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8 de novembro de 2019

Volta ao Algarve será decidida no contra-relógio

(Fotografia: © João Fonseca Photographer/Volta ao Algarve)
Mantém a génese, mas "baralha" as etapas, proporcionando um fim-de-semana de tiradas decisivas. A Volta ao Algarve não sofrerá grandes alterações quanto ao percurso, nem nos locais de partida e chegada, contudo, o contra-relógio surgirá no último dia, após a subida ao Alto do Malhão, que em anos recentes tem fechado a prova. A mudança poderá obrigar a uma alteração de táctica tanto entre os ciclistas que não são especialistas no esforço individual, como nos que fazem desta vertente um (ou mesmo o) ponto forte.

Lagoa voltará a ser o palco do contra-relógio, como nas últimas duas edições, com 20,3 quilómetros para definir o vencedor da 46ª edição da Algarvia, entre 19 e 23 de Fevereiro. As etapas serão as seguintes: 
  • Portimão-Lagos
  • Sagres-Alto da Fóia
  • Faro-Tavira (mais de 200 quilómetros)
  • Albufeira-Alto do Malhão
  • Lagoa-Lagoa (20,3 quilómetros)

As distâncias e mais pormenores sobre o percurso ficaram guardados para serem divulgados mais tarde, mas a Volta ao Algarve continuará a ter duas etapas para sprinters (primeira e terceira), duas para trepadores (segunda e quarta) e um contra-relógio. Ou seja, agrada aos diferentes estilos de ciclistas, o que tem sido um ponto forte na altura de seduzir as grandes equipas e alguns dos principais nomes da modalidade a escolherem a corrida portuguesa.

A crescente concorrência em Fevereiro de provas, principalmente no Médio Oriente, não facilita as organizações das corridas europeias, mas é novamente esperado na Algarvia um pelotão muito interessante, com várias figuras do World Tour. Michal Kwiatkowski, por exemplo, já admitiu que a Algarvia está nos seus planos provisórios para o arranque de temporada. O polaco venceu em 2014 e 2018 e foi segundo em 2015 e 2017. A confirmar-se, significará que a Ineos continuará a marcar presença numa corrida que tanto gosta de ganhar. Mas para saber que equipas World Tour e Profissionais Continentais estarão presentes, também terá de se esperar mais um pouco.

Quanto ao percurso, Portimão repetirá o ponto de partida da Volta ao Algarve, depois de ter sido o local escolhido para tal em 2019. Os pontos de chegada mantêm-se inalterados, mas o contra-relógio estava colocado a meio da corrida e o Alto do Malhão tem decidido o vencedor. Em 2020, as duas passagens pela curta mas difícil subida da Serra do Caldeirão (2,5 quilómetros com inclinação média de 9,9%) serão no sábado e "divididas" por um percurso mais curto do que o que tem sido escolhido. Terá cerca de 20 quilómetros. O objectivo passa por tentar que a etapa seja ainda mais atacada, do que normalmente já é.

Para quem não é tão forte no contra-relógio, poderá estar obrigado a tentar ganhar no Malhão a maior distância possível para os especialistas, dependendo, claro, do que já terá sido feito na tradicional subida ao Alto da Fóia, na Serra de Monchique. Para esta etapa a organização desvendou também um pormenor: os ciclistas terão de subir o Alferce e Pomba, antes da Fóia e a Pomba estará muito mais perto da dificuldade final. É uma ascensão de 3,9 quilómetros com pendente média de 7,1%, cujo topo estará a apenas sete quilómetros do início da subida à Fóia. Esta terá oito quilómetros a uma média de 6,3% de inclinação. Em 2019, quase 30 quilómetros separaram a Pomba da Fóia.

A última vez que o contra-relógio decidiu o vencedor, a Algarvia foi ganha por um dos maiores especialistas de sempre: o quatro vezes campeão mundial, Tony Martin. O alemão ganhou em 2011 e 2013. No primeiro ano tirou a amarela no contra-relógio final a Steve Cummings e no segundo a Sergio Henao, tendo ganho a etapa em ambas as ocasiões.

Em 2019, o vencedor foi o jovem Tadej Pogacar, naquele que foi o arranque de uma temporada de estreia no World Tour para recordar do esloveno, umas das novas estrelas em ascensão do ciclismo mundial, que tem apenas 21 anos.

De referir que o Algarve Granfondo também já tem data marcada e em 2020 irá realizar-se no dia da última etapa da corrida, no domingo de Carnaval, em Lagoa.


29 de dezembro de 2018

A Sky de grandes vitórias, da revelação do ano e da polémica

(Fotografia: Facebook Team Sky)
Ano de exibições memoráveis que irão marcar a história do Giro e do Tour, mas que não apagam toda uma polémica que rodeou a Sky e que também não será esquecida. Falou-se praticamente tanto do caso do salbutamol de Chris Froome, como da sua épica vitória em Bardonecchia e no Giro e da enorme conquista da Volta a França por parte de Geraint Thomas. Talvez só Egan Bernal tenha conseguido mudar o tom do discurso de desconfiança que acompanhou a Sky. Este jovem colombiano é um puro talento de quem muito se esperava antes de começar a temporada e de quem agora se espera... o mundo!

Mas não há forma de contornar o ciclista que marcou novamente a temporada da Sky. Foi Chris Froome, mas não pelas razões das últimas épocas. O positivo por salbutamol, o dobro do permitido da substância para a asma, detectado na Vuelta de 2017, foi um caso que deu uma mais machadada na reputação da equipa. Ainda a tentar recuperar do "pacote suspeito" de Bradley Wiggins e das desconfianças que praticamente sempre acompanharam a Sky e os seus ganhos marginais, a equipa viu inclusivamente outros ciclistas e directores desportivos criticarem a escolha de manter Froome em competição enquanto decorria o processo. As regras assim o permitiram, pelo que o ciclista viveu tempos difíceis. Mas foi ao Giro ganhá-lo, vencendo assim as três grandes voltas de forma consecutiva, ainda que em anos diferentes.

Ficou a faltar o quinto Tour, só que foi mais um ciclista que pagou o esforço da Volta a Itália e ainda não foi Froome que quebrou o enguiço que dura desde 1998, quando Marco Pantani fez a dobradinha Giro/Tour. O arrastar do processo - só no final de Junho ficou resolvido - não ajudou em nada em abrilhantar aquela exibição que foi uma das mais marcantes da história centenária do Giro. Como Froome foi absolvido pela UCI e os seus resultados mantiveram-se, então, aquele 25 de Maio será sempre o dia em que o britânico concluiu uma fuga solitária de 80 quilómetros, que começou no Colle delle Finestre e só terminou em Bardonecchia, na meta. Uma etapa de montanha em que Froome, então já quase afastado de poder vencer a corrida, tirou este autêntico coelho da cartola para vestir a camisola rosa. E quando veste uma camisola de líder, raramente a perde.

Foi também o dia em que Simon Yates (Mtichelton-Scott) quebrou e que Tom Dumoulin (Sunweb) não conseguiu acompanhar Froome nas descidas, que fizeram mais diferenças do que as subidas. Mas o mérito é todo do britânico. De Froome continuou-se a falar muito de salbutamol, enquanto, quase pela calada, Geraint Thomas cumpriu o prometido: preparou o Tour para o disputar, mesmo que a Sky tenha durante a corrida mantido a aposta em Froome. Mais uma vez foi deste ciclista que muito se falou, quando a organização tentou impedi-lo de estar na prova francesa. A UCI fechou o processo e Froome foi mesmo ao Tour. Thomas roçou a perfeição, mesmo com o companheiro a querer atacá-lo, como o galês admitiu e com a equipa a dizer que o deixava para trás no contra-relógio colectivo se tivesse algum problema.

A única oportunidade que tinha recebido para liderar numa grande volta havia sido no Giro em 2017. Uma queda, após choque com uma moto da polícia mal parada, forçou o seu abandono. Continuava por responder a questão se Thomas tinha capacidade para ser líder e discutir ainda mais um Tour. A resposta: sim, tem toda a capacidade e mais alguma. Demonstrou ser sempre o mais forte até que na 11ª e 12ª etapa partiu para duas vitórias, incluindo no mítico Alpe d'Huez. A quinta conquista de Froome teria de esperar. Era o ano do galês e merecidamente. Um excelente triunfo e um Tour até a preferir que, a ter de ser a Sky a ganhar (outra vez), então que fosse Thomas, um ciclista mais afastado de polémicas e com melhor imagem nesta altura.

Na Vuelta, a Sky esteve com uma atitude diferente. Michal Kwiatkowski acusou o esforço de uma longa temporada de muito sucesso. Além do eterno gregário de luxo, venceu a Volta ao Algarve pela segunda vez, o Tirreno-Adriatico e a Volta à Polónia. Já David de la Cruz foi dos poucos ciclistas que até apontou a corrida espanhola como principal objectivo. Teve a oportunidade e desperdiçou-a.


Ranking: 2º (10.213 pontos)
Vitórias: 43 (incluindo Giro, Tour, Critérium du Dauphiné, Tirreno-Adriatico, Volta à Califórnia e Volta ao Algarve)
Ciclista com mais triunfos: Michal Kwiatkowski (10)

Quem não desperdiçou rigorosamente nada foi Egan Bernal, a revelação de 2018 no World Tour. Há muito que um ciclista não entusiasmava tanto logo no seu primeiro ano no principal escalão. Este colombiano de 21 anos tem à sua espera um futuro muito, muito promissor. Começou bem no Tour Down Under e foi sempre a melhorar, até que venceu peremptoriamente a Volta à Califórnia. Foram seis vitórias em 2018. A Sky não esperou mais e levou-o ao Tour, onde foi essencial para garantir que Chris Froome ficasse pelo menos no pódio.

Mas Bernal não é para ficar preso a um papel de gregário e a Sky não só renovou de imediato até 2023, como o irá colocar no próximo Giro. Claro que a duração de contrato poderá ser irrelevante já que a Sky vai deixar de patrocinar a equipa no final de 2019, pelo que ainda são muitas as incertezas quanto ao futuro da estrutura. Arrancou a missão de procurar quem queira dar nome à equipa e, de preferência, mantê-la com um poderio financeiro inigualável. Não será nada fácil encontrar quem esteja disponível a ceder tanto dinheiro.

Bernal - que sofreu duas quedas graves durante a época, mas regressou sempre forte - será dos ciclistas que não se terá de preocupar muito com o continuar ou não na Sky. É já um dos ciclistas mais pretendidos e o seu valor até poderá aumentar (e bem) se 2019 for ao nível do que se espera, com mais umas grandes exibições e vitórias a juntar ao seu currículo. Poderá até ser mais pretendido do que Froome e Thomas, cujas idades terão o seu peso e, no caso do primeiro, o desgaste da imagem com o que aconteceu em 2018 não ajudará, mesmo que vença o quinto Tour e se junte ao grupo de recordistas.

Portanto, se 2018 ficou marcado por muito do que se passou fora das corridas sobre Froome, 2019 também não vai ser mais calmo perante a saída do patrocinador. Ainda assim, ninguém duvida que a equipa vai atrás de mais umas grandes voltas e não só.

Além de Bernal, haverá mais uns jovens que poderão assumir maior protagonismo, começando por Tao Geoghegan Hart, o braço-direito do colombiano na Volta à Califórnia. É um ciclista que encaixa perfeitamente na cultura de gregários da Sky, mas que tem algo mais para mostrar. Pavel Sivakov foi, tal como Bernal, um dos reforços de quem muito se esperava. Foi mais discreto na sua adaptação ao World Tour, mas deixou a promessa que se vai mostrar mais em 2019.

Chega outro colombiano, Iván Ramiro Sosa (Androni Giocattoli-Sidermec), desviado da Trek-Segafredo e para fazer parte do que o director Dave Brailsford pensava ser o futuro próxima da Sky, antes de saber que ficaria sem patrocinador para 2020. Junta-se ainda Jhonatan Narváez, que deixou a Quick-Step Floors para assinar por uma equipa que melhor explora ciclistas com as suas características. Ambos os corredores têm 21 anos.

A renovação da Sky está em curso, mas a grande questão para 2019 será se esta se concretizará, ou se em Agosto o mercado de transferências se tornará num dos mais loucos já visto, com os ciclistas da equipa britânica disponíveis para negociar. Brailsford quer resolver o futuro até antes do Tour. Na estrada, fora dela, esta Sky consegue ser sempre muito falada.

Na estrada, também há questões a responder, sendo a principal como irão Thomas e Froome coincidir na Volta a França. É o objectivo principal da época para ambos, com o galês a ter agora uma vitória para se impor como líder e não ser um plano B. Vem aí uma luta de egos que em nada tem beneficiado outros equipas que apostam em mais do que um líder.

E por falar em egos, Moscon tem um bem grande. É outra grande questão para 2019. Como se vai comportar este italiano? O talento está lá, os resultados também e aos 24 anos apenas se poderia pensar que se estava perante um ciclista que dá garantias de vitórias. Porém, o seu comportamento continua a manchar a sua reputação e credibilidade.

Depois de acusações de comentários racistas, de ter sido desclassificado nos Mundiais de Bergen por ter aproveitado a "boleia" do carro da equipa, desta feita foi expulso do Tour ao agredir um ciclista da Fortuneo-Samsic. Primeiro pediu desculpa, depois veio dizer que não tinha atingido Elie Gesber. Ciclista difícil este Moscon, que se se concentrar apenas em competir, então talvez reconquiste o respeito e siga rumo a uma carreira de sucesso.

Permanências: Chris Froome, Geraint Thomas, Michal Kwiatkowski, Egan Bernal, Jonathan Castroviejo, David de la Cruz, Kenny Elissonde, Tao Geoghegan Hart, Pavel Sivakov, Michal Golas, Sebastián Henao, Kristoffer Halvorsen, Vasil Kiryienka, Christian Knees, Gianni Moscon, Wout Poels, Salvatore Puccio, Diego Rosa, Luke Rowe, Ian Stannard, Dylan van Baarle, Chris Lawless, Owain Doull, Eddie Dunbar e Leonardo Basso.

Contratações: Iván Ramiro Sosa (Androni Giocattoli-Sidermec), Jhonatan Narváez (Quick-Step Floors), Ben Swift (UAE Team Emirates) e Filippo Ganna (UAE Team Emirates).


28 de agosto de 2018

Cada um por si nesta Vuelta

(Fotografia: © A.S.O.)
Ver uma fuga triunfar na quarta etapa não é habitual numa grande volta. E chegar a ter 10 minutos de vantagem é algo ainda mais inesperado. Mas mais do que ser mais uma prova de como a Vuelta é diferente do Giro e Tour, foi uma demonstração como os blocos das principais equipas estão desgastados, o que poderá muito bem significar que sempre que os momentos de decisão chegarem, será cada um por si entre os chefe-de-fila.

A Sky fez o que lhe competia, tendo em conta que tem a camisola vermelha da liderança. Mas a sua postura foi tão diferente do normal para a equipa britânica, que quase nem parecia a Sky. Esteve na dianteira do pelotão, contudo, não fez uma perseguição, nem sequer um controlo da fuga. A passividade foi tal que Benjamin King até foi líder virtual com mais cerca de quatro minutos de vantagem para Michal Kwiatkowski. No final, houve alguma normalidade, quando mais equipas assumiram a frente do pelotão, principalmente com a intervenção da Lotto-Jumbo, para preparar a subida final. A diferença caiu, mas não o suficiente para tirar a Benjamin King a vitória mais importante da sua carreira.

Houve um bloco de nota. O da Lotto-Jumbo. A equipa holandesa está cada vez mais a querer ter protagonismo nas grandes voltas, com Steven Kruijswijk e George Bennett a terminarem com os restantes favoritos, num claro assumir que estão na Vuelta para lutar por um bom resultado. Perante o que se está a ver, tanto os estes dois ciclistas, como outros, terão no pensamento a vitória. E porque não? Nem a Movistar está a assustar, sendo a equipa que, teoricamente, teria o bloco mais forte. O trabalho da Lotto-Jumbo permitiu a que pelo menos não houvessem surpresas na geral, como ter King de vermelho.

Na derradeira subida de primeira categoria (Sierra de la Alfaguara), a segunda do dia, os ataques só apareceram muito perto do fim dos 12 quilómetros (161,4 no total da tirada que começou em Vélez-Málaga). As boas notícias são que Simon Yates (Mitchelton-Scott) está novamente em boa forma e que a Bora-Hansgrohe tem o alemão Emanuel Buchmann preparado para assumir mais responsabilidade, ainda que Rafal Majka tenha ficado também na frente. Yates e Buchmann ganharam uma distância suficiente para se colocarem nos lugares de  pódio a dez e sete segundos de diferença de Kwiakwoski, respectivamente. Mesmo sem uma Sky forte e sem grande ajuda de um David de la Cruz, talvez a pensar mais em fazer a sua corrida, o polaco manteve a camisola vermelha.

Além de se perceber que os blocos não terão a mesma influência que num Giro e Tour, a quarta etapa serviu para juntar mais alguns ciclistas à lista dos que já estão fora da luta pela geral e dificilmente entrarão sequer no top 10. A Richie Porte (BMC) e Vincenzo (Nibali) acrescenta-se agora Ilnur Zakarin (Katusha-Alpecin) - caiu na terceira etapa e os problemas no ombro e joelho fizeram-no perder mais de cinco minutos para os restantes candidatos (mais de oito para King) -, Bauke Mollema (Trek-Segafredo) - cortou a meta quase 12 minutos depois de King, desperdiçando a última oportunidade para manter a confiança da equipa para as três semanas, se é que ainda havia alguma hipótese - e Michael Woods (EF Education First-Drapac p/b Cannondale) não vai repetir o sétimo lugar de 2017.

O início desta Vuelta está a ser uma prova de eliminação, mas a lista de candidatos continua extensa e interessante. Se nos próximos dias o percurso poderá ser um pouco mais simpático, o muito sobe e desce poderá continuar a fazer as suas vítimas, até que no domingo surja uma das etapas mais esperadas da corrida, com a chegada na La Covatilla, uma categoria especial para talvez fazer uma maior selecção de candidatos.

Se os blocos não melhorarem com o decorrer da Vuelta, será mesmo cada um por si entre os líderes. Mesmo dentro de algumas equipas poderão surgir rivalidades: Michal Kwiatkowski/David de la Cruz (Sky) e Alejandro Valverde/Nairo Quintana (Movistar). A convivência entre Kruijswijk/Bennett e Buchmann/Majka deverá ser mais pacífica, com a corrida a definir quem poderá ser o número um.

Um suspiro de alívio para a Dimension Data

Tem sido mais uma temporada muito complicada para a equipa sul-africana. As vitórias escasseiam, a sua maior estrela dá mostras de já não conseguir ter um novo regresso aos grandes momentos - Mark Cavendish só soma um triunfo em 2018 - e há mais de um ano que a Dimension Data não ganhava numa corrida do World Tour.

O último triunfo tinha sido a 21 de Julho de 2017, então com Edvald Boasson Hagen a conquistar a 19º etapa do Tour. Quando Benjamin King - que venceu a classificação da montanha na Volta ao Algarve - partiu para a fuga do dia, estava longe de pensar que terminaria com uma vitória. Claro que quando um ciclista arrisca ir para a frente da corrida, espera que seja desta que o pelotão não conclua com sucesso a perseguição. Mas nas grandes voltas são poucas as fugas que triunfam, ainda mais nos primeiros dias. Por isso, King admitiu que só no último quilómetro acreditou que poderia mesmo ganhar.

No sprint com o cazaque da Astana, Nikita Stalnov, o americano foi claramente o mais forte. É apenas a sexta vitória da equipa este ano e não salvando a temporada, serve para pelo menos a Dimension Data suspirar um pouco de alívio. É que na luta pela geral há que juntar mais um nome que não está a deixar boas indicações: Louis Meintjes já tem 3:10 minutos de atraso para Kwiatkowski.

Pode ver aqui as classificações completas. Luis Ángel Maté (Cofidis) integrou novamente a fuga e reforçou a liderança na montanha, com Kwiatkowski a ser ainda o líder dos pontos. Já por equipas, a Astana destronou a Sky.

Quanto aos portugueses, todos perderam tempo. José Mendes (Burgos-BH) cortou a meta 7:45 minutos depois de Benjamin King, Tiago Machado (Katusha-Alpecin) 13:12, Nelson Oliveira 17:05 e José Gonçalves (Katusha-Alpecin) 18:35.

Quinta etapa: Granada-Roquetas de Mar, 188,7 quilómetros

Quando se olha para o final pensa-se em Vincenzo Nibali. Com 12:33 de atraso, o italiano da Bahrain-Merida já terá liberdade para algum ataque. O único problema é que não tem estado nada bem quando o terreno inclina para cima e terá de passar uma segunda categoria antes da longa descida até à meta, que será antecedida por cerca de 10 quilómetros em plano.

Se não for Nibali, é dia para quem desce bem procurar a vitória de etapa e talvez fazer alguma diferença na classificação. Noutra perspectiva, Quintana, por exemplo, esperará ter a ajuda de Valverde para não perder tempo. Não há descanso nesta Vuelta.


26 de agosto de 2018

Lições logo ao segundo dia

(Fotografia: La Vuelta)
A primeira lição é a que Alejandro Valverde deu a Michal Kwiatkowski. Quem sabe, sabe e Valverde tem a escola toda. Aquele final de etapa teve tanto de boa condição física, como de inteligência. O polaco não se intimidou perante o espanhol, mas na última curva viu Valverde passá-lo, deixando-o a olhar para as suas costas. Soube escolher a melhor trajectória e jogar com o vento, deixando o Kwiatkowski mais exposto. Antes assumiu a perseguição a um Laurens de Plus (Quick-Step Floors) sem que sacrificar forças que poderia precisar no sprint. E são 120 vitórias na carreira para o espanhol que, aos 38 anos, tem as pernas de um ciclista no seu auge, beneficiando da mentalidade de quem tem muitos anos de ciclismo.

Recentemente, após os testes médicos na Juventus, foi revelado que Cristiano Ronaldo tem o corpo de um jovem de 23 anos. Menos dez da sua idade real. Seria interessante saber o caso de Valverde... Claro que por Espanha é aguardado com expectativa se esta forma inicial poderá significar que o ciclista vai atrás da sua segunda Vuelta. Venceu em 2009, com esta a ser a sua 10º vitória de etapa. Nairo Quintana pode não ser um líder tão indiscutível como queria na Movistar, apesar de só ter perdido três segundos para o duo da frente, mas são 33 para o novo líder: Kwiatkowski.

Dois segundos lugares podem um pouco frustrantes, mas o polaco já está com a camisola vermelha. Melhor motivação seria impossível para quem pode na Vuelta mostrar que a Sky pode contar com ele como líder para três semanas. Mas se há lição que todos conhecem na modalidade, é que começar bem, ou mesmo muito bem, não é sinónimo de glória no final. Na geral, Valverde está a 14 segundos e Wilco Kelderman (Sunweb) a 25.

Segunda lição do dia: Richie Porte e Vincenzo Nibali não fizeram bluff.

Só foram precisos duas etapas para perceber que Richie Porte não estava a fazer bluff. Era apontado como um dos favoritos, com as casas de aposta até o colocaram como principal candidato. O australiano bem disse que não estava bem e que esperava ir melhorando durante a Vuelta para aparecer mais forte na terceira semana, com os Mundiais em mente, não a geral em Espanha. O ciclista da BMC perdeu só neste domingo 13:31 minutos. Já são mais de 14 para o líder. Porte estava a falar muito a sério sobre a sua condição física, mas não significa que não se o veja pelo menos a lutar por etapas.

Não está tão mal como Porte - que ainda sofreu uma gastroenterite antes do arranque da corrida -, mas Vincenzo Nibali também não fez bluff quando disse que não se sentia a 100% para discutir a Vuelta. Perdeu 4:04 minutos. De recordar que ambos sofreram quedas que os obrigaram a abandonar o Tour.

Adam Yates desiludiu na Volta a França e é mais um ciclista que veio à Vuelta para tentar algo melhor na derradeira corrida de três semanas, para a qual nem estava inicialmente escalado. Está com o irmão e não ficam dúvidas que é Simon o único líder. Adam cortou a meta com Richie Porte e pensará em etapas e em ser o braço-direito do irmão.

E o que dizer de Ilnur Zakarin... Este corredor russo não consegue manter-se afastado de azares. Caiu e o joelho e ombro não ficaram nada bem tratados. A Katusha-Alpecin anunciou que o seu líder foi transportado para o hospital no final da etapa, mas os raios-X não mostraram fracturas. Zakarin aguentou como pôde, mas perdeu 1:01 minutos. A equipa teve pelo menos uma razão para sorrir, mas na Alemanha, com Nils Politt a vencer a última etapa da prova germânica, conquistada por Matej Mohoric (Bahrain-Merida).

Porém, numa altura em que Marcel Kittel vai ser sujeito a exames médicos para tentar perceber porque não consegue estar a um bom nível, ter Zakarin limitado na Vuelta, será mais uma desilusão em 2018 para a equipa. Ainda mais quando há um ano o ciclista fez pódio na Vuelta e parecia estar finalmente preparado para voos mais altos. José Gonçalves, que no Giro foi 14º, está em Espanha com objectivos diferentes. Perdeu 1:18 minutos no contra-relógio e hoje foram mais 6:31, pelo que não será um plano B, mas deverá ter liberdade para entrar em fugas e procurar algum triunfo que a equipa bem precisa.

Quanto aos restantes portugueses, José Mendes (Burgos-BH) terminou no grupo de Richie Porte, enquanto Tiago Machado (Katusha-Alpecin) e Nelson Oliveira (Movistar) estiveram no trabalho para os líderes, cortando a meta juntos a 3:13 minutos.

Lição final para quem talvez conheça menos a Vuelta: esta grande volta é muito diferente do Giro e Tour. Ao segundo dia teve uma etapa que sem dificuldades extremas, deixou muita gente "sufocada" principalmente nos últimos quilómetros. Eram uma segunda categoria e três de terceira, com chegada em alto. O calor teve a sua influência, ainda mais com um constante sobe e desce. A etapa foi tão complicada para alguns ciclistas que Julien Duval (AG2R) e Lars Boom (Lotto-Jumbo) ficaram dentro do tempo limite para terminar a etapa por apenas quatro segundos!

De referir que Rohan Dennis (BMC), o primeiro líder da Vuelta após a vitória no contra-relógio de Málaga, ficou para trás com Porte e não se incomodou nada em perder a camisola vermelha. Kwiatkowski ficou com a liderança na geral e nos pontos, Luis Ángel Maté (Cofidis) aproveitou a fuga para garantir a camisola da montanha, enquanto a Sky é a primeira entre as equipas.

Pode ver aqui as classificações completas, com alguns dos candidatos a ficarem em pequenos cortes nos últimos metros, mas sem que causem grandes dores de cabeça, por enquanto.

Uma primeira categoria numa etapa para sprinters

Se os 163,5 quilómetros entre Marbelha e Caminito del Rey serviram para perceber principalmente que Porte não é candidato e Nibali também só o será com uma grande reviravolta, a etapa de segunda-feira será uma oportunidade para os sprinters. Mas nova lição: nesta Vuelta, os sprinters têm mesmo de ultrapassar bem as montanhas. O dia irá começar com uma primeira categoria!

Termina aos 45 quilómetros dos 178,2 que unem Mijas a Alhaurín de la Torre e pouco depois haverá uma terceira categoria. Tendo em conta que só haverão mais quatro ou cinco oportunidades para este tipo de ciclistas, Sagan, Elia Viviani (Quick-Step Floors) e Nacer Bouhanni (Cofidis) não vão querer desperdiçar, mesmo tendo de começar a etapa a subir. Mas as respectivas equipas bem que terão de trabalhar para anular a fuga e garantir que os seus líderes não ficam demasiado para trás logo no início. Terça-feira haverá chegada em alto de primeira categoria num dia em que os homens da geral serão novamente testados.

Nesta Vuelta não há tempo para ir ganhando ritmo. É preciso começar o melhor possível e conseguir manter o nível alto durante três semanas... numa temporada que já vai longa e com muitos ainda a pensar nos Mundiais e na Lombardia, o último monumento do ano.



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22 de agosto de 2018

A vez de Kwiatkowski, mas atenção a dois jovens ciclistas

Equipa da Sky para a Vuelta (Imagem: Team Sky)
Primeiro era Geraint Thomas que teria a Vuelta no seu calendário. Depois, Chris Froome ganhou o Giro e a Sky começou a pensar num feito que mais ninguém se atreveria a pensar: ganhar as três conquistar voltas no mesmo ano, com o mesmo ciclista. Froome acabou por não vencer o Tour, pelo que ficou imediatamente riscado da lista para Espanha. Thomas também acabou por não ser chamado. Abriram-se outras portas, com David de la Cruz desejoso de se mostrar como líder da Sky, ele que esteve a época toda à espera deste momento. Porém, por mais que se queira assumir como o número um, há um Michal Kwiatkowski que tem a oportunidade desejada: lutar por uma grande volta.

O polaco apareceu de rompante no panorama mundial, sagrando-se campeão do mundo aos 24 anos, somando vitórias em clássicas e outros resultados de topo que o destacaram numa então Omega Pharma-QuickStep (actual Quick-Step Floors). A Sky "agarrou-o" em 2016 e não foram fáceis os primeiros tempos numa equipa com uma forma de trabalhar bem diferente da formação belga. De estrela em ascensão, Kwiatkowski teve de se adaptar à mentalidade de tudo por um líder e, aos poucos, ir encontrando o seu espaço. No ano passado, o polaco ganhou um monumento, a Milano-Sanremo e regressou à consistência de resultados, além de ser um exímio homem de trabalho para Chris Froome.

É um ciclista que prima pela discrição, pelo que apesar de ser mais um dos corredores da Sky que afirmou querer ser líder numa grande volta - à imagem por exemplo de Wout Poels e de Geraint Thomas, no caso do galês o desejo está mais do que concretizado -, nunca o fez em tom de ultimato. O facto de ter um contrato até 2020 demonstra precisamente como está satisfeito com o seu papel na equipa britânica e pronto para esperar pela oportunidade.

Com as reviravoltas que a época teve para a Sky, Kwiatkowski vê-se agora onde queria. Se há clássicas que lhe assentam bem, este é um daqueles ciclistas que tem nas provas por etapas mais uma arma. Um corredor completo. Venceu duas Voltas ao Algarve e recentemente conquistou a "sua" Volta à Polónia. Mas claro, ganhar o Tirreno-Adriatico permitiu-lhe afirmar-se ainda mais como o grande ciclista que merece mais do que ser um gregário.

Esta será a sua segunda Vuelta, não tendo terminado em 2016. São sete as grandes voltas no currículo deste ciclista de 28 anos. Terá Kwiatkowski capacidade para liderar? É uma questão que se colocou sobre Geraint Thomas e a resposta foi uma vitória no Tour. Claro que para o polaco o panorama é diferente. O ciclista esteve ao lado do galês em França, pelo que o desgaste físico será um factor a ter em conta, comparativamente com alguns dos adversários que irá enfrentar.

Talvez por isso David de la Cruz fale como um líder. A Sky pode não ter o seu duo de vencedores, Froome e Thomas, mas não significa que não tenha pretensões a um pouco mais de história: vencer as três grandes voltas no mesmo ano, com três ciclistas diferentes! Esta equipa está a encontrar formas de gravar o seu nome entre as melhores de sempre do ciclismo.

No entanto, De la Cruz - que fez o Giro, mas a época foi preparada a pensar na Vuelta - poderá ver-se ofuscado não só por Kwiatkowski - que certamente quererá pelo menos uma etapa irá querer -, mas também por dois jovens que muito estão a entusiasmar. Começando por Tao Geoghegan Hart. Estagiou na Sky, mas foi amadurecer na equipa de Axel Merckx, a actual Hagens Berman Axeon, durante dois anos. Em 2017 regressou e foi colocado em corridas com menor pressão. Esta temporada apareceu como um ciclista que deixou muitos de boca aberta. Que trabalho brilhante fez na Volta à Califórnia para outro jovem, Egan Bernal! Mas as boas prestações repetiram-se noutras provas e aí está a sua primeira grande volta.

Numa entrevista ao Cycling News, Tao Geoghegan Hart disse que ainda não sabia se ficaria confinado ao trabalho de gregário. Mas seja o que for que lhe esteja destinado, o britânico de 23 está no lote de ciclistas a seguir com muita, muita atenção. Mas não está sozinho. Pavel Sivakov é o russo que muito se fala, mas que ainda está precisamente naquele ano de adaptação, durante o qual a Sky não coloca demasiada pressão num ciclista de apenas 21 anos.

Sivakov é apontado por muitos como mais um ciclista de enorme potencial. Bernal, também ele um estreante na Sky e no World Tour, "roubou" muitas das atenções em 2018, entrando desde logo a um nível muito elevado. A explosão de Sivakov está para chegar, pois não parecem existir dúvidas que irá acontecer. Se será já na Vuelta, tudo dependerá do papel que lhe está destinado, à imagem do que acontece com Tao Geoghegan Hart.

Jonathan Castroviejo, Sergio Henao, Salvatore Puccio e Dylan van Baarle completam uma equipa sem as duas principais estrelas, mas com um Kwiatkowski que é dos melhores ciclistas do pelotão internacional e com dois jovens que podem nesta Vuelta iniciar um caminho rumo a uma carreira que para já promete bastante. Agora que venha a confirmação de todo o talento que lhes é reconhecido. A nova geração está aí e a Sky pode muito bem ter três das futuras estrelas: Bernal, Hart e Sivakov.

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16 de março de 2018

Todos os olhos em Sagan. Será desta?

(Fotografia: Bettiniphoto/Bora-Hansgrohe)
Não será Peter Sagan contra os outros, mas perto disso. E com o lote de candidatos que se apresenta na Milano-Sanremo, até marcado por importantes ausências, parece redutor que se fale tanto de Sagan. Mas perante tudo o que este ciclista já alcançou, todo o seu talento e qualidade e tudo o que já deixou escapar, faz de Sagan aquele corredor para que todos olham. É ele que lidera qualquer lista de favoritos, de apostas, seja que lista for que o meta como vencedor e depois de dois segundos lugares nesta corrida quer finalmente quebrar o enguiço. E o segundo posto do ano passado deixou-o bem frustrado, o que o levou até a trocar algumas palavras com quem o bateu, Michal Kwiatkowski. Chegou a altura de levar para a estrada a ambição, a frustração, tudo o que Sagan tenha que o possa colocar onde ele finalmente quer: em primeiro.

Aos 28 anos já se pensaria que o tricampeão do mundo teria um número mais interessante de monumentos, mas "só" tem a Volta a Flandres. Pela postura do ciclista, a forma como alterou a sua temporada - também pela influência de agora ser pai -, deixa antever um Sagan mais do que nunca determinado em colocar-se no lugar que ele e certamente que muitos que acompanham a modalidade sentem que o ciclista da Bora-Hansgrohe deveria estar. Pode até dizer que prefere dar espectáculo a ganhar da forma como Kwiatkowski o fez há um ano, mas o próprio já pensará que chega de trabalhar e de "ficar perto" e  depois ver outro levantar os braços.

A Milano-Sanremo é este sábado o primeiro monumento do ano a realizar-se. Muitas vezes considerada como o monumento dos ciclistas, a verdade é que a Cipressa e o Poggio também têm tendência a deixar para trás o mais puro dos homens rápidos. Michal Kwiatkowski (Sky) de sprinter nada tem e estará em Itália com o objectivo de repetir o triunfo de há um ano. E depois de um início de época com vitórias na Volta ao Algarve e Tirreno-Adriatico, o polaco está numa forma que o colocam perto do favoritismo de Sagan.

Greg van Avermaet (BMC), Arnaud Démare (FDJ) - vencedor em 2016 - e Alexander Kristoff (UAE Team Emirates) - ganhou em 2014, completam uma lista de candidatos de primeira linha, por assim dizer. O norueguês, campeão europeu, parece ter recuperado a confiança perdida na Katusha-Alpecin e está a fazer um 2018 bem mais animador, já com três vitórias, pelo que consegue novamente estar entre aqueles que ninguém vai querer dar muito espaço de manobra.

Numa corrida com 294 quilómetros, ainda mais com mau tempo à espera dos ciclistas - mas nada como em 2013, quando chuva, vento e frio (muito frio) levou mesmo à neutralização de uma parte da corrda -, as maiores dificuldades estarem quando o pelotão já tem muitos quilómetros nas pernas, abrem as portas a vários tipos de ciclistas. Vejamos o caso da Quick-Step Floors. A equipa belga tem um renascido Elia Viviani como número um, mas pode muito bem voltar a jogar com Julian Alaphilippe num ataque (foi terceiro em 2017) ou mesmo Philippe Gilbert, que está desejoso de completar os cinco monumentos. Faltam-lhe a Milano-Sanremo e o Paris-Roubaix.

Oliver Naesen (AG2R) é sempre um corredor a ter debaixo de olho. Não tem qualquer interesse numa chegada em sprint, mas pode aliar-se a quem atacar numa das subidas. Também Jasper Stuyven (Trek-Segafredo) poderá optar por táctica idêntica. É mais um belga e em boa forma. A equipa americana parecia estar a arrancar para uma boa temporada com seis vitórias até ao início de Fevereiro. Porém, John Degenkolb está outra vez "de baixa", tal como Giacomo Nizzolo. É a oportunidade para Stuyven de confirmar o que já lhe é mais do que reconhecido. Pode ser mais perfeito para ele as corridas do pavé, mas não o tirem da equação.

Vamos tentar evitar escrever aqui um testamento, portanto aqui ficam alguns nomes a ter em atenção para a corrida que terá transmissão no Eurosport2 (13:30). Matteo Trentin (Mitchelton-Scott) tem tido um início de temporada marcado por alguns azares, mas depois de ter terminado 2017 em grande, surge com liberdade para lutar pela vitória na sua nova equipa. Será provável que seja o homem para tentar escapar ao pelotão, enquanto Caleb Ewan será a opção mais viável se a chegada for em grupo.

Mark Cavendish (vencedor em 2009) vem de duas quedas em duas primeiras etapas de corridas e respectivos abandonos. Mesmo com uma costela partida vai competir. Diz que estará presente para ajudar os colegas. Pois... é um pouco difícil acreditar que vá fazer tamanho esforço por puro altruísmo, mas quem sabe a idade esteja a mudar o britânico... Edvald Boasson Hagen é talvez a melhor hipótese para a Dimension Data, ainda que o norueguês tenha começado a época mais tarde também devido a problemas físicos. Stephen Cummings é sempre homem para uma daquelas fugas... à Cummings. Fica como outsider.

Michael Matthews também vem de uma lesão, pelo que é uma incógnita como se irá apresentar. Mas terá Tom Dumoulin como homem de trabalho! Ou para uma surpresa... Por parte da Sunweb, atenção ainda a Edward Theuns. Danny van Poppel (Lotto-Jumbo), Sacha Modolo (EF Education First-Drapac), André Greipel (Lotto Soudal) - bem que precisa de um grande resultado e que falta faz este sprinter no seu melhor -, Sonny Colbrelli (Bahrain-Merida e com Vincenzo Nibali na equipa), Christophe Laporte (Cofidis e atenção a este francês), Alexey Lutsenko (Astana e numa perspectiva de um final mais selecto), Gianni Moscon (Sky e caso Kwiatkowski falhe) e Jakub Mareczko (Willier Triestina-Selle Italia) são ciclistas que apresentam argumentos.

E deixamos a supresa (ou se calhar meia) para o fim. Com duas vitórias no Tirreno-Adriatico e finalmente alcançados os primeiros triunfos pela Katusha-Alpecin, Marcel Kittel disse sim à Milano-Sanremo. Claro que para ele passar as duas dificuldades será um martírio e certo é que ninguém quererá levá-lo à meta. Kittel veio dar mais uma razão para as subidas serem muito atacadas. Mas é muito bom ver este sprinter ter o objectivo de tentar um monumento na sua carreira e só lhe ficaria bem.

Quanto a portugueses, só teremos José Gonçalves (Katusha-Alpecin). Está a tornar-se num homem de extrema confiança de Marcel Kittel, mas dêem-lhe liberdade e porque não inclui-lo na lista de outsiders. Um top dez já lhe assentaria muito bem, mas estará sempre dependente do que irá fazer Kittel.

Além de Sagan, apostar em alguém... Fica ao critério e porque não ao feeling (sensação) de cada um...

Ausências

Já aqui foram referidas as duas ausências da Trek-Segafredo, Degenkolb e Nizzolo, mas as duas principais - com todo o respeito que Degenkolb, o vencedor de 2015, merece - são Fernando Gaviria e Nacer Bouhanni. O colombiano da Quick-Step Floors queria apostar tanto nas clássicas e, diga-se, correu francamente mal. Gaviria tem dividido as quedas com as vitórias! Caiu logo na Volta a San Juan, antes das provas de um dia, e história idêntica aconteceu na Kuurne-Bruxelles-Kuurne e antes, a Omloop Het Nieuwsblad também não foi memorável. De baterias apontadas à Milano-Sanremo, talvez o principal objectivo que procurava em 2017 além das etapas no Tour, Gaviria fracturou a mão no Tirreno-Adriatico e regressou a casa para recuperar.

É uma pena não ter este enorme ciclista na Milano-Sanremo. Teremos de esperar por 2019. Já Nacer Bouhanni não sabe o que esperar. Abandonou o Paris-Nice devido a doença, disse que o médico da equipa já lhe deu alta e que até treinou. Porém, Cédric Vasseur, novo director desportivo da Cofidis, deixou-o de fora e elegeu Christophe Laporte, que já soma três vitórias este ano. Bouhanni não escondeu o desagrado e a surpresa pela decisão, mas já começa a transparecer que há mais do que uma simples decisão técnica por trás da ausência do francês em Itália. E deve ser bem frustrante para Bouhanni ficar de fora, ainda mais quando lhe está "atravessado" o que lhe aconteceu em 2016, ano em que ganhou o seu rival gaulês, Arnaud Démare (FDJ). Quando tentou arrancar para o sprint, teve um problema mecânico que o atrasou ligeiramente, o suficiente para o deixar em quarto.

Mais dois pormenores

A Milano-Sanremo vai marcar a estreia do vídeo-árbitro no ciclismo. Além dos três comissários que estarão nos carros ou motos na corrida, haverá um quarto, que estará a atento às diferentes imagens de televisão a que terá acesso. Com o recurso a este método será possível, por exemplo, excluir rapidamente um ciclista que tenha aproveitado agarrar-se a um carro para ganhar terreno, por exemplo. Normalmente são decisões feitas após a corrida, agora o infractor pode ser imediatamente "encostado". De salientar que, ao contrário do futebol, a decisão é efectiva, ou seja, o comissário que está a ver as imagens tem o poder de ditar logo a sanção, enquanto no futebol a palavra final é sempre do árbitro principal.

Outro pormenor de destaque é a presença da Novo Nordisk, equipa Profissional Continental americana, composta somente por ciclistas que têm diabetes. Será a primeira vez que tal se irá verificar na Milano-Sanremo e este convite é também um reconhecimento do trabalho que tem sido feito na Novo Nordisk para não só chamar a atenção para a doença, mas para mostrar como estes corredores podem ser atletas de alta competição e estar entre os melhores.

De recordar que a Cipressa tem 5650 quilómetros de extensão, pendente média de 4,1%, 9% de máxima. O Poggio tem 3700 metros, 3,7% de média, num máximo de 8%. Em baixo fica a altimetria do primeiro monumento do ano. E para os amantes das clássicas é caso para dizer, até que enfim!

14 de março de 2018

Espectáculo ou esperteza? Sagan anima contagem decrescente até à Milano-Sanremo

(Fotografia: Bettiniphoto/Bora-Hansgrohe)
Não há nada como uma troca de palavras entre dois grandes ciclistas antes do primeiro monumento do ano para animar a contagem decrescente. Peter Sagan começou, Michal Kwiatkowski respondeu e bem se pode dizer que estão abertas as hostilidades! É um aquecimento fora da estrada para a Milano-Sanremo que volta a ter o tricampeão do mundo como um dos grandes favoritos, senão o principal, mas que terá outro campeão do mundo, de 2014, como forte candidato, não fosse ele o vencedor em 2017 e estar a realizar um 2018 brilhante. Para já fica a questão: o que é preferível, o espectáculo ou esperteza?

Claro que o ideal são os dois factores coincidirem, mas se não for possível, para Sagan não há dúvidas que o importante é dar espectáculo, enquanto Kwiatkowski prefere a eficácia que a esperteza pode dar. Mas vamos à declaração que iniciou a troca de palavras: "Se analisares como o Kwiatko ganhou no ano passado... Se eu ganhar assim, não fico feliz com a minha exibição. Ou estamos a jogar de forma justa ou então é muito fácil."

Na edição passada, Sagan atacou na subida do Poggio e só Kwiatkowski e Julian Alaphilippe seguiram o eslovaco. Enquanto o ciclista da Quick-Step Floors ainda ajudou a aumentar a vantagem para os perseguidores, o polaco da Sky jogou de forma muito fria, tentando manter-se o máximo de tempo possível na roda dos colegas de ocasião. No final, um filme já muito visto: Sagan trabalhou intensamente e depois foi batido ao sprint por um ciclista que de sprinter nada tem! "Ele deve-me umas cervejas", disse então Sagan a Kwiatkowski.

Regressando às recentes declarações. O eslovaco garante que se tivesse de fazer tudo de novo, as opções seriam as mesmas. "Prefiro dar espectáculo para as pessoas e o que acontecer, acontece. Não interessa se se ganha ou se perde!" Há uma razão porque Sagan é dos ciclistas mais populares, precisamente porque dá espectáculo. E muito! Porém, é capaz de haver quem não concorde tanto com a postura de as vitórias não serem o mais importante... A Bora-Hansgrohe, a sua equipa, certamente que não se importaria nada de o ver como vencedor mais vezes, ainda que não exista actualmente um ciclista com o potencial de marketing de Sagan, mesmo que não ganhe.

O homem do contrato dos seis milhões de euros tem um currículo impressionante aos 28 anos, já tendo ultrapassado as cem vitórias, mas só tem um monumento, a Volta a Flandres. Na Milano-Sanremo soma uns quantos top dez, entre eles dois segundos para juntar a colecção que tem. Além de 2017, ficou atrás de Gerald Ciolek em 2013, na inesquecível edição em que o frio, chuva e vento obrigaram a encurtar a corrida, que chegou mesmo a estar parcialmente neutralizada.

"Às vezes não se ganha a corrida por se ser o mais forte, precisas de ser o mais esperto", respondeu Kwiatkowski quando confrontado com as declarações de Sagan. O polaco acabou de ganhar o Tirreno-Adriatico, enquanto Sagan somou mais três segundos lugares em etapas na corrida italiana. E só para juntar mais um segundo, foi essa a posição na classificação por pontos. "Eu sei o que é competir com a camisola do arco-íris. Faz parte do jogo que ele diga essas coisas. Muitos dos ciclistas colocam-no sob pressão e colocam-me a mim sob pressão. Faz parte do jogo", disse Kwiatkowski, longe de tentar alimentar polémicas.

Aliás, diga-se, que mesmo com as afirmações que fez, Sagan também procurou não criar nenhuma guerra: "Todos somos diferentes e temos personalidades diferentes. É por isso que a vida é bonita. Todos somos diferentes!" Como Kwiatkowski disse, tudo não passa dos famosos mind games (jogos mentais). São apenas pequenas pequenas provocações que ajudam a animar o ambiente antes de uma grande corrida.

Também o polaco actuará da mesma forma se assim considerar que é a melhor forma para voltar a ganhar e Kwiatkowski está super motivado para a Milano-Sanremo depois de num mês ganhar o Tirreno-Adriatico e antes a Volta ao Algarve. Quanto a Sagan, o ciclista da Bora-Hansgrohe não quer falar de tácticas, se vai ou não atacar novamente no Poggio. "Talvez vá ser mais esperto no Poggio, mas decidirei no momento, não agora", afirmou em mais uma pequena provocação.

Muito se fala sobre como a forma de correr de Sagan lhe tem custado algumas vitórias. Ao eslovaco falta acertar a dose certa de espectáculo com a dose certa de esperteza. Kwiatkowski é um ciclista completamente diferente, que jogou com as armas que tinha e bateu Sagan (e não foi vez única), mas também ele sabe dar espectáculo e já o fez em clássicas como a Strade Bianche ou na Amstel Gold Race, que já venceu. Certo, é que quando se fala de Sagan, a equipa exige-lhe vitórias, mas os adeptos esperam que nunca perca aquela veia de showman que o ciclismo tanto precisa.

E começa-se a desejar que o tempo passe rápido para a Volta a Flandres (1 de Abril) e Paris-Roubaix (8 de Abril). É que Sagan poderá ter o parceiro perfeito para atacar as corridas, pois o jovem belga Wout van Aert, da Vérandas Willems-Crelan - outro tricampeão do mundo mas no ciclocrosse -, tem demonstrado que partilha a 100% a mentalidade de Sagan. Dá espectáculo e não é claramente ciclista de ficar na roda de ninguém. Mas primeiro que venha a Milano-Sanremo, no sábado.

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»»Um estranho início das clássicas sem Peter Sagan««

18 de fevereiro de 2018

Quatro segundos separaram Ruben Guerreiro de mais um grande momento português no Malhão

Ruben Guerreiro foi segundo na etapa final da Volta ao Algarve
Tão rapidamente se passou de uma etapa que parecia destinada a ser algo anticlímax depois de uma Volta ao Algarve de tanto espectáculo e indefinição, como afinal se teve uns quilómetros finais emotivos graças a um português. É impossível não estar no Malhão e pensar que há um ano se assistiu a um grande momento para o ciclismo nacional, quando Amaro Antunes venceu na subida que tanto gosta, frente ao "seu" público. Desta feita o algarvio assistiu de fora - ou melhor, dentro do carro da W52-FC Porto, como convidado -, a um Ruben Guerreiro a mostrar todo o seu potencial. O campeão nacional está simplesmente fantástico nesse início de temporada e se restavam dúvidas, então afastem-nas: estamos perante um ciclista que pode dar muito mais do que um já por si brilhante segundo lugar na etapa que encerrou a 44ª edição da Volta ao Algarve.

Há um ano passou-se o vencedor da Algarvia, Primoz Roglic (Lotto-Jumbo), para segundo plano. Era impossível não o fazer perante o feito de Amaro Antunes. É difícil resistir tentação de não fazer o mesmo com Michal Kwiatkowski! O ciclista da Sky esteve perfeito. A Sky esteve perfeita perante todas as imperfeições das possíveis (mas claramente pouco) equipas adversárias. A táctica saiu sem mácula por quatro segundos. Foi o tempo que separou Guerreiro do polaco, campeão do mundo em 2014. Muito rapidamente se descreve aqui o que aconteceu: Kwiatkowski foi para a fuga de 31 ciclistas e teve o compatriota da Sky, Michal Golas no apoio. Lá atrás ninguém se mostrou particularmente interessado em perseguir, até porque havia praticamente um representante por equipa na frente. O pensamento passava a ser mais vencer uma etapa e entregar a corrida a Kwiatkowski, com Geraint Thomas a abdicar de uma terceira conquista.

Lukas Postlberger (Bora-Hansgrohe e vencedor da primeira etapa do Giro100) tentou escapar, Zdenek Stybar (Quick-Step Floors) apanhou-o e isolou-se, mas Kwiatkowski esteve tranquilo na fuga. Golas trabalhou, o já mais do que claro vencedor da Algarvia atacou. E assim se parecia ir escrever uma história com pouco mais para dizer. Porém, lá veio Ruben Guerreiro. O ciclista da Trek-Segafredo obrigou o polaco a não relaxar se queria proclamar-se rei do Malhão, depois de o ter feito na Fóia. Num ano a evolução de Guerreiro é notória. Mental e fisicamente está um ciclista a amadurecer a olhos vistos e que bem deve saber ter uma equipa com a qualidade da americana a confiar tanto no português, quando em prova estava um Bauke Mollema que poderia muito bem ter dito que queria ser ele a disputar pelo menos um pódio (foi quarto a seis segundos do pódio).

Foi dia para Guerreiro. Subiu o Malhão a fazer jus ao nome. Iríamos ter um sucessor português a Amaro Antunes? Por quatro segundos não aconteceu. Contudo, o campeão nacional foi ovacionado como um vencedor e assim o mereceu. Esteve perto de uma vitória na Herald Sun Tour e na geral fez quarto. Antes, no Tour Down Under, fechou num excelente nono lugar e segundo da juventude. Agora, no Algarve, teve uma demonstração de como se está a tornar num ciclista muito completo. Num ciclista de enorme futuro.

Axel Merckx, seu antigo director desportivo na Axeon Hagens Berman, bem tinha dito que se Ruben Guerreiro (23 anos) alcançasse uma regularidade que as lesões tanto tinham tendência em não deixar, que Portugal estaria perante uma grande referência da modalidade. Quando chegou à Trek-Segafredo em 2017, começou, mas um problema nos dentes interrompeu-lhe a auspiciosa entrada no World Tour. Foi campeão nacional e terminou o ano a mostrar que ia arrancar 2018 novamente em força. Aí está Ruben Guerreiro e ainda tem tanto para mostrar. Lesões ou qualquer outro problema, fiquem longe, por favor.


Pódio final, ao qual faltou Geraint Thomas
Mas sejamos justos. Kwiatkowski merece o destaque. O polaco quer fazer uma época de clássicas no mínimo idêntica há de 2017. A Strade Bianche e a Milano-Sanremo foram dois triunfos memoráveis. Porém, estamos perante um ciclista que também ganhou confiança para as grandes voltas e já exige a sua oportunidade. E aos poucos vai mostrando que a merece. Não se pode retirar mérito só porque no pelotão, ou o que restou dele principalmente depois da primeira passagem no Malhão, não o quis perseguir. Kwiatkowski foi o mais forte nesta Volta ao Algarve e só Geraint Thomas estava ao seu nível. A vitória ficou na Sky e o polaco, segundo há um ano depois de uma intensa batalha com Roglic, regressou ao primeiro lugar quatro anos depois.

O polaco ficou com a camisola amarela e com a vermelha dos pontos, tirando-a novamente a Dylan Groenewegen. A branca da juventude foi a única que nunca mudou de corpo desde Lagos. Sam Oomen (Sunweb) começou a Algarvia com dúvidas sobre o seu joelho e terminou com garantias que não só está bem fisicamente, como, estando sem limitações, não tinha concorrência. Benjamin King deu à Dimension Data a camisola azul da montanha.

Não houve um português no pódio. Nelson Oliveira (Movistar) não resistiu à dureza de uma dupla passagem no Malhão e caiu para o 10º lugar, a 2:54 do vencedor. Ainda assim um resultado muito animador para o ciclista de Anadia. Ruben Guerreiro ficou a quatro segundos de um pódio ao qual acabou por subir por instantes para deixar umas palavras e receber o merecido aplauso do público português. O corredor salientou precisamente como mesmo sendo um segundo lugar, era importante para o ciclismo nacional.

Porém, no pódio também não esteve Geraint Thomas. Segundo classificado, a 1:31 do colega de equipa, regressou ao autocarro sem passar pelo momento da consagração. Não lhe ficou bem... Já Tejay van Garderen não faltou. Foi terceiro e o seu sorriso deixou subentender que, apesar de preferir uma vitória de etapa, pódio é pódio! Ficou a 2:16 minutos de Kwiatkowski.

Entre as equipas portuguesas, o melhor foi Vicente Garcia de Mateos (Aviludo-Louletano-Uli), 17º na geral, a 3:47, com o melhor português a ser César Fonte (W52-FC Porto), a 5:18. Uma palavra ainda para Joaquim Silva (Caja Rural) que alcançou o objectivo de terminar no top 25. Fez precisamente essa posição a 4:22 do vencedor. Ruben Guerreiro foi 20º, a 3:54. (pode conferir as classificações neste link).

Assim se fechou mais uma Volta ao Algarve. Uma corrida que teve a marca histórica de 13, das 18, equipas do World Tour presentes. Agora é esperar um ano para que os melhores do mundo regressem a Portugal e seguir em frente numa longa temporada de ciclismo que está apenas a dar as primeiras pedaladas.





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17 de fevereiro de 2018

Groenewegen ganhou outra vez. Agora que venham as decisões finais

Segunda chegada ao sprint, segunda vitória para Groenewegen
Expectativas cumpridas em Tavira. A etapa foi decidida ao sprint - aquela rampinha final ajuda e bem ao espectáculo -, Dylan Groenewegen foi novamente o mais forte e a assistir estava, como tem sido habitual, uma multidão que torna esta uma das chegadas mais populares da Volta ao Algarve. Agora acabaram-se as expectativas, podem-se fazer previsões, mas a verdade é que no Malhão muito pode acontecer. Este é um filme com vários finais possíveis em qualquer das classificações. Aqui ficam alguns cenários.

Começando pela luta dos pontos, ou seja, a camisola vermelha. Com o triunfo em Tavira, Groenewegen recuperou a liderança que teve quando venceu a primeira etapa, em Lagos. Michal Kwiatkowski, que vestiu a camisola na Fóia, tem menos um ponto e se ganhar a etapa pode ficar com esta classificação. O melhor para o sprinter holandês é ter a sua Lotto-Jumbo trabalhar para evitar uma fuga antes do quilómetro 16,8 e assim ir buscar pontos na meta volante. Em último caso, pode integrar a fuga como, por exemplo, fez André Greipel em 2017, garantindo dessa forma a conquista desta classificação.

Na juventude, Sam Oomen está bem encaminhado para ficar com a camisola branca que vestiu logo em Lagos, a abrir a Volta ao Algarve. O holandês da Sunweb tem 2:26 minutos sobre o companheiro de equipa, Lennard Kamna e 3:23 sobre José Neves, da W52-FC Porto. Os dois ciclistas da Liberty Seguros-Carglass, André Carvalho e André Crispim estão a 4:14 e 5:45, respectivamente. Apesar da incógnita sobre o estado do seu joelho, Oomen demonstra que o problema estará a ser ultrapassado. Ainda assim, é o Malhão e as duas passagens fazem por vezes mossa no mais talentoso dos trepadores.


Serão estes os homens no pódio após o Malhão?
Benjamin King (Dimension Data) esteve este sábado em fuga para tentar somar os poucos pontos que estavam em jogo e assim consolidar uma liderança que até pode perder para alguém que esteja a zero na classificação. Soma 21, mais dez que João Rodrigues (W52-FC Porto). Porém, com 30 em jogo, basta alguém da fuga ganhar todos os prémios da montanha do dia e mesmo que não vença a etapa, pode levar a camisola azul, desde que King não some mais de dois pontos. Há um ano, o colombiano Juan Felipe Osorio (Manzana Postobón) ganhou precisamente ao apostar na fuga. O americano está determinado em ficar com a camisola, pelo que pode sempre defender-se, indo também ele para uma eventual fuga.

E agora a mais indefinida das classificações e aquela que mais interessa. Quem vai vencer a Volta ao Algarve? Irá Geraint Thomas tornar-se no primeiro estrangeiro a conquistar a corrida três vezes? Ou irá Michal Kwiatkowski ameaçar o colega da Sky para vencer pela segunda vez? 19 segundos separam galês e polaco, pelo que a equipa britânica pode muito bem jogar com os dois ases para "partir" a concorrência. Kwiatkowski até ganhou inadvertidamente três segundos devido a um corte no pelotão na chegada a Tavira (pode conferir aqui as classificações).

A menos de um minuto está Nelson Oliveira (32 segundos), Bob Jungels (52) e Tejay van Garderen (53). Bauke Mollema está a 1:01 e Jaime Rosón a 1:18. O espanhol poderá juntar-se a Oliveira numa táctica para tentar desequilibrar a Sky. Não será nada fácil, mas a Movistar ter estes dois homens deixa em aberto a possibilidade de ter pelo menos um ciclista no pódio e, claro, que o público que costuma tornar a subida do Malhão muito emocionante para os ciclistas portugueses, vai estar a apoiar Oliveira. O corredor de Anadia está num bom momento de forma neste início de temporada, como demonstrou na Fóia e no contra-relógio. Se conseguir o terceiro lugar, será o regresso de um ciclista português ao pódio, depois de Tiago Machado ter ficado nessa posição em 2015.

A Quick-Step Floors ainda não ganhou na Algarvia, o que é estranho para esta equipa sempre sedenta de vencer. Jungels ambiciona alto para 2018, apostando no Tour, querendo mais do que camisolas da juventude. O luxemburguês apresentou um discurso de quem estava no Algarve para ganhar e aqui está a oportunidade para o mostrar. Terá de atacar, tal como Van Garderen e ainda mais Bauke Mollema. Perante a diferença, nenhum pode esperar pelos últimos metros. A dupla subida ao Malhão promete ser animada.

Este ano não haverá Amaro Antunes para uma autêntica loucura algarvia na subida que o ciclista, agora na CCC Sprandi Polkowice, tanto gosta e que venceu em 2017. A vitória de etapa é quase tão difícil de prever como o Euromilhões. Como não há bonificações no final, é possível que uma fuga possa triunfar, já que os homens da geral podem preferir concentrar-se apenas nessa luta. Ou não!...


A partida (12:25) marcará o regresso de Faro como um dos locais de partida da Volta ao Algarve, com 173,5 quilómetros a terem de ser percorridos até à meta no já tradicional Alto do Malhão. Se não puder ver na estrada, então o Eurosport2 e a TVI24 vão transmitir todas as emoções finais.


Quanto à quarta etapa, a mais longa (199,2 quilómetros), que visitou o Alentejo, com partida em Almodôvar e chegada em Tavira, a fuga do dia foi protagonizada por Bruno Silva (Efapel), João Rodrigues (W52-FC Porto), Aleksandr Grigorev (Sporting-Tavira), Julen Amezqueta (Caja Rural), Rory Sutherland (UAE Team Emirates) e Benjamin King (Dimension Data). Já perto do final, Philippe Gilbert (Quick-Step Floors), Dylan Teuns (BMC) e Jasha Sutterlin (Movistar) tentaram surpreender, mas este foi um guião seguido sem improvisos e a Lotto-Jumbo, FDJ e Trek-Segafredo anularam qualquer escapadela.

No final, Groenewegen foi tão poderoso que houve tempo para mais festejos do que na primeira etapa. Matteo Pelucchi (Bora-Hansgrohe) e John Degenkolb (Trek-Segafredo) fizeram segundo e terceiro respectivamente, com Samuel Caldeira (W52-FC Porto) a ser o melhor português em 14º, já com um pequeno corte de três segundos.

»»Não o façam esperar por um grande volta, se faz favor««

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»»Dylan Groenewegen, mais um holandês que quer conquistar o mundo««

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