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15 de janeiro de 2021

Líderes começam a decidir em que grande volta vão apostar

© Wout Beel/Deceuninck-QuickStep
Com muitas das equipas nos habituais estágios de início de ano, ainda que sem saber muito bem quando e onde vão arrancar a temporada - contingências da pandemia -, vão definindo-se objectivos, nomeadamente ao que grandes voltas diz respeito.

Em 2020, Portugal teve a confirmação que tem um voltista e João Almeida (na foto) já tem a sua grande volta escolhida. A principal novidade poderá ser Egan Bernal não apostar tudo no Tour, tal como Mikel Landa.

Começando pelo ciclista português. Depois da espectacular exibição na Volta a Itália, naquela que foi a sua estreia em provas de três semanas, João Almeida aponta à corrida que chegou a ser hipótese no ano passado: a Volta a Espanha. Os planos acabaram alterados, muito devido à queda grave de Remco Evenepoel, na Lombardia, que o tirou do Giro. O resto é história e Almeida conquistou estatuto dentro da Deceuninck-QuickStep. Irá à Vuelta como líder.

Já Evenepoel recupera o plano que tinha para a temporada transacta e está marcado para o Giro, ainda que a sua recuperação continue. O próprio belga afirmou que continua a sentir algumas dores, pelo que o regresso à competição é uma incógnita.

Apesar de ser uma equipa que sempre apostou mais nas clássicas, a Deceuninck-QuickStep tem ganho outro destaque nas três semanas, além de lutar por etapas. Para completar, Julian Alaphilippe tem os olhos postos no Tour, faltando saber com que objectivo: vestir a amarela e tentar lutar por ela, etapas, montanha... um pouco de tudo, talvez...

Mas vamos então por provas. A Volta a Itália (de 8 a 30 de Maio) contará com o vencedor de 2020, Tao Geoghegan Hart, mas o seu companheiro da Ineos Grenadiers, Egan Bernal, afirmou que também gostaria de ir ao Giro, podendo mesmo fazer a dupla Giro/Tour.

Mikel Landa e Pello Bilbao (Bahrain-Victorious), Simon Yates (BikeExchange) e Vincenzo Nibali e Bauke Mollema (Trek-Segafredo) começam 2021 com o pensamento em estar em Itália e depois em França. Yates não é certo, mas a hipótese estará a ser estudada, agora que a equipa não conta com o irmão gémeo, Adam (foi para a Ineos Grenadiers).

Já Emanuel Buchmann (Bora-Hansgrohe) deixa o Tour para se estrear no Giro, com Marc Soler a espreitar a oportunidade de liderança na primeira vez que irá à Volta a Itália. O veterano Domenico Pozzovivo (Qhubeka Assos) é que não troca o Giro por nada. Soma 14 presenças, contra apenas três no Tour e outras tantas na Vuelta.

Quanto à Volta a França (de 26 de Junho a 18 de Julho), Chris Froome irá centrar novamente muita das atenções, no ano em que será estranho vê-lo sem o equipamento da Ineos Grenadiers. Agora representa a Israel Start-Up Nation e terá a seu lado o irlandês Daniel Martin e o canadiano Michael Woods. De recordar que se a Volta ao Algarve conseguir realizar-se entre 17 e 21 de Fevereiro, o britânico é uma presença muito provável na corrida.

Na Ineos Grenadiers, Geraint Thomas não desiste do Tour, mesmo tendo dificuldades em ser líder. O galês quer preparar a sua temporada a pensar em França, mas na sua equipa a concorrência é enorme, pelo que, nesta altura, poucas certezas poderá haver para Thomas.

O reforço da Movistar Miguel Ángel López deverá ir a França, ao lado de Enric Mas. A Bora-Hansgrohe, ao "desviar" Buchmann para o Giro, abriu vaga para Wilco Kelderman mostrar o que vale, depois de em 2020 ter estado tão perto de ganhar a Volta a Itália, ao serviço da Sunweb. O holandês será acompanhado pelo jovem talento alemão Lennard Kämna, que ganhou uma etapa no Tour na edição passada.

Para terminar, a Volta a Espanha (de 14 de Agosto a 5 de Setembro). Quem serão os rivais de João Almeida? A EF Education-Nippo tem estado algo silenciosa no anúncio dos calendários dos seus atletas, mas Rigoberto Uran poderá ter a Vuelta como principal objectivo. Ainda se aguarda pelo destino do rei da montanha do último Giro, Rúben Guerreiro.

Alejandro Valverde será aposta da Movistar, com Miguel Ángel López a ter planeado fazer a dupla Tour/Vuelta. Giulio Ciccone terá oportunidade de liderança por parte da Trek-Segafredo, assim como Felix Grossschartner, na Bora-Hansgrohe. No caso do austríaco será a possibilidade de confirmar o seu crescimento como voltista, depois do nono lugar, precisamente na Vuelta.

Como é habitual, a Volta a Espanha é aquela que mais tarde vai conhecendo quem nela aposta, já que surge muitas vezes como a segunda grande volta do ano para alguns ciclistas. Porém, há um que está muito entusiasmado. Fará a sua estreia em três semanas, no seu primeiro ano no World Tour. É mais um jovem que há muito anda a ser seguido e que finalmente optou por dar o salto: Thomas Pidcock.

Tem 21 anos, é um ás do ciclocrosse, mas na estrada foi campeão do mundo de contra-relógio de juniores em 2017, foi evoluindo e agora a Ineos Grenadiers abriu-lhe as portas da elite. Apesar de as clássicas fazerem parte da sua primeira fase do ano, Pidcock não esconde como também quer mostrar-se em provas como as de três semanas.

Estes planos iniciais podem, naturalmente, sofrer alterações e ainda faltam muitos corredores confirmarem os seus objectivos. Mesmo que de normal 2021 nada esteja a ter, o ciclismo tenta manter o ritmo de treinos e planeamento rumo a uma época que se espera que seja o mais próxima possível do calendário estabelecido e principalmente sem cancelamentos.

»»O regresso do bom velho Froome poderá ser no Algarve««

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13 de setembro de 2020

Egan Bernal, o homem

© ASO/Pauline Ballet
Ciclistas como Egan Bernal, Tadej Pogacar e Remco Evenepoel tomaram de assalto o ciclismo mundial. Jovens, talentosos, mas com capacidade de desde que chegaram ao World Tour de rapidamente começar a ganhar aos grandes nomes, com currículos de meter muito respeito. Em pouco tempo, este trio conquistou também ele o respeito, com vitórias impressionantes e que estão a marcar esta mudança de geração que o ciclismo vive. Habituámo-nos de tal maneira a vê-los vencer, que quase olhamos para eles como autênticas máquinas de bom ciclismo. E são, ninguém tem dúvidas, apesar da idade. Porém, este domingo Bernal recordou a todos que é humano.

Em comum, estes três ciclistas têm que chegaram ao World Tour muito jovens, aos 20 anos ou nem isso, e não demoram a vencer. No segundo ano ao mais alto nível, Bernal colocou uma Volta a França no seu palmarés. Ao terceiro conhece a sensação de ser derrotado. O próprio admite que foi o seu pior dia numa bicicleta. Até foi difícil acreditar que com 13 quilómetros para a meta no Grand Colombier, Bernal ficasse para trás. Perdeu 7:20 minutos para Primoz Roglic (Jumbo-Visma) e Tadej Pogacar (UAE Team Emirates), este último o vencedor do dia.

A máquina deu lugar ao homem. Bernal nem capacidade teve de sequer minimizar perdas. Michal Kwiatkowski e Jonathan Castroviejo limitaram-se a estar ao lado do seu líder na subida mais difícil da sua carreira. O Tour está perdido. O top dez pouco ficou a mais de três minutos. Caiu de terceiro, a 59 segundos, para 13º, a 8:25 minutos. É tempo de Egan Bernal e a Ineos Grenadiers analisar o que levou a tal descalabro e de decidir o que ainda querem fazer nesta Volta a França. Tornou-se muito penosa para um ciclista habituado a vencer. Habituado a ser o melhor.

2020 foi tudo menos normal. Confinamento, dificuldades em poder treinar, incerteza de como iria viajar para a Europa, poucas corridas... Egan Bernal foi dando nas vistas por fazer treinos com números assustadores de quilómetros e de acumulado. Fez as delícias de todos numa altura em que não havia ciclismo. Quando regressou, até venceu a Route d'Occitanie, mas os sinais de alarme dispararam no Tour de l'Ain e no Critérium du Dauphiné, que abandonou com dores nas costas. A Jumbo-Visma deu uma lição à Ineos Grenadiers e Roglic avisou Bernal que tinha rival.

Durante estas duas semanas de Tour viu-se um Bernal em dificuldades, mas sempre se esperou que acabasse por melhorar. Hoje, no Grand Colombier, deveria ter sido o dia em que aparecia. Afinal...

Até chegar ao Tour, Bernal não teve vida fácil. Há que perceber o que falhou na preparação, mas também o ambiente da Ineos Grenadiers não foi o melhor, com Chris Froome e Geraint Thomas a dizerem que iam ao Tour para ganhar. As últimas duas corridas antes do Tour colocaram todos no seu lugar. O de Froome é na Vuelta e de Thomas no Giro.

A equipa esperava ter resolvido a questão da união. Talvez o tenha feito, mas este bloco não tem a força dos tempos da Sky. Não ajudou Pavel Sivakov cair na primeira etapa e ficar muito limitado, tal como Andrey Amador. Richard Carapaz também não está a ser particularmente feliz. A equipa teve muitas quebras. Já tinha acontecido o mesmo no Tour de l'Ain e Dauphiné.

Bernal viu-se na posição de ser um líder indiscutível da equipa que nos últimos anos foi rainha do Tour. Mas aos 23 anos, ainda não tem a voz de comando de um Froome. Vivem-se novos tempos na estrutura britânica, que para piorar perdeu um dos directores desportivos que tanto marcou a equipa: Nicolas Portal faleceu em março e deixou um vazio na liderança. A era Bernal sem os britânicos a fazerem-lhe sombra no Tour, não começou bem.

O colombiano há-de voltar a mostrar a máquina que é. Há-de ser um grande líder. Contudo, por agora, mostrou ser humano. Mostrou ser um jovem que ainda tem muito para aprender. O Tour de 2020 servi-lhe-á de lição, sendo que agora é testado mentalmente. Terá de saber reagir. Também nos maus momentos se definem os grandes campeões.

© ASO/PresseSports/Bernard Papon
É mesmo uma luta eslovena

Com Bernal a ceder tão cedo, a Jumbo-Visma teve um dia quase perfeito. Unida em redor de Roglic, tudo correu bem. Ou, lá está, quase. Tadej Pogacar vai ser a pedra no sapato da equipa holandesa. O líder da UAE Team Emirates não foi tão activo como noutras etapas porque mais uma vez destaca-se a inteligência táctica deste ciclista.

Com a Jumbo-Visma a impor um ritmo tão elevado durante toda a corrida (duas primeiras categorias antecederam a de categoria especial), a estar forte no Grand Colombier, com seis ciclistas a iniciarem a subida... Pogacar percebeu que era dia para esperar. Ainda há Tour para recuperar o restante tempo.

Deixou os rivais trabalharem e até viu Roglic tentar atacar para a vitória. Mas o jovem esloveno foi lá ganhar e recuperar quatro segundos nas bonificações (ficou com 10 segundos e Roglic com seis, do segundo lugar). São 40 a separá-los, não se podendo esquecer que perdeu mais de um minuto na etapa do vento. Segunda etapa para Pogacar no Tour. Está a uma de repetir o feito na Vuelta, onde venceu três. Reforçou ainda a classificação da juventude, que em condições normais não perderá. Mas quer mais, naturalmente! Mesmo sem equipa para o ajudar, está de olhos postos na amarela.

A finalizar a segunda semana, o Tour tem definido quem lutará pela vitória na geral, mas ficou em aberto um lugar no pódio. Rigoberto Uran (EF Pro Cycling) ocupa a posição a 1:34 minutos, mas até ao oitavo lugar de Enric Mas, todos são candidatos, tendo em conta a montanha que ainda há pela frente. De repente, ganha-se nova motivação entre os restantes líderes das equipas.

A saber, além de Uran: Miguel Ángel López (Astana), a 1:45 minutos; Adam Yates (Mitchelton-Scott), a 2:03; Richie Porte (Trek-Segafredo), a 2:13; Mikel Landa (Bahrain-McLaren), a 2:16 e Enric Mas (Movistar), a 3:15. Um pouco mais difícil para este espanhol, mas não impossível.

Nairo Quintana (Arkéa Samsic) e as quedas não combinam e um limitado fisicamente colombiano desceu para o nono lugar, a 5:08. Tom Dumoulin (Jumbo-Visma) reentrou no top dez, a 5:12. Guillaume Martin (Cofidis) teve uma segunda semana abaixo do desejado. Voltou a perder tempo para Roglic, mas o top dez ainda é possível. Está a 6:45 da amarela.

Classificações completas, via ProCyclingStats.

16ª etapa (15 de Setembro): La Tour-du-Pin - Villard-de-Lans, 164 quilómetros


Dia de folga esta segunda-feira. Dia de testes à covid-19. Alguma ansiedade, como aconteceu há uma semana, quando o director da prova, Christian Prudhomme, e um elemento da Ineos Grenadiers, Mitchelton-Scott, Cofidis e AG2R deram positivo. A última versão do regulamento apontava para que esta segunda-feira estivesse tudo a zero. Ou seja, com dois positivos uma equipa é excluída do Tour, mas como passou uma semana, os casos da última segunda-feira não contam.

No regresso à corrida, serão três dias de montanha consecutivos. Na terça-feira talvez seja um bom dia para os que queiram entrar numa fuga, já que não será de afastar que as atenções na geral estejam mais focadas para os dois dias seguintes, antes do contra-relógio no sábado.

»»Sunweb com mais uma reinvenção de sucesso««

»»Aliança eslovena? Nem pensar!««

11 de setembro de 2020

Aliança eslovena? Nem pensar!

© Bettiniphoto/UAE Team Emirates
Há uns dias, um artigo num site especializado abordava a possibilidade de uma aliança colombiana para ser um ciclista daquele país a ganhar novamente a Volta a França. Egan Bernal ou outro. Afinal, divididos por várias equipas, se os colombianos se juntassem formariam uma selecção de luxo. Miguel Ángel López (Astana) até admitiu essa possibilidade, mas só mais à frente no Tour.  Se vai haver ou não, teremos de esperar para ver, mas os colombianos só não saíram completamente derrotados da 13ª etapa porque Daniel Martínez (EF Pro Cycling) ganhou. Na geral foi outra aliança, a eslovena, que saiu vencedora.

Ou pelo menos pareceu ser uma aliança entre Primoz Roglic e Tadej Pogacar, mas este último garante que nem pensar. Foram apenas dois rivais que queriam ganhar tempo, inclusivamente um ao outro. Se não foi aliança, ainda assim há que dizer que naqueles dois quilómetros finais de Puy Mary - sempre acima dos 10% de pendente - a dupla funcionou na perfeição para deixar todos para trás. E ambos acabaram beneficiados.

Roglic consolidou um pouco mais a liderança, enquanto Pogacar saltou para o segundo lugar da geral e começa a conquistar o estatuto de principal adversário do compatriota. Depois do Grand Colombier, domingo, a situação poderá ficar mais definida... ou não.

"Foi uma etapa dura [Châtel-Guyon - Puy Mary Cantal, 191,5 quilómetros], mas naqueles últimos dois quilómetros não penso que fomos amigos. Apenas queríamos chegar ao topo. Definitivamente vamos ver mais ataques e mais rivalidade na próxima semana", garantiu um Pogacar, cada vez mais candidato à amarela e cada vez mais a mostrar que poderá ser de facto o principal rival do compatriota Roglic.

A dupla ganhou vantagem a toda a gente. Richie Porte (Trek-Segafredo) e Mikel Landa (Bahrain-McLaren) foram os melhores dos restantes. Ainda assim, perderam 13 segundos. López 16 e Egan Bernal (Ineos Grenadiers) e Rigoberto Uran (EF Pro Cycling) 38. Todos os outros perderam ainda mais.

O que é que isto significa? Significa que Roglic nem precisou, desta feita, de bonificações (essas ficaram todas para os homens da fuga) para ganhar tempo e já tem Bernal a 59 segundos e todos os outros estão a 1:10 minutos ou mais. O 10º é Enric Mas (Movistar), a 2:54 minutos.

Tadej Pogacar está a 44 segundos - recuperou a liderança da juventude - e percebe-se porque nunca se mostrou preocupado com a perda de tempo na etapa do vento. O líder da UAE Team Emirates está, tal como na Vuelta em que foi terceiro e ganhou três etapas, a subir de forma à medida que o Tour avança. Naqueles metros finais na roda de Roglic revelou algum sofrimento, mas Roglic também não será isento de passar dificuldades, principalmente quando chegarem as subidas mais longas dos Alpes.

É por essas que agora espera Bernal, pois são as que gosta mais. No entanto, não foi uma etapa que animicamente faça muito bem nem ao colombiano, nem a uma Ineos Grenadiers derrotada mais uma vez. A equipa britânica chegou a colocar-se à frente da Jumbo-Visma na liderança do grupo de favoritos, mas para depois ver Tom Dumoulin a sacrificar-se por completo para lançar Roglic. Bernal ficou com Richard Carapaz... atrás de si. E não por muito tempo.

É caso para dizer que uma aliança colombiana começa a ser bem-vinda já que a Ineos Grenadiers não está a conseguir dar o melhor apoio a Bernal e este também não está ao nível necessário para responder a Roglic ou Pogacar. O Grand Colombier terá de ser um ponto de viragem para o colombiano se este não quiser dificultar em demasia a sua missão na última semana.

E será que Roglic agora vai olhar para Pogacar como o seu principal rival? "Há muito caminho a percorrer e muitas coisas podem acontecer, diferentes cenários. Não quero pensar em nomes, ou em quem é melhor. Quero apenas tentar dar o meu melhor e ficar feliz com o que fizermos."

Provavelmente é a forma mais inteligente de encarar a corrida, pois, já no domingo, o Grand Colombier poderá mudar o actual cenário do camisola amarela.

De referir que Romain Bardet (AG2R) e Guillaume Martin (Cofidis) tiveram um dia para esquecer e saíram do top dez. O primeiro caiu a meio da etapa e fica a dúvida de como estará fisicamente nos próximos dias, enquanto Martin irá tentar recuperar um lugar entre os melhores, mas o pódio já ficou um pouco longe. Está a 3:14 minutos de Roglic. Bauke Mollema (Trek-Segafredo) esteve envolvido na queda de Bardet - tal como Nairo Quintana (Arkéa Samsic) e abandonou. Quintana também perdeu tempo, ficando a 1:12 da amarela.

Classificações completas, via ProCyclingStats.

14ª etapa (12 de Setembro): Clermont-Ferrand - Lyon, 194 quilómetros


Com duas primeiras categorias e uma especial (o Grand Colombier) no domingo, a 14ª etapa poderá ser mais um dia bom para uma fuga triunfar novamente, enquanto os homens da geral podem ter mais em mente uma recuperação depois da intensidade final desta sexta-feira e para ter a certeza que estão prontos para uma das mais importantes tiradas do Tour.

»»Hirschi finalmente ganhou e ao estilo de Cancellara««

»»A arte de um espectacular sprint««

6 de setembro de 2020

Pogacar e aquela atitude que se adora

Dois dias de espectáculo Pogacar, que venceu pela primeira vez no Tour
"Se não atacares, não podes ganhar tempo." Parece um pouco óbvio, mas quantas vezes em anos recentes se assistiu a ciclistas que, a precisarem de recuperar tempo, pareceram mais preocupados em não perder mais, do que propriamente a tentar fazer algo para ganhar. O efeito Sky teve uma forte influência nesta forma de estar, mas agora acabou. E não foi por a agora Ineos Grenadiers nada ter a ver com os anos da toda poderosa Sky. Mas sim porque chegou uma nova geração irreverente, sem medo e com objectivos bem vincados para serem conquistados quando há uma oportunidade. Ou seja, já. E, claro, qualidade não falta a estes jovens que começam a ser donos das luzes da ribalta.

"Claro que estou a pensar na classificação geral, é por isso que vim aqui." Ambas as frases são de Tadej Pogacar, o esloveno que, aos 21 anos (quase 22), está mais do que preparado para dar luta naquele que é o seu primeiro Tour, a sua segunda grande volta. Recorde-se que a primeira foi a última Vuelta: três vitórias de etapa, um terceiro lugar na geral e a vitória na juventude.

As declarações do líder da UAE Team Emirates retratam na perfeição a forma de estar que se vê na estrada. Se se perdeu tempo na etapa do vento (sexta-feira), então há que recuperar. Se há duas etapas de montanha no fim-de-semana, por que razão se há-de esperar. As oportunidades estão ali para se agarrarem. Pogacar agarrou.

Na sétima etapa, Pogacar terminou a 1:28 minutos do líder, então Adam Yates (Mitchelton-Scott). Este domingo e depois de dois dias de exibições espectaculares, já são 44 segundos a separá-lo agora de Primoz Roglic (Jumbo-Visma), que tinha apenas três segundos a separá-lo de Yates.

"Claro que perdi tempo, mas não significa nada", disse sobre a sexta-etapa. "O jogo pela classificação geral começou agora e nas próximas semanas vamos ver mais mudanças. Vou dar o meu melhor pela geral", afirmou, garantindo que vai continuar a arriscar para também ganhar etapas.

É isto que se quer, é esta atitude que fazia falta ao Tour. É esta atitude entusiasmante que Pogacar tem juntamente com Remco Evenepoel (Deceuninck-QuickStep) e Egan Bernal (Ineos). Quando os três se juntarem a lutar por uma Volta a França.. Mas fiquemos pelo presente. Quando Pogacar venceu a Volta ao Algarve em 2019, na sua primeira vitória como profissional e acabadinho de chegar à UAE Team Emirates, desde logo ficou ali a demonstração que os resultados alcançado como amador, não eram um acaso.

Pogacar tem uma capacidade de leitura de corrida invulgar em ciclistas tão novos. Tem uma confiança que obriga os mais experientes a ter muito cuidado com o esloveno. E ainda por cima está em boa forma e sabe gerir a sua condição física. Para já, não fosse aquele furo e o azar de um ciclista ter caído à sua frente quando se deram os cortes na etapa de sexta-feira por causa do vento, Pogacar estaria ainda mais próximo do compatriota Roglic... ou talvez mesmo líder. Mas o melhor nesta forma de estar, é que os 44 segundos de desvantagem para Pogacar são mais um desafio, não um obstáculo.

Mais uma vez tem de se dizer: é impossível não se gostar deste ciclista. Mesmo quando rapidamente deixa de ter companheiros a seu lado - Fabio Aru até abandonou neste domingo -, não se preocupa. Faz ele o seu trabalho. Pode estar só, mas faz tremer aqueles que têm as duas equipas que tanto se fala: Jumbo-Visma e Ineos Grenadiers.

Nos dois primeiros frente-a-frente, quando Primoz Roglic e Egan Bernal ficaram sozinhos com Pogacar, o esloveno ganhou. O esloveno recuperou tempo no sábado, este domingo também e juntou uma vitória de etapa ao sprint com Roglic, Bernal e Mikel Landa. Estava ainda um infeliz Marc Hirschi, da Sunweb. Tanto tempo sozinho na frente, merecia melhor prémio que a combatividade, mas Pogacar não deixou.

Um pormenor, Pogacar tornou-se o ciclista mais jovem do século XXI a ganhar uma etapa no Tour. A primeira das mais que se seguirão certamente deste jovem fenómeno esloveno.

Roglic terminou a primeira fase do Tour a vestir a camisola amarela
Eslovénia toma conta do Tour

No último dia antes da folga (Pau - Laruns, 153 quilómetros), a Eslovénia tomou conta do Tour, tal como havia acontecido na Vuelta. Pogacar ganhou, Primoz Roglic terminou nove dias de trabalho da Jumbo-Visma a vestir a camisola amarela. Esta táctica que tanto gosta, de acumular segundos de bónus, está a dar os seus frutos, pois assim tem Bernal a 21 segundos. Pode parecer pouco, mas este Tour pode decidir-se por diferenças pequenas.

É o lugar mais do que esperado para Roglic e nada vai mudar na forma de controlar as etapas da Jumbo-Visma. Contudo, vestiu a amarela no dia em que Bernal deu o ar da sua graça. O colombiano está a melhorar, ainda que não tenha sido colombiano de 2019, quando venceu o Tour.

Mesmo liderando, Roglic termina esta primeira fase da Volta a França a perceber que a Jumbo-Visma pode ser a equipa mais forte, mas tem de estar preparado para sozinho medir forças com os dois jovens. Se Bernal subir de forma, recuperando assim a sua confiança, a luta pela camisola amarela vai ser das mais intensas dos últimos anos.

Este trio vai dar espectáculo no Tour (© Jumbo-Visma)
Se estes dois ciclistas já vão dar dores de cabeça a Roglic, falta saber se Mikel Landa também mostra aquele seu lado de dar o tudo por tudo. O espanhol foi mais um a perder tempo na etapa do vento. Tem sido habitual arranjar maneira de perder tempo na primeira semana das grandes voltas, para depois tentar grandes recuperações.

A boa notícia é que 1:42 minutos com tanta montanha pela frente, nem é das piores perspectivas que já enfrentou. Este domingo, mostrou que fará parte do quarteto que para já chamou a atenção. Agora falta saber se vamos ver o Landa sem medo de arriscar por não ter nada a perder, ou se a pressão de ser finalmente um líder indiscutível numa equipa, na Bahrain-McLaren, poderá ser de mais. Para já, afirma que está de olhos postos no pódio. O melhor de Landa costuma aparecer na terceira semana.

Há mais a ter em conta

Se nesta na boa etapa que se assistiu a este domingo este quarteto destacou-se, ainda assim, mesmo tendo perdido tempo, Romain Bardet (AG2R), Nairo Quintana (Arkéa-Samsic), Rigoberto Uran (EF Pro Cycling), Richie Porte e Bauke Mollema (Trek-Segafredo) mostram que contem com eles para pelo menos disputar o top dez. Já Emanuel Buchmann (Bora-Hansgrohe) caiu na classificação. A queda no Critérium do Dauphiné deixou marcas no alemão.

E não, Guillaume Martin não ficou esquecido. Merece destaque. Perdeu alguns segundos, mas é ele o terceiro classificado, a 28 segundos de Roglic. Mudou-se para a Cofidis para comprovar todo o potencial demonstrado na Wanty-Groupe Gobert para as grandes voltas. É um ciclista muito regular, tanto na obtenção de resultados, como na forma como compete. Não é de grandes ataques, mas tenta sempre as suas acelerações e se conseguir melhorar um pouco mais a sua forma, ainda se poderá ver também este francês a obrigar Roglic a ter muita atenção.

Custou a mexer, mas em três dias este Tour começou a comprovar as expectativas de espectáculo, emoção e indefinição.

Classificações completas, via ProCyclingStats.

10ª etapa (terça-feira): Île d'Oléron le Château-d'Oléron - Île de Ré Saint-Martin-de-Ré, 168,5 quilómetros



Esta segunda-feira é um dia de nervos. Nunca uma folga foi encarada com tanta ansiedade, pois serão feitos os testes à covid-19. Dois positivos numa equipa (ciclistas ou staff) e será excluída da Volta a França.

O comportamento dos adeptos no Tour deixou muito a desejar, principalmente no sábado. Sucedem-se os pedidos dos ciclistas nas redes sociais para o uso de máscara e para manterem a distância. Mas a mensagem está difícil de passar. Todos pedem para que os deixem chegar a Paris.

Se tudo correr bem, 166 ciclistas vão partir na terça-feira num tipo de etapa que os sprinters adoram. Não há uma única contagem de montanha. Dado o local, o vento poderia animar novamente a tirada, mas as previsões apontam para que seja fraco.

Os sprinters vão querer aproveitar as próximas duas tiradas. É que depois só na 19ª podem ambicionar novamente a uma vitória e vão ter de sofrer muito até lá.

»»Etapa de emoções: Pinot está fora da luta, Jumbo-Visma mostrou que não é perfeita, Pogacar deixou aviso««

»»Bora-Hansgrohe e Ineos Grenadiers em trabalho de alta velocidade. Mas no final ganhou a Jumbo-Visma««

5 de setembro de 2020

Etapa de emoções: Pinot está fora da luta, Jumbo-Visma mostrou que não é perfeita, Pogacar deixou aviso

© ASO/Alex Broadway
A luta pela geral na Volta a França começou a mexer ao oitavo dia. Porém, pouco se decidiu quanto à amarela, mas eliminou-se candidatos, com Thibaut Pinot em destaque. Na rivalidade Egan Bernal/Primoz Roglic perdeu... a Jumbo-Visma. O vencedor do dia acabou por ser Tadej Pogacar. Começa a ser impossível não gostar deste talentoso ciclista, que tem aquela característica que tanto anima corridas: gosta de atacar e quando faz, fá-lo bem.

No entanto, esta oitava etapa - entre Cazères-Sur-Garonne e Loudenvielle (141 quilómetros) - ficará aquela em que mais um ano passa e Pinot não consegue sequer estar na luta pelo Tour. Sem chegada em alto na entrada nos Pirenéus, mas com duas primeira categorias e uma especial pelo meio, no Port de Balès, foi precisamente nessa que tudo se desmoronou para o ciclista, para a Groupama-FDJ e para os franceses que tanto sonhavam com uma vitória de Pinot.

Afinal, o francês tinha razão em estar zangado naquela primeira etapa, quando caiu a três quilómetros na meta. A pancada nas costas deixou marcas e nem as três horas de tratamento a que se submeteu todos os dias desde então o salvaram. Parecia estar a melhorar, mas o Tour acabou a nível de geral. A ver vamos se animicamente o ciclista resiste.

Aos 30 anos, o trabalho que realizou para se libertar da pressão da imprensa francesa, dos adeptos, para se libertar da pressão que colocava em si próprio, deu uma nova vida a Pinot. Afastou-se de maior responsabilidade do Tour em 2017 e 2018 (nesse ano nem foi devido a doença) para depois a abraçar mais forte mentalmente. Sobre a edição de 2019 irá ficar sempre aquela dúvida se Pinot não se tivesse lesionado (que bem estava)... Sobre a de 2020 a frustração será ainda maior. Tudo se desmoronou afinal logo na primeira etapa.

É um momento importante na carreira de Pinot. A ver vamos como irá reagir. Se não for possível já no Tour, dado o problema nas costas, talvez na Vuelta. Tem boas memórias da corrida espanhola. Foi lá que completou a sua "transformação" do Pinot que se intimidava com o ambiente do Tour, para o Pinot que não teme nada nem ninguém na grande corrida do seu país.

O bom e o mau para a França

Thibaut Pinot ficou a 18:56 minutos do líder Adam Yates, mas os franceses viram também Julian Alaphilippe sair de uma posição que o poderiam levar a vestir mais uma vez a amarela, mesmo que fosse apenas por mais uns dias. O ciclista da Deceuninck-QuickStep atacou, mas pouco depois quebrou por completo. A liderança ficou a 11:42 minutos.

Os franceses vão virar a atenção para uma improvável figura e uma confirmação. Ou seja, Romain Bardet, que tão mal tem estado nos últimos dois anos e que nem era suposto ir ao Tour se a época tivesse decorrido normalmente, está a 11 segundos da liderança. Até caiu, mas atacou Adam Yates nos últimos metros. Serviu pelo menos para ganhar confiança.


Nans Peters ganhou a oitava etapa do Tour
© ASO/PresseSports/Franck Faugere
Está de saída da AG2R, mas ninguém o pode acusar de estar a pensar na Sunweb. Bardet disse que ia ao Tour sem a responsabilidade da luta pela geral e queria lutar por vitórias de etapas. Neste momento as possibilidades têm de estar todas em aberto. Mais um francês que precisa de se libertar da intensa pressão.

A confirmação chama-se Guillaume Martin. O líder da Cofidis até chegou a ser líder virtual, mas não conseguiu finalizar o ataque com sucesso. Contudo, se há ciclista que está a ser muito consistente é o filósofo do pelotão. Está a nove segundos de Yates.

E para terminar, um francês ganhou a etapa. Nans Peters venceu uma no Giro, em 2019, e agora aproveitou a fuga e o facto de Ilnur Zakarin (CCC) ser um dos piores ciclistas a descer no pelotão, para dar uma vitória à AG2R.

O bom e o menos bom da Eslovénia

© ASO/Pauline Ballet
Na sexta-feira, na etapa do vento, Pogacar perdeu 1:21 minutos. No dia seguinte, este sábado, na alta montanha, o esloveno não se coibiu de recuperar tempo. Não é demasiado calculista, mas sabe escolher o momento certo para atacar. Aos 21 anos (faz 22 no dia 21 de Setembro) lê a corrida como poucos com a sua idade.

Aquele primeiro ataque em que Primoz Roglic e Nairo Quintana o seguiram, ao perceber que a ajuda de Roglic não era muita e que a de Quintana era ainda menor (ainda assim, nota positiva para o colombiano nesta tirada), esperou por nova oportunidade. Já está a 48 segundos de Yates. Na Vuelta, onde foi terceiro, este jovem líder da UAE Team Emirates passou três semanas a melhorar fisicamente até Madrid. Depois da exibição deste sábado, deixou mais sobreaviso a dupla de favoritos Roglic/Bernal.

O compatriota, Roglic, não foi o ciclista avassalador de outros dias. Ficou sozinho na última subida, num trabalho mal calculado da Jumbo-Visma. Apesar de ver como Bernal não era capaz de acompanhar sempre que alguém atacava, Roglic pouco vez para tentar fazer maior diferença.

Talvez seja de mais dizer que não está tão em forma como parecia. Afinal há que recordar o que aconteceu quando um super Roglic tentou controlar tudo e todos no início do Giro de 2019.  O esloveno tornou-se um ciclista que gere melhor o seu esforço - assim venceu a Vuelta - e ainda há muito Tour pela frente.

Jumbo-Visma auto-destruiu-se, mas primeiro destruiu a Ineos Grenadiers

Se numa primeira fase da corrida a Mitchelton-Scott não teve outro remédio senão tomar conta das operações, na categoria especial a Jumbo-Visma quis impor-se. Tudo parecia decorrer como esperado até que... Sepp Kuss fica para trás. Foi dos primeiros a ceder da equipa, quando é suposto ser dos últimos a trabalhar para Roglic. A equipa não abrandou. Mais estranho foi ver um Wout van Aert a acelerar nos últimos dos 11 quilómetros do Port de Balès, com Tom Dumoulin e George Bennett a ficarem algo aflitos com o ritmo.

Pelo caminho já a Ineos Grenadiers tinha desaparecido. Sobrava Richard Carapaz com Egan Bernal. Está mais do que confirmado que a equipa britânica nada tem a ver com o tempo da Sky. A esperança é que Pavel Sivakov possa recuperar fisicamente das quedas do primeiro dia e ainda vir a ser útil. Bernal bem precisa.

No entanto, a Jumbo-Visma também mostrou debilidades. Talvez tenha sido entusiasmo a mais tal é a força que tem vindo a demonstrar até este Tour. Tom Dumoulin foi o último a trabalhar para Roglic, mas acabou a descolar tal como os restantes companheiros. Ficou a 2:20 de Yates, com Carapaz a 2:40 depois da etapa do vento. Jumbo-Visma e Ineos Grenadiers têm os planos B comprometidos.

No meio de ataques e contra-ataques, Adam Yates lá sobreviveu de amarelo, mas o número um da Mitchelton-Scott está longe de mostrar que a pode manter por muito mais tempo, o que também não é sua intenção. Quer ganhar uma etapa.

Em condições normais será mesmo uma luta entre Roglic e Bernal, mas com a Ineos Grenadiers a não assustar e a Jumbo-Visma a mostrar que também falha, é o momento de outros ciclistas repensarem tácticas e ambicionar mais do que ficar na expectativa.

Este Tour pode não ser tão linear como se pensaria e pode ir mais além do frente-a-frente Roglic/Bernal.

Classificação completa, via ProCyclingStats.

9ª etapa: Pau - Laruns, 153 quilómetros


Não sendo uma etapa tão difícil como a de sábado, o desgaste de nove dias de Tour já se faz sentir. E depois de um dia tão intenso, os ataques na nona etapa deverão ficar guardados para aquela última subida, principalmente por parte de quem quer recuperar algum tempo perdido. É inevitável pensar em Pogacar, mas também Mikel Landa (Bahrain-McLaren) e Emanuel Buchmann (Bora-Hansgrohe), por exemplo. Yates vai estar atento a Bardet ou Martin que podem tentar ir buscar a camisola amarela.

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4 de setembro de 2020

Bora-Hansgrohe e Ineos Grenadiers em trabalho de alta velocidade. Mas no final ganhou a Jumbo-Visma

© BettiniPhoto/Bora-Hansgrohe
Qual montanha, qual quê. Um pouco de vento e finalmente a Volta a França animou. Primeiro foi a Bora-Hansgrohe a partir do pelotão, para deixar para trás os sprinters - e principalmente Sam Bennett - de forma a garantir que Peter Sagan voltasse a vestir a camisola verde e talvez ganhar a etapa sem uma concorrência tão forte. Depois foi a Ineos Grenadiers que repetiu a dose de liderar o grupo, como na sexta etapa, mas desta vez, "estilhaçou" com a ajuda do vento o grupo, com alguns candidatos a ficarem para trás. Porém, a Jumbo-Visma não quebra. E até ganha!

Tem sido algo comum em anos recentes. Uma etapa relativamente plana com vento e vários ciclistas que ambicionam à geral vêem as contas complicarem-se. Costuma ter o condão de animar as tiradas de montanha que se seguem. E há que dizer que o Tour estava mesmo a precisar de um abanão destes. O pensamento de todos parecia estar mais nas dificuldades que estão mais adiante, do que arriscar já no início. Claro que não ajudou aquela primeira etapa recheada de quedas, mas mesmo assim, tem sido muito controlo e pouco ataque.

Se em dias anteriores o ritmo nem sempre entusiasmou, nos 168 quilómetros da sétima etapa - entre Millau e Lavaur - foi registada uma média de 47,5 quilómetros/hora, ao que se juntou então um vento com rajadas a rondar os 30 a 40 quilómetros/hora. Percebe-se desde logo porque foi irresistível alguém tentar um "abanico", utilizando a expressão espanhola. Para a animação, contribuiu ainda a luta pela camisola verde juntar-se à luta pela amarela.

A Bora-Hansgrohe começou por acelerar de tal forma na primeira subida que deixou a maioria dos sprinters para trás. Já se sabe que Peter Sagan tem capacidade para ultrapassar melhor estas dificuldades e o eslovaco tem nos últimos anos mostrado como se ganha a classificação dos pontos, sem ser preciso dominar nos sprints finais. Foi segundo no intermédio, já no final, saltou a corrente da bicicleta e foi apenas 13º. Mas recuperou a camisola verde, com nove pontos de vantagem sobre Sam Bennett. Por enquanto parece que há luta por esta classificação.

Depois do trabalho inicial da Bora-Hansgrohe - foi ainda recompensada com o prémio da combatividade para Daniel Oss -, o trabalho a alta velocidade continuou, com a Ineos Grenadiers a entrar em acção no último terço da etapa. Rapidamente começaram ciclistas a perder o contacto com o grupo da frente.

Mikel Landa (Bahrain-McLaren) continua a escrever a sua habitual história. Arranja sempre maneira de perder tempo na primeira semana. Tadej Pogacar (UAE Team Emirates) teve azar. Furou pouco antes da Ineos Grenadiers iniciar a aceleração e acabou por ceder a liderança da juventude a Egan Bernal. Richie Porte é outro que não se dá bem com abanicos, com o companheiro da Trek-Segafredo, Bauke Mollema também a ficar para trás.

Com a táctica da equipa britânica a resultar, Jumbo-Visma e Groupama-FDJ saltaram também elas para a frente. A Ineos Grenadiers acabou por falhar na sua maior pretensão: Primoz Roglic e Tom Dumoulin permaneceram intocáveis na frente, assim como o líder da formação francesa, Thibaut Pinot. Os principais adversários de Egan Bernal não perderam tempo, nem mostraram fraqueza.

A Ineos Grenadiers queria um dia para recordar, mas viu Richard Carapaz ser um dos prejudicados. Mais um furo a estragar os planos de um ciclista. A equipa deu ordem a Jonathan Castroviejo para ajudar o equatoriano, mas não havia nada a fazer. O facto de não ter ficado sozinho demonstra que esta Ineos Grenadiers não queria ver Carapaz a já 2:02 minutos na geral. Se precisar de um plano B, a opção estará mais complicada, ao contrário do que acontece com a Jumbo-Visma, que continua a ter Primoz Roglic e Tom Dumoulin na luta pela geral.

Tal é a discrição, que quase dá para esquecer que o camisola amarela é Adam Yates. Com outras equipas a assumirem as rédeas das etapas, a Mitchelton-Scott "só" teve nestes últimos dois dias de se preocupar em proteger Yates. O que não foi nada fácil hoje, mas o britânico sobreviveu a uma etapa louca, emotiva e muito interessante a nível táctico.

© ASO/Alex Broadway
No final ganhou a Jumbo-Visma

Não deixará de ser algo frustrante para quem tanta trabalhou ver a equipa rival não só não quebrar, como ainda a ganhar a etapa. Esta Jumbo-Visma dá para tudo e ainda nem foi forçada a intenso trabalho na montanha. Esse talvez surja este fim-de-semana.

Com o esforço na primeira fase da etapa, a Bora-Hansgrohe esperava que fosse desta que Peter Sagan ganhasse. Parte da missão está cumprida ao recuperar a camisola verde, mas começa a ser difícil perceber como irá este eslovaco quebrar um longo jejum de triunfos. Que coisa estranha em dez anos como profissional!

Bryan Coquard (B&B Hotels-Vital Concept) e Christophe Laporte (Cofidis) conseguiram ficar na frente e com razão sonharam à ambicionada vitória no Tour, com Edvald Boasson Hagen (NTT) a mostrar que a idade passa, mas não é um ciclista que se deva menosprezado.

Mas não foi nenhum destes ciclistas a aproveitar a falta de sprinters na discussão. No grupo estava Wout van Aert. Que mais dizer sobre este belga? Mais uma vez trabalhou na frente depois da Ineos Grenadiers forçar o andamento. Expôs-se, mas nem assim perdeu forças para bater a concorrência nos metros finais. Lá foi ele ganhar e até com relativa tranquilidade. Segunda vitória para o belga, terceira para a Jumbo-Visma - venceu com Primoz Roglic na primeira chegada em alto no Tour - em sete etapas.

Classificações completas, via ProCyclingStats.

8ª etapa: Cazères-Sur-Garonne - Loudenvielle, 141 quilómetros


Perante a perda de tempo na sétima etapa, o fim-de-semana pode ter ganho outro interesse. Com cerca de minuto e meio para recuperar, ciclistas como Mikel Landa, Tadej Pogacar e os líderes da Trek-Segafredo, vão ter de começar a procurar forma de recuperar tempo. Com um dia de descanso à espera na segunda-feira, principalmente a etapa deste sábado tem um percurso interessante para estes atletas, mesmo sem ter chegada em alto. O pelotão chega à fase dos Pirenéus.

Haverá a primeira categoria especial deste Tour, no Port de Balès. São 11,7 quilómetros, com uma pendente média de 7,7%. Atenção aos segundos de bónus no Col de Peyresourde (oito, cinco e dois). Chegou a altura de este Tour começar a mexer mais na geral, com a expectativa de ver se Roglic ou Bernal vão continuar na expectativa, ou se a Jumbo-Visma e a Ineos Grenadiers vão finalmente medir forças. A vontade de ver este frente-a-frente cresce...

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3 de setembro de 2020

Ineos Grenadiers mostrou-se. Jumbo-Visma esteve atenta mas sem razões para se preocupar

© ASO/Pauline Ballet
Pode dizer-se que foi um pequeno aperitivo do que se espera nesta Volta a França. Ou seja, ver a Ineos Grenadiers e Jumbo-Visma terem um frente-a-frente de como se trabalha em equipa para levar o líder à vitória. Foi mesmo pequeno, até porque a exibição da formação britânica não convenceu e teve uma rival atenta e até a agradecer por não ter de gastar forças para "puxar" o pelotão por um dia. E a Mitchelton-Scott também não se importou passar a vez, já que com Adam Yates de amarelo, era a sua responsabilidade, como assumiu durante vários quilómetros.

Ver a Ineos Grenadiers na frente foi um regresso aos bons velhos tempos da Sky, mas foi só algo para a fotografia. Com uma fuga em que os ciclistas se uniram para garantir o seu sucesso, a equipa britânica também se uniu para tentar dizer que há que manter o respeito por quem sabe dominar tão bem o Tour. O respeito não se perdeu, mas o medo sim. Já ninguém tem receio de tentar desfazer esta Ineos Grenadiers e nem precisa de ser a Jumbo-Visma a mostrar que a equipa britânica perdeu o estatuto de dominadora no Tour.

Não ajuda ter um Pavel Sivakov a tentar desesperadamente recuperar das duas quedas daquele malogrado primeiro dia. Andrey Amador, outro que caiu, trabalha, mas não é o ciclista que se esperaria. Não por agora. E depois... "Ele [Egan Bernal] disse 'calma, calma'." As palavras de Bauke Mollema ao canal de televisão NOS estão a levantar mais dúvidas sobre a forma do colombiano.

O holandês da Trek-Segafredo explicou que ouvi Bernal pedir a Michal Kwiatkowski ter calma na última subida. Se está mal, ou se apenas queria um ritmo menor, visto que não iria atacar... Teremos de esperar mais uns dias para perceber.

Durante grande parte daquele trabalho intenso da Ineos Grenadiers ainda se pensou que Bernal poderia querer mostrar-se. Longe disso. Ali, sempre muito perto, esteve a Jumbo-Visma. Até pode dizer que teve o dia de folga quanto à responsabilidade de estar na frente. Controlou totalmente a rival, mas não houve necessidade de entrar em disputa.

Kwiatkowski e Richard Carapaz não deixaram Bernal sozinho desta feita e cortaram a meta juntos, enquanto a Jumbo-Visma teve a dupla que vai chamando cada vez mais a atenção Roglic e Tom Dumoulin na frente.

O frente-a-frente por que tanto se aguarda irá ver-se certamente mais tarde, mas com a primeira semana do Tour a terminar, a Jumbo-Visma dá todos os sinais positivos que o que se viu na preparação para a corrida não foi um acaso - e já ganhou duas etapas, uma com o líder Primoz Roglic e outra com o super ciclista Wout van Aert -, enquanto a Ineos Grenadiers é de facto uma equipa muito diferente dos tempos áureos de Chris Froome. Ainda mais com ciclistas limitados, incluindo Bernal, que abandonou o Critérium du Dauphiné com dores nas costas e que diz ainda está a recuperar. 

© ASO/Pauline Ballet
A primeira vitória de uma fuga

Entendimento total e a grande velocidade. Depois de uma etapa em que nem sequer houve fuga, desta feita houve e triunfou nos 191 quilómetros que ligaram Le Teil a Mont Aigoual. A vontade era tanta que o grupo chegou a ultrapassar os 45 quilómetros/hora de média na fase mais plana.

Primeira fuga a triunfar nesta edição da Volta a França, pois nem a Ineos Grenadiers liderar o pelotão ameaçou o grupo de qualidade da frente, que teve Greg van Avermaet (CCC) a tentar um triunfo que esta no teima em aparecer.

No final, um cazaque à imagem da referência daquele país, Alexander Vinokourov, seguiu à letra as instruções do agora director desportivo da Astana para ganhar. Não é segredo a qualidade de Alexey Lutsenko. Em forma é um ciclista difícil de se bater. E assim foi para tristeza da Cofidis.

A equipa francesa bem quer terminar com uma espera de 12 anos por uma vitória de etapa no Tour. Elia Viviani nem se tem visto nos sprints e Jesús Herrada não aguentou o ataque a cerca de quatro quilómetros da meta de Lutsenko. O espanhol cortou a meta 55 segundos depois. A espera continua, mas ainda assim - mesmo sem Viviani mais competitivo -, esta Cofidis está a apresentar-se melhor que em anos anteriores, muito por culpa de Guillaume Martin, um forte candidato ao top dez na geral.

O Col de la Lusette acabou por ser uma desilusão a nível de espectáculo no que na luta pela camisola amarelo diz respeito, mas começa a ficar claro que as equipas estão a enfrentar este Tour com muito cuidado. O confinamento deixou muitos pontos de interrogação quanto à capacidade de se estar bem nestas três semanas tão importantes de uma temporada curta e incerta.

Talvez no fim-de-semana a acção anime, com duas etapas com muita montanha, antes do primeiro dia de descanso da Volta a França. Até lá, Adam Yates (Mitchelton-Scott) vai desfrutar de uma camisola amarela que Julian Alaphilippe e a Deceuninck-QuickStep lhe ofereceram.

Classificações completas, via ProCyclingStats.

7ª etapa: Millau - Lavaur, 168 quilómetros


Esta sexta-feira será dia para os sprinters. O percurso está longe de ser plano, pelo que as equipas estarão atentas para que os seus homens mais rápidos não percam contacto com o pelotão. E a quilometragem é curta. Porém, o pior poderá ser o vento, que nesta região tem tendência a fazer-se sentir.

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