Excepcionalmente, a Jumbo-Visma irá mudar a sua habitual camisola amarela durante a Volta a França. Não sendo nada de inédito, com outras formações a já o terem feito, a equipa holandesa resolveu tornar esta alteração especial, envolvendo os fãs na escolha. Foram criados três modelos que estão agora a votos. Mas há mais, as camisolas vão incluir os nomes de adeptos da Jumbo-Visma.
A opção por mudar a camisola durante o Tour não tem tanto a ver com marketing, mas mais para evitar que a camisola amarela da liderança da corrida se confunda com a da equipa.
No ano passado, Primoz Roglic vestiu a amarela durante metade da prova, até ao dramático e inesquecível contra-relógio que levou Tadej Pogacar (UAE Team Emirates) a surpreender e conquistar a Volta a França.
O objectivo da Jumbo-Visma é exactamente o mesmo. Colocar Roglic de amarelo, mas à partida, em Brest, será em tons mais escuros que toda a equipa irá apresentar-se. A votação começou no dia 7 e o modelo Rapid Rebel está em vantagem (modelo do meio na fotografia), segundo os resultados que a equipa vai mostrando na sua conta de Twitter. Há ainda a Black Bee (esquerda) e Transition (direita).
Qual é a sua preferida? Para votar basta ir ao site da Jumbo-Visma (aqui fica o link) até ao dia 15 (quinta-feira). Na sexta será anunciada a camisola preferida dos adeptos, sendo que até 28 de Abril será possível comprar a edição especial.
No que diz respeito a equipas que, para evitar que as suas camisolas tirassem destaque à amarela do líder da corrida, mudaram os equipamentos no Tour, temos exemplos de formações bem conhecidas da história do ciclismo. ONCE de Alex Zülle e Joseba Beloki, Mercatone Uno de Marco Pantani e, recuando um pouco mais no tempo, a KAS.
A UCI cedeu e permitiu que os organizadores das três grandes voltas possam convidar mais uma equipa, ou seja, serão 23 em vez de 22. Este era um desejo crescente desde que as regras foram alteradas, deixando apenas dois wildcards disponíveis, pois 20 dos lugares estavam automaticamente preenchidos. A pandemia veio aumentar ainda mais a vontade de existirem mais convites. Esta decisão será um alívio para algumas equipas dos países das corridas, que assim vêem abrir-se uma oportunidade para estarem presentes.
Com a pandemia a limitar o número de corridas - em 2021 está-se longe de uma normalidade a nível de calendarização neste arranque de temporada -, a UCI optou por ceder aos pedidos das federações de Itália, França e Espanha. Porém, no comunicado, deixou bem claro que é uma medida excepcional, apenas aplicável este ano. Referiu precisamente como será uma oportunidade para equipas e ciclistas terem mais competição num período tão complicado do ciclismo, devido à covid-19.
Com 23 equipas, o número de ciclistas no pelotão de uma grande volta vai aumentar para 184, em vez de 176. Uma das medidas recentes da UCI foi reduzir o número de ciclistas de nove para oito por cada equipa, e esse número mantém-se. O organismo defende que menos corredores significa maior segurança no pelotão, ainda que não seja uma ideia consensual entre responsáveis pelas equipas e os próprios ciclistas. Em 2021 haverá então uma excepção à regra.
Quando as organizações tinham disponíveis quatro convites para as ProTeam (segundo escalão) - numa altura em que eram 18 no World Tour, que têm entrada garantida -, o problema era mais interno. Ou seja, quando algumas formações ficavam de fora em detrimento de outras. A Volta a Itália é normalmente a que gera mais controvérsia, ao deixar equipas do país de fora, para convidar estrangeiras.
Porém, agora são 19 formações World Tour e a melhor ProTeam do ranking de cada ano passou a ter acesso directo às grandes corridas. Em 2020 foi a Total Direct Energie - que até abdicou do Giro - e esta época é a Alpecin-Fenix quem terá esse benefício e que não abdica de nada. Isto significou que as organizações ficaram apenas com dois convites para atribuir, o que criou tensão entre as equipas dos países das grandes voltas, sempre desejosas por estar na corrida de forma a ajudar a garantir patrocinadores.
A ASO teve a vida facilitada com esta decisão da UCI. Na Volta a França vão estar a Total-Direct Énergie, Arkéa Samsic and B&B Hotels p/b KTM, anúncio feito esta quinta-feira, pouco depois da UCI ter confirmado a sua decisão. Entre as formações francesas do segundo escalão, ficou a Delko de fora, mas é uma equipa que normalmente não entra nestas contas do Tour, ficando com convites para algumas clássicas e outras provas por etapas.
Em Espanha, com quatro equipas ProTeams, será boa notícia para uma, mas também ficará uma de fora. Burgos-BH, Caja Rural são presenças habituais, com Euskaltel-Euskadi a querer regressar aos grandes palcos. A Ken Pharma poderá ser a excluída.
Em Itália é onde tudo costuma ser mais complicado. A Eolo-Kometa de Alberto Contador e Ivan Basso - tem licença italiana - parece estar com as portas abertas para o Giro, ainda que sem confirmação oficial. Bardiani-CSF-Faizanè, Androni Giocattoli-Sidermec e Vini Zabù procuram obter uma vaga, mas têm uma forte concorrência "externa".
A russa Gazprom é sempre uma hipótese, colocando-se aqui questões financeiras, enquanto a Arkéa Samsic já fez saber que gostaria de ser convidada. O seu líder, Nairo Quintana quer apostar mais no Giro e não tanto no Tour. O colombiano é um antigo vencedor da grande volta italiana. Um convite a mais pode ser uma ajuda, mas não resolve o imbróglio da atribuição dos wildcards em Itália. Alguém vai ficar desiludido.
Algumas bicicletas bem valiosas, não só por serem Specialized, mas também por representarem vitórias importantes, foram roubadas. Entre elas estão a da vitória de Peter Sagan no Paris-Roubaix, a de quando Fabian Cancellara andou de amarelo na Volta a França, ou a da medalha de ouro olímpica de XCO de Jaroslav Kulhavy. Mas há mais. Ao todo o valor ascende aos 160 mil dólares, cerca de 131 mil euros, de pelo menos 16 bicicletas furtadas.
O assalto à sede da marca, em Morgan Hill, Califórnia (EUA), aconteceu durante a tarde de sábado, sendo que as bicicletas roubadas estavam na zona de exposição, uma espécie de museu, com vários modelos a terem histórias para contar. Mas segundo Cyclingtips, também desaparecem bicicletas de trabalhadores e alguns protótipos.
O site explica que é difícil para a Specialized dar um valor exacto das perdas, precisamente por várias das bicicletas terem um forte valor simbólico. É o caso da S-Works Roubaix com que Sagan finalmente conquistou Roubaix em 2018, ou a que o eslovaco utilizou no Tour em 2019, quando bateu o recorde de conquistas de camisolas verdes (S-Works Venge).
Na lista divulgada, surge a Tarmac de Cancellara, quando o suíço vestiu a camisola amarela no Tour de 2010, a Shiv com que Tony Martin conquistou a prata nos Jogos Olímpicos de Londres (contra-relógio) e a já referida Epic de Kulhavy. A Tarmac da triatleta Gwen Jorgensen, campeã olímpica no Rio de Janeiro, foi mais uma a ser roubada.
Outras bicicletas podem não ser tão famosas, mas algumas serão difíceis de vender até porque podem ser únicas, caso dos protótipos.
O Cyclingtips explica que a polícia local acredita que os suspeitos, por agora desconhecidos, utilizaram dois veículos no roubo, um deles foi entretanto abandonado, mas a carrinha com as bicicletas ainda não foi encontrada.
Uma fonte da Specialized, disse ao site que há poucos trabalhadores no local ao fim-de-semana, até porque as restrições da pandemia assim o exigem. Acrescentou ainda que nenhum funcionário foi ameaçado, nem testemunhou o assalto.
Perante um roubo destes, a Specialized está mais do que interessada em ter de volta as suas bicicletas e o Cyclingtips refere que a marca oferece uma recompensa de 25 mil dólares, pouco mais de 20 mil euros, por qualquer informação que leve à descoberta dos autores do assalto e/ou a recuperação das bicicletas.
Tadej Pogacar ainda está nos primeiros dias como vencedor da Volta a França e já admite que a sua vida ficou "virada do avesso" desde o contra-relógio de sábado, em La Planche de Belles Filles. O mundo amarelo do ciclista começou quando acordou no domingo, com as marcas ligadas à UAE Team Emirates a não falharam no momento de celebrar o feito do jovem que esta segunda-feira celebrou 22 anos.
Equipamento da cabeça aos pés, bicicleta, bidão, até a máscara, nada faltou em amarelo, como se pode ver nas fotografias. Tudo para guardar e mais tarde recordar. A bicicleta da Colnago teve de ser substituída rapidamente, pois Pogacar admitiu numa entrevista ao L'Equipe que na sexta-feira à noite tinha visto os mecânicos a prepararem uma toda branca, para o ciclista utilizar na derradeira etapa e assim assinalar a conquista da classificação da juventude. Sábado tudo mudou, com Pogacar a vencer não só a camisola branca, como a das bolinhas vermelhas da montanha e, claro, a amarela.
Da noite para o dia, tudo mudou, incluindo a vida do esloveno, que ainda está só a começar a experimentar todas as responsabilidades que advêm de um vencedor da Volta a França. "Penso que o segredo do meu sucesso é que comecei sem acreditar em algum momento que poderia ganhar. Era um espírito livre. Nem sequer tinha um ciclo-computador", contou o ciclista ao jornal francês. "O contra-relógio virou a minha vida do avesso e tudo ainda está do avesso", afirmou.
Pogacar não esquece Primoz Roglic, o seu compatriota e rival durante o Tour. Realçou como considerou que o ciclista da Jumbo-Visma reagiu bem à derrota, lamentando que não tenha ganho. Afirmou mesmo que Roglic foi o melhor durante todo o Tour, mas que teve um mau dia no contra-relógio, para o qual havia partido com 57 segundos de vantagem e acabou a 59 de distância de Pogacar. "Tenho pena por ele, mas o desporto é assim. Queremos ganhar, damos tudo e, infelizmente, ele perdeu a camisola e sou eu que a tenho, apesar de ele ser um dos melhores ciclistas dos últimos três anos", afirmou.
Há três anos, Pogacar nem no World Tour estava - representava uma equipa Continental de Liubliana -, mas já ganhava o Tour de l'Avenir e tinha a UAE Team Emirates a garantir a sua contratação para 2019. E nunca é de mais recordar: a primeira vitória como ciclista do World Tour foi na Volta ao Algarve, primeiro no Alto da Fóia e depois conquistando a geral.
Se a Volta a França já tinha corrido mal para a Arkéa Samsic, o pior acabou por acontecer fora da estrada e veio a público assim que a prova terminou. Após a 17ª etapa, que terminou em Col de la Loze, as autoridades policiais estiveram no hotel onde a equipa estava instalada e terá encontrado 100 mg de solução salina e equipamento para injectar, segundo alguns meios de comunicação social franceses. O responsável da estrutura já veio confirmar as buscas, mas reitera que a equipa não está envolvida em sistemas de doping.
Perante o que foi encontrado pelas autoridades de combate ambiental e danos à saúde pública (tradução livre), está a decorrer uma investigação, que foi confirmada pelo Ministério Público de Marselha à AFP. É descrito que foram "encontrados muitos produtos de saúde (...) e especialmente um método que pode ser de doping", não sendo especificado qual.
O procurador Dominique Laurens referiu a presença de medicamentos ilegalmente prescritos e que a investigação procurava os "responsáveis pela administração e prescrição a um atleta sem justificação médica da substância ou método proibido dentro dos parâmetros do evento desportivo". Os quartos de Nairo e Dayer Quintana e assim como o de Winner Anacona terão sido alvos de busca e os irmãos prestaram declarações à polícia voluntariamente.
Os três ciclistas chegaram em 2020 à Arkéa Samsic, com Nairo a ter como objectivo Tour. Apesar de ter começado muito bem a temporada, após o confinamento, tudo foi diferente. Foi atropelado durante um treino, ainda antes de regressar à Europa, e quedas acabaram por tirar-lhe qualquer hipótese de discutir um bom resultado na Volta a França. Terminou em 17º, a mais de uma hora do vencedor, Tadej Pogacar (UAE Team Emirates).
Reacções
O director da equipa, Emmanuel Hubert, confirmou, através de um comunicado, as buscas ao hotel. "Uma busca foi realizada na semana passada. Só envolveu um número limitado de ciclistas e os seus familiares mais próximos, que não trabalham para a equipa", salientou. Assegurou que nenhum membro do staff da equipa está a ser investigado e que apoia todos os seus ciclistas.
No entanto, caso a investigação venha a revelar alguma questão relacionada com o doping, Hubert refere que serão tomadas todas as medidas para terminem com as ligações "com actos inaceitáveis". Recorda ainda que a Arkéa Samsic é membro do Movimento por um Ciclismo Credível e que tem uma postura de luta contra o doping.
Nairo Quintana também já reagiu, explicando que em causa estão vitaminas. "No dia em que as autoridades entraram no meu quarto, levaram suplementos vitamínicos perfeitamente legais, mas, talvez, não familiares para as autoridades francesas. Esta é a principal razão porque está a levar tanto tempo a clarificar a situação", explicou. Garantiu que "não foram encontradas substâncias dopantes".
Acrescentou que durante as corridas, Tour ou outras, nunca consultou pessoas fora do staff da equipa: "Não tenho, nem nunca terei, nada a esconder."
Próximas corridas
A equipa francesa vê-se assim debaixo de holofotes pouco desejáveis, numa altura em que se prepara para competir na Volta a Portugal, que começa no próximo domingo, sendo uma das cinco formações ProTeam presentes.
Foram convocados: Daniel McLay, Bram Welten, Alan Riou, Thibault Guernalec, Matis Louvel, Lukasz Owsian e Christophe Noppe. Roger Trehin será o director desportivo.
Também no domingo, a equipa correrá na corrida de um dia, em casa, Paris-Chauny, antes de se concentrar nas clássicas das Ardenas: Flèche Wallonne (30 de Setembro), Liège-Bastogne-Liège (4 de Outubro), Amstel Gold Race (10).
Tivemos Volta a França! Depois de tanta incerteza e de tanto as equipas desejarem terem um Tour para salvar uma temporada que a pandemia ameaça tornar perdida, a corrida realizou-se mesmo, com um ou outro sobressalto, como os cinco casos positivos no primeiro dia de folga e os dois membros de staff mandados para casa pela Lotto Soudal ainda antes da prova. Porém, foi possível o destaque ser a competição. Não foi um Tour tão emocionante como o de 2019, mas contra-relógio final valeu uma Volta a França. Recordaremos aquela exibição de Tadej Pogacar durante anos e anos. Foi uma performance para a história de um jovem que esta segunda-feira vai celebrar 22 anos.
Como sempre, há aspectos positivos e negativos. Aqui ficam as prestações das equipas uma a uma, com a classificação por equipas a determinar a ordem. E lá aparece a Movistar a liderar, com Nelson Oliveira a somar mais uma subida a um pódio de uma grande volta.
Próxima paragem nas grandes voltas: Volta a Itália, de 3 a 25 de Outubro.
Movistar: Está em fase de renovação e está a ser lenta. Ainda assim, Enric Mas acabou por fazer um bom Tour, fechando num excelente quinto lugar, a 6:07 minutos de Pogacar. O espanhol foi crescendo de forma, manteve-se sempre muito discreto, mas de olhos postos num bom resultado. Falta é equipa. Alejandro Valverde também quase não se viu, contudo, um desastroso contra-relógio tirou-lhe o que seria mais um top dez. Mas lá está, não trabalha para companheiros. A equipa acaba por ganhar a classificação colectiva, o que é algo habitual, mas, mais uma vez, não apaga que a Movistar precisa de mais e melhor, com Mas a salvar a honra. Mas a equipa nem uma etapa ganhou. Nelson Oliveira cumpriu com a sua função e não é por acaso que continua a ser um dos gregários que os responsáveis não abdicam.
Jumbo-Visma: Que Tour tão amargo! A Jumbo-Visma tirou a Ineos Grenadiers do pedestal e terminou com a era Sky/Ineos. Porém, não conseguiu substitui-la como a força vencedora. A equipa holandesa foi a mais forte, mas também mostrou falhas - deveria ter ganho mais tempo na montanha, tal era a diferença para as outras equipas -, que não foram mais graves porque tinha um líder, Primoz Roglic, também ele forte. Ou seja, foi uma equipa completa. Uma das falhas acabou por ser a falta de maior controlo a Pogacar. Custou caro.
É inevitável destacar três ciclistas, além do esloveno. Sepp Kuss está feito num gregário de luxo aos 26 anos e já começa a pedir mais do que um papel secundário. Dumoulin foi um senhor. Não era o objectivo, mas o holandês sacrificou-se por Roglic. A ideia da equipa era tê-lo preparado para entrar na luta pela amarela, mas quando a equipa funcionou pior, Dumoulin fez tudo para ver Roglic ganhar. O sétimo lugar é uma recompensa, mas este Dumoulin já deixa antever um regresso aos melhores tempos.
Por fim, Wout van Aert. É um ciclista a quem faltam adjectivos para o elogiar. Venceu duas etapas, se calhar até poderia ter ganho mais e até a camisola verde, mas sempre disse que estava no Tour para ajudar Roglic. E que ajuda deu! Acabou por ser dos mais importantes na montanha, quando se esperaria que fosse dos primeiros a acabar o trabalho nas etapas. Afinal, foi dos últimos. Lealdade suprema, qualidade que nunca mais acaba, foi um super Van Aert, que está muito ganhador em 2020, mas que é também um verdadeiro homem de equipa.
Quanto a Roglic, esteve praticamente sempre bem e venceu uma etapa. Foi autoritário, foi somando bonificações que pareciam estar a ser tão importantes. Mas as forças faltaram-lhe quando 57 segundos de vantagem deveriam ter garantido o Tour, que a Jumbo-Visma esperava ser o culminar do trabalho feito nos últimos anos para se tornar numa potência. Há que perceber o que aconteceu, levantar a cabeça e tentar de novo.
Bahrain-McLaren: O quarto lugar de Mikel Landa (a 5:58) foi um menos mal para um espanhol que desiludiu como líder. É a segunda vez que fecha nesta posição - na outra foi como gregário da Sky -, mas tendo em conta que sempre assumiu que olhava para a vitória, ou pelo menos para o pódio, houve pouco Landa. Nem no dia em que a equipa tão bem preparou o seu ataque, o fez. 24 horas depois atacou só para mostrar que estava presente. Deveria ter mostrado muito mais. Mas a Bahrain-McLaren teve uma prestação colectiva muito positiva e ainda colocou Damiano Caruso no 10º lugar.
EF Pro Cycling: Tour de altos e baixos. Um última semana menos boa tirou o pódio a Rigoberto Uran (terminou em oitavo, a 8:02). Uma sequência de quedas, a começar no Critérium du Dauphiné e que continuaram no Tour, tiraram Sergio Higuita da corrida. Daniel Martínez desiludiu na geral, mas foi dele o momento alto, ao ganhar uma etapa, em Pas de Peyrol. Neilson Powless esteve em bom plano nas fugas, já Hugh Carthy esteve aquém do esperado e Tejay van Garderen esteve na corrida (caso não não se saiba!), mas o americano esteve completamente apagado. Ainda assim, Tour positivo para a EF Pro Cycling dada as armas que tinha e os azares que teve com Higuita.
Ineos Grenadiers: Os tempos da Sky terminaram, mas a nova era da equipa britânica, apostando de uma vez por todas nos seus jovens na Volta a França e deixando Chris Froome Geraint Thomas de fora, não correu nada bem. Egan Bernal esteve longe do seu melhor e nem terminou a corrida. Que estranho foi ver o colombiano sofrer tanto nas montanhas, mas melhores tempos virão para este fenomenal ciclista. A equipa também se pode queixar de muitos infortúnios. Pavel Sivakov e Andrey Amador começara o Tour a cair duas vezes no primeiro dia, Sivakov ainda voltou a sofrer incidentes, o que o limitou na missão de estar ao lado de Bernal. Richard Carapaz acabou por ser o maior destaque, mas perdeu a camisola da montanha no contra-relógio para um super Pogacar. Para a Ineos Grenadiers valeu aquele momento em que Carapaz e Kwiatkowski trabalham juntos numa fuga para cortar a meta lado-a-lado, com vitória para o polaco. Porém, perante os objectivos, esta foi uma Volta a França para esquecer... ou, se calhar, para aprender.
Trek-Segafredo: Não foi uma corrida fácil, mas no final houve uma compensação já merecida para Richie Porte. Foi dos anos em que melhor surgiu, talvez só comparável a 2016 e em 2017, neste último em que parecia estar fortíssimo, mas sofreu uma queda que lhe acabou com a temporada. O australiano assumiu que era a última vez que seria um líder no Tour e isso até parece lhe ter retirado alguma pressão, curiosamente. Talvez por achar que já não tinha nada a perder, esteve audaz, de olhos na frente da corrida. Porém, acontece sempre algo a Porte. Perdeu tempo na etapa do vento e na última de montanha teve um furo numa zona de sterrato, onde teve de pedalar com pneu em baixo enquanto não chegava ajuda. No final, no contra-relógio, tudo se compôs. O pódio assenta-lhe bem por tudo o que fez na sua carreira, de super gregário a um líder a quem escapava um bom resultado numa grande volta. Falta-lhe ainda a etapa. Bauke Mollema não terminou a corrida, o que terá tirado a Trek-Segafredo a possibilidade de alcançar algo mais. Mas com Porte no pódio a nota só podia ser muito positiva.
Astana: Ai Miguel Ángel López! Grande vitória de etapa, para depois estragar tudo com um contra-relógio de baixo nível, que lhe custou o pódio e até o top cinco (foi sexto). Mas a Astana pode ainda queixar-se que teve ciclistas abaixo do desejado (os irmãos Izagirre, por exemplo, com Ion a abandonar a meio devido a uma queda), que pouco ajudaram o colombiano na montanha. Ficou sozinho muito cedo quase sempre, com o estreante Harold Tejada até a ser dos que mais acompanhou López. Alexey Lutsenko fez a sua corrida, como era de esperar, porque também garante resultados. Uma vitória de etapa e missão cumprida. Tour com um lado positivo, mas a podia ter sido bem melhor. López tem de trabalhar mais o contra-relógio. Bem precisa se quiser ganhar uma grande volta.
AG2R: Romain Bardet queria etapas, acabou por perceber que poderia lutar por um bom lugar na geral, mas caiu na etapa que terminava onde tanto treina e abandonou. Pierre Latour também não terminou. Nans Peters salvou a equipa terminar um Tour de mãos a abanar, algo que seria muito mau tendo em conta que é uma das principais equipas francesas. A vitória na oitava etapa (grande exibição de Peters) foi o ponto alto e o que AG2R terá para recordar no Tour em que se despediu de Bardet e Latour (nesta corrida). Ambos estão a caminho de novos projectos - Sunweb e Total Direct Energie, respectivamente - e a equipa está de facto a precisar de algo novo.
UAE Team Emirates: Não foi a equipa para apoiar um líder candidato a vencer o Tour, mas acaba com resultados fenomenais. Tadej Pogacar resolveu muito sozinho, é certo, mas David de la Cruz merece uma menção, pois foi um dos muitos ciclistas que começou a corrida a cair e quando recuperou fez o que pôde para estar ao lado do esloveno. Os restantes também fizeram o possível, mas há que melhorar a qualidade em redor de Pogacar rapidamente, ainda mais agora que é o vencedor de um Tour e logo na estreia. Fabio Aru nem acabou a prova e deixou a equipa algo irritada. Mas no final, interessam os números: vitória na geral, na montanha e na juventude. Pogacar venceu três etapas e Alexander Kristoff ganhou logo a primeira, vestindo a amarela pela primeira vez na carreira. Mais palavras para quê. Sucesso para a UAE Team Emirates que tem um fora-de-série de apenas 21 anos, com uma maturidade e inteligência táctica pouco habitual, dada a idade.
Mitchelton-Scott: O centro das atenções era Adam Yates, que tinha o plano de conquistar etapas. Só que a amarela caiu-lhe no colo na quinta etapa, quando Julian Alaphilippe (Deceuninck-QuickStep) foi penalizado por receber um bidão numa zona proibida (dentro dos 20 quilómetros finais). Foram quatro dias como líder e quando perdeu a camisola amarela, o britânico (que está de saída para a Ineos Grenadiers) e a equipa perceberam que o pódio era possível, ainda mais quando Egan Bernal abandonou, mudaram a aposta. Yates quebrou nas últimas etapas de montanha, o contra-relógio não foi o melhor, pelo que o nono lugar não foi mau. A Mitchelton-Scott teve o seu destaque e mais não se poderia pedir perante os ciclistas presentes.
Groupama-FDJ: Volta a França para esquecer. Thibaut Pinot falhou na primeira etapa de montanha, queixando-se de dores nas costas devido à queda que teve logo no primeiro dia de corrida. Ele e outros companheiros caíram e foi o prenúncio de um Tour negativo. David Gaudu também ficou mal-tratado pelo que nem outra solução houve. Com a equipa a deixar o sprinter Arnaud Démare de fora, todo um plano caiu por terra quando Pinot mostrou que não seria o ciclista de 2019. Esperou-se que talvez tentasse uma etapa, mas nada. "Arrastou-se" até final. Stefan Küng foi um dos que ainda tentou duas fuga, mas foi um Tour muito mau, ainda mais para uma equipa francesa tão importante como a Groupama-FDJ.
Arkéa Samsic: Havia alguma expectativa quanto a Nairo Quintana que tão bem começou 2020. O confinamento não lhe fez bem e não ajudou ter sido atropelado num treino, pouco antes de regressar à Europa. O colombiano até deu indicações nos primeiros dias que talvez pudesse entrar nas contas de um top cinco, ou talvez um pódio. Mas não. Mais um ciclista que não se livrou de quedas e afundou-se na geral (17º a mais de uma hora de Pogacar). Warren Barguil mal se viu, Winner Anacona mostrou muito mais quando esteve na Movistar e Dayer Quintana... é difícil não pensar que foi ao Tour por ser irmão de quem é. Arkéa Samsic quer ser uma ProTeam de qualidade World Tour, mas Quintana foi mais uma vez uma desilusão.
Cofidis: Apostou alto e perdeu tudo. Guillaume Martin é um excelente reforço. Teve uma boa primeira semana, mas algo inesperadamente quebrou na segunda. De potencial lugar no pódio, ficou fora do top dez. A equipa precisa de ter mais força na montanha para ver Martin ir mais longe. Tem potencial para tal. A maior desilusão chama-se Elia Viviani. Mais um daqueles ciclistas que deu para esquecer que foi ao Tour. A sua missão era dar a primeira vitória na Volta a França à equipa em mais de dez anos. O último foi Sylvain Chavanel, em 2008. A equipa subiu a World Tour, mas a contratação de Viviani para o sprint está a ser uma aposta falhada. Foi um Tour muito mau para o italiano que mal se viu nos sprints.
CCC: A indefinição quanto ao futuro da equipa com a anunciada saída do patrocinador, não terá ajudado os ciclistas chamados a manterem-se focados. A CCC passou ao lado do Tour. Intrometeu-se em fugas, Ilnur Zakarin ainda esteve na luta por uma etapa, mas acabou por abandonar a corrida. Greg van Avermaet deveria ter-se mostrado mais, Michael Schär foi dos mais activos. Há pouco a dizer sobre a formação polaca que teve em Matteo Trentin o maior destaque. Tentou entrar na luta pela camisola verde, tendo sido terceiro, mas não teve hipóteses nos sprints para ganhar uma etapa.
Bora-Hansgrohe: Não correu bem. Lennard Kämna alcançou uma vitória de etapa que o confirma como ciclista de futuro (muito próximo), ele já que havia ganho no Critérium du Dauphiné. Porém, a Bora-Hansgrohe viu os seus objectivos saírem gorados bastante cedo. Emanuel Buchamnn foi uma desilusão. Aquela queda no Dauphiné deixou marcas e o alemão não recuperou em condições. Apontava ao pódio depois de ter ficado à porta em 2019, mas mal chegou a montanha, percebeu que não dava para estar na frente. Uma pena para um ciclista de quem muito se esperava. Mas para piorar as coisas, Peter Sagan também não está nada, nada bem. A camisola verde que parecia ter o seu nome foi parar a Sam Bennett (Deceunick-QuickStep). Sagan ainda a vestiu, mas cedo se percebeu que a missão seria difícil. O eslovaco está muito longe dos seus tempos áureos e com os sprints intermédios colocados este ano antes das montanhas, Sagan perdeu a luta com Bennett. E continua sem ganhar em 2020. A Bora-Hansgrohe trabalhou muito para Sagan e essa união e qualidade de trabalho, foi um ponto positivo, além de Kämna, claro.
B&B Hotels-Vital Concept p/b KTM: Valeu Pierre Rolland. É um ciclista com altos e baixos na carreira, mas quando corre sem grande pressão e com liberdade em alcançar o seu resultado, mostra-se na montanha e foi isso que fez. Não conseguiu a etapa, mas mostrou as cores de um equipa que só recebeu o convite para o Tour na terceira tentativa. Porém, o que Rolland fez não chega para evitar que a formação francesa ProTeam continue a viver no limbo. Bryan Coquard não se apresentou tão competitivo no sprint como o esperado, mas esteve na luta. Também caiu e terminou o Tour em esforço. A equipa tentou algumas fugas, mas sem resultado.
Sunweb: Não ganhou a classificação colectiva, mas há que lhe entregar um prémio de melhor equipa no Tour, a par da Jumbo-Visma. Estilos e objectivos diferentes claro, com a holandesa a trabalhar para ganhar a corrida e esta Sunweb a trabalhar para vencer etapas. E dar muito espectáculo. Quem diria! Pouco se esperava de uma equipa sem líderes para a geral, com Michael Matthews a ficar de fora das escolhas, com ciclistas muito jovens, mas a táctica não só deu resultado, como levou a Sunweb até à ribalta no Tour. A forma como atacava em grupo, no mínimo com dois ciclistas, mas muitas vezes com três, o timing com que depois um deles tentava a sua sorte e se não resultava um, havia outro para ir para a frente... Houve muita audácia e compensou. Três vitórias de etapa e não esteve longe de conquistar mais, principalmente com Marc Hirschi, que foi eleito o super combativo do Tour. O suíço ganhou uma, o dinamarquês Soren Kragh Andersen duas (e mal podia acreditar). Foi uma grande Sunweb!
Deceuninck-QuickStep: Terminar o Tour com duas vitórias e mesmo andar de amarelo era pouco. Vencer a camisola verde era algo bem melhor, mas continuava ser algo curto para uma equipa cujo ADN é ganhar, ganhar, ganhar. Porém, vencer nos Campos Elísios com Sam Bennett (já vencedor de uma das etapas) e confirmar assim a classificação dos pontos, abrilhantou mais a exibição da equipa belga. Não se poderia comparar com a fantástica edição de 2019, mas esperava-se ver mais desta formação. E perder a amarela de Julian Alaphilippe (longe do ciclista de 2019, mas ganhou a sua tirada) por receber um bidão quando era proibido... Isso foi mau de mais. Mas o Tour acabou bem.
Israel Start-Up Nation: Está a tentar criar uma grande equipa em redor de Chris Froome para 2021. Mas neste 2020, a estreia no Tour foi fraca. Nils Politt e Daniel Martin ainda entraram em fugas, mas principalmente o irlandês estava muito em baixo de forma, ele que foi mais um que não recuperou de uma queda sofrida antes da corrida. André Greipel já não é sprinter para estas andanças. As atenções nesta equipa talvez estejam mesmo centradas na próxima época.
NTT: É difícil fazer algo quando se perde as duas principais figuras por quedas. Giacomo Nizzolo estava a realizar uma excelente temporada, chegou ao Tour como campeão europeu, mas abandonou. Domenico Pozzovivo ia tentar mostrar-se na montanha, mas abandonou. Edvald Boasson Hagen ainda fez segundo numa etapa. Porém, a formação africana passou muito ao lado do Tour e bem precisava de algo melhor, já que vive alguma incerteza quanto ao futuro.
Total Direct Energie: Para quem foi a melhor equipa do segundo escalão em 2019 e para uma estrutura que recebeu um reforço financeiro no ano passado com a chegada da Total, por esta altura esperava-se mais e melhor. A formação francesa teve uma prestação apagada, viu Lilian Calmejane abandonar e ninguém conseguiu muito mais do que entrar numa fuga.
Lotto Soudal: Fez o Tour possível. Começar a corrida a perder John Degenkolb por chegar fora do tempo limite na primeira etapa depois de ajudar Caleb Ewan a recuperar terreno perdido, já foi mau. Mas ver Philippe Gilbert não partir para a segunda etapa devido à queda do dia anterior... Foi péssimo! Ficou quase toda a responsabilidade sobre os ombros de Ewan. Venceu duas etapas. A desilusão acabou por ser Thomas de Gendt. Pouco se viu daquele ciclista de ataque que anima etapas. Não foi o seu Tour e a equipa também se ressentiu disso.
Um dia para a história da Volta a França. Este 19 de Setembro de 2020, esta 20ª etapa do Tour ficará entre um dos grandes momentos da corrida centenária e que tanto se diz que é maior do que o ciclismo. Tadej Pogacar esteve à altura da exigência e da pressão de um Tour. Até superou. Que exibição! Que contra-relógio fenomenal! Que ciclista excepcional. E só tem 21 anos. A festa dos 22, na segunda-feira, vai ter uma camisola amarela como prenda. Que dia memorável de ciclismo!
Durante muitos minutos a pergunta foi: o que está a acontecer? Era com incredulidade que se assistia à quebra de Primoz Roglic. Tinha 57 segundos de vantagem. Não era uma margem que desse para celebrar a vitória antecipadamente, mas poucos acreditariam no descalabro a que se assistiu. Não só viu esse tempo desaparecer, como no final, Pogacar tinha deixado mais 59 segundos de diferença para vencer com uma autoridade que impressiona.
Há que confessar que a crença era mesmo que Roglic, em condições normais, tinha o Tour praticamente garantido. Praticamente... Mas afinal, não tinha. Roglic não teve uma prestação nada normal. O que aconteceu foi um dia péssimo do esloveno. Ele que tinha estado tão bem durante três semanas. Ele que tinha sido um líder exemplar, que quando a equipa não esteve no seu melhor (foram raras as vezes, mas aconteceu), Roglic resolveu as situações. No dia em que dependeu só dele, falhou e numa especialidade sua. Disse que não teve a força necessária. Não havia muito mais a dizer.
Pogacar até havia batido Roglic no título nacional da vertente, em Junho, mas esta exibição, num percurso que terminou na difícil La Planche des Belles Filles, foi algo de sonho. Aliás, Pogacar bem disse que tudo parecia um sonho. Um pesadelo para Roglic, certamente. A maior experiência de um esloveno foi batida pela irreverência de outro.
Este jovem Pogacar esteve durante todo o Tour com uma postura descontraída, mas nem por isso menos ambiciosa. Frente-a-frente estiveram duas personalidades completamente. Como reagiu quando perdeu mais de um minuto na etapa do vento? Rapidamente disse que não havia problema e tratou de começar a recuperar a desvantagem. Nada de pânico, nada de discursos derrotistas.
Atacou, animou etapas, venceu, foi ganhando tempo. Nos últimos dois dias de montanha, esta semana, Pogacar não esteve tão forte. Roglic controlou e até deu uma demonstração de como era o líder. Porém, Pogacar esteve fortíssimo quando foi preciso. A Roglic... faltaram forças.
Há ano e meio, Pogacar estava a estrear-se a vencer ao mais alto nível na Volta ao Algarve - no Alto da Fóia e depois conquistando a geral -, semanas depois de se estrear no World Tour pela UAE Team Emirates. Já então estava rotulado como promissor talento. Não demorou a expor todo esse potencial, de tal maneira que a equipa antecipou a sua estreia numa grande volta, levando-o à Vuelta. E pensava-se que se tinha visto um grande espectáculo de Pogacar, com três vitórias de etapa, a classificação da juventude e o terceiro lugar no pódio. Roglic foi o vencedor.
Com este ciclista já se percebeu que o melhor está sempre para vir. No Tour, num ano em que o ciclismo finalmente tem algo para se falar que não confinamento e pandemia, Pogacar repetiu a dose de triunfos em etapas, venceu a juventude, juntou a montanha e leva uma camisola amarela algo inesperada, mas que lhe assenta bem pela forma como nunca desistiu e nunca se intimidou perante a força da Jumbo-Visma.
Ao perder tempo Pogacar foi sempre tratando de recuperar, com Roglic sempre atrás de bonificações que, desta feita, não lhe valeram de nada. Ou quase, o segundo lugar não deixa de ser de mérito, ainda que frustrante. Os eslovenos dividem assim méritos: Roglic foi o primeiro esloveno a vencer uma grande volta (em Espanha), Pogacar é o primeiro a vencer em França, sucedendo a outra estreia. Bernal foi o primeiro colombiano a vencer no Tour em 2019. É de facto uma nova e emocionante era do ciclismo.
Uma aposta de sucesso
Desde que Joxean Fernández Matxin foi chamado para integrar o projecto da UAE Team Emirates (recorde-se que é a herdeira da estrutura italiana Lampre), que jovens de talento começaram a ser contratados (incluí-se dois portugueses, Ivo e Rui Oliveira). O futuro era e é promissor, mas o presente é já de sucesso. Talvez mais cedo do que o esperado, mas Pogacar é um fora de série.
Tanto se fala da mudança de geração entre os voltistas e o Tour já tem dois dos novos rostos como vencedores. Uma nova era se abre, com a UAE Team Emirates a ter agora ainda mais responsabilidade em construir uma equipa mais forte. Porque se algo faltou nesta vitória foi um conjunto que mais coeso em redor de Pogacar nas montanhas. David de la Cruz ainda tentou. Foi um dos muitos que começou a corrida a cair, mas quando recuperou, deu o apoio possível.
Pode parecer estranho criticar a equipa, afinal funcionou o suficiente para ver Pogacar ser o vencedor, pois pode ter feito muito sozinho, mas precisou sempre dos companheiros. Porém, esta UAE Team Emirates precisa de mais e melhor se quiser continuar este sucesso e não ficar demasiado dependente do seu líder (veja-se o que aconteceu a Bernal). Vestir a amarela nesta 20ª etapa foi perfeito, pois este domingo é dia de consagração e não haverá necessidade de defesa, algo importante quando se pudesse estar a falar de um frente-a-frente entre UAE Team Emirates e Jumbo-Visma.
A derrota Jumbo-Visma
Não vai ser fácil digerir perder assim o Tour. O trabalho dos últimos anos era suposto ter tido este sábado o seu culminar. Tudo se desmoronou. Em vez de festa, a formação holandesa terá um trabalho duro pela frente para recuperar Primoz Roglic animicamente e também os restantes ciclistas que tanto deram durante três semanas para que a conquista da Volta a França fosse finalmente uma realidade para uma equipa com tantos anos de World Tour.
No final ficou a imagem de união. Tom Dumoulin e Wout van Aert estavam incrédulos a ver como Roglic estava a perder a camisola amarela. Mas estiveram ao lado do seu líder quando este esboçou finalmente uma pequena reacção naquele rosto que sempre mantém a mesma expressão, sem revelar qualquer sentimento. Mas perder o Tour já foi difícil esconder.
A Roglic (30 anos) restará tentar de novo, mesmo sabendo que dentro da equipa poderá ter de enfrentar concorrência em 2021. Já Pogacar tem o seu lugar de destaque garantido, mas sobe a responsabilidade. Mas agora é tempo de celebrar. Bem merece!
Este Tour pode ter ficado abaixo das expectativas a nível de espectáculo durante as três semanas - com a excepção de Pogacar -, mas afinal valeu mesmo a pena esperar. Foi mesmo no fim, mas foi um dia de ciclismo para recordar. São etapas assim que escrevem a mítica história desta grande volta.
Uma palavra para Richie Porte (Trek-Segafredo). Aos 35 anos está a despedir-se da condição de líder de uma equipa, por opção. Continua sem ganhar uma etapa numa grande volta, mas finalmente conseguiu um resultado de nota. Também realizou um excelente contra-relógio (foi terceiro) e vai subir ao pódio final, num terceiro lugar merecido pelo que fez nesta Volta a França e até pela carreira que teve. Sofreu novamente azares (perdeu tempo na etapa do vento, sofreu um furo anteontem), mas desta feita alcançou um dos seus objectivos, talvez quando menos se esperava.
Os sprinters aguentaram tanta montanha para chegar aqui: Paris. Os Campos Elísios esperam pelo vencedor, numa etapa que este tipo de ciclista sempre sonha ganhar. Outros também o querem, mas é raro um ataque resultar.
Em disputa ainda está a camisola verde e apesar de Peter Sagan (Bora-Hansgrohe) querer ganhar a etapa, já deu os parabéns, via redes sociais, pela conquista de uma classificação que conquistou sete vezes. Já se terá rendido às evidências que 55 pontos são difíceis de recuperar.
Falta apenas decidir esse lugar no pódio, pois a Movistar de Nelson Oliveira venceu mais uma classificação por equipas, enquanto Marc Hirschi (Sunweb) foi considerado o super combativo do Tour.
A Sunweb merece um lugar de honra nesta Volta a França. Não se limitou a picar o ponto vencendo uma etapa. Tornou-se numa das equipas a dar mais espectáculo, principalmente nas etapas de média montanha ou para sprinters. A sua forma de correr mostra que arriscar pode ter a sua compensação. E de que maneira! Seria difícil prever que a equipa alemã somaria três vitórias de etapas, numa altura em que não tem nem homem para a geral, nem Michael Matthews, que não foi convocado. Desta feita, na 18ª etapa, a Sunweb "intrometeu-se" na luta pela camisola verde para um incrédulo Soren Kragh Andersen vencer pela segunda vez uma tirada (nem acreditou quando a equipa lhe disse que tinha um minuto de vantagem a pouco mais de um quilómetro da meta).
Era praticamente o tudo ou nada para Peter Sagan (Bora-Hansgrohe) e também para Matteo Trentin (CCC) para tentar apanhar Sam Bennett (Deceuninck-QuickStep). Os três conseguiram ficar na frente da corrida num grupo que já se vai perceber porque parecia estar-se numa clássica do pavé. Estavam também, entre outros, Greg van Avermaet (CCC), Jasper Stuyven (Trek-Segafredo), Oliver Naesen (AG2R) e Luke Rowe (Ineos Grenadiers).
Soren Kragh Andersen também tem experiência em Paris-Roubaix e Volta a Flandres e dá-se muito bem em percursos "ondulados", como era o caso esta sexta-feira (Bourg-en-Bresse - Champagnole, 166,5 quilómetros). É também bom no contra-relógio e também tem potencial para as provas por etapas mais curtas. Prova disso, o segundo lugar na Volta ao Algarve no ano passado, tendo sido batido por Tadej Pogacar (UAE Team Emirates), o actual segundo classificado do Tour.
Mesmo sendo conhecidas as qualidades deste dinamarquês de 26 anos, ninguém respondeu ao ataque final de Andersen. Mais uma vez, a Sunweb teve um timing perfeito. E mais uma vez, Sagan mostrou que não é o ciclista de outros tempos.
Pela primeira vez na sua carreira, está muito perto de participar num Tour até ao fim e não conquistar a camisola verde. Tem sete, é recordista, mas 2020 não está a ser o seu ano. Foi batido por Sam Bennett tanto no sprint intermédio, como no sprint final, no caso para o oitavo e nono posto. São 55 pontos a separá-los. Ser batido pelo irlandês foi algo normal neste Tour. Bennett tem os Campos Elísios a separá-lo de subir ao pódio com a camisola verde e por tudo o que mostrou até agora, a vantagem na luta com Sagan está do seu lado.
O eslovaco poderá lamentar que a organização tenha alterado a colocação dos sprints intermédios, que o prejudicou, mas a sua forma física está longe do ideal. Nos últimos anos, mesmo não ganhando tanto, Sagan entrava nas fugas nas etapas de montanha, passava uma ou duas subidas mais difíceis para depois recolher os pontos. Ficava entretanto para trás, poupando forças para uma próxima fuga ou discussão de etapa ao sprint.
Em 2020, os sprints foram colocados antes das principais dificuldades, o que deu aos sprinters hipótese de discutir a classificação dos pontos. Sem a capacidade de sprint de outros tempos, Sagan foi constantemente batido por Bennett e também por um Trentin, que tentou ser um candidato, mas nunca assustou o irlandês.
20ª etapa: Lure - La Planche des Belles Filles, 36,2 quilómetros
A camisola verde fica fechada no domingo, mas este sábado Primoz Roglic quer selar a amarela, enquanto a da montanha também estará em disputa no contra-relógio que termina em estilo crono-escalada em La Planche des Belles Filles.
Richie Porte, da Trek-Segafredo, (quarto classificado) tem mais de três minutos para recuperar, enquanto Miguel Ángel López (Astana) tem 1:27, mas não tem um contra-relógio que se compare ao de Roglic. Pogacar está a 57 segundos, contudo, por mais qualidade que tenha, sabe que tem uma missão difícil, para não dizer impossível. Porém, nunca se sabe o que pode acontecer... Até coisas estranhas estragam corridas. Que o diga Lukas Pöstlberger (Bora-Hansgrohe), que foi picado por uma vespa na boca durante a etapa de hoje e teve de abandonar, chegando mesmo a ir ao hospital.
Na luta pela montanha, é novamente Pogacar quem surge na perseguição, desta feita a Richard Carapaz (Ineos Grenadiers). Dois pontos separam os ciclistas, com Roglic ainda ter hipóteses matematicamente.
Na juventude, Pogacar está mais descansado. Tem 3:22 minutos de vantagem sobre Enric Mas, da Movistar, equipa que lidera colectivamente. A equipa espanhola lá vai coleccionando esta classificação, mesmo que neste Tour pouco se tenha visto. Porém, Mas ter acabou por fazer uma boa Volta a França, apesar de estar longe da luta por um pódio.
Na noite de ontem (quarta-feira), no Twitter, estava um post que chamou a atenção: "O Landa já atacou?" Era em tom de brincadeira que alguém recordava como o espanhol não tinha dado continuidade ao excelente trabalho da Bahrain-McLaren na etapa. 24 horas depois, Mikel Landa atacou! Não deu em nada quanto aos seus objectivos para a geral. Mas lá atacou. Porém, apesar de se ter de preparar para todas as críticas que vai ser alvo no final do Tour, o dia pertenceu à Ineos Grenadiers. Sim, Primoz Roglic tem o Tour quase ganho e, por isso, terá o seu destaque a devido tempo, porque, na 18ª etapa, a formação britânica mostrou que pode ter perdido a Volta a França, mas não se perdeu uma equipa.
Depois de dois dias em fuga, Richard Carapaz foi outra vez para a frente. Ele e Michal Kwiatkwoski cumpriram o que restava à Ineos Grenadiers alcançar: uma vitória de etapa e o bónus da liderança da montanha. Contudo, para história, mais do que o resultado, ficará a forma como os dois ciclistas trabalharam para deixar para trás os companheiros de fuga e como unidos cortaram a meta em La Roche-sur-Foron, depois de 175 quilómetros de constante sobe e desce.
Foram duas semanas e meio infernais para a formação britânica. Os tempos da Sky fazem parte do passado e por muito que a equipa tenha tentado, nada tem a ver com os seus anos de glória. Não ajudou Egan Bernal aparecer longe do seu melhor fisicamente e de ter recordado que ainda é um jovem com muito para aprender, apesar de já ter vencido o Tour. Não ajudaram as quedas, não ajudou o ambiente que rodeou a Ineos Grenadiers antes da corrida, com muito a se falar de Chris Froome e Geraint Thomas...
Aquele momento em que Kwiatkwoski (o vencedor da etapa) e Carapaz cortaram o meta foi libertação. De se libertarem de tudo o que de mau tem acontecido e começar definitivamente a construir uma nova fase, com novos rostos, sem esquecer ou desrespeitar aqueles que fizeram da então Sky uma equipa que marcou uma era no ciclismo.
Foi também um momento para a homenagem que talvez já pesasse em muitos dos elementos mais antigos da equipa, caso de Kwiatkowski. Ninguém esquece Nicolas Portal, o director desportivo tão importante no sucesso desta estrutura. A sua morte em Março, com apenas 40 anos, deixou um vazio na Ineos Grenadiers. O ciclista polaco não escondeu isso, nem a emoção quando, na conferência de imprensa, recordou Portal.
Uma etapa não apaga um Tour muito abaixo das expectativas da equipa, mas faz com que nem tudo sido em vão. Muitos de imediato se recordaram como em 1986 Bernard Hinault e Greg Lemond também cortaram a meta da mesma forma. Simbolismo completamente diferente. Mas ficará como um dos momentos que marcou o Tour de 2020, de uma equipa que bem estava a precisar de algo positivo, de algo motivador e unificador para o que ainda resta da temporada.
Tudo calmo para Roglic e Jumbo-Visma
As forças de Tadej Pogacar (UAE Team Emirates) terminaram e nestes dois últimos dias não houve espectáculo por parte do esloveno. Ainda assim, se tudo decorrer normalmente, terminar o Tour em segundo lugar, aos 21 anos, em ano de estreia e a menos de um minuto (57 segundos) - ou talvez um pouco acima, já que ainda falta o contra-relógio - é uma Volta a França para recordar e para marcar posição numa carreira muito promissora. A classificação da juventude também é dele. Ou seja, duas grandes voltas feitas, dois pódios, duas camisolas brancas.
Até Roglic pareceu em certo momento reconhecer como Pogacar foi um adversário de respeito, numa troca de palavras já na parte final da etapa. Miguel Ángel López (Astana) optou por segurar o terceiro lugar e não repetiu o ataque do dia anterior e que lhe valeu uma etapa e o acesso ao pódio. Roglic é que não por meias medidas e deixou bem claro no final da última subida, uma categoria especial em Col des Glières, na parte em sterrato, quem era o mais forte. Como tal se fosse preciso...
Falta o contra-relógio de sábado, mas sendo uma especialidade sua, na Jumbo-Visma já se deverá estar a preparar o champanhe e, claro, todos os adornos que as equipas têm para as grandes vitórias. Haverá uma bicicleta Bianchi amarela em Paris?
Nos próximos dois dias (mais a etapa de consagração no domingo), resta à Jumbo-Visma garantir a segurança em redor do seu líder e esperar que os azares continuem longe.
E Landa...
É inevitável falar de Mikel Landa. Se ontem foi um grande dia para a Bahrain-Mclaren em termos colectivos, o seu líder acabou por desiludir. Aliás, desiludiu durante todo o Tour. Durante 18 etapas esperou-se sempre para ver o espanhol cumprir o que tanto dizia ser capaz. Na Astana, na Sky, na Movistar, sempre quis ser líder único por acreditar que poderia vencer o Tour. Quando a oportunidade chega, mal se o vê.
O quinto lugar (se o mantiver no contra-relógio) é bom, mas tendo em conta que queria o primeiro, ou na pior das hipóteses o pódio... O ataque desta 18ª etapa pareceu mais uma espécie de pedido de desculpas pela falha do dia anterior, do que propriamente algo que fosse colocar Landa dentro dos seus objectivos iniciais. A Bahrain-McLaren - que mais uma vez trabalhou bem em equipa - merecia mais e Landa deveria ter mostrado mais.
O seu ataque acabou por servir para subir um pouco na geral, pois colocou em dificuldade Adam Yates (Mitchelton-Scott) e Rigoberto Uran (EF Pro Cycling), mas a Jumbo-Visma acabou por, sem grande dificuldade, apanhar Landa.
Estamos assim na recta final de um Tour que, sem grande espectáculo - principalmente quando se recorda o que aconteceu em 2019 -, está a caminho de ver as expectativas confirmadas: Primoz Roglic é o homem mais forte.
Para esta sexta-feira, é dia dos sprinters que bravamente sobreviveram aos Alpes tentar uma vitória, antes da grande etapa para estes ciclistas nos Campos Elísios. É também mais um dia para a Bora-Hansgrohe meter mãos à obra na tentativa de ganhar levar Peter Sagan a uma oitava vitória na classificação dos pontos. 52 pontos separam o eslovaco de Sam Bennett (Deceuninck-QuickStep).
Só há uma subida categorizada, mas o restante terreno não é plano. Poderá ser uma etapa bem animada devido a esta luta pela camisola verde.
Quando se fala de Volta a França já não pode ser uma completa surpresa as expectativas serem altas e depois saírem goradas. Vai-se esperando que, depois de uma etapa ter desiludido, que a próxima seja melhor. Ainda falta uma na montanha, mais o contra-relógio que acaba em estilo crono-escalada no sábado (além de duas para sprinters). Bom, talvez, estando tão perto do fim, se mantenha alguma esperança. Miguel Ángel López (Astana) merece o reconhecimento por ter feito jus à alcunha e tal como Superman (Super-Homem) voou Col de la Loze acima, mesmo quando a pendente ultrapassou os 20%. O colombiano animou e poderá ajudar a animar a etapa desta quinta-feira, mas de resto... soube a pouco. Tadej Pogacar tem direito a ter um dia menos bom, mas o espectáculo ressente-se logo.
Com duas categorias especiais, o conhecido Col de la Madeleine e com a nova subida a terminar o dia (nunca havia sido feita até tão ao topo) e com o Tour a aproximar-se do seu epílogo, a expectativa era precisamente que Primoz Roglic e a Jumbo-Visma fossem testados. E luta pelo terceiro lugar e pelo top dez poderem ser outros pontos de interesse. No entanto, saiu a Sky/Ineos/Ineos Grenadiers de cena enquanto a equipa dominante, entra a Jumbo-Visma e o Tour cai na toada de todos mostrarem tanto respeito muito misturado com receio pela equipa holandesa, que preferem mais esperar para ver se à uma falha de Roglic, do que forçar essa falha.
López tentou, com o objectivo de ganhar a etapa e de entrar no pódio e aproximar-se do líder. Conseguiu e numa etapa em que se sentiu em casa (subidas que acabem acima dos dois mil metros de altitude é o terreno favorito dos colombianos). Recuperou 15 segundos na estrada, mas quatro de bonificação (somou dez e Roglic seis, ao ser segundo). 1:26 minutos não é uma montanha para recuperar, mas não é nada fácil, dado que López e o contra-relógio não têm a relação que Roglic tem com esta especialidade. Porém, o colombiano animou o dia. Se Pogacar estiver melhor na etapa desta quinta-feira, então talvez ainda se venha a confirmar algumas expectativas mais emocionantes para este final de Tour. O jovem esloveno da UAE Team Emirates perdeu tempo, 17 segundos (entre estrada e bonificações) e está agora a 57. Mas se não desmoralizou com a etapa do vento, não irá desmoralizar agora. Contudo, também se percebeu o quanto este Tour está dependente da irreverência de Pogacar para que as etapas sejam mais atacadas.
Egan Bernal (Ineos Grenadiers) nem partiu em Grenoble e a Colômbia olha agora para López, já que Rigoberto Uran (EF Pro Cycling) também não foi feliz. Nem foi Adam Yates (Mitchelton-Scott), nem Richie Porte (Trek-Segafredo), ainda que no caso do australiano, subir ao quarto lugar seja um resultado bem positivo. Mas Porte queria e quer mais. Apesar de estar longe de lutar por vitórias, há que referir que Enric Mas (Movistar) lá vai fazendo a sua corrida rumo ao top dez. Discreto, mas eficaz, dentro do possível, numa equipa espanhola que está uma sombra do que foi em anos recentes.
Mas o pior foi outro espanhol. O "Landismo" sofreu um rude golpe e na Bahrain-McLaren não se deve estar particularmente feliz pelo trabalho do seu líder. Mikel Landa não se pode queixar da equipa, apenas dele mesmo. Quando teve todos a cumprirem com a sua função, só Landa falhou. Que bom foi ver Wout Poels em acção, ele que continua no Tour depois de partir costelas partidas logo no primeiro dia. Pello Bilbao esteve em grande nível, Damiano Caruso um pouco abaixo, mas esteve lá para Landa, assim como Matej Mohoric e Sonny Colbrelli. O italiano subiu como se calhar nunca o fez uma categoria especial ao liderar a Bahrain-McLaren no Col de la Madeleine.
Nessa subida, com o trabalho da equipa que acabou por dizer à Jumbo-Visma "hoje mando eu" (sem que a equipa holandesa se chateasse, até poupou algum esforço), o grupo de candidatos começou a ser seleccionado. A tendência manteve-se no Col de la Loze (já sem Colbrelli). A Bahrain-McLaren merecia muito mais do que um Landa a ficar imediatamente para trás quando chegou o momento de assumir a responsabilidade de atacar. Mas viu os outros fazê-lo, sem responder. Tem a sua oportunidade de ser um líder único numa equipa, mas não está a corresponder ao que durante tanto tempo apregoou.
A vitória de López - a primeira no Tour, em ano de estreia - e o desaire de Landa são os dois pontos que se destacam da 17ª etapa (Grenoble - Méribel Col de la Loze, 170 quilómetros). Afinal, ver Roglic atacar e escapar aos adversários quase não é notícia. Está fortíssimo, não há dúvidas e ate conseguiu finalmente bater Pogacar sem ajuda do vento. Tem mais dois dias de montanha para aguentar e conquistar uma Volta a França histórica para a Eslovénia, no ano seguinte a ter ganho a Vuelta.
A Jumbo-Visma ainda não pode celebrar. Pogacar não desiste e López poderá ter ideias... O esloveno até teve um dia menos exuberante, mas, ainda assim, juntou a liderança da montanha à da juventude. E o foco continua a ser tentar a amarela. Classificações completas, via ProCyclingStats.
18ª etapa: Méribel - La Roche-sur-Foron, 175 quilómetros
Na recta final do Tour, não há tempo para descansar entre duas tiradas muito exigentes nos Alpes. Vai ser um daqueles dias infernais para os sprinters que vão estar constantemente a subir e descer. Mas sexta-feira será dia para eles. Também não será um dia mais fácil para os trepadores. Não há margem de erro, independentemente dos objectivos. Depois desta etapa só sobra o contra-relógio para a geral, que terminará em La Planches des Belles Filles. Roglic terá, teoricamente, vantagem. López demonstrou querer deixar de parte conservadorismos, Pogacar já se sabe, é para ganhar. Mas mais alguém assume o risco? De salientar o Col des Glières, de categoria especial. Seis quilómetros com pendente média de 11,2%. A máxima é de 15% e nunca baixa muito dos 10%.