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16 de abril de 2019

Sobreviver ao Paris-Roubaix incólume não é fácil. Que o diga Benoot, Keisse, Vanmarcke, Kristoff...

(Fotografia: © Gruber Images/Paris-Roubaix)
No rescaldo do Paris-Roubaix, entre quedas, choques, furos e falhas mecânicas, a corrida ficou estragada para vários ciclistas por incidentes que acontecem em qualquer prova de ciclismo, é certo, mas nesta, é quase mais provável que aconteça alguma coisa, do que um corredor sair completamente incólume dos mais de 250 quilómetros deste Inferno do Norte. Não é à toa que é assim conhecido este monumento. Que o diga Tiesj Benoot. No seu caso, foi algo mais inesperado que aconteceu, terminando não só com a sua corrida, mas com a época de clássicas. O acidentado Wout van Aert (saída de estrada, troca de bicicleta, queda e depois ficar sem forças para seguir com o grupo da frente) foi acompanhado quase todo o tempo na transmissão televisiva, mas houve pormenores com outros ciclistas - falta de energia e de atenção incluídos - que só mais tarde se percebeu o que aconteceu.

Tiesj Benoot (Lotto Soudal) foi visto a tentar recuperar terreno, numa altura em que a câmara acompanhava um Wout van Aert (Jumbo-Visma) a mostrar toda a sua mestria na bicicleta, a passar entre carros para tentar retomar o grupo da frente, depois de ter descolado após uma saída de "estrada" (leia-se pavé) na Trouée d'Arenberg (Floresta de Arenberg). Pensou-se que Benoot até poderia ser um bom aliado para o compatriota apesar de serem de equipa rivais. Porém, Benoot desapareceu das imagens. Mais tarde viu-se que um carro da Jumbo-Visma tinha o vidro traseiro completamente quebrado (imagem em baixo). Foi Benoot que chocou com muita violência contra o veículo.

(Imagem: print screen)
"Numa certa altura, o carro da Jumbo-Visma que estava à minha frente, de repente, fechou tudo [espaço]. Não consegui responder e fui direito a ele. O vidro partiu-se completamente. Um motociclista que vinha atrás de mim, tentou desviar-se de mim e acabou por cair por cima de mim. Quando estava no chão, estava com muitas dores em todo o lado", explicou Benoot ao Het Nieuwsblad.

Resultado: clavícula partida e falhará a Amstel Gold Race, que deveria ser a sua última clássica antes de uma paragem para recuperar forças e pensar na segunda metade da temporada, que terá a Volta a França como ponto alto.

Quem também não ficou nada bem tratado foi Iljo Keisse. O belga da Deceuninck-QuickStep foi contra um poste de sinalização numa ilha de tráfego. Keisse explicou que não viu aquela divisão, pois estava tapado pelo ciclista que ia à sua frente e que se desviou no último instante. Keisse já não conseguiu fazer o mesmo. As dores eram muitas e com razão. Keisse fracturou o cotovelo e teve de ser operado. Nos próximos dez dias terá um gesso no braço.

Entre os problemas mecânicos e furos, Alexander Kristoff (UAE Team Emirates) é capaz de ter ganho o prémio do mais azarado. Com três furos é impossível fazer algo de bom no Paris-Roubaix e ficou novamente bem claro como a escolha errada de equipamento pode fazer toda a diferença. Com os 29 sectores de pavé, alguns extremamente agressivos, todos os pormenores contam e Kristoff admitiu que escolheu mal as rodas e os pneus: tubeless (sem câmara de ar).

"Eu sabia que era um risco, mas estas rodas eram mesmo boas. Tive sucesso com elas nas últimas semanas [ganhou a Gent-Wevelgem e foi terceiro na Volta a Flandres] e sentia-me bem hoje [domingo] até furar. Não vou tentar de novo no próximo ano [com este equipamento]", disse Kristoff ao Cycling News, referindo-se à escolha de rodas que levam pneus tubeless. Ao fim de três furos, regressou ao sistema normal e terminou a corrida, mas a mais de 14 minutos do vencedor Philippe Gilbert.

Talvez ainda mais desiludido tenha ficado Sep Vanmarcke. O ciclista da EF Education First nem surgia como grande favorito dada a lesão no joelho que o afectou nas semanas anteriores, após uma queda. Porém, o belga apareceu em grande forma, mas com este ciclista não há nada a fazer, acontece sempre alguma coisa que o afasta de potenciais vitórias.

Quando Nils Politt (Katusha-Alpecin) atacou, levando com ele Philippe Gilbert (Deceuninck-QuickStep), Vanmarcke desesperava apontando para a sua bicicleta. No momento crucial da corrida não conseguiu mexer as mudanças, ficando preso numa que o obrigou a um enorme esforço. "Nunca me teriam deixado para trás", garantiu o ciclista, que afirmou que se estava a sentir muito bem fisicamente. A passar um dos sectores de pavé mais importantes, o Carrefour de l'Arbre, Vanmarcke ou parava ou tentava continuar até que finalmente pudesse contar com o apoio do carro da equipa que estava mais atrás.

O apoio no Paris-Roubaix é um autêntico inferno e Vanmarcke admitiu que o tempo em que teve de pedalar naquelas condições acabou por esgotar as suas forças. "Teria sido melhor ter ficado em casa no sofá. Assim não estaria tão desiludido como estou agora", afirmou, depois de cortar a meta no quarto lugar.

Para terminar temos Peter Sagan (Bora-Hansgrohe) e vencedor do Paris-Roubaix em 2018 e Greg van Avermaet (CCC), vencedor em 2017. O primeiro repetiu a história da Volta a Flandres e Milano-Sanremo. Está tudo a correr relativamente bem, até parecia estar no seu melhor esta época, mas quando se deu o ataque final: "Faltou-me alguma energia no final."

Se ao eslovaco faltou energia a Avermaet faltou atenção. O belga ficou fora da discussão no ataque feito a cerca de 50 quilómetros da meta e que permitiu formar o grupo de seis ciclistas que seguiu até perto do fim. "Não estava bem acordado quando aqueles seis homens escaparam e a minha corrida ficou praticamente terminada", admitiu Cycling News, acrescentando que não estava bem colocado, estando demasiado atrás no grupo, o que lhe tirou qualquer possibilidade de acompanhar os ciclistas que ficaram na frente.

Para o ano, há mais. Mas  aqui ficam estas imagens espectaculares da perspectiva de quem vai nesta fantástica corrida e que ajudam a perceber como é difícil fazer um Paris-Roubaix sem sofrer qualquer contratempo.


14 de abril de 2019

Gilbert a um monumento de um dos grupos mais exclusivos do ciclismo

(Fotografia: Facebook Paris-Roubaix)
"Os vencedores do Paris-Roubaix são, por vezes, bastante velhos!" A frase de Philippe Gilbert ganhou um novo destaque. Foi o que disse antes de uma corrida que sempre alertou que poderia ganhar e até parece inacreditável que, aos 36 anos, só a tenha feito por três vezes (2007, 2018 e 2019)! Mas quando se tem a classe de Gilbert, quando se é um ciclista do melhor quando se fala em clássicas, não são precisas muitas oportunidades para alcançar o seu objectivo. E a idade pode mesmo ser só um número. Ali, no mítico velódromo de Roubaix, apresentou-se finalmente a oportunidade por que tanto sonhou. Só Nils Politt (12 anos mais novo) lhe podia estragar o momento. Mas é Gilbert. Pode não ter a experiência no Paris-Roubaix, mas tem toda a experiência de uma carreira que está a apenas um monumento de o colocar num dos grupos mais exclusivos do ciclismo.

Só falta a Milano-Sanremo para o belga completar o ciclo de cinco monumentos. Durante a sua carreira, tão depressa se falava que Gilbert tinha tudo para igualar o feito de Eddy Merckx, Roger De Vlaeminck e Rik Van Looy, como rapidamente o belga entrava numa fase mais discreta e longe das vitórias. E tanto se falou deste feito depois daquela simplesmente brilhante vitória na Volta a Flandres em 2017, naquele que foi o ano do renascimento de Gilbert, coincidindo com a saída da BMC para a sua actual equipa, Deceuninck-QuickStep. O entusiasmo parecia, entretanto estar a esmorecer. Agora, depois de conquistar o famoso troféu de pedregulho de Roubaix, o assunto ficará novamente na ordem do dia. Só falta mesmo a Milano-Sanremo! Neste monumento italiano já fez terceiro em 2008 e 2011.

Feitas as contas, Gilbert tem agora duas Lombardias (2009 e 2010), uma Liège-Bastogne-Liège (em 2011, ano em que fez a tripla na Ardenas), uma Volta a Flandres (2017) e um Paris-Roubaix. É certo que já não restam muito tempo a Gilbert para fechar o ciclo dos monumentos, mas, mais do que nunca, está certamente definido o objectivo para as épocas que continuar a competir: tudo pela Milano-Sanremo.

Fala-se aqui apenas de monumentos, pois a história que o belga fez este domingo, foi numa dessas históricas corridas. Contudo, não se poderá esquecer que é um ciclista com triunfos em mais clássicas, grandes voltas e estamos perante um campeão do mundo (2012).

Na sua passagem pela BMC, uma das grandes frustrações de Gilbert foi ver a porta de Roubaix completamente fechada. A equipa dava o pavé a Greg van Avermaet. Gilbert sempre disse que poderia ganhar no Inferno do Norte. Aqui está Gilbert no topo, enquanto o seu compatriota, esse sim, ameaça estar mesmo a eclipsar-se aos 33 anos. Desde que venceu Roubaix em 2017 que não mais conquistou uma clássica e este domingo foi um dos principais derrotados. Entre um mau posicionamento no grupo, uma equipa incapaz de ser decisiva e um próprio Avermaet demasiado egoísta, a querer resolver sozinho o que talvez tivesse tido solução com alianças, deitou por terra as aspirações.

Por outro lado, Gilbert foi perfeito tacticamente. Claro que ajuda estar numa das melhores equipas de clássicas. Porém, quando foi preciso ser ele a resolver, a atacar ou responder a ataques, fê-lo na perfeição, tal como soube trabalhar com os rivais, mesmo tendo no grupo de seis o companheiro Yves Lampaert. Nunca se escondeu.

Além dos dois ciclistas da Deceuninck-QuickStep e Politt (Katusha-Alpecin), estava Peter Sagan (Bora-Hansgrohe), Wout van Aert (Jumbo-Visma) - que exibição monstruosa deste ciclista - e Sep Vanmarcke (EF Education First). Foi Politt quem começou por mexer e ajudou à formação deste grupo com mais de 50 quilómetros para a meta, com Sagan a dar a "sacudidela" decisiva num grupo que ainda tinha vários dos candidatos. Foi Politt que mexeu a 14 quilómetros e Gilbert respondeu. Trabalharam para não mais serem apanhados. Depois, a experiência de Gilbert e um melhor fôlego final fizeram a diferença no velódromo. Lampaert fechou o pódio.

Na Bélgica havia uma sensação de desilusão por nenhum dos seus ciclistas ter ganho as clássicas que por ali se realizaram, Gilbert compensou indo a França fazer mais um pouco de história. Só falta a Milano-Sanremo. Quantas vezes vai esta frase passar pela mente de Gilbert?

Classificação completa neste link, via ProCyclingStats.

Van Aert e a mentalidade do tudo é possível

Num Paris-Roubaix percorrido a grande velocidade, 43 quilómetros/hora de média, a expressão "corrida por eliminação" dificilmente descreve melhor uma clássica como este monumento. Continuamos numa fase de Roubaix seco, ou seja, a espera continua por uma edição com chuva. Mas houve espectáculo. Poucas quedas comparativamente com edições recentes, mas incidentes suficientes para deixar fora muitos pretendentes. Que o diga Alexander Kristoff. Não há boa forma que resista a três furos! A UAE Team Emirates ficou Fernando Gaviria ainda antes de partir devido a uma febre e o norueguês foi um dos  mais azarados do dia.

Mas houve um homem que quis lutar contra todos os azares e se tivesse vencido teria também ele tido direito a uma história épica em Roubaix. É difícil não imaginar Wout van Aert como um futuro vencedor deste monumento. Perder tempo em Trouée d'Arenberg (Floresta de Arenberg), um dos sectores de pavé mais famoso, devido a uma saída de "estrada", mas conseguir recuperar, mudar de bicicleta e sofrer quase de imediato uma aparatosa queda no asfalto, mas recuperar mais de um minuto de vantagem, ter força e discernimento para entrar no sexteto que ficou na frente nos últimos 50 quilómetros... Quanto ciclistas serão capazes de tal.

E tudo sozinho, sem ajuda dos colegas da Jumbo-Visma. Pelo meio evitou chocar em carros, cair na berma, evitou todo o tipo de obstáculos, como se de uma corrida de ciclocrosse se tratasse. Não se lhe poderia pedir mais. O belga quis tanto finalizar em grande uma corrida monstruosa, mas acabou por ficar para trás num ataque dos companheiros de fuga. A estatística dirá que foi 22º, pois ao perder contacto com a frente, abrandou o ritmo. As forças finalmente faltaram-lhe, mas será uma exibição que tão cedo não será esquecida.

Van Aert merece ser destacado ao lado de um Nils Politt que se vai confirmando. Aos 25 anos, o alemão realizou uma tremenda época de clássicas do pavé. Foi quinto na Volta a Flandres, por exemplo. A Katusha-Alpecin ficou perto da grande vitória que tanto precisa. Politt pode não ser a estrela da equipa, mas confirmou expectativas. As clássicas terão ganho mais um excelente ciclista para discutir vitórias.

Em baixo, o vídeo do último quilómetro dos 257 (29 sectores de pavé) da 117ª edição do Paris-Roubaix.


»»Uma vitória num monumento que vale muito mais do que o nome na história««

»»Van der Poel é já um grande ausente do Paris-Roubaix e até dos seus calções se fala««

13 de abril de 2019

Pára tudo! É dia de Paris-Roubaix

(Fotografia: © ASO/Pauline Ballet)
É um dos dias mais especiais do ano no ciclismo. Para quem gosta de clássicas até poderá ser o mais especial. Uma experiência única para quem assiste in loco, certamente. Para os que têm de assistir via televisão, este domingo até se pode dizer que é quase como um dia santo, principalmente deste que o Eurosport passou a transmitir o monumento na íntegra (a transmissão começa às 10:00). São cerca de seis horas de ciclismo que raramente desiludem. E há que admitir que o entusiasmo é grande para a 117ª edição. Mais do que outros anos? Sim. Afinal temos um lote alargado de favoritos, sem que nenhum se apresente como mais favorito do que outros. Não tem sido normal em épocas recentes nesta corrida. A previsão é seja uma corrida aberta, mas a verdade é que o Paris-Roubaix nunca foi previsível. Tenha ou não candidatos mais fortes que outros.

Tal como aconteceu na antecipação da Volta a Flandres, é novamente estranho não ter Peter Sagan (Bora-Hansgrohe) a liderar uma lista de favoritos. O eslovaco mal se parece com o ciclista que há um ano conseguiu finalmente conquistar Roubaix. Mas é Sagan. Greg van Avermaet (CCC) tem tido uma época de clássicas frustrante (conquistou o monumento em 2017). Diz que não terá arrependimentos se não conseguir ganhar, mas talvez se deva arrepender de ter jogado tão à defesa na Flandres e de ainda ter dito que não iria arrastar nenhum adversário consigo na perseguição a Alberto Bettiol (EF Education First).

Se se repetir a mesma forma de agir de Avermaet e não só - não estava sozinho naquele grupo - então um ataque à Bettiol (que não estará presente) pode resolver o Paris-Roubaix. E quantas vezes já se viu o monumento ser assim decidido? Peter Sagan (ainda que tenha tido a companhia de Silvan Dillier, da AG2R) atacou a mais de 50 quilómetros. Niki Terpstra, Tom Boonen, Fabian Cancellara são nomes que ficaram para a história com ataques que marcaram Roubaix.

Talvez por isso Wout van Aert (Jumbo-Visma) tenha toda a razão ao dizer: "Atreve-te a atacar!" É assim que se pode ganhar o Paris-Roubaix. O belga é mais um candidato, assim como Zdenek Stybar, Yves Lampaert e porque não Philippe Gilbert, a quem falta este monumento e a Milano-Sanremo na sua "colecção". Claro que na Deceuninck-QuickStep qualquer um dos sete pode lutar por uma vitória e Kasper Asgreen vem de um segundo lugar na Flandres. John Degenkolb (Trek-Segrafedo) demonstra um discurso confiante de quem pode vencer novamente em Roubaix, mas não tem convencido nas exibições. Sep Vanmarcke (EF Education First) seria uma surpresa se ganhasse este ano, mas que merece, merece pelo que já fez na carreira. Contudo, a lesão no joelho estragou-lhe a fase das clássicas. Mas tentará estar na luta.

Atenção a Edvald Boasson Hagen (Dimension Data), deixou boas indicações recentemente. Ainda mais atenção a Nils Politt. O alemão tem estado tão bem nas clássicas e a Katusha-Alpecin precisa desesperadamente de uma grande vitória. Oliver Naesen (AG2R) acredita que 2019 pode ser o seu ano.

Niki Terpstra (Direct Energie) está de fora após a queda na Flandres. Seria um animador, tal como Mathieu van der Poel (Corendon-Circus). A organização deverá estar arrependida por não ter atribuído o convite a esta equipa Profissional Continental... 

Falta salientar pelo menos mais um nome (a lista poderia continuar). No início da época era impensável estar a horas do arranque do Paris-Roubaix e dizer que Alexander Kristoff é não só um candidato, mas talvez aquele que se possa dizer que se destaca um pouco. Quando se preparava para ter de ser um lançador de Fernando Gaviria na UAE Team Emirates - o que já aconteceu -, o norueguês foi à luta para se impor num terreno em que o colombiano continua a não mostrar-se muito à vontade. Excelente época de clássicas, com vitória na Gent-Wevelgem e pódio na Flandres. Se vencer, Kristoff, o ciclista que a Katusha-Alpecin trocou por Marcel Kittel e que correu o risco de ficar em segundo plano na UAE Team Emirates para Gaviria, ficará com um terceiro monumento na carreira, depois de vencer a Volta a Flandres em 2015 e a Milano-Sanremo no ano antes. Kristoff pode nem sempre estar no seu melhor, mas não é um ciclista de segunda linha.

Quanto a portugueses... Nem um. Nelson Oliveira (Movistar) tem sido quem mais se tem visto por Roubaix, mas tem sido uma corrida cujas quedas lhe estragaram duas temporadas consecutivas. Desta feita preferiu ficar de fora. Pode ver neste link a lista de inscritos, via ProCyclingStats.

257 quilómetros, 29 sectores de pavé, que começarão a contar após quase 100 quilómetros percorridos. Pára tudo! Este domingo é dia de Paris-Roubaix! O Inferno do Norte.


12 de abril de 2019

Van der Poel é já um grande ausente do Paris-Roubaix e até dos seus calções se fala

(Fotografia: © Photo News/Corendon-Circus)
Aproxima-se o Paris-Roubaix (domingo) e um dos ciclistas mais falados é o que não estará presente. Com apenas 24 anos, no seu primeiro ano numa equipa Profissional Continental (ainda nem está no World Tour, mas mais cedo ou mais tarde lá chegará), o impacto que está a ter é tal, que é já considerado uma das principais ausências do monumento francês. E ainda nem o fez uma única fez em elite. A culpa não é sua. A equipa não recebeu convite para o Inferno do Norte, situação que, perante os resultados de Mathieu van der Poel, deixa muitos, a começar pelo se avô, desiludidos pela sua ausência. Muitos, menos o ciclista. Na sua perspectiva, assim tem algo por que ambicionar para 2020.

A fama do holandês já é tal, que consegue ser notícia por quase tudo. Até pelos calções brancos! Sim, a sua opção de cor de equipamento gerou muita conversa. Primeiro porque aquela cor nos calções é uma que está como que "proibida", oficiosamente, claro. Basicamente considera-se que mostra de mais. Fica à consideração de cada um! Porém, a escolha não foi estética, foi táctica.

Na Através da Flandres, que Van der Poel ganhou, o ciclista usou os calções pretos com a camisola de campeão nacional e é este o ponto fulcral. "Eles [directores da equipa] viram que nas imagens [transmitidas] do helicóptero era difícil distinguir o Mathieu do campeão luxemburguês, Bob Jungels", explicou o pai do ciclista, Adrie van der Poel, um vencedor da Volta a Flandres, ao De Telegraaf.

O pai assumiu que ficou surpreendido com a decisão até ter percebido a razão. Aliás, da discussão que a escolha dos calções brancos gerou, parece que só Jetse Bol, holandês da Burgos-BH chegou mais rapidamente à conclusão, levantando de imediato a questão se seria para diferenciar dois ciclistas com duas camisolas de campeão nacional idênticas. Ambas as bandeiras são vermelhas, brancas e azuis, com riscas horizontais, mudando um pouco os tons do vermelho e azul. Ao longe, com os ciclistas a grande velocidade, não era fácil perceber logo quem era quem.

Com os calções brancos, os directores conseguiram facilmente identificar o seu ciclista e dar-lhe instruções tácticas de como proceder no pelotão. "Os calções brancos foram uma opção brilhante", acabou por admitir o pai de Van der Poel. O ciclista alcançou um excelente quarto lugar no monumento, na sua estreia, com uma queda pelo meio.

Do pai para o avô. Raymond Poulidor, uma das lendas do ciclismo francês, dá voz à desilusão de não poder ver Van der Poel nos pavés do Inferno do Norte. Primeiro começou por dizer ao Het Nieuwsblad que se não fosse a queda na Volta a Flandres, o neto poderia ter alcançado uma vitória. Perante os resultados deste ano tanto na estrada - quatro vitórias, a última na primeira etapa do Circuito de Sarthe, em França -, como no ciclocrosse - basicamente ganhou tudo o que havia para ganhar na recente época -, Van der Poel iria ser uma das figuras do Paris-Roubaix, disso Poulidor não tem dúvidas.

"É uma grande pena que ele não faça o Roubaix. Na sua forma, com as suas excepcionais qualidades, ele poderia mesmo fazer algo", assegurou Poulidor. Mas o jovem Van der Poel não está nada preocupado por não ir ao monumento francês. Aliás, afirmou mesmo estar satisfeito com o calendário que tem para 2019, francamente melhor do que em épocas anteriores, dada a subida da equipa ao segundo escalão mundial. Para o ciclista, o mais importante não é falhar Roubaix, é estar na Amstel Gold Race, que se realiza na semana seguinte.

"Acabar em quarto na Flandres não quer dizer automaticamente que se vá fazer o mesmo em Roubaix. É óptimo partir na Amstel como campeão holandês. Se tivéssemos acrescentado Roubaix [ao calendário], nunca teríamos preparado completamente [a corrida]. Também não queria fazer isso a mim próprio", salientou. "Será algo [o Paris-Roubaix] que eu posso ambicionar para o próximo ano", acrescentou.

E isso parece quase certo, com a organização do Paris-Roubaix, a ASO, a já deixar algumas dicas que a Corendon-Circus receberá o desejado convite em 2020. Mathieu van der Poel tornou-se rapidamente numa estrela na estrada, depois de, a par de Wout van Aert (Jumbo-Visma), ser uma das grandes figuras do ciclocrosse. A equipa não deverá encontrar muitos problemas para começar a receber mais convites, principalmente para as clássicas, mas não só.

»»Corre por instinto, dá espectáculo e já ganha no World Tour. Abram alas: chegou Van der Poel««

»»A ambição de vencer bateu vontade de não perder para um rival««

11 de abril de 2019

As novas cores da agora Total Direct Energie

(Fotografia: Facebook Total Direct Energie)
Antes da Sky apresentar-se com um novo equipamento e nome no próximo mês, é a francesa Direct Energie a autora da primeira grande mudança do ano. A estreia será no Paris-Roubaix, este domingo. O preto e amarelo darão lugar ao azul e branco e à Total Direct Energie, novo nome da formação de Niki Terpstra e Lilian Calmejane.

Estava a ser a quarta temporada do patrocinador, mas a petrolífera Total adquiriu a Direct Energie, pelo que a imprensa francesa já avançava com a possibilidade da empresa colocar também o seu nome no ciclismo. Mas esta entrada da Total irá trazer mais à estrutura do que a mudança de nome, a começar por um provável aumento no orçamento. O primeiro objectivo é a subida a World Tour, tendo pedido a licença para o período de 2020-2022. Agora terá esperar para saber se é uma das eleitas, sendo que, na estrada, está na luta pelos pontos para o melhor ranking possível e assim ter o mérito desportivo do seu lado. Contudo terá ainda de corresponder às regras financeiras, éticas, organizacionais e administrativas.

Mas para já é tempo de mostrar as novas cores e a mudança é radical, respeitando as cores que distinguem a Total. A equipa anunciou através de um vídeo publicado nas redes sociais (ver em baixo). Infelizmente para a formação, não terá no dia de estreia a sua principal estrela das clássicas do pavé, pois Niki Terpstra, o grande reforço de 2019, caiu na Volta a Flandres e sofreu uma concussão cerebral. Por precaução, não irá competir no monumento Paris-Roubaix, que venceu em 2014. O holandês também conquistou a Flandres em 2018.

Esta situação poderá levar Adrien Petit e Anthony Turgis a assumirem um maior protagonismo na nova fase de uma equipa que já teve outros nomes, como Europcar por exemplo, já passou por algumas dificuldades, mas foi sobrevivendo e quer agora voltar a subir de nível, procurando também figuras que ocupem o lugar deixado por Thomas Voeckler.




1 de abril de 2019

O que se passa com Moscon?

(Fotografia: Facebook Gianni Moscon)
Pouco se tem falado de Gianni Moscon, pois pouco se tem visto do italiano. Por um lado não é mau, já que o ciclista da Sky tem nas últimas duas épocas sido protagonista de episódios negativos. Por outro, é impossível negar que é um corredor de qualidade, mas que parece nunca mais chegar a temporada de afirmação. Se era suposto ser 2019, então, para já, não tem prometido muito ou mesmo nada. Moscon não perde a esperança de dar a volta ao seu baixo rendimento já nas próximas três clássicas do pavé, com os olhos postos no Giro, corrida na qual deseja ser líder, mas esse estatuto terá de esperar.

Moscon tem apenas 24 anos, quase 25 (20 de Abril). Porém, é um daqueles ciclistas que parece que já há muito se vê e isso deve-se por ter começado cedo a mostrar-se na Sky, quando chegou em 2016. Rapidamente se percebeu que se estava perante um italiano com potencial para se tornar um ciclista de referência. Muito bom nas clássicas, mas a evoluir nas provas por etapas, o que o leva a assumir um discurso de querer liderar numa grande volta.

Essa é uma questão. Será Moscon um voltista? Numa perspectiva de ganhar, pois para ajudar o líder, em duas corridas foi importante (uma Vuelta e um Tour) deu uma excelente resposta, sendo elogiado por Chris Froome. Essa resposta foi interrompida quando foi expulso do último Tour por agressão a um outro ciclista. Primeiro pediu desculpa, mas mais tarde disse que não tinha feito nada.

Um dos episódios que, sendo tão novo, já são de mais e prejudicam a sua reputação dentro do pelotão. Em 2017, proferiu comentários racistas contra um corredor da FDJ e foi desclassificado dos Mundiais de Bergen, por ter andado "à boleia" do carro da selecção italiana, para recuperar posição na corrida.

Já se percebeu a personalidade deste ciclista, falta perceber se vai confirmar as expectativas. Capaz do melhor como atleta, mas do pior em atitudes como as acima referidas, Moscon em nada tem beneficiado a sua afirmação de estatuto dentro da Sky. Não é por falta de defesa da sua equipa, que sempre tem mantido o apoio ao seu jovem ciclista, sendo até branda nas sanções, como aconteceu no caso dos comentários racistas: seis semanas de suspensão, quando não estava previsto fazer muitas corridas, tendo ainda de frequentar um curso de consciencialização. A sanção só foi dada após o final da Volta a Romandia, não tendo a Sky retirado o ciclista da prova após o sucedido.

No caso da agressão no Tour a um ciclista da Fortuneo-Samsic, Elie Gesbert, o director Dave Brailsford destacou como iria apoiar o italiano que precisava de "aprender, desenvolver e ultrapassar isto". A UCI suspendeu-o por cinco semanas. No regresso, na recta final da temporada, Moscon somou seis vitórias entre clássicas e a Volta a Guangxi, na qual além de uma etapa, venceu a geral e a classificação da juventude.

Estaria finalmente Moscon concentrado em finalmente assumir outra relevância na Sky? A sua ambição era essa, com as clássicas a serem o seu primeiro grande objectivo do ano, apontando aos monumentos, a começar pela Milano-Sanremo. Porém, na Volta aos Emirados Árabes Unidos, a sua estreia competitiva da época, caiu duas vezes e a segunda queda deixou as marcas.

O italiano tentou estar novamente na estrada em pouco tempo, competindo na Strade Bianche, seguindo depois para o Tirreno-Adriatico. Numa entrevista ao Cycling Weekly, Moscon admitiu que não se encontrava bem. Sentiu-se mal e ficou claro que o corpo precisava de um maior tempo de recuperação. Na segunda etapa foi para casa. E a Milano-Sanremo riscada do seu calendário.

Primeira desilusão. Agora é para a Volta a Flandres a que aponta e o Paris-Roubaix. Já esta quarta-feira estará na Através da Flandres. Mas claro, é um monumento que mais quer. Moscon acredita que poderá estar bem. Participou nas três clássicas do pavé na semana passada, mas nem se o viu. Acredita que tem tempo para melhorar e que a Sky pode não ser favorita nestas corridas, mas não é para menosprezar. É a Sky, nunca se menospreza e também não se quer fazer o mesmo com Moscon.

Será uma questão de tempo até aparecer? Os seus resultados dizem que sim, tendo um quinto lugar em Roubaix e um terceiro na Lombardia, em 2017, isto além das vitórias que já somou, incluindo dois títulos nacionais de contra-relógio.

Numa altura que se vai falando de ciclistas com capacidade para ganhar os cinco monumentos, Moscon é claramente um deles. É um corredor todo-o-terreno. "Só" falta atingir todo o seu potencial. Talvez possa vir a ser um voltista e no Giro será o plano B de um Egan Bernal, esse sim, um voltista dos pés à cabeça. Contudo, liderar a equipa numa grande volta, ainda poderá ser algo que terá de esperar um pouco mais. É nas clássicas que tem a porta aberta. Está na altura de começar a aproveitar as oportunidades.


18 de março de 2019

Ponto final no sonho de Tafi

(Fotografia: © Eric Houdas/Collection personnelle/Wikimedia Commons)
Parecia ser impossível, mas Andrea Tafi até chegou a dizer que teria encontrado uma equipa que o recebesse para celebrar a 20º aniversário da sua vitória no Paris-Roubaix competindo novamente no mítico monumento. Nunca se soube que equipa seria essa, apesar de alguns nomes terem sido lançados publicamente, mas desmentidos. Ainda assim, Tafi teria a possibilidade de pedalar um pouco na edição do dia 14 de Abril, mas, afinal, vai mesmo assistir de fora. Uma lesão típica de ciclista acabou com o seu sonho. Enquanto profissional nunca tinha sofrido este problema.

"Talvez não estivesse destinado a correr no Paris-Roubaix por uma última vez. Incrivelmente esta é a minha primeira fractura", admitiu Andrea Tafi ao Cyclingnews. Aos 52 anos, o italiano continua a competir e numa corrida local, na Toscana, Tafi caiu e partiu a clavícula. Ainda com quase um mês até ao monumento francês, o ciclista até tem tempo para recuperar já que não teve de ser operado. Porém, não é por acaso que o Paris-Roubaix é apelidado de Inferno do Norte, pelo que os médicos aconselharam-no a não arriscar. O pavé poderá fazer mais estragos: "Se fosse uma corrida normal de estrada, poderia treinar nos rolos e ainda estar competitivo."

Tafi tenta levantar a cabeça perante a desilusão, admitindo que se sacrificou muito a treinar nos últimos cinco meses. "Estava preparado, mas agora, só posso lamber as feridas e olhar para o futuro. Não me arrependo de nada", disse. Acrescentou que, antes da queda, iria mesmo pedalar um pouco na 117ª edição do Paris-Roubaix. Como sem equipa não poderia competir, Tafi explicou que tanto a UCI, como a ASO, organizadora da corrida, tinham concordado que andasse uns minutos na frente do pelotão antes do arranque da prova.

Afastada que está a possibilidade de, aos 52 anos, competir no monumento que venceu em 1999, Tafi não escondeu que ficou sentido com as muitas críticas que ouviu quando anunciou que ia tentar entrar numa equipa para estar no Paris-Roubaix. Um dos mais duros nas palavras foi o antigo companheiro na Mapei-Quickstep Paolo Bettini: "Ao Andrea digo-lhe: espero que não corras. Precisas de fazer outra coisa na vida aos 52 anos." Até Patrick Lefevere - que conhece bem Tafi que representava a estrutura agora conhecida por Deceuninck-QuickStep -, admitiu não perceber a intenção do antigo ciclista.

A maioria das críticas centrava-se no facto de Tafi puder tirar o lugar a um ciclista mais jovem, caso alguma equipa lhe abrisse uma vaga. "Fiquei um pouco sentido porque nunca quis roubar a ribalta aos ciclistas actuais ou tirar o lugar a um ciclista mais novo. Só queria correr mais um dia e celebrar tudo o que há de bom no ciclismo e mostrar que podemos pedalar e competir mesmo depois dos 40 [anos]", salientou.

Tafi garante que, apesar da lesão, vai estar na partida do Paris-Roubaix para assistir ao início de uma corrida que sempre promete espectáculo. Quando recuperar da clavícula partida, voltará a andar de bicicleta, pois: "Amo o ciclismo."


17 de fevereiro de 2019

Degenkolb angariou mais de 10 mil euros em apenas um dia para salvar corrida de Roubaix sub-19

(Fotografia: Trek-Segafredo)
Quando soube que o Paris-Roubaix sub-19 estava em risco de não se realizar devido à falta de fundos, John Degenkolb não hesitou em fazer o possível para salvar a corrida. Não só se dispôs a avançar ele próprio com dinheiro, como criou um crowdfunding para tentar amealhar pelo menos 10 mil euros. Em apenas um dia, não só atingiu a marca desejada, como a ultrapassou.

Degenkolb, vencedor deste monumento em 2015 e que este domingo venceu a quarta etapa do Tour de la Provence, doou 2500 euros, mas prontificou-se a aumentar a quantia caso não conseguisse atingir a marca. Através da plataforma gofundme, o ciclista alemão apelou à ajuda de todos para salvar a corrida de juniores e quem doasse no mínimo 25 euros receberia ainda uma t-shirt especial alusiva a Degenkolb em Roubaix. Mais de 300 pessoas já responderam ao apelo do corredor da Trek-Segafredo e o valor já ultrapassou os 13 mil euros, no momento em que este texto é escrito.

Na apresentação da campanha de crowdfunding, Degenkolb admite que caiu que "nem uma bomba" a notícia que a corrida sub-19 de Roubaix poderia não se realizar devido à falta de dinheiro. "Imediatamente tornou-se claro para mim que queria fazer tudo o que era possível para prevenir o pior cenário. Não apenas por eu ter uma relação especial com o Paris-Roubaix, uma corrida que me fascina desde criança e que influenciou-me directamente com a fascinação pelo ciclismo, mas também pela importância em apoiar jovens ciclistas", lê-se.

Degenkolb tem sido muito activo em contribuir para que os mais novos tenham oportunidades para serem ciclistas, pelo que ficou a garantia que todo o dinheiro angariado pelo actual campanha será utilizado para salvar a corrida de juniores de Roubaix, com o valor extra a ter como destino a associação Les Amis de Paris-Roubaix (Amigos de Paris-Roubaix), uma associação da qual é embaixador e que tem garantido a manutenção e, quando necessário a restauração, de um percurso histórico, com foco nos sectores de pavé.

O crowdfunding continua aberto e para os interessados em ajudar, basta seguir este link para a página da campanha.

22 de janeiro de 2019

O adeus de Hayman, o sábio irmão mais velho que deixou a sua marca no Paris-Roubaix

(Fotografia: Facebook Mitchelton-Scott)
Há ciclistas cujo nome fica como que perdido num extenso pelotão internacional, mas que nem por isso significa que não seja um corredor que deixe a sua marca. É muitas vezes o que acontece com os grandes gregários. Foi o que aconteceu com Mathew Hayman na maior parte da sua extensa carreira. Porém, alguns destes ciclistas conseguem ter aquele momento em que o seu nome fica imortalizado e que inevitavelmente marca a sua passagem pela modalidade em termos de vitória. Hayman pode ter ganho muito pouco, mas despediu-se com um monumento. Aquele Paris-Roubaix de 2016 fez com que o nome de Hayman não ficasse mais perdido no pelotão, mas na despedida, os seus companheiros de uma vida no ciclismo recordam como o australiano representou muito mais do que um triunfo no chamado Inferno do Norte.

Mathew Hayman anunciou ainda no ano passado que iria retirar-se após o Tour Down Under de 2019. Aos 40 anos, o mais velho em actividade, considerou que tinha chegado a altura de dar o passo seguinte na vida. Em números, na sua carreira tem as dez épocas na Rabobank, quatro na Sky e as últimas seis (mais o mês de Janeiro de 2019) numa equipa que nunca se coibiu de dizer o quanto era especial: a Mitchelton-Scott, durante vários anos a Orica.

Na sua derradeira etapa, em Willunga Hill, Hayman admitiu como viveu um turbilhão de emoções. Era o seu último dia de competição, mas havia muito em jogo, com o colega de equipa, Daryl Impey a estar na disputa pela vitória do Tour Down Under. Pelo meio, durante os quilómetros que antecederam aquela subida final, alguns ciclistas de outras formações foram despedindo-se do australiano, o que o emocionou. O trabalho foi concluído com sucesso, com Impey a conquistar pela segunda vez a corrida, o que para Hayman foi o final perfeito. Afinal, destacou-se como um gregário de confiança e uma voz de liderança, que sempre quis ajudar os seus líderes a ganharem.

Desse trabalho, tanta vez menos visível, ficarão certamente muitas histórias para se contar, contudo, há uma que foi possível ver em directo com toda a cobertura mediática que um Paris-Roubaix recebe. De repente o nome de Hayman entrou definitivamente no conhecimento de todos quando, no famoso velódromo de Roubaix bateu um senhor do pavé: Tom Boonen. Foi a surpresa australiana que tirou ao belga a quinta vitória na corrida, o que teria sido um recorde. A expressão de Hayman depois de cortar a meta foi um misto de felicidade, de alguma surpresa e de uma enorme emoção, que tornaram aquelas imagens ainda mais marcantes.

Pode ter ficado muitas vezes preso ao papel de gregário, mas Hayman também foi um especialista em clássicas do pavé, corridas em que foi tendo liberdade. Fez 17 Paris-Roubaix e 14 Voltas a Flandres, só para falar dos monumentos do pavé. Entre as outras provas em que mais participou estão, por exemplo, a Omloop Het Nieuwsblad, Gent-Wevelgem (14 presenças) e a Através da Flandres (13).

Era neste tipo de corridas que se via o seu melhor, não sendo um ciclista de grandes voltas. Ainda assim soma 11, tendo feito as três. A sua última foi o Tour do ano passado. Fez quatro Voltas a França, três Vueltas e quatro Giros. A nível de vitórias, antes de conquistar o pedregulho de Roubaix, havia ganho um Paris-Bourges (2011) e na Alemanha a Sachsen-Tour International (2005). Venceu ainda a prova de estrada dos Jogos da Commonwealth, em 2006.

No vídeo de homenagem ao australiano, Hayman é considerado não um pai, mas um "sábio irmão mais velho". Deixou a sua marca em tantos ciclistas, tornando-se num exemplo de profissionalismo e companheirismo.



Hayman vai deixar o pelotão, mas não o ciclismo. A Mitchelton-Scott já tinha garantido a continuidade do australiano, agora num papel nos bastidores. Vai começar a aprender o outro lado da dinâmica de uma equipa.

Na hora da despedida, Hayman publicou uma fotografia com os três filhos e escreveu nas redes sociais: "Não vou virar as costas a este desporto, mas estou ansioso por fazer destas três pequenas pessoas uma maior prioridade na minha vida."



28 de novembro de 2018

Tafi no Paris-Roubaix? "Precisas de fazer outra coisa na vida aos 52 anos"

(Fotografia: Twitter Andrea Tafi)
Quando Andrea Tafi anunciou a intenção de correr o Paris-Roubaix e assim celebrar o 20º aniversário da sua vitória no monumento francês, a ideia foi bastante falada, mas talvez poucos acreditassem que, aos 52 anos, alguma equipa o contrataria. Porém, cerca de 15 dias depois, o italiano confirmou que já tinha encontrado uma. Qual? Continua no segredo dos deuses. O que não é segredo é que nem todos estão a gostar deste possível regresso e o compatriota de Tafi, o bicampeão do mundo Paolo Bettini, não poderia ter sido mais directo nas críticas.

"Ao Andrea digo-lhe: espero que não corras. Precisas de fazer outra coisa na vida aos 52 anos", afirmou, numa entrevista à Gazzetta dello Sport. E continuou. "Ele está a conquistar a atenção mediática com isto, mas seria melhor pensar em deixar o lugar vago para um jovem ciclista. Ao fazer [a corrida] ele está a roubar o lugar a alguém."

Bettini é um pouco mais novo, tem 44 anos, e garante que não tem qualquer intenção de regressar ao activo. "Sou um embaixador para diferentes empresas e divirto-me a pedalar com os seus clientes. Pedalo quando quero. Nem pensar que o vou fazer três vezes por semana", afirmou o ex-ciclista, que também já foi seleccionador do seu país.

Os italianos foram companheiros de equipa na Mapei-Quickstep durante quatro temporadas (1999-2002). Foram dois especialistas em clássicas e no que diz respeito a monumentos, Tafi ganhou a Lombardia (1996), o Paris-Roubaix (1999) e Volta a Flandres (2002). Bettini venceu duas vezes a Liège-Bastogne-Liège (2000 e 2002), a Milano-Sanremo (2003) e a Lombardia também em duas ocasiões (2005 e 2006). Bettini não era tão dotado para o pavé. Aliás, Tafi é mesmo o único italiano a vencer os dois monumentos neste tipo de piso.

Andrea Tafi retirou-se em 2005, mas não deixou de pedalar e este ano até participou numa corrida húngara, com classificação 1.2 da UCI, tendo terminado na 37ª posição. Foram 157,6 quilómetros a 48 quilómetros por hora de média.

Quanto à equipa que terá demonstrado interesse em contratá-lo, uma do World Tour dá-lhe acesso directo à corrida, mas também poderá ser uma das Profissionais Continentais com um convite para competir, que ainda não foram anunciados. A sul-africana Dimension Data (World Tour) já foi falada, mas não passa, por agora, de um rumor. Tafi tinha antes de mais garantir que cumpre os requisitos do regulamento anti-doping para competir numa corrida deste nível, algo que estará resolvido.

Lefevere diz que não compreende

O histórico director da Quick-Step Floors foi abordado por Tafi sobre a possibilidade de competir pela equipa por quem ganhou em 1998, então a Mapei-Quickstep. Patrick Lefevere deu um redondo não. "Ele perguntou-me, a rir, mas meio a sério, se a nossa equipa estaria interessada, mas sabes como é composta a nossa equipa. É já uma luta para escolher os sete ciclistas para o Paris-Roubaix e não quero investir num projecto só pela publicidade. Espero que ele encontre outra maneira", referiu ao Cycling News, poucos dias depois, no início de Novembro, de Tafi anunciar que tinha encontrado quem o recebesse.

Lefevere explicou que esteve com Tafi num evento de um patrocinador e que todos estavam a perguntar ao antigo ciclista "se ele tinha febre, ou algo parecido, ou se tinha endoidecido". "Não percebo", desabafou o responsável belga. Para Lefevere, há mais em jogo do que o simples regresso ao Paris-Roubaix, pois, ao estar a preparar um documentário, para o director da Quick-Step Floors, está-se a falar de um negócio, de uma aposta comercial.

Antes de se saber que já haveria uma equipa interessada em contratar Tafi para o Paris-Roubaix - não está excluída a hipótese de fazer algumas corridas antes para se preparar -, o italiano tinha dito que se não conseguisse estar na prova profissional, faria a competição amadora. O objectivo passa mesmo por fazer um documentário sobre este seu regresso a Roubaix, 20 anos após ter vencido o mítico monumento, seja em que moldes for.

Agora é esperar para saber qual é a equipa que Tafi diz o querer, mas uma casa de apostas italiana até já avançou com as probabilidades para este possível regresso do atleta ao Paris-Roubaix. Uma vitória 1/350, um pódio 1/150 e um top dez 1/50.


8 de novembro de 2018

Tafi encontrou equipa para estar no Paris-Roubaix aos 52 anos

(Fotografia: Eric Houdas/Collection personnelle/Wikimedia Commons)
O improvável estará mais próximo de se tornar realidade. Quando anunciou que gostaria de competir no Paris-Roubaix em 2019 e assim celebrar o 20º aniversário da sua vitória no monumento, parecia ser uma ideia de loucos. Para o fazer, Andrea Tafi teria de ser contratado por uma equipa. Aos 52 anos, percebe-se porque se pensaria que tal era improvável. O regresso "a casa" seria algo perfeito, mas por mais que Patrick Levefere respeite Tafi, na Quick-Step Floors a ambição é demasiado grande para dar um lugar ao italiano. "Por sorte, encontrei outra grande equipa", anunciou. Qual? Teremos de esperar mais um pouco para saber.

"Infelizmente, não posso dizer qual. Ainda não", salientou ao jornal belga Het Laatste Nieuws. Em 1999, Tafi venceu o Paris-Roubaix pela Mapei-Quickstep, pelo que representar novamente a equipa foi algo que o motivou a falar com Lefevere, o mítico director desportivo, que só em Roubaix conta com 11 triunfos. "Disse-me que tinha uma grande equipa e que gostava do que quero fazer, mas era impossível receber-me, já que qualquer ciclista [da equipa] que parte para Roubaix, fá-lo para ganhar", explicou Tafi, que afirmou compreender perfeitamente a posição de Lefevere.

Apesar de saber bem o que é fazer o Paris-Roubaix - competiu em 13 edições e terminou-as todas -, fazer este monumento aos 52 anos será completamente diferente. Mas não é por acaso que é conhecido como o Gladiador. "Eu sei o quanto é difícil. Vou treinar e ver como será", afirmou. No entanto, Tafi recusa  a ideia de estar a cometer uma loucura. "Todo o mundo pensa que estou louco, mas eu não acho. Sigo o meu coração. Quero saber quais são os meus limites", referiu. Acrescentou que não vai dizer que terminará em determinado lugar: "Não sou hipócrita."

A confirmar-se a presença de Tafi, o italiano será, sem surpresa, o ciclista mais velho a alguma vez competir no Paris-Roubaix. O mais velho a ganhar o monumento francês foi um ciclista da casa: Gilbert Duclos-Lassalle, em 1993. Tinha 38 anos, naquela que foi a sua segunda vitória no Inferno do Norte.

Tafi retirou-se em 2005, mas não deixou de pedalar e este ano até participou numa corrida húngara, com classificação 1.2 da UCI, tendo terminado na 37ª posição. Foram 157,6 quilómetros a 48 quilómetros por hora de média. Além da questão da equipa, o italiano terá de cumprir os requisitos da UCI, algo que o antigo ciclista explicou, quando anunciou a sua intenção, que já tinha contactado o organismo devido ao passaporte biológico que é obrigado a ter.

Andrea Tafi foi um dos maiores especialistas italianos de clássicas. Além do Paris-Roubaix, venceu ainda a Volta a Flandres em 2002 e seis anos antes havia conquistado a Lombardia. Foi o único ciclista do seu país a vencer o Roubaix e a Flandres.

Seja qual for a equipa que terá aceite contratar por uma corrida apenas Tafi, tem garantida uma forte cobertura mediática. A confirmar-se a presença do italiano no Paris-Roubaix será, inevitavelmente, um dos destaques. Não só receberá muita atenção por parte dos meios de comunicação social antes e depois da corrida, como deverá ter direito a algum tempo de antena na transmissão televisiva. Ou seja, o patrocinador ou patrocinadores vão ter o seu destaque numa das provas mais populares do ciclismo mundial.

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