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7 de maio de 2021

Sam Bennett é o rei dos sprints na Volta ao Algarve

© João Fonseca Photographer

A velocidade com que o pelotão sprintou na Avenida Zeca Afonso até causa arrepios na pele. É simplesmente impressionante ver como alguns dos melhores do mundo se lançam naqueles metros finais e quando parece que é impossível ir mais rápido, Sam Bennett ainda tem mais uma mudança para meter! É certo que na televisão se vê bem melhor, mas é ao vivo que melhor se percebe e se sente o que é um sprint, dos riscos que os ciclistas correm... e da adrenalina!

Em Tavira, a tradição cumpriu-se. Houve fuga, pois claro, mas com uma Ineos Grenadiers a proteger o camisola amarela, Ethan Hayter, e com a Deceuninck-QuickStep a trabalhar para Bennett e a Bora-Hansgrohe para Pascal Ackermann (foi uma Volta ao Algarve longe do esperado para o sprinter alemão), não restava dúvidas como seria o final.

A equipa belga já se sabe: faz do sprint uma arte. E foi de tal maneira avassaladora que um dos melhores lançadores do pelotão, Michael Morkov, trabalhou para Bennett e depois aproveitou para ser terceiro. Danny van Poppel (Intermarché-Wanty-Gobert Matériaux) teve de se contentar com o segundo lugar, tal como em Portimão.

Para o irlandês significou a segunda vitória em dois sprints no Algarve e ficar muito perto de garantir a classificação dos pontos (camisola verde). E já são sete triunfos em 2021.

"Foi um dia mais difícil do que o esperado, sobretudo, pelo calor. Na semana passada treinava à chuva, com sete e oito graus e, por isso, não me senti muito bem ao longo da etapa. Na verdade, mesmo tendo competido no UAE Tour esta foi a primeira corrida do ano com calor a sério", referiu Bennett. Quanto ao sprint, explicou: "A aproximação à meta foi bastante rápida. As restantes equipas entraram com os seus líderes bem posicionados na última curva, não estava na posição ideal, mas o arranque do Michael [Morkov] abriu o espaço necessário e lançou-me para o sprint. É uma vitória importante mas devo-a aos meus colegas."

Também os portugueses repetiram a dose no top dez. Rui Oliveira (UAE Team Emirates) foi desta feita o melhor dos ciclistas lusos, com o oitavo lugar. Iúri Leitão (Tavfer-Meadinsot-Mortágua) ficou em nono, depois do espectacular quinto lugar na estreia na Volta ao Algarve.

Foi o dia mais longo (203,1 quilómetros entre Faro e Tavira), o mais quente (e mesmo bem quentinho), com os homens da geral a quererem evitar qualquer problema, já que no fim-de-semana há o contra-relógio de Lagoa e a etapa do Malhão. Iván Ramiro Sosa (Ineos Grenadiers) e Luís Fernandes (Rádio Popular-Boavista) ainda apanharam um susto ao ficarem envolvidos numa queda, mas sem consequências para a classificação geral, com ambos a continuarem entre os dez primeiros.

A etapa correu como era esperado. O sprint foi espectacular, mas agora o que mais se quer são as decisões finais, quando há três ciclistas empatados em tempo: Ethan Hayter (Ineos Grenadiers) - o camisola amarela e vencedor no Alto da Fóia - João Rodrigues (W52-FC Porto) - segundo na geral e líder da montanha - e Jonathan Lastra (Caja Rural). E entre o primeiro e o 19º - Sean Quinn (Hagens Berman Axeon), líder da juventude -, são 48 segundos a separá-los.

Classificações completas, via ProCyclingStats.

4ª etapa: Lagoa-Lagoa (20,3 quilómetros), contra-relógio individual



É o tradicional percurso onde em 2020 Remco Evenepoel venceu e garantiu a vitória na Volta ao Algarve. Desta feita o contra-relógio surge antes da etapa do Malhão, com as habituais dificuldades, num percurso técnico, com muitas fases de quebra de ritmo... mas com uma paisagem lindíssima que fica para quem está em casa a assistir apreciar.

Veja aqui a ordem de partida. O top dez - começa a ir para a estrada às 17:02.

»»Ethan Hayter, mais um jovem ciclista a conquistar o Alto da Fóia««

»»Queda estraga planos a portugueses. Sam Bennett confirma favoritismo««

5 de maio de 2021

Queda estraga planos a portugueses. Sam Bennett confirma favoritismo

© Federação Portuguesa de Ciclismo
Num sprint técnico, a alta velocidade - pois claro - com muitos ciclistas a procurarem a melhor posição, seja para discutir a vitória, seja para evitar surpresas, por vezes o pior acontece. A Volta ao Algarve tem mais um grande sprinter a inscrever o seu nome como vencedor de uma etapa. Contudo, a vitória de Sam Bennett (a sexta na temporada) acabou marcada por uma queda ainda antes dos três quilómetros finais, o que significou que quem ficou para trás, ficou com tempo para recuperar na geral. O companheiro do irlandês da Deceuninck-QuickStep, Kasper Asgreen, foi um dos afectados, assim como dois dos portugueses que apresentam melhor forma neste arranque de temporada por cá: Frederico Figueiredo (Efapel) e Tiago Antunes (Tavfer-Meadinsot-Mortágua).

Perderam 39 segundos, 1:01 minutos e 4:31 respectivamente, o que no caso dos dois ciclistas lusos poderá significar mudar o pensamento para procurar entrar em fugas e tentar disputar uma vitória de etapa, caso a queda não deixe consequências físicas. A etapa parecia até estar a ser relativamente calma, mas houve mais algumas quedas que foram a imagem de algum natural nervosismo neste tipo de finais.

Foram 189,5 quilómetros entre Lagos e Portimão, que este ano inverteram a recepção da partida e chegada. Carlos Canal (Burgos-BH), Jon Irisarri (Caja Rural-Seguros RGA), Gustavo César Veloso (Atum General-Tavira-Maria Nova Hotel), Hugo Nunes (Rádio Popular-Boavista) e Cesar Nicolas Paredes (Louletano-Loulé Concelho) integraram a fuga, a Deceuninck-QuickStep cedo mostrou que mais uma vez está no Algarve para vencer. E alguma vez se viu esta equipa ir a uma corrida sem este objectivo?

O aumento de ritmo, o final que requeria muita atenção, aumentou o tal nervosismo no pelotão. Nos metros decisivos, Sam Bennett ainda viu Danny van Poppel (Intermarché-Wanty- Gobert Matériaux) cumprir o esperado e tentar chegar à primeira vitória do ano da equipa que subiu a World Tour em 2021. Mas o irlandês está simplesmente muito forte.

© João Fonseca Photographer
Na perspectiva portuguesa, o destaque vai para Iúri Leitão. Regressou a uma equipa portuguesa, representando a Tavfer-Meadinsot-Mortágua, agora na elite nacional. O campeão europeu de pista, no scratch, teve uma estreia auspiciosa na Volta ao Algarve. Quinto classificado! O vianense sempre diz que quer ser um sprinter, tem orientado a sua ainda curta carreira nesse sentido e aos 22 anos pode orgulhar-se que obteve um excelente resultado numa etapa ganha por um dos melhores sprinters do mundo.

Para estes ciclistas segue-se a tirada de Tavira na sexta-feira, mas antes... Fóia! Com Sagres a ser o palco do arranque (12h45, partida simbólica), depois da meta volante em Aljezur, a primeira dificuldade surge ainda antes dos 50 quilómetros, com a subida de Marmelete. Sempre em terreno de sobe e desce, serão os últimos 30 quilómetros que vão testar o pelotão. A meta coincide com um prémio de montanha de primeira categoria, a subida de Monchique até à Fóia (7,5 km com 7,3% de inclinação média).

Porém, a 6,2 quilómetros do início da subida da Fóia os atletas passarão pela Pomba, subida de segunda categoria com 3,6 quilómetros e uma pendente média de 8,2%. A terceira categoria, em Alferce (5,7 km a 6,2%), a 26,4 quilómetros da chegada marca o arranque da fase dura da jornada.

Quanto às camisolas, Sam Bennett vestirá a amarela de líder da geral, sendo também dona da verde (pontos), que irá ser envergada por "empréstimo" por Danny van Poppel. Jon Irisarri (Caja Rural) foi o primeiro na única subida categorizada do dia e fica assim com a azul da montanha, enquanto o melhor jovem (camisola branca) é Jarrad Drizners, australiano da Hagens Berman Axeon. A UAE Team Emirates de Rui Costa e dos gémeos Oliveira lidera por equipas.

Classificações completas, via ProCyclingStats. Sérgio Paulinho (LA Alumínios-LA Sport) e Edwin Ávila (Burgos-BH) foram os primeiros abandonos da prova.

2ª etapa: Sagres-Fóia (182,8 quilómetros)



»»Volta ao Algarve espera por um novo vencedor««

29 de outubro de 2020

Ackermann alerta que factor económico faz ciclistas correrem mais riscos

© Photo Gomez Sport/La Vuelta
Estava a Deceuninck-QuickStep a celebrar a sua 100ª vitória numa grande volta e Sam Bennett e 50ª na carreira, quando os comissários sancionaram o irlandês por sprint perigoso. Pascal Ackermann foi declarado o vencedor da nona etapa, em mais um incidente neste tipo de chegadas. O alemão não considera que as corridas estejam a ficar mais perigosas. Porém, diz que algum excesso de agressividade pode estar relacionado com toda a situação que actualmente se vive e que, economicamente, está a colocar ainda mais pressão em vários ciclistas, a precisarem de resultados.

O próprio Ackermann foi desclassificado em Scheldeprijs depois de uma mudança de trajectória que provocou uma queda grave no lançamento do sprint. Contudo, 2020 ficou muito marcado pelo incidente entre Dylan Groenewegen (Jumbo-Visma) e Fabio Jakobsen (Deceuninck-QuickStep) na Volta à Polónia, que deixou o último com sequelas que ainda se desconhece qual será o seu futuro na modalidade.

"As corridas estão a ficar mais difíceis e os finais também. Todos os ciclistas estão um pouco cansados no final [de época]. A situação do covid-19 não está a facilitar as coisas porque há muitos ciclistas sem contrato [para a próxima temporada] e isso fá-los correr mais riscos. Estão todos a lutar por emprego", referiu Ackermann após o sprint que terminou com Bennett a ver-lhe ser retirada a vitória na nona etapa (Castrillo del Val - Aguilar de Campoo (157,7 quilómetros).

O irlandês - que venceu a quarta tirada da Vuelta - encostou o ombro por duas vezes em Emils Liepins (Trek-Segafredo) e os comissários consideraram agressividade excessiva, ou seja, um sprint perigoso (ver vídeo em baixo). Além de ter sido relegado para a 110ª posição, foi multado em 500 francos suíços, cerca de 468 euros.

Sam Bennett salientou como tentaram encostá-lo às barreiras, juntamente com o seu lançador, mas não se livrou da sanção. Ackermann recordou precisamente o que lhe aconteceu em Scheldeprijs, considerando que os ciclistas têm de ser mais justos entre eles. "Consigo compreender que os ciclistas estejam a lutar um pouco mais, porque todos os resultados são tão importantes este ano", desabafou, citado pelo Cyclingnews.

O alemão conseguiu assim dar uma vitória à Bora-Hansgrohe ao sprint, sendo a sua sétima em 2020, um ano em que tem somado alguns segundos e terceiros lugares. Não está a ser o sprinter avassalador das duas últimas temporadas, pelo que o triunfo na Vuelta o deixa um pouco mais descansado, pois sobrou-lhe apenas a Volta a Espanha entre as provas de três semanas, depois de Peter Sagan ter ficado com o Tour e Giro, ainda que a Volta a Itália tenha este ano coincidido com a prova espanhola.

Classificações completas, via ProCyclingStats.

10ª etapa: Castro Urdiales - Suances, 185 quilómetros

A tirada desta quinta-feira foi uma quase sem história, tirando o sprint final. Sem montanhas, todos aproveitaram para recuperar forças, mesmo as equipas dos sprinters, que colaboraram entre si para controlar a fuga.

Esta sexta-feira, nas vésperas de um fim-de-semana muito, muito complicado - teremos Angliru no domingo - há uma terceira categoria de 4,3 quilómetros, com uma pendente média de 5%. Pode ser um ponto para animar a etapa, principalmente entre aqueles que pretendam deixar os sprinters para trás. Além disso, pouco antes da meta há uma curta subida a 5% que irá dificultar a missão dos sprinters mais puros.

»»Roglic irresistível (e Carapaz não lhe fica atrás)««

»»Como controlar na Volta a Espanha? A pergunta de difícil resposta««

23 de outubro de 2020

Vuelta também perde a sua grande etapa em território francês

© Unipublic/Charly López/La Vuelta
O Tour conseguiu concretizar o seu percurso em território nacional, mas a intenção do Giro e da Vuelta de visitarem França para terem etapas que prometiam ser fenomenais, foi arruinada pela pandemia. Primeiro foi a Volta a Itália que foi forçada a mudar a tirada deste sábado devido às restrições impostas numa das regiões por onde iria passar. Agora é a Volta a Espanha que reformulou o percurso de domingo, perdendo-se assim a chegada ao mítico Tourmalet.

Em França, as restrições para fazer face à pandemia têm aumentado, tal como está acontecer em muitos outros países. O ciclismo luta por conseguir concluir o seu calendário, já por si muito encurtado devido ao cancelamento de várias corridas. A Volta a Itália está prestes a conseguir chegar a Milão no domingo e finalizar a prova, em Espanha vive-se um dia de cada vez, sabendo que o risco de haver um cancelamento é muito real, ainda mais estando o pelotão num dos países europeus com mais casos.

A organização anunciou que não seria permitido público nas subidas, algo que se comprovou nas primeiras três etapas e é uma medida para continuar. Porém, teve de se submeter as regras impostas em França e os ciclistas não podem passar nas zonas previstas. 

A etapa começará em Biescas (região de Aragão) como previsto, mas passará a ter 146,4 quilómetros, mais dez do que a versão inicial. Porém, perde dificuldade. O percurso inclui agora a subida de terceira categoria ao Alto de Petralba, a de segunda no Alto de Cotefablo, regressará a Biescas, antes da última ascensão, em Aramón Formigal. Esta subida é de primeira categoria.

No trajecto originalmente desenhado estavam incluídos, além do Tourmalet, o Col du Portalet e o Col de l'Aubisque. Ou seja, duas categorias especiais e uma primeira (Portalet).

Este é o novo perfil de etapa.

Este é o antigo.

Com tanta montanha para enfrentar, muitos ciclistas nem deverão queixar-se da mudança, numa Vuelta marcada por etapas muito rápidas, que já levaram a alguns possíveis candidatos a perderem tempo, ou mesmo a abandonarem. Esta sexta-feira foi a vez de Daniel Martínez deixar a corrida. O colombiano caiu na primeira etapa e despediu-se assim da EF Pro Cycling, pois em 2021 irá reforçar a Ineos Grenadiers. Simon Geschke (CCC) também já foi para casa, com a lista de abandonos a crescer. Só a AG2R já perdeu três atletas: Mathias Frank, Alexandre Geniez e Axel Domont.

Quanto à quarta etapa, houve finalmente descanso na montanha, ainda que o dia tenha sido de nervos, pois foi preciso muito atenção para evitar surpresas com o vento. No sprint, Sam Bennett (Deceuninck-QuickStep) segue a sua senda de vitórias em grandes voltas. Depois do Tour, venceu na Vuelta. Os gémeos Oliveira prepararam o sprint para Jasper Philipsen e o belga da UAE Team Emirates obrigou Bennett a esforçar-se para vencer.

Duas vitórias irlandesas consecutivas na Vuelta, depois de na quinta-feira Daniel Martin (Israel Start-Up Nation) ter ganho.

5ª etapa: Huesca - Sabiñánigo, 184,4 quilómetros

Os sprinters regressam ao modo de sobrevivência. Fase final muito complicada, ainda mais se se mantiver a tendência de se andar muito rápido nesta Volta a Espanha.

Classificações completas, via ProCyclingStats.

»»A importância da força mental««

»»Duas etapas e há quem só pense em tentar chegar a Madrid««

20 de setembro de 2020

As equipas do Tour uma a uma

Tivemos Volta a França! Depois de tanta incerteza e de tanto as equipas desejarem terem um Tour para salvar uma temporada que a pandemia ameaça tornar perdida, a corrida realizou-se mesmo, com um ou outro sobressalto, como os cinco casos positivos no primeiro dia de folga e os dois membros de staff mandados para casa pela Lotto Soudal ainda antes da prova. Porém, foi possível o destaque ser a competição. Não foi um Tour tão emocionante como o de 2019, mas contra-relógio final valeu uma Volta a França. Recordaremos aquela exibição de Tadej Pogacar durante anos e anos. Foi uma performance para a história de um jovem que esta segunda-feira vai celebrar 22 anos.

Como sempre, há aspectos positivos e negativos. Aqui ficam as prestações das equipas uma a uma, com a classificação por equipas a determinar a ordem. E lá aparece a Movistar a liderar, com Nelson Oliveira a somar mais uma subida a um pódio de uma grande volta.

Próxima paragem nas grandes voltas: Volta a Itália, de 3 a 25 de Outubro.

Classificações completas, via ProCyclingStats.

Movistar: Está em fase de renovação e está a ser lenta. Ainda assim, Enric Mas acabou por fazer um bom Tour, fechando num excelente quinto lugar, a 6:07 minutos de Pogacar. O espanhol foi crescendo de forma, manteve-se sempre muito discreto, mas de olhos postos num bom resultado. Falta é equipa. Alejandro Valverde também quase não se viu, contudo, um desastroso contra-relógio tirou-lhe o que seria mais um top dez. Mas lá está, não trabalha para companheiros. A equipa acaba por ganhar a classificação colectiva, o que é algo habitual, mas, mais uma vez, não apaga que a Movistar precisa de mais e melhor, com Mas a salvar a honra. Mas a equipa nem uma etapa ganhou. Nelson Oliveira cumpriu com a sua função e não é por acaso que continua a ser um dos gregários que os responsáveis não abdicam.

Jumbo-Visma: Que Tour tão amargo! A Jumbo-Visma tirou a Ineos Grenadiers do pedestal e terminou com a era Sky/Ineos. Porém, não conseguiu substitui-la como a força vencedora. A equipa holandesa foi a mais forte, mas também mostrou falhas - deveria ter ganho mais tempo na montanha, tal era a diferença para as outras equipas -, que não foram mais graves porque tinha um líder, Primoz Roglic, também ele forte. Ou seja, foi uma equipa completa. Uma das falhas acabou por ser a falta de maior controlo a Pogacar. Custou caro.

É inevitável destacar três ciclistas, além do esloveno. Sepp Kuss está feito num gregário de luxo aos 26 anos e já começa a pedir mais do que um papel secundário. Dumoulin foi um senhor. Não era o objectivo, mas o holandês sacrificou-se por Roglic. A ideia da equipa era tê-lo preparado para entrar na luta pela amarela, mas quando a equipa funcionou pior, Dumoulin fez tudo para ver Roglic ganhar. O sétimo lugar é uma recompensa, mas este Dumoulin já deixa antever um regresso aos melhores tempos.

Por fim, Wout van Aert. É um ciclista a quem faltam adjectivos para o elogiar. Venceu duas etapas, se calhar até poderia ter ganho mais e até a camisola verde, mas sempre disse que estava no Tour para ajudar Roglic. E que ajuda deu! Acabou por ser dos mais importantes na montanha, quando se esperaria que fosse dos primeiros a acabar o trabalho nas etapas. Afinal, foi dos últimos. Lealdade suprema, qualidade que nunca mais acaba, foi um super Van Aert, que está muito ganhador em 2020, mas que é também um verdadeiro homem de equipa.

Quanto a Roglic, esteve praticamente sempre bem e venceu uma etapa. Foi autoritário, foi somando bonificações que pareciam estar a ser tão importantes. Mas as forças faltaram-lhe quando 57 segundos de vantagem deveriam ter garantido o Tour, que a Jumbo-Visma esperava ser o culminar do trabalho feito nos últimos anos para se tornar numa potência. Há que perceber o que aconteceu, levantar a cabeça e tentar de novo.

Bahrain-McLaren: O quarto lugar de Mikel Landa (a 5:58) foi um menos mal para um espanhol que desiludiu como líder. É a segunda vez que fecha nesta posição - na outra foi como gregário da Sky -, mas tendo em conta que sempre assumiu que olhava para a vitória, ou pelo menos para o pódio, houve pouco Landa. Nem no dia em que a equipa tão bem preparou o seu ataque, o fez. 24 horas depois atacou só para mostrar que estava presente. Deveria ter mostrado muito mais. Mas a Bahrain-McLaren teve uma prestação colectiva muito positiva e ainda colocou Damiano Caruso no 10º lugar.

EF Pro Cycling: Tour de altos e baixos. Um última semana menos boa tirou o pódio a Rigoberto Uran (terminou em oitavo, a 8:02). Uma sequência de quedas, a começar no Critérium du Dauphiné e que continuaram no Tour, tiraram Sergio Higuita da corrida. Daniel Martínez desiludiu na geral, mas foi dele o momento alto, ao ganhar uma etapa, em Pas de Peyrol. Neilson Powless esteve em bom plano nas fugas, já Hugh Carthy esteve aquém do esperado e Tejay van Garderen esteve na corrida (caso não não se saiba!), mas o americano esteve completamente apagado. Ainda assim, Tour positivo para a EF Pro Cycling dada as armas que tinha e os azares que teve com Higuita.

Ineos Grenadiers: Os tempos da Sky terminaram, mas a nova era da equipa britânica, apostando de uma vez por todas nos seus jovens na Volta a França e deixando Chris Froome Geraint Thomas de fora, não correu nada bem. Egan Bernal esteve longe do seu melhor e nem terminou a corrida. Que estranho foi ver o colombiano sofrer tanto nas montanhas, mas melhores tempos virão para este fenomenal ciclista. A equipa também se pode queixar de muitos infortúnios. Pavel Sivakov e Andrey Amador começara o Tour a cair duas vezes no primeiro dia, Sivakov ainda voltou a sofrer incidentes, o que o limitou na missão de estar ao lado de Bernal. Richard Carapaz acabou por ser o maior destaque, mas perdeu a camisola da montanha no contra-relógio para um super Pogacar. Para a Ineos Grenadiers valeu aquele momento em que Carapaz e Kwiatkowski trabalham juntos numa fuga para cortar a meta lado-a-lado, com vitória para o polaco. Porém, perante os objectivos, esta foi uma Volta a França para esquecer... ou, se calhar, para aprender.

Trek-Segafredo: Não foi uma corrida fácil, mas no final houve uma compensação já merecida para Richie Porte. Foi dos anos em que melhor surgiu, talvez só comparável a 2016 e em 2017, neste último em que parecia estar fortíssimo, mas sofreu uma queda que lhe acabou com a temporada. O australiano assumiu que era a última vez que seria um líder no Tour e isso até parece lhe ter retirado alguma pressão, curiosamente. Talvez por achar que já não tinha nada a perder, esteve audaz, de olhos na frente da corrida. Porém, acontece sempre algo a Porte. Perdeu tempo na etapa do vento e na última de montanha teve um furo numa zona de sterrato, onde teve de pedalar com pneu em baixo enquanto não chegava ajuda. No final, no contra-relógio, tudo se compôs. O pódio assenta-lhe bem por tudo o que fez na sua carreira, de super gregário a um líder a quem escapava um bom resultado numa grande volta. Falta-lhe ainda a etapa. Bauke Mollema não terminou a corrida, o que terá tirado a Trek-Segafredo a possibilidade de alcançar algo mais. Mas com Porte no pódio a nota só podia ser muito positiva.

Astana: Ai Miguel Ángel López! Grande vitória de etapa, para depois estragar tudo com um contra-relógio de baixo nível, que lhe custou o pódio e até o top cinco (foi sexto). Mas a Astana pode ainda queixar-se que teve ciclistas abaixo do desejado (os irmãos Izagirre, por exemplo, com Ion a abandonar a meio devido a uma queda), que pouco ajudaram o colombiano na montanha. Ficou sozinho muito cedo quase sempre, com o estreante Harold Tejada até a ser dos que mais acompanhou López. Alexey Lutsenko fez a sua corrida, como era de esperar, porque também garante resultados. Uma vitória de etapa e missão cumprida. Tour com um lado positivo, mas a podia ter sido bem melhor. López tem de trabalhar mais o contra-relógio. Bem precisa se quiser ganhar uma grande volta.

AG2R: Romain Bardet queria etapas, acabou por perceber que poderia lutar por um bom lugar na geral, mas caiu na etapa que terminava onde tanto treina e abandonou. Pierre Latour também não terminou. Nans Peters salvou a equipa terminar um Tour de mãos a abanar, algo que seria muito mau tendo em conta que é uma das principais equipas francesas. A vitória na oitava etapa (grande exibição de Peters) foi o ponto alto e o que AG2R terá para recordar no Tour em que se despediu de Bardet e Latour (nesta corrida). Ambos estão a caminho de novos projectos - Sunweb e Total Direct Energie, respectivamente - e a equipa está de facto a precisar de algo novo.

UAE Team Emirates: Não foi a equipa para apoiar um líder candidato a vencer o Tour, mas acaba com resultados fenomenais. Tadej Pogacar resolveu muito sozinho, é certo, mas David de la Cruz merece uma menção, pois foi um dos muitos ciclistas que começou a corrida a cair e quando recuperou fez o que pôde para estar ao lado do esloveno. Os restantes também fizeram o possível, mas há que melhorar a qualidade em redor de Pogacar rapidamente, ainda mais agora que é o vencedor de um Tour e logo na estreia. Fabio Aru nem acabou a prova e deixou a equipa algo irritada. Mas no final, interessam os números: vitória na geral, na montanha e na juventude. Pogacar venceu três etapas e Alexander Kristoff ganhou logo a primeira, vestindo a amarela pela primeira vez na carreira. Mais palavras para quê. Sucesso para a UAE Team Emirates que tem um fora-de-série de apenas 21 anos, com uma maturidade e inteligência táctica pouco habitual, dada a idade.

Mitchelton-Scott: O centro das atenções era Adam Yates, que tinha o plano de conquistar etapas. Só que a amarela caiu-lhe no colo na quinta etapa, quando Julian Alaphilippe (Deceuninck-QuickStep) foi penalizado por receber um bidão numa zona proibida (dentro dos 20 quilómetros finais). Foram quatro dias como líder e quando perdeu a camisola amarela, o britânico (que está de saída para a Ineos Grenadiers) e a equipa perceberam que o pódio era possível, ainda mais quando Egan Bernal abandonou, mudaram a aposta. Yates quebrou nas últimas etapas de montanha, o contra-relógio não foi o melhor, pelo que o nono lugar não foi mau. A Mitchelton-Scott teve o seu destaque e mais não se poderia pedir perante os ciclistas presentes.

Groupama-FDJ: Volta a França para esquecer. Thibaut Pinot falhou na primeira etapa de montanha, queixando-se de dores nas costas devido à queda que teve logo no primeiro dia de corrida. Ele e outros companheiros caíram e foi o prenúncio de um Tour negativo. David Gaudu também ficou mal-tratado pelo que nem outra solução houve. Com a equipa a deixar o sprinter Arnaud Démare de fora, todo um plano caiu por terra quando Pinot mostrou que não seria o ciclista de 2019. Esperou-se que talvez tentasse uma etapa, mas nada. "Arrastou-se" até final. Stefan Küng foi um dos que ainda tentou duas fuga, mas foi um Tour muito mau, ainda mais para uma equipa francesa tão importante como a Groupama-FDJ.

Arkéa Samsic: Havia alguma expectativa quanto a Nairo Quintana que tão bem começou 2020. O confinamento não lhe fez bem e não ajudou ter sido atropelado num treino, pouco antes de regressar à Europa. O colombiano até deu indicações nos primeiros dias que talvez pudesse entrar nas contas de um top cinco, ou talvez um pódio. Mas não. Mais um ciclista que não se livrou de quedas e afundou-se na geral (17º a mais de uma hora de Pogacar). Warren Barguil mal se viu, Winner Anacona mostrou muito mais quando esteve na Movistar e Dayer Quintana... é difícil não pensar que foi ao Tour por ser irmão de quem é. Arkéa Samsic quer ser uma ProTeam de qualidade World Tour, mas Quintana foi mais uma vez uma desilusão.

Cofidis: Apostou alto e perdeu tudo. Guillaume Martin é um excelente reforço. Teve uma boa primeira semana, mas algo inesperadamente quebrou na segunda. De potencial lugar no pódio, ficou fora do top dez. A equipa precisa de ter mais força na montanha para ver Martin ir mais longe. Tem potencial para tal. A maior desilusão chama-se Elia Viviani. Mais um daqueles ciclistas que deu para esquecer que foi ao Tour. A sua missão era dar a primeira vitória na Volta a França à equipa em mais de dez anos. O último foi Sylvain Chavanel, em 2008. A equipa subiu a World Tour, mas a contratação de Viviani para o sprint está a ser uma aposta falhada. Foi um Tour muito mau para o italiano que mal se viu nos sprints.

CCC: A indefinição quanto ao futuro da equipa com a anunciada saída do patrocinador, não terá ajudado os ciclistas chamados a manterem-se focados. A CCC passou ao lado do Tour. Intrometeu-se em fugas, Ilnur Zakarin ainda esteve na luta por uma etapa, mas acabou por abandonar a corrida. Greg van Avermaet deveria ter-se mostrado mais, Michael Schär foi dos mais activos. Há pouco a dizer sobre a formação polaca que teve em Matteo Trentin o maior destaque. Tentou entrar na luta pela camisola verde, tendo sido terceiro, mas não teve hipóteses nos sprints para ganhar uma etapa.

Bora-Hansgrohe: Não correu bem. Lennard Kämna alcançou uma vitória de etapa que o confirma como ciclista de futuro (muito próximo), ele já que havia ganho no Critérium du Dauphiné. Porém, a Bora-Hansgrohe viu os seus objectivos saírem gorados bastante cedo. Emanuel Buchamnn foi uma desilusão. Aquela queda no Dauphiné deixou marcas e o alemão não recuperou em condições. Apontava ao pódio depois de ter ficado à porta em 2019, mas mal chegou a montanha, percebeu que não dava para estar na frente. Uma pena para um ciclista de quem muito se esperava. Mas para piorar as coisas, Peter Sagan também não está nada, nada bem. A camisola verde que parecia ter o seu nome foi parar a Sam Bennett (Deceunick-QuickStep). Sagan ainda a vestiu, mas cedo se percebeu que a missão seria difícil. O eslovaco está muito longe dos seus tempos áureos e com os sprints intermédios colocados este ano antes das montanhas, Sagan perdeu a luta com Bennett. E continua sem ganhar em 2020. A Bora-Hansgrohe trabalhou muito para Sagan e essa união e qualidade de trabalho, foi um ponto positivo, além de Kämna, claro.

B&B Hotels-Vital Concept p/b KTM: Valeu Pierre Rolland. É um ciclista com altos e baixos na carreira, mas quando corre sem grande pressão e com liberdade em alcançar o seu resultado, mostra-se na montanha e foi isso que fez. Não conseguiu a etapa, mas mostrou as cores de um equipa que só recebeu o convite para o Tour na terceira tentativa. Porém, o que Rolland fez não chega para evitar que a formação francesa ProTeam continue a viver no limbo. Bryan Coquard não se apresentou tão competitivo no sprint como o esperado, mas esteve na luta. Também caiu e terminou o Tour em esforço. A equipa tentou algumas fugas, mas sem resultado.

Sunweb: Não ganhou a classificação colectiva, mas há que lhe entregar um prémio de melhor equipa no Tour, a par da Jumbo-Visma. Estilos e objectivos diferentes claro, com a holandesa a trabalhar para ganhar a corrida e esta Sunweb a trabalhar para vencer etapas. E dar muito espectáculo. Quem diria! Pouco se esperava de uma equipa sem líderes para a geral, com Michael Matthews a ficar de fora das escolhas, com ciclistas muito jovens, mas a táctica não só deu resultado, como levou a Sunweb até à ribalta no Tour. A forma como atacava em grupo, no mínimo com dois ciclistas, mas muitas vezes com três, o timing com que depois um deles tentava a sua sorte e se não resultava um, havia outro para ir para a frente... Houve muita audácia e compensou. Três vitórias de etapa e não esteve longe de conquistar mais, principalmente com Marc Hirschi, que foi eleito o super combativo do Tour. O suíço ganhou uma, o dinamarquês Soren Kragh Andersen duas (e mal podia acreditar). Foi uma grande Sunweb!

Deceuninck-QuickStep: Terminar o Tour com duas vitórias e mesmo andar de amarelo era pouco. Vencer a camisola verde era algo bem melhor, mas continuava ser algo curto para uma equipa cujo ADN é ganhar, ganhar, ganhar. Porém, vencer nos Campos Elísios com Sam Bennett (já vencedor de uma das etapas) e confirmar assim a classificação dos pontos, abrilhantou mais a exibição da equipa belga. Não se poderia comparar com a fantástica edição de 2019, mas esperava-se ver mais desta formação. E perder a amarela de Julian Alaphilippe (longe do ciclista de 2019, mas ganhou a sua tirada) por receber um bidão quando era proibido... Isso foi mau de mais. Mas o Tour acabou bem.

Israel Start-Up Nation: Está a tentar criar uma grande equipa em redor de Chris Froome para 2021. Mas neste 2020, a estreia no Tour foi fraca. Nils Politt e Daniel Martin ainda entraram em fugas, mas principalmente o irlandês estava muito em baixo de forma, ele que foi mais um que não recuperou de uma queda sofrida antes da corrida. André Greipel já não é sprinter para estas andanças. As atenções nesta equipa talvez estejam mesmo centradas na próxima época.

NTT: É difícil fazer algo quando se perde as duas principais figuras por quedas. Giacomo Nizzolo estava a realizar uma excelente temporada, chegou ao Tour como campeão europeu, mas abandonou. Domenico Pozzovivo ia tentar mostrar-se na montanha, mas abandonou. Edvald Boasson Hagen ainda fez segundo numa etapa. Porém, a formação africana passou muito ao lado do Tour e bem precisava de algo melhor, já que vive alguma incerteza quanto ao futuro.

Total Direct Energie: Para quem foi a melhor equipa do segundo escalão em 2019 e para uma estrutura que recebeu um reforço financeiro no ano passado com a chegada da Total, por esta altura esperava-se mais e melhor. A formação francesa teve uma prestação apagada, viu Lilian Calmejane abandonar e ninguém conseguiu muito mais do que entrar numa fuga.

Lotto Soudal: Fez o Tour possível. Começar a corrida a perder John Degenkolb por chegar fora do tempo limite na primeira etapa depois de ajudar Caleb Ewan a recuperar terreno perdido, já foi mau. Mas ver Philippe Gilbert não partir para a segunda etapa devido à queda do dia anterior... Foi péssimo! Ficou quase toda a responsabilidade sobre os ombros de Ewan. Venceu duas etapas. A desilusão acabou por ser Thomas de Gendt. Pouco se viu daquele ciclista de ataque que anima etapas. Não foi o seu Tour e a equipa também se ressentiu disso.

»»O que é que aconteceu?!««

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18 de setembro de 2020

Sunweb a ganhar, Bennett a controlar e Sagan a ver a verde escapar

A Sunweb merece um lugar de honra nesta Volta a França. Não se limitou a picar o ponto vencendo uma etapa. Tornou-se numa das equipas a dar mais espectáculo, principalmente nas etapas de média montanha ou para sprinters. A sua forma de correr mostra que arriscar pode ter a sua compensação. E de que maneira! Seria difícil prever que a equipa alemã somaria três vitórias de etapas, numa altura em que não tem nem homem para a geral, nem Michael Matthews, que não foi convocado. Desta feita, na 18ª etapa, a Sunweb "intrometeu-se" na luta pela camisola verde para um incrédulo Soren Kragh Andersen vencer pela segunda vez uma tirada (nem acreditou quando a equipa lhe disse que tinha um minuto de vantagem a pouco mais de um quilómetro da meta).

Era praticamente o tudo ou nada para Peter Sagan (Bora-Hansgrohe) e também para Matteo Trentin (CCC) para tentar apanhar Sam Bennett (Deceuninck-QuickStep). Os três conseguiram ficar na frente da corrida num grupo que já se vai perceber porque parecia estar-se numa clássica do pavé. Estavam também, entre outros, Greg van Avermaet (CCC), Jasper Stuyven (Trek-Segafredo), Oliver Naesen (AG2R) e Luke Rowe (Ineos Grenadiers).

Soren Kragh Andersen também tem experiência em Paris-Roubaix e Volta a Flandres e dá-se muito bem em percursos "ondulados", como era o caso esta sexta-feira (Bourg-en-Bresse - Champagnole, 166,5 quilómetros). É também bom no contra-relógio e também tem potencial para as provas por etapas mais curtas. Prova disso, o segundo lugar na Volta ao Algarve no ano passado, tendo sido batido por Tadej Pogacar (UAE Team Emirates), o actual segundo classificado do Tour.

Mesmo sendo conhecidas as qualidades deste dinamarquês de 26 anos, ninguém respondeu ao ataque final de Andersen. Mais uma vez, a Sunweb teve um timing perfeito. E mais uma vez, Sagan mostrou que não é o ciclista de outros tempos.

Pela primeira vez na sua carreira, está muito perto de participar num Tour até ao fim e não conquistar a camisola verde. Tem sete, é recordista, mas 2020 não está a ser o seu ano. Foi batido por Sam Bennett tanto no sprint intermédio, como no sprint final, no caso para o oitavo e nono posto. São 55 pontos a separá-los. Ser batido pelo irlandês foi algo normal neste Tour. Bennett tem os Campos Elísios a separá-lo de subir ao pódio com a camisola verde e por tudo o que mostrou até agora, a vantagem na luta com Sagan está do seu lado.

O eslovaco poderá lamentar que a organização tenha alterado a colocação dos sprints intermédios, que o prejudicou, mas a sua forma física está longe do ideal. Nos últimos anos, mesmo não ganhando tanto, Sagan entrava nas fugas nas etapas de montanha, passava uma ou duas subidas mais difíceis para depois recolher os pontos. Ficava entretanto para trás, poupando forças para uma próxima fuga ou discussão de etapa ao sprint.

Em 2020, os sprints foram colocados antes das principais dificuldades, o que deu aos sprinters hipótese de discutir a classificação dos pontos. Sem a capacidade de sprint de outros tempos, Sagan foi constantemente batido por Bennett e também por um Trentin, que tentou ser um candidato, mas nunca assustou o irlandês.

Classificações completas, via ProCyclingStats.

20ª etapa: Lure - La Planche des Belles Filles, 36,2 quilómetros

A camisola verde fica fechada no domingo, mas este sábado Primoz Roglic quer selar a amarela, enquanto a da montanha também estará em disputa no contra-relógio que termina em estilo crono-escalada em La Planche des Belles Filles.

Richie Porte, da Trek-Segafredo, (quarto classificado) tem mais de três minutos para recuperar, enquanto Miguel Ángel López (Astana) tem 1:27, mas não tem um contra-relógio que se compare ao de Roglic. Pogacar está a 57 segundos, contudo, por mais qualidade que tenha, sabe que tem uma missão difícil, para não dizer impossível. Porém, nunca se sabe o que pode acontecer... Até coisas estranhas estragam corridas. Que o diga Lukas Pöstlberger (Bora-Hansgrohe), que foi picado por uma vespa na boca durante a etapa de hoje e teve de abandonar, chegando mesmo a ir ao hospital.

Na luta pela montanha, é novamente Pogacar quem surge na perseguição, desta feita a Richard Carapaz (Ineos Grenadiers). Dois pontos separam os ciclistas, com Roglic ainda ter hipóteses matematicamente.

Na juventude, Pogacar está mais descansado. Tem 3:22 minutos de vantagem sobre Enric Mas, da Movistar, equipa que lidera colectivamente. A equipa espanhola lá vai coleccionando esta classificação, mesmo que neste Tour pouco se tenha visto. Porém, Mas ter acabou por fazer uma boa Volta a França, apesar de estar longe da luta por um pódio.

»»O momento da Ineos Grenadiers (e Landa finalmente atacou!)««

»»Valeu López... Já Landa valeu pouco««

9 de setembro de 2020

A arte de um espectacular sprint

© ASO/Alex Broadway
São quilómetros e quilómetros, quase quatro horas em que é difícil convencer alguém que não goste de ciclismo que é uma modalidade interessante e de grande espectáculo. Foi daquelas etapas em que quase nada aconteceu - tinha de haver quedas, infelizmente -, em que o percurso não é particularmente interessante a não ser que haja vento e com os ciclistas a também querer recuperar do dia anterior e preparar o que aí vem no Tour. No entanto, temos depois a preparação do sprint. Normalmente os dez quilómetros finais. Aí é o momento de olhar com atenção. As tácticas, as colocações, os imprevistos que fazem com que sobressaiam os grandes gregários dos sprinters e claro aquele momento final em que é preciso saber atirar uma bicicleta sobre a linha de meta.

Aqui está uma etapa em que as imagens televisivas podem servir para ensinar os mais novos como se deve fazer, quando se deve fazer. Caleb Ewan, Peter Sagan e Sam Bennett acabaram lado a lado, com Wout van Aert no meio, mas a ser prejudicado pelo eslovaco. Mas já lá se irá. O pequeno Ewan continua a mostrar como é um grande sprinter e ao atirar a bicicleta como mandam as regras, conseguiu bater a concorrência.


© ASO
É tudo uma questão de momento, de potência e, claro, de posicionamento. Mas tendo em conta a alta velocidade de um sprint, estamos perante atletas que após o desgaste físico, não só de hoje, têm de tomar decisões em centésimos de segundo. Ewan não só decidiu bem, como demonstra como está em boa forma e como já não é conhecido pelo ciclista que sprintava "deitado" no guiador. Já é conhecido como um dos melhores sprinters. Foi a segunda vitória no Tour e está a uma de igualar a marca na sua estreia em 2019.

O sprint foi algo caótico (o que muitas vezes ajuda à espectacularidade), com as equipas a ficarem fora das posições pretendidas com as curvas e estreitamentos de estrada nos últimos quilómetros, o que dificultou a muito importante colocação. Aqui entram ciclistas como Michael Morkov (Deceuninck-QuickStep) - um dos melhores lançadores da actualidade agora ao serviço de Bennett - Daniel Oss (Bora-Hansgrohe) - o braço-direito de Sagan - e Roger Kluge (Lotto Soudal) - o inseparável companheiro de Ewan. Mas no final, foi a classe de cada um dos sprinters que fez a diferença.

Desta vez, Ewan foi o melhor depois de ter sido batido no dia anterior pelo Bennett e deixou a garantia que pretende ultrapassar a muita montanha que vai ter agora pela frente, para chegar aos Campos Elísios. Antes ainda haverá mais uma oportunidade na 19ª etapa.

Foi muito tempo à espera do sprint numa etapa com pouca história - Matthieu Ladagnous (Groupama-FDJ) também não deve ter tido o dia mais divertido na fuga solitária, sabendo que não resultaria -, mas quando se assiste a sprints assim, com os melhores do mundo a mostrarem porque o são, então percebe-se e é mais fácil mostrar porque o ciclismo é tão bonito.


Também o exemplo do que não de pode fazer

Foi mesmo um sprint que pode servir de lição. O muito bom que se viu teve o lado negativo por um gesto de Sagan, na procura de ganhar posição. A recta da meta tinha uma espécie de separadores publicitários encostados às barreiras que obrigaram a uma linha mais afastada das grades de protecção. Ao desviar-se de um, Sagan encontrou Wout van Aert no caminho e encostou-se com o ombro e ainda a cabeça ao ciclista da Jumbo-Visma.

Nada aconteceu, felizmente, a não ser que Van Aert foi prejudicado depois de ter saído na frente no início do sprint. O belga protestou de imediato com Sagan. Os comissários não deixaram passar o gesto sem uma penalização. O ciclista da Bora-Hansgrohe foi relegado de segundo classificado para o final do pelotão (85ª posição) e retiram-lhe todos os pontos conquistados na etapa, incluindo os do sprint intermédio.

A conquista da oitava camisola verde ficou seriamente ameaçada. São 68 pontos a separá-lo de Sam Bennett, o seu antigo companheiro de equipa. Das sete que Sagan ganhou, só não são provavelmente oito consecutivas porque em 2017 o eslovaco, ao sentir Mark Cavendish encostar-se a ele (num gesto idêntico ao que se viu hoje) acabou por o afastar com o braço. A queda aparatosa do britânico acabou por levar à expulsão do eslovaco da corrida.

12ª etapa: Chauvigny - Sarran Corrèze, 218 quilómetros



É a etapa mais longa do Tour. A subida de segunda categoria antes dos quilómetros finais com segundos bónus disponíveis (oito, cinco e dois) poderá dar ideias a alguém que esteja de olhos postos na geral a tentar ganhar vantagem. Já se sabe o quanto o camisola amarela Primoz Roglic (Jumbo-Visma) adora amealhar todos os segundos bónus que pode.

Contudo, tendo em conta a dificuldade que espera a todos na sexta-feira, esta tirada poderá ser uma boa oportunidade para aqueles que procuram vitórias em etapas e que já perderam tempo suficiente para não serem perseguidos pelas equipas dos candidatos.

Julian Alaphilippe (Deceuninck-QuickStep), Pierre Latour (AG2R), Daniel Martin (Israel Start-Up Nation), Hugh Carthy (EF Pro Cycling) foram ciclistas que na etapa desta quarta-feira já pouparam algumas forças.


8 de setembro de 2020

Sagan tem mesmo rival na luta pela camisola verde

© Deceuninck-QuickStep
Um autêntico dia de nervos. Não só uma etapa de nervos, mas mesmo grande parte do dia. A 10ª tirada da Volta a França tinha a particularidade de antes de ser dada a partida seria o momento de conhecer os resultados aos testes à covid-19, feitos no dia de folga. Entre as 650 pessoas que estão na "bolha" do Tour, cinco deram positivo. O pelotão reagiu como tinha de o fazer: há uma corrida pela frente, vitórias por discutir... e a camisola verde está mesmo em aberto nesta edição. O vento e as várias quedas deixaram os nervos à flor da pele em todos os ciclistas.

Peter Sagan é uma pálida imagem daquilo que demonstrou em anos anteriores. Já em 2019 não foi o mesmo, mas esta temporada ainda nem ganhou. Sem chama, sem alegria, este Sagan é simplesmente estranho de ver. É a sua décima época como profissional, mas pouco ou nada tem para recordar dela até ao momento. E nem a camisola verde que lhe tem estado destinada quase sem luta em sete dos últimos oito anos está bem encaminhada. Pelo contrário. Sagan está a viver algo novo: bem a veste, mas Sam Bennett teima em tirá-la.

Pela segunda vez, o irlandês da Deceuninck-QuickStep consegue liderar a classificação dos pontos. A curiosidade é que Sagan tem finalmente um opositor ao seu nível que até 2019 foi seu colega de equipa na Bora-Hansgrohe. Outra curiosidade é que Bennett também não está (ou melhor, não estava) a ser particularmente feliz em 2020.

Ao contrário do que tem acontecido com os sprinters mais experientes que a equipa belga contrata, Bennett não "pegou de estaca". Quatro vitórias antes do Tour não é mau, mas o irlandês já produziu mais e melhor em temporadas anteriores. Aliás, foi por ser um sprinter ganhador, que bateu com a porta à Bora-Hansgrohe e forçou a saída ao ser constantemente preterido no Tour para Sagan, além de também estar a ser ultrapassado na hierarquia por Pascal Ackermann.

Uma das boas características da Deceuninck-QuickStep é que o apoio entre todos os ciclistas é enorme, quer se viva uma fase positiva ou menos boa (raramente é negativa a nível de resultados). Mesmo nesta Volta a França, Bennett não estava a convencer nos sprints, mas a equipa continuou a protegê-lo e a lançá-lo na decisão final. Este terça-feira chegou o seu momento.

Bennett venceu um Caleb Ewan (Lotto Soudal) que ainda assustou o irlandês. A emoção foi tal, que Bennett mal conseguiu falar na flash interview. Chorou. "Não quero parecer um bebé chorão", disse. A muito custo lá explicou o quanto tinha sonhado com uma vitória no Tour. Aos 29 anos ela chegou e ainda permitiu que o ciclista entrasse no grupo dos que venceram etapas nas três grandes voltas. Só está a fazer a sua sexta.

Entre os nomes mais recentes a entrar na lista estão, por exemplo, Thibaut Pinot, Thomas de Gendt e Caleb Ewan. Mas não Peter Sagan. O eslovaco vai tentar resolver essa questão na Volta a Itália, onde se irá estrear. O Giro está, aliás, a servir como uma tentativa de justificação da forma menos apurada de Sagan. A notória falta de potência nos sprints revela um ciclista longe de outros tempos, em que, não sendo um sprinter puro, conseguia ganhar. Ainda assim, é difícil acreditar que esteja a preparar um pico de forma apenas para Itália. Afinal, o Tour é o Tour.

O terceiro lugar de hoje até foi dos resultados mais animadores, com Sagan a ser exímio na luta pela camisola verde. Desde o primeiro dia que vai tentando somar pontos nos sprints intermédios e, claro, no finais. Admite que ganhar uma etapa vai ser difícil, contudo, o problema é que Bennett não só já ganhou, como também tem estado melhor em vários sprints intermérdios..

Michael Matthews foi o ciclista que nos últimos anos deu mais luta a Sagan e mesmo assim não teve grande hipótese. Bennett ameaça ser um caso bem diferente. A Deceuninck-QuickStep está unida para destronar Sagan, que terá de melhorar se quer uma histórica camisola verde.

Bennett soma 196 pontos, contra os 175 de Sagan, com Bryan Coquard a somar 129 e Matteo Trentin (CCC) - sempre muito activo nos sprints intermédios, mas longe na disputa pela vitória final - tem 123. Wout van Aert (Jumbo-Visma) soma 111, mas o belga está mesmo dedicado em proteger o líder do Tour Primoz Roglic. Ainda assim, olha-se com desconfiança para um ciclista que, a trabalhar como gregário, pôde lutar duas vezes para vencer etapas e ganhou ambas.

Os testes, o vento e as quedas

O dia começou então com os resultados aos testes da covid-19. Ineos, Mitchelton-Scott, Cofidis e AG2R tiveram um membro do staff a dar positivo. Recorde-se que dois casos numa equipa e esta é excluída do Tour. O quinto caso foi Christian Prudhomme, o director da corrida. Estará afastado pelo menos durante oito dias.

Confirmado que nenhum ciclista tinha testado positivo, 165 partiram (Domenico Pozzovivo, da NTT, ficou de fora, mas devido aos ferimentos da queda no primeiro dia) de Île d'Oléron le Château-d'Oléron até  Île de Ré Saint-Martin-de-Ré, em 168,5 quilómetros sem qualquer montanha. Etapa para sprinters, mas não foi um passeio.

Apesar do vento não ser muito forte, aos 100 quilómetros a Deceuninck-QuickStep acelerou para partir o pelotão. E conseguiu. Porém, ao contrário do que aconteceu na sexta-feira, nenhum dos principais nomes foi apanhado desprevenido. Tadej Pogacar ainda sofreu uma queda, mas o líder da UAE Team Emirates recuperou o seu lugar numa altura em que começava a haver tréguas no que sobrava do grupo da frente.

As quedas foram muitas, numa etapa que passou por várias localidades. As ilhas de tráfego quando o pelotão pedala a uma velocidade elevada são um enorme problema. Muitos ciclistas caíram, mas só um abandonou: Sam Bewley, da Mitchelton-Scott. No entanto, Davide Formolo (UAE Team Emirates) fracturou a clavícula e apesar de ter terminado o dia, será mais uma baixa na ajuda da Tadej Pogacar, depois de Fabio Aru já ter ido para casa.

Não foi um início nada pacífico da segunda semana do Tour.

Classificações completas, via ProCyclingStats.

11ª etapa (9 de Setembro): Châtelaillon-Plage - Poitiers, 167,5 quilómetros


Mais um dia para os sprinters, que vão querer aproveitar, pois as próximas etapas começam a ter um grau de dificuldade maior. Ou seja, mais montanha. O pelotão vai deixar a zona costeira e haverá apenas uma quarta categoria para enfrentar. Sam Bennett e Peter Sagan vão ter mais um frente-a-frente na luta pela verde. Alguém vai tentar intrometer-se?

»»Pogacar e aquela atitude que se adora««

»»Etapa de emoções: Pinot está fora da luta, Jumbo-Visma mostrou que não é perfeita, Pogacar deixou aviso««

7 de dezembro de 2019

Uma Bora-Hansgrohe cada vez mais para todo o terreno

(Fotografia: © VeloImages/Bora-Hansgrohe)
Seria fácil para a Bora-Hansgrohe tentar ficar à sombra do sucesso de Peter Sagan, concentrar-se em proteger a sua estrela quando as coisas não correm de feição e tirar todos os dividendos possíveis de um dos ciclistas mais populares do pelotão e, a nível de marketing, o mais rentável (Mathieu van der Poel vai ser um forte adversário nesse aspecto e não só). Porém, a equipa alemã tem sabido ir além de Sagan e se já na época passada se tinha visto esse crescimento, em 2019 ficou a confirmação que há várias e boas opções para ganhar e, ainda mais importante, em diferentes terrenos.

Talvez por isso mesmo, desta feita, não se comece por Peter Sagan. Continua a ser a grande estrela, mas não é a grande figura em termos de vitórias. Sam Bennett e Pascal Ackermann dividiram nos sprints as atenções. O irlandês estava simplesmente imparável no início de época, a somar muitos triunfos. O alemão também ia picando o ponto, ainda que em menor ritmo. No entanto, a Bora-Hansgrohe cedo fez saber que Ackermann seria a escolha para o Giro, Sagan iria ao Tour e Bennett teria de aguardar pela Vuelta. Sem surpresa, o irlandês não ficou nada satisfeito, mas a sua reacção foi continuar a ganhar. Ackermann chegou a Itália pressionado com os resultados do companheiro, mas reagiu com duas vitórias de etapa, esteve na luta por mais e ainda ficou com a classificação dos pontos.

Bennett foi à Vuelta, venceu também duas tiradas e terminou 2019 com 13 vitórias e duas classificações por pontos. Ackermann somou também 13 triunfos e três classificações por pontos, incluindo na Volta ao Algarve. Com Sagan intocável, não há espaço para tantos sprinters ambiciosos e Bennett está a caminho da Deceuninck-QuickStep, com Ackermann a ter a seu favor adaptar-se bem a certas clássicas e ser alemão, com a equipa a querer cada vez apostar nos ciclistas da casa. Mas há que reiterar, apesar de ter sido preterido no Giro (onde esteve tão bem em 2018, com três etapas ganhas) e no Tour, Bennett foi um profissional exímio, mantendo-se em excelente nível durante todo o ano. Deverá encaixar na perfeição na Deceuninck-QuickStep.

Mudando a atenção para a luta pelas classificações gerais, Rafal Majka foi sexto no Giro e Vuelta e de quando em vez este polaco mostrou a sua qualidade, mas sem a traduzir em grandes vitórias e para a Bora-Hansgrohe tal vai começar a ser insuficiente perante o que se viu de outros três ciclistas.
Ranking: 2º (14192,86 pontos) 
Vitórias: 47 (incluindo duas etapas no Giro e na Vuelta e uma no Tour) 
Ciclista com mais triunfos: Pascal Ackermann e Sam Bennett (13)
Maximilian Schachmann fez o percurso inverso que vai fazer Bennett e no seu primeiro ano na Bora-Hansgrohe continuou a afirmaçãoque já se esperava. É um ciclista com muito potencial, somando top 15 e 10 nas provas por etapas de uma semana. Infelizmente no Tour caiu no contra-relógio e com uma mão partida foi para casa após a 13ª etapa, mas a Bora-Hansgrohe não tem dúvidas que foi uma contratação acertada e acabará por aparecer bem também nas três semanas.

Felix Grobschartner é o outro ciclista que a equipa está a tentar "formar" para as corridas por etapas. Ganhou a Volta à Turquia, foi quarto na Romandia e somou mais top dez, mas desiludiu um pouco na Vuelta. Tem apenas 25 anos e vai continuar a sua evolução.

Mas o ciclista que já faz a Bora-Hansgrohe não só acreditar, mas em pensar em chegar a um pódio no Tour é Emanuel Buchmann. Muitas vezes mal se dá por ele. Não é de grandes loucuras, calculista nas suas análises às corridas, compete a pensar nas suas capacidade e não no que os rivais podem fazer. O resultado foi o quarto lugar na Volta a França, com o pódio a ficar a apenas 25 segundos. Faltou-lhe uma grande vitória e a etapa na Volta ao País Basco soube a pouco. Nessa corrida, começou a última etapa na liderança, mas das poucas vezes em que se viu este ciclista andar ao ataque, pagou caro o esforço. De 54 segundos de vantagem para Ion Izagirre, acabou com 31 a mais e no terceiro lugar.

Buchmann regressou ao seu estilo mais calculista depois dessa exibição e a Bora-Hansgrohe também percebeu que tinha de controlar melhor o esforço de toda a sua equipa, pois forçou tanto nos primeiros dias, que no último ninguém aguentou o ataque da Astana.

São as pequenas lições que uma equipa que chegou ao World Tour em 2017 com Sagan como praticamente a única aposta, a pensar nas clássicas e sprints, e agora mostrou que já tem os ciclistas que fazem os seus responsáveis dizer cada vez mais que querem transformar a Bora-Hansgrohe na melhor equipa do mundo. Parece querer seguir mais os passos de uma Jumbo-Visma, ou seja, apostar nas várias especialidades e não ser tanto como uma Deceuninck-QuickStep ou uma Ineos que optam mais pelas clássicas e grandes voltas, respectivamente.

Porém, para o futuro próximo, a formação alemã começa a dar sinais que as provas por etapas vão tornar-se cada vez mais um ponto forte. Contratou jovens ciclistas, a maioria do apetência para subir. Lennard Kämna (23 anos) deixa a Sunweb para continuar a sua evolução na Bora-Hansgrohe, sendo um ciclista que vai criando alguma expectativa. Da Katusha-Alpecin chega o italiano Matteo Fabbro (24), enquanto Patrick Gamper (22), Ide Schelling (21) vão estrear-se ao mais alto nível. O estónio Martin Laas (26) é o único a fugir à regra, sendo mais forte no sprint.

E Sagan? Talvez se fale pouco dele porque quatro vitórias no ano diz quase tudo sobre a sua temporada. A fase das clássicas não correu bem e até adiou a anunciada estreia na Liège-Bastogne-Liège por não estar bem fisicamente. Não se encontrou com a melhor forma numa das fases da temporada mais importante, mas foi ao Tour conquistar a sétima camisola verde (além de uma etapa). Um recorde, um objectivo de carreira cumprido que até o vai fazer estrear-se no Giro em 2020, sem claro esquecer o Tour, quando se prepara para celebrar o 30 aniversário (26 de Janeiro).

»»Época quase perfeita de uma Jumbo-Visma que se afirmou como ameaça à Ineos««

»»Um fenomenal Pogacar leva UAE Team Emirates a um nível mais alto««