingo) e um dos ciclistas mais falados é o que não estará presente. Com apenas 24 anos, no seu primeiro ano numa equipa Profissional Continental (ainda nem está no World Tour, mas mais cedo ou mais tarde lá chegará), o impacto que está a ter é tal, que é já considerado uma das principais ausências do monumento francês. E ainda nem o fez uma única fez em elite. A culpa não é sua. A equipa não recebeu convite para o Inferno do Norte, situação que, perante os resultados de Mathieu van der Poel, deixa muitos, a começar pelo se avô, desiludidos pela sua ausência. Muitos, menos o ciclista. Na sua perspectiva, assim tem algo por que ambicionar para 2020.

A fama do holandês já é tal, que consegue ser notícia por quase tudo. Até pelos calções brancos! Sim, a sua opção de cor de equipamento gerou muita conversa. Primeiro porque aquela cor nos calções é uma que está como que "proibida", oficiosamente, claro. Basicamente considera-se que mostra de mais. Fica à consideração de cada um! Porém, a escolha não foi estética, foi táctica.

Na Através da Flandres, que Van der Poel ganhou, o ciclista usou os calções pretos com a camisola de campeão nacional e é este o ponto fulcral. "Eles [directores da equipa] viram que nas imagens [transmitidas] do helicóptero era difícil distinguir o Mathieu do campeão luxemburguês, Bob Jungels", explicou o pai do ciclista, Adrie van der Poel, um vencedor da Volta a Flandres, ao De Telegraaf.

O pai assumiu que ficou surpreendido com a decisão até ter percebido a razão. Aliás, da discussão que a escolha dos calções brancos gerou, parece que só Jetse Bol, holandês da Burgos-BH chegou mais rapidamente à conclusão, levantando de imediato a questão se seria para diferenciar dois ciclistas com duas camisolas de campeão nacional idênticas. Ambas as bandeiras são vermelhas, brancas e azuis, com riscas horizontais, mudando um pouco os tons do vermelho e azul. Ao longe, com os ciclistas a grande velocidade, não era fácil perceber logo quem era quem.

Com os calções brancos, os directores conseguiram facilmente identificar o seu ciclista e dar-lhe instruções tácticas de como proceder no pelotão. "Os calções brancos foram uma opção brilhante", acabou por admitir o pai de Van der Poel. O ciclista alcançou um excelente quarto lugar no monumento, na sua estreia, com uma queda pelo meio.

Do pai para o avô. Raymond Poulidor, uma das lendas do ciclismo francês, dá voz à desilusão de não poder ver Van der Poel nos pavés do Inferno do Norte. Primeiro começou por dizer ao Het Nieuwsblad que se não fosse a queda na Volta a Flandres, o neto poderia ter alcançado uma vitória. Perante os resultados deste ano tanto na estrada - quatro vitórias, a última na primeira etapa do Circuito de Sarthe, em França -, como no ciclocrosse - basicamente ganhou tudo o que havia para ganhar na recente época -, Van der Poel iria ser uma das figuras do Paris-Roubaix, disso Poulidor não tem dúvidas.

"É uma grande pena que ele não faça o Roubaix. Na sua forma, com as suas excepcionais qualidades, ele poderia mesmo fazer algo", assegurou Poulidor. Mas o jovem Van der Poel não está nada preocupado por não ir ao monumento francês. Aliás, afirmou mesmo estar satisfeito com o calendário que tem para 2019, francamente melhor do que em épocas anteriores, dada a subida da equipa ao segundo escalão mundial. Para o ciclista, o mais importante não é falhar Roubaix, é estar na Amstel Gold Race, que se realiza na semana seguinte.

"Acabar em quarto na Flandres não quer dizer automaticamente que se vá fazer o mesmo em Roubaix. É óptimo partir na Amstel como campeão holandês. Se tivéssemos acrescentado Roubaix [ao calendário], nunca teríamos preparado completamente [a corrida]. Também não queria fazer isso a mim próprio", salientou. "Será algo [o Paris-Roubaix] que eu posso ambicionar para o próximo ano", acrescentou.

E isso parece quase certo, com a organização do Paris-Roubaix, a ASO, a já deixar algumas dicas que a Corendon-Circus receberá o desejado convite em 2020. Mathieu van der Poel tornou-se rapidamente numa estrela na estrada, depois de, a par de Wout van Aert (Jumbo-Visma), ser uma das grandes figuras do ciclocrosse. A equipa não deverá encontrar muitos problemas para começar a receber mais convites, principalmente para as clássicas, mas não só.

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8 de abril de 2019

Uma vitória num monumento que vale muito mais do que o nome na história

(Fotografia: © EF Education First)
Uma vitória num monumento é sempre um ponto alto da temporada, mesmo para uma equipa como a Deceuninck-QuickStep, tão habituada em conquistá-los. Porém, para certas equipas, um triunfo destes vai muito além desse ponto alto, dessa glória que é vencer uma das corridas mais históricas e importantes do ciclismo. Para algumas equipas pode ser a fonte de sobrevivência. Há cerca de ano e meio o director Jonathan Vaughters até recorreu ao crowdfunding para tentar salvar a sua equipa. Não foi preciso e agora parece ter encontrado alguma estabilidade financeira que lhe permite pensar um pouco mais além da presente época. Os resultados começam a aparecer.

Desde 2014 que o início de época não era tão animador. A temporada está longe de estar feita só porque Alberto Bettiol venceu a Volta a Flandres, ou porque Daniel Martínez ganhou uma etapa no Paris-Nice. No entanto, a confiança pode muito bem se ter instalado numa equipa que recentemente tanto alcançava um bom resultado, como caía quase num quase esquecimento. Atravessou mesmo um jejum de dois anos sem triunfos do nível World Tour.

Em pouco mais de uma década de história - foi criada em 2007 -, esta equipa já venceu quatro dos cinco monumentos - só falta a Milano-Sanremo -, etapas em todas as grandes voltas e inclusivamente um Giro, por intermédio do canadiano Ryder Hesjedal. Já foi em 2012, numa das vitórias mais surpreendentes dos últimos anos. E recordando os monumentos: Johan Vansummeren ganhou o Paris-Roubaix em 2011, Daniel Martin deu a Liège-Bastogne-Liège em 2013 e a Lombardia em 2014 à equipa, além da Volta a Flandres de Bettiol no domingo.

A fusão com a Cannondale (antiga Liquigas) em 2015 marcaria o início de uma época difícil para a estrutura. Algumas boas vitórias iam surgindo, mas nem todos os ciclistas rendiam perto do esperado apesar do potencial como Joe Dombrowski, Andrew Talansky - ainda venceu um Critérium du Dauphiné antes de se retirar muito cedo -, Pierre Rolland e Sep Vanmarcke, um dos melhores ciclistas das clássicas do norte, mas sempre perseguido por algo que o impede de alcançar uma grande vitória.

Com a saída da Garmin no final dessa época de 2015, a equipa perdeu força financeira e segurar bons ciclistas tornou-se uma missão difícil. Daniel Martin foi o primeiro grande nome a partir para outro projecto, mas nas temporadas seguintes, além do veterano Ryder Hesjedal, jovens promissores também foram saindo, casos de Davide Formolo, Matej Mohoric, Dylan van Baarle, Rylan Mullen e até Alberto Bettiol foi para a BMC. Só por um ano, pois após o ponto final nesse projecto, comprado pela CCC, o italiano regressou "a casa". E em boa hora.

A EF Education First salvou a estrutura da Slipstream de Jonathan Vaughters no final de 2017. Primeiro fez parceria com a Drapac, mas em 2019 ficou com o naming solitário, após a saída da Drapac da equipa principal. "Durante muitos anos, lutámos para dispormos de fundos e não conseguíamos ter atenção aos pequenos detalhes que são necessários para ganhar. Com a EF Education First a tomar conta, a patrocinar e financiar, nós podemos olhar para esses detalhes, a perspectiva da ciência desportiva, do treino, da orientação, do apoio. E esses detalhes dão resultado e grandes resultados", salientou o director da equipa, no rescaldo da vitória de Bettiol na Volta a Flandres.

Rigoberto Uran tem carregado quase todo o peso da responsabilidade de dar resultados à equipa, um pouco a par de um Sep Vanmarcke, a quem parece sempre faltar algo, ou acontecer algo nos momentos decisivos. Porém, esta EF Education First talvez esteja a conseguir olhar pela primeira vez em alguns anos para um futuro que vá além de uma temporada. Já tem o seu colombiano promissor, Daniel Martínez, e já contratou outro, Sergio Higuita. Contratou também um dos grandes talentos americanos, Sean Bennett, escola Axel Merckx, ou seja, Hagens Berman Axeon, tal como Logan Owen. Ainda não perdeu a esperança quanto a Dombrowski e Hugh Carthy vai dando sinais que talvez seja 2019 o ano da afirmação. Do Equador, mas de uma equipa colombiana, chegou Jonathan Caicedo.

Taylor Phinney é a eterna incógnita, mas sem dúvida uma voz de comando. Enquanto alguns dos mais novos vão começando a mostrar-se, caso de Martínez nas provas por etapas e agora de Bettiol nas clássicas (a primeira vitória profissional ser num monumento é fenomenal), outros estão no processo de adaptação ao nível World Tour. Além destes jovens, esta EF Education First consegue segurar ciclistas experientes que ainda têm muito por alcançar. Michael Woods surgiu tarde como homem de vitórias, mas mais do que a tempo de singrar. De Rigoberto Uran espera-se mais algum pódio numa grande volta e mantém-se vivo o sonho de uma vitória. O azar de Vanmarcke alguma vez terminará? Há ainda um Sebastian Langeveld que dá indicações de estar num segundo fôlego na carreira.

Talvez faltasse um tónico para de uma vez por todas se juntar a alguma estabilidade financeira, os resultados que justifiquem o investimento do patrocinador. Não há muito melhor do que uma vitória na Volta a Flandres.


7 de abril de 2019

A ambição de vencer bateu vontade de não perder para um rival

(Fotografia: Facebook EF Education First)
A vitória de Alberto Bettiol só não é tão surpreendente como as de Gerald Ciolek na Milano-Sanremo em 2013 ou de Mathew Hayman no Paris-Roubaix de 2016 porque este italiano fez-se anunciar nas últimas semanas. Não o quiseram levar a sério e também ficaram mais preocupados em não perder para nenhum dos seus mais directos rivais do que encetar numa perseguição digna desse nome. Resultado? Bettiol venceu com todo o mérito e mais algum, frente a um grupo de candidatos de luxo que se preocupou mais em garantir que o adversário não chegava em condições de lutar por uma vitória, mesmo que isso significasse abdicar de estar nessa mesma discussão. Esta atitude bonita não foi, mas lá que a vitória de Bettiol foi linda, isso foi.

O italiano atacou na última passagem pelo Kwaremont. Nada de muito preocupante quando no grupo estavam Greg van Avermaet, Peter Sagan (em baixo de forma, é certo, mas é Sagan), Oliver Naesen, Alejandro Valverde, Wout van Aert, Mathieu van der Poel, Bob Jungels, Tiesj Benoot, Alexander Kristoff, Michael Matthews, entre outros. De seguida veio o Paterberg, curto, menos de 400 metros, mas com rampas a 20%! Bettiol passou e arrancou para os 14 quilómetros mais longos da sua carreira. Lá atrás, olhavam-se. Aceleravam um pouco, um ou outro até tentou sair, mas principalmente olhavam uns para os outros.

Ninguém quis levar um rival à disputa. Tinham mais vontade de não perder frente a um adversário daquele grupo, do que propriamente em colocarem-se numa posição de discutir a vitória num monumento! As pernas já pesavam, é certo. Ninguém ia fresco e era claro como alguns tinham as forças no limite. Também Bettiol as tinha e gastou-as todas para agarrar uma oportunidade que não sabe se poderá a surgir.

Van der Poel (Corendon-Circus) foi um dos que ainda tentou, isto depois de sofrer uma estranha queda que o obrigou a uma grande recuperação. Fechou quarto na sua estreia na Flandres. Também Valverde (Movistar) ainda fez um forcing, mas não arriscou ir sozinho. Também em ano de estreia fez oitavo e já fala em regressar em 2020.

Talvez o mais frustrante tenha sido ver Greg van Avermaet (CCC). O belga tem na Flandres a corrida da sua vida e teve uma excelente hipótese de a conquistar. Depois de ver a sua equipa ficar para trás, a 100 quilómetros da meta, no Kapelmuur, mas a eventualmente recuperar, ficou novamente sozinho, mas a mostrar mais capacidade do que muitos dos rivais. Ainda assim esteve escondido naquela fase final. Puxou aqui e ali, contudo, pareceu esperar que alguém fizesse mais esse trabalho. Sagan há muito que aprendeu a lição de não o fazer e do grupo era talvez Avermaet e Oliver Naesen (AG2R) os dois com maior responsabilidade, além do eslovaco da Bora-Hansgrohe. Kristoff também, mas é um ciclista com menos capacidade para este tipo de esforço.

No entanto, Avermaet disse que não era a sua responsabilidade puxar os homens mais rápidos para depois ser batido na meta. Curiosas palavras, de quem já aproveitou trabalho indêntico. Mas não será da sua responsabilidade colocar-se numa posição para ganhar? O tempo passa e o belga, de 33 anos, não vence a Volta a Flandres. E a correr assim, vai ser difícil. Desde que conquistou o Paris-Roubaix em 2017 que Avermaet não vence uma clássica.

Michael Matthews (Sunweb) foi mais um estreante e andou a testar-se (cuidado com ele para as próximas Voltas a Flandres, prova que deverá entrar mais vezes no seu calendário), enquanto a Deceuninck-QuickStep não foi tão dominadora como outrora, mas ainda foi colocar um jovem Kasper Asgreen no segundo lugar. O único que atacou para ir buscar um segundo lugar que nem essa posição mais ninguém pareceu querer daquele grupo. Alexander Kristoff (UAE Team Emirates) venceu no sprint para o terceiro.

Numa corrida emotiva, com algumas reviravoltas, o nome a decorar é mesmo Alberto Bettiol. Afinal não é qualquer um que pode dizer que a sua primeira vitória como profissional foi num monumento. Mais, foi no monumento dos monumentos, como é considerado por muitos. Repetiu as palavras que nem acreditava no que tinha acontecido. As lágrimas de emoção chegaram a tomar conta dele.

Porém, como foi dito no início, a sua vitória não foi uma total surpresa. Já tinha estado bem na Milano-Sanremo e esteve ainda melhor na E3 BinckBank Classic, onde foi quarto. O aviso estava dado. Só teve de esperar que Sep Vanmarcke mostrasse que o seu joelho não está ainda a 100% para jogar a sua cartada na Flandres. Saiu um Ás, porque Bettiol era claramente uma aposta e não um joker.

Grande Bettiol. Aos 25 anos, este ciclista natural de perto de Florença, estreou-se no World Tour na estrutura que representa. Passou 2018 na BMC, mas foi uma época azarada na ajuda a Avermaet. O regresso à EF Education-First tem sido de afirmação e certamente que agora já não irá mais ser menosprezado. É um homem com um monumento. Depois de se mostrar em juniores, estava a demorar a confirmar-se como elite. E há melhor forma de o fazer como o fez em Oudenaarde?

Na corrida feminina também venceu uma italiana: a campeã da Europa, Marta Bastianelli (Virtu Cycling). A portuguesa Daniela Reis (Doltcini-Van Eyck Sport) fechou na 55ª posição, a 4:38 minutos. (Classificação feminina, da corrida de 159,2 quilómetros que começou e acabou em Oudennarde.)

Nelson Oliveira desqualificado?

O português da Movistar estava a realizar mais uma boa corrida, chegou a ir para a frente, mas, quando já tinha sido apanhado, surgiu a informação que tinha sido desclassificado por não ter respeitado os "procedimentos de segurança".

No final ficaram todos surpreendidos pelo anúncio da organização. A começar pelo próprio Nelson Oliveira. "Não sei o que aconteceu, mas alguém cometeu um erro e não fui eu. Eu terminei a corrida e não foi retirado dela", escreveu no Twitter. E na classificação surge na 45ª posição, a 2:20 do vencedor. Pode ver neste link a classificação completa dos 207,1 quilómetros, via ProCyclingStats.

Dois monumentos, dois novos ciclistas a conquistar um, depois de Julian Alaphilippe ter conquistado pela primeira vez uma destas cinco corridas na Milano-Sanremo. E agora é só esperar uma semana para o Inferno do Norte. Contagem decrescente até ao Paris-Roubaix.

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6 de abril de 2019

A Volta a Flandres de dois estreantes de quem tudo se espera

(Fotografia: Facebook Volta a Flandres)
Um tem 24 anos, outro 38. Um acabou de conquistar a sua primeira vitória numa corrida World Tour, outro tem mais de meia centena, só deste nível e veste a camisola de campeão do mundo, algo que o primeiro por acaso também tem, mas de ciclocrosse. Mathieu van der Poel e Alejandro Valverde tornaram-se nos dois grandes destaques de uma Volta a Flandres que, por si só, é um enorme destaque na temporada. É uma corrida vista muitas vezes como o monumento dos monumentos e o certo que nos muros da Flandres, em 102 edições, construíram-se lendas, destruíram-se sonhos e muita da história do ciclismo passa por esta corrida.

Até é algo estranho não começar um texto por Peter Sagan (Bora-Hansgrohe) quando se fala de Volta a Flandres. Afinal, nos últimos anos, as atenções centraram-se inevitavelmente nele. Ganhasse ou não. Fê-lo em 2016, quando se pensou "finalmente". Não, Sagan não surge o topo das preferências, o que não significa que não seja favorito. Os problemas de saúde (de estômago) que o afectaram antes do Tirreno-Adriatico e que o obrigaram a ficar algum tempo sem treinar, deixaram Sagan aquém da forma que normalmente apresenta nesta altura. Ainda assim, anda a discutir corridas, mas falta-lhe aquela força final. Ainda assim, numa corrida feita por eliminação, Sagan não pode ser menosprezado.

Mas o eslovaco até estará algo satisfeito, pois terá mais ciclistas que os rivais serão obrigados a estar atentos. Claro que todos se perguntam o que poderá Alejandro Valverde (Movistar) fazer. Esperou pela fase final da carreira para se estrear neste monumento. No entanto, tem dado conta de si no pavé e já se sabe que rampas é com ele. Como Sagan, tem andado afastado das vitórias, mas como Sagan, pode aparecer a qualquer momento. É Valverde um favorito? Sim. A sua leitura de corrida, a ponta final e a muita experiência, mesmo que menor neste tipo de corridas, poderão levar o "Bala" a fazer um pouco de história: nunca nenhum espanhol ganhou a Volta a Flandres.

Contudo, mais favorito é o outro estreante. Mathieu van der Poel é o nome do momento. Venceu na quarta-feira a Através da Flandres numa tremenda exibição e tanto ele como a sua equipa, a Corendon-Circus, sabem que passou a ser um homem marcado. Ou ainda mais marcado. Este holandês já não estava a passar despercebido e o rei do ciclocrosse limitou-se a confirmar o que se esperava dele. Tem do seu lado o facto da pressão não ser dele. É apenas o primeiro ano a este nível e tem mais do que tempo para cumprir o seu destino na Volta a Flandres. Mas lá que na Holanda se alimenta o sonho de o ver ganhar, lá isso se alimenta. Isto um ano depois de Niki Terpstra ter quebrado o longo jejum para os holandeses. A última vitória havia sido em 1986 por Adrie van der Poel. O nome não é coincidência, é mesmo o pai de Mathieu!

Outro homem do ciclocrosse, que foi afastado do trono mundial este ano por Van der Poel, Wout van Aert está bastante contente por ser um dos favoritos, naquela que será apenas a sua segunda participação na Volta a Flandres. Porém, a pressão é bem maior, comparativamente com o seu rival holandês. O belga está agora na Jumbo-Visma e tem alcançado resultados positivos. Mas foi contratado para ganhar. Tem apenas 24 anos e também com tempo para confirmar todas as expectativas. Só que o seu salto para o World Tour dá-lhe uma maior responsabilidade. Mas para quem diz que a Volta a Flandres é menos stressante do que o ciclocrosse, só se pode esperar que vá andar ao ataque, ao seu estilo. A dar espectáculo, portanto.

E quem escolher da Deceuninck-QuickStep? Os adversários adorariam saber, mas qualquer um pode ganhar, mesmo um Tim Declercq, Iljo Keisse ou Kasper Asgreen, que estarão mais preocupados em trabalhar, mas se surgir a oportunidade... Contudo, é normal que as apostas estejam mais entre Philippe Gilbert (vencedor há dois anos), Yves Lampaert, Zdenek Stybar e Bob Jungels.

Greg van Avermaet e a sua CCC pouco têm convencido, mas o belga ainda não desistiu de conquistar a corrida da sua vida. O mesmo acontece para Sep Vanmarcke (EF Education First), mas falta perceber como estará a sua forma após lesão. Oliver Naesen (AG2R) diz que ficou doente depois de levar com champanhe no rosto no pódio da Gent-Wevelgem, mas estará à partida em Antuérpia. Alexander Kristoff (UAE Team Emirates) recuperou estatuto após a vitória nessa corrida, Tiesj Benoot (Lotto Soudal) é sempre um forte candidato, assim como um Matteo Trentin (Mitchelton-Scott) que está bem melhor do que há um ano. John Degenkolb também tem mostrado melhorias, mas será desta que o colega da Trek-Segafredo, Jasper Stuyven, ganha o seu monumento?

Candidatos não faltam e aqui fica a lista de inscritos, via ProCyclingStats.

Algumas curiosidades

  • Desde Fabian Cancellara que ninguém ganha mais do que uma vez a Volta a Flandres. O suíço até tem três vitórias, a última em 2014. Kristoff, Sagan, Gilbert e Terpstra são os únicos que poderão conquistar um segundo triunfo. Mas há um que pode repetir pela terceira vez...
  • Stijn Devolder continua a competir aos 39 anos. Está na Corendon-Circus, ao lado de Van der Poel, mas numa corrida como esta, tudo pode acontecer. É improvável, mas este belga tem duas Voltas a Flandres, tendo ganho em 2008 e 2009.
  • Além de Cancellara, Johan Museeuw, Tom Boonen, Eric Leman, Fiorenzo Magni e Achiel Buysse venceram a Volta a Flandres por três ocasiões. Ninguém tem quatro vitórias.
  • Nenhum português esteve no pódio da Volta a Flandres e este ponto serve para lançar Nelson Oliveira. O ciclista da Movistar será o único luso na corrida, sendo a quinta participação numa corrida que muito gosta. Ao contrário do Paris-Roubaix, a Flandres tem sido mais simpática para Oliveira, somando dois tops 20. Um furo estragou-lhe a Através da Flandres, onde andou na frente da prova, mas mostrou como está num bom momento de forma. De destacar também a presença de Daniela Reis (Doltcini-Van Eyck Sport) na corrida feminina, que partirá antes da masculina.
  • Quanto ao percurso de 270,1 quilómetros entre Antuérpia e Oudenaarde, a principal diferença é a saída de Pottelberg, o que faz com que haja menos uma subida. Serão 17 para o espectáculo. Os primeiros 80 quilómetros serão um bom aquecimento, até ao aparecimento das primeiras dificuldades. Contudo, será já perto dos 120 que as decisões vão começar a ser tomadas, quando os ciclistas cumprirem a primeira das três passagens pelo Oude Kwaremont. São 2,2 quilómetros e a pendente média é de apenas 4%, mas chega a rondar os 11% de máxima. O Kapelmuur surge antes dos 170 quilómetros e nos 750 metros chega-se a subir a 20%! Já dentro dos 60 quilómetros finais haverá uma sequência final assombrosa, a começar no Oude Kwaremont, que volta a ser passado já perto da meta, antes do Paterberg. 360 metros infernais de pavé, com rampas de 20% e basicamente sempre acima dos 10%!
  • A chuva poderá marcar presença durante a corrida, ainda que o vento não deverá causar problemas de maior. Há alguma previsão para precipitação até para o final da corrida, mas mesmo que não aconteça, tem chovido naquela zona, pelo que atenção aos sectores de pavé.

3 de abril de 2019

Corre por instinto, dá espectáculo e já ganha no World Tour. Abram alas: chegou Van der Poel

(Fotografia: Facebook Corendon-Circus)
O poderio e superioridade de Mathieu van der Poel na recente época de ciclocrosse chegou a gerar comentários de como estava a tornar a modalidade aborrecida. A culpa não é só do holandês. Afinal, não pode ser só sua a responsabilidade da concorrência mal lhe chegar aos calcanhares. Porém, este mesmo Van der Poel, que poderá ou não ter tornado o ciclocrosse no mínimo previsível (fica ao critério opinativo de cada um), vem oferecer à vertente de estrada mais um elemento de imprevisibilidade. Que seja bem-vindo! Na Através da Flandres não nasceu uma estrela, "apenas" ficou mais do que confirmado que há mais uma e daquelas que gosta de dar espectáculo.

Ciclista de ataque, rápido a ler a corrida, rápido a reagir e sem medo de arriscar. Van der Poel não negou como competiu por instinto, pois considera que nem sempre se deve ficar preso a um plano. Cair-se-ia na tentação de, ao ver o holandês correr, a desgastar-se em fugas, ou em tentar recuperar terreno, sem se poupar a esforços na frente da corrida, que no final poderia pagar o preço. Mas não. Van der Poel, 24 anos, soube gerir todo o seu esforço, sobre ler os seus adversários e depois foi avassalador no sprint. Era de facto o mais forte nesta área entre o grupo que discutiu a vitória na Através da Flandres, contudo, quantas vezes se assistiu os favoritos falharem no momento decisivo.

Van der Poel não deixou escapar de, naquela que foi apenas a sua segunda corrida World Tour, ganhar, depois de no domingo já ter alcançado um impressionante quarto lugar na Gent-Wevelgem (soma alguns triunfos em corridas de escalão inferior). Que sprint! Deixou todos os rivais sem hipótese e até teve tempo para desacelerar e celebrar. O holandês conquistou assim um maior favoritismo para o monumento do próximo domingo, naquela que será a sua estreia na Volta a Flandres. Sem surpresa sacudiu qualquer pressão. O que acontecer, acontecerá, mas o que já cativou neste ciclista é que gosta de fazer acontecer e não de ficar à espera.

Dada a sua dedicação ao ciclocrosse - com passagens no BTT -, Van der Poel ainda tem uma longa margem de progressão na estrada. É, por exemplo, um ciclista pouco habituado a distâncias longas. Os quase 250 quilómetros da Gent-Wevelgem foram algo inédito para o holandês. Na Volta a Flandres serão 267,7 e para Van der Poel o favorito é Peter Sagan (Bora-Hansgrohe). Que duelo será se o eslovaco estiver bem e se se juntar Wout van Aert (Jumbo-Visma).


A referência a Van Aert não é por acaso. É a outra estrela do ciclocrosse, que esteve apagada esta temporada. Mas também ele tem estado bem na estrada. Porém, na particular rivalidade entre os campeões do mundo do ciclocrosse, agora ambos na estrada, Van der Poel já está na frente. Ganhou uma corrida World Tour. Fê-lo numa equipa que este ano subiu a Profissional Continental, a Corendon-Circus, e que está a tirar os frutos do seu investimento. Percebe-se porque tem o ciclista seguro até 2022. Mesmo que acabe por sair mais cedo, a equipa garante o encaixe de algum dinheiro se alguém o quiser levar antes. Se continuar a somar bons resultados, Van der Poel vai garantir muitos mais convites para corridas importantes para a Corendon-Circus. É uma pena que não vá ao Paris-Roubaix. Faltou o tal convite.

Quando se fala de genes, então Van der Poel está destinado a ser um grande ciclista. É filho de Adrie van der Poel, um vencedor da Volta a Flandres, Liège-Bastogne-Liège, Amstel Gold Race, duas etapas no Tour... Foi também campeão do mundo de ciclocrosse. Mathieu segue-lhe os passos e até já veste a camisola de campeão nacional de estrada, mesmo que a aposta neste vertente seja recente. E já agora, tem como avô materno um tal de Raymond Poulidor, uma das principais referências do ciclismo francês nas décadas de 60 e 70, vencedor de uma Vuelta, escapou-lhe o Tour (oito pódios, mas nenhum vitória), onde conquistou sete etapas. Dois Critérium du Dauphiné, uma Milano-Sanremo...

Van der Poel está a começar a construir o seu currículo, mas parece que a família tem mais um campeão também na estrada, já que no ciclocrosse o irmão, David (três anos mais velho) tem igualmente algumas vitórias, ainda que o seu mano mais novo o ofusque. David também está na Corendon-Circus juntamente com Mathieu.

Maldito furo

Anthony Turgis (Direct Energie) e Bob Jungels - a picar o ponto para a Deceuninck-QuickStep - completaram o pódio (pode ver neste link a classificação completa), com Lukas Pöstlberger (Bora-Hansgrohe) e Tiesj Benoot (Lotto Soudal) a fecharem o quinteto que discutiu a corrida e que deveria ter sido um sexteto. Maldito furo que tirou a Nelson Oliveira (Movistar) a oportunidade de continuar na frente da corrida, ele que andou na fuga e até em solitário na frente.

A corrida ficou ainda marcada pela insólita interrupção que se deveu porque foi necessário transportar de ambulância ciclistas da corrida feminina. Marcada por quedas, esta prova atrasou-se um pouco, o que levou à decisão de parar a competição masculina. No recomeço, Lukas Pöstlberger (Bora-Hansgrohe) não estava na frente e foi com a ajuda de uma moto da televisão que recuperou a sua posição devida.

Elle van Dijk (Trek-Segafredo), compatriota de Van de Poel, venceu a prova das senhoras isolada. Daniela Reis (
Doltcini-Van Eyck Sport) foi 80ª, a 2:06 minutos.

»»O que se passa com Moscon?««

»»Um Kristoff de raiva que não se deixa abater««

1 de abril de 2019

O que se passa com Moscon?

(Fotografia: Facebook Gianni Moscon)
Pouco se tem falado de Gianni Moscon, pois pouco se tem visto do italiano. Por um lado não é mau, já que o ciclista da Sky tem nas últimas duas épocas sido protagonista de episódios negativos. Por outro, é impossível negar que é um corredor de qualidade, mas que parece nunca mais chegar a temporada de afirmação. Se era suposto ser 2019, então, para já, não tem prometido muito ou mesmo nada. Moscon não perde a esperança de dar a volta ao seu baixo rendimento já nas próximas três clássicas do pavé, com os olhos postos no Giro, corrida na qual deseja ser líder, mas esse estatuto terá de esperar.

Moscon tem apenas 24 anos, quase 25 (20 de Abril). Porém, é um daqueles ciclistas que parece que já há muito se vê e isso deve-se por ter começado cedo a mostrar-se na Sky, quando chegou em 2016. Rapidamente se percebeu que se estava perante um italiano com potencial para se tornar um ciclista de referência. Muito bom nas clássicas, mas a evoluir nas provas por etapas, o que o leva a assumir um discurso de querer liderar numa grande volta.

Essa é uma questão. Será Moscon um voltista? Numa perspectiva de ganhar, pois para ajudar o líder, em duas corridas foi importante (uma Vuelta e um Tour) deu uma excelente resposta, sendo elogiado por Chris Froome. Essa resposta foi interrompida quando foi expulso do último Tour por agressão a um outro ciclista. Primeiro pediu desculpa, mas mais tarde disse que não tinha feito nada.

Um dos episódios que, sendo tão novo, já são de mais e prejudicam a sua reputação dentro do pelotão. Em 2017, proferiu comentários racistas contra um corredor da FDJ e foi desclassificado dos Mundiais de Bergen, por ter andado "à boleia" do carro da selecção italiana, para recuperar posição na corrida.

Já se percebeu a personalidade deste ciclista, falta perceber se vai confirmar as expectativas. Capaz do melhor como atleta, mas do pior em atitudes como as acima referidas, Moscon em nada tem beneficiado a sua afirmação de estatuto dentro da Sky. Não é por falta de defesa da sua equipa, que sempre tem mantido o apoio ao seu jovem ciclista, sendo até branda nas sanções, como aconteceu no caso dos comentários racistas: seis semanas de suspensão, quando não estava previsto fazer muitas corridas, tendo ainda de frequentar um curso de consciencialização. A sanção só foi dada após o final da Volta a Romandia, não tendo a Sky retirado o ciclista da prova após o sucedido.

No caso da agressão no Tour a um ciclista da Fortuneo-Samsic, Elie Gesbert, o director Dave Brailsford destacou como iria apoiar o italiano que precisava de "aprender, desenvolver e ultrapassar isto". A UCI suspendeu-o por cinco semanas. No regresso, na recta final da temporada, Moscon somou seis vitórias entre clássicas e a Volta a Guangxi, na qual além de uma etapa, venceu a geral e a classificação da juventude.

Estaria finalmente Moscon concentrado em finalmente assumir outra relevância na Sky? A sua ambição era essa, com as clássicas a serem o seu primeiro grande objectivo do ano, apontando aos monumentos, a começar pela Milano-Sanremo. Porém, na Volta aos Emirados Árabes Unidos, a sua estreia competitiva da época, caiu duas vezes e a segunda queda deixou as marcas.

O italiano tentou estar novamente na estrada em pouco tempo, competindo na Strade Bianche, seguindo depois para o Tirreno-Adriatico. Numa entrevista ao Cycling Weekly, Moscon admitiu que não se encontrava bem. Sentiu-se mal e ficou claro que o corpo precisava de um maior tempo de recuperação. Na segunda etapa foi para casa. E a Milano-Sanremo riscada do seu calendário.

Primeira desilusão. Agora é para a Volta a Flandres a que aponta e o Paris-Roubaix. Já esta quarta-feira estará na Através da Flandres. Mas claro, é um monumento que mais quer. Moscon acredita que poderá estar bem. Participou nas três clássicas do pavé na semana passada, mas nem se o viu. Acredita que tem tempo para melhorar e que a Sky pode não ser favorita nestas corridas, mas não é para menosprezar. É a Sky, nunca se menospreza e também não se quer fazer o mesmo com Moscon.

Será uma questão de tempo até aparecer? Os seus resultados dizem que sim, tendo um quinto lugar em Roubaix e um terceiro na Lombardia, em 2017, isto além das vitórias que já somou, incluindo dois títulos nacionais de contra-relógio.

Numa altura que se vai falando de ciclistas com capacidade para ganhar os cinco monumentos, Moscon é claramente um deles. É um corredor todo-o-terreno. "Só" falta atingir todo o seu potencial. Talvez possa vir a ser um voltista e no Giro será o plano B de um Egan Bernal, esse sim, um voltista dos pés à cabeça. Contudo, liderar a equipa numa grande volta, ainda poderá ser algo que terá de esperar um pouco mais. É nas clássicas que tem a porta aberta. Está na altura de começar a aproveitar as oportunidades.


23 de abril de 2018

Ciclista ciumento não tem lugar na Quick-Step Floors

(Fotografia: © Sigfrid Eggers/Quick-Step Floors)
Com mais de 30 anos de carreira como director desportivo, Patrick Lefevere admite que ao ver como os seus ciclistas trabalham em equipa, ajudando-se mutuamente para alcançarem vitórias, é algo que ainda o deixa emocionado. Para o responsável da Quick-Step Floors esta foi a melhor primavera de sempre, com dois monumentos conquistados, a Flèche Wallonne, E3 Harelbeke... praticamente todas as clássicas belgas, além de vitórias de etapas na Volta a Catalunha e ao País Basco. E contabilizando todos os triunfos desde o início do ano, são 27, distribuídos por 12 ciclistas, com a Sky a ser a equipa que mais se aproxima deste fabuloso registo, com 15 triunfos.

"Não é possível fazer melhor. É a minha melhor primavera de sempre e foi com uma equipa muito jovem", salientou Lefevere ao jornal belga Het Nieuwsblad. Bob Jungels e Julian Alaphilippe têm 25 anos, Fabio Jakobsen e Álvaro Hodeg (duas das revelações deste início de temporada), têm 21, Enric Mas, 23, Max Schachmann, 24, só para nomear alguns. Niki Terpstra (33), Maximiliano Richeze (35) e Philippe Gilbert (35) são os veteranos, mas só o último ainda não venceu este ano, apesar de ser ele quem detém o melhor currículo. Porém, Gilbert foi visto mais do que uma vez a trabalhar para colegas bem mais novos, ou então a tentar mexer na corrida. "Vemos como o Philippe Gilbert não tem problemas em abrir a corrida [como aconteceu na Liège] para os outros. Isso é o conceito de equipa: ninguém tem ciúmes", realçou Lefevere, que foi mais longe: "Se vejo um ciclista ciumento, tiro-o da minha equipa."

Esta é uma equipa habituada a somar mais de 50 ou 60 vitórias por ano, ainda assim, 27 e o mês de Abril ainda nem terminou, é algo que deixou Lefevere orgulhoso. No ano passado, por exemplo, "só" atingiram este número já em Maio, durante a Volta à Califórnia. Mas para o director há algo importante a destacar nesta juventude de enorme talento que corrida após corrida aparece a ganhar com a camisola da Quick-Step Floors. "Quando o Johan Museew parou, as pessoas pensavam que tínhamos um problema. O mesmo aconteceu com a despedida de Tom Boonen. Parecia que estávamos amputados, mas havia rapazes prontos para assumir a responsabilidade", referiu.

E assim foi, pois além dos jovens que apareceram, ciclistas ainda novos, mas já com experiência apareceram a grande nível, como foi o caso de Pieter Serry (29) e Yves Lampaert  (27), este último também já ganhou. E depois houve Zdenek Stybar (32), a quem continua a escapar um monumento, mas que nas clássicas do pavé foi um incansável em garantir que a Quick-Step Floors somava vitórias. Grande exemplo foi para os mais jovens, chegando a preparar os sprints para quem ainda agora chegou ao World Tour. "Estamos muito contentes. Não é possível fazer melhor. Eu devia dar uma conferência de imprensa amanhã a dizer que vamos abandonar em grande estilo", brincou Lefevere.

Desistir é uma palavra que não existe no vocabulário desta equipa belga, numa altura que virará as atenções para as grandes voltas. As clássicas são o ADN desta estrutura, mas não se se pense que irá desaparecer com a chegada do Giro, Tour e mais tarde a Vuelta. No ano passado foi uma autêntica papa-etapas com Fernando Gaviria, Marcel Kittel e Matteo Trentin a não darem hipótese nos sprints.

Kittel não quis competir por um lugar no Tour com Gaviria e foi para a Katusha-Alpecin, enquanto Trentin foi à procura de um papel de maior destaque durante toda a temporada na Mitchelton-Scott. Nem um, nem outro está a ter um ano muito memorável. Já a Quick-Step Floors contratou Elia Viviani (29 anos) e já lá vão seis vitórias. Vai ao Giro para matar a fome de grandes voltas, depois da Sky o ter deixado de fora de todas em 2017. Gaviria tem estado a recuperar de uma queda no Tirreno-Adriatico, depois de a estreia como aposta nas clássicas não ter corrido muito bem. No entanto, já tem quatro vitórias e vai regressar esta terça-feira na Volta a Romandia, na preparação rumo ao Tour. E há que salientar que, apesar de já ser um dos melhores sprinters do mundo, só tem 23 anos.

Quanto a Viviani há que referir que é mais um exemplo de outra capacidade extraordinária da Quick-Step Floors. Ciclistas que vivem maus ou menos bons momentos na carreira, vão para a estrutura de Lefevere e simplesmente desatam a ganhar. Aconteceu com Viviani, que atravessa a sua melhor temporada, foi o caso de Marcel Kittel quando deixou a então Giant-Alpecin (actual Sunweb) e com Gilbert que no ano passado voltou às grandes vitórias, depois de uma travessia no deserto durante grande parte da sua estadia na BMC.

Se para as classificações gerais não se espera uma candidatura ao nível de um Chris Froome, Romain Bardet, Tom Dumoulin, Nairo Quintana ou outros grandes voltistas, Enric Mas estará no Giro para mostrar que Espanha tem mais um homem que quer e pode assumir-se como referência, agora que Alberto Contador saiu de cena. Em França, será a vez de Bob Jungels elevar o seu nível e ir à procura de pelo menos um top dez.

Pelo meio haverá corridas de uma semana ou de um dia e seria estranho se no final do ano não estivéssemos a olhar para um registo a rondar as 60 vitórias, ainda que se o ritmo de triunfos se mantiver, poderemos estar perante algo histórico.

Aqui ficam as 27 vitórias até ao momento da Quick-Step Floors (a categoria está entre parêntesis, com as identificadas como UWT a pertenceram ao calendário World Tour):

➤ Terceira etapa do Tour Down Under (2.UWT), 18 de Janeiro: Elia Viviani
➤ Primeira etapa da Volta a San Juan (2.1), 21 de Janeiro: Fernando Gaviria
➤ Quarta etapa da Volta a San Juan (2.1), 24 de Janeiro: Maximiliano Richeze
➤ Primeira etapa da Colombia Oro y Paz (2.1), 6 de Fevereiro: Fernando Gaviria
➤ Segunda etapa da Volta ao Dubai, 7 de Fevereiro: Elia Viviani
➤ Segunda etapa da Colombia Oro y Paz (2.1), 7 de Fevereiro: Fernando Gaviria
➤ Terceira etapa da Colombia Oro y Paz (2.1), 8 de Fevereiro: Fernanco Gaviria
➤ Quarta etapa da Colombia Oro y Paz (2.1), 9 de Fevereiro: Julian Alaphilippe
➤ Quinta etapa da Volta ao Dubai (2.HC), 10 de Fevereiro: Elia Viviani
➤ Classificação geral da Volta ao Dubai (2.HC), 10 de Fevereiro: Elia Viviani
➤ Segunda etapa da Volta a Abu Dhabi (2.UWT), 22 de Fevereiro: Elia Viviani
➤ Le Samyn (1.1), 27 de Fevereiro: Niki Terpstra
➤ Dwars door West-Vlaanderen (1.1), 4 de Março: Rémi Cavagna
Danilith Nokere Koerse (1.HC), 14 de Março: Fabio Jakobsen
Handzame Classic (1.HC), 16 de Março: Álvaro Hodeg
Primeira etapa da Volta à Catalunha (2.UWT), 19 de Março: Álvaro Hodeg
Driedaagse Brugge - De Panne (1.HC), 21 de Março: Elia Viviani
E3 Harelbeke (1.UWT), 23 de Março: Niki Terpstra
Sexta etapa da Volta à Catalunha (2.UWT), 24 de Março: Max Schachmann
Dwars door Vlaanderen (1.UWT), 28 de Março 1 de Abril: Yves Lampaert
Volta a Flandres (1.UWT), 1 de Abril: Niki Terpstra
Primeira etapa da Volta ao País Basco (2.UWT), 2 de Abril: Julian Alaphilippe
Segunda etapa da Volta ao País Basco (2.UWT), 3 de Abril: Julian Alaphilippe
Scheldeprijs (1.HC), 4 de Abril: Fabio Jakobsen
Sexta etapa da Volta ao País Basco (2.UWT), 7 de Abril: Enric Mas
Flèche Wallonne (1.UWT), 18 de Abril: Julian Alaphilippe
Liège-Bastogne-Liège (1.UWT), 22 de Abril: Bob Jungels



21 de abril de 2018

Benoot critica diferentes decisões para ciclistas que usam ciclovias nas corridas

Tiesj Benoot criticou as recentes decisões dos comissários que tanto castigam um ciclista que passa numa ciclovia durante uma corrida, como deixam outro sem sanção. Os casos em causa envolvem Luke Rowe, na Volta a Flandres, e Peter Sagan, na Amstel Gold Race. O ciclista belga, da Lotto Soudal, não gostou de ver o primeiro ser retirado da competição, enquanto o eslovaco foi até final e não sofreu qualquer castigo. Deixa mesmo entender que há diferentes pesos e medidas dependendo de quem se trata.

"A UCI tem de ser consistente. Se diz que não é permitido e os melhores ciclistas fazem, então tens de os tirar da corrida. Só assim se marca uma posição", afirmou Benoot ao Sporza. "O Rowe ganhou menos vantagem [comparativamente com o Sagan]. Ele teve de sair [da estrada] senão caía. Ele não deveria ter sido retirado da corrida", considerou o belga. A decisão de expulsar o britânico causou alguma surpresa e levou a algumas críticas na altura. O próprio ciclista não concordou, mas foi o primeiro a tentar não criar muita polémica.

As imagens televisivas deixaram de imediato a sensação de que o ciclista viria depois a explicar, ou seja, que ao ver-se na ciclovia e, por consequência, no meio de algum público, Rowe travou e tentou regressar à estrada da forma mais segura possível. O britânico da Sky referiu que dada a luta pela colocação, acabou por ser forçado a ir para a ciclovia, de forma a evitar uma queda. Por causa disso, entrou no Kwaremont na parte de trás do grupo. Ou seja, não tirou qualquer vantagem. Ainda assim, foi obrigado a "encostar" pelos comissários.

Quanto a Sagan, o eslovaco aproveitou para cortar caminho numa curva e assim recolocar-se mais à frente no pelotão. Havia uma diferença: na Volta a Flandres o vídeo-árbitro estava em acção, na Amstel Gold Race não. Ainda assim, as imagens televisivas mostraram claramente o que o líder da Bora-Hansgrohe fez e para Benoot também está em causa quem comete a infracção. "Há dois anos houve pela primeira vez muita discussão sobre as ciclovias. Na Omlopp Het Nieuwsblad, o grupo que liderava, com o Sagan, Avermaet e Vanmacke, andou na ciclovia, mas tinha sido repetido cinco vezes que era proibido. Não foi permitido aos perseguidores seguir o mesmo exemplo e tiveram de andar no pavé. Foi onde perderam a corrida", recordou Benoot.

Este é um assunto que continua a ser muito sensível, com as organizações das corridas de pavé a considerarem que é difícil aplicar as regras da UCI em provas com características tão especiais como estas. Uma das soluções tem sido colocar barreiras, mas há certo locais em que simplesmente não é possível. Ainda recentemente na Kuurne-Brussels-Kuurne, o caminho de pavé ficou completamente vazio, enquanto o pelotão seguiu em fila indiana pela ciclovia na lateral. O director da corrida limitou-se a dizer: "O que posso fazer? Desqualificá-los a todos?"

Os casos que originaram as declarações de Benoot são diferentes e demonstraram como as regras não são aplicadas de forma uniforme, ainda que a decisão que afectou Rowe foi vista como exagerada e não só por Benoot.

Por outro lado, e como exemplo que demonstra que as desqualificações em massa não se podem evitar só porque são muitos a desrespeitar as regras, na recente Scheldeprijs foi deixada uma mensagem muito clara. 35 ciclistas foram imediatamente excluídos da corrida, depois de desrespeitarem a sinalização de uma passagem de nível e entre eles estavam alguns dos grandes nomes do pelotão, como Dylan Groenewegen (Lotto-Jumbo), Arnaud Démare (Groupama-FDJ) e Tony Martin (Katusha-Alpecin). E aqui não havia vídeo-árbitro, mas ninguém escapou. Este foi um assunto que ganhou relevo depois de no Paris-Roubaix, em 2015, alguns ciclistas não terem parado quando a cancela fechou. Houve quem passasse segundos antes do comboio surgir. As sanções endureceram desde então. Além da exclusão, os 35 ciclistas pagaram 100 francos suíços de multa (cerca de 83 euros).


5 de abril de 2018

Tom Boonen diz que Peter Sagan devia estar calado

Os visados das críticas de Peter Sagan mantiveram-se concentrados na preparação para o Paris-Roubaix e o eslovaco ficou sem resposta. Porém, esta veio de quem agora vê de fora as corridas, mas sendo uma das grandes referências das clássicas, continua (e continuará) a ter as suas palavras tidas muito em conta. Tom Boonen não foi nada simpático para com Sagan, considerado que o tricampeão do mundo não pode estar a apontar o dedo aos seus adversários por não colaborarem consigo: "Ele é como um gato numa árvore, fica ali sentando e, de repente, vai para a frente e começa a agitar a pata [para os restantes trabalharem]. Sendo assim, tens de manter a boca fechada."

Recordando. Depois da Volta a Flandres, ganha por Niki Terpstra em mais uma vitória da Quick-Step Floors, Sagan (sexto) criticou os seus adversários por estes não o terem ajudado na perseguição ao holandês que arrancou a cerca de 30 quilómetros da meta e acabou por vencer isolado. "A Quick-Step fez uma corrida linda. Porém, penso que as outras equipas não respeitaram a situação e não colaboraram. Não é só a mim que eles têm de bater. Somos 200 [no pelotão]. Por isso, acredito que eles erraram. Assim a Quick-Step vai ganhar as corridas todas", afirmou o eslovaco. E foi mais longe: "Se os outros ciclistas não acordarem, vai ser assim."

A resposta veio então de Tom Boonen. "Falta de cooperação? Ele está sempre na roda. Acho que o Sagan não pode falar de falta de cooperação. Ele é quem começa sempre por estar sentado [na roda de um adversário]", salientou o ex-ciclista em declarações ao programa no canal belga Sporza, Extra Time Koers.

Boonen assumiu funções de comentador, além de também ter investido na Lotto Soudal, rival da equipa que representou durante quase toda a sua carreira, a Quick-Step Floors. É ainda conselheiro na equipa que viu Tiesj Benoot ganhar a Strade Bianche poucos dias depois de Boonen assumir a função. O belga venceu três Voltas a Flandres e quatro Paris-Roubaix. Sagan tem 28 anos e "apenas" tem uma Volta a Flandres em termos de monumentos.

Apesar das palavras duras que dirigiu ao tricampeão do mundo, Boonen disse que gosta do eslovaco, mas não concorda com a mais recente atitude do ciclista da Bora-Hansgrohe. "Gosto dele e isto não o afasta das suas qualidades. Ele é um corredor muito bom, mas não devia dizer estas coisas se também ele tenta andar na roda", afirmou. "Ele está sempre a tentar beneficiar do trabalho das outras equipas. Não há nada de errado com isso, mas depois não se pode queixar: 'Eles não trabalharam comigo'", acrescentou.

Tom Boonen terminou a carreira há um ano no Paris-Roubaix, a próxima corrida do pavé no calendário, este domingo, e que encerrará esta fase de clássicas em 2018. O Inferno do Norte é um dos monumentos mais desejado por Peter Sagan, mas em seis participações, o melhor que conseguiu foi um sexto lugar, em 2014, quando Niki Terpstra venceu.