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28 de abril de 2019

Vitória mais do que merecida

(Fotografia: Facebook Astana)
A menos de cinco quilómetros da meta deixa-se escapar um bem audível "ai"... Não foi preciso levar as mãos à cabeça, pois Jakob Fuglsang conseguiu segurar a bicicleta, naquela que esteve perto de ser uma queda que custaria um monumento. Mas a reacção foi compreensível. Ali, naquele instante, um monumento poderia ter escapado a Fuglsang. Por tudo o que o dinamarquês tinha feito na corrida, por tudo o que fez na semana das Ardenas, por tudo o que tem feito numa excelente temporada, Fuglsang merecia ganhar a Liège-Bastogne-Liège.

"Um pequeno susto, um momento de adrenalina", descreveu o ciclista da Astana sobre aquela quase queda (ver vídeo em baixo). Mas nada evitou que concluísse uma feliz contagem: na semana das Ardenas começou com um terceiro lugar na Amstel Gold Race, um segundo na Flèche Wallonne e finalmente o primeiro na Liège-Bastogne-Liège. Se certamente teria gostado de vencer qualquer das corridas, conquistar um monumento é fazer parte da história das corridas mais históricas do ciclismo, pelo que escolheu a ideal para coroar a melhor época de clássicas que já realizou. E se quisermos um pouco mais na contagem, Fuglsang, antes de viajar para as Ardenas, foi quarto na Volta ao País Basco.

Ficou mais uma vez comprovado que não há de facto vencedores anunciados no ciclismo e alguma vez havia de acontecer a Julian Alaphilippe. Fraquejou. Por uns instantes esteve lado a lado com Fuglsang, na reedição da dupla que tanto tem andado junta desde a Strade Bianche. Tanto nesta prova italiana, como na Flèche Wallonne, Fuglsang perdeu para o francês e na Amstel só não discutiram a vitória entre eles, porque facilitaram e um super Mathieu van der Poel aproveitou para conquistar uma inesquecível vitória.

Na Liège, Fuglsang não quis arriscar. Não quis companhia num final que regressou à cidade belga e foi em terreno plano, bem diferente do que tem marcado a clássica nos últimos quase 30 anos, em Ans. O percurso chamou ciclistas que gostam de sprints, mas foi um que se dá bem com subidas que venceu. As muitas dificuldades da Liège-Bastogne-Liège não matam, mas moem e muito. Que o digam Alejandro Valverde e Rui Costa (abandonaram), Philippe Gilbert, Greg van Avermaet, Michael Matthews e muitos mais, que nem na discussão conseguiram estar.

Alaphilippe não resistiu na última subida de Roche-aux-Faucons e antes até terá desejado boa sorte a Fuglsang, ao perceber que não iria ter capacidade para discutir a corrida. Já há algum tempo que não se via o francês claudicar assim. Mas depois de tantos meses em alta rodagem, com nove vitórias, a Liège-Bastogne-Liège tem de esperar mais um ano. Há que não esquecer que alcançou o seu primeiro monumento na Milano-Sanremo, mas aquele que lhe parece tão perfeito volta a ficar adiado.

Novo fôlego de Fuglsang

Aos 34 anos, o dinamarquês ganha um novo fôlego na carreira. Depois de tantas épocas como gregário, Fuglsang muito lutou para ter o papel principal na Astana. Não conseguiu afirmar-se como líder no Tour como queria, apesar de em 2017 até ter ganho o Critérium du Dauphiné, a sua grande conquista até este domingo. A afirmação de Miguel Ángel López e a chegada de Ion Izagirre poderia fazer tremer Fuglsang, que não agarrou por completo a liderança após a saída de Aru. Mas não. Até poderá ter sido uma "pressão" positiva.

Talvez Fuglsang tenha feito o seu caminho para amadurecer como líder. 2019 está a ser um ano sensacional, tendo ganho a Ruta del Sol e foi terceiro no Tirreno-Adriatico. Não significa que será um forte candidato a discutir a Volta a França. Contudo, será o número um da Astana e será natural que aspire a um top dez, no mínimo e seria de estranhar que não sonhasse com o pódio. Difícil, mas a motivação estará em alta.

Liège estudada ao pormenor

Fuglsang tinha não só reconhecido o percurso de quase 256 quilómetros, como escolheu de imediato onde poderia atacar. Escolheu a última subida categorizada para deixar o grupo e numa pequena ascensão que se seguiu, quebrou a resistência de Michael Woods e Davide Formolo também não resistiu, aguentando pelo menos um segundo lugar. A Bora-Hansgrohe ainda fechou o pódio com Max Schachmann. O italiano ficou a 27 segundos e o alemão a 57, sendo o mais forte no sprint para o terceiro lugar.

Tudo estava destinado a ser perfeito e mesmo aquela forma de recuperar a bicicleta quando quase caiu foi só mais um pormenor de como perfeitamente se evita uma queda!

Classificações completas, via ProCyclingStats, com José Gonçalves (Katusha-Alpecin) a terminar na 73ª posição, a 13:11 minutos.

Na luta particular de vitórias entre Astana e Deceuninck-QuickStep, a formação cazaque soma 23 contra as 26 da formação belga. Tem sido destaque nas provas por etapas, mas Fuglsang finalmente foi ganhar no terreno predilecto da Deceuninck-QuickStep, nas clássicas.


Quando não se sabe correr mal

Na corrida feminina, a holandesa Annemiek van Vleuten regressou às vitórias depois de dois segundos lugares na Amstel Gold Race e na Flèche Wallonne. Exibição também perfeita da ciclista da Mitchelton-Scott, deixando a compatriota Floortje Mackaij (Sunweb) a 1:39 minutos, num pódio 100% holandês. Demi Vollering (Parkhotel Valkenburg) foi terceira, a 1:43.

Em 2019, o pior que Van Vleuten fez nas clássicas foi um sétimo lugar na Através da Flandres, tendo ganho a Strade Bianche.

27 de abril de 2019

Alaphilippe um vencedor anunciado? Há candidatos para o contrariar no regresso ao formato clássico do monumento

(Fotografia: Facebook Deceuninck-QuickStep)
Alaphilippe, Alaphilippe, Alaphilippe. É o nome que mais se pronuncia na aproximação à Liège-Bastogne-Liège, o quarto monumento do ano. Numa edição, a 105ª, em que a corrida regressa ao "formato clássico", para citar Miguel Indurain, Julian Alaphilippe é o primeiro a dizer que gosta das mudanças e do final, que passa a ser em plano. Há 27 anos que Ans era o local da meta, mas agora que a decisão está de volta a Liège, fazendo jus ao nome da corrida, o ciclista da Deceuninck-QuickStep é o maior dos favoritos para quebrar uma espera ainda maior: desde 1980 que um francês não vence o monumento belga, com Bernard Hinault a ter sido o último.

De vitórias anunciadas não vive o desporto e Alaphilippe sabe que não terá missão fácil, mesmo depois de se ter afirmado como o novo rei do Muro de Huy, na Flèche Wallonne. É o ciclista do momento, só batido por um fenomenal Mathieu van der Poel (Corendon-Circus), que não estará presente. Está numa Deceuninck-QuickStep rainha das clássicas, mas na Liège, poderá encontrar uma maior concorrência do que na Flèche Wallonne em que confirmou todas as expectativas.

É que o novo percurso parece agradar a muitos dos ciclistas que apostam forte na clássica. Subir o Côte de Saint Nicolas e depois pedalar uns cinco quilómetros até à meta, em ligeira ascensão era o final em Ans. Agora será o Côte de la Roche-aux-Faucons a última oportunidade para fazer diferenças a subir, com cerca de 15 quilómetros ainda por percorrer até à meta, os últimos serão planos.

Apesar de continuar a ter muitas subidas - nove só nos derradeiros 100 dos 255,5 quilómetros - esta fase final atraiu ciclistas como Peter Sagan (Bora-Hansgrohe), que entretanto e perante a fraca época de clássicas, optou por adiar a estreia na Liège. Era um dos grandes pontos de interesse, mas está a ser um 2019 para esquecer para o eslovaco. No sentido contrário está Greg van Avermaet (CCC). Não era suposto competir no monumento, mas como também ele está a ter uma fase de clássicas muito abaixo do esperado, vai tentar salvar algo da temporada na Liège.

Max Schachmann, um dos homens do momento da Bora-Hansgrohe ou um Michal Kwiatkowski que confessou há muito esperava pela Liège, sendo um objectivo para o polaco são candidatos fortes. Adam Yates (Mitchelton-Scott) tem uma relação difícil com as Ardenas, mas se fizer as pazes, é um ciclista em forma, tal como Vincenzo Nibali (Bahrain-Merida), que realizou uma boa Volta aos Alpes, apesar de ter sido batido pela juventude da Sky.

Daniel Martin, um dos quatro vencedores da Liège na corrida de 2019 - Bob Jungels poderia ser o quinto mas abdicou das Ardenas esta temporada -, afastou qualquer hipótese de lutar por uma vitória, devido a um vírus que diz que o está a afectar desde a Volta ao País Basco. Vai apoiar Diego Ulissi, terceiro na Flèche Wallonne, com a UAE Team Emirates a ter ainda o português Rui Costa.

Michael Woods (EF Education First), Roman Kreuziger (Dimension Data) - dependendo do estado em que está depois da queda na Flèche Wallonne -, Guillaume Martin (Wanty-Groupe Gobert), Romain Bardet (AG2R) e Tim Wellens são nomes a ter em conta, ainda que na Lotto Soudal há ainda que destacar um dos seus jovens talentos. Bjorg Lambrecht está a confirmar todo o seu potencial nas últimas corridas e há que não o perder de vista. Foi quarto na Flèche Wallonne, sexto na Amstel Gold Race e quinto na De Brabantse Pijl-La Flèche Brabançonne. Antes, na Volta à Catalunha e ao País Basco, também esteve a bom nível.

Valverde e um recorde ali tão perto

O espanhol da Movistar não é tão favorito como em anos anteriores. Ninguém se atreve a dizer que não estará na discussão, mas entre a fraca forma de Alejandro Valverde e a mudança de percurso, não será fácil igualar os recordes de Eddy Merckx. Está a uma vitória de somar dez na semana das Ardenas, tal como o belga tem, e também a uma de igualar as cinco na Liège-Bastogne-Liège, sendo o Canibal quem mais vezes conquistou este monumento.

Valverde não se mostra pessimista, mas não tem um discurso a transbordar confiança. Contou que na Flèche Wallonne engoliu uma abelha, tendo sido picado, o que o preocupou durante uns quilómetros, ainda que tenha afastado o incidente como razão para não estar na discussão no Muro de Huy com Alaphilippe e Fuglsang. Celebrou 39 anos na quinta-feira, contudo, será preciso um Valverde ao nível de anos recentes para fazer história na Liège. E esse versão do ciclista não parece querer aparecer em 2019.

Fuglsang a querer subir mais um lugar

Terceiro na Amstel Gold Race, segundo na Flèche Wallonne, só falta um lugar no pódio ao dinamarquês da Astana na semana das Ardenas. E as duas corridas nem era as que melhor assentavam ao ciclista. Já a Liège sim, pode não ser perfeita, mas tem tudo para ser a corrida em que Fuglsang fecha em grande a sua melhor temporada de clássicas.

Diz que se sente "super" e não afasta a hipótese de atacar de longe, pois aquele final em plano é a parte do percurso que pode ser preocupante para Fuglsang se tiver a companhia de Alaphilippe, por exemplo. O francês bateu o dinarmarquês na Flèche Wallonne e na Strade Bianche.

Se passarem as subidas, Greg van Avermaet, Michael Matthews (Sunweb) e Simon Clarke (EF Education First) são três homens que não se importarão de discutir um sprint.

O outro português em prova, além de Rui Costa, será José Gonçalves (Katusha-Alpecin).

Lista completa de inscritos neste link, via ProCyclingStats.

Mais pormenores do percurso

De destacar o regresso dos Côte de Wanne, Côte de Stockeu e Côte de la Haut-Levée, um trio de subidas ausente há três edições e que deverá começar a fazer uma maior selecção de candidatos. O Côte de la Redoute é sempre um dos momentos mais esperados, mas antes da subida final de Roche-aux-Faucons, há mais um regresso: o Côte des Forges, ausente do percurso desde 2014.

Bob Jungels foi o vencedor de 2018, mas este ano apostou mais nas clássicas do pavé, abdicando das Ardenas, estando já a pensar no Giro. Wout Poels (Sky) é o outro dos vencedores (2016) no activo e o holandês estará ao lado de Kwiatkowski, com Philippe Gilbert (2011) a ser outra hipótese da Deceuninck-QuickStep além de Alaphilippe. O primeiro já ganhou o Paris-Roubaix este ano, o segundo a Milano-Sanremo, o que significa que a que monumentos diz respeito, só faltou a Volta a Flandres para a formação belga.

A La Doyenne, ou a Velha Senhora - é a clássica mais antiga - espera para ver se o francês confirma o que há muito se espera dele, ganhar a Liège-Bastogne-Liège, ou se alguém tem capacidade para mostrar como não há vencedores anunciados.

A corrida deste domingo tem transmissão no Eurosport, a partir das 13:00.

(Gráfico: La Flamme Rouge)


25 de abril de 2019

Fim da época das clássicas para Sagan. Já não vai estrear-se na Liège-Bastogne-Liège

(Fotografia: © Bettiniphoto/Bora-Hansgrohe)
Era um dos principais pontos de interesse desta época de clássicas. Pela primeira vez, Peter Sagan colocou a Liège-Bastogne-Liège no seu calendário, ficando assim em aberto juntar um terceiro monumento à Volta a Flandres e Paris-Roubaix, já que a Milano-Sanremo teima em "escapar". Mesmo numa forma muito longe do que o eslovaco habituou na sua carreira, o interesse mantinha-se alto, mas ter-se-á de esperar por outra oportunidade. Depois de abandonar a Amstel Gold Race e a Flèche Wallonne, Sagan e a Bora-Hansgrohe optaram por uma fase de repouso e tentar recuperar energias para a Volta a Califórnia.

Peter Sagan alterou um pouco o seu calendário e a sua preparação nesta primeira parte da temporada, um pouco a pensar na Liège-Bastogne-Liège. A mudança no percurso do monumento belga, principalmente nos quilómetros finais, aguçaram a vontade do tricampeão do mundo em estrear-se numa corrida que, até agora, nunca tinha sido opção para este ciclista. No entanto, 2019 está a ser um ano para esquecer para Sagan.

Um quarto lugar na Milano-Sanremo, um quinto no Paris-Roubaix e até o 11º na Volta a Flandres, poderiam ser classificações boas para vários ciclistas. Mas não para Sagan. O ciclista até pode ter o discurso que não foram más prestações. Contudo, o que os números não mostram é que Sagan acabou por nem discutir as vitórias. Principalmente na Milano-Sanremo e no Paris-Roubaix, o eslovaco até fez boas corridas, mas nos momentos cruciais faltaram-lhe as forças. O mesmo aconteceu noutra clássicas e também no Tirreno-Adriatico.

Na semana das Ardenas, Sagan nem era suposto ir à Flèche Wallonne, mas a equipa quis contar com a experiência do ciclista, numa corrida que iria ter o vento como potencial factor de fazer diferenças. Foi Sagan numa versão gregário, mas não foi uma versão muito diferente da de Sagan líder.

O que se passa com Peter Sagan? É a pergunta do momento, com a própria equipa à procura de explicações. Ainda chegou a dizer que Sagan estava a melhorar, mas nas corridas, não se tem visto essa melhoria. A sua capacidade de "explosão" apagou-se em 2019.

Sagan sofreu de problemas de estômago no estágio de altitude que a Bora-Hansgrohe realizou antes do Tirreno-Adriatico. Além de ficar longe dos treinos, o ciclista contou que passou a maioria do tempo no seu quarto. Na prova italiana. Sagan surgiu claramente mais magro, ainda que ficaram dúvidas se a perda de peso poderia também estar relacionada com a preparação para a Liège-Bastogne-Liège.

Para já, não há respostas para o que se passa com um dos melhores ciclistas. Um dos que mais espectáculo dá. Um que se tornou uma referência e imagem da modalidade. Mesmo com Mathieu van der Poel a "roubar" muitas das atenções nestas últimas semanas, a verdade é que o melhor Sagan faz falta.

Agora é esperar pela corrida onde é conhecido pelo "rei da Califórnia", pois tem 16 vitórias de etapa e uma classificação geral. Será de 12 a 18 de Maio, no arranque de uma preparação para o segundo objectivo do ano: a Volta a França e a conquista da sétima camisola verde (dos pontos), que, se conseguir, o tornará no recordista solitário, já que partilha a actual marca com Erik Zabel. Mais tarde, em Setembro, Sagan quer nos Mundiais de Yorkshire recuperar a camisola do arco-íris que está com Alejandro Valverde.

Sagan continuará a ser sempre candidato a vitórias, mas, de momento, predomina a desconfiança da estrela da Bora-Hangrohe. Curiosamente, a equipa até tem mostrado que já não depende tanto do seu número um, estando cada vez mais forte no seu bloco em corridas por etapas, na procura de classificações gerais e claro, tem um Sam Bennett (sprinter) num excelente momento.

Contudo, certamente que são os responsáveis da Bora-Hansgrohe quem mais anseiam por ter Sagan de regresso ao normal, pois é um pouco estranho que em 19 vitórias em 2019, Sagan só tenha contribuído com a conquista da terceira etapa do Tour Down Under, logo em Janeiro.

»»Flèche Wallonne segue guião à risca na confirmação do novo rei do Muro de Huy««

»»Simplesmente fenomenal!"««

18 de abril de 2019

Rui Costa deixou boas indicações para umas Ardenas de máxima importância

(Fotografia: © PhotoFizza/UAE Team Emirates)
Está na altura de mudar o chip! Depois das clássicas do pavé, aproxima-se a semana das Ardenas, com um trio de corridas históricas, a começar já este domingo com a Amstel Gold Race. Segue-se a Flèche Wallonne na quarta-feira e depois, no domingo 28, o quarto monumento do ano, a Liège-Bastogne-Liège. Uma das questões que mais se coloca é se Julian Alaphilippe irá fazer a tripla. Porém, numa perspectiva portuguesa, há a questão de como se irá apresentar Rui Costa.

O poveiro regressou (e com uma boa prestação) na Brabantse Pijl-La Flèche Brabançonne, depois de em Março ter chocado contra um camião durante um treino. Esta famosa semana de ciclismo que se aproxima poderá ter um peso importante no futuro próximo do ciclista.

O acidente em Braga assustou, mas o ciclista não ficou com ferimentos graves. Na corrida belga de quarta-feira, apresentou-se sempre muito activo, terminando na 22ª posição, a 18 segundos do vencedor, Mathieu van der Poel (Corendon-Circus). Rui Costa queria testar a sua condição física. Passou o teste, mas agora vem o exame mais importante.

Depois de um 2018 muito difícil devido à lesão no joelho, Rui Costa tem mostrado esta época a forma que apresentou nos Mundiais do ano passado, quando provou que o pior já tinha passado. Nas provas por etapas, o pior que fez foi um 17º na geral da Volta aos Emirados Árabes Unidos. Tem um quarto lugar em Omã e foi 10º na Volta à Comunidade Valenciana e no Tirreno-Adriatico, uma das corridas mais importantes por etapas desta primeira fase da temporada. Agora chega às clássicas das Ardenas que tanto gosta.

Foi terceiro na Liège-Bastogne-Liège de 2016, naquela que nunca escondeu ser uma das corridas que mais ambiciona triunfar. E que bem lhe faria um bom resultado no monumento, ou numa das duas outras provas antes. Ou nas três! Isso seria perfeito. A perder cada vez mais espaço quanto à liderança na UAE Team Emirates e com a equipa a dar-lhe no final da época anterior uma renovação apenas por mais um ano, a oportunidade de ter destaque nas Ardenas não é para desperdiçar.

"Venho de um mês no qual foquei-me no treino. O trabalho foi bom, mesmo que tenha sido marcado pelo incidente no treino, no final de Março. Não correrei sob particular pressão, mas tenho a vontade de testar a minha condição e para entrar em sintonia com a atmosfera e o ritmo das clássicas das Ardenas", disse antes da Brabantse Pijl-La Flèche Brabançonne.

Com a equipa a ter já jovens que prometem em breve subir na hierarquia, como Tadej Pogacar (corridas por etapas) e Jasper Philipsen (clássicas) à cabeça, por exemplo, não há tempo a perder para Rui Costa, que perdeu espaço com a chegada de Fabio Aru e Daniel Martin em 2018. Adapta-se bem aos três percursos das clássicas das Ardenas e sempre foi um dos ciclistas mais inteligentes tacticamente, o que é ainda mais importante quando a equipa tem dificuldades em funcionar colectivamente (está a melhorar aos poucos esse importante pormenor). Não será um líder único, com Diego Ulissi, a também querer um bom resultado. Daniel Martin deverá aparecer na Liège, ainda que, para já, não haja confirmação. Sendo um antigo vencedor e um apreciador desta corrida, seria estranho não incluir a Liège no seu calendário. Mas tal como aconteceu no ano passado, a presença do irlandês não anulará por completo a liberdade de Rui Costa. Ainda que não ajude.

Aos 32 anos e perante o caminho que a equipa está a fazer para se tornar numa potência, Rui Costa tem de realizar exibições de topo, tendo uma margem de erro muito reduzida. Principalmente tem de agarrar com tudo o que tenha as poucas oportunidades que ainda vai tendo. Perante a sua forma em 2019 e o seu passado nas Ardenas, este é um ciclista que pode ter uma palavra a dizer nas próximas três corridas. "Só" tem de ser aquele Rui Costa de Innsbruck, nos Mundiais.

»»Rui Costa está bem após acidente e a pensar no próximo objectivo««

27 de abril de 2018

Liège-Bastogne-Liège vai mesmo ter um final diferente 28 anos depois

(Fotografia: Twitter Liège-Bastogne-Liège)
Bob Jungels acabou por ser o último ciclista a ganhar em Ans, pelo menos durante alguns tempo. Há alguns meses que se falava com alguma intensidade da possibilidade do percurso do monumento mais antigo ser alterado, visto ter-se tornado uma corrida algo previsível. A confirmação já chegou: a corrida irá fazer jus ao seu nome e regressar a uma meta no centro de Liège, 28 anos depois de ter sido desviada para Ans, que fica na região de Liège, mas mais afastada da cidade.

"A tradição não proíbe mudanças! Apesar da ASO estar ligada à história dos eventos que organiza, também se mantém aberta a mudanças para refrescar a imagem." A justificação da Amaury Sport Organisation (ASO) até é interessante, visto que muitas vezes é acusada de estar presa às escolhas mais tradicionais nas corridas, com destaque para a Volta a França. A Liège-Bastogne-Liège já algum tempo que tinha caído na previsibilidade, com várias subidas a fazer alguma selecção nos candidatos, mas com a última dificuldade em Ans a ser onde se decidia o monumento. Jungels quebrou um pouco essa rotina ao ter escapado antes ao grupo de favoritos e ter alcançado uma vitória a solo.

Os organizadores consideram que as alterações irão tornar o "formato mais condizente com o nome da corrida". "A mudança do local da meta é essencialmente feito por critérios desportivos, com intenção de tornar o final da corrida ainda mais atractivo", explicou a organização, num comunicado.

A última fez que o até então tradicional final no centro de Liège foi o local da consagração, o vencedor foi o italiano Moreno Argentin, em 1991. Agora é preciso aguardar para saber como irão ser distribuídas as subidas que compunham a fase decisiva da corrida e em 2019, 28 anos depois, a La Doyenne regressa, de certa forma, a casa. Até então, só em 1972 tinha fugido à tradição, com um final em Verviers. Também já era falado que se a mudança viesse a confirmar-se, sendo potencialmente um final mais plano, poderá chamar novamente outro tipo de ciclistas, com Peter Sagan e Greg van Avermaet logo à cabeça. Mas primeiro será preciso conhecer o novo percurso.

Onde não se irá mexer é no muro de Huy. Apesar da Flèche Wallonne andar a sofrer um pouco do mesmo mal da Liège-Bastogne-Liège, ou seja, acaba por ser algo previsível que a vitória se vai discutir na mítica subida, ainda assim, esta é uma tradição que continua a resultar a nível de espectáculo. Irá manter-se pelo menos até 2024. Já os locais do início continuarão a ser alterados para irem mostrando várias zonas da Valónia. E em 2019 será Ans a receber o arranque da Flèche Wallonne. Uma forma de compensar a perda da Liège-Bastogne-Liège.


23 de abril de 2018

Ciclista ciumento não tem lugar na Quick-Step Floors

(Fotografia: © Sigfrid Eggers/Quick-Step Floors)
Com mais de 30 anos de carreira como director desportivo, Patrick Lefevere admite que ao ver como os seus ciclistas trabalham em equipa, ajudando-se mutuamente para alcançarem vitórias, é algo que ainda o deixa emocionado. Para o responsável da Quick-Step Floors esta foi a melhor primavera de sempre, com dois monumentos conquistados, a Flèche Wallonne, E3 Harelbeke... praticamente todas as clássicas belgas, além de vitórias de etapas na Volta a Catalunha e ao País Basco. E contabilizando todos os triunfos desde o início do ano, são 27, distribuídos por 12 ciclistas, com a Sky a ser a equipa que mais se aproxima deste fabuloso registo, com 15 triunfos.

"Não é possível fazer melhor. É a minha melhor primavera de sempre e foi com uma equipa muito jovem", salientou Lefevere ao jornal belga Het Nieuwsblad. Bob Jungels e Julian Alaphilippe têm 25 anos, Fabio Jakobsen e Álvaro Hodeg (duas das revelações deste início de temporada), têm 21, Enric Mas, 23, Max Schachmann, 24, só para nomear alguns. Niki Terpstra (33), Maximiliano Richeze (35) e Philippe Gilbert (35) são os veteranos, mas só o último ainda não venceu este ano, apesar de ser ele quem detém o melhor currículo. Porém, Gilbert foi visto mais do que uma vez a trabalhar para colegas bem mais novos, ou então a tentar mexer na corrida. "Vemos como o Philippe Gilbert não tem problemas em abrir a corrida [como aconteceu na Liège] para os outros. Isso é o conceito de equipa: ninguém tem ciúmes", realçou Lefevere, que foi mais longe: "Se vejo um ciclista ciumento, tiro-o da minha equipa."

Esta é uma equipa habituada a somar mais de 50 ou 60 vitórias por ano, ainda assim, 27 e o mês de Abril ainda nem terminou, é algo que deixou Lefevere orgulhoso. No ano passado, por exemplo, "só" atingiram este número já em Maio, durante a Volta à Califórnia. Mas para o director há algo importante a destacar nesta juventude de enorme talento que corrida após corrida aparece a ganhar com a camisola da Quick-Step Floors. "Quando o Johan Museew parou, as pessoas pensavam que tínhamos um problema. O mesmo aconteceu com a despedida de Tom Boonen. Parecia que estávamos amputados, mas havia rapazes prontos para assumir a responsabilidade", referiu.

E assim foi, pois além dos jovens que apareceram, ciclistas ainda novos, mas já com experiência apareceram a grande nível, como foi o caso de Pieter Serry (29) e Yves Lampaert  (27), este último também já ganhou. E depois houve Zdenek Stybar (32), a quem continua a escapar um monumento, mas que nas clássicas do pavé foi um incansável em garantir que a Quick-Step Floors somava vitórias. Grande exemplo foi para os mais jovens, chegando a preparar os sprints para quem ainda agora chegou ao World Tour. "Estamos muito contentes. Não é possível fazer melhor. Eu devia dar uma conferência de imprensa amanhã a dizer que vamos abandonar em grande estilo", brincou Lefevere.

Desistir é uma palavra que não existe no vocabulário desta equipa belga, numa altura que virará as atenções para as grandes voltas. As clássicas são o ADN desta estrutura, mas não se se pense que irá desaparecer com a chegada do Giro, Tour e mais tarde a Vuelta. No ano passado foi uma autêntica papa-etapas com Fernando Gaviria, Marcel Kittel e Matteo Trentin a não darem hipótese nos sprints.

Kittel não quis competir por um lugar no Tour com Gaviria e foi para a Katusha-Alpecin, enquanto Trentin foi à procura de um papel de maior destaque durante toda a temporada na Mitchelton-Scott. Nem um, nem outro está a ter um ano muito memorável. Já a Quick-Step Floors contratou Elia Viviani (29 anos) e já lá vão seis vitórias. Vai ao Giro para matar a fome de grandes voltas, depois da Sky o ter deixado de fora de todas em 2017. Gaviria tem estado a recuperar de uma queda no Tirreno-Adriatico, depois de a estreia como aposta nas clássicas não ter corrido muito bem. No entanto, já tem quatro vitórias e vai regressar esta terça-feira na Volta a Romandia, na preparação rumo ao Tour. E há que salientar que, apesar de já ser um dos melhores sprinters do mundo, só tem 23 anos.

Quanto a Viviani há que referir que é mais um exemplo de outra capacidade extraordinária da Quick-Step Floors. Ciclistas que vivem maus ou menos bons momentos na carreira, vão para a estrutura de Lefevere e simplesmente desatam a ganhar. Aconteceu com Viviani, que atravessa a sua melhor temporada, foi o caso de Marcel Kittel quando deixou a então Giant-Alpecin (actual Sunweb) e com Gilbert que no ano passado voltou às grandes vitórias, depois de uma travessia no deserto durante grande parte da sua estadia na BMC.

Se para as classificações gerais não se espera uma candidatura ao nível de um Chris Froome, Romain Bardet, Tom Dumoulin, Nairo Quintana ou outros grandes voltistas, Enric Mas estará no Giro para mostrar que Espanha tem mais um homem que quer e pode assumir-se como referência, agora que Alberto Contador saiu de cena. Em França, será a vez de Bob Jungels elevar o seu nível e ir à procura de pelo menos um top dez.

Pelo meio haverá corridas de uma semana ou de um dia e seria estranho se no final do ano não estivéssemos a olhar para um registo a rondar as 60 vitórias, ainda que se o ritmo de triunfos se mantiver, poderemos estar perante algo histórico.

Aqui ficam as 27 vitórias até ao momento da Quick-Step Floors (a categoria está entre parêntesis, com as identificadas como UWT a pertenceram ao calendário World Tour):

➤ Terceira etapa do Tour Down Under (2.UWT), 18 de Janeiro: Elia Viviani
➤ Primeira etapa da Volta a San Juan (2.1), 21 de Janeiro: Fernando Gaviria
➤ Quarta etapa da Volta a San Juan (2.1), 24 de Janeiro: Maximiliano Richeze
➤ Primeira etapa da Colombia Oro y Paz (2.1), 6 de Fevereiro: Fernando Gaviria
➤ Segunda etapa da Volta ao Dubai, 7 de Fevereiro: Elia Viviani
➤ Segunda etapa da Colombia Oro y Paz (2.1), 7 de Fevereiro: Fernando Gaviria
➤ Terceira etapa da Colombia Oro y Paz (2.1), 8 de Fevereiro: Fernanco Gaviria
➤ Quarta etapa da Colombia Oro y Paz (2.1), 9 de Fevereiro: Julian Alaphilippe
➤ Quinta etapa da Volta ao Dubai (2.HC), 10 de Fevereiro: Elia Viviani
➤ Classificação geral da Volta ao Dubai (2.HC), 10 de Fevereiro: Elia Viviani
➤ Segunda etapa da Volta a Abu Dhabi (2.UWT), 22 de Fevereiro: Elia Viviani
➤ Le Samyn (1.1), 27 de Fevereiro: Niki Terpstra
➤ Dwars door West-Vlaanderen (1.1), 4 de Março: Rémi Cavagna
Danilith Nokere Koerse (1.HC), 14 de Março: Fabio Jakobsen
Handzame Classic (1.HC), 16 de Março: Álvaro Hodeg
Primeira etapa da Volta à Catalunha (2.UWT), 19 de Março: Álvaro Hodeg
Driedaagse Brugge - De Panne (1.HC), 21 de Março: Elia Viviani
E3 Harelbeke (1.UWT), 23 de Março: Niki Terpstra
Sexta etapa da Volta à Catalunha (2.UWT), 24 de Março: Max Schachmann
Dwars door Vlaanderen (1.UWT), 28 de Março 1 de Abril: Yves Lampaert
Volta a Flandres (1.UWT), 1 de Abril: Niki Terpstra
Primeira etapa da Volta ao País Basco (2.UWT), 2 de Abril: Julian Alaphilippe
Segunda etapa da Volta ao País Basco (2.UWT), 3 de Abril: Julian Alaphilippe
Scheldeprijs (1.HC), 4 de Abril: Fabio Jakobsen
Sexta etapa da Volta ao País Basco (2.UWT), 7 de Abril: Enric Mas
Flèche Wallonne (1.UWT), 18 de Abril: Julian Alaphilippe
Liège-Bastogne-Liège (1.UWT), 22 de Abril: Bob Jungels



22 de abril de 2018

Todos a olhar para Valverde e Alaphilippe e a Quick-Step ganhou com Bob Jungels

(Fotografia: Twitter Quick-Step Floors)
Se há algo que ficou bem claro nesta Liège-Bastogne-Liège é que esta Quick-Step Floors anda perto da perfeição como equipa e que o monumento mais antigo da história do ciclismo está desesperadamente a precisar de uma revitalização no seu percurso. Em 258 quilómetros apenas os últimos 30 serem de facto interessantes, é muito redutor  numa corrida desta magnitude. Valeu Bob Jungels que animou (e de que maneira) a fase decisiva, com a concorrência a marcar-se de tal maneira que as reacções acabaram por ser pouco assustadoras e bem controladas por um Julian Alaphilippe, que de principal candidato - a par de Alejandro Valverde - passou a um homem de trabalho, brilhante em "atrapalhar" a perseguição ao colega de equipa. A forma como o francês festejou ao cortar a meta e aquele abraço de Enric Mas a Jungels diz tudo: esta Quick-Step Floors é uma equipa por excelência. Quem não ganha festeja e emociona-se como se tivesse sido o vencedor.

Tantos perguntam se o ciclismo é um desporto colectivo. A Quick-Step Floors é um exemplo perfeito que sim. Ganha a individualidade, é certo, mas é o trabalho de todos que permite que nesta fase do ano já sejam 27 as vitórias, distribuídas por 12 ciclistas. E dois monumentos, nos quatro realizados (fica a faltar a Lombardia, a 13 de Outubro). Alaphilippe era o líder, ainda mais depois de ter ganho a Flèche Wallonne. Philippe Gilbert a outra carta a jogar (já venceu a Liège em 2011) e Bob Jungels acabava quase por ser um outsider. Mas nesta Quick-Step Floors, todos têm a sua oportunidade e um líder nunca é indiscutível. A corrida acaba por ditar quem vai lutar pelo triunfo.

Até foi Gilbert quem finalmente mexeu numa corrida até então a roçar um absoluto aborrecimento. Antes a subida que sempre marcou este monumento, La Redoute, passou-se sem história. Foi em Roche-aux-Faucons que as movimentações se tornaram decisivas. Bob Jungels colocou-se na frente e na descida ganhou vantagem sobre quem sobreviveu a estes ataques que partiram por completo um grupo que era então estranhamente grande.

Curiosamente, foi precisamente neste local que Andy Schleck atacou quando em 2009 venceu a Liège-Bastogne-Liège. Outro luxemburguês inscreve agora o seu nome na mítica corrida, que acabou por ter um final menos habitual comparativamente com os últimos anos, já que Jungels chegou isolado. Chegou a ter um minuto de vantagem, muito por culpa de atrás ninguém se entender e até deixarem Alaphilippe liderar o grupo e claro que o francês tirava sempre o pé do acelerador. Só por uma vez tentou ele próprio atacar, quando Jelle Vanendert (Lotto Soudal) chegou a reduzir a diferença para 20 segundos. Porém, o belga, que foi terceiro na Flèche Wallonne, quebrou e Alaphilippe abortou o seu ataque.

Jungels ficou mesmo com o monumento, com Michael Woods (EF Education First-Drapac p/b Cannondale) - atenção ao canadiano para o Giro - e Romain Bardet (AG2R) a fechar o pódio. Boa época de clássicas para o francês, tanto no seu país, como em corridas mais importantes. Tinha terminado em segundo na Strade Bianche e no Tour du Finistère, sendo nono na Flèche Wallonne. No início da temporada venceu a clássica de l'Ardèche Rhône Crussol.

Pequeno pormenor: os quatro monumentos já realizados foram todos decididos por ataques a alguns quilómetros da meta. Foi assim na Milano-Sanremo, por Vincenzo Nibali, repetiu-se a história na Volta a Flandres com Niki Terpstra e Peter Sagan escapou ao grupo de favoritos no Paris-Roubaix, ainda que no final tenha sido obrigado a fazer um sprint com Silvan Dillier.

Regressando à Liège, Valverde procurava igualar Eddy Merckx com cinco vitórias, mas desta feita nem no top dez ficou (13º, a 51 segundos). Ainda tentou um ou outro ataque, mas no grupo simplesmente ninguém se entendia o suficiente para perseguir seriamente Jungels. Daniel Martin foi dos mais insatisfeitos. Depois de uma Flèche Wallonne em que ficou para trás, sendo uma enorme desilusão a forma que apresentou, o irlandês mostrou que teve um mau dia na quarta-feira e esteve muito activo na Liège. Um furo a oito quilómetros acabou com a sua corrida. Levou as mãos à cabeça e tinha razão para tal. Cortou a meta a 2:41 minutos (18º). 15 segundos depois chegou Rui Costa (22º). O português não conseguiu manter-se no grupo dos favoritos quando começaram as movimentações a 30 quilómetros do final. A UAE Team Emirates mostrou intenções ao liderar o pelotão durante muito tempo, mas no final saiu frustrada.

Domenico Pozzovivo veio de um segundo lugar na Volta aos Alpes para um quinto na Liège. Este italiano na Bahrain-Merida está a prometer para o Giro, tal como Davide Formolo (Bora-Hansgrohe), que foi sétimo. Tom Dumoulin (Sunweb) ainda tentou, mas claramente não se apresentava com o objectivo de vencer (15º). É difícil perceber como estará para o arranque da corrida que ganhou há um ano. E na perspectiva de quem foi à clássica a pensar um pouco na preparação para o Giro, Chris Froome terá gostado do que viu sobre Sergio Henao, mas já deve estar preocupado com o Wout Poels que teve uma semana das Ardenas para esquecer.

Ruben Guerreiro (Trek-Segafredo) era o outro português em prova, tendo abandonado. O mesmo sucedeu com Daniela Reis (Doltcini-Van Eyck Sport), na corrida feminina, ganha novamente por Anna van der Breggen. A semana das Ardenas pertence ao Women's World Tour desde o ano passado, quando o calendário começou, e a holandesa só falhou a vitória na última Amstel Gold Race, que, no entanto, foi ganha pela colega da Boels-Dolmans, Chantal Blaak.


Para Bob Jungels é a vitória mais importante da carreira. Porém, já venceu uma etapa no Giro no ano passado, em Bergamo, além de ter conquistado a classificação da juventude em 2016 e 2017. É quatro vezes campeão nacional de estrada e três de contra-relógio. A Quick-Step Floors vai apostar no ciclista de 25 anos no Tour, com o objectivo mínimo de o meter no top dez.

Mudança de percurso

Se tirar o muro de Huy da decisão da Flèche Wallonne poderia originar uma revolução, já tirar o final da Liège-Bastogne-Liège de Ans será uma mudança bem-vinda para a maioria. Desde 1992 que este monumento está preso a um percurso muito idêntico. As pequenas mudanças, como por exemplo este ano a subida de La Redoute surgiu um pouco mais afastada da meta, não têm oferecido um maior entusiasmo à corrida.

No próximo ano é possível que o final da La Doyenne regresse a algo mais tradicional antes de se fixar em Ans. A diferença é que será uma aproximação à meta em plano. A Liège-Bastogne-Liège irá assim chamar outro tipo de ciclistas, além dos trepadores. Nomes como Peter Sagan ou Greg van Avermaet podem muito bem colocar esta prova no seu calendário. As subidas ganharão outra importância. Favorecerá ataques daqueles que não quererão um sprint. Pelo menos na teoria, a Liège-Bastogne-Liège poderá tornar-se mais "movimentada".

Mas é só para 2019. Esta época terminaram as emoções fortes desta fase das clássicas. Agora é tempo de entrar definitivamente em contagem decrescente para o Giro, a primeira grande volta do ano, que começa dia 4 de Maio, em Jerusalém, Israel.





21 de abril de 2018

Valverde à procura de igualar uma lenda e já com a certeza que monumento quer atacar em 2019

(Fotografia: Twitter Movistar Team)
Perder a Flèche Wallonne para Julian Alaphilippe não desanimou nada um Alejandro Valverde determinado em fazer história quando se aproxima o 38º aniversário (a 25 de Abril). É altura de olhar para o próximo grande objectivo: ganhar pela quinta vez o monumento mais antigo, a Liège-Bastogne-Liège e assim chegar-se ao mítico Eddy Merckx. "É muito importante para mim. Estamos a falar de igualar uma lenda. Tenho muito respeito por ele. Igualá-lo daria a uma vitória no domingo uma especial dimensão", afirmou Valverde.

O belga venceu em 1969, 1971, 1972, 1973 e 1975. A última foi aos 29 anos. Vivem-se tempos bem diferentes e Valverde começou mais tarde a ganhar, mas não tem intenções de parar tão cedo: 2006, 2008, 2015 e 2017. O seu maior adversário chama-se Julian Alaphilippe, o francês que lhe tirou a possibilidade de conquistar uma sexta Flèche Wallonne, batendo o espanhol num muro de Huy onde ninguém há quatro anos descobria a forma de bater Valverde. "Eu sei há muito tempo que não sou imbatível", realçou ao jornal belga La Meuse.

O ciclista da Movistar admitiu que cometeu um erro que não poderia fazer com Alaphilippe: "Não me apercebi na altura, mas demorei demasiado tempo em reagir à aceleração do Julian. Com outro ciclista não teria sido um erro fatal, mas com o Julian foi. Tinha de recuperar muito espaço e quando vi que não conseguiria apanhá-lo, que rebentaria se chegasse a um metro dele, desacelerei."

Alaphilippe (Quick-Step Floors) já era um dos ciclistas candidatos a ser uma das figuras na semana das Ardenas e a conquista da Flèche Wallonne apenas lhe consolidou um estatuto merecido. O francês quebrou o enguiço de dois segundos lugares, atrás de Valverde, e o próprio confessou que tinha sido importante ganhar frente ao espanhol. Em 2015 foi precisamente o que aconteceu também na Liège-Bastogne-Liège, o francês não conseguiu bater o Bala.

Em dez participações, Valverde tem sete pódios, quatro no ponto mais alto. Alaphilippe conta apenas com duas participações, mas também tem apenas 25 anos. São de facto tempos diferentes ao de Merckx, em que os ciclistas apareciam mais cedo, mas também era quase inimaginável ver alguém com quase 38 anos a ganhar ao ritmo de Valverde. O espanhol pode muito bem estar perante uma espécie de entrega de testemunho nas Ardenas ao francês, mas não o quer fazer sem antes fazer um pouco mais de história.

E não será apenas Alaphilippe com quem se terá de preocupar. Vincenzo Nibali tem a Liège-Bastogne-Liège como objectivo para 2018. Já venceu um monumento de forma algo inesperada, a Milano-Sanremo, mas nesta fase na carreira, o italiano ganhou um novo fôlego para estas corridas, não se centrando tanto apenas numa ou duas corridas de três semanas. E que bem tem estado o líder da Bahrain-Merida. Seja em terreno que o beneficie ou não, tenta atacar, mexe nas corridas, dá espectáculo. Resultou na Milano-Sanremo e Nibali está desejoso por juntar mais um monumento ao currículo, pois conta ainda com duas Lombardias. Este ano experimentou a Volta a Flandres e, lá está, mesmo não sendo um terreno a que esteja muito habituado, tentou a sua sorte.

Para o ano haverá outro estreante. Valverde gostou da experiência do pavé na Através da Flandres (foi 11º) e já decidiu que quer estar na Volta a Flandres pela primeira vez na carreira. "Será um dos principais objectivos. Adoro correr no pavé e fiquei com a sensação que me dou bem, mesmo estando longe de ser um especialista", disse o espanhol.

Mas primeiro há a Liège-Bastogne-Liège que terá uma concorrência interessante por parte da dupla da Lotto Soudal Tim Wellens/Tiesj Benoot. Na Flèche Wallonne, Jelle Vanendert acabou por surpreender e ser ele a entrar no pódio, mas a equipa belga aposta muito forte nesta corrida. Ganhar a Strade Bianche com Benoot foi fantástico, mas falta um triunfo numa das principais clássicas belgas, pois a Brabantse Pijl (por Wellens) sabe a pouco. Houve um desentendimento após a Flèche Wallonne, com Wellens a criticar o colega por não o ter ajudado, mas já veio pedir desculpa a Vanendert.

Na Astana teremos um Michael Valgren num momento extraordinário da carreira. O dinamarquês vem de uma sensacional vitória na Amstel Gold Race e abriu a época das clássicas do pavé com a conquista da Omloop Het Nieuwsblad. Estamos a falar de um ciclista que como sub-23 venceu duas vezes a Liège-Bastogne-Liège dessa categoria - e que este ano foi conquistada pelo português João Almeida -, pelo que se sente muito à vontade neste terreno. Não lhe dêem um centímetro, pois tem sido fatal.

A Sky parte com um trio que se pode esperar tudo e pode não dar em nada. Não está a ser uma época de clássicas auspiciosa para a equipa britânica. Michal Kwiatkowski, Geraint Thomas e Wout Poels são nomes a ter em conta, mas sem o favoritismo de outras edições. Romain Bardet (AG2R), Warren Barguil (Fortuneo-Samsic) e Rigoberto Uran (EF Education First-Drapac p/b Cannondale) estarão presentes, tal como Tom Dumoulin. Será uma boa oportunidade para perceber como está o holandês da Sunweb, que estará mais concentrado em aparecer bem no Giro, mas um monumento... é um monumento. Porém, poderá ser Michael Matthews a principal aposta da equipa, caso confirme o regresso à boa forma.

Depois de ver Daniel Martin na Flèche Wallonne quase custa colocá-lo como sequer um outsider. Mas todos têm maus dias e o irlandês tem uma grande oportunidade para se redimir e a UAE Team Emirates bem agradecia. Foi segundo no ano passado, mas já conta com uma vitória em 2013, enquanto Rui Costa foi terceiro em 2016. E o português poderá ser mesmo a principal aposta da equipa, em parceria com Diego Ulissi, se Martin voltar a falhar. Rui Costa esteve a bom nível na Flèche Wallonne, sempre bem colocado, mas aquele muro de Huy não é definitivamente para ele. Já a Liège-Bastogne-Liège assenta-lhe bem e o português gosta muito desta corrida.

Ruben Guerreiro será o outro português em prova. O ciclista da Trek-Segafredo também gosta desta corrida e na de sub-23 fez um terceiro lugar em 2016. Terá como líder Bauke Mollema, pelo que veremos se terá alguma liberdade. Nas senhoras, Daniela Reis voltará a estar presente ao serviço da Doltcini-Van Eyck Sport.

Pode ver aqui a lista de inscritos para a 104ª Liège Bastogne-Liège.

Quanto ao percurso, o monumento mantém-se fiel ao habitual, mas muito se tem falado que nas próximas edições poderão haver novidades. Mas neste domingo, nos 258 quilómetros entre Liège e Ans, as maiores dificuldades concentram-se principalmente nos últimos 100 quilómetros. Côte de Pont (aos 168 quilómetros, mil metros a 10,5%) e Ferme Libert (180, 1200 metros a 12,1%) podem servir para abrir algumas hostilidades, ou poder-se-á esperar pelas próximas dificuldades. Rosier (198, 4400 a 6%) e Maquisard (211, 2500 a 5%). Uma das novidades é a La Redoute surgir um pouco mais cedo na corrida, isto é, a 36 quilómetros de meta (2000 metros a 8,9%). Sobram depois Roche-aux-Faucons (a 19 quilómetros do fim, 1300 metros a 11%) e Saint-Nicolas (a seis da meta, 1200 a 8,6%).


A Liège-Bastogne-Liège é o monumento mais antigo da história do ciclismo. A primeira edição foi em 1892, ganha pelo belga Léon Houa, que também venceu nos dois anos seguintes. Apesar de ter mais edições, 116, o Paris-Roubaix teve a sua estreia em 1896. Valverde, Martin, Poels (2016), Simon Gerrans (2014) e Philippe Gilbert (2012) serão os ciclistas que já ganharam esta corrida que estarão em prova neste domingo.


15 de abril de 2018

"Quando cheguei fiquei naquela: será que ganhei mesmo?!"

(Fotografia: © Joyce Jason Ghijs/Hagens Berman Axeon)
João Almeida está a viver um momento especial na sua ainda curta carreira. Aos 19 anos venceu, no sábado, a Liège-Bastogne-Liège de sub-23, uma das corridas mais importantes do escalão, nunca esquecendo que em elite é um dos cinco monumentos. Na Bélgica não houve tempo para muitos festejos, pois regressou pouco depois a Portugal, pelo que neste domingo, família e amigos celebraram um grande feito para o ciclismo nacional. No entanto, quase foi preciso beliscar João Almeida depois de cortar a meta. "Não estava na expectativa de ganhar esta corrida... Não estava a sentir-me super", contou. Mas as sensações melhoraram durante os 173,4 quilómetros entre Bastogne e Ans. E no final: "Quando cheguei fiquei naquela, será que ganhei mesmo?!"

Sim, João Almeida tinha mesmo ganho e juntou-se a uma lista que conta com nomes como Michael Valgren (Astana e que este ano ganhou a Omloop Het Nieuwsblad e a Amstel Gold Race), Tosh Van der Sande (Lotto Soudal), Ramunas Navardauskas (Bahrain-Merida), Jan Bakelants (AG2R) e Grega Bole (Bahrain-Merida), por exemplo. Todos corredores que hoje estão no World Tour. De recordar que Ruben Guerreiro detinha o melhor resultado de um português nesta prova, quando foi terceiro em 2016, precisamente ao serviço da equipa de Almeida. Agora está na Trek-Segafredo.

Se no início João Almeida estava concentrado em cumprir com a função de ajudar os dois líderes definidos, Ivo Oliveira e Will Barta, com o passar dos quilómetros foi-se sentido cada vez melhor e ao integrar a fuga com vários ciclistas, incluindo o colega Jonathan Brown, o português começou a acreditar que era possível alcançar um bom resultado. "Lá está, eu pensava num top 10 ou 15", admitiu ao Volta ao Ciclismo. Contudo, assumiu um último risco: "No final estava a sentir-me bem e aproveitei uma boa zona para atacar e correu bem. No final era só acreditar e sabia que conseguia."

"É uma corrida bastante difícil, com subidas muito inclinadas. [...] É o meu tipo de corrida"

Apesar da perseguição que lhe foi feita, o ciclista português terminou com 15 segundos de vantagem sobre o italiano Andrea Bagioli, que foi o mais forte no sprint pelo segundo lugar. O francês Alexys Brunel fechou o pódio. "É uma corrida bastante difícil, com subidas muito inclinadas, mas também tudo depende da nossa forma e das sensações. Foi uma corrida muito dura", salientou, acrescentado de imediato: "É o meu tipo de corrida."

Estar na Hagens Berman Axeon - considerada por muitos a melhor equipa de formação, liderada por Axel Merckx e que este ano subiu ao nível Profissional Continental - é por si só um factor de motivação para João Almeida, mas uma vitória numa corrida como a Liège-Bastogne-Liège "acaba por dar mais confiança". "E talvez tenha ganho mais respeito e é mais fácil acreditar [em ser possível alcançar mais vitórias]", disse.

Apesar do feito, João Almeida mantém-se igual a si próprio, concentrado em trabalhar na sua evolução. Concentrado no presente. "O que tenho basicamente de fazer é continuar a ajudar os meus colegas e a equipa. Depois é tentar andar sempre bem e depende do momento de cada um", afirmou. Segue-se o Tour de Bretagne (de 25 de Abril a 1 de Maio): "Vou com expectativa de fazer bons resultados."

Agora é tempo de celebrar, ou pelo menos foi neste domingo, para depois retomar uma temporada que está a ser muito positiva, não se podendo esquecer que o trio português da Hagens Berman Axeon - Almeida e os gémeos Oliveira - aguarda por conhecer quem serão os eleitos para a Volta a Califórnia, uma corrida World Tour, que se realiza daqui a um mês.

(Pode ver no Facebook da equipa americana as fotografias da festa de João Almeida, que naturalmente contou com um muito feliz Ivo Oliveira.)