O ano ainda está a começar e já há surpresas. Marc Hirschi já não é ciclista da DSM (ex-Sunweb), deixando a equipa rumo àquela que a cada ano que passa vai reforçando-se com alguns dos melhores jovens talentos. O suíço assinou pela UAE Team Emirates, juntando-se assim a Tadej Pogacar, Mikkel Bjerg, Brandon McNulty e aos gémeos Oliveira, para nomear alguns dos jovens que a equipa garantiu em tempos recentes.
Tem sido esta a política de contratações da UAE Team Emirates, principalmente desde a chegada de Matxin Joxean Fernandez como um dos directores da estrutura. Não significa que não se aposte na experiência - Rafal Majka e Matteo Trentin (ambos com 31 anos) são exemplo disso - mas é na captação de jovens que tem estado grande parte do ganho da formação.
Depois de conquistar o Tour com Pogacar e de querer, naturalmente, continuar a afirmar-se como um equipa candidata a mais vitórias em grandes voltas, a chegada de de Hirschi demonstra a ambição de criar também um bloco forte para as clássicas, sendo o suíço igualmente uma boa aposta para vencer etapas.
Aos 22 anos, Hirschi foi campeão do mundo de sub-23 em 2018, teve um 2019 de adaptação ao World Tour na então Sunweb e foi dos ciclistas que terminou 2020 com muito boas recordações. Foi a explosão na carreira, sendo que tem como empresário o bem conhecido Fabian Cancellara. E Hirschi até já revelou algumas parecenças com o antigo ciclista na forma de enfrentar as corridas.
O suíço foi uma das figuras da última Volta a França, vencendo uma etapa e ficando perto de ganhar outras duas. Merecidamente foi considerado o corredor mais combativo da corrida. Pouco depois comquistou a Flèche Wallonne, tendo três dias antes assegurado a medalha de bronze na prova de fundo de elite dos Mundiais, em Imola.
Os bons resultados e muitas outras boas exibições fizeram disparar a cotação de Hirschi. Preparava-se para entrar no último ano de contrato com a DSM, mas afinal nem começa a época. Em causa poderão estar as exigências salariais do corredor, segundo avança o WielerFlits. A DSM não estaria disposta a ceder, enquanto a UAE Team Emirates tornou-se numa das equipas com mais poderio financeiro, que ficou reforçado com a saída de Fabio Aru, um dos mais bem pagos da equipa.
Além de estar sempre atenta aos novos talentos que vão surgindo - João Almeida estará na agenda, sendo que termina contrato com a Deceuninck-QuickStep no final de 2021 -, a UAE Team Emirates não só reforça o bloco das clássicas, como a capacidade de lutar por etapas é algo essencial numa altura em que Diego Ulissi foi forçado a fazer uma paragem na carreira, devido a um problema de saúde.
Hirschi torna-se assim na quinta contratação da UAE Team Emirates para a nova temporada. Além de Majka e Trentin, Ryan Gibbons (ex-NTT) e Juan Ayuso (ex-Colpack Ballan). Este último é um reforço para o futuro e não para o imediato. Tem apenas 18 anos, mas já assinou até 2025. A intenção passa por esta temporada poder rodar numa equipa Profissional Continental ou mesmo Continental, antes de passar definitivamente para a UAE Team Emirates, que no ano passado já lhe deu uma bicicleta Colnago para que começasse a sentir-se em casa!
Quanto à agora DSM, mudou o nome, mas não mudou uma tendência recente. A equipa não consegue segurar as suas estrelas, que acabam por sair antes de finalizarem os contratos. Michael Matthews foi o caso mais recente, tendo regressado à agora BikeExchange, não esquecendo exemplos como Tom Dumoulin, Warren Barguil e Marcel Kittel.
A saída de Hirschi foi anunciada com um curto comunicado há uns dias, não dando explicações, limitando-se a desejar felicidades para a carreira do ciclista e com a referência que não seriam feitos mais comentários. No entanto, deverá receber dinheiro pela transferência do ciclista, algo que poucas vezes acontece no ciclismo, onde normalmente as mudanças são feitas no final dos contratos.
Confirmado este sábado na UAE Team Emirates, Hirschi afirmou: "Partilhamos a mesma abordagem e objectivos. Esta equipa é a ir na direcção certa e tem estado a crescer muito nos últimos anos. Estou ansioso por beneficiar dessa dinâmica, tanto em prol da equipa, como para a evolução da minha carreira."
O ciclista assinou por três temporadas e já se juntou à sua nova equipa para o estágio nos Emirados Árabes Unidos.
Tivemos Volta a França! Depois de tanta incerteza e de tanto as equipas desejarem terem um Tour para salvar uma temporada que a pandemia ameaça tornar perdida, a corrida realizou-se mesmo, com um ou outro sobressalto, como os cinco casos positivos no primeiro dia de folga e os dois membros de staff mandados para casa pela Lotto Soudal ainda antes da prova. Porém, foi possível o destaque ser a competição. Não foi um Tour tão emocionante como o de 2019, mas contra-relógio final valeu uma Volta a França. Recordaremos aquela exibição de Tadej Pogacar durante anos e anos. Foi uma performance para a história de um jovem que esta segunda-feira vai celebrar 22 anos.
Como sempre, há aspectos positivos e negativos. Aqui ficam as prestações das equipas uma a uma, com a classificação por equipas a determinar a ordem. E lá aparece a Movistar a liderar, com Nelson Oliveira a somar mais uma subida a um pódio de uma grande volta.
Próxima paragem nas grandes voltas: Volta a Itália, de 3 a 25 de Outubro.
Movistar: Está em fase de renovação e está a ser lenta. Ainda assim, Enric Mas acabou por fazer um bom Tour, fechando num excelente quinto lugar, a 6:07 minutos de Pogacar. O espanhol foi crescendo de forma, manteve-se sempre muito discreto, mas de olhos postos num bom resultado. Falta é equipa. Alejandro Valverde também quase não se viu, contudo, um desastroso contra-relógio tirou-lhe o que seria mais um top dez. Mas lá está, não trabalha para companheiros. A equipa acaba por ganhar a classificação colectiva, o que é algo habitual, mas, mais uma vez, não apaga que a Movistar precisa de mais e melhor, com Mas a salvar a honra. Mas a equipa nem uma etapa ganhou. Nelson Oliveira cumpriu com a sua função e não é por acaso que continua a ser um dos gregários que os responsáveis não abdicam.
Jumbo-Visma: Que Tour tão amargo! A Jumbo-Visma tirou a Ineos Grenadiers do pedestal e terminou com a era Sky/Ineos. Porém, não conseguiu substitui-la como a força vencedora. A equipa holandesa foi a mais forte, mas também mostrou falhas - deveria ter ganho mais tempo na montanha, tal era a diferença para as outras equipas -, que não foram mais graves porque tinha um líder, Primoz Roglic, também ele forte. Ou seja, foi uma equipa completa. Uma das falhas acabou por ser a falta de maior controlo a Pogacar. Custou caro.
É inevitável destacar três ciclistas, além do esloveno. Sepp Kuss está feito num gregário de luxo aos 26 anos e já começa a pedir mais do que um papel secundário. Dumoulin foi um senhor. Não era o objectivo, mas o holandês sacrificou-se por Roglic. A ideia da equipa era tê-lo preparado para entrar na luta pela amarela, mas quando a equipa funcionou pior, Dumoulin fez tudo para ver Roglic ganhar. O sétimo lugar é uma recompensa, mas este Dumoulin já deixa antever um regresso aos melhores tempos.
Por fim, Wout van Aert. É um ciclista a quem faltam adjectivos para o elogiar. Venceu duas etapas, se calhar até poderia ter ganho mais e até a camisola verde, mas sempre disse que estava no Tour para ajudar Roglic. E que ajuda deu! Acabou por ser dos mais importantes na montanha, quando se esperaria que fosse dos primeiros a acabar o trabalho nas etapas. Afinal, foi dos últimos. Lealdade suprema, qualidade que nunca mais acaba, foi um super Van Aert, que está muito ganhador em 2020, mas que é também um verdadeiro homem de equipa.
Quanto a Roglic, esteve praticamente sempre bem e venceu uma etapa. Foi autoritário, foi somando bonificações que pareciam estar a ser tão importantes. Mas as forças faltaram-lhe quando 57 segundos de vantagem deveriam ter garantido o Tour, que a Jumbo-Visma esperava ser o culminar do trabalho feito nos últimos anos para se tornar numa potência. Há que perceber o que aconteceu, levantar a cabeça e tentar de novo.
Bahrain-McLaren: O quarto lugar de Mikel Landa (a 5:58) foi um menos mal para um espanhol que desiludiu como líder. É a segunda vez que fecha nesta posição - na outra foi como gregário da Sky -, mas tendo em conta que sempre assumiu que olhava para a vitória, ou pelo menos para o pódio, houve pouco Landa. Nem no dia em que a equipa tão bem preparou o seu ataque, o fez. 24 horas depois atacou só para mostrar que estava presente. Deveria ter mostrado muito mais. Mas a Bahrain-McLaren teve uma prestação colectiva muito positiva e ainda colocou Damiano Caruso no 10º lugar.
EF Pro Cycling: Tour de altos e baixos. Um última semana menos boa tirou o pódio a Rigoberto Uran (terminou em oitavo, a 8:02). Uma sequência de quedas, a começar no Critérium du Dauphiné e que continuaram no Tour, tiraram Sergio Higuita da corrida. Daniel Martínez desiludiu na geral, mas foi dele o momento alto, ao ganhar uma etapa, em Pas de Peyrol. Neilson Powless esteve em bom plano nas fugas, já Hugh Carthy esteve aquém do esperado e Tejay van Garderen esteve na corrida (caso não não se saiba!), mas o americano esteve completamente apagado. Ainda assim, Tour positivo para a EF Pro Cycling dada as armas que tinha e os azares que teve com Higuita.
Ineos Grenadiers: Os tempos da Sky terminaram, mas a nova era da equipa britânica, apostando de uma vez por todas nos seus jovens na Volta a França e deixando Chris Froome Geraint Thomas de fora, não correu nada bem. Egan Bernal esteve longe do seu melhor e nem terminou a corrida. Que estranho foi ver o colombiano sofrer tanto nas montanhas, mas melhores tempos virão para este fenomenal ciclista. A equipa também se pode queixar de muitos infortúnios. Pavel Sivakov e Andrey Amador começara o Tour a cair duas vezes no primeiro dia, Sivakov ainda voltou a sofrer incidentes, o que o limitou na missão de estar ao lado de Bernal. Richard Carapaz acabou por ser o maior destaque, mas perdeu a camisola da montanha no contra-relógio para um super Pogacar. Para a Ineos Grenadiers valeu aquele momento em que Carapaz e Kwiatkowski trabalham juntos numa fuga para cortar a meta lado-a-lado, com vitória para o polaco. Porém, perante os objectivos, esta foi uma Volta a França para esquecer... ou, se calhar, para aprender.
Trek-Segafredo: Não foi uma corrida fácil, mas no final houve uma compensação já merecida para Richie Porte. Foi dos anos em que melhor surgiu, talvez só comparável a 2016 e em 2017, neste último em que parecia estar fortíssimo, mas sofreu uma queda que lhe acabou com a temporada. O australiano assumiu que era a última vez que seria um líder no Tour e isso até parece lhe ter retirado alguma pressão, curiosamente. Talvez por achar que já não tinha nada a perder, esteve audaz, de olhos na frente da corrida. Porém, acontece sempre algo a Porte. Perdeu tempo na etapa do vento e na última de montanha teve um furo numa zona de sterrato, onde teve de pedalar com pneu em baixo enquanto não chegava ajuda. No final, no contra-relógio, tudo se compôs. O pódio assenta-lhe bem por tudo o que fez na sua carreira, de super gregário a um líder a quem escapava um bom resultado numa grande volta. Falta-lhe ainda a etapa. Bauke Mollema não terminou a corrida, o que terá tirado a Trek-Segafredo a possibilidade de alcançar algo mais. Mas com Porte no pódio a nota só podia ser muito positiva.
Astana: Ai Miguel Ángel López! Grande vitória de etapa, para depois estragar tudo com um contra-relógio de baixo nível, que lhe custou o pódio e até o top cinco (foi sexto). Mas a Astana pode ainda queixar-se que teve ciclistas abaixo do desejado (os irmãos Izagirre, por exemplo, com Ion a abandonar a meio devido a uma queda), que pouco ajudaram o colombiano na montanha. Ficou sozinho muito cedo quase sempre, com o estreante Harold Tejada até a ser dos que mais acompanhou López. Alexey Lutsenko fez a sua corrida, como era de esperar, porque também garante resultados. Uma vitória de etapa e missão cumprida. Tour com um lado positivo, mas a podia ter sido bem melhor. López tem de trabalhar mais o contra-relógio. Bem precisa se quiser ganhar uma grande volta.
AG2R: Romain Bardet queria etapas, acabou por perceber que poderia lutar por um bom lugar na geral, mas caiu na etapa que terminava onde tanto treina e abandonou. Pierre Latour também não terminou. Nans Peters salvou a equipa terminar um Tour de mãos a abanar, algo que seria muito mau tendo em conta que é uma das principais equipas francesas. A vitória na oitava etapa (grande exibição de Peters) foi o ponto alto e o que AG2R terá para recordar no Tour em que se despediu de Bardet e Latour (nesta corrida). Ambos estão a caminho de novos projectos - Sunweb e Total Direct Energie, respectivamente - e a equipa está de facto a precisar de algo novo.
UAE Team Emirates: Não foi a equipa para apoiar um líder candidato a vencer o Tour, mas acaba com resultados fenomenais. Tadej Pogacar resolveu muito sozinho, é certo, mas David de la Cruz merece uma menção, pois foi um dos muitos ciclistas que começou a corrida a cair e quando recuperou fez o que pôde para estar ao lado do esloveno. Os restantes também fizeram o possível, mas há que melhorar a qualidade em redor de Pogacar rapidamente, ainda mais agora que é o vencedor de um Tour e logo na estreia. Fabio Aru nem acabou a prova e deixou a equipa algo irritada. Mas no final, interessam os números: vitória na geral, na montanha e na juventude. Pogacar venceu três etapas e Alexander Kristoff ganhou logo a primeira, vestindo a amarela pela primeira vez na carreira. Mais palavras para quê. Sucesso para a UAE Team Emirates que tem um fora-de-série de apenas 21 anos, com uma maturidade e inteligência táctica pouco habitual, dada a idade.
Mitchelton-Scott: O centro das atenções era Adam Yates, que tinha o plano de conquistar etapas. Só que a amarela caiu-lhe no colo na quinta etapa, quando Julian Alaphilippe (Deceuninck-QuickStep) foi penalizado por receber um bidão numa zona proibida (dentro dos 20 quilómetros finais). Foram quatro dias como líder e quando perdeu a camisola amarela, o britânico (que está de saída para a Ineos Grenadiers) e a equipa perceberam que o pódio era possível, ainda mais quando Egan Bernal abandonou, mudaram a aposta. Yates quebrou nas últimas etapas de montanha, o contra-relógio não foi o melhor, pelo que o nono lugar não foi mau. A Mitchelton-Scott teve o seu destaque e mais não se poderia pedir perante os ciclistas presentes.
Groupama-FDJ: Volta a França para esquecer. Thibaut Pinot falhou na primeira etapa de montanha, queixando-se de dores nas costas devido à queda que teve logo no primeiro dia de corrida. Ele e outros companheiros caíram e foi o prenúncio de um Tour negativo. David Gaudu também ficou mal-tratado pelo que nem outra solução houve. Com a equipa a deixar o sprinter Arnaud Démare de fora, todo um plano caiu por terra quando Pinot mostrou que não seria o ciclista de 2019. Esperou-se que talvez tentasse uma etapa, mas nada. "Arrastou-se" até final. Stefan Küng foi um dos que ainda tentou duas fuga, mas foi um Tour muito mau, ainda mais para uma equipa francesa tão importante como a Groupama-FDJ.
Arkéa Samsic: Havia alguma expectativa quanto a Nairo Quintana que tão bem começou 2020. O confinamento não lhe fez bem e não ajudou ter sido atropelado num treino, pouco antes de regressar à Europa. O colombiano até deu indicações nos primeiros dias que talvez pudesse entrar nas contas de um top cinco, ou talvez um pódio. Mas não. Mais um ciclista que não se livrou de quedas e afundou-se na geral (17º a mais de uma hora de Pogacar). Warren Barguil mal se viu, Winner Anacona mostrou muito mais quando esteve na Movistar e Dayer Quintana... é difícil não pensar que foi ao Tour por ser irmão de quem é. Arkéa Samsic quer ser uma ProTeam de qualidade World Tour, mas Quintana foi mais uma vez uma desilusão.
Cofidis: Apostou alto e perdeu tudo. Guillaume Martin é um excelente reforço. Teve uma boa primeira semana, mas algo inesperadamente quebrou na segunda. De potencial lugar no pódio, ficou fora do top dez. A equipa precisa de ter mais força na montanha para ver Martin ir mais longe. Tem potencial para tal. A maior desilusão chama-se Elia Viviani. Mais um daqueles ciclistas que deu para esquecer que foi ao Tour. A sua missão era dar a primeira vitória na Volta a França à equipa em mais de dez anos. O último foi Sylvain Chavanel, em 2008. A equipa subiu a World Tour, mas a contratação de Viviani para o sprint está a ser uma aposta falhada. Foi um Tour muito mau para o italiano que mal se viu nos sprints.
CCC: A indefinição quanto ao futuro da equipa com a anunciada saída do patrocinador, não terá ajudado os ciclistas chamados a manterem-se focados. A CCC passou ao lado do Tour. Intrometeu-se em fugas, Ilnur Zakarin ainda esteve na luta por uma etapa, mas acabou por abandonar a corrida. Greg van Avermaet deveria ter-se mostrado mais, Michael Schär foi dos mais activos. Há pouco a dizer sobre a formação polaca que teve em Matteo Trentin o maior destaque. Tentou entrar na luta pela camisola verde, tendo sido terceiro, mas não teve hipóteses nos sprints para ganhar uma etapa.
Bora-Hansgrohe: Não correu bem. Lennard Kämna alcançou uma vitória de etapa que o confirma como ciclista de futuro (muito próximo), ele já que havia ganho no Critérium du Dauphiné. Porém, a Bora-Hansgrohe viu os seus objectivos saírem gorados bastante cedo. Emanuel Buchamnn foi uma desilusão. Aquela queda no Dauphiné deixou marcas e o alemão não recuperou em condições. Apontava ao pódio depois de ter ficado à porta em 2019, mas mal chegou a montanha, percebeu que não dava para estar na frente. Uma pena para um ciclista de quem muito se esperava. Mas para piorar as coisas, Peter Sagan também não está nada, nada bem. A camisola verde que parecia ter o seu nome foi parar a Sam Bennett (Deceunick-QuickStep). Sagan ainda a vestiu, mas cedo se percebeu que a missão seria difícil. O eslovaco está muito longe dos seus tempos áureos e com os sprints intermédios colocados este ano antes das montanhas, Sagan perdeu a luta com Bennett. E continua sem ganhar em 2020. A Bora-Hansgrohe trabalhou muito para Sagan e essa união e qualidade de trabalho, foi um ponto positivo, além de Kämna, claro.
B&B Hotels-Vital Concept p/b KTM: Valeu Pierre Rolland. É um ciclista com altos e baixos na carreira, mas quando corre sem grande pressão e com liberdade em alcançar o seu resultado, mostra-se na montanha e foi isso que fez. Não conseguiu a etapa, mas mostrou as cores de um equipa que só recebeu o convite para o Tour na terceira tentativa. Porém, o que Rolland fez não chega para evitar que a formação francesa ProTeam continue a viver no limbo. Bryan Coquard não se apresentou tão competitivo no sprint como o esperado, mas esteve na luta. Também caiu e terminou o Tour em esforço. A equipa tentou algumas fugas, mas sem resultado.
Sunweb: Não ganhou a classificação colectiva, mas há que lhe entregar um prémio de melhor equipa no Tour, a par da Jumbo-Visma. Estilos e objectivos diferentes claro, com a holandesa a trabalhar para ganhar a corrida e esta Sunweb a trabalhar para vencer etapas. E dar muito espectáculo. Quem diria! Pouco se esperava de uma equipa sem líderes para a geral, com Michael Matthews a ficar de fora das escolhas, com ciclistas muito jovens, mas a táctica não só deu resultado, como levou a Sunweb até à ribalta no Tour. A forma como atacava em grupo, no mínimo com dois ciclistas, mas muitas vezes com três, o timing com que depois um deles tentava a sua sorte e se não resultava um, havia outro para ir para a frente... Houve muita audácia e compensou. Três vitórias de etapa e não esteve longe de conquistar mais, principalmente com Marc Hirschi, que foi eleito o super combativo do Tour. O suíço ganhou uma, o dinamarquês Soren Kragh Andersen duas (e mal podia acreditar). Foi uma grande Sunweb!
Deceuninck-QuickStep: Terminar o Tour com duas vitórias e mesmo andar de amarelo era pouco. Vencer a camisola verde era algo bem melhor, mas continuava ser algo curto para uma equipa cujo ADN é ganhar, ganhar, ganhar. Porém, vencer nos Campos Elísios com Sam Bennett (já vencedor de uma das etapas) e confirmar assim a classificação dos pontos, abrilhantou mais a exibição da equipa belga. Não se poderia comparar com a fantástica edição de 2019, mas esperava-se ver mais desta formação. E perder a amarela de Julian Alaphilippe (longe do ciclista de 2019, mas ganhou a sua tirada) por receber um bidão quando era proibido... Isso foi mau de mais. Mas o Tour acabou bem.
Israel Start-Up Nation: Está a tentar criar uma grande equipa em redor de Chris Froome para 2021. Mas neste 2020, a estreia no Tour foi fraca. Nils Politt e Daniel Martin ainda entraram em fugas, mas principalmente o irlandês estava muito em baixo de forma, ele que foi mais um que não recuperou de uma queda sofrida antes da corrida. André Greipel já não é sprinter para estas andanças. As atenções nesta equipa talvez estejam mesmo centradas na próxima época.
NTT: É difícil fazer algo quando se perde as duas principais figuras por quedas. Giacomo Nizzolo estava a realizar uma excelente temporada, chegou ao Tour como campeão europeu, mas abandonou. Domenico Pozzovivo ia tentar mostrar-se na montanha, mas abandonou. Edvald Boasson Hagen ainda fez segundo numa etapa. Porém, a formação africana passou muito ao lado do Tour e bem precisava de algo melhor, já que vive alguma incerteza quanto ao futuro.
Total Direct Energie: Para quem foi a melhor equipa do segundo escalão em 2019 e para uma estrutura que recebeu um reforço financeiro no ano passado com a chegada da Total, por esta altura esperava-se mais e melhor. A formação francesa teve uma prestação apagada, viu Lilian Calmejane abandonar e ninguém conseguiu muito mais do que entrar numa fuga.
Lotto Soudal: Fez o Tour possível. Começar a corrida a perder John Degenkolb por chegar fora do tempo limite na primeira etapa depois de ajudar Caleb Ewan a recuperar terreno perdido, já foi mau. Mas ver Philippe Gilbert não partir para a segunda etapa devido à queda do dia anterior... Foi péssimo! Ficou quase toda a responsabilidade sobre os ombros de Ewan. Venceu duas etapas. A desilusão acabou por ser Thomas de Gendt. Pouco se viu daquele ciclista de ataque que anima etapas. Não foi o seu Tour e a equipa também se ressentiu disso.
De apostar nos sprints, a lutar pela geral e agora como caça etapas. A Sunweb, ex-Giant-Alpecin e ex-Argos-Shimano, não tem parado de se reinventar ao longo dos anos. Adapta-se aos ciclistas que tem, nunca perdendo a linha de investimento em jovens que vê tornarem-se em vencedores. A equipa alemã vive mais uma fase da sua vida que tem sido de sucesso, mas que também tem sido de saber dar o passo atrás, para depois dar um salto em frente.
A Sunweb vive precisamente uma fase de dar o passo atrás. Com a surpreendente saída de Tom Dumoulin para a Jumbo-Visma - o holandês quebrou contrato para mudar de equipa -, a Sunweb viu-se privada do seu líder, aquele que lhe deu uma Volta a Itália e esteve perto de conquistar a Volta a França. A equipa havia quebrado quase por completo com o passado ganhador em sprints com Marcel Kittel e John Degenkolb, com este último a conquistar ainda dois monumentos (Milano-Sanremo e Paris-Roubaix).
Quase, porque tem Michael Matthews, que parecia ser o inevitável líder num regresso às origens, ficou de fora das escolhas do Tour. Sam Oomen começou o ano a regressar de uma longa paragem devido a um problema numa perna, que o obrigou a terminar a época após o Giro em 2019 e foi escalado para... o Giro. E ainda há um Wilco Kelderman que depois de muito prometer, pouco ou nada cumpriu. Também vai à Volta a Itália.
Tal como aconteceu com Kittel, Degenkolb e Dumoulin, os três ciclistas mencionados também estão de saída, mas sem que a Sunweb fique muito preocupada. O caminho da equipa é outro e está a demonstrar na Volta a França que tem tudo para ser novamente de sucesso. Oomen vai para a Jumbo-Visma, Kelderman assinou pela Bora-Hansgrohe.
Matthews ficou de fora das escolhas do Tour. Uma surpresa visto a equipa não ter qualquer pretensão à geral. O australiano não escondeu a desilusão e já assinou contrato com a sua antiga formação, a Mitchelton-Scott, com regresso marcado em 2021. À 14ª etapa do Tour percebe-se melhor as escolhas feitas. A Sunweb optou por uma equipa jovem, com ciclistas com ambição de singrar e com oportunidade para o fazer, sem terem de estar "presos" a um ciclista. Algo que teria acontecido se Matthews estivesse na corrida.
A média de idades é de 26,3, com três estreantes no Tour: Joris Nieuwenhuis, Casper Pedersen e Marc Hirschi. Cees Bol está só na segunda presença. Tiesj Benoot foi um dos principais reforços e apesar do segundo lugar no Paris-Nice, não veio ao Tour com pensamento na geral. Nikias Ardnt e Soren Kragh Andersen são dois ciclistas muito fiáveis e Nicolas Roche é, aos 36 anos, a voz da experiência, sempre necessária quando há uma equipa tão nova numa competição tão importante como o Tour. Ardnt já venceu etapas no Giro, Vuelta e Critérium du Dauphiné. Andersen tem agora uma no Tour.
Sem Dumoulin, Oomen, Kelderman e Matthews, as expectativas para a Sunweb eram baixas. Pelo menos para o "mundo exterior". "Repetir coisas não é o que queremos fazer. Gostamos de inovar, tentar coisas novas e pensar em novas possibilidades", explicou o director desportivo Rudi Kemna, ao Cycling Weekly.
De uma equipa que se esperava que passasse relativamente despercebida, eis que a Sunweb se tornou numa das mais entusiasmantes. Nos sprints aposta num Cees Bol de grande talento e que venceu uma etapa na Volta ao Algarve. Anda a ameaçar uma no Tour, mas a concorrência é muito forte. Nas etapas de média montanha tem sido o espectáculo Sunweb.
A equipa coloca três/quatro ciclistas na frente e começa a atacar à vez. Chega a ter mais do que um na frente, como quando Marc Hirschi ganhou na 12ª etapa. O suíço já tinha ficado perto em duas ocasiões, em mais duas tiradas bem trabalhadas pela Sunweb. Foi um daqueles triunfos que foi consensual em ser considerado mais do que merecido. Na 14ª, foi o dinamarquês Soren Kragh Andersen o autor do ataque vencedor, depois de Benoot ter lançado o primeiro. Ninguém o apanhou.
A Sunweb já sairá do Tour com uma corrida muito positiva e com a certeza que deu espectáculo, algo que, aliás, era também pretendido. Porém, estes jovens ciclistas, mais o veterano Nicolas Roche, não querem ficar por aqui. Têm andado constantemente em fuga e vão continuar a tentar bater aqueles que tentam controlar uma corrida e têm de lidar com ciclistas da Sunweb a atacar de todos os lados.
Esta Volta a França acaba por marcar esta reinvenção da estrutura alemã, que quer continuar a formar jovens - alguns saem da sua equipa de desenvolvimento -, mas pretende aos poucos construir novamente uma equipa para a geral. Romain Bardet (AG2R) vai chegar para dar os primeiros passos nesse trabalho, cujo objectivo é daqui a cerca de seis anos a Sunweb vencer o Tour, segundo afirmou há umas semanas Marc Reef, um dos responsáveis por equipa que tem uma capacidade impressionante de se reinventar com sucesso.
15ª etapa: Lyon - Grand Colombier, 174,5 quilómetros
Para a grande etapa que se espera este domingo, já não se contará com Romain Bardet. O francês caiu na sexta-feira e exames detectaram uma pequena hemorragia cerebral. O ciclista nem sequer partiu para a tirada deste sábado. Uma despedida inglória da AG2R no Tour, onde está há nove temporadas. A AG2R também já não conta com Pierre Latour, que abandonou.
As atenções vão estar todas nos homens da geral, ainda que a luta pela camisola verde continue animada entre Peter Sagan (Bora-Hansgrohe) e o líder da classificação dos pontos, Sam Bennett (Deceuninck-QuickStep).
É o momento de Egan Bernal (Ineos Grenadiers) mostrar a Primoz Roglic (Jumbo-Visma) que tem de contar com ele para a luta pela amarela. A subida é mais ao seu género, longa, com 17,4 quilómetros, isto depois de se ultrapassar duas primeiras categorias. O Grand Colombier tem uma pendente média de 7,1%, mas antes, os ciclistas enfrentarão o Montée de la Selle de Fromentel (11,1 quilómetros, com 8,1% de média) e o Col de la Biche (6,9 quilómetros, a 8,9% de média).
Dia muito complicado em expectativa, recordando-se que Tadej Pogacar (UAE Team Emirates) está a 44 segundos, Bernal a 59, com Rigoberto Uran (EF Pro Cycling) a ser quarto a 1:10 minutos. Luta pela amarela, pelo pódio e pelo top dez em jogo, antes do dia de folga para preparar a última semana do Tour. »»Aliança eslovena? Nem pensar!«« »»Hirschi finalmente ganhou e ao estilo de Cancellara««
Eis uma etapa em que não foi fácil uma previsão resistir. Julian Alaphilippe e Pierre Rolland ainda cumpriram com a expectativa de tentar ganhar, mas a 12ª etapa teve muito pouco de expectável. O que é óptimo para o espectáculo. A luta pela camisola verde superiorizou-se à da amarela, o que acabou por ajudar a que o dia fosse diferente do esperado. E teve um final mais do que merecido para Marc Hirschi. À terceira foi de vez.
Fuga, controlo do pelotão com Jumbo-Visma na frente, talvez uma perspectiva de tentar a junção na última subida para perseguir segundos de bónus. Nada disso. O dia não se fez nada em redor da camisola amarela, mas sim da verde. A Bora-Hansgrohe demonstrou que não atira a toalha ao chão, depois da penalização do dia anterior de Peter Sagan, que o deixou a 68 pontos de Sam Bennett (Deceuninck-QuickStep). Com o sprint intermédio muito cedo na etapa, a equipa tentou arriscar levar o eslovaco à vitória final, mesmo sabendo que teria muita subida pela frente, incluindo uma segunda categoria que acabava a cerca de 26 quilómetros da meta.
A táctica resultou na perspectiva de deixar Bennett para trás, mas este não é o Sagan de outros anos. A última subida foi de mais para o ciclista, que não pôde tentar intrometer-se nos muitos ataques que surgiram. No final, o esforço e intenso trabalho da Bora-Hansgrohe só rendeu um ganho de dois pontos. Mas não foi só porque Sagan não apresenta a forma de outrora, também porque o final de etapa foi atacado por todos os que queriam ganhar. Com a Jumbo-Visma pouco preocupada com os ataques nas últimas duas subidas, pois não fugiu ninguém que ameaçasse a liderança de Primoz Roglic, foi o foge quem puder! Sagan chegou com o pelotão, ganhou o sprint... para o 13º lugar. A Bora-Hansgroge trabalhou para ser o dia de Sagan, contudo, foi o dia de quem já muito merecia: Marc Hirschi.
A Bora-Hansgrohe escreveu grande parte da história da etapa, até que quando começaram os ataques a uma equipa que só poderia controlar até ao ponto da força de Sagan. E como esta não foi muita, a vitória na etapa estava ali à espera de quem quisesse arriscar. Eis que entra em cena a Sunweb. Sem líder para a geral e a tentar reconstruir uma equipa na era pós-Tom Dumoulin, a Sunweb tem um grupo de ciclistas para caçar etapas e Cees Bol para o sprint. Michael Matthews ficou de fora das escolhas com alguma surpresa. Do grupo eleito para o Tour, já Marc Hirschi se tinha destacado em dois dias anteriores.
Um segundo e um terceiro lugar, este numa nona etapa que bem mereceu ganhar, mas Tadej Pogacar estragou a festa. Porém, este suíço tem algo que faz lembrar Fabian Cancellara. Baixar os braços? Nunca! Se não se ganha num dia, então faz-se outra tentativa. E porque não? Afinal, nada tem a perder para quem está a estrear-se no Tour e numa grande volta. Que grandes exibições está a realizar este campeão mundial de sub-23 em 2018 e começa a ser candidato ao prémio da combatividade da corrida.
Finalmente chegou o seu momento. Mais uma vez foram vários os quilómetros a solo, mas desta vez ninguém o apanhou. E tudo começou com dois companheiros que foram para a fuga, ajudando mais tarde Hirschi, quando este se juntou ao grupo. O resto foi pura qualidade de um ciclista promissor.
Sim, parecia um Cancellara que, nos seu tempos áureos, quando arrancava era tão difícil de ser apanhado. Alcançou vitórias memoráveis assim. Não, não se está a dizer que Hirschi é o novo Cancellara. Hirschi conseguiu no maior palco de ciclismo a sua primeira vitória como profissional, mas tem ainda um caminho a percorrer até se consolidar ao mais alto nível. Apresenta características que tanto o podem fazer sobressair em clássicas (a etapa de hoje até pareceu uma em certos momentos), mas também em provas por etapas de uma semana. Tem apenas 22 anos e ainda procura onde melhor se encaixará. Para já, é tempo de celebrar, com este brilhante triunfo na Volta a França.
A relação com Cancellara é muito mais do que um arranque (e o que foi um contra-relógio até à meta) ao estilo do grande ciclista que foi este suíço, o último que havia vencido no Tour, em 2012. Cancellara é ainda o empresário de Hirschi. Se lhe dá conselhos, então Hirschi não poderia ter um melhor mentor.
Tudo (um pouco mais) calmo lá atrás
Enquanto na frente Hirschi pedalava para uma merecida vitória e enquanto entre ele e o pelotão um grupo de ciclistas não se entendeu devidamente na perseguição, lá atrás a Jumbo-Visma, Ineos Grenadiers, Bahrain-McLaren e restantes candidatos mantiveram-se o mais calmos possível.
A etapa entre Chauvigny e Sarran Corrèze foi a mais longa da Volta a França (218 quilómetros). A Bora-Hansgrohe poupou quilómetros e quilómetros de trabalho à Jumbo-Visma e o dia não foi de loucos como na terça-feira, por exemplo. O ideal, portanto, para preparar o que aí vem. A etapa de média montanha não mereceu a atenção dos favoritos, mas esta sexta-feira a história vai ser bem diferente. Classificações completas, via ProCyclingStats.
13ª etapa: Châtel-Guyon - Puy Mary Cantal, 191,5 quilómetros
4400 metros de acumulado! Não se vai subir tanto neste Tour como nesta sexta-feira. Já se percebe melhor por que razão os candidatos à geral não se importaram nada de deixar a luta para outros na 12ª etapa. Haverá final em alto numa zona que Romain Bardet (AG2R) muito gosta, ele que está a ter uma prestação muito acima do esperado neste Tour. A Volta a França entre na fase crítica. As próximas seis etapas são de alta ou de média montanha. E ainda haverá a penúltima tirada, o contra-relógio que acaba na La Planche de Belles Filles. A partir de agora a margem de erro é mínima e é também altura para começar a abrir mais as hostilidades por parte de quem quiser fazer frente a Primoz Roglic e Jumbo-Visma. Fortes, é certo, mas também já mostraram não ser infalíveis.
A ASO, organizadora da Volta a França, repete em 2020 a fórmula de segundos de bónus em algumas etapas, depois da experiência no ano passado. Na prática a intenção é fazer com que haja maior movimentação na tentativa de procurar ganhar tempo, além das habituais bonificações em todas as metas, para os três primeiros. Este domingo estiveram os primeiros em jogo, mas será que os que lutam pelo Tour estão assim tão preocupados com estes segundos?
Em jogo estão oito, cinco e dois segundos, que vão estar disponíveis em mais sete etapas, depois da de hoje. Primoz Roglic (Jumbo-Visma) é um ciclista que gosta de lutar por qualquer segundo que possa estar disponível. A prova é, mesmo quando já não pode ganhar uma etapa, tenta sempre um segundo ou terceiro posto nas provas. E aquelas bonificações têm sido importantes.
Porém, é diferente desgastar-se um pouco na meta e ir à procura de bónus durante a etapa, mesmo que estejam colocados mais perto do final como é o caso neste Tour. Os ciclistas que começam por tentar aproveitar mais estas oportunidades, são atletas como Julian Alaphilippe. O corredor da Deceuninck-QuickStep não é um candidato a vencer a geral, mas para repetir a exibição de 2019, em que esteve 14 dias de camisola amarela vestida, somar estes segundos pode ser uma garantia que vai adiando a entrega da liderança àqueles que a procuram como objectivo máximo.
Alaphilippe tinha esta segunda etapa marcada para tentar ganhar e vestir a amarela. Atacou na última subida, que nem era categorizada, mas tinha os tais segundos de bónus. Por acaso até foi apenas segundo, com Adam Yates (Mitchelton-Scott) a sprinter para ficar com os oito e o francês com os cinco. Em comum, estes ciclistas têm quererem ganhar etapas e estar de amarelo, mas sem pensar em chegar na condição de líder aos Campos Elísios.
Marc Hirschi (Sunweb) ficou com os dois segundos que restaram, com o pelotão, na altura comandado pela Ineos Grenadiers, a não se preocupar minimamente em colocar os seus líderes na luta pelos bónus. Para Egan Bernal, Roglic, Thibaut Pinot, as diferenças vão fazer-se nas grandes etapas de montanha.
Talvez mais adiante na corrida estes segundos de bónus possam tornar-se mais valiosos para os chamados favoritos, principalmente se ninguém estiver a conseguir fazer grande diferença. Se for o caso, então a Jumbo-Visma, que quer de facto ser a patroa do Tour, pode tentar explorar o lado rápido de Roglic em sprints em pequenos grupos. E, lá está, o esloveno adora ir atrás de qualquer segundo que possa ajudar. Mas a preferência irá sempre para uma vitória de etapa. Pelo prestígio, claro, e porque são 10 segundos para o vencedor, seis para o segundo classificado e quatro para o terceiro.
A ideia de tentar que haja mais luta e logo mais espectáculo com a colocação destes bónus não resultou no imediato, mas Alaphilippe agradece, pois conquistou 15 segundos de bonificação e mais dois na estrada para o pelotão. Yates está a quatro e Hirschi - o novo líder da juventude, tirando a camisola branca a Mads Pedersen (Trek-Segafredo) - a sete.
O francês ainda não tinha vencido em 2020, apesar de ter estado perto na Milano-Sanremo (foi segundo, atrás de Wout van Aert) e nos Campeonatos Nacionais, há uma semana. Julian Alaphilippe viveu momentos difíceis com a morte do pai, a quem de imediato dedicou a vitória em Nice. Chorou de emoção, ao mesmo tempo que não escondeu algum alívio. Já se instalava algum nervosismo no ciclista pela falta de vitórias, depois de um 2019 memorável.
Apesar da Deceuninck-QuickStep não ser uma equipa para a montanha, já se percebeu que Alaphilippe é um lutador, que na edição passada até fez os franceses sonharem. Acabou em quinto, mas ainda assim, muito melhor do que se esperaria. Agora já não surpreenderá que faça algo idêntico. Contudo, apesar da exibição de hoje, este não é o Alaphilippe de 2019.
Mesmo na forma como atacou, sem conseguir que Hirschi e Yates ficassem para trás, é notório que falta algo ao francês. Porém, pode compensar com aquela bem conhecida garra. Alaphilippe pode muito bem manter a camisola amarela por vários dias, com a oitava etapa a ser o pior dos testes, quando surgir a primeira categoria especial, no Port de Balès.
O senão é que Alaphilippe vai ter adversários que também querem vestir a amarela, nem que seja por um só dia. Dentro da margem dos 17 segundos estão, por exemplo, Sergio Higuita (EF Pro Cycling), Esteban Chaves (Mitchelton-Scott), Greg van Avermaet (CCC) e Pierre Latour (AG2R). E exclui-se aqueles que tem objectivos mais altos, ainda que não é de afastar que Tadej Pogacar (UAE Team Emirates) vá tentar fazer um pouco de história para a Eslovénia (Roglic tem concorrência nesta luta nacional).
Sempre que houver mais montanha, qualquer um destes ciclistas (e não só) podem fazer o mesmo que Alaphilippe. Procurar uns segundos bónus para ter aquele momento de amarelo. Classificação completa, via ProCyclingStats. Etapas com segundos bónus
2ª - Col des Quatre Chemins
6ª - Col de la Lusette
8ª - Col de Peyresourde
9ª - Col de Marie Blanque
12ª - Suc au May
13ª - Col de Neronne
16ª - Montée de Saint-Nizier-du-Moucherotte
18ª - Montée du plateau des Glières
3ª etapa: Nice-Sisteron, 198 quilómetros
Mesmo com quatro subidas categorizadas, é um dia que os sprinters não vão querer desperdiçar. Vai ser preciso as suas equipas trabalharem, pois também deverá haver quem vai apostar forte na fuga. »»Lembram-se deste Kristoff«« »»Muito mais do que um Tour««
Muito se espera de subidas, dos ataques durante estas dificuldades, de quem quebra, de quem se destaca. Mas até é bastante normal ver as descidas serem tão decisivas quanto as subidas (que o diga Chris Froome no último Giro). Em Innsbruck muito se fala da dificuldade dos percursos, mas houve um suíço que esperou pela descida final para desferir o ataque que decidiu a corrida. Marc Hirschi é mais um ciclista a juntar o título mundial ao europeu, tal como fez Remco Evenepoel em juniores. O suíço pode não ter realizado uma exibição tão marcante como o belga (tão cedo não se assistirá a algo igual), mas Hirschi fez uma excelente corrida, tal como toda a sua selecção. A Suíça foi tacticamente perfeita e saiu de Innsbruck com um título mundial de sub-23, que nunca havia conquistado.
Depois de um ano a evoluir na equipa de formação da Sunweb, Marc Hirschi (20 anos) já sabe que tem lugar garantido na estrutura principal em 2019. Conquistar o título europeu e mundial é uma boa forma de se apresentar ao colegas. Quando as principais movimentações começaram, já dentro do circuito final, a Suíça colocou quatro dos seus seis ciclistas na frente da corrida. Esta aposta condicionou todas as outras selecções. Rússia e Bélgica foram das que mais trabalharam, com a Itália a ajudar, mas por pouco tempo. Tal como na corrida de juniores, os italianos preferiram atacar sozinhos do que unirem-se em torno de um objectivo comum. O trabalho da Bélgica permitiu que Bjorg Lambrecht (ciclista da Lotto Soudal e mais um apelidado de novo Merckx) conseguisse ir para a frente, ficando com Hirschi e um surpreendente finlandês. Jaakko Hänninen escolheu o palco perfeito para sair do anonimato.
Lambrecht atacou, contra-atacou, refilou com os companheiros de ocasião por considerar que não ajudavam o suficiente, mas nunca conseguiu deixá-los para trás. Hirschi foi frio. Pouco ajudou na fuga, passando apenas por meros segundos na frente. São atitudes por vezes pouco apreciadas, mas o suíço optou por se poupar e, com a lição bem estudada, foi na descida final, algo técnica, que acelerou e nunca mais ninguém o apanhou. Ganhou com 15 segundos de vantagem sobre Lambrecht que, com muita dificuldade, bateu ao sprint a surpresa vinda da Finlândia.
As desilusões
A grande desilusão chama-se Colômbia, principalmente Ivan Sosa. O ciclista da Androni Giocattoli-Sidermec foi uma das revelações da temporada e aos 20 anos já assinou contrato com a Trek-Segafredo. O percurso montanhoso de 174,3 quilómetros parecia assentar tão bem a Sosa, mas nem terminou a corrida.
Depois há Portugal. Simplesmente, não correu bem. "Foi uma prestação que ficou aquém das expectativas e muito longe do valor que estes corredores já demonstraram no passado. A verdade é que, no momento decisivo da corrida, não fomos capazes de nos mantermos junto dos melhores", afirmou o seleccionador José Poeira, citado pela Federação Portuguesa de Ciclismo.
O melhor foi o estreante Gonçalo Carvalho. E que boa corrida fez o ciclista do Miranda-Mortágua. Esteve muito bem na protecção a João Almeida, sempre perto do ciclista que aspirava a um bom resultado em Innsbruck. André Carvalho também se mostrou, só com Tiago Antunes a sentir-se "vazio" logo no início do circuito final, tendo abandonado. No entanto, a colocação no pelotão foi um elemento chave. Na penúltima subida a Patscherkofels, quando se deu a movimentação mais importante, o trio descolou.
Este sábado, as senhoras vão disputar o título mundial nos 156,2 quilómetros entre Kufstein-Innsbruck. A holandesa Chantal Blaak vai tentar defender a camisola do arco-íris que conquistou há um ano e assim imitar a compatriota Annemiek van Vleuten, que se sagrou bicampeã de contra-relógio. Não haverá ciclistas portuguesas na prova.