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22 de novembro de 2019

Quando se uniu a Movistar ganhou... mas não repetiu a união

(Fotografia: © Giro d'Italia)
Alejandro Valverde não foi o ciclista ganhador de temporadas recentes e a Movistar até se ressentiu um pouco nos números finais de vitórias. Porém, a equipa espanhola finalmente conquistou uma grande volta, terminando com uma espera de três anos. E tendo em conta que as três semanas fazem parte da génese desta histórica estrutura, há razões para alguma satisfação. Mas não muita. É que acabou por ser uma época com mais do mesmo relativamente às lutas internas, numa equipa que tanta dificuldade tem a agir como tal. Se nesse aspecto foi mais do mesmo, já a preparação para 2020 causa estranheza. Haverá muitas mudanças, algo pouco normal num director como Eusebio Unzué, mais conhecido por contratar muito pouco, dando prioridade à continuidade, sempre com uma espinha dorsal quase intocável.

Muitas das equipas World Tour adorariam ter conquistado etapas nas três grandes voltas e uma geral. Mas para a Movistar acaba por ficar mais vincado o novo desaire no Tour, em que o mal amado Nairo Quintana conquistou uma etapa para salvar um pouco a honra numa corrida em que apostar pelo segundo ano consecutivo no tridente Quintana/Landa/Valverde correu novamente mal. O colombiano estava isolado, enquanto Landa fez a sua corrida, com um Valverde a ser tudo menos um elemento de união.

Poder-se-ia pensar que depois de no Giro Richard Carapaz ter conseguido unir a equipa, inclusivamente Landa trabalhou para o equatoriano, resultando na conquista da grande volta - a última havia sido a Vuelta de 2016 com Quintana -, que a Movistar continuasse a ter um colectivo que funcionasse como tal. Mas não.

Contudo, próprio Carapaz antes de alcançar esse feito, contrariou a ideia de um Landa como líder único no Giro, assumindo-se sempre como co-líder e atacando em etapas para garantir que os responsáveis o vissem como tal. No Tour foi cada um por si entre os chefes-de-fila, enquanto na Vuelta foi a batalha Valverde (segundo)/Quintana (quarto). E não ajudou à imagem da equipa os seus ciclistas terem atacado o eventual vencedor Primoz Roglic (Jumbo-Visma) quando este caiu numa etapa, com a justificação que tentou aproveitar o vento para fazer cortes no pelotão. A organização acabou por intervir e apenas ficou a polémica, tanto da atitude da Movistar, como da decisão dos comissários de esperar que o pelotão ficasse novamente junto, num precedente que ainda haverá dar que falar no futuro.
Ranking: 7º (10.398 pontos) 
Vitórias: 21 (incluindo a geral no Giro e duas etapas, uma no Tour e duas na Vuelta) 
Ciclistas com mais triunfos: Alejandro Valverde e Richard Carapaz (5)
Desentendimentos à parte, a Movistar ressentiu-se da falta de um Valverde avassalador, como tem acontecido em anos recentes. Aos 39 anos, o espanhol teve alguns problemas físicos e não conseguiu estar na discussão de tantas corridas como costumava. Nem nas suas Ardenas apareceu ao seu melhor. Na época em que vestiu a camisola de campeão do mundo, Valverde deu as primeiras mostras de estar na recta final da carreira. Mas ainda falta ir a Tóquio tentar a título olímpico.

Esta é uma equipa muito dependente das suas figuras para conquistar vitórias, mas a escolha recaiu em trazer novas caras para 2020, num corte bastante radical com o passado recente. Sai Landa (Bahrain-Merida), Quintana (Arkéa-Samsic), um dos importantes homens de trabalho Winner Anacona (Arkéa-Samsic) e Rubén Fernández vai procurar relançar a carreira como líder na Fundação Euskadi. Jasha Sütterlin sai ao fim de um ano para a Sunweb e Daniele Bennati terminou a carreira. Carlos Betancur, Rafael Valls, Jaime Rosón e Jaime Castrillo também vão mudar de ares. Depois há ainda um Andrey Amador que renovou, mas devido a um desentendimento entre Unzué e o empresário Giuseppe Acquadro, o ciclista que tem sido um elemento imprescindível na Movistar está de saída, talvez para a Ineos.

A equipa britânica garantiu ainda um Carapaz que inicialmente estaria mais tentado em continuar na Movistar para ser líder indiscutível, mas com a influência de Acquadro assinou por uma Ineos nada preocupada em ter agora quatro ciclistas que podem e querem discutir grandes voltas.

Com tanta saída, haverá naturalmente entradas para compensar, curiosamente de muitos estrangeiros, numa equipa que sempre abriu muito as portas aos ciclistas da casa. Foi buscar vários jovens como o britânico Gabriel Cullaigh, o alemão Juri Hollman, o americano Matteo Jorgenson, o suíço Johan Jacobs e dois colombianos, Einer Augusto Rubio e Diego Alba. Contratou também dois espanhóis: Sergio Samitier e Iñigo Elosegui. Todos vão fazer a sua estreia ao mais alto nível.

Porém, o mais relevante é como a Movistar parece querer deixar de dividir lideranças, Enric Mas (Deceuninck-QuickStep) foi contratado para ser o líder para as grandes voltas, com Dario Cataldo a deixar a Astana para reforçar este bloco. Da mesma equipa chega um Davide Villella que quer concentrar-se nas clássicas.

Uma nova era vai começar na Movistar, com Enric Mas a ter a partir de agora o enorme peso de ser um espanhol à frente da única equipa espanhola do World Tour. E já foi lançado o repto para os 40 anos da estrutura, ganhar a Volta a França, a única grande volta que falta conquistar com o nome Movistar. Com tanta saída, Marc Soler espera que possa ter nova oportunidade de lutar pela geral numa das grandes voltas, Giro ou Vuelta.

Quem continua a fazer parte da espinha dorsal é o português Nelson Oliveira. Renovou por mais duas temporadas. É um ciclista que está grande parte da temporada muito preso a um papel de gregário que desempenha tão bem, com 2019 a não ter sido excepção. Porém, continua vivo o objectivo de vencer um contra-relógio, a sua especialidade, num dos grandes palcos, sendo que a maior liberdade é dada nas clássicas. Oliveira é um ciclista exemplar que os responsáveis da Movistar não dispensam.

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11 de setembro de 2019

A etapa de loucos que recolocou Quintana na luta pela geral

(Fotografia: © Sarah Meyssonnier/La Vuelta)
Se na segunda-feira assistiu-se a uma das etapas de montanha mais aborrecida das grandes voltas este ano, esta quarta-feira assistiu-se a uma das melhores sem montanha de 2019 e de há muito tempo! Foi simplesmente um dia de loucos, palavra utilizada por muitos dos ciclistas, que estão de acordo ao considerarem que viveram um momento inesquecível e talvez até único numa carreira. Philippe Gilbert, o vencedor da etapa, é há 17 anos profissional e admitiu que nunca tinha visto algo igual. Foram 219,6 quilómetros - a tirada mais longa da Volta a Espanha - feitos a uma média de 50,63 quilómetros por hora! Entre a velocidade e o vento foi o caos. E até houve algum pânico, principalmente na Jumbo-Visma e houve também mais uma reviravolta: Nairo Quintana está de regresso na luta pela vitória.

É de deixar qualquer adepto da modalidade ainda mais apaixonado ao ver que na terceira grande volta do ano, com os ciclistas com tantos quilómetros já feitos, há vontade (e força) para dar um espectáculo destes, numa etapa que poderia muito bem ter sido encarada como uma para fazer com calma, um dia para os sprinters, com os homens da geral a pensar mais no que aí vem amanhã, quinta-feira. Poderia, mas não foi.

O vento fazia-se sentir na partida em Aranda de Duero e desde logo se percebeu no pelotão que alguém iria aproveitar esse factor. Talvez não se pensasse que ainda nem estivessem decorridos cinco quilómetros e já estavam 40 corredores a fugir, incluindo Quintana, acompanhado por três ciclistas da Movistar, entre eles Nelson Oliveira. O outro destaque era para os seis homens da Deceuninck-QuickStep que foram os principais responsáveis pelo ritmo alto, com a ajuda de equipas como a Movistar e Sunweb, por exemplo.

Lá atrás, Primoz Roglic acabou por ter um teste surpresa. O esloveno passou, a equipa nem por isso. É certo que houve um desgaste na perseguição e para garantir que Roglic ficava com Alejandro Valverde (Movistar), Miguel Ángel López (Astana) e Tadej Pogacar (UAE Team Emirates). Porém, numa subida não categorizada (não houve nenhuma nesta 17ª etapa), a Movistar acelerou e toda a Jumbo-Visma ficou para trás. Roglic ficou isolado e bem pode agradecer à Astana por provavelmente ainda estar de vermelho.

Quintana começou o dia a 7:43 minutos de Roglic. Estava mais do que afastado da luta pela vitória. Terminou a 2:24! Foi a Astana que assumiu o grupo, mais pequeno do que aquele que estava na frente (entretanto já reduzido a cerca de metade), e com a ajuda de um ciclista da Bora-Hansgrohe evitou o pior para Roglic, ainda que não tenha evitado que o seu próprio líder, López, caísse para quinto e tivesse agora mais um rival com quem se preocupar na luta pelos menos pelo pódio. A Astana ainda viu o seu líder a ser sancionado com dez segundos, tal como Jakob Fuglsang. Segundo a Marca, o dinamarquês terá empurrado o seu companheiro, numa ajuda ao colombiano e os comissários castigaram os dois. López está agora a 4:09 minutos de Roglic. Em quarto está Pogacar, líder da juventude - está em luta com López -, a 3:42.

Houve algum pânico entre os responsáveis da Jumbo-Visma e ficou a certeza que a equipa não pode deixar Roglic abandonado como aconteceu esta quarta-feira. Quando a etapa de loucos chegou ao fim em Guadalajara, não houve ciclista que não precisasse de recuperar o fôlego. Falta saber se vão recuperar para esta quinta-feira aguentar a muita montanha que o pelotão terá pela frente.

Roglic acabou por não perder assim tanto tempo. Quintana passou Valverde, que continua a 2:48, mas são ainda mais de dois minutos para o esloveno gerir. E Quintana tem falhado na montanha, tendo ganho uma etapa num dia com poucas dificuldades. Ou seja, as suas melhores exibições aconteceram em terrenos que não eram os mais propícios para as suas características, mas acaba por fraquejar nas etapas que deveria estar bem.

Porém, deixar o colombiano reentrar nas contas dá uma arma importante à Movistar, que tem duas cartas para jogar. O líder da Jumbo-Visma continua bem encaminhado para uma vitória histórica, mas nada está garantido e qualquer um dos candidatos pode pagar caro o enorme esforço da etapa de hoje, depois do dia descanso.

Neste dia de loucos, Wilco Kelderman da Sunweb (a 5:05 minutos) e James Knox da Deceuninck-QuickStep (a 8:03) entraram no top dez, de onde saíram Nicolas Edet (Cofidis) e Hermann Pernsteiner (Bahrain-Merida). Quem também não teve um dia fácil foi Ruben Guerreiro (Katusha-Alpecin), que chegou mais de 23 minutos depois de Gilbert. Desceu quatro posições na geral, sendo 19º a 35:33, numa altura em que se fala que a Lotto Soudal estará interessada no português.

(Fotografia: © La Vuelta)
Para a história ficará a terceira etapa mais rápida de sempre na Vuelta, que Lawson Craddock chamou de "etapa que viverá na infâmia" quando colocou os seus dados no Strava. E claro, ficará também para a história a sétima vitória de etapa em Espanha de um Philippe Gilbert em grande forma aos 37 anos, pois foi o seu segundo triunfo na corrida. Sam Bennett (Bora-Hansgrohe) tentou sozinho contrariar o trabalho de seis ciclistas da Deceuninck-QuickStep, mas estava escrito que seria um dia para a equipa belga e para o grande ciclista que é Gilbert.

Classificações completas, via ProCyclingStats.

18ª etapa: Comunidad de Madrid. Colmenar Viejo - Becerril de la Sierra (177,5 quilómetros)


É uma etapa com percurso idêntico àquela que proporcionou uma reviravolta na classificação em 2015, quando Fabio Aru tirou a liderança a Tom Dumoulin, acabando por conquistar aquela que é a sua única grande volta. O italiano já abandonou, o holandês está a recuperar da lesão no joelho contraída no Giro.

Os actores principais serão outros e terão quatro primeiras categorias para ultrapassar, com a etapa a não ter chegada em alto, ao contrário do que tem sido normal, apesar de terminar com uma pequena subida. Qualquer uma das subidas categorizadas acaba acima ou dos 1700 ou dos 1800 metros de altitude. Não haverá aquelas pendentes brutais de 20%, mas serão subidas longas e desgastantes. Puerto de Navacerrada: 11,8 quilómetros a 6,3% de pendente média; Puerto de la Morcuera: 13,2 a 5%; Puerto de la Morcuera: 10,4 a 6,7%; Puerto de Cotos: 13,9 a 4,8%.




»»Dez anos de camisola vermelha««

»»Roglic vai aproveitando todos os rivais para consolidar a liderança««

2 de setembro de 2019

Arkéa-Samsic aposta em Quintana para cumprir objectivo ambicioso

(Fotografia: © Bettiniphoto/Movistar Team)
De equipa amadora a uma ganhadora de uma grande volta. O objectivo está traçado e a Arkéa-Samsic até vai cortar um pouco com as suas raízes para o tentar concretizar. Nascida na Bretanha, a equipa rende-se aos encantos colombianos, mas aposta num ciclista experiente e que há muito entrou no lote das desilusões depois de muito prometer. É a mudança que Nairo Quintana procurava para se afastar de uma Movistar onde se tem passado mais tempo a lutar por estatuto do que por grandes voltas. Falta agora saber se para a Arkéa-Samsic é contratação certa, pois os dois principais investimentos feitos, estão longe de rentabilizar.

Contratar Quintana é um risco assumido da equipa francesa, com ambições de chegar a World Tour em 2020. A história começa nos anos 90, quando Jean Floc’h criou a equipa Bernard Sport Team. Chegou a servir de trampolim para alguns ciclistas chegarem ao profissionalismo, até que em 2005 a estrutura deu o passo para adquirir a licença Continental. Em 2011 subiu mais um escalão, para em 2014 fazer a sua estreia no Tour. Foi crescendo, sendo agora uma equipa com saúde financeira. 

Quintana irá carregar grande parte da ambição da Arkéa-Samsic. Foi um jovem promissor, aquele que se acreditava vir a ser o primeiro colombiano a ganhar o Tour. Ganhou o Giro e a Vuelta, fez três pódios no Tour, mas nos últimos três anos as suas prestações arrancam mais críticas do que elogios. O director da Arkéa-Samsic, Emmanuel Hubert, acredita que a equipa está a caminho de se tornar numa das melhores do mundo. E que não restem dúvidas, é isso que pretende: "Isso vai exigir rigor e profissionalismo. Já não somos uma equipa familiar pequena, mas vamos continuar a colocar a pessoa no centro do nosso projecto."

Hubert considera que o plantel que irá apresentar para 2020 não irá ficar nada a atrás de uma equipa World Tour, deixando uma garantia: "Demos a nós próprios três temporadas para levar o projecto mais além, com uma vitória numa grande volta."

Com Quintana - que assinou até 2022 - irá da Movistar um dos seus braços direitos: Winner Anacona (até 2021). Também o mais novo dos Quintana se vai juntar novamente ao irmão. A equipa espanhola não renovou com Dayer, que assim se separou de Nairo e foi prosseguir a carreira em Itália, na Neri Sottoli-Selle Italia-KTM. Porém, a Arkeá-Samsic irá juntá-los novamente. Diego Rosa deixará a Ineos para integrar o bloco da Arkéa-Samsic até 2021. Ainda durante este mês, Hubert deverá anunciar mais um reforço com algum peso, mas para o sprint. Nacer Bouhanni estará a caminho da estrutura, finda que está há muito a relação com a Cofidis.

Desde que em 2018 estes dois patrocinadores reforçaram substancialmente o orçamento da então mais conhecida por Fortuneo ou, recuando mais um pouco, Bretagne (foi variando o segundo nome), que começaram a entrar nomes fortes do ciclismo. O primeiro foi Warren Barguil, seguindo-se em 2019 André Greipel. Nem um, nem outro rendeu perto do esperado.

Barguil, um bretão, chegou como herói do Tour, com duas vitórias de etapas e uma camisola da montanha. Mas foram más prestações atrás de más prestações, até o título francês em Junho. Provavelmente foi uma conquista que salvou a carreira de Barguil, que admitiu que ponderou colocar um ponto final. Foi à Volta a França terminar no 10º lugar. Melhor, é certo, mas ainda assim, pouco para a ambição da Arkéa-Samsic e para o investimento que foi feito no ciclista. Se Barguil demorou a mostrar serviço, Greipel nem se vê, mas tem mais um ano de contrato. Aos 37 anos, já pouco se espera do alemão.

Se Bouhanni chegar, não deverá, por isso, haver problemas com Greipel. Porém, o entendimento entre Barguil e Quintana gera dúvidas. Hubert afirmou que quer os dois a trabalharem juntos. O senão, é que o colombiano gosta de ser o líder único. Aliás, tem sido esse um dos problemas na Movistar.

Na folga de uma Vuelta que Quintana lidera, fica confirmado um futuro há muito conhecido. A UAE Team Emirates ainda chegou a ser apontada como possibilidade, mas o colombiano escolheu a Arkéa-Samsic. Considera que é lá que vai "florescer profissionalmente". Contudo, quando tiver 30 anos (fará a 4 de Fevereiro), Quintana estará muito provavelmente numa equipa Profissional Continental, muito dependente de convites para grandes corridas.

A Arkéa-Samsic quer subir de escalão, mas as duas licenças - além das 18 para as equipas actuais - que a UCI deverá atribuir a mais, estarão provavelmente nas mãos da Cofidis e Total Direct Energie. Nada está confirmado, mas se assim for e com as licenças a passarem a ser por três anos, Quintana poderá ficar afastado de um Giro e Vuelta, já que no Tour é provável que se mantenha o convite da organização, mas dificilmente acontecerá nas outras corridas de três semanas.

Quando foi conhecida a difícil situação da Katusha-Alpecin, ainda foi noticiado o possível interesse da Arkéa-Samsic em procurar uma solução como a da CCC, que ficou com a BMC. Tal permitiria subir a World Tour. No entanto, a notícia foi desmentida pela equipa francesa.

Há espaço para novidades, num plantel que será de 28 ciclistas e que tem apenas 15 garantidos, entre eles jovens muito interessantes como Thibault Guernalec (que recentemente se mostrou na Volta a Portugal), Élie Gesbert ou o britânico Connor Swift. Está publicamente definido um objectivo ambicioso, mas esta Arkéa-Samsic continua envolta em muitos pontos de interrogação. As apostas em Barguil e Greipel falharam e Quintana não convence. Mas quem sabe, talvez o que o colombiano esteja a precisar é de uma mudança, mesmo que tenha de descer de escalão.

Richard Carapaz também sai da Movistar

É a debandada da equipa espanhola. Mikel Landa está a caminho da Bahrain-Merida, Quintana da Arkéa-Samsic e a Movistar também não conseguiu agarrar o ciclista que quebrou o jejum de grandes voltas da a formação espanhol no último Giro. A Ineos continua à caça dos maiores talentos e vai juntar Richard Carapaz a Egan Bernal, Chris Froome, Geraint Thomas, Pavel Sivakov... E a lista continua...

O equatoriano assinou até 2022 e de uma assentada só, a Movistar perdeu três dos seus quatro líderes. Sobrou o veterano Alejandro Valverde. Enric Mas irá entrar para ocupar esse posto. Estão também dois italianos da Astana a caminho: Dario Cataldo e Davide Villella. O jovem britânico Gabriel Cullaigh (SEG Racing) e o colombiano Juan Diego Alba (Coldeportes Zenu) serão igualmente reforços na equipa que conta com o português Nelson Oliveira. O ciclista de Anadia renovou por mais dois anos durante o Tour.


1 de setembro de 2019

Na Vuelta das nações, domingo foi dia da Eslovénia

Pogacar conquistou a sua primeira vitória numa grande volta e logo na estreia
(Fotografia: © Luiz Angel Gomez/PhotoGomezSport/La Vuelta)
Ainda a Volta a Espanha não tinha começado e muito se falava da Colômbia. E praticamente todos os dias um colombiano é assunto. Depois houve uma curta fase em que Irlanda se destacou, com Nicolas Roche como líder e Sam Bennett a ganhar uma etapa. Agora é a vez da Eslovénia. Um dos miúdos maravilhas da nova geração venceu uma etapa na sua estreia numa grande volta, Tadej Pogacar - uma daquelas vitórias que se recordará durante muito tempo -, e Primoz Roglic fez mais uma exibição de se tirar o chapéu. 

E um bom chapéu de chuva teria dado jeito, pois Pogacar conquistou uma daquelas etapas com ingredientes a torná-la épica. Curta, apenas 94,4 quilómetros entre Andorra la Vella e Cortals d’Encamp, com cinco subidas: duas de primeira (uma a começar e outra a fechar), uma especial e duas de segunda categoria. E depois houve um temporal só para tornar tudo um pouco mais dramático, com direito a granizo! Pogacar está habituado a competir com e é o primeiro a admitir que até fica contente quando as previsões dão chuva. Talvez não fosse precisa tanta! Quando em Fevereiro ganhou no Alto da Fóia, na Volta ao Algarve, também não estava nada agradável

Foi uma exibição de enorme nível, com um ataque final que deixou Quintana sentado. A estreia numa grande volta era suposto só acontecer em 2020, mas perante os resultados - além da Algarvia, venceu a Volta à Califórnia e obteve outras boas classificações - a UAE Team Emirates levou-o a Espanha. Há que não esquecer: este é o seu primeiro ano como profissional e no World Tour.

Não tem pressão e nem a vitória de etapa e o quinto lugar na geral a 1:42 minutos da liderança vai mudar essa postura. Pogacar e a equipa têm tudo a ganhar com isso, pois há que não esquecer que tem apenas 20 anos e não sabe como o corpo vai reagir a três semanas de competição Mas claro, depois do que fez hoje, já todos pensam cuidado com ele. Se não fosse aquela queda colectiva no contra-relógio, a diferença até seria menor. Perdeu 1:07 minutos para a então vencedora Astana de Miguel Ángel López e 51 segundos para a Movistar de Nairo Quintana, o novo camisola vermelha da Vuelta.

No ano em que Roglic, de 29 anos, se está a afirmar como líder para as grandes voltas, ficou um pouco ofuscado por Pogacar na etapa deste domingo. Porém, fez mais uma boa prestação na montanha, ainda mais tendo em conta que caiu. Uma moto parou num local pouco recomendável, segundo a Jumbo-Visma, e Roglic caiu numa fase em que o piso era em terra e antes da subida final. Não entrou em pânico quando perdeu contacto com os mais directos rivais e acabou por bater todos menos Nairo Quintana. Foi terceiro, bonificou mais quatro segundos e os seis segundos que o separam do colombiano não preocupam muito o ciclista da Jumbo-Visma, que depois do contra-relógio de terça-feira poderá ficar como o grande favorito. 

Quintana também esteve muito bem dentro de uma Movistar que é simplesmente uma trapalhada. Até trabalharam bem inicialmente, mas depois foi Quintana a atacar, Alejandro Valverde a contra-atacar e ainda se assistiu ao momento que não esconde que não se vive o mais saudável dos ambientes na Movistar. Marc Soler protestou à vista de todos por ter de esperar por Quintana e abdicar de ganhar a etapa. Percebe-se a frustração a três quilómetros da meta, mas ficou muito mal a Soler e à Movistar aquela atitude. 

Nairo Quintana é o novo líder da Volta a Espanha e a sensação que fica é que na Movistar não se festeja particularmente a camisola vermelha, ainda mais se for verdade que Valverde havia sido nomeado o líder, como Quintana disse há uns dias. No Giro, Richard Carapaz foi contra a hierarquia que colocava Mikel Landa como líder e conseguiu unir a equipa em seu redor para vencer a corrida. Não será fácil Quintana fazer o mesmo, mas só depois do contra-relógio é que se perceberá se Quintana pode mesmo discutir a Vuelta. Mas é o líder e isso motiva-o.

Quintana fez com que a Colômbia fosse novamente falada, já que Miguel Ángel López passou de potencial grande figura do dia, ao maior derrotado. Quando finalmente a Astana esteve forte, sendo quase perfeita na táctica, e quando López fazia jus à alcunha de Super-Homem na penúltima subida do dia, lá veio o momento "kryptonite". Caiu na zona de terra, quando o temporal tornou a etapa ainda mais complicada. Perdeu uma vantagem de mais de meio minuto e na meta viu os três rivais passarem à sua frente. Está a 17 segundos de Quintana, mas a principal preocupação é saber se ficou bem fisicamente, pois estava a sangrar de um braço e pareceu estar mais "mal tratado" do que Roglic. A fechar o quarteto da frente está Alejandro Valverde a 20 segundos do companheiro/rival de equipa.

Está uma Vuelta animada ao fim da primeira semana. O quarteto de candidatos está mais do que formado, mas ficar-se-á à espera de ver se Pogacar mantém o nível e a UAE Team Emirates bem espera que sim, pois Fabio Aru afundou-se na classificação, ficando a mais de 35 minutos de Quintana.. O dia de folga acaba por chegar numa boa altura, principalmente para López, a precisar talvez de recuperar da queda. 

Há que aproveitar o descanso, pois terça-feira haverá o único contra-relógio da corrida. Na Vuelta o esforço individual não é tão valorizado pela organização como no Tour ou Giro. Contudo, dada a distância de 36,2 quilómetros, poderá ser um dia essencial para as pretensões de Roglic. Mesmo estando bem na montanha até agora, ganhar uma vantagem acima dos dois minutos na sua sua especialidade será importante para precaver alguma quebra, que sabe que pode acontecer, pois viveu essa experiência no Giro.



A Vuelta andará por França, com o contra-relógio a acabar em Pau, precisamente o local do mesmo tipo de etapa do Tour. Roglic é o favorito à vitória, mas na fase em que a Eslovénia é notícia, atenção a Pogacar, que tem qualidades de contra-relogista, sendo o campeão nacional, ainda que não tenha havido um confronto directo com Roglic.




Classificações completas, via ProCyclingStats.

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30 de agosto de 2019

Um filme que já se viu

(Fotografia: © La Vuelta)
Este é um filme já visto. Alejandro Valverde tem tendência a ser figura na Volta a Espanha. Começa forte, até ganha etapas, vai espreitando a liderança, mas acaba por ter o momento de quebra que o tira da luta e até do pódio. Talvez seja por isso que, apesar da exibição bem ao estilo do espanhol e de ter batido aqueles que são vistos como os dois principais candidatos, Miguel Ángel López e Primoz Roglic, a desconfiança mantém-se.

Nos 4,1 quilómetros de Mas de la Costa, com pendentes quase sempre acima dos 10% e com fases acima dos 20%, Valverde quase cedeu num dos ataques de Nairo Quintana, o seu companheiro da Movistar, ou provavelmente mais um rival. Porém, aguentou-se e nos metros finais, a 17%, ainda teve de preocupar-se um pouco com Roglic, mas não muito. Neste tipo de subidas, curtas e bem difíceis, nunca é bom para um ciclista ter Valverde a seu lado no momento de sprintar pela vitória.

Valverde começar a Vuelta forte não é novidade nenhuma. Esclarecido que está que é o espanhol o líder da equipa, pelo menos segundo Nairo Quintana, então fica afastado o suposto plano para o espanhol de perseguir etapas. Já tem uma e vai atacar a geral. Olhando para as edições mais recentes - não esquecendo que a Vuelta foi a única grande volta que Valverde ganhou, em 2009 - o ciclista andou a rondar a camisola vermelha, ainda que não a vista desde 2014, até que tem um ou dois dias em que deita tudo a perder (de recordar que falhou a edição de 2017 devido a lesão)

Talvez por isso, apesar da vitória de Valverde na sétima etapa (Onda - Mas de la Costa, 183,2 quilómetros), seja Primoz Roglic um dos focos de maior atenção. O líder da Jumbo-Visma foi o único a aguentar a pedalada final do espanhol, ainda que não tenha tido de capacidade de contrariar o rival no sprint até à meta. Mas ganhou seis segundos a Miguel Ángel López, mais seis de bonificação e na geral está a... seis do colombiano, que é novamente o líder da Vuelta.

Na terça-feira há um contra-relógio de 36,2 quilómetros que tem todas as características para que Roglic ganhe tempo à concorrência, ainda que no domingo haverá uma etapa muito complicada para os pretendentes à vitória na Volta a Espanha e pode ser muito importante para a classificação geral. López, Valverde e Quintana sabem que têm de ganhar tempo na montanha aos esloveno.

Nem Roglic, nem López têm o currículo de Valverde, mas são neste momento dois dos ciclistas em melhor forma e com equipas capazes de fazer a diferença. A Astana não tem andado muito bem nesta primeira semana de Vuelta, mas ainda há muita corrida pela frente.

Valverde ficou a 16 segundos de López, Quintana a 27. Rafal Majka (Bora-Hansgrohe) já está a 1:58 minutos e todos os outros estão a mais de 2:30. Uma etapa como a de domingo pode até mudar o panorama, mas o quarteto que está na frente dá indicações de estar demasiado forte para a concorrência. Eis o que espera aos ciclistas: duas primeiras categorias (a última a finalizar o dia), duas de segunda e uma de categoria especial em apenas 94,4 quilómetros, entre Andorra la Vella e Cortals d'Encamp.

Antes, este sábado, será o momento para preparar precisamente a difícil etapa de domingo, com uma tirada que até pode ser para os sprinters, caso passem a segunda categoria que termina a menos de 30 quilómetros da meta. Serão 166,9 quilómetros entre Valls e Igualada.

Será também uma boa oportunidade para Miguel Ángel López conseguir algo inédito para ele nesta Vuelta: aguentar mais do que um dia a camisola vermelha. É a terceira vez que a veste e nas duas anteriores perdeu no dia seguinte, muito porque a equipa não está interessada em ter de controlar a Vuelta desde tão cedo. Contudo, a não ser que uma fuga triunfe e alguém volte a tirar a liderança ao colombiano, a Astana poderá mesmo de ter de se preparar para tomar as rédeas no domingo. Dylan Teuns (Bahrain-Merida) teve o seu momento de glória, mas nem por um top dez irá lutar. Perdeu a vermelha e vai pensar em tentar ganhar uma etapa.

Quanto a Valverde, a ver vamos se encontra um final mais feliz na Vuelta para o filme que se tem repetido nos últimos anos. Para já, não há muita euforia em redor do espanhol.


Classificações completas, via ProCyclingStats.



29 de agosto de 2019

Movistar define líder. Quintana diz que não é ele

(Fotografia: © Sarah Meyssonnier/La Vuelta)
Estão esclarecidas as dúvidas na Movistar. Alejandro Valverde é o líder da equipa na Volta a Espanha. Com quase uma semana de corrida, o discurso inicial de apoio a Nairo Quintana e de que Valverde iria à procura de etapas pouco convenceu e agora é o colombiano quem admitiu publicamente que foi tomada a decisão de apostar no veterano espanhol.

"Tivemos uma reunião de equipa e o Eusebio [Unzué] decidiu. O Alejandro está muito bem e vamos apoiá-lo", afirmou Quintana, citado pelo As. De saída da Movistar é o derradeiro voltar de costas a um ciclista que chegou a ser o "menino de ouro" da equipa, mas que nos últimos dois anos viu a sua relação com o director desportivo Unzué deteriorar-se, assim como o seu estatuto na formação espanhola.

Quintana e Movistar têm estado cada vez menos em sintonia. Não conseguir ganhar o Tour ajudou a que o encanto pelo colombiano fosse ficando cada vez mais reduzido. No entanto, foi a aposta de Unzué em colocá-lo no Giro e Tour para tentar a dobradinha que ninguém consegue desde 1998, que acabou por precipitar o fim de uma relação que chegou a parecer ter tudo para ser de muito sucesso. Em 2017, Quintana perdeu o Giro no contra-relógio final para Tom Dumoulin e depois falhou por completo no Tour, nem finalizando no top dez. O chamado sueño amarillo tornou-se num autêntico pesadelo, com a família do ciclista a vir a público acusar Unzué de ter obrigado Quintana a fazer as duas grandes voltas.

Entretanto, Unzué fez tudo para contratar Mikel Landa, uma antiga paixão do director e que finalmente conseguiu convencer em assinar pela Movistar em 2018. Se Valverde nunca se afastou por completo do líder para as grandes voltas para abrir caminho a Quintana, como chegou a dizer, a chegada de Landa foi um claro sinal que Quintana nunca seria o líder máximo, apesar de ter ganho o Giro em 2014 e a Vuelta em 2016, além de outras conquistas importantes. Este tridente de grande qualidade individual, nunca funcionou colectivamente e só serviu para criar mais divisões internas. Este ano, Richard Carapaz confirmou credenciais ao vencer o Giro, enquanto Quintana voltou a não conseguir discutir o Tour.

Com as portas de saída escancaradas, Quintana vai aproveitar para mudar de ares. Parecia estar a caminho da Arkéa-Samsic, mas a UAE Team Emirates poderá permitir que o colombiano continue no World Tour. Independentemente da escolha, Quintana queria tentar sair em grande na Vuelta e conquistou uma grande vitória na segunda etapa, de uma forma que há muito não se via neste ciclista. Atacou, sem olhar para trás, sem medo e só com os olhos na meta. Arriscou e ganhou. Mas afinal, nem assim conseguiu impor-se. Valverde também tem andado ao ataque. Curiosamente foi sempre dizendo que era Quintana o líder, ainda que não parecesse. Há que não esquecer que Carapaz ficou fora da Vuelta devido a uma queda, mas nem assim o colombiano conseguiu o tão desejado estatuto.

A julgar pelas palavras de Quintana, o que se via na estrada era mesmo o que parecia: Valverde está a espreitar a geral e não apenas etapas. Já assim o tinha sido na edição passada na Vuelta. Valverde também acabou por querer ganhar a geral e a Movistar apoiou o espanhol que acabou por quebrar por completo.

"Vamos ver até onde chego. Olho dia-a-dia", desabafou ainda o colombiano, citado pelo As. No fundo, pouco muda. Quintana vai continuar por sua conta no adeus à Movistar - nenhum dos seus homens de confiança foi chamado para a Vuelta -, que também vai ver sair Mikel Landa (Bahrain-Merida) e provavelmente Richard Carapaz (estará em negociações com a Ineos).

Aos 39 anos, com camisola de campeão do mundo vestida, Valverde está a realizar uma das temporadas mais fracas de anos mais recentes. No entanto, continua e continuará sempre a ser o capitão da Movistar. Com a vitória no Giro de Carapaz, a equipa espanhola já tem 2019 feito relativamente a grandes voltas, mesmo sem Tour e mesmo que Valverde não consiga ganhar a Vuelta, o que até seria uma pequena surpresa. Mas em Espanha já se sabe: tudo é possível.

Valverde deixou garantias que tudo está bem na equipa: "As pessoas inventam problemas e não há nem 1% do que de diz. Só nós é que sabemos o que acontece dentro do autocarro da equipa." Já fora, todos viram como Valverde não teve problemas em atacar Quintana, quando o colombiano estava a apenas dois segundos da liderança. Também esta nunca foi uma relação fácil e a rivalidade interna continua, pelo menos nesta Vuelta. Em 2020 tudo mudará, pelo menos os protagonistas serão outros na Movistar.

»»EF Education First perde dois ciclistas e não ganhou para o susto com outros três««

»»De um incidente caricato ao momento mais esperado de uma carreira««

27 de agosto de 2019

Uma nova chegada em alto para ajudar a definir os candidatos

(Fotografia: © Sarah Meyssonnier/La Vuelta)
O pelotão aproveitou bem uma etapa que, apesar de não ser completamente plana, tinha um terreno mais simpático comparativamente com a maioria dos dias. Ainda houve uma tentativa de abanico por parte da EF Education First, mas ninguém importante ficou para trás (Wout Poels, da Ineos, já tinha saído da lista de candidatos logo na segunda tirada). Ass duas principais notícias do dia foram o abandono de Steven Kruijswijk e a vitória de Fabio Jakobsen, na sua estreia numa grande volta. Esta "calma", dentro do possível numa Vuelta, até se compreendeu tendo em conta que a primeira chegada em alto é já esta quarta-feira. É uma subida nova na Volta a Espanha e que ninguém terá vida fácil.

(Imagem: La Vuelta)
Com o contra-relógio por equipas a fazer mais diferenças do que o esperado, muito devido às quedas da Jumbo-Visma e UAE Team Emirates, e com a segunda etapa, de média montanha, também a ter algum impacto na geral, a meta no Alto de Javalambre, onde se situa o observatório astronómico, poderá começar a ajudar a definir de vez quem está em condições de discutir a Vuelta, mesmo que ainda se esteja numa fase tão inicial da prova.

É uma típica etapa desta grande volta, não muito longa - 170,7 quilómetros -, mas muito desgastante. A segunda categoria, logo nos primeiros quilómetros, será seguida de sobe e desce constante até à terceira categoria (ver gráfico em baixo). O pelotão poderá começar a partir muito antes dos 11,1 quilómetros finais, com uma média de 7,8% (imagem do lado direito). Não tem pendentes loucas, mas tem muitos quilómetros acima dos 10% e máxima de 16%.

Nesta fase da temporada as pernas pesam e mesmo os que apresentam uma boa forma e descansaram entre o Giro e Volta a Espanha, não deixam de estar numa fase final de temporada. Também por isso a Vuelta acaba por ser muito mais indefinida quanto a vencedores. Até a Jumbo-Visma, que se apresentou com um bloco fortíssimo, já sofreu uma baixa importante, consequência da referida queda. Steven Kruijswijk, líder a par de Primoz Roglic, abandonou. As dores no joelho não deixavam antever nada de bom quando as maiores dificuldades chegassem, pelo que o holandês jogou pelo seguro.

A quinta etapa também poderá ajudar a perceber precisamente como estão os blocos. A Astana não esteve bem na segunda tirada, enquanto a Movistar trabalhou um pouco, mais para Alejandro Valverde, com Nairo Quintana a surpreender ao fugir para ganhar a tirada. Na formação espanhola nunca se sabe muito bem o que esperar, pois Valverde poderá ir atrás da vitória, com 49 segundos a separá-lo da camisola vermelha de Nicolas Roche. Mas Quintana está a apenas dois segundos, mas já é difícil esconder - ou talvez já nem se tente fazê-lo - que é um homem algo isolado na Movistar.

Mas voltando à Astana, Miguel Ángel López começou bem a Vuelta, liderou, mas se no contra-relógio a equipa foi perfeita, na etapa em linha faltou mais união. Se López comprovar que está bem, Ion Izagirre terá de abdicar do seu objectivo pessoal. No segundo dia tentou atacar e depois quebrou quando o seu líder mais precisou dele. López também gostaria de ver Fuglsang mais próximo de si, mas o Tour pode prejudicar a força do dinamarquês, ainda que não o tenha terminado devido a queda.

Mas há uma equipa que está a gerar muita curiosidade. A EF Education First está a confirmar que o seu trio de colombianos foram a Espanha para lutar pela vitória. Daniel Martínez já perdeu 1:46 minutos, contudo, não é carta fora do baralho. Longe disso. Pode ser muito importante ao lado de Rigoberto Uran, terceiro, a oito segundos de Roche. Uran sofreu uma queda, mas aparentemente sem gravidade e tem outro ciclista que tanto o pode ajudar, como poderá lançar alguma "confusão" entre os adversários. É que Sergio Higuita não está a querer passar despercebido na sua estreia numa grande volta. 22 anos e tanto talento ainda por desenvolver.

Está a 37 segundos de Roche e é um trepador com muito potencial. Se este trio estiver bem, poderá ser o maior rival para a Jumbo-Visma de Roglic e para López e Quintana. Será que a Vuelta vai ser um esloveno entre colombianos?

Na Vuelta há tendência aos ciclistas apresentar-se mais livres de tácticas pré-definidas, o que potencia o espectáculo e uma luta mais acesa pela camisola vermelha. Não vai ser fácil para Roche mantê-la, já que terá de garantir que o líder da Sunweb, Wilco Kelderman, se mantém bem posicionado. Este holandês é sempre uma incógnita, mas foi em Espanha que se viu o seu melhor.

Se Fabio Aru (UAE Team Emirates) e Pierre Latour (AG2R) são dois ciclistas a não perder de vista, pelo que mostraram na segunda etapa, atenção à Bora-Hansgrohe. Discretamente Emanuel Buchmann foi somando resultados regulares no Tour e fechou na quarta posição. O mesmo poderá acontecer agora. Davide Formolo quer despedir-se em grande da equipa (está a caminho da UAE Team Emirates) e Rafal Majka é outro Kelderman. Pode fazer muito, mas tem ficado tantas vezes aquém. Mas foi na Vuelta que fez pódio em 2015. Ambos estão no top dez, a 46 segundos, e esta Bora-Hansgrohe não aposta apenas em Sam Bennett nos sprints. Agora também olha sempre para a geral.


Fabio Jakobsen já vence nas grandes voltas


(Imagem: La Vuelta)
A poucos dias de completar 23 anos, Fabio Jakobsen está a confirmar que é um sprinter de topo. Ou quase a lá chegar. Desde que na época passada venceu a clássica Danilith Nokere Koerse que o jovem holandês não parou de somar boas exibições. A Deceuninck-QuickStep deu-lhe a oportunidade de se estrear numa grande volta nesta Vuelta e logo com a camisola de campeão nacional, que vestiu no final de Junho. Sam Bennett foi demolidor no primeiro sprint, mas Jakobsen foi superior na segunda tentativa.

A preparação da equipa foi perfeita e Max Richeze fez um trabalho fantástico, numa altura em que faz as últimas corridas pela equipa, já que vai juntar-se a Fernando Gaviria na UAE Team Emirates na 2020. Mas o seu profissionalismo é intocável e abriu caminho a Jakobsen, enquanto Bennett errou na trajectória numa rotunda e até ficou perto de uma recuperação total, mas a quarta etapa foi para um holandês. Vencedor em Lagos na Volta ao Algarve é um ciclista que cada vez mais se espera que se junte rapidamente ao lote de luxo de nomes do sprint mundial como Dylan Groenewegen, Gaviria, Peter Sagan, Caleb Ewan... E claro, Elia Viviani, que na próxima época será um rival de Jakobsen, pois está de partida para a Cofidis. Como sempre, o director Patrick Lefevere tem uma nova estrela pronta a assumir protagonismo, quando uma sai da equipa belga.

Classificação completa, via ProCyclingStats.




»»Uma Vuelta muito irlandesa««

»»Eis Nairo Quintana!««

25 de agosto de 2019

Eis Nairo Quintana!

(Fotografia: © Sarah Meyssonnier/La Vuelta)
Lembra-se daquele Nairo Quintana que mexia com as corridas, arriscava, atacava sem ficar a olhar constantemente para trás? Aí está ele! Afinal ainda há algo do bom velho Quintana - salvo seja, já que só tem 29 anos - nesta versão que, em anos recentes, se deixou dominar mais pelo receio de perder do que optar por arriscar para tentar ganhar. A vitória na segunda etapa da Vuelta foi muito mais do que um triunfo, foi um aviso a todos que veio discutir a corrida. Aviso para os rivais e internamente, para a Movistar.

Não foi uma etapa de alta montanha - até o próprio admitiu ter ficado surpreendido por vencer numa tirada assim - e sim, os rivais da fuga ficaram literalmente a olhar uns para os outros, não se entendendo na perseguição a Quintana. Mas lá está, arriscou e ganhou. E ganhou mais do que uma etapa, ganhou uma palavra forte dentro de uma Movistar que já olha mais para 2020 sem Quintana do que em dar tudo nesta Vuelta para Quintana.

A prova que mais uma vez esta Movistar não está assim tão unida em redor de Quintana, foi a forma como Alejandro Valverde tentou mexer na corrida. Ataques para beneficiar ele próprio, não Quintana. Chegou a ver-se uma aceleração, com Nelson Oliveira a ter de trabalhar para Valverde, enquanto Quintana, um pouco mais atrás, teve de se desenrascar sozinho para não sair da frente da corrida. Valverde disse que ia à Vuelta para lutar por etapas. Até pode ser, mas esta forma de correr demonstra que coloca os seus objectivos à frente de uma possível conquista de Quintana, tal como em 2018. 

Amanhã tudo pode mudar, é certo. Quintana não tem sido o ciclista mais constante nas grandes voltas. Mas, no imediato, o colombiano venceu a etapa com categoria, ainda que as bonificações tenham dado a liderança a Nicolas Roche por dois segundos. Quintana pode até quebrar noutra etapa, numa de alta montanha, como tantas vezes se tem visto, mas esta foi uma mensagem forte do colombiano, talvez com vontade de sair da Movistar com um último impacto. Um daqueles que ninguém esquece. Para isso, terá de ganhar a Vuelta. Quer sair mostrando que ainda pode ser o Quintana que venceu o Giro em 2014 e a Vuelta em 2016. Quer sair mostrando ser o Quintana que tanto se pensou que seria o primeiro colombiano a ganhar o Tour. 

Isso já não será possível. Mas com 29 anos, custava pensar que o melhor deste ciclista já tinha passado. Talvez a perspectiva de sair da Movistar esteja a "acordar" Quintana. Mas ainda falta muita corrida e muita luta com rivais... e internamente.

Um suspiro de alívio para a Sunweb

(Fotografia: © Sarah Meyssonnier/La Vuelta)
Para uma equipa que de repente passa de um objectivo de consolidação em redor de Tom Dumoulin, para ter de reprogramar os seus projectos com a anunciada saída do holandês para a Jumbo-Visma, ver Nicolas Roche liderar a Vuelta é um momento importante de uma época muito aquém do esperado.  Apenas seis vitórias, ainda que uma no Giro, por Chad Haga (contra-relógio final) e sem grande expectativa de ver o palmarés aumentar muito mais até ao final de 2019.

Porém, enquanto a Sunweb vai repensando a sua estratégia para 2020, Nicolas Roche tenta, aos 35 anos, saborear um momento que repete seis anos depois. É a segunda vez que o irlandês veste a camisola vermelha da liderança na Volta a Espanha e o que mais deseja é tentar assim permanecer mais do que um dia, o tempo que durou em 2013.

Numa segunda etapa com alguma montanha (Benidorm - Calpe, 199,6 quilómetros), a segunda categoria, a cerca de 30 quilómetros do final, partiu por completo o pelotão, eliminou os sprinters e proporcionou que alguns dos candidatos tentassem recuperar o tempo perdido no acidentado contra-relógio inicial. Assim foi com Primoz Roglic (Jumbo-Visma) e Fabio Aru (UAE Team Emirates) e foi muito animador ver o italiano mostrar-se em forma depois da complicada temporada que teve até ao momento, não esquecendo que foi dos que caiu no sábado.

O que não foi tão animador foi ver a Astana. Miguel Ángel López está bem, é certo. Não surpreende que tenha perdido a camisola vermelha, já que seria um desgaste grande ter de controlar uma Vuelta desde tão cedo. No entanto, perdeu 33 segundos muito por culpa da falta de ajuda dos companheiros. Os que trabalharam mais cedo, quebraram na referida subida, o que era expectável. O problema é que Jakob Fuglsang comprovou que não vai lutar pela geral e quer "rodar" para os Mundiais e Ion Izagirre atacou a pensar no seu resultado e não no de López. O espanhol poderá não conseguir esconder a frustração de não ter recebido uma liderança numa grande volta nesta sua mudança para a Astana.

Classificações completas, via ProCyclingStats.

3ª etapa: Ibi. Ciudad del Juguete - Alicante (188 quilómetros)


Senhores sprinters, eis a vossa oportunidade. Não são muitos, com destaque para Sam Bennett (Bora-Hansgrohe), Fabio Jakobsen (Deceuninck-QuickStep), Luka Mezgec (Mitchelton-Scott) e, claro, Fernando Gaviria (UAE Team Emirates). Porém, não será uma etapa nada plana, inclusivamente com duas terceiras categorias já na segunda metade do dia. Caso algum descole, fica a consolação que ainda poderá ter tempo de chegar à frente da corrida.




»»Início muito acidentado de Vuelta««

»»Os portugueses na Vuelta««

22 de agosto de 2019

A Vuelta da América Latina perde uma das principais figuras

(Fotografia: © Giro d'Italia)
Fica completa uma estranha coincidência que privou as grandes voltas do provável candidato mais favorito. Devido a quedas, o Giro não teve Egan Bernal, o Tour Chris Froome e na Vuelta não se verá Richard Carapaz, o vencedor da Volta a Itália e que fez dele o homem a ter em atenção na corrida que arranca no sábado. E numa Vuelta na qual pode ser feita um pouco mais de história num 2019 marcante para o ciclismo, perder Carapaz é um rude golpe, mas não significa que não possa ser feito o pleno de corredores latinos ganharem as três grandes.

Carapaz tornou-se no primeiro equatoriano a venceu uma grande volta. Seguiu-se Bernal (Ineos) que finalmente concretizou o sueño amarillo colombiano no Tour e quem poderá ser o senhor que se segue na Vuelta? Candidatos não faltam. Carapaz vai assistir de longe devido a uma lesão no ombro, contraída no domingo, numa queda durante uma prova na Holanda. Segundo o jornal As participou a título pessoal. A Movistar chamou o experiente José Joaquín Rojas, substituindo um líder por um homem de trabalho. Nairo Quintana não deverá importar-se.

E entre os candidatos da América Latina, Quintana tem de ser um deles, mesmo que cada vez convença menos. O seu ciclo na Movistar está a chegar ao fim, apesar de ainda não ter confirmado que equipa vai representar em 2020 (muito se fala da Arkéa-Samsic). Venceu a Vuelta em 2016, numa altura em que tudo se esperava deste ciclista, mas que aos 29 anos está a ver a carreira passar sem se afirmar como um dos grandes voltistas da história. Não perdeu qualidade, mas há muito que não se vê aquele Quintana capaz de deixar qualquer um para trás. Uma mudança de ares poderá fazer-lhe bem, mas para já, é na Movistar que vai tentar afastar a desconfiança que se instalou num favoritismo cada vez mais reduzido.

Sem Carapaz, Quintana perde a mais forte concorrência interna, mas ainda tem Alejandro Valverde (diz que vai à procura de etapas, contudo, também há um ano seria o objectivo e depois bem tentou liderar a corrida) e um Marc Soler que não vai querer continuar a adiar um maior protagonismo dentro de uma equipa em remodelação para 2020 e com espaço para ter Soler num papel mais relevante.

Com a exclusão de Carapaz, a América Latina ficou reduzida à Colômbia. O próximo nome na lista de candidatos do país é Miguel Ángel López. Aos 25 anos vai para a sua quarta Vuelta, na qual já foi terceiro em 2018. No Giro teve exibições em que falhou, depois melhorou substancialmente e acabou a ser atirado ao chão por um adepto. López e a Astana apostam muito nesta Vuelta, sendo uma das equipas mais fortes: os irmãos Izagirre, Luís León Sánchez, Omar Fraile, Dario Cataldo, Manuele Boaro e Jakob Fuglsang. A dúvida é se o dinamarquês, que abandonou no Tour devido a queda, vai também ele atrás de um bom resultado na Vuelta. E depois, como irá enfrentar a corrida Ion Izagirre? No início da época disse que seria a sua volta seria em Espanha, após trabalhar para López no Giro.

Johan Esteban Chaves é uma enorme incógnita. Ele próprio o assume, esperando que a sua carreira possa ser revitalizada depois de um 2018 para esquecer devido a uma mononucleose. A vitória na 19ª etapa no Giro foi um momento muito importante para o ciclista, que quer agora disputar novamente uma grande volta que, não há muito tempo, se pensaria que poderia ganhar, mais cedo ou mais tarde. Há um ano a Mitchelton-Scott venceu com Simon Yates, que fica de fora, após estar no Giro e Tour. 2019 é o ano para a equipa australiana saber se consegue ou não recuperar Chaves. Corrida muito importante para o futuro do ciclista.

E depois há o trio maravilha da EF Education First. Rigoberto Uran parte como líder, mas é impossível negar que é Daniel Martínez e Sergio Higuita que mais se quer ver. Martínez falhou o Tour devido a lesão e irá fazer a sua estreia na Vuelta. Tem 23 anos e um potencial tremendo. A equipa americana não o deverá prender ao trabalho de gregário e se estiver em forma, este é um ciclista que irá dar espectáculo. Se Uran conseguir manter-se na frente da corrida, Martínez até poderá procurar mais etapas do que pensar na geral. É um dos jovens colombianos que mais entusiasma além de um ausente Egan Bernal, vencedor do último Tour.

Higuita tem 22 anos e chegou à equipa já com a temporada a decorrer, depois de uma fase de adaptação à Europa na Fundação Euskadi. E passou por Portugal: ganhou uma etapa na Volta ao Alentejo. Na sua primeira corrida pela EF Education First, a Volta a Califórnia, só foi batido por Tadej Pogacar (UAE Team Emirates). Será uma Vuelta para aprender e habituar-se aos grandes palcos. No entanto, cuidado com este jovem. É mais uma prova que na Colômbia os talentos não param de aparecer.

John Darwin Atapuma (Cofidis) pode ter passado ao lado de uma carreira bem melhor. Mas aos 31 anos ainda quer mostrar que pode deixar a sua marca e principalmente quer quebrar o enguiço dos segundos lugares nas etapas. Sergio Henao (UAE Team Emirates) deverá ter de ficar ao lado de Fabio Aru, mas Fernando Gaviria, o colombiano sprinter, vai atrás de etapas para salvar uma temporada em que desiludiu e marcada por uma lesão. Juan Sebastián Molano será o plano B para os sprints e o lançador do compatriota. Sergio Henao estará dedicado ao trabalho na Ineos.

É uma pena Richard Carapaz ficar de fora da Vuelta, mas a senda latina de 2019 tem muitas hipóteses de ficar completa na Vuelta, depois de em 2018 terem sido três ciclistas britânicos a ganharem as grandes voltas: Chris Froome, Geraint Thomas e Simon Yates.

No entanto, a armada colombiana terá concorrência, que será apresentada no texto desta sexta-feira.