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31 de maio de 2021

João Almeida sai mais forte da Volta a Itália

© Tim de Waele/Getty Images/Deceuninck-QuickStep
Perder um quinto lugar por menos de um segundo, ter um mau dia logo no início do Giro, ser obrigado a ajudar um companheiro quando também se quer estar na frente da corrida... Falar da Volta a Itália de João Almeida merece mais do que repetir à exaustão o que de mal aconteceu. Muito há a discutir na Deceuninck-QuickStep, é certo. As decisões poderão ter tirado ao ciclista português um melhor resultado. Merecia mais apoio, merecia que não tivesse ficado tão "preso" a Remco Evenepoel. Porém, como de "ses" não reza a história, João Almeida merece que se destaque o que fez de positivo.

Para tal, começa-se pelo fim. A terceira semana (no fundo, cinco dias) foi excepcional. Não só mostrou como estava bem preparado para a corrida e como até foi melhorando com o passar da prova, como evoluiu desde o último Giro, o qual andou de rosa 15 dias. Desta feita não viveu um sonho. A realidade foi bem dura, mas também foi demonstradora do que Almeida é capaz de fazer. Numa fase final da Volta a Itália difícil, exigente, o português foi dos melhores em prova, para não dizer o melhor, entre os que aspiravam o top dez ou até mais.

Almeida não só conseguiu acompanhar o ritmo fosse de Egan Bernal ou Simon Yates, por exemplo, como atacou. Se no último Giro as maiores altitudes acabaram por ser complicadas de ultrapassar, desta feita o ciclista das Caldas da Rainha revelou como evoluiu neste aspecto importante, cimentando o seu estatuto como um dos mais talentosos jovens voltistas. O que aconteceu em 2020 não foi um acidente, ou obra do acaso. Almeida confirmou o potencial que tem, confirmou como continua a trabalhar para se tornar num ciclista cada vez melhor. E está fortíssimo no contra-relógio! Não é de admirar que se fale que há várias equipas a querer contar com Almeida a partir de 2021.

O português, de 22 anos, merece ter companheiros que dediquem a sua corrida em apoiá-lo, pois como se viu no Giro, uma boa equipa faz toda a diferença (Bernal que o diga). Por melhor que se seja individualmente, é sempre preciso apoio e naquele quarto dia de mau tempo (frio e chuva), uma ajuda poderia ter escrito outra história neste Giro. Por mais que não fosse o que quisesse fazer, Almeida mostrou também ser profissional. Ajudou Remco Evenepoel quando assim o teve de fazer. Quando recebeu instruções para o fazer.

Mas mais profissional foi quando lhe deram (finalmente) liberdade. Não desistiu, não se rendeu a uma possível frustração. Foi atrás do melhor resultado possível. Sexto lugar a 7:24 minutos de Bernal na geral (em 2020 foi quarto), ficou tão perto de uma vitória de etapa e não houve jornal, rádio, televisão, site, redes social que não falasse do português. A equipa que o contratar vai ter um ciclista com grande futuro, não apenas fisicamente, mas também mentalmente. Almeida é já um corredor do presente, mas tem muito para dar e ganhar nas épocas que aí vêm.

Almeida vai à Vuelta, a grande volta que inicialmente estava no seu programa. Será desde logo uma das principais figuras, mesmo que seja apenas a sua terceira grande volta. É mais um exemplo de como esta nova geração não precisa de esperar para ganhar destaque.

Remco Evenepoel também está na lista da formação belga. Faltará saber se será o segundo episódio da novela que dominou em demasia este Giro. João Almeida estará então a pouco tempo de terminar contrato, o que acentuará a questão da liderança. Mas a Deceuninck-QuickStep terá as más decisões do Giro a também pesar na decisão que tomar. 

Como se viu no Giro, Almeida sabe ultrapassar estes obstáculos. Sai da Volta a Itália mais forte. E há quem veja como merece ser líder e o queira contratar. Quem? Responsáveis da UAE Team Emirates, Bora-Hansgrohe, Movistar... Os rumores são muitos. Em Agosto, quando abrir o mercado talvez já se saiba. Até lá, que venha a próxima corrida para ver este fantástico ciclista que tanto está a entusiasmar Portugal.

»»Libertem o João e deixem o Remco em paz««

25 de maio de 2021

Libertem o João e deixem o Remco em paz

© Tim de Waele/Getty Images/Deceuninck-QuickStep
Remco, Remco, Remco! Muito se falou do regresso de Evenepoel, ofuscando quase tudo e todos antes e durante os primeiros dias do Giro. João Almeida teve o seu merecido destaque, que Patrick Lefevere, director da Deceuninck-QuickStep resolveu "colorir" com a notícia que o ciclista português ia sair da equipa no final do ano, com direito a críticas ao empresário do atleta. Timing estranho, já que o fez no dia antes da prova arrancar. João começou bem, Remco também - ainda que tenha ficado atrás do português no contra-relógio - e até foi a um sprint intermédio para ganhar a dianteira na geral para ser o número um da Deceuninck-QuickStep. Como se houve essa questão... Depois, João perdeu tempo e teve de definitivamente ficar a ajudar o belga. Quando Evenepoel começou a dar sinais de fraqueza a equipa manteve-se unida em torno do líder, com Almeida a ter essas ordens. Nada de novo e absolutamente normal. A aposta falhou. Agora é a vez de João ir para a frente nos cinco dias que faltam de Volta a Itália. Se há corrida que está a contribuir para o crescimento do português, é este Giro.

Há uns meses, quando João Almeida foi líder durante 15 dias em Itália, foi um sonho rosa que o lançou para a ribalta e confirmou todo o seu potencial, que ainda não atingiu por completo, pelo que muito mais e melhor se vai ver deste ciclista. Mas eis que este Giro traz a realidade que bem se conhecia. A Deceuninck-QuickStep aposta grande parte do seu futuro próximo no prodígio Evenepoel. Nove meses depois da gravíssima queda na Lombardia, finalmente regressou. E logo numa prova de três semanas, que nunca tinha feito na curta carreira.

De doidos? Certo é que apesar do bom início, aconteceu o que seria de expectável: Evenepoel ainda está longe de ser o que era antes da queda. O processo de recuperação ainda não terminou, principalmente a nível mental. Aquelas descidas... Há que dar tempo ao tempo. Quem não quer ver este espectacular ciclista de volta ao seu melhor? Não está a ser óptimo ver Egan Bernal (Ineos Grenadiers) a ser... Bernal? Situações diferentes, é certo, mas posições idênticas: apesar de jovens, tiveram um sucesso rápido e souberam cedo o que é passar maus momentos e viver sob desconfiança do que podem fazer no futuro... Mesmo sendo tão jovens.

João Almeida (22 anos) merecia ser líder. Está em boa forma e, apesar de lhe faltar uma grande vitória, já mostrou que a pode alcançar. Aquela quarta etapa selou-lhe um destino que mais cedo ou mais tarde seria inevitável se Remco não cedesse. Era o número dois. Merecia que o tivessem protegido mais, por tudo o que já fez, não só no último Giro. A equipa rodeou o seu "menino bonito" e Remco foi alimentando a euforia dentro e fora da Deceuninck-QuickStep. Nove meses depois estava a lutar pelo Giro! É difícil acreditar que não se esperava de maneira nenhuma esta quebra. Talvez não de 28 minutos, mas que não estaria na luta pela vitória do Giro e que até poderia ficar fora do top dez.

Remco Evenepoel é o primeiro a querer mais e mais. Vive bem com essa pressão que se auto impõe. Mas viu-se na situação que todos pediam... exigiam o "velho" Remco (até parece mal dizer velho tendo ele 21 anos, feitos em Janeiro). Se este Giro muito pode estar a ajudar no amadurecimento de João Almeida, também acontecerá o mesmo a Remco. Não é nenhum extraterrestre, não é nenhum super-herói, é um homem que também quebra. Há que o deixar recuperar, há que o deixar ser Remco Evenepoel ao seu ritmo. O novo Eddy Merckx? Quando o chamaram isso, ainda enquanto júnior, a sua resposta foi: "Não, sou o Remco Evenepoel!" E é isso mesmo. Merckx há só um, por mais que na Bélgica se diga que há um novo Merckx sempre que surge um ciclista com talento. E Evenepoel também haverá só um e se conseguir recuperar por completo física e mentalmente, será igualmente fenomenal, à sua maneira.

Quanto a João Almeida, assentou durante a corrida depois de algumas atribulações e declarações que pareciam fomentar polémicas. O português cumpriu as ordens da equipa. Goste-se ou não, é o que tem de fazer. Se foram as melhores... Muito haverá a analisar no final do Giro por parte da formação de Lefevere. Há que recordar que a Deceuninck-QuickStep abdicou de lutar por sprints ou de estar em fugas, como é normal em grandes voltas, o que significa que trocou o habitual objectivo de conquistar etapas, por uma geral. Quando Evenepoel deu os primeiros sinais que estava a claudicar, a equipa manteve a hierarquia. Nesta segunda-feira, a equipa finalmente libertou um João Almeida em crescendo, com Remco em quebra total. Um top dez é o mínimo para a equipa salvar o Giro.

O português está em 10º. São 10:01 minutos para Egan Bernal. Uma montanha de tempo para recuperar. Só uma catástofre afastará o colombiano da conquista da sua segunda grande volta (venceu o Tour em 2019). Pódio para João Almeida? Hugh Carthy (EF Education-Nippo), terceiro, está a 3:40 de Bernal. Tem sido um Giro complicado para os líderes das equipas - menos para Bernal - pelo que o português pode muito bem alcançar mais um top dez, depois de ter sido quarto na sua estreia no Giro e numa grande volta.

Qualquer coisa que venha a mais (na classificação ou ganhar uma etapa), será bem-vindo e merecido para um ciclista que nos vai dar muitas razões para celebrar. Só precisa que o libertem das amarras de Remco, que agora diz ser a sua vez de ajudar e que vai estar ao lado do português, dentro do que as forças deixarem. Só lhe ficará bem e assim sim, é como funciona uma equipa.

Cinco dias para dar tudo! Bota lume João!

»»Lefevere sem timings anuncia saída de João Almeida««

9 de maio de 2021

Lefevere sem timings anuncia saída de João Almeida

© Tim de Waele/Getty Images/Deceuninck-QuickStep
Com a Volta a Itália prestes a arrancar ter o dono de uma equipa a confirmar a saída de um dos seus líderes no final do contrato, é algo que só se pode pensar que não será bom para o ciclista em causa. No entanto, Patrick Lefevere nunca foi parco em palavras e timings não lhe preocupam. João Almeida não irá continuar na Deceuninck-QuickStep em 2022, segundo o belga, que o afirmou ainda antes do ciclista partir este sábado para o contra-relógio. O responsável garante que a decisão não terá influência no apoio ao ciclista durante o Giro. Mas será mesmo assim?

"Não vai determinar a escolha tática para o Giro. Serão as pernas a decidir. Não me interessa nada, se ganhar o Giro, que seja com um belga ou um português", lê-se na habitual crónica de Lefevere no Het Nieuwsblad. Em causa está o regresso de Remco Evenepoel, cuja a queda na Lombardia obrigou a uma longa paragem, a adiamentos no regresso e ainda a incertezas do que poderá fazer o ciclista nesta Volta a Itália. Tal como João Almeida, começou bem. Mas o português começou melhor.

"Quem me conhece, sabe que a camisola da equipa é mais importante que as nacionalidades. O João é o líder, o Remco terá liberdade", garantiu, mas não está fechada a porta para que Evenepoel assuma o papel que já lhe era destinado no ano passado, antes da queda. Ou seja, se com o decorrer da corrida o belga se apresentar melhor, passará a ser chefe-de-fila.

Recorde-se que Evenepoel deveria ter feito a sua estreia numa grande volta precisamente no Giro, em 2020. Estava numa sucessão de vitórias, incluindo na Volta ao Algarve, e com Almeida a ser um apoio importante em algumas. Porém, com Evenepoel a recuperar da grave queda, o português não só foi chamado quase à última hora para o Giro, como rapidamente "saltou" a parte de perceber como seria competir numa prova de três semanas. Começou forte, no contra-relógio e pouco depois iniciou uma fantástica história de 15 dias de camisola rosa.

Almeida já era um dos jovens considerados a ser seguido com atenção. Naquele Giro realizado em Outubro, passou a ser um dos jovens mais apetecidos por outras equipas. Não ganhou, mas o quarto lugar foi a todos os níveis um resultado final fantástico. Desde então que o ciclista da Caldas da Rainha continuou a somar exibições convincentes. No início desta temporada conseguiu o seu primeiro pódio numa prova World Tour, nos Emirados Árabes Unidos e com o contrato a terminar no final de 2021, há muito que a sua saída era dada como uma forte possibilidade.

Lefevere nunca gostou dessas notícias, criticou bem à sua maneira um possível convite da UAE Team Emirates do português e apesar do desejo de manter Almeida na Deceuninck-QuickStep, a equipa belga acaba por ter duas desvantagens. A primeira é o facto de ser uma formação muito virada para clássicas e sprints. Apesar de já estar a reforçar um pouco o bloco para grandes voltas, tal começou a ser foi feito a pensar em Evenepoel. Se o belga recuperar a sua forma, ninguém dúvida quem será a figura no que a este tipo de prova diz respeito.

Depois há a questão financeira. Uma equipa como a UAE Team Emirates tem uns bolsos bem mais fundos do que a equipa belga. A Deceuninck-QuickStep pode ser a que mais ganha na estrada, das mais populares, mas dos Emirados Árabes Unidos vem muito dinheiro e que já fazem, por exemplo, de Tadej Pogacar o segundo ciclista mais bem pago do pelotão: cinco milhões de euros/época, segundo o jornal Marca.

Não há confirmação oficial de para onde vai João Almeida. Tal só é permitido no ciclismo a partir de 1 de Agosto. Contudo, a equipa que já conta com Rui Costa e os gémeos Oliveira é uma forte possibilidade, mas a Bora-Hansgrohe e a Movistar também são avançadas como hipótese. Tanto uma como outra estão a precisar de reforçar o sector de liderança nas grandes voltas. Podem não ter bolsos tão fundos como a UAE Team Emirates, mas também têm capacidade de oferecer bons contratos.

Aos 22 anos, João Almeida irá dar o passo que seria inevitável, mais cedo ou mais tarde. Não perde tempo e dá-lo-á já em 2022. O ciclista quer uma equipa que lhe dê as condições para lutar por vitórias em grandes voltas ou noutras provas por etapas. A Deceuninck-QuickStep foi a formação perfeita para se apresentar ao World Tour, tendo em conta a filosofia que tem em dar oportunidades a praticamente todos os seus ciclistas, independentemente da idade e experiência.

A Almeida resta mostrar o que não há dúvidas que o fará: profissionalismo. Independentemente do que se passará em 2022, é agora que luta por um Giro. Começou com quarto lugar no contra-relógio, batendo a concorrência directa entre os que ambicionam a camisola rosa.

Durante as próximas três semanas, a ver vamos como irá a equipa reagir a este anúncio de Lefevere. Certo é que o dono da Deceuninck-QuickStep não está nada satisfeito com as negociações, criticando o empresário do ciclista. Não é uma posição ideal para João Almeida, mas este só tem de continuar no caminho que tem feito. No seu segundo ano no World Tour já é um dos principais ciclistas do pelotão e consegue ser o centro de disputa entre grandes equipas. Notável!

Mais saídas

Já este domingo, Lefevere fez mais um anúncio. Também Sam Bennett está de saída. Tanto o responsável, como o ciclista, segundo o belga, gostariam de continuar a ligação, mas a Deceuninck-QuickStep não tem capacidade para igualar as ofertas que o sprinter está a receber. Um regresso à Bora-Hansgrohe estará na equação, pois Pascal Ackermann poderá estar a caminho da UAE Team Emirates.

Sem confirmação oficial, mas entre os rumores que começam a surgir, Álvaro Hodeg também não deverá renovar, enquanto Peter Sagan (Bora-Hansgrohe) é apontado como possível reforço. Começa a parecer que o mercado de transferências vai ser animado a partir de 1 de Agosto.

(Texto actualizado às 15:53 com a saída de Sam Bennett e possível não renovação de Álvaro Hodeg.)

»»Ganna, aquela máquina. Almeida começa forte««

»»O regresso do sonho rosa««

8 de maio de 2021

Ganna, aquela máquina. Almeida começa forte

© Tim de Waele/Getty Images/Deceuninck-QuickStep
João Almeida não perdeu tempo em entusiasmar ainda mais os adeptos portugueses, meses depois de ter deixado um país apaixonado pela camisola rosa. Logo no primeiro dia da Volta a Itália mostrou que está mais do que focado em estar na luta pela geral. Desta feita, apresenta-se como candidato desde a partida e começou novamente com um forte contra-relógio, ainda que tenha sido apenas de 8,6 quilómetros em Turim. Ficou a 17 segundos daquele que é "apenas" o campeão do mundo e que tem ganho quase todos os contra-relógios que faz.

Filippo Ganna (Ineos Grenadiers) repetiu a dose de 2020. No último Giro venceu os três contra-relógios da prova e agora soma nova vitória e veste outra vez a camisola rosa. Bateu outro italiano forte na especialidade. Edoardo Affini fez mais 10 segundos, mas tirou o chapéu (literalmente) à exibição do compatriota. Porém, a Jumbo-Visma não saiu completamente desiludida de Turim. Tobias Foss tem apenas 23 anos, mas já um potencial reconhecido, para o qual contribuiu ganhar o Tour de l'Avenir em 2019.

Apesar de George Bennett ser, na teoria, o líder da Jumbo-Visma, perder 41 segundos, enquanto Foss somou apenas mais 13 que Ganna, deixa o norueguês numa boa posição inicial para poder ser também ele uma aposta.

E dos potenciais candidatos a lutar pela geral, Foss foi o único que bateu João Almeida. "Obtive um resultado melhor do que tinha pensado.  É uma excelente forma de começar a corrida. É um tipo de resultado que te dá uma importante dose extra de motivação", referiu o ciclista, citado pela Deceuninck-QuickStep.

Além de João Almeida, a equipa belga viu ainda Rémi Cavagna ser quinto, a 18 segundos - o campeão francês queria ganhar o contra-relógio - e Remco Evenepoel em sétimo, a 19 segundos. O regresso do belga foi um dos momentos do dia. "Ter três ciclistas no top 10 é excelente para a equipa", afirmou Almeida, numa altura que muito se vai começar a falar da forma física de Evenepoel.

Apesar de surgir com o dorsal um da equipa, a sua longa ausência da competição devido a uma grave queda na Lombardia, levanta dúvidas quanto à sua condição. Evenepoel começou bem, mas os verdadeiros testes chegarão com a montanha. Para João Almeida é ainda mais importante arrancar como o melhor da Deceuninck-QuickStep para que possa reclamar o estatuto de número um na equipa neste Giro.

Quanto aos outros dois portugueses em prova, Nelson Oliveira (Movistar) é um especialista no contra-relógio, mas este de Turim não era nada que pudesse beneficiar as suas características. Terminou a 29 segundos de Ganna, com Ruben Guerreiro (EF Education-Nippo) a perder 47.

Na perspectiva de João Almeida, o ciclista das Caldas da Rainha ganhou tempo aos rivais, com Aleksandr Vlasov (Astana) a ser o melhor, a 24 segundos de Ganna. Egan Bernal fez mais 39 segundos do que o companheiro de equipa e Jai Hindley (DSM), que no Giro passado esteve perto de ganhar a corrida, tem 46 segundos de atraso. Mikel Landa (Bahrain-Victorious), que assumiu que a Volta a Itália é para ganhar, pode dizer que nem foi dos seus piores contra-relógios, tendo 49 segundos para recuperar para Ganna, que não será um adversário directo.

2ª etapa: Stupinigi (Nichelino)-Novara (179 quilómetros)



7 de maio de 2021

O regresso do sonho rosa

 © Tim de Waele/Getty Images/Deceuninck-QuickStep
Em 2020, com a pandemia e todas as restrições que então levaram a uma mudança radical no calendário velocipédico, foi preciso esperar por Outubro para ver a Volta a Itália, sendo que antes já o Tour tinha ido para a estrada. Então, no Giro, por cá olhava-se para o estreante numa grande volta, na sua primeira época no World Tour: João Almeida. As circunstâncias levaram-no à corrida com liberdade para mostrar-se, com o português a querer perceber como seria fazer uma prova de três semanas. Mal se imaginava o que estava prestes a acontecer.

Durante aqueles dias, Almeida não só rapidamente confirmou todo o talento e potencial que o levou a uma das melhores equipas do mundo, a Deceuninck-QuickStep, como se afirmou como mais um dos jovens ciclistas a conquistar o World Tour. 15 dias de camisola rosa atiraram-no para a ribalta e em Portugal, o ciclismo entusiasmou não só os adeptos, como trouxe à modalidade muitos mais interessados. Uma autêntica onda rosa invadiu a região das Caldas da Rainha de João Almeida, mas um pouco por todo o país, o nome do jovem atleta entrou nas conversas tantas vezes dominadas pelo futebol, teve destaque nas primeiras páginas dos jornais, teve direito a realce até nos telejornais.

O impacto da exibição de João Almeida no Giro trouxe um mediatismo renovado ao ciclismo no nosso país. O resultado final foi um brilhante quarto lugar e a certeza que Portugal tem um voltista que, aos 22 anos, ambiciona que uma camisola rosa, amarela ou vermelha possa um dia ser dele num pódio final de uma grande volta. E já é um dos mais procurados atletas, numa altura em que está em final de contrato com a equipa belga. Renovará ou não? Isso fica lá mais para o Verão.

Em 2021, Almeida foi inicialmente apontado à Volta a Espanha, mas, tal como na época passada, acabou a ser "puxado" para o Giro, que arranca este sábado em Turim. E depois do que fez em 2020, por cá, o sonho rosa já domina o discurso de todos aqueles que querem ver novamente Almeida a ser figura em Itália.

E se o ciclista da Deuceninck-QuickStep recebe, merecidamente muita atenção, em Outubro Rúben Guerreiro fez também ele história. Venceu uma etapa e foi o rei da montanha, segurando a camisola azul até final. Depois de épocas inconstantes, na agora EF Education-Nippo, Guerreiro apresentou e continua a apresentar o nível há muito esperado. Também ele está de regresso a Itália, mas é um atleta que quer mais do que alcançou na edição passada do Giro.

A Almeida e Guerreiro, junta-se o experiente Nelson Oliveira, que tem dois Giros feitos, mas já há muito que não viajava para Itália. Participou na grande volta em 2012 e 2013.

O que esperar do trio de portugueses?

Com os Jogos Olímpicos como um dos principais objectivos, ir ao Tour poderia ser prejudicial na preparação e recuperação para quem vai a Tóquio procurar uma medalha no contra-relógio. Nelson Oliveira (dorsal 174) é um dos melhores gregários do pelotão World Tour e no Giro não terá um papel diferente daquele que desempenha quando participa no Tour e Vuelta.

A Movistar tem Marc Soler como líder e espera a Nelson Oliveira o habitual trabalho de sacrifício, mas terá dois contra-relógios para se testar. O primeiro, a abrir este sábado o Giro, é curto, apenas 8,6 quilómetros, em Turim.  Nada que beneficie as suas características. Depois é preciso esperar pelo último dia, com 30,3 quilómetros, entre Senago e Milão, mas também falta alguma dificuldade para assentar melhor a Oliveira. 

Quanto a Rúben Guerreiro (dorsal 105), é um ciclista que há muito aspira lutar por uma geral  numa grande volta. A EF Education-Nippo terá Hugh Carthy com essa função, mas tal não elimina que o português também possa olhar para um bom resultado nessa classificação. Na recente Volta aos Alpes, Guerreiro demonstrou o quanto quer ser um ciclista de geral, realizando uma excelente corrida, exibição premiada com um oitavo lugar. Deixou boas indicações e aos 26 anos quer dar mais um passo na afirmação de ser um corredor que pode estar entre os melhores numa corrida de três semanas.

João Almeida (dorsal 92) terá desta feita Remco Evenepoel a seu lado. A dupla rendeu vitórias ao belga em 2020, até à grave queda na Lombardia e que o fez falhar o Giro. Desde Agosto que não compete, o regresso foi adiado e será mesmo no Giro que irá novamente ver-se este talentoso e espectacular ciclista. A pergunta é como irá Evenepoel apresentar-se fisicamente depois de alguns adiamentos quanto ao seu regresso. Apesar de ser o dorsal 1 da equipa, é em Almeida que se centram as atenções para estar novamente na luta pela geral.

Evenepoel já garantiu que quer ajudar o português. Será um ver para crer. James Knox, Rémi Cavagna, Mikkel Honoré, Pieter Serry e o veterano Iljo Keisse serão homens importantes de apoio ao português, a que se junta... Fausto Masnada. O italiano não ganhou fãs em Portugal no Giro passado, quando as suas exibições pareceram serem mais centradas no seu objectivo pessoal, do que em sacrificar-se em prol de quem era "apenas" o líder do Giro.

Lista de inscritos, via ProCyclingStats.

1ª etapa: Turim-Turim (8,6 quilómetros)


»»Atitude muito pouco de Wolfpack««

11 de março de 2021

Atitude muito pouco de Wolfpack

© Tim de Waele/Getty Images/DeceuninckQuickStep
Estava ali à vista. Naqueles momentos que a meta parece estar tão perto, mas, ao mesmo tempo, a sensação que falta uma eternidade para lá chegar. João Almeida deu tudo. Poderia estar naqueles metros finais o caminho para a sua primeira vitória como ciclista do World Tour. Ficou sozinho, os "companheiros de fuga" não tiveram pernas. Almeida não desistiu apesar da perseguição feroz do que restava do pelotão. Geraint Thomas, Mathieu van der Poel, Wout van Aert, Julian Alaphilippe... que perseguidores de luxo. Bom, Alaphilippe não. Afinal é colega de equipa de Almeida. Pois...

O que se viu no final da segunda etapa do Tirreno-Adriatico foi uma exibição muito pouco de Wolfpack. Sim, esteve lá a garra, a táctica e a execução final para selar mais uma vitória em 2021. E já são 10. Porém, atacar um colega de equipa que está a dar tudo o que tem e não tem para ganhar, é simplesmente desleal. Vê-se pouco no ciclismo (felizmente), mais inesperado é ver-se numa Deceuninck-QuickStep que se auto-intitula de Wolfpack (alcateia) para dar ênfase à sua forma de estar na modalidade, sempre em prol do colectivo, em que todos (ou quase) acabam por ter a sua oportunidade para brilhar e todos ajudam para que o faça.

Claro que há estatutos. E Julian Alaphilippe tem um muito, muito alto. Não só na equipa, como no pelotão em geral. E vestir a camisola de campeão do mundo é apenas um dos feitos que ajudaram a cimentar o francês como um dos ciclistas mais respeitados. Contudo, um verdadeiro campeão também sabe respeitar quem num dia, em vários dias, pode estar ao seu lado a trabalhar para que Alaphilippe possa vencer.

O ataque de Geraint Thomas (Ineos Grenadiers) tinha encurtado em muito a já escassa vantagem de João Almeida. Para trás tinha ficado Pavel Sivakov e só depois Thomas, seu colega de equipa, atacou... Se Alaphilippe não tivesse acelerado, talvez Almeida tivesse sido igualmente ultrapassado. Não se apresentava fácil a missão, mesmo com a meta ali tão perto. Se, se, se... A história não se escreve de "ses". Alaphilippe, como colega, como até líder, deveria ter respeitado o português e esperado que outro ciclista acelerasse primeiro.

Claro que na sua mente esteve, provavelmente, o receio de voltar a perder para Mathieu van der Poel, como aconteceu na Strade Bianche. E quase assim foi. Se não tem arrancado naquele momento, Alaphilippe teria tido dificuldade em bater o holandês da Alpecin-Fenix. Viu a oportunidade de conquistar mais uma vitória e não hesitou. Desportivamente nada a dizer. Cumpriu. Mas a que custo?

João Almeida nada tem com que se preocupar. Está a crescer como ciclista. A fazer  seu caminho.. Fez o que lhe competia. Infelizmente ficou sem "companheiros de fuga" um pouco cedo e fazer o que acabou por ser um autêntico sprint a subir, durante mais de 1500 metros para fugir aos perseguidores, não é fácil. Grande exibição, grande atitude. A vitória há-de chegar.

Numa altura em que se fala que a UAE Team Emirates estará a tentar contratar o ciclista para 2022 - está em final de contrato com a Deceuninck-QuickStep - sentir o respeito de todos, principalmente de alguém como Alaphilippe é importante. João Almeida já tem o seu estatuto, mas, naturalmente, ainda não está ao nível de Alaphilippe.

Já na Volta a Itália, que revelou todo o talento e potencial de Almeida ao mais alto nível do ciclismo, Fausto Masnada não tinha sido um corredor com atitude de Wolfpack. Tinha acabado de chegar à equipa, é italiano... mas não lhe ficou bem não ajudar mais. Esta atitude de Alaphilippe, ainda assim, custa mais a digerir.

A João Almeida resta continuar o seu trabalho e espera-se que possa também ele contribuir para o elevado número de triunfos que, ano após ano, a Deceuninck-QuickStep alcança. Com as exibições que tem feito, já ninguém o perde de vista e a continuar assim, poderá ver-se na situação bem agradável de poder escolher o que pretende para 2022 e adiante, seja na equipa belga, ou não. E este Tirreno-Adriatico ainda não acabou. Está na luta.

Classificações completas, via ProCyclingStats.

Veja o vídeo dos metros finais da segunda etapa da prova italiana (Camaiore-Chiusdino, 202 quilómetros).

»»A afirmação de Pedersen no pós-título mundial««

»»Corridas em Portugal só em Abril. Ciclistas desiludidos com adiamentos««

2 de fevereiro de 2021

Os portugueses no World Tour

Portugal está em 2021 representado por mais um ciclista no World Tour, comparativamente com o ano passado. É mais um jovem a chegar ao mais alto nível, desta feita pela mão da Cofidis. André Carvalho junta-se assim a um grupo de talentos nacionais que se vão afirmando, com João Almeida a centrar muitas das atenções em 2021 e com Ruben Guerreiro à procura de mais vitórias como as que alcançou na Volta a Itália de boa memória para os portugueses. Temos ainda o trio da UAE Team Emirates e um dos melhores gregários do pelotão internacional, que está de olho numa medalha olímpica.

© Team Cofidis
André Carvalho, 23 anos, Cofidis

1ª época no World Tour

Para André Carvalho foi importante saber ver que nem sempre ir para fora cedo é a melhor opção. Em 2017, a experiência na Cipollini Iseo Serrature Rime ASD não foi a esperada, pelo que regressou à então Liberty Seguros-Carglass. Uma decisão acertada já que a boa temporada acabou por ser uma ajuda para dar o salto para a Hagens Berman Axeon. Dois anos na equipa americana e Carvalho foi o quinto português a "formar-se" na estrutura de Axel Merckx e saltar para o World Tour. 100% de taxa de sucesso, sucedendo a Ruben Guerreiro, os gémeos Oliveira e João Almeida. Pela primeira vez a Cofidis contrata um português, com o objectivo de o colocar a trabalhar para os líderes, principalmente nas clássicas. Os quintos lugares no Paris-Roubaix e Liège-Bastogne-Liège de sub-23 contribuem para que seja a escolha inicial de como a Cofidis pretende aproveitar as capacidades do português. Contudo, com a possibilidade de continuar a evoluir como trepador, Carvalho poderá, mais à frente, ir além da missão que agora lhe é atribuída. Abrem-se as portas que o ciclista de Famalicão tanto queria e, com contrato apenas para 2021, todas as corridas são essenciais para mostrar que é mais um jovem talento de Portugal que merece estar ao mais alto nível.

© UAE Team Emirates
Ivo e Rui Oliveira, 24 anos, UAE Team Emirates

3ª época no World Tour

Apesar das muitas corridas canceladas devido à pandemia, 2020 acabou por ser o ano de afirmação para os gémeos Oliveira. Surgem juntos neste texto não só por serem irmãos na mesma equipa, mas porque na época passada deram ambos um passo em frente na carreira, muito devido a não terem tido qualquer problema físico que os afastasse das competições, como aconteceu no passado. Se inicialmente foi Rui quem se foi mostrando mais na preparação dos sprints, Ivo seguiu o exemplo e a chamada para a Volta a Espanha foi uma oportunidade que não desperdiçaram. Excelente trabalho dos gémeos! Para 2021 espera-se que, mesmo não sendo para Jasper Philipsen que vão trabalhar (o belga saiu para a Alpecin-Fenix), possam tornar-se em homens de confiança para as principais figuras da equipa no sprint e nas clássicas. E nos planos estão grandes corridas para ambos. Depois da Vuelta em 2020, Ivo - que também trabalha para se tornar num contra-relogista de referência - está apontado ao Tour, mas até lá tem: Omloop Het Nieuwsblad, Kuurne-Bruxelles-Kuurne, Tirreno-Adriatico, Volta à Romandia e Critérium du Dauphiné. Rui foi o primeiro português no World Tour a estrear-se em 2021, com o 39º lugar no Grand Prix Cycliste la Marseillaise. Está apontado ao Giro e antes tem o Paris-Roubaix no calendário. Juntos, apenas está previsto, para já, a presença na Clássica de Almería, caso se realize a 14 de Fevereiro (a maioria das corridas espanholas estão a ser canceladas).

© Deceuninck-QuickStep
João Almeida, 22 anos, Deceuninck-QuickStep

2ª época no World Tour

Fabulosa estreia ao mais alto nível! Agarrou a oportunidade de se mostrar na Volta a Itália como o grande ciclista que por cá há muito se sabia que tinha tudo para ser, desde os seus tempos de formação. Apesar da idade, a sua mentalidade é de um atleta de muita maturidade. A senda de rosa catapultou-o para a ribalta, ainda que não fosse um total desconhecido. Os bons resultados na Hagens Berman Axeo e já tendo feito estágios com a Deceuninck-QuickStep, faziam dele um corredor a ter em atenção. Começou como um leal gregário de Remco Evenepoel, mas depois do Giro... atenção como figura principal não lhe vai faltar. Em mais um exemplo de maturidade, João Almeida recusa entrar em euforias. Olha para o futuro e para o que tem de fazer para continuar a subir na hierarquia dos melhores do mundo. Para já, apenas se conhece que a Volta a Espanha é a escolha para 2021, mas até lá, João Almeida terá uma temporada de crescimento - sim, ainda vai progredir mais -, pois se na sua estreia no Giro não baixou os braços para tentar segurar a camisola rosa, alcançando um histórico quarto lugar, a única certeza que se tem quanto ao que pode fazer, é que a exibição na Volta a Itália foi apenas o início de uma história que terá muitos e bons capítulos.

© Movistar Team
Nelson Oliveira, 31 anos, Movistar

11ª época no World Tour

Vai para a sexta temporada com a Movistar e apesar da equipa ter uma tendência para viver algumas tempestades pela forma como gere os seus líderes, quando se fala de regularidade, Nelson Oliveira tem de surgir à cabeça. Simplesmente não sabe correr mal. Para 2021 há surpresas no calendário do ciclista, sempre muito apontado ao Tour e Vuelta, sendo que depois das quedas que lhe estragaram temporadas no Paris-Roubaix, ainda não é desta que regressa. Desta feita, a primeira metade da temporada terá foco em Itália, com o Giro em mente. Será a terceira presença, depois de 2012 e 2013. Trofeo Laigueglia, Strade Bianche, Tirreno-Adriatico e depois uma curta viagem à Suíça para a Volta à Romandia é o plano inicial de Nelson Oliveira, que mais à frente terá os Jogos Olímpicos como um grande objectivo. Vai atacar a conquista de uma medalha na sua especialidade, o contra-relógio.

© EF Pro Cycling (fotografia de 2020)
Ruben Guerreiro, 26 anos, EF Education-Nippo

5ª época no World Tour

O mais irreverente dos portugueses no World Tour encontrou finalmente a equipa que lhe dá a liberdade que gosta, mas com a estrutura que também precisa para alcançar os feitos que era esperados desde os tempos de formação. Em 2020 confirmou que a exibição na Vuelta na época anterior não tinha sido um acaso e foi ao Giro tornar-se no rei da montanha e vencer uma etapa. História para o ciclismo português, com Acácio da Silva a já não ser a única referência da grande volta italiana. Os seus directores parecem ter encontrado a receita para que o Guerreiro acredite cada vez mais nas suas capacidades, indo progredindo tacticamente. Porém, o que mais deseja é lutar por uma geral. Se continuar no bom caminho que iniciou no final de 2019, a oportunidade pode não demorar muito mais a chegar. Apaixonou-se pelas grandes voltas e é nelas que mais se quer focar, ainda que depois da exibição no Giro, também se vai esperar mais do português noutras provas por etapas. Terminou 2020 a sofrer uma acidente num treino, com o carro a provocar uma queda. Poderá estrear-se este ano na Volta aos Emirados Árabes Unidos, no final de Fevereiro.

© UAE Team Emirates
Rui Costa, 34 anos, UAE Team Emirates

13ª época no World Tour

Na Vuelta foi um Rui Costa de grande nível que se apresentou em Espanha e não lhe teria ficado nada mal uma vitória de etapa, por que tanto lutou. O campeão do mundo de 2013 está novamente confortável no seu papel na UAE Team Emirates, numa altura que a posição de líder é muito difícil de ter para o poveiro. Não só se apresenta como um ciclista cuja experiência é necessária numa equipa com tantos jovens, como tem um papel de maior liberdade para procurar vitórias de etapas, ou em clássicas, que foi sempre o que lhe assentou melhor. Mas quando é preciso ajudar, tem de estar (e tem estado) pronto para tal. Para 2021 ainda não tem uma grande volta programada. Tem início marcado de época a 11 de Fevereiro no Tour de la Provence, seguindo-se Paris-Nice, Volta ao País Basco, as clássicas das Ardenas (Amstel Gold Race, Flèche Wallonne, Liège-Bastogne-Liège) não poderiam faltar, ao que acresce a Volta à Romandia e a "sua" Volta à Suíça, corrida que venceu três vezes (2012, 2013 e 2014).

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15 de janeiro de 2021

Líderes começam a decidir em que grande volta vão apostar

© Wout Beel/Deceuninck-QuickStep
Com muitas das equipas nos habituais estágios de início de ano, ainda que sem saber muito bem quando e onde vão arrancar a temporada - contingências da pandemia -, vão definindo-se objectivos, nomeadamente ao que grandes voltas diz respeito.

Em 2020, Portugal teve a confirmação que tem um voltista e João Almeida (na foto) já tem a sua grande volta escolhida. A principal novidade poderá ser Egan Bernal não apostar tudo no Tour, tal como Mikel Landa.

Começando pelo ciclista português. Depois da espectacular exibição na Volta a Itália, naquela que foi a sua estreia em provas de três semanas, João Almeida aponta à corrida que chegou a ser hipótese no ano passado: a Volta a Espanha. Os planos acabaram alterados, muito devido à queda grave de Remco Evenepoel, na Lombardia, que o tirou do Giro. O resto é história e Almeida conquistou estatuto dentro da Deceuninck-QuickStep. Irá à Vuelta como líder.

Já Evenepoel recupera o plano que tinha para a temporada transacta e está marcado para o Giro, ainda que a sua recuperação continue. O próprio belga afirmou que continua a sentir algumas dores, pelo que o regresso à competição é uma incógnita.

Apesar de ser uma equipa que sempre apostou mais nas clássicas, a Deceuninck-QuickStep tem ganho outro destaque nas três semanas, além de lutar por etapas. Para completar, Julian Alaphilippe tem os olhos postos no Tour, faltando saber com que objectivo: vestir a amarela e tentar lutar por ela, etapas, montanha... um pouco de tudo, talvez...

Mas vamos então por provas. A Volta a Itália (de 8 a 30 de Maio) contará com o vencedor de 2020, Tao Geoghegan Hart, mas o seu companheiro da Ineos Grenadiers, Egan Bernal, afirmou que também gostaria de ir ao Giro, podendo mesmo fazer a dupla Giro/Tour.

Mikel Landa e Pello Bilbao (Bahrain-Victorious), Simon Yates (BikeExchange) e Vincenzo Nibali e Bauke Mollema (Trek-Segafredo) começam 2021 com o pensamento em estar em Itália e depois em França. Yates não é certo, mas a hipótese estará a ser estudada, agora que a equipa não conta com o irmão gémeo, Adam (foi para a Ineos Grenadiers).

Já Emanuel Buchmann (Bora-Hansgrohe) deixa o Tour para se estrear no Giro, com Marc Soler a espreitar a oportunidade de liderança na primeira vez que irá à Volta a Itália. O veterano Domenico Pozzovivo (Qhubeka Assos) é que não troca o Giro por nada. Soma 14 presenças, contra apenas três no Tour e outras tantas na Vuelta.

Quanto à Volta a França (de 26 de Junho a 18 de Julho), Chris Froome irá centrar novamente muita das atenções, no ano em que será estranho vê-lo sem o equipamento da Ineos Grenadiers. Agora representa a Israel Start-Up Nation e terá a seu lado o irlandês Daniel Martin e o canadiano Michael Woods. De recordar que se a Volta ao Algarve conseguir realizar-se entre 17 e 21 de Fevereiro, o britânico é uma presença muito provável na corrida.

Na Ineos Grenadiers, Geraint Thomas não desiste do Tour, mesmo tendo dificuldades em ser líder. O galês quer preparar a sua temporada a pensar em França, mas na sua equipa a concorrência é enorme, pelo que, nesta altura, poucas certezas poderá haver para Thomas.

O reforço da Movistar Miguel Ángel López deverá ir a França, ao lado de Enric Mas. A Bora-Hansgrohe, ao "desviar" Buchmann para o Giro, abriu vaga para Wilco Kelderman mostrar o que vale, depois de em 2020 ter estado tão perto de ganhar a Volta a Itália, ao serviço da Sunweb. O holandês será acompanhado pelo jovem talento alemão Lennard Kämna, que ganhou uma etapa no Tour na edição passada.

Para terminar, a Volta a Espanha (de 14 de Agosto a 5 de Setembro). Quem serão os rivais de João Almeida? A EF Education-Nippo tem estado algo silenciosa no anúncio dos calendários dos seus atletas, mas Rigoberto Uran poderá ter a Vuelta como principal objectivo. Ainda se aguarda pelo destino do rei da montanha do último Giro, Rúben Guerreiro.

Alejandro Valverde será aposta da Movistar, com Miguel Ángel López a ter planeado fazer a dupla Tour/Vuelta. Giulio Ciccone terá oportunidade de liderança por parte da Trek-Segafredo, assim como Felix Grossschartner, na Bora-Hansgrohe. No caso do austríaco será a possibilidade de confirmar o seu crescimento como voltista, depois do nono lugar, precisamente na Vuelta.

Como é habitual, a Volta a Espanha é aquela que mais tarde vai conhecendo quem nela aposta, já que surge muitas vezes como a segunda grande volta do ano para alguns ciclistas. Porém, há um que está muito entusiasmado. Fará a sua estreia em três semanas, no seu primeiro ano no World Tour. É mais um jovem que há muito anda a ser seguido e que finalmente optou por dar o salto: Thomas Pidcock.

Tem 21 anos, é um ás do ciclocrosse, mas na estrada foi campeão do mundo de contra-relógio de juniores em 2017, foi evoluindo e agora a Ineos Grenadiers abriu-lhe as portas da elite. Apesar de as clássicas fazerem parte da sua primeira fase do ano, Pidcock não esconde como também quer mostrar-se em provas como as de três semanas.

Estes planos iniciais podem, naturalmente, sofrer alterações e ainda faltam muitos corredores confirmarem os seus objectivos. Mesmo que de normal 2021 nada esteja a ter, o ciclismo tenta manter o ritmo de treinos e planeamento rumo a uma época que se espera que seja o mais próxima possível do calendário estabelecido e principalmente sem cancelamentos.

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9 de janeiro de 2021

Marc Madiot não quer Jorge Mendes no ciclismo

© Groupama-FDJ
A entrada de Jorge Mendes no mundo do ciclismo não está a agradar a todos. Marc Madiot, director da Groupama-FDJ, afirmou não querer ver implementado o sistema do futebol e considera que pode ser perigoso que empresários como o português comecem a chegar ao ciclismo.

O responsável de uma das equipas mais antigas do pelotão internacional foi muito crítico à notícia que Jorge Mendes, através da sua empresa Polaris Sport e em parceria com a Corso, vai gerir a imagem de João Almeida, Ruben Guerreiro e dos gémeos Oliveira, todos jovens ciclistas portugueses no World Tour.

"Não quero entrar no sistema do futebol. O sistema dos agentes de futebol é ter um portfólio de jogadores e movimentá-los o mais possível para gerar o máximo de dinheiro possível. Estamos a construir uma bolha de especulação financeira", salientou Madiot no programa de televisão francês Grandes Gueules du Sport, no canal RMC, citado no site BFM RMC Sport.

O director da Groupama-FDJ disse que o futebol está precisamente nessa bolha financeira e questiona como vai ser agora, por exemplo, com a covid-19. "O que se passa lá? Estão à beira do abismo! E querem deixar entrar pessoas como o Mendes no ciclismo? Não quero ver o Mendes no ciclismo. Ele que fique em Portugal com os futebolistas, mas que não venha até nós", salientou.

O empresário representa várias das maiores estrelas mundiais do futebol, com Cristiano Ronaldo à cabeça. Contudo, esta entrada no ciclismo de Jorge Mendes é apenas mais uma extensão a outras modalidades. Representa também atletas como Frederico Morais (surf), João Sousa (ténis) e Patrícia Mamona (triplo salto).

Madiot levanta algumas suspeitas por agora Mendes estar interessado no ciclismo. "Ele não vai ganhar o que ganha no futebol. Poderão existir outras ideias por trás e isso não é bom. Penso que eles querem, a certa altura, apropriarem-se do sistema em geral do ciclismo. E isso é ainda mais perigoso", afirmou.

Em baixo pode ouvir as declarações sobre este assunto de Madiot, no referido programa de televisão.

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1 de janeiro de 2021

2021 não será apenas mais um ano

© João Fonseca Photographer
Aí vem mais uma temporada de ciclismo, com muitas mudanças nas equipas - principalmente quando se fala a nível nacional -, muitas expectativas e... alguma ansiedade. Até aqui, o normal. Mas não se vivem tempos nada normais e dizer que 2021 é "mais um ano", não parece ser o mais correcto. Será um ano muito importante, depois de um 2020 em que o mundo ficou virado do avesso.

Será importante para mostrar que depois de tantas experiências feitas entre Agosto e Novembro na organização de corridas de mãos dadas com regras sanitárias muito apertadas, o ciclismo pode ir para a estrada em segurança em tempo de pandemia. Será também importante noutra perspectiva: para ver a evolução das jovens figuras nacionais que criaram um entusiasmo pela modalidade em Portugal que há algum tempo não se via.

E é inevitável começar por aqui. João Almeida acabou o ano a ser eleito o desportista do ano pelo CNID - Associação dos Jornalistas de Desporto (tal como Maria Martins), depois daquela gloriosa senda cor de rosa na Volta a Itália e de um espectacular quarto lugar final. Tudo na sua primeira grande volta, no seu ano de estreia no World Tour. Já se fala do interesse da UAE Team Emirates, mas é na Deceuninck-QuickStep que o ciclista da Caldas da Rainha vai continuar a mostrar-se.

Almeida já não é apenas mais um nome no pelotão internacional, tal como Ruben Guerreiro. É mais um jovem português em alta. A camisola da montanha e a conquista de uma etapa no Giro confirmaram finalmente a qualidade deste ciclista da EF Pro Cycling (agora EF Education-Nippo). Que as exibições dos dois (e não só) sirvam para elevar novamente o ciclismo português a outro nível. E até o empresário Jorge Mendes não ficou indiferente ao que está a acontecer. Entra no ciclismo, com a Polaris Sports a ficar responsável pela promoção da imagem de ambos e dos gémeos Oliveira.

André Carvalho (Cofidis) é mais um jovem a chegar ao World Tour, enquanto por cá houve uma autêntica dança de ciclistas entre as equipas nacionais, com várias trocas, incluindo de líderes, como Joni Brandão a ir para a W52-FC Porto e Gustavo Veloso a deixar esta equipa para representar a Atum General-Tavira-Maria Nova Hotel.

E há que não esquecer que Maria Martins está há um ano à espera de se tornar na primeira atleta portuguesa a participar nos Jogos Olímpicos na vertente de ciclismo de pista. 2020 trouxe os primeiros títulos internacionais em elite para o país, com Iúri Leitão e Ivo Oliveira, pelo que é uma modalidade que continua a merecer toda a atenção.

Mas enquanto lá por fora ficou a certeza que é possível realizar-se corridas como a Volta a França em tempo de pandemia, por cá é difícil ter certeza do que seja. Mesmo com a Volta a Portugal a ter recebido nota positiva pela organização, a verdade é que mais nenhuma corrida se realizou a seguir. Antes, só os Nacionais, Troféu Joaquim Agostinho (em versão reduzida) e um contra-relógio que serviu de Prova de Reabertura, proporcionaram momentos de competição aos atletas, após o confinamento. Muito pouco para a elite, já para não falar dos escalões de formação.

Os calendários estão feitos, a aprendizagem do que é preciso para se realizar uma prova em segurança durante a pandemia também está feita. E é por isso que 2021 não pode ser apenas mais um ano. Tem de ser a época em que não se regressará a uma normalidade, todos estão cientes disso, mas que se regressará à competitividade para o bem da modalidade. Para o bem do desporto em geral, pois é uma realizada que não afecta apenas o ciclismo.

As nove equipas Continentais portuguesas tremeram em 2020, mas resistiram. No entanto, o maior desejo neste 1 de Janeiro, é que não se repita os cancelamentos e que haja corridas, pois uma modalidade que depende de patrocinadores, precisa de ter palcos para os mostrar.

Lá fora, houve muitos sobressaltos, é certo. Mas acabar a Volta a Espanha sem casos positivos de covid-19, foi o sinal que, durante aqueles meses de intensa competição, com grandes corridas a sobreporem-se, algumas a terem de reorganizar percursos em cima da hora, muitas restrições, muitas regras sanitárias... todo o esforço foi compensado com a perspectiva que em 2021 é possível ter um calendário mais próximo do habitual (não haverá Tour Down Under, por exemplo, a marcar o arranque da temporada World Tour), sabendo-se que as certezas não existem, mas as incertezas, pelo menos, não são tantas.

Não foram só as equipas portuguesas a tremer. Algumas formações do World Tour tiveram de lutar muito pela sobrevivência, com a CCC a não resistir. No entanto, o principal escalão manterá as 19 equipas, com a entrada da belga Intermarché Wanty Gobert, que ficou com a licença da CCC. Ainda assim, algumas sabem que têm de fazer mais e melhor, pelo que desejam um calendário perto do normal.

Que venha 2021 com muito e bom ciclismo, em Portugal - espera-se que já a 17 de Fevereiro, dia do arranque da Volta ao Algarve -, com os portugueses lá fora e, claro, com os grandes nomes desta espectacular modalidade.

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11 de dezembro de 2020

Assim será o equipamento de João Almeida em 2021

É tempo de apresentar os equipamentos para 2021. O "modelo" escolhido pela Deceuninck-QuickStep foi Sam Bennett, mas como há um interesse português, claro que se pensa que será assim que vamos ver João Almeida. O ciclista das Caldas da Rainha completou o seu primeiro ano no World Tour como uma das figuras da temporada, principalmente (mas não só) depois da excelente prestação na Volta a Itália. E como nunca é de mais recordar: duas semanas de camisola rosa vestida e quarto classificado no final. Que estreia numa grande volta!

Ficaremos à espera que o rosa e outras cores de liderança façam parte do vestuário de João Almeida durante 2021, mas é de azul que está garantido que o vamos ver. A Deceuninck-QuickStep tem esta cor como base, ao longo dos anos vai fazendo algumas variações, muitas vezes também aposta numa mistura com o branco, como foi este ano, mas vai regressar a um equipamento totalmente azul

© Deceuninck-QuickStep
Serão dois tons, com a parte de baixo da camisola e os calções a serem um pouco mais escuros, o chamado "navy". Um dos pormenores interessantes são os desenhos de imitação de pelo de lobo na parte de cima da camisola (ampliando a fotografia vê-se bem ou então no vídeo em baixo aparece em destaque). É uma alusão à denominação que a equipa belga adoptou de Wolfpack, um grupo de lobos sempre prontos a atacar vitórias! E claro, a união é a palavra de ordem entre os ciclistas da Deceuninck-QuickStep.

Para aqueles mais atentos às últimas novidades das marcas, o vídeo feito para apresentar o equipamento, lançou a curiosidade se Bennett já estará a utilizar os novos sapatos da Specialized. Mais cedo ou mais tarde saber-se-á, certo é que a Vermarc há 20 anos que cria equipamentos para uma das melhores equipas do mundo e este está a ser bem recebido pelos adeptos.

Quanto a João Almeida, depois de um início de temporada a alcançar bons resultados, mesmo quando foi um leal gregário de Remco Evenepoel, terminou como um dos ciclistas mais apetecíveis no mercado. O ciclista de apenas 22 anos entra na segunda e última época  de contrato com a Deceuninck-QuickStep e a UAE Team Emirates já espreita a oportunidade de tentar juntar mais um jovem valor à sua formação.

Porém, esse interesse não foi bem recebido por Patrick Lefevere. O patrão da estrutura belga ficou zangado ao saber que uma equipa tinha abordado um ciclista que ainda está sob contrato. Disse mesmo, que se alguém o quiser, que pague dois milhões de euros. A intenção passa mesmo por tentar renovar com o jovem português que rapidamente se tornou numa das emergentes figuras da nova geração do ciclismo mundial.

Quem quiser equipar-se como a Deceuninck-QuickStep poderá comprar o novo equipamento a partir do meio de Janeiro. É só visitar o site da equipa.

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24 de outubro de 2020

Um Giro para a história

© Giro d'Italia
Por cá, jamais esqueceremos a 103ª edição da Volta a Itália. Afinal foram 15 dias com um ciclista português como líder - algo inédito em qualquer grande volta para o ciclismo nacional -, numa exibição marcante do estreante João Almeida. E ainda estamos perto de ter outro dos nossos ciclistas a vencer pela primeira vez uma classificação numa corrida de três semanas. Ruben Guerreiro é o rei da montanha (camisola azul) e venceu uma etapa. Porém, este Giro ganhou mais um elemento histórico, daqueles que se falará em todo o mundo por muito tempo: pela primeira vez em grandes voltas dois ciclistas partem para a última etapa empatados em tempo.

85:22.07 horas. Foi preciso ir aos centésimos dos contra-relógios para encontrar o novo líder do Giro, com Jai Hindley a ficar com a camisola rosa do companheiro da Sunweb, Wilco Kelderman. Tal como no Stelvio, o holandês cedeu e tal como no Stelvio, Hindley seguiu a roda de Tao Geoghegan Hart que tem um novo melhor amigo: Rohan Dennis. O australiano está feito num gregário de luxo. Se o britânico vencer o Giro este domingo, muito tem a agradecer a Dennis e foi visível esse reconhecimento pela forma como abraçou o colega no final da etapa.

A história nas três subidas a Sestriere foi em tudo idêntica à do Stelvio, mas desta feita Geoghegan Hart venceu e Hindley foi segundo. Segunda vitória para o britânico, sexta da Ineos Grenadiers! Este domingo Filippo Ganna é favorito para garantir a sétima, com Geoghegan Hart a poder ser o vencedor do Giro, algo que até recentemente nem se falava.

Foi uma Ineos Grenadiers que olhou à distância para a camisola rosa e tirou um coelho da cartola inesperado: Rohan Dennis. Já a Sunweb treme. A decisão de não deixar Hindley no Stelvio para ajudar Kelderman pode ainda custar caro. Para já, com o holandês a ceder novamente, parece ter sido a decisão mais correcta, pois agora de pouco valem o "se" Hindley tivesse ajudado, talvez Kelderman não perdesse tanto tempo, estivesse mais confiante e acreditasse que a equipa o apoiava.

Agora só há uma escolha: Hindley. O jovem australiano, de 24 anos pode tornar-se no primeiro ciclista do seu país a vencer o Giro. Geoghegan Hart pode ser o segundo, depois de Chris Froome. O terceiro frente-a-frente será o do tudo ou nada, numa Volta a Itália recheada de emoções (principalmente para Portugal) e que acaba em grande.

João Almeida, um senhor ciclista

Um último fôlego, um último esforço de João Almeida e da Deceuninck-QuickStep. Nos 190 quilómetros entre Alba e Sestriere, a equipa belga colocou vários ciclistas na frente que, ao não terem possibilidade de ganhar a etapa, todos acabaram a ajudar Almeida num derradeiro ataque.

Kelderman até beneficiou de todo este esforço do português durante alguns quilómetros, mas Almeida acabaria por se afastar, à procura de pelo menos subir ao quarto lugar. Pello Bilbao (Bahrain-McLaren) ficou a 23 segundos de distância, tempo que não será fácil recuperar nos 15,7 quilómetros finais, até porque o espanhol é o campeão nacional da especialidade. Mas não é impossível e já se percebeu que para Almeida, o mote é lutar até ao fim. Excelente atitude de um senhor ciclista de apenas 22 anos.

De referir que o sexto classificado, Jakob Fuglsang (Astana), está a mais de três minutos de João Almeida. O top cinco é bem merecido para o português. O pódio também não lhe ficaria nada mal, mas só um colapso total de Kelderman permitiria chegar ao terceiro posto, pois tem mais de minuto e meio de vantagem.

Classificações completas, via ProCyclingStats.

21ª etapa: Cernusco Sul Naviglio - Milano (CRI), 15,7 quilómetros


É um contra-relógio sem dificuldades de maior, excepto a parte final mais técnica, devido a algumas curvas a 90 graus, segundo a explicação dada pela organização do Giro. Cai o pano na Volta a Itália, em Milão. Quem celebrará?


22 de outubro de 2020

Isto é apenas o início

© Tim de Waele/Getty Images/DeceuninckQuickStep
O Stelvio não perdoa. Não importa se se é o mais talentoso dos trepadores, ou um dos grandes campeões de ciclismo. Nesta icónica subida já há quem saiba o que é perder a Volta a Itália. Era o maior teste a João Almeida, principalmente depois da etapa de sábado ter sido reformulada. O ciclista português cedeu, mas não quebrou. Defendeu como pôde a camisola rosa e honrou-a até ao fim. Percebeu que não continuaria como líder, mas não desistiu de sair deste Giro com um resultado que lance em alta a sua carreira nestas corridas. O sonho rosa desfez-se, mas isto é apenas o início do que João Almeida tem para dar... do que tem para ganhar.

Foram 15 dias de liderança. Nem Joaquim Agostinho, nem Acácio da Silva o conseguiram fazer numa grande volta. E João Almeida tem apenas 22 anos. Está a ser a sua primeira grande volta, no seu ano de estreia no World Tour. Eis mais um jovem da nova geração para entrar nas contas daqueles que podem deixar a sua marca na próxima década ou mais. E este é português. Nas últimas semanas tornou-se no orgulho nacional, fazendo recordar os bons velhos tempos em que o ciclismo era quase rei em Portugal.

Mas isto é apenas o início. João Almeida chegou ao mais alto nível somando bons resultados nos escalões de formação. Nada disto aconteceu por acaso, ainda que um pouco mais cedo do que o esperado. Porém, este é um ciclista que não desperdiça oportunidades. Não estava escalado para o Giro, mas ao ser chamado quis mostrar-se. Não se poderia pedir mais! Foi brilhante.

Fica aquela tristeza de ver que faltam três etapas para o fim e Almeida estava tão perto. Mas, naquele Stelvio de 25 quilómetros, com pendente média de 7,5%, o português perdeu a liderança, mas foi grande. A rosa já não é dele, mas terá tempo para um dia voltar a vesti-la. E a amarela do Tour... E a vermelha da Vuelta e outras camisolas que demonstrou poder vir a discutir. Tem todo um futuro à sua frente. Veio para o Giro para saber como era correr três semanas. Sai sabendo que é um voltista.

Até deu para esquecer que este é um ciclista ainda em evolução. Teve um curso intensivo de uma grande volta ao vestir ao terceiro dia a camisola rosa. Cresceu como atleta e não demorará a ver-se o resultado dessa aprendizagem. Isto é apenas o início!

A Deceuninck-QuickStep tem mais um ciclista para as provas de três semanas. Não só Remco Evenepoel. Esta equipa belga tem muito a pensar como quererá abordar os próximos anos. O director Patrick Levefere disse, em 2019, que estaria disposto a mudar um pouco a política de contratações se Enric Mas ficasse.

O espanhol saiu para a Movistar. Contudo, a Deceuninck-QuickStep tem agora dois bons voltistas e se os quiser manter, terá de ter mais ciclistas para montanha e não apenas um Fausto Masnada que está a precisar de perceber que tem de trabalhar para colegas quando assim se impõe. Ainda mais numa equipa que se auto apelida de Wolfpack (alcateia).

Isto é apenas o início para um João Almeida que, apesar de não estar numa equipa para as grandes voltas, é a certa para ele neste momento. Vai ter apoio para evoluir, sabendo que terá de trabalhar para colegas, mas que terá as suas oportunidades. Depois de 15 dias de rosa subiu o seu estatuto dentro da equipa. Isto é apenas o início.

E o Giro ainda não acabou. Saiu do pódio, mas segurou o top cinco e porque não olhar para cima. Ficou a 2:16 minutos do novo líder, Wilco Kelderman. Está a 57 segundos do quarto lugar (Pello Bilbao, Bahrain-McLaren). O pódio está a 2:01 (Tao Geoghegan Hart, Ineos Grenadiers, é terceiro classificado.

Jai Hindley (Sunweb) tornou-se no real camisola branca, com Hart atrás. Também essa classificação ficou complicada para o português. Mas, aconteça o que acontecer nas próximas três etapas, João Almeida fez história. Isto é apenas o início!

© Giro d'Italia
Uma camisola quase garantida

Ruben Guerreiro há-de ter o destaque merecido. O ciclista da EF Pro Cycling foi o primeiro a tentar ajudar Almeida a manter a camisola rosa, tal era a importância do feito. Porém, é dele um momento marcante da história do ciclismo nacional. Está perto de se tornar no primeiro português a vencer uma classificação numa grande volta. A camisola azul da montanha é dele se chegar a Milão.

Giovanni Visconti (Vini Zabù-KTM) era o rival mais sério, mas abandonou. Guerreiro entrou novamente na fuga, controlou a outra possível ameaça, Thomas de Gendt (Lotto Soudal) e depois de vencer uma etapa no final da primeira semana, é o rei da montanha. É a sua segunda grande volta e, aos 26 anos, afirma-se finalmente ao mais alto nível, depois de principalmente dois anos marcados por quedas e problemas de saúde.

Que Giro tão fantástico para Portugal. Apostar na formação vale a pena!

Classificações completas, via ProCyclingStats.

19ª etapa: Morbegno - Asti, 253 quilómetros

Wilco Kelderman é assim o novo líder da Volta a Itália, ainda que não parece ter o maior apoio da Sunweb, que não obrigou Jai Hindley a ficar com o o líder. O australiano está a 12 segundos do companheiro de equipa, após vencer a etapa que acabou por ser a rainha do Giro (Pinzolo - Laghi di Cancano, 207 quilómetros). Tao Geoghegan Hart recolocou a Ineos na luta pela geral, estando a 15 segundos de Kelderman.

A etapa de sábado vai ser emocionante. Até porque agora há rivalidade até dentro da Sunweb. Já esta sexta-feira, os sprinters que resistiram, têm uma última hipótese para ganhar, pois no domingo, o Giro termina com um contra-relógio. É dia para os candidatos à geral recuperar forças para a derradeira tirada de montanha no sábado.

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