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25 de setembro de 2020

Ineos Grenadiers reforça-se com juventude e experiência

Montagem: Ineos Grenadiers
No que a reforços diz respeito a Ineos Grenadiers fechou as contratações ao anunciar quatro de uma vez só. Richie Porte, Laurens de Plus e o jovem Thomas Pidcock já eram esperados, mas Dani Martínez foi uma surpresa de última hora. O quarteto junta-se assim a Adam Yates, que ainda antes da Volta a França, já tinha selado o seu futuro para 2021.

Depois de muito sucesso com Chris Froome, sem esquecer Bradley Wiggins, e Geraint Thomas, a Ineos Grenadiers, ex-Sky, começou a contratar vários jovens de enorme potencial. Egan Bernal ganhou o Tour logo no seu segundo ano, mas a equipa começou a dar mostras de estar a perder a força do que agora se percebe terem sido os seus tempos áureos. Em 2020 tudo se desmoronou. Colectivamente a equipa falhou no Tour - e nas corridas anteriores - e Bernal foi uma desilusão. Os adversários já lhe fazem frente, principalmente a Jumbo-Visma, pelo que chegou de uma vez por todas o momento da Ineos Grenadiers seguir um novo caminho e reconstruir a equipa.

A formação britânica não poderia deixar escapar o menino prodígio da Grã-Bretanha, Thomas Pidcock, mas também aposta em ciclistas já com experiência, fortalecendo assim o bloco das grandes voltas. E Richie Porte traz mais do que isso. O australiano, mesmo regressando à equipa para deixar de ser líder, será um gregário com voz de comando para pôr "ordem na casa", numa altura em que Chris Froome se prepara para sair e Geraint Thomas tem tido um discurso pouco (ou nada) unificador.

"Esta época, vimos uma mudança tanto nos níveis de performance individual, como na força colectiva das equipas. Os ciclistas estão melhor preparados e as equipas mais organizadas. A intensidade da competição está a aumentar e está a ficar mais difícil ganhar. Estamos a apreciar este desafio e focados em regressar mais fortes. Os corredores são o coração das equipas e cada uma das novas contratações forma uma parte da evolução da equipa", afirmou Dave Brailsford, o director da Ineos Grenadiers.

Os reforços

Adam Yates (28 anos) era uma pretensão antiga. Tanto ele como o irmão decidiram assinar pela então Orica GreenEDGE (actual Mitchelton-Scott) quando se tornaram profissionais. Apesar de terem a mesma formação de outros britânicos que foram para a Sky nos primeiros tempos do projecto, os gémeos não quiserem ter um papel secundário e foram para a formação australiana. Agora, Adam vai procurar ter protagonismo numa equipa que não só tem Bernal, mas também o compatriota Iván Ramiro Sosa, Eddie Dunbar, Pavel Sivakov e mesmo Tao Geoghegan Hart, todos a ambicionarem serem mais do que gregários.

Contudo, os últimos dois ainda não renovaram, assim como Filippo Ganna, que esta sexta-feira se sagrou campeão do mundo de contra-relógio. Michal Kwiatkowski está entre os da "velha guarda" que também ainda não prolongou o vínculo, mas o polaco já fez saber que a primeira opção passará por continuar.

Entre os reforços hoje anunciados, Thomas Pidcock era um nome há algum tempo relacionado com a estrutura britânica. Tem apenas 21 anos, mas é visto como um autêntico prodígio. Rei do ciclocrosse nas camadas jovens, a passagem para a estrada também foi feita com sucesso, tendo, por exemplo, ganho o Paris-Roubaix de juniores em 2019 e este ano já venceu o Giro para o seu escalão. Evoluiu na extinta Team Wiggins, mas foi adiando um passo maior, principalmente porque sempre quis garantir que poderia continuar a competir no ciclocrosse. Na Ineos Grenadiers será altura de se concentrar mais na estrada e juntar-se ao grupo de jovens talentos, espalhados por várias equipas, que já está a tomar conta do World Tour.

Quando em 2019 assinou pela Jumbo-Visma deixando a Quick-Step Floors, Laurens de Plus foi à procura de maior destaque nas grandes voltas. Parecia estar a caminho de se tornar um homem importante para o bloco de Primoz Roglic, não sendo segredo que queria mais, eventualmente. Acabou desaparecer aos poucos da equipa, ainda mais este ano, quando cedo foi noticiado que estaria a caminho da Ineos Grenadiers. Tem apenas 25 anos, margem para progredir e percebe-se porque foi contratado. Em forma, este ciclista é um incansável trabalhador e com potencial para tentar ganhar, quando e se lhe forem dadas oportunidades.

Daniel Martínez será curioso ver como encaixa. O recente vencedor do Critérium du Dauphiné e de uma etapa no Tour já tinha conquistado estatuto na EF Pro Cycling com quem ainda tinha contrato, mas resolveu mudar-se mais cedo. Percebe-se que a Ineos Grenadiers lhe dará outras condições nas provas por etapas, mas a concorrência interna também será grande, ainda mais se Sivakov, renovar. Aos 24 anos falta-lhe maior estabilidade nas grandes voltas para lutar por top dez (acontece sempre algo para perder tempo), mas já se percebeu que Martínez tem o que é preciso para ser mais um colombiano de sucesso. A equipa americana vai sentir a perda deste ciclista.

Se os dois primeiros assinaram até 2023, tanto Martínez como Richie Porte só rubricaram acordo para 2021. No caso do australiano é compreensível. Aos 35 anos, Porte tinha assumido que este seria o seu último ano como líder, ainda que quisesse despedir-se em grande da Trek-Segafredo. Conseguiu finalmente um pódio numa grande volta e que merecida foi aquela presença no terceiro lugar da Volta a França, nos Campos Elísios.

Falta ainda a vitória numa etapa, mas já é uma alívio para este ciclista ter alcançado este feito, pois quando deixou a Sky em 2015, depois de quatro temporadas, para não estar dependente das escolhas de Chris Froome, o repto era ser um líder ganhador. Quedas, perda de tempo em etapas de vento, furos... aconteceu de tudo a Porte, mesmo quando se apresentou em grande forma, tanto na BMC, como na Trek-Segafredo.

Ainda se falou da possibilidade de assinar pela Israel Start-Up Nation, para retomar a parceria com Froome, com Porte a ter sido um gregário de luxo. Porém, o australiano vai assumir um papel de ajuda na reconstrução da agora Ineos Grenadiers.

Juntamente com Luke Rowe (30 anos) será certamente um capitão, ficando agora a dúvida onde entrará Geraint Thomas (34) nesta reconstrução. Para o galês seria importante ganhar a Volta a Itália se quer ter uma palavra a dizer em 2021 (último ano do seu contrato), numa altura em que já pouco o vão ouvindo.

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16 de novembro de 2019

Uma EF Education First cada vez mais forte

(Fotografia: © EF Education First)
Entre o bom, o muito bom e um futuro a prometer ainda melhor. A EF Education First não teve razões para terminar 2019 apenas satisfeita. Tem muitas razões para acreditar que pode crescer e ver alguns dos seus jovens ciclistas tornarem-se em figuras do pelotão mundial. E em figuras ganhadoras. Os resultados nas grandes voltas foram bons. Ganhar um monumento foi muito bom. Ter Higuita, Carthy e Martínez , por exemplo, pode tornar tudo ainda melhor.

Rigoberto Uran continua a ser o líder, mas já sabe que tem jovens companheiros mais do que preparados para tirar-lhe destaque. E já o estão a fazer. O colombiano foi novamente top dez do Tour, mas ficou longe do objectivo do pódio. Na Vuelta sofreu uma aparatosa queda e só agora em Novembro está a regressar aos treinos. Fracturou a clavícula, omoplata, costelas, cervical e perfurou um pulmão. A ver vamos como regressa em 2020.

Durante toda esta temporada, Uran viu como alguns dos seus colegas estão a evoluir muito bem. Hugh Carthy (25 anos) começou finalmente a mostrar créditos no World Tour. Excelentes exibições no Giro e na Volta à Suíça (e não só), onde ganhou uma etapa e a camisola da montanha. No Giro ficou à porta do top dez. Martínez adiou a sua afirmação definitiva devido a lesão e também a doença. Começou bem o ano e deixou todos a esperar muito com as prestações no Paris-Nice (venceu uma etapa). Acabou por ficar fora do Tour e na Vuelta esteve longe da sua melhor condição física. Para o colombiano de 23 anos, há que esperar por um 2020 sem problemas, pois é mais um ciclista daquele país preparado para conquistar o World Tour.

A EF Education First tem outro colombiano de enorme talento. Deixou Sergio Higuita adaptar-se à Europa na Fundação Euskadi no início da época e inclusivamente veio à Volta ao Alentejo ganhar uma tirada. Fez a sua estreia na equipa americana na Volta à Califórnia e só Tadej Pogacar (UAE Team Emirates) foi melhor. Foi chamado para a Vuelta e que espectáculo deu! Naquela etapa 18, na chegada a Becerril de la Sierra, parecia que Higuita não estava a aprender a lição de outros dias de não se desgastar tanto, mas afinal foi o ciclista quem ensinou o que a irreverência, muita força de vontade e um ainda mais talento podem fazer. Vai ser um ciclista que estará debaixo de olho pelos adversários para o próximo ano.
Ranking: 11º (8161,99 pontos) 
Vitórias: 17 (incluindo a Volta a Flandres e uma etapa na Vuelta) 
Ciclistas com mais triunfos: Michael Woods, Daniel McLay e Jonathan Caicedo (2)
Sean Bennett e Jonathan Caicedo são mais dois nomes que geram alguma curiosidade, assim como o do mexicano Luis Villalobos, sendo ciclistas que em 2019 estiveram menos pressionados. Villalobos só chegou em Agosto.

O que reforça a confiança desta equipa é - além de saber que tem jovens de muito potencial e que mais uns vão chegar para 2020 - que conta com homens experientes para manter a formação equilibrada. Lawson Craddock, Sebastian Langeveld, Sep Vanmarcke formam parte de uma espinha dorsal desta estrutura. E claro, Michael Woods. O canadiano está a mostrar o seu melhor depois dos 30 anos, ainda que 2019 não tenha sido bem o esperado. Apostou forte na sua estreia no Tour, mas esteve longe das prestações na Vuelta de 2018, quando ganhou uma etapa. Mas este é um ciclista que sabe que pode ganhar nos grandes palcos e foi à Milano-Torino dar mais uma grande vitória a uma EF Education First que passou a acreditar mais do que nunca que está no caminho certo devido a Alberto Bettiol.

Já se sabia que o italiano era forte nas clássicas, mas não era exactamente tido muito em conta para ganhar um monumento. Mas aos 26 anos, Bettiol escolheu a Volta a Flandres para ter o seu grande momento e conquistar outro estatuto. Tanto se estava a olhar para Mathieu van der Poel e Wout van Aert - as duas novas estrelas das clássicas - e claro para os suspeitos do costume como Peter Sagen e Greg van Avermaet, e lá apareceu um Bettiol a confirmar credenciais e a deixar uma EF Education First em extâse.

Há dois anos temia pelo futuro, agora a equipa está a construir um grupo forte, apostando cada vez mais em jovens, contratando para 2020 Neilson Powless (Jumbo-Visma) - reforço para o bloco das corridas por etapas -, Kristoffer Halvorsen (Ineos) - sprinter que vai ocupar a vaga de um Sacha Modolo, que não vai deixar saudades e de Taylor Phinney, que se vai retirar do ciclismo - e o português Ruben Guerreiro (Katusha-Alpecin), que depois de uma estreia na Vuelta tão positiva só pensa em continuar a tornar-se num voltista.

Chegarão ainda Magnus Cort (Astana) e Jens Keukeleire (Lotto Soudal) que comprovam como a equipa quer alargar os horizontes além das provas por etapas, reforçando o bloco das clássicas. Esta é uma equipa que começa a entusiasmar cada vez mais e até se dá ao luxo de continuar a acreditar que ainda é possível fazer algo de Tejay van Garderen, nem que seja como gregário. O 2019 do americano, não convenceu, mais uma vez.


22 de agosto de 2019

A Vuelta da América Latina perde uma das principais figuras

(Fotografia: © Giro d'Italia)
Fica completa uma estranha coincidência que privou as grandes voltas do provável candidato mais favorito. Devido a quedas, o Giro não teve Egan Bernal, o Tour Chris Froome e na Vuelta não se verá Richard Carapaz, o vencedor da Volta a Itália e que fez dele o homem a ter em atenção na corrida que arranca no sábado. E numa Vuelta na qual pode ser feita um pouco mais de história num 2019 marcante para o ciclismo, perder Carapaz é um rude golpe, mas não significa que não possa ser feito o pleno de corredores latinos ganharem as três grandes.

Carapaz tornou-se no primeiro equatoriano a venceu uma grande volta. Seguiu-se Bernal (Ineos) que finalmente concretizou o sueño amarillo colombiano no Tour e quem poderá ser o senhor que se segue na Vuelta? Candidatos não faltam. Carapaz vai assistir de longe devido a uma lesão no ombro, contraída no domingo, numa queda durante uma prova na Holanda. Segundo o jornal As participou a título pessoal. A Movistar chamou o experiente José Joaquín Rojas, substituindo um líder por um homem de trabalho. Nairo Quintana não deverá importar-se.

E entre os candidatos da América Latina, Quintana tem de ser um deles, mesmo que cada vez convença menos. O seu ciclo na Movistar está a chegar ao fim, apesar de ainda não ter confirmado que equipa vai representar em 2020 (muito se fala da Arkéa-Samsic). Venceu a Vuelta em 2016, numa altura em que tudo se esperava deste ciclista, mas que aos 29 anos está a ver a carreira passar sem se afirmar como um dos grandes voltistas da história. Não perdeu qualidade, mas há muito que não se vê aquele Quintana capaz de deixar qualquer um para trás. Uma mudança de ares poderá fazer-lhe bem, mas para já, é na Movistar que vai tentar afastar a desconfiança que se instalou num favoritismo cada vez mais reduzido.

Sem Carapaz, Quintana perde a mais forte concorrência interna, mas ainda tem Alejandro Valverde (diz que vai à procura de etapas, contudo, também há um ano seria o objectivo e depois bem tentou liderar a corrida) e um Marc Soler que não vai querer continuar a adiar um maior protagonismo dentro de uma equipa em remodelação para 2020 e com espaço para ter Soler num papel mais relevante.

Com a exclusão de Carapaz, a América Latina ficou reduzida à Colômbia. O próximo nome na lista de candidatos do país é Miguel Ángel López. Aos 25 anos vai para a sua quarta Vuelta, na qual já foi terceiro em 2018. No Giro teve exibições em que falhou, depois melhorou substancialmente e acabou a ser atirado ao chão por um adepto. López e a Astana apostam muito nesta Vuelta, sendo uma das equipas mais fortes: os irmãos Izagirre, Luís León Sánchez, Omar Fraile, Dario Cataldo, Manuele Boaro e Jakob Fuglsang. A dúvida é se o dinamarquês, que abandonou no Tour devido a queda, vai também ele atrás de um bom resultado na Vuelta. E depois, como irá enfrentar a corrida Ion Izagirre? No início da época disse que seria a sua volta seria em Espanha, após trabalhar para López no Giro.

Johan Esteban Chaves é uma enorme incógnita. Ele próprio o assume, esperando que a sua carreira possa ser revitalizada depois de um 2018 para esquecer devido a uma mononucleose. A vitória na 19ª etapa no Giro foi um momento muito importante para o ciclista, que quer agora disputar novamente uma grande volta que, não há muito tempo, se pensaria que poderia ganhar, mais cedo ou mais tarde. Há um ano a Mitchelton-Scott venceu com Simon Yates, que fica de fora, após estar no Giro e Tour. 2019 é o ano para a equipa australiana saber se consegue ou não recuperar Chaves. Corrida muito importante para o futuro do ciclista.

E depois há o trio maravilha da EF Education First. Rigoberto Uran parte como líder, mas é impossível negar que é Daniel Martínez e Sergio Higuita que mais se quer ver. Martínez falhou o Tour devido a lesão e irá fazer a sua estreia na Vuelta. Tem 23 anos e um potencial tremendo. A equipa americana não o deverá prender ao trabalho de gregário e se estiver em forma, este é um ciclista que irá dar espectáculo. Se Uran conseguir manter-se na frente da corrida, Martínez até poderá procurar mais etapas do que pensar na geral. É um dos jovens colombianos que mais entusiasma além de um ausente Egan Bernal, vencedor do último Tour.

Higuita tem 22 anos e chegou à equipa já com a temporada a decorrer, depois de uma fase de adaptação à Europa na Fundação Euskadi. E passou por Portugal: ganhou uma etapa na Volta ao Alentejo. Na sua primeira corrida pela EF Education First, a Volta a Califórnia, só foi batido por Tadej Pogacar (UAE Team Emirates). Será uma Vuelta para aprender e habituar-se aos grandes palcos. No entanto, cuidado com este jovem. É mais uma prova que na Colômbia os talentos não param de aparecer.

John Darwin Atapuma (Cofidis) pode ter passado ao lado de uma carreira bem melhor. Mas aos 31 anos ainda quer mostrar que pode deixar a sua marca e principalmente quer quebrar o enguiço dos segundos lugares nas etapas. Sergio Henao (UAE Team Emirates) deverá ter de ficar ao lado de Fabio Aru, mas Fernando Gaviria, o colombiano sprinter, vai atrás de etapas para salvar uma temporada em que desiludiu e marcada por uma lesão. Juan Sebastián Molano será o plano B para os sprints e o lançador do compatriota. Sergio Henao estará dedicado ao trabalho na Ineos.

É uma pena Richard Carapaz ficar de fora da Vuelta, mas a senda latina de 2019 tem muitas hipóteses de ficar completa na Vuelta, depois de em 2018 terem sido três ciclistas britânicos a ganharem as grandes voltas: Chris Froome, Geraint Thomas e Simon Yates.

No entanto, a armada colombiana terá concorrência, que será apresentada no texto desta sexta-feira.


16 de março de 2019

Sonhou jogar no Barcelona mas o "Mini-Rigo" escolheu o ciclismo com um empurrãozinho da mãe

(Fotografia: © EF Education First)
Ainda não tinha o mediatismo de compatriotas como Egan Bernal ou Iván Ramiro Sosa, mas não significa que andasse a passar despercebido. Daniel Martínez já tinha demonstrado que também ele é mais um colombiano de grande talento e o "protegido" de Rigoberto Uran conquistou finalmente aquela que deverá ser a primeira de grandes vitórias. O menino que sofreu de excesso de peso e que quando começou a praticar desporto sonhou em vestir a camisola do Barcelona, rendeu-se às bicicletas e aos 22 anos é mais um ciclista de uma geração que tem tudo para ser de ouro.

Ser campeão nacional de contra-relógio já tinha sido uma conquista importante esta época, a sua primeira em elite. Mas foi num dos grandes palcos do ciclismo mundial que demonstrou porque tem sido apontado como o próximo colombiano a conquistar a ribalta. Na etapa rainha do Paris-Nice, Martínez foi exemplar, batendo inequivocamente um Miguel Ángel López (Astana), que acabou sentado naquele potente derradeiro e decisivo ataque. Simon Yates (Mitchelton-Scott) nem teve tempo para nada. Estava a encostar no duo da frente, quando Martínez arrancou nuns metros finais feitos quase em fúria, sem olhar para trás, sprintando após uma subida de 15 quilómetros, o Col de Turini, que deixou tantos corredores a sofrer (que o diga Michal Kwiatkowski, da Sky, que perdeu a camisola amarela).

É o princípio de uma nova fase da carreira. Martínez começa a ter margem de manobra para se afirmar a outro nível, com outro estatuto. A EF Education First perdeu Rigoberto Uran no Paris-Nice devido a uma queda. O líder partiu a clavícula. O vento intenso já tinha arruinado as hipóteses de Martínez de ir além de uma eventual vitória de etapa, mas valeu a pena esperar por um excelente momento de ciclismo, como foi o deste sábado. Recentemente a equipa americana renovou com Michael Woods até 2021. Martínez poderá ser o próximo, já que está em final de contrato, contudo, estará a aguçar o interesse de outras formações.

A caminhada rumo à afirmação no ciclismo começou com um incentivo da mãe. Em criança, Martínez, natural de Soacha (a cerca de 30 quilómetros de Bogotá), tinha excesso de peso e não ligava muito ao desporto. Devido a uma infecção que o levou a estar internado no hospital, Martínez perdeu vários quilos e foi aconselhado a praticar mais desporto, segundo conta o site L'Etapa Reina. Escolheu o futebol. "O meu sonho era jogar no Barcelona. Mas andava melhor de bicicleta do que chutava uma bola", admitiu numa entrevista publicada no site da sua equipa, a EF Education First.

A mãe preferia que Martínez escolhesse o ciclismo em detrimento do futebol e foram os pais que ajudaram o colombiano a ter um equipamento melhor do que uma velha bicicleta que tinha começado por arranjar. Aos 14 anos aplicou-se mais e seguiu as pedaladas do irmão ao entrar em provas regionais. A pista fez igualmente parte da sua formação e a sua primeira vitória de destaque foi no contra-relógio nos Jogos Pan-Americanos. Estávamos em 2013 e, em Setembro, representou a selecção nos Mundiais de Florença, de boa memória para Portugal e Rui Costa! Foi 15º na corrida de juniores, ganha por um agora senhor do ciclocrosse Mathieu van der Poel, com Mads Pedersen, da Trek-Segafredo, a ser segundo.

O salto para a Team Colombia em 2015 foi o que precisava, apesar de ter sido o último ano da equipa. O destaque foi para a conquista da classificação da montanha na Route du Sud, mas as boas prestações alargaram-se a várias corridas, tanto pela equipa, como pela selecção. A Wilier-Southeast abriu-lhe as portas da Europa e das grandes voltas, estreando-se no Giro. Não demorou muito a começar a chamar a atenção do World Tour, tendo adaptado-se muito bem à nova realidade. Foi a EF Education-First que o contratou na época passada, com o director Jonathan Vaughters a chamar-lhe de "Mini-Rigo".

Quando se falou mais no colombiano, logo em Março, não foi pelas razões que desejaria. Ao treinar em Itália, foi agredido por um condutor e chegou a ficar inconsciente. Não se deixou abater.  Pouco antes tinha terminado em sétimo na Volta à Catalunha, foi depois 12º na Romandia e terceiro na Volta à Califórnia. A equipa elegeu-o para ser um dos homens de confiança do compatriota Rigoberto Uran. O líder abandonou, com Martínez a ficar um pouco mais livre num ganho de experiência que lhe poderá ser útil quando surgir a oportunidade por que tanto espera: "Quero um dia estar na luta por uma vitória nas grandes corridas desta modalidade."

Martínez chegou a ser gregário de Bernal (Sky) quando ambos estavam na selecção, em em provas como o Tour de l'Avenir. Agora constrói o seu próprio caminho rumo ao papel de destaque numa equipa World Tour. E no dia em que venceu no Paris-Nice, partilhou a ribalta precisamente com o compatriota, pois Bernal assumiu a liderança da corrida e tem apenas de ultrapassar mais uma etapa para garantir mais uma conquista. Tem 45 segundos sobre Philippe Gilbert (Deuceninck-QuickStep) e 46 sobre Nairo Quintana (Movistar), um colombiano que vai vendo a nova geração tomar de assalto o ciclismo mundial.


18 de fevereiro de 2019

Colombianos mandam em casa e ameaçam mandar fora dela

(Fotografia: Volta à Colômbia)
Com um lote invejável de jovens talentos e de ciclistas que há muito se afirmaram ao mais alto nível, seria uma pequena surpresa não ver um atleta da casa conquistar a segunda edição da Volta à Colômbia. Julian Alaphilippe tentou intrometer-se, como o tinha feito em 2018, mas, mais uma vez, foi um colombiano a triunfar. Foi um que ganhou e foi acompanhado por muitos mais que dominaram o top 15, tanto na última etapa, como na geral. Miguel Ángel López sucedeu a Egan Bernal, num pódio preenchido por ciclistas de enorme futuro, mas que já começam a dar garantias no presente.

Numa corrida que cativa tudo e todos devido ao intenso ambiente proporcionado pelos adeptos - Nairo Quintana chegou a apelar para que o muito entusiasmo não colocasse em perigo os ciclistas - e também por um percurso que atraiu inclusivamente Chris Froome (Sky), os colombianos impuseram-se em condições que não são fáceis para os menos habituados ao calor e, principalmente, à altitude. Os corredores colombianos são autênticos heróis, como que ficou bem patente na apresentação da prova, com um estádio de futebol repleto de adeptos para receber os melhores das bicicletas.

Froome foi quem mais se equiparou, a nível de apoio, aos colombianos. E percebe-se este entusiasmo colombiano pelo ciclismo. Nairo Quintana (Movistar) continua a ser a grande referência. Mesmo estando tantas vezes no centro de críticas, é o colombiano que tem duas grandes voltas ganhas (Giro e Vuelta) e aquele que continua a aparecer no topo de candidatos do seu país para ganhar o Tour. Quintana venceu a derradeira etapa, mas, no geral, não foi a melhor das corridas. Rigoberto Uran (EF Education First) é outro dos veteranos, foi líder por um dia, contudo, a corrida pertenceu à nova geração.

Miguel Ángel López perdeu a nível táctico na derradeira etapa para Quintana, mas como numa prova por etapas interessa o todo, o ciclista da Astana levou o prémio máximo. Um primeiro sinal do "Superhomem" do ciclismo que aposta forte na Volta à Itália. Seguiu-se, na classificação geral, aquele que se poderá tornar no menino de ouro, parte dois. Iván Ramiro Sosa ficou a oito segundos de repetir a "graça" do colega da Sky, Egan Bernal, o menino de ouro, parte um. Ao estrear-se na equipa World Tour em 2018, Bernal venceu na Colômbia. Sosa está a demonstrar parecenças com o seu compatriota. Que dupla em perspectiva!

Daniel Martínez não tem o mediatismo de López, Bernal - que foi quarto - e Sosa, muito por estar numa equipa precisamente menos mediática. Porém, este jovem, de 22 anos, já revela ser uma certeza na EF Education First e 2019 tem tudo para ser o ano da confirmação de este talento. A seguir com muita atenção.

No top 15 da geral, só Alaphilippe (Deceuninck-QuickStep) quebrou a hegemonia colombiana - sétimo a 1:33 minutos - juntamente com o equatoriano Richard Carapaz (Movistar) - nono a 2:46. Na classificação da última etapa, foi Alaphilippe e outro equatoriano, Jhonatan Narváez a intrometerem-se no top 15. Narváez é mais um dos reforços da Sky.

Os colombianos mandaram em casa e cada vez mais demonstram que podem muito bem vir a mandar fora dela, depois de um ano em que foi a Grã-Bretanha a ganhar as três grandes voltas. Neste 2019 muito se poderá falar de ciclistas deste país da América do Sul.

Esta Colômbia é cada vez mais uma fonte de grandes talentos no ciclismo e não se estranha que ano após ano, as principais equipas procurem por lá reforços. Já não é o  chegou a parecer ser um segredo bem guardado de Gianni Savio, que muito tem contratado na Colômbia para a Androni Giocattoli-Sidermec. Bernal e Sosa são os dois casos de maior sucesso de Savio.

E não é um país apenas de trepadores, como até recentemente era conotado. O sprint vai revelando alguns dos melhores na especialidade, Fernando Gaviria à cabeça (ele que abandonou devido a doença), mas Álvaro Hodeg (Deceuninck-QuickStep) - Hodge de nascença - é já um seguidor de respeito, com Juan Sebastián Molano (UAE Team Emirates) a dar os primeiros passos no World Tour. Estes dois últimos ganharam uma etapa cada.

Demorou até que este país tivesse a sua corrida, mas em apenas duas edições já conquistou o seu lugar mesmo que, por agora, seja de categoria 2.1. Chamou a atenção dos melhores e tornou-se em mais um palco para revelar os talentos locais. O sucesso da corrida, dos ciclistas, da modalidade, até influenciou altas figuras do governo colombiano em equacionar a possibilidade de aproveitar a oportunidade em entrar no World Tour via Sky. O financiamento incluiria empresas como a Ecopetrol, mas o director da equipa britânica, Dave Brailsford, admitiu que vê como "muito improvável" que a Sky seja colombiana em 2020.

Efapel termina com três ciclistas

O ciclismo português esteve representado na Volta à Colômbia com a Efapel. Entre os seis eleitos estavam dois dos líderes da equipa: Joni Brandão e Sérgio Paulinho. Um abandonou na quinta etapa, o outro na terceira, respectivamente. Bruno Silva, não terminou a quinta tirada. O melhor foi Marcos Jurado. O espanhol fechou na 80ª posição a 45:12 minutos. Rafael Silva foi 125º e o reforço uruguaio Fabricio Ferrari 127º, ambos a mais de uma hora do vencedor.

A equipa de Américo Silva regressa já à competição na quarta-feira, no arranque da Volta ao Algarve.



2 de dezembro de 2018

Poucos triunfos, mas duas histórias que marcaram 2018

(Fotografia: Facebook EF Education First-Drapac p/b Cannondale)
A EF Education First-Drapac p/b Cannondale foi uma das equipas que chegou à Vuelta a precisar de bons resultados. Foi um 2018 algo frustrante, principalmente pelas expectativas criadas em redor de Rigoberto Uran, mas não só. É um pouco a história desta equipa americana: num ano alcança mais do que se está à espera, no outro, quando se pensa que tem condições para manter o nível, passa ao lado de uma temporada.

Desportivamente, o abandono de Uran no Tour (a etapa de Roubaix foi madrasta para muitos ciclistas), depois de há um ano ter vencido uma etapa e subido ao pódio nos Campos Elísios, foi um rude golpe. O colombiano jogou tudo na Volta a França e foi o primeiro a ser crítico com a sua época. Ganhou uma etapa na Colombia Oro y Paz e na Volta à Eslovénia e foi fazer sétimo na Vuelta, contudo, considerou que foi pouco para o que pretendia alcançar.

Há que não esquecer que 2017 ficou marcado pela incerteza do futuro da equipa, que demorou a encontrar um patrocinador. A EF Education First chegou a tempo não só se salvar a estrutura, mas também de manter corredores como Uran e Sep Vanmarcke. Foram criadas condições para acreditar que com estabilidade poder-se-ia fazer ainda melhor. No entanto, também Vanmarcke não conseguiu a grande vitória que tanto persegue.

É um especialista de clássicas do pavé e foi igual a ele próprio, o que começa a significar que é dos melhores neste tipo de corridas, mas falta-lhe sempre algo para chegar ao tal triunfo. Mais uma série de bons resultados, dois pódios, mas zero vitórias. No entanto, ainda não se perdeu a esperança de ver Vanmarcke alcançar pelo menos uma conquista que premeie a sua qualidade.

Joe Dombrowski, Hugh Carthy, Pierre Rolland são todos corredores que os responsáveis têm depositado a esperança, mas que demoram a afirmar-se. Para o francês já nem há tempo, pois aos 32 anos fechou-se a porta do World Tour e regressará ao seu país, para representar a Vital Concept - B&B Hotels. O americano, de 27 anos, e o britânico, de 24, vão continuar a ser apostas.

A questão é que a EF Education First-Drapac p/b Cannondale não pode apenas esperar que no futuro próximo alguns ciclistas comecem a render. E no presente, se Sacha Modolo, Daniel McLay ou Taylor Phinney também ficaram aquém, Simon Clarke e Michael Woods, dois dos mais experientes da equipa, assumiram a responsabilidade de salvar a temporada com duas vitórias na derradeira grande volta. Dois grandes momentos de ciclismo e que deixaram a equipa a respirar um pouco melhor. Para Woods, Espanha é um país em que se dá cada vez melhor, mas esta foi uma vitória que valeu mais do que um troféu ou uma subida ao pódio numa grande volta.

O canadiano ficou em lágrimas em Balcón de Bizkaia e, em directo, contou que, dois meses antes, o seu bebé tinha nascido morto. A comovente história de Woods foi mais um exemplo como muitas vezes se compete por mais do que a glória pessoal. Na EF Education First-Drapac p/b Cannondale foi o segundo exemplo do ano de como a força mental pode ser tão decisiva como a boa condição física.

Ranking: 16º (4373 pontos)
Vitórias: 6 (incluindo duas etapas na Vuelta)
Ciclista com mais triunfos: Rigoberto Uran (2)

A época da equipa acabou por ir muito além do sucesso, ou falta dele, a nível desportivo. No Tour tinha sido Lawson Craddock o herói. Foi orgulhosamente último do primeiro ao último dia e são poucos que o poderão dizer. Tinham decorrido apenas os primeiros 100 quilómetros da corrida quando Craddock caiu. Foi de rosto ensanguentado, com o corpo muito mal tratado que acabou o dia. Soube depois que tinha uma omoplata fracturada.

Decidiu continuar, criando um crowdfunding para angariar dinheiro para recuperar o velódromo da sua terra, destruído por um furacão. Comprometeu-se a dar 100 dólares (cerca de 85 euros) por cada dia que cortasse a meta e apelou a doações. Chegou aos Campos Elísios! Angariou mais do dobro do pretendido, ultrapassando os 200 mil euros. Os seus companheiros apoiaram-no neste desafio, chegando ao ponto de lhe abrir os pacotes da barras energéticas, por exemplo, porque até isso custava a Craddock fazer. Mas sobreviveu à etapa de Roubaix, subiu o Alpe d'Huez e chegou tanta vez a fechar o pelotão, mas acabou sempre as etapas. Este ano não houve pódio para a equipa americana, mas o que fez Craddock, tornou-o numa das figuras da Volta a França.

Como uma equipa não pode viver apenas de momentos de forte emoção, 2019 foi preparado com um misto de esperança na juventude e de ver um ciclista finalmente atingir o seu potencial, quando já poucos acreditam que o faça. Tejay van Garderen foi um dos dois atletas que foram contratados à BMC (Alberto Bettiol irá reforçar o bloco das clássicas). Uma aposta arriscada e, talvez por isso, tenha sido assinado apenas um vínculo para 2019. Ao contrário de Sean Bennett. 22 anos, muito talento, escola Axel Merckx (Hagens Berman Axeon), este americano é visto como uma estrela em ascensão... tal como foi visto, em tempos, Van Garderen. Assinou por duas temporadas. Sem entrar em comparações, pois cada ciclista segue o seu caminho, certo é que Bennett será um dos ciclistas cuja evolução será seguida atentamente. Já Van Garderen poderá ter a sua derradeira oportunidade como líder.

O equatoriano Jonathan Caicedo (25 anos, Medellin) é uma incógnita. Corredor de qualidade para a montanha, a adaptação a este nível será muito importante. Mas se for boa, poderá ser um atleta interessante. Para o sprint foi contratado um jovem colombiano. Começam a surgir os seguidores de Fernando Gaviria, num país que é cada vez menos visto como apenas de bons trepadores. Sergio Higuita tem 21 anos e esteve os últimos dois na Manzana Postobón.

Mas é outro colombiano que pode ser o presente vitorioso da equipa americana. Daniel Martinez não teve o ano de estreia que procurava no World Tour, muito devido a um incidente com um condutor de um carro durante um treino. O colombiano chegou a perder a consciência ao ser agredido. Recuperou e foi possível perceber que Uran tem um compatriota preparado para ser algo mais do que um gregário. Só tem 22 anos, mas é mais um ciclista de uma geração de ouro da Colômbia e que vai procurar ganhar definitivamente um lugar entre as principais figuras da EF Education First-Drapac p/b Cannondale.

Uma referência a José Neves, que teve a oportunidade de viver o ambiente de uma equipa World Tour. O ciclista da W52-FC Porto - vai para a Burgos-BH - realizou um estágio desde Agosto, participando em oito corridas. Não foi contratado para 2019, mas a experiência e o facto de ter chamado a atenção de uma equipa do escalão principal, são pormenores que poderão fazer a diferença na sua carreira.

Permanências: Rigoberto Uran, Sep Vanmarcke, Michael Woods, Matti Breschel, Nathan Brown, Hugh Carthy, Simon Clarke, Lawson Craddock, ulián Cardona, Mitchell Docker, Joe Dombrowski, Alex Howes, Sebastian Langeveld, Daniel Martinez, Daniel McLay, Lachlan Morton, Sacha Modolo, Logan Owen, Taylor Phinney e Julius van den Berg.

Contratações: Tejay van Garderen (BMC), Sean Bennett (Hagens Berman Axeon), Alberto Bettiol (BMC), Jonathan Caicedo (Medellin), Moreno Hofland (Lottou Soudal), Sergio Higuita (Manzana Postobón), Tanel Kangert (Astana), Lachlan Morton (Dimension Data), James Whelan (Drapac EF Cycling) e Luis Villalobos (Aevolo).


14 de outubro de 2018

Quer fazer uma equipa de ciclismo? Há ciclistas bem interessantes ainda sem contrato para 2019

Só falta a Volta a Guangxi, na China, para fechar a temporada World Tour (realiza-se de terça-feira a domingo) e ainda há vários ciclistas que procuram definir o seu futuro para 2019. Algumas equipas já vão fechando os plantéis, outras irão fazê-lo em breve. Há ainda nomes interessantes que se desconhece se renovam ou se vão mudar de ares. Se juntarmos alguns, ficamos com uma equipa bem interessante.

Portanto, toca a reunir uns tostões e a criar uma equipa de ciclismo, contratando corredores que estão actualmente em formações do World Tour. Este seria um plantel mais a pensar em provas por etapas, tendo em conta os ciclistas que até ao momento em que se escreve este texto estão sem contrato confirmado para a próxima temporada. Aqui ficam as sugestões.

Que tal ter um campeão do mundo e ainda mais português para começar? Sim, Rui Costa continua no mercado.  A época já se adivinhava difícil com a UAE Team Emirates a contratar dois líderes, Daniel Martin e Fabio Aru. Porém, a lesão no joelho contraída no Paris-Nice limitou-o grande parte do ano, tendo reaparecido muito forte nos Mundiais de Innsbruck, ficando em 10º, depois de não ter participado em qualquer grande volta, algo inédito na sua carreira desde que chegou ao mais alto nível. Porém, aos 32 anos, é um ciclista que pode ser um caça-etapas nas grandes competições e, claro, colocá-lo em certas clássicas, como nas Ardenas, poderá ser uma boa aposta. Não é um líder para três semanas, mas Rui Costa ainda tem muito a mostrar no ciclismo, sem que tenha de ser novamente gregário.

Dos ciclistas ainda sem contrato, seria difícil ter um que se apontasse logo como líder para uma grande volta. Talvez fosse preciso esperar para ver em algumas corridas quem estaria nas melhores condições de assumir a luta pelo menos por um top 10. Mas pisca-se o olho a um colombiano.

Daniel Martínez é mais um de uma geração que ameaça ser talvez a melhor que o país teve. Tem 22 anos, está na EF Education First-Drapac p/b Cannondale, depois de dois anos na Wilier Triestina-Selle Italia. A época de estreia foi bastante positiva, marcada, contudo, por uma agressão de um condutor durante um treino, em Março. Martínez chegou a perder a consciência e a memória, mas felizmente recuperou e demonstrou que pode não ter tido a entrada fulgurante de Egan Bernal (Sky) no World Tour, mas tem muito valor.

Foi terceiro na Volta à Califórnia e sexto na Catalunha. Esteve na Volta a França, apresentando-se a bom nível nas etapas de montanha, para quem ia como gregário de Rigoberto Urán (que abandonou muito cedo). Ciclista muito interessante este Martínez.

Joe Dombrowski. Está difícil ao americano afirmar-se de vez. Apresenta-se bem sempre que corre em casa, mas tem ficado um pouco aquém quando está na principais corridas na Europa, aparecendo aqui e ali, sem a consistência que tem de apresentar a este nível. No entanto, tem 27 anos e ainda é cedo para deixar de acreditar nele. A sua contratação seria mais para trabalhar para a equipa, mas sempre espreitando um bom momento de forma para lutar por alguma vitória. É um bom trepador que está a precisar de um bom resultado para "explodir" finalmente. Está em final de contrato com a EF Education First-Drapac p/b Cannondale.

John Darwin Atapuma. Parece que quando está perto de se afirmar de vez, volta a eclipsar-se. Tanto aparece em grande, como desaparece no pelotão, como acontece este ano na UAE Team Emirates. Faz 31 anos em Janeiro, pelo que algumas portas podem começar a fechar-se, mas é inevitável colocá-lo nesta lista. É um excelente trepador quando está em forma, já esteve perto de ganhar em grandes voltas, pelo que pode estar na luta por etapas.

Kenny Elissonde. Quando chegou à Sky no ano passado, o francês parecia estar bem encaminhado para ser um dos homens de confiança de Chris Froome, talvez mesmo o braço direito, já que Geraint Thomas estava a começar a tentar afirmar-se como líder. Não é esse braço direito, mas Elissonde é um ciclista de elevada confiança. Sabe-se bem o que esperar dele, é um ciclista de equipa e um dos últimos a abandonar os líderes. Aos 27 anos ainda tem muito para dar e é um ciclista que fica bem em qualquer formação que queira ter um conjunto forte para as provas por etapas.

Sebastián Henao. Está desde 2014 na Sky, mas o mais novo dos Henaos (o primo vai para a UAE Team Emirates) continua a alternar entre um bom resultado e vários pouco ou nada relevantes. Este ano nem para o Giro foi escolhido, como aconteceu nas temporadas anterior. Não conseguiu evoluir o que se esperava, mas não se pode dizer que, com apenas 25 anos, já não venha a afirmar-se. Em corridas de menor dimensão, Henao mostra-se. Porém, se está na Sky tem de fazer mais. Tem qualidade, sendo um ciclista para a alta montanha. "Só" precisa de estar bem física e mentalmente.

Natnael Berhane. Mais um ciclista de trabalho e uma aposta no ciclismo africano, que vai crescendo de interesse. O eritreu de 27 anos tem tido dificuldades em confirmar as expectativas que criou no início da sua carreira, quando alcançou algumas vitórias, a mais importante na Volta à Turquia, em 2013. É forte na montanha e também pode ser lançado em clássicas com algum sobe e desce. Está em final de contrato na Dimension Data.

Matej Mohoric. Aos 23 anos pode ser um caça-etapas muito bom - já tem uma na Vuelta e outra no Giro -, mas também já vai demonstrando que pode tornar-se num bom voltista, tendo ganho o Binck Bank Tour e a Volta à Alemanha esta temporada. Pertence a uma nação que cada vez mais vai apresentando bons valores no ciclismo: a Eslovénia. Tendo em conta os seus resultados e a regularidade que vai apresentando sempre que tem alguma liberdade para lutar pelos seus próprios resultados, até se esperaria que a Bahrain-Merida já o tivesse segurado. Para já ainda não, pelo que seria uma excelente contratação.

Filippo Ganna. Há que pensar no futuro e este italiano até pode ser de má memória para Portugal ("tirou" um título europeu e mundial de pista a Ivo Oliveira), mas na UAE Team Emirates não está fácil encontrar o espaço para evoluir e afirmar-se na estrada. Forte no contra-relógio, ainda tem que evoluir na montanha - tem 22 anos -, passando bem a média, podendo ainda ser hipótese para algumas clássicas. Este ano fez as do pavé, sem grandes resultados, contudo, seria interessante fê-lo nas Ardenas também.

Rémi Cavagna. Mais um jovem, 23 anos, francês e que este ano não se afirmou como se esperava. Não se pode pensar que iria fazer como Enric Mas, mas Cavagna acabou por ter um ano discreto, apesar de ter ganho a Dwars door West-Vlaanderen. É um ciclista ainda em formação, que não dando certezas, será interessante ver como evolui. O potencial está lá para as provas por etapas e também em clássicas, não fosse ele estar na Quick-Step Floors.

James Shaw. É um nome talvez menos conhecido, mas este jovem britânico, de 22 anos, é um dos que merece alguma atenção. Está na Lotto Soudal, uma equipa muito de clássicas, sprints e caça-etapas. Talvez por isso ainda procure o seu espaço. Apesar de ter ganho em júnior a Kuurne-Brussels-Kuurne e Omloop Het Nieuwsblad, é nas corridas por etapas que pode e rende mais. Um ciclista para o futuro.

Tao Geoghegan Hart. Talvez se possa dizer que se deixa o melhor para o fim, no que diz respeito a voltistas. 23 anos e tanto talento! Este britânico já foi elogiado pelo director da Sky, Dave Brailsford, pelo que será uma surpresa se não renovar. Foi brilhante no apoio a Egan Bernal na Volta à Califórnia, que o colombiano ganhou. Mas as boas exibições de  Geoghegan foram constantes durante toda a época, tendo oscilado um pouco na Vuelta. Foi a sua primeira grande volta, pelo que esteve em Espanha para ganhar experiência. Pode ser visto para já como um gregário, mas vai dando indicações que pode vir a ser mais num futuro próximo. É uma autêntica máquina a meter ritmo, faltando saber como será no dia em que lhe derem liberdade.

Salvatore Puccio. Outro homem da Sky que também pode ser chamado para as corridas por etapas, mas é igualmente forte nas clássicas. Tem 29 anos e entrou na equipa britânica como estagiário em 2011. A certa altura ainda pareceu que as corridas de um dia poderiam ser a aposta, mas o italiano revelou ser um ciclista completo. Bom para trabalhar, mas dêem liberdade e vai à procura de resultados e tem alguns de destaque. Falta-lhe a vitória, mas é um corredor de confiança e regular, principalmente no trabalho para a equipa.

Ben Swift. Depois de um ano na Katusha, esteve sete na Sky. Quis mais liberdade e foi para a UAE Team Emirates. A mudança não resultou. Swift é uma sombra do ciclista que foi duas vezes pódio na Milano-Sanremo, somando 13 vitórias na carreira, incluindo no Tour Down Under, Volta à Califórnia e Volta à Polónia. Está de saída da equipa e precisa de um novo impulso na carreira. Tem 30 anos, experiência não lhe falta e pode dar vitórias caso consiga ter uma temporada mais consistente, sem problemas físicos e de saúde. Ciclista para os sprints, mas que defende-se bem em alguma montanha. Até já surpreendeu ao aparecer na frente no Alpe d'Huez, no Critérium du Dauphiné em 2017. Foi segundo, numa subida com uma parte diferente da mítica ascensão.

José Joaquín Rojas. 33 anos e ainda tanto para dar. O espanhol da Movistar é útil nas grandes voltas, nas clássicas e ainda vai ao sprint, se tiver a oportunidade. É um daqueles ciclistas que pode fazer um pouco de tudo e a sua experiência é uma mais valia para qualquer equipa. Será algo estranho se não renovar pela formação espanhola que representou praticamente toda a carreira. Mas se não ficar, não terá problemas em encaixar noutra estrutura.

Luka Mezgec. Seja a lançar os sprints ou a tentar terminá-los, este esloveno de 30 anos é mais um daqueles ciclistas que uma equipa sabe que pode contar sempre com ele para realizar bem o seu trabalho. Com a Mitchelton-Scott a mudar cada vez mais a sua génese para uma equipa para ganhar grandes voltas, Mezgec poderá perder algum espaço, mas continua a ser um ciclista de valor, numa segunda fila de uma equipa.

Matteo Pelucchi. Está um pouco no mesmo plano que Mezgec. Bom sprinter, mas não consegue debater-se constantemente com os grandes nomes da modalidade. Na Bora-Hansgrohe acaba por estar mais entregue à função de ajudar Sam Bennett ou Peter Sagan. Faz 30 anos em Janeiro e é um ciclista regular e de confiança no seu tipo de terreno.

Tony Martin. Nesta lista já se incluíram ciclistas com qualidade, mas que não são garantia de sucesso, casos de Dombrowski, Atapuma ou Cavagna. No entanto, é difícil não considerar Martin como o maior dos riscos. É um dos melhores exemplos de quem saiu da Quick-Step Floors e eclipsou-se quase por completo. Nem no contra-relógio consegue o número de vitórias que alcançou no passado. É um ciclista muito caro, mas a falta de resultados e com 33 anos, vai perdendo algum crédito. Mas é Martin, o quatro vezes campeão do mundo de contra-relógio, vencedor de cinco etapas no Tour e de duas Voltas ao Algarve. Estará a caminho da Lotto-Jumbo, mas o rumor há muito que perdura, sem que haja confirmação. Se conseguir recuperar parte da sua melhor versão, então Martin será novamente uma boa aposta, mas em dois anos na Katusha-Alpecin, pouco ou nada se viu do grande Tony Martin.

Estas são as escolhas de ciclistas que estão no World Tour, como já foi escrito, e fecha-se com mais dois portugueses: Tiago Machado e Nuno Bico. O primeiro até poderá estar de regresso a Portugal e será muito bem-vindo ter um ciclista como Machado por cá a tempo inteiro. Porém, aos 32 anos e recordando, por exemplo, a recente Vuelta, é um corredor que ainda pode ter lugar num escalão superior às Continentais portuguesas, estando em final de contrato com a Katusha-Alpecin. É um incansável trabalhador e ainda mais incansável como lutador. Fala-se da W52-FC Porto, que quer subir a Profissional Continental, mas não é de afastar um regresso à Rádio Popular-Boavista.

Nuno Bico não tem tido vida fácil na Movistar. Perseguido por algum azar, a sua evolução tem sido interrompida por problemas físicos, com algumas quedas aparatosas pelo caminho. Está neste momento a recuperar de uma clavícula partida na Clássica do Quebéque. A alta competição pode ser ingrata para aqueles que, por vezes, demoram um pouco mais a afirmar-se, mas Bico é um ciclista que, aos 24 anos, ainda está por mostrar todo o seu potencial.

Em suma, o plantel seria composto por: Rui Costa, Daniel Martínez, Joe Dombrowski, John Darwin Atapuma, Kenny Elissonde, Sebastián Henao, Natnael Berhane, Matej Mohoric, Rémi Cavagna, James Shaw, Tao Geoghegan Hart, Salvatore Puccio, Ben Swift, José Joaquín Rojas, Luka Mezgec, Matteo Pelucchi, Tony Martin, Tiago Machado e Nuno Bico.

30 de março de 2018

Antigo ciclista da Efapel atropelado em Espanha e dois colombianos agredidos em Itália

(Fotografia: © Burgos BH)
Os últimos dias têm sido tristes para o ciclismo. Dois colombianos foram agredidos enquanto treinavam em Itália, um corredor espanhol que já representou a Efapel chocou de frente com um automóvel que circulava fora de mão e uma paraciclista morreu numa colisão com um camião. Nestes dois países tem crescido movimentos que apelam a uma maior segurança na estrada, sendo que em Espanha a luta tem sido intensa. #PorUnaLeyJusta tem sido a causa que está a apelar junto do governo a penas mais pesadas.

Esta sexta-feira, Diego Rubio, companheiro de José Mendes na Burgos BH e que em 2014 e 2015 representou a Efapel, publicou uma imagem no Twitter a mostrar o seu capacete partido depois de ter chocado de frente com um automóvel. O ciclista espanhol, de 26 anos, treinava em Navaluenga, zona de Ávila, quando o carro saiu da sua faixa. Rubio não conseguiu desviar-se e acabou por embater de frente. Já o companheiro que estava com o corredor teve mais sorte e evitou o embate. O ciclista foi transportado para o hospital, mas já garantiu que está bem, sem nada partido. "Seguimos sem endurecer as regras na estrada?" Lê-se na mensagem deixada por Rubio.

Na terça-feira, Daniel Martínez e Kristian Yustre foram agredidos por um condutor, num incidente que faz lembrar o que aconteceu no ano passado com Luís Mendonça e que afastou o ciclista do Louletano-Hospital de Loulé da Volta a Portugal. Os dois jovens colombianos, de 21 e 24 anos respectivamente, treinavam em Pistoia, na região da Toscana quando um condutor partiu para a agressão. Martinez chegou mesmo a perder a consciência.

Martinez e Yustre estavam acompanhados por outros dois ciclistas. O primeiro explicou ao El Tiempo o que aconteceu: "Estava a trabalhar e um carro queria praticamente matar-nos. Protestámos e ele ficou louco. Saiu do carro e agrediu-me, deu-me um murro e deixou-me KO. A um companheiro [Yustre] abriu-lhe o lábio e depois fugiu." A situação de Martinez foi preocupante, pois o ciclista da EF Education First-Drapac powered by Cannondale chegou a perder a memória.

Ao mesmo jornal, Yustre explicou que o compatriota já está a recuperar da amnésia, mas na terça-feira viveu momentos difíceis. O corredor da equipa italiana Amore & Vita-Prodir contou que algumas pessoas que estavam perto do local do incidente sabem quem é o homem e que ele e os companheiros apresentaram queixa na polícia. Yustre e Martinez foram levados para o hospital. O segundo passou lá na noite, mas ambos já estão em casa a recuperar. A formação americana que este ano contratou Martinez, ainda não sabe quando o seu ciclista poderá voltar à competição.


Novamente em Espanha, na quarta-feira o campeão nacional de 2016 de paraciclismo, José Angel Aceitón Chaparro, morreu após uma colisão com um camião, em Badajoz. A informação foi avançada pela Guarda Civil espanhola, mas não foram divulgados pormenores do acidente. O atleta tinha 34 anos.

Em Janeiro, Laurens De Plus e Petr Vakoc foram atropelados durante um treino na África do Sul e ainda estão a recuperar. Ainda não se sabe se Vakoc irá competir este ano. Bob Jungels treinava com os colegas da Quick-Step Floors, mas não foi afectado. O luxemburguès deixou uma mensagem a apelar ao respeito de todos os que andam na estrada, seja em que veículo for: "Todos devem considerar se vale a pena perder um ou dois minutos a ultrapassar-nos, ou a ver-se envolvido numa situação como a que estivemos há dois dias. Não estou a dizer que os ciclistas fazem tudo bem. Muitas vezes ocupamos demasiado da estrada, muitas vezes não respeitamos as regras, o que é justo dizer que também não é correcto."

São vários os casos e não apenas com ciclistas profissionais ou pertencentes a equipas. Em 2016, seis ciclistas da então Giant-Alpecin (actual Sunweb) foram atropelados em Espanha por uma condutora britânica que conduzia em contra-mão. No ano passado Michele Scarponi foi atropelado mortalmente perto de casa, a poucos dias do início da Volta a Itália. O homem que conduzia a carrinha estaria alegadamente a ver um vídeo no telemóvel. Em Portugal, o sub-23 Tiago Alves, da equipa Sport Ciclismo de São João de Ver, faleceu ao ser atingido por um veículo ligeiro.