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16 de março de 2019

Sonhou jogar no Barcelona mas o "Mini-Rigo" escolheu o ciclismo com um empurrãozinho da mãe

(Fotografia: © EF Education First)
Ainda não tinha o mediatismo de compatriotas como Egan Bernal ou Iván Ramiro Sosa, mas não significa que andasse a passar despercebido. Daniel Martínez já tinha demonstrado que também ele é mais um colombiano de grande talento e o "protegido" de Rigoberto Uran conquistou finalmente aquela que deverá ser a primeira de grandes vitórias. O menino que sofreu de excesso de peso e que quando começou a praticar desporto sonhou em vestir a camisola do Barcelona, rendeu-se às bicicletas e aos 22 anos é mais um ciclista de uma geração que tem tudo para ser de ouro.

Ser campeão nacional de contra-relógio já tinha sido uma conquista importante esta época, a sua primeira em elite. Mas foi num dos grandes palcos do ciclismo mundial que demonstrou porque tem sido apontado como o próximo colombiano a conquistar a ribalta. Na etapa rainha do Paris-Nice, Martínez foi exemplar, batendo inequivocamente um Miguel Ángel López (Astana), que acabou sentado naquele potente derradeiro e decisivo ataque. Simon Yates (Mitchelton-Scott) nem teve tempo para nada. Estava a encostar no duo da frente, quando Martínez arrancou nuns metros finais feitos quase em fúria, sem olhar para trás, sprintando após uma subida de 15 quilómetros, o Col de Turini, que deixou tantos corredores a sofrer (que o diga Michal Kwiatkowski, da Sky, que perdeu a camisola amarela).

É o princípio de uma nova fase da carreira. Martínez começa a ter margem de manobra para se afirmar a outro nível, com outro estatuto. A EF Education First perdeu Rigoberto Uran no Paris-Nice devido a uma queda. O líder partiu a clavícula. O vento intenso já tinha arruinado as hipóteses de Martínez de ir além de uma eventual vitória de etapa, mas valeu a pena esperar por um excelente momento de ciclismo, como foi o deste sábado. Recentemente a equipa americana renovou com Michael Woods até 2021. Martínez poderá ser o próximo, já que está em final de contrato, contudo, estará a aguçar o interesse de outras formações.

A caminhada rumo à afirmação no ciclismo começou com um incentivo da mãe. Em criança, Martínez, natural de Soacha (a cerca de 30 quilómetros de Bogotá), tinha excesso de peso e não ligava muito ao desporto. Devido a uma infecção que o levou a estar internado no hospital, Martínez perdeu vários quilos e foi aconselhado a praticar mais desporto, segundo conta o site L'Etapa Reina. Escolheu o futebol. "O meu sonho era jogar no Barcelona. Mas andava melhor de bicicleta do que chutava uma bola", admitiu numa entrevista publicada no site da sua equipa, a EF Education First.

A mãe preferia que Martínez escolhesse o ciclismo em detrimento do futebol e foram os pais que ajudaram o colombiano a ter um equipamento melhor do que uma velha bicicleta que tinha começado por arranjar. Aos 14 anos aplicou-se mais e seguiu as pedaladas do irmão ao entrar em provas regionais. A pista fez igualmente parte da sua formação e a sua primeira vitória de destaque foi no contra-relógio nos Jogos Pan-Americanos. Estávamos em 2013 e, em Setembro, representou a selecção nos Mundiais de Florença, de boa memória para Portugal e Rui Costa! Foi 15º na corrida de juniores, ganha por um agora senhor do ciclocrosse Mathieu van der Poel, com Mads Pedersen, da Trek-Segafredo, a ser segundo.

O salto para a Team Colombia em 2015 foi o que precisava, apesar de ter sido o último ano da equipa. O destaque foi para a conquista da classificação da montanha na Route du Sud, mas as boas prestações alargaram-se a várias corridas, tanto pela equipa, como pela selecção. A Wilier-Southeast abriu-lhe as portas da Europa e das grandes voltas, estreando-se no Giro. Não demorou muito a começar a chamar a atenção do World Tour, tendo adaptado-se muito bem à nova realidade. Foi a EF Education-First que o contratou na época passada, com o director Jonathan Vaughters a chamar-lhe de "Mini-Rigo".

Quando se falou mais no colombiano, logo em Março, não foi pelas razões que desejaria. Ao treinar em Itália, foi agredido por um condutor e chegou a ficar inconsciente. Não se deixou abater.  Pouco antes tinha terminado em sétimo na Volta à Catalunha, foi depois 12º na Romandia e terceiro na Volta à Califórnia. A equipa elegeu-o para ser um dos homens de confiança do compatriota Rigoberto Uran. O líder abandonou, com Martínez a ficar um pouco mais livre num ganho de experiência que lhe poderá ser útil quando surgir a oportunidade por que tanto espera: "Quero um dia estar na luta por uma vitória nas grandes corridas desta modalidade."

Martínez chegou a ser gregário de Bernal (Sky) quando ambos estavam na selecção, em em provas como o Tour de l'Avenir. Agora constrói o seu próprio caminho rumo ao papel de destaque numa equipa World Tour. E no dia em que venceu no Paris-Nice, partilhou a ribalta precisamente com o compatriota, pois Bernal assumiu a liderança da corrida e tem apenas de ultrapassar mais uma etapa para garantir mais uma conquista. Tem 45 segundos sobre Philippe Gilbert (Deuceninck-QuickStep) e 46 sobre Nairo Quintana (Movistar), um colombiano que vai vendo a nova geração tomar de assalto o ciclismo mundial.


12 de março de 2019

O grito de revolta de Sam Bennett

(Fotografia: © Bora-Hansgrohe/BettiniPhoto)
Quando se começa a temporada tendo como "homem de lançamento" no sprint um ciclista chamado Peter Sagan e depois de uma época de 2018 memorável, Sam Bennett esperava tudo, menos descer na hierarquia da Bora-Hansgrohe, ficar de fora do Giro e ter de ponderado se chegou o momento de mudar. O irlandês não escondeu a desilusão de ter sido excluído da corrida na qual, há um ano, afirmou-se finalmente ao mais alto nível. Contudo, a sua reacção às más notícias são um sinal do profissionalismo que a Bora-Hansgrohe ou outra equipa, caso saia, pode contar.

Após conhecer a decisão que não iria à Volta a Itália, com a escolha a recair em Pascal Ackermann, Bennett reagiu vencendo uma etapa na Volta aos Emirados Árabes Unidos e agora somou mais um triunfo no Paris-Nice, sempre frente um forte lote de sprinters. Contando ainda com a etapa na Volta a San Juan, na Argentina, onde teve Sagan a ajudá-lo, Bennett ganhou em todas as corridas em que participou esta temporada, duas das quais de categoria World Tour.

Este irlandês tem sido um ciclista incansável na procura por um lugar entre os melhores. Subiu a pulso na carreira. Já pertencia à estrutura da actual Bora-Hansgrohe quando a equipa estava no escalão Profissional Continental. Chegou em 2014 para a então NetApp-Endura, cruzando-se com os portugueses José Mendes e Tiago Machado. Quando a equipa subiu a World Tour, em 2017, Bennett soube aproveitar as oportunidades que lhe foram dadas, tendo em conta que Peter Sagan tomou conta da liderança nos sprints e não só.

No ano antes, Bennett tinha conquistado uma etapa no Critérium du Dauphiné, que lhe ajudou a ter argumentos para que não fosse relegado a apenas um membro de apoio aos líderes. Quando era para ajudar, ajudava, quando era para lutar por vitórias, lutou. Ganhar no Paris-Nice colocou o seu nome na história da Bora-Hansgrohe. Foi a primeira vitória como equipa World Tour numa corrida de categoria máxima. Peter Sagan tinha aberto a contagem na Kuurne-Bruxelles-Kuurne, que é 1.HC (segunda categoria).

Acabou esse 2017 com dez vitórias, a melhor da carreira, cinco de provas World Tour, tendo contribuído o domínio na Volta à Turquia (quatro triunfos em etapas). No Giro tinha somado três terceiros lugares e um segundo. Com a boa restante temporada, a Bora-Hansgrohe não hesitou em levá-lo novamente a Itália em 2018, novamente como um dos líderes. Respondeu com três etapas ganhas, sendo um rival que chegou a parecer não existir para Elia Viviani (Etixx-QuickStep). Juntou três terceiros lugares e dois segundos. Foi sempre muito competitivo nos sprints. A Bora-Hansgrohe tinha garantido que havia mais um sprinter a conquistar grandes vitórias.

O problema de Bennett foi que enquanto confirmou que era um sprinter que a equipa poderia contar, Pascal Ackermann aproveitou o calendário bem diferente do irlandês para mostrar todo o seu potencial. O jovem alemão, de 25 anos, foi mesmo o mais ganhador da equipa - nove vitórias contra as sete de Bennett - e com alguns triunfos importantes, como uma etapa no Critérium du Dauphiné, outra na Volta à Romandia e a clássica britânica Prudential RideLondon-Surrey. Os dois contribuíram para uma época de sucesso da Bora-Hansgrohe, não se podendo dizer que ficaram completamente na sombra de um Peter Sagan a ganhar no Tour e o monumento Paris-Roubaix. Bennett e Ackermann também conseguiram brilhar.

2019, nova época e a equipa não esconde que Pascal Ackermann é a nova coqueluche em crescimento. Bennet está em final de contrato. "Tenho 28 [anos], 29 na próxima temporada. Não estou a ficar mais novo e estes são os meus melhores anos. Quero oportunidades", desabafou Bennett quando soube que só lhe sobrava a Volta a Espanha, com Ackermann a ser a escolha para o Giro e Sagan, claro, para o Tour. Bennett nem se importa de ir à Vuelta, pois mesmo não sendo a grande volta que mais etapas tem para sprinters, o irlandês admite gostar da corrida. Porém, quer mais.

E com razão. Bennett não é um sprinter que ganhe quando faltam grandes nomes. Não. Bennett tem conseguido bater os melhores e nos últimos dois anos demonstrou como tem qualidade para estar nas grandes corridas e que dele pode-se esperar bons resultados. Não tem o mediatismo de um Sagan, Marcel Kittel ou Fernando Gaviria. Despontou mais tarde do que qualquer das actuais grandes estrelas, mas a tempo de estar a conquistar triunfos que justificam que possa ter um papel mais relevante.

No entanto, é o primeiro admitir que está numa equipa que tem uma forte concorrência interna e esse poderá ser um problema para Bennett. Ser um ciclista da casa não é garantia de nada, numa Bora-Hansgrohe a ambicionar cada vez mais e além de Peter Sagan. Pode não estar a ir para novo, como diz, mas está numa idade em que muitos sprinters alcançam o seu maior potencial. Contudo, a equipa alemã procura ter mais referências do seu país, algo natural quando se vive de patrocinadores. Pascal Ackermann junta-se a Emanuel Buchmann, com o reforço Max Schachmann a ser a mais recente aposta para ciclistas germânicos líderes na Bora-Hansgrohe. Isto não significa que se feche a porta a estrangeiros de qualidade. O austríaco Patrick Konrad, o australiano Jay McCarthy, o polaco Rafal Majka e o próprio Bennett são a prova disso. Com Sagan como exemplo máximo, naturalmente.

Bennett vê-se na situação de ter de tomar uma decisão que lhe poderá marcar a restante carreira. É difícil não ver a Bora-Hansgrohe oferecer-lhe uma renovação, mas o irlandês quer um papel de maior relevo. Quer estar na Volta a Itália. Quer ir a uma Volta a França. O grito de revolta de Bennett chegou em forma de vitórias para as equipas World Tour verem e talvez contratarem-no como um líder. Com esta atitude, ganham todos, Bennett, Bora-Hansgrohe e as corridas em que o ciclista participa, já que anima sempre o sprint.

»»Michael Matthews volta a começar a época com queda grave. Sunweb desespera por vitórias««

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11 de março de 2019

Michael Matthews volta a começar a época com queda grave. Sunweb desespera por vitórias

(Fotografia: Facebook Team Sunweb)
Num ano em que a Sunweb procura ser a equipa que ninguém duvida poder disputar as mais variadas corridas, das clássicas às grandes voltas, num ano em que perdeu alguns dos seus pesos pesados, mas também começa cada vez mais a aproveitar os jovens talentos que tem formado na sua estrutura de desenvolvimento, a equipa alemã sofreu novamente um contratempo muito desanimador. A época de clássicas de Michael Matthews é uma incógnita após uma queda grave. 2018 repete-se para o australiano e a Sunweb bem precisa dele no seu melhor.

Sem vitórias esta temporada, a única nesta situação no World Tour, a equipa tem aparecido na disputa de algumas corridas, como aconteceu na Volta o Algarve, com o segundo lugar de Soren Kragh Andersen. Nos Emirados Árabos Unidos, Wilco Kelderman foi quinto e Tom Dumoulin sexto, resultados que souberam a pouco, tendo em conta que o objectivo era ganhar. Dumoulin ainda tentou uma etapa, mas foi batido por um muito superior Primoz Roglic (Jumbo-Visma), eventual vencedor da prova.

Matthews tem por hábito entrar em acção um pouco mais tarde nas temporadas do que a maioria dos ciclistas. No entanto, gosta de o fazer em força. Era essa a intenção este ano. Ainda só tinha participado na Omloop Het Niewsblad, tendo terminado na 12ª posição. Foi uma forma de fazer as pazes com a clássica, na qual há um ano caiu e partiu a clavícula. Era difícil começar pior a época, terá pensado então. Mas não. Desta feita foi na segunda corrida da temporada. Numa primeira etapa muito complicada no Paris-Nice, no domingo, com muito vento e logo, muito nervosismo no pelotão, o australiano sofreu uma queda aparatosa. Sofreu um concussão cerebral.

Susto grande na Sunweb. Matthews teve de passar a noite no hospital e a única boa notícia foi não ter sofridos qualquer fractura. Agora aguarda-se para saber quando o ciclista de 28 anos poderá regressar à competição. Tal como no ano passado, é a presença na Milano-Sanremo que mais se deseja perante novo azar numa fase tão inicial, mas crucial da época. Em 2018 conseguiu recuperar a tempo de ir ao primeiro monumento do ano e fazer um sétimo lugar. Este ano, Matthews quer mais e melhor.

As suas armas estão bem apontadas a algumas das grandes clássicas, três das quais são monumentos: Milano-Sanremo, Volta a Flandres e Liège-Bastogne-Liège. O seu calendário conta ainda com a E3 BinckBank, Gent-Wevelgem, Através da Flandres, Amstel Gold Race e Flèche Wallonne. Não é ciclista para pensar noutro resultado que não seja uma vitória. Com a excepção do Paris-Nice, a primeira fase de 2019 é para ser dedicada às clássicas. Assim espera, pelo menos.

A opção também se justifica pela Sunweb ser cada vez uma equipa com mais soluções, o que faz com que esteja em provas por etapas a pensar mais em vencer as gerais, com Matthews a não precisar de ser o "ganha-pão" ao sprint. Naturalmente que irá aparecer neste tipo de discussão até porque quererá estar novamente na Volta a França - venceu a camisola dos pontos em 2017, mas abandonou na primeira semana em 2018 devido a problemas de estômago -, por exemplo. No entanto, Matthews pode dedicar-se quase exclusivamente, nesta altura do ano, às clássicas.

A equipa quer ver Tom Dumoulin vencer uma grande volta novamente, quer ver Kelderman confirmar de vez o seu potencial como voltista e lutar também ele nestas corridas, enquanto vai subindo o nível de jovens como Sam Oomen para o futuro muito próximo.De Matthews deseja-se muito um monumento. Desde que John Degenkolb venceu a Milano-Sanremo e o Paris-Roubaix em 2015 que na equipa não mais se celebrou uma vitória nestas corridas.

É em Matthews que recaem muitas das esperanças para abrir a contagem de vitórias em 2019. No ano passado custou, mas o australiano acabou por conquistar bons triunfos, como aconteceu nas clássicas do Canadá. Quatro vitórias ao todo que não o deixaram satisfeito. E agora Matthews volta a ser começar a temporada a cair e a quebrar o aprimorar de forma quando se está em contagem decrescente para o primeiro monumento do ano: 23 de Março. Como um azar nunca vem só, a Sunweb perdeu também na primeira etapa do Paris-Nice Martijn Tusveld. Numa outra queda, fracturou o queixo e teve de ser operado.

Em 2016, Matthews arrancou no Paris-Nice para uma das suas melhores temporadas. Desta feita a corrida não lhe deixará boas recordações, mas se há algo que tem demonstrado é capacidade para dar a volta a maus momentos. A Sunweb bem precisa deste seu ciclista no seu melhor.

Paris-Nice fez mais uma vítima

Que duas etapas infernais se viveu na corrida francesa! Esta segunda-feira, o vento fez novamente muitos estragos, tanto na perda de tempo de muitos ciclistas, como as quedas a deixarem mais um ciclista a pedir mais sorte. Rigoberto Uran (EF Education First) partiu a clavícula e será baixa durante umas semanas.

Louis Meintjes (Dimension Data) também caiu e está fora da corrida, com o outro líder da equipa, Mark Cavendish, a abandonar pois o ritmo foi demasiado alto para um ciclista longe do seu melhor. Gorka Izagirre (Astana), Warren Barguil e Maxime Bouet foram todos ao chão e nenhum ficou bem tratado (Arkea-Samsic).

Alheio a todos os problemas está um Dylan Groenewegen (Jumbo-Visma) que não pára de ganhar. Venceu as duas etapas e é líder. Já são quatro os triunfos em 2019, incluindo uma etapa na Volta ao Algarve.

Amaro Antunes (CCC), o único português em prova, está a ter uma estreia difícil no Paris-Nice. Depois de perder mais de um minuto no primeiro dia, somou mais de oito no segundo. A luta por uma etapa é agora o principal objectivo.

O Paris-Nice decorre até ao próximo domingo.

»»Deceuninck-QuickStep vs Astana. A luta final apropriada na Strade Bianche««

»»O sentimento de traição««

12 de março de 2018

Marc Soler encontrou a diversão perfeita no ciclismo

(Fotografia: Movistar Team)
"Ganhará o que quiser, inclusivamente corridas de três semanas. Já se viu a progressão que teve e o bom que é [como ciclista]!" Alejandro Valverde bem avisou há mais de um ano que Marc Soler tinha tudo para ser uma das futuras referências espanholas. Não era o único a colocar jovem de Vilanova i la Geltrú, município de Barcelona, como um dos grandes talentos a despontar. Porém, nem a vitória numa etapa da Route du Sud (2016) ou o pódio na Volta à Catalunha (2017) pareciam convencer uns meios de comunicação social obcecados pela perda de Alberto Contador, que se preparava para terminar a carreira, um ano depois do adeus de Joaquim "Purito" Rodríguez. Num dia, tudo mudou. A conquista do Paris-Nice com apenas 24 anos faz com que se leia em diversos textos que o futuro de Espanha está aí. Valverde sabia, Purito é outro que já tinha alertado que Soler tinha um enorme potencial, tal como Juan Antonio Flecha e Joxean Fernández ‘Matxín’, este último um especialista em "caçar" futuros grandes ciclistas, sendo actualmente director desportivo da UAE Team Emirates.

Procurava-se o sucessor de Contador e apesar de até ter ganho o Paris-Nice ao estilo do agora ex-ciclista, atacando de longe e mostrando uma grande maturidade táctica, chamam-lhe o novo Indurain! Num dia, Soler viu o mediatismo em seu redor ser consideravelmente ampliado e a sua carreira entra também numa nova fase. Até agora os olhares era para ver se confirmava expectativas, a partir deste domingo a responsabilidade será de mostrar que tem de facto potencial para liderar uma grande equipa e corresponder com grandes vitórias.

A Movistar tem sido a estrutura perfeita para Soler evoluir. Assinou em 2015, mas Eusebio Unzué sempre adoptou com o jovem uma postura de deixá-lo ir evoluindo, sem pressões excessivas. Diga-se que é algo comum aos corredores que chegam muito novos a esta equipa e como está a acontecer com o português Nuno Bico, por exemplo. Unzué deixa-os percorrer o seu caminho e são muitas vezes os próprios ciclistas que demonstram que estão prontos para mais, ainda antes de alguém lhe dizer que têm de mostrar um nível mais elevado. Soler é o exemplo. Sempre que foi tendo oportunidade agarrou-a e alcançou resultados. A vitória no Paris-Nice é inequivocamente a afirmação de "estou pronto para mais."

O Barcelona perdeu um guarda-redes!

Soler é um daqueles atletas que adora praticar desporto, mas tem de se divertir a fazê-lo, por mais sério que se torne. A sua primeira incursão foi no futebol. Era guarda-redes, mas quando a exigência começou a superar o divertimento, o futebol perdeu algum encanto. Influenciado por uns pais também amantes do desporto, Soler praticou natação e o alpinismo fez parte da sua vida desde cedo. "Antes de aprender a andar, eu e o meu irmão Pol já tínhamos passado pelas zonas mais frequentadas pelos alpinistas", disse numa entrevista ao Ciclismo a Fondo.

Porém, quando apareceu uma bicicleta de BTT em casa, foi um chamamento irresistível para Soler e não demorou muito a perceber que era a pedalar que mais se divertia. Começou por ir nuns passeios com o pai e os tios e aos 13 anos, um amigo com quem tinha jogado futebol, convenceu-o a experimentar a competição. "Cheguei [à prova], dei quatro ou cinco voltas porque era infantil e não podia dar mais e quando acabei havia um lanche para todos. Senti-me bem e era o que procurava", contou.

Do BTT para a estrada, foi para o CC Mollet, depois mudou-se para o Huesca la Magia e foi no Lizarte - que funciona como equipa satélite da Movistar - que se fez ciclista sob a orientação de Manolo Azcona. Ainda foi jogando futebol, mas tornou-e claro que não iria ser a sua carreira. O Barcelona, clube do seu coração, se calhar perdeu possibilidade de contratar um grande guarda-redes! Aos 17 anos dedicou-se exclusivamente ao ciclismo. Azcona afirmou uma vez que olhava para Soler e pensava: "Este é outra coisa."

Desde cedo que com os pais Soler aprendeu a ter atenção ao seu corpo. O pai, bombeiro, e mãe, funcionará da câmara de Vilanova i la Geltrú, ensinaram-lhe a alimentar-se correctamente, a perceber a importância do descanso e de como treinar bem. Parte da exigência do ciclismo já lhe tinha sido incutida desde criança, ainda longe de imaginar no que se iria tornar Soler. Fisicamente, o espanhol é considerado estar dentro dos parâmetros ideais: 1,86 metros e quando está no pico de forma o peso ronda os 67/68 quilos. Como curiosidade, Indurain mede 1,88, enquanto Contador é um pouco mais baixo: 1,76. A suas apetências de trepador cedo o tornaram um destaque entre os jovens talentos espanhóis. No ano antes de assinar contrato com a Movistar, Soler conquistou seis vitórias. Em 2015 estreou-se como profissional no Tour de San Luis, na Argentina (81º lugar) e veio à Volta ao Algarve ser segundo na classificação da juventude, atrás do italiano Davide Formolo.

A Movistar foi colocando-o várias vezes em prova e chamado para fazer o Tour de l'Avenir, prova também conhecida como Volta a França do Futuro. Foi aí o mundo viu que Espanha tinha em Soler uma enorme promessa. Não só venceu, como na última etapa deu muito espectáculo. Sebastian Henao tentou escapar e ganhou uma vantagem de cerca de três minutos. Soler foi em sua perseguição, passou o colombiano e pode não ter conseguido ganhar a etapa, essa foi para o russo Matvey Mamykin - ex-Katusha e agora na Burgos-BH -, mas Soler entrou numa lista de luxo. No Tour de l'Avenir (nem sempre teve este nome) ganharam ciclistas que viriam a ser vencedores da Volta a França, casos de Miguel Indurain, Greg Lemond, Laurent Fignon, Felice Gimondi e Joop Zoetemelk. Nas edições mais recentes venceram Nairo Quintana, Miguel Ángel Lopez, Warren Barguil, Johan Esteban Chaves, Bauke Mollema... algumas das principais figuras do ciclismo actual.

Em 2017, Soler teve como destaque o terceiro lugar na Volta a Catalunha e mais cedo do que se esperaria, teve liberdade numa grande volta. Com Quintana já com o Giro e Tour feito e com Valverde fora de acção devido a lesão, a Movistar deixou os seus ciclistas livres para procurarem resultados pessoais na Vuelta. A expectativa sobre Soler foi enorme. O jovem espanhol bem tentou mostrar-se, mas a falta de experiência neste tipo de corrida também se fez notar. Ainda assim, foi algo que o influenciou positivamente, por tudo o que aprendeu sobre si próprio e sobre correr uma grande volta à procura de vitórias, logo na estreia.


(Fotografia: Facebook Paris-Nice)
Soler fez terceiro na Ruta del Sol já esta época, mas foi só uma indicação do que aí vinha. Por quatro segundos o espanhol tirou a amarela a Simon Yates no Paris-Nice. Soler teve dificuldades em acreditar no que estava a acontecer quando subiu àquele pódio. "Nunca tinha ganho uma corrida World Tour e para mim isto é um sonho", disse no final. É apenas o quarto espanhol a conseguir. Quem foi o primeiro? Pois claro, Miguel Indurain (1989 e 1990). Seguiu-se Luis Leon Sanchez em 2009 e Alberto Contador no ano seguinte. El Pistolero perdeu as edições de 2016 e 2017 por quatro e dois segundos, respectivamente (para Geraint Thomas e Sergio Henao). Soler inverteu a má sorte espanhola.

Entre ser o novo Indurain e o sucessor de Contador, enquanto Soler não ganhar o direito de ser tratado sem comparações (e já não deverá falta muito), o espanhol demonstra ter a capacidade de resistência do primeiro e o instinto matador do segundo. Aí está uma mistura que pode ser perfeita.

E agora?

Soler segue para a Volta à Catalunha, que começa na próxima segunda-feira. Até ao Paris-Nice, o espanhol não tinha a responsabilidade de alcançar grandes resultados, mas sim de trabalhar na sua evolução. A pressão das vitórias é para Alejandro Valverde, Quintana, Mikel Landa... A Movistar tem este equilíbrio ideal para os jovens ciclistas: tens aqueles que estão obrigados a obter resultados e há espaço para os outros ir aprendendo com os melhores. Contudo, Soler começa a entrar no "clube dos grandes". Na Catalunha irá estar ao lado de Valverde - vencedor em 2017 - e Quintana, que finalmente irá correr na Europa em 2018. Nem o próprio se atreverá a dizer que quer outro estatuto, mas na estrada, Soler poderá muito bem voltar a tê-lo, se a oportunidade aparecer.

Não tardará muito a falar-se onde irá encaixar Soler numa Movistar com tantos líderes, pois há que não esquecer Andrey Amador e Carlos Betancur que vão disputar o Giro. Foi uma excelente vitória no Paris-Nice e dependendo do que faça na restante temporada, esta "discussão" poderá ficar bem acesa para 2019.

Por enquanto a questão é mesmo qual será a grande volta escolhida para Soler este ano. Não está previsto para nenhuma. No Tour estará o todo poderoso trio Valverde-Landa-Quintana, pelo que Soler é provável que seja chamado para a Vuelta. No entanto, perante a forma que está a apresentar, seria excelente poder vê-lo já no Giro. Potencial para animar a corrida tem, e muito. Aliás, o que não falta a Soler é potencial. Este é o nome que tem tudo para ser dos mais mencionados na próxima década do ciclismo. E o melhor é que Soler quer continuar a encarar o que lhe surja sempre com um espírito de diversão. É assim que considera valer a pena trabalhar para estar ao mais alto nível.

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12 de março de 2017

No Paris-Nice repetiu-se o filme para Contador e para a Sky, com mudança no actor principal: o vencedor

(Fotografia: Facebook Paris-Nice)
O que aconteceu este domingo na última etapa do Paris-Nice deixou a sensação de déjà vu. Alberto Contador parece ter uma missão impossível, mas faz um daqueles ataques ao seu estilo provocando o pânico no líder, um homem da Sky, No entanto, depois de muito trabalhar, vê a vitória escapar por uns míseros segundos. E de nada adianta dizer que ficou feliz com o que alcançou. Ninguém acredita. Há um ano perdeu para Geraint Thomas por quatro segundos. Agora foram dois os que o separaram de Sergio Henao. Contador pode ficar satisfeito com a sua forma física, mas era impossível esconder no seu rosto a frustração por ter voltado a estar tão perto, mas no final, teve de assistir aos festejos de um rival. E por falar de rivalidade, só não se pode dizer que poderá ter nascido mais uma entre espanhóis porque a carreira de Contador não deverá ser muito mais longa, mas que a relação com David de la Cruz não vai ser de grande amizade, isso é quase certo. Mas já lá vamos.

A chamada corrida do sol não brilhou mais uma vez para Alberto Contador, ainda que já a tenha conquistado em 2007 e 2010. Sol também não se viu muito nuns primeiros dias de autêntico temporal e de baixas temperaturas. E o mau tempo, principalmente o vento, trocou as voltas ao espanhol e a Richie Porte. No entanto, o ciclista da Trek-Segafredo ainda se conseguiu manter na discussão, já ao da BMC restou lutar por uma etapa, que conseguiu. E atenção ao australiano, parece estar cada vez melhor e poderá ser um homem a ter em conta (e muito) para a Volta a França.

Mas o Paris-Nice teve outros destaques. Nos sprints, Arnaud Démare (FDJ) deixou um sério aviso que quer estar na luta para repetir a vitória de há um ano na Milano-Sanremo, monumento que se realiza no próximo sábado. André Greipel (Lotto Soudal) cumpriu, Sonny Colbrelli (Bahrain-Merida) conquistou a sua primeira vitória no World Tour e Sam Bennett (Bora-Hansgrohe) deu sinal à equipa que podem confiar nele. Simon Yates (Orica-Scott) caminha para um bom momento de forma, rumo à Volta a Itália, contudo, uma das grandes estrelas foi Julian Alaphilippe. O ciclista da Quick-Step Floors está passo a passo a tornar-se num super ciclista. Foi simplesmente brilhante na crono-escalada, mas acabou por não aguentar nas derradeiras etapas de montanha. Porém, o quinto lugar é mais uma excelente referência e agora a questão é: em que tipo de ciclista vai evoluir? É bom em corridas de uma semana, é bom nas clássicas como as das Ardenas e tem muito potencial para provas de três semanas. Com apenas 24 anos, Alaphilippe tem uma qualidade que deixa os franceses a sonhar alto. E com razão!

(Fotografia: Facebook Paris-Nice)
A vitória no Paris-Nice foi para Sergio Henao, pouco depois de se ter sagrado campeão colombiano. Há um ano fez um trabalho preponderante para "puxar" Geraint Thomas e assegurar que o britânico conquistava a corrida gaulesa. Desta feita, com Thomas no Tirreno-Adriatico, Henao foi o líder e se também sofreu nos primeiros dias, o colombiano aproveitou a oportunidade que lhe foi concedida pela Sky. Confessou que entrou um pouco em pânico quando Contador ganhou mais de um minuto de vantagem, mas explicou que se lembrou do que tinha acontecido na edição passada e que isso o motivou a não baixar os braços.

Aos 29 anos, Henao dá o sinal que não quer ser um esperança que nunca se confirmou. Sabe que onde está Chris Froome, nunca será líder, mas também sabe que pode conquistar mais vitórias. Henao chegou a ser suspenso pela equipa devido a irregularidades com o seu passaporte biológico no ano passado. O pior nunca se confirmou, mas Sergio Henao sempre demonstrou uma enorme ambição em colocar toda a sua qualidade na estrada e libertar-se de qualquer suspeita, colocando-se como um dos ciclistas de uma geração colombiana de luxo, liderada pelo inevitável Nairo Quintana. Vencer o Paris-Nice é uma afirmação dentro da Sky e Henao será mais um a pedir mais oportunidades em corridas de elevada importância.

Para a equipa britânica é também um triunfo muito relevante. Dado o momento conturbado que vive, com toda a suspeita sobre um pacote mistério dado a Bradley Wiggins, quando o ciclista estava na equipa, a conquista da Strade Bianche por intermédio de Michal Kwiatkowski e agora do Paris-Nice por parte de Sergio Henao, é uma espécie de regresso à normalidade, pelo menos a nível competitivo.

(Fotografia: Facebook Paris-Nice)
Quanto a Alberto Contador, ainda não foi desta que conquistou um triunfo pela sua Trek-Segafredo. Foi segundo em três etapas, na geral e na classificação por pontos. Ficou em terceiro na montanha. Na derradeira etapa do Paris-Nice, Contador foi batido pelo compatriota David de la Cruz. Mais do que a vitória, eram as bonificações que Contador tanto procurava. Somou seis segundos, além dos que ganhou na estrada. De la Cruz ficou com os dez da vitória na tirada. Contador ficou a dois de Sergio Henao na classificação geral...

A carreira de Alberto Contador não deverá ser muito mais longa. Se conquistar a Volta a França até poderá abandonar este ano. Caso contrário, Contador e De la Cruz não deveriam tornar-se grandes amigos, o que também não é exactamente novo entre ciclistas espanhóis. Não há nada a apontar a David de la Cruz. O ciclista encontrou estabilidade na Quick-Step Floors e depois de ter vencido uma etapa na Vuelta em 2016 e um top dez, este triunfo na derradeira tirada do Paris-Nice é a confirmação que Espanha não precisa de desesperar por ver as suas referências a aproximarem-se do fim de carreira sem terem substitutos. O talento e o potencial estão lá, agora é saber trabalhá-los e De la Cruz poderá tornar-se num ciclista muito interessante.

Quanto a portugueses, o único a participar na corrida francesa foi o campeão nacional José Mendes, que terminou no 98º lugar, a 1:28.54 horas. O ciclista da Bora-Hansgrohe tinha a função de ajudar o seu líder Jan Bárta, aproveitando também para preparar a sua estreia na Volta a Itália.




19 de junho de 2016

A noção que ganhou uma fama indesejada

(Fotografia: Flickr - Brian Townsley)
Simon Yates juntou-se à lista dos "embaraçados". Uma lista composta por ciclistas apanhados em casos de doping com contornos estranhos e muitas vezes ridículos. É o caso do britânico. Uma análise feita durante o Paris-Nice detectou uma substância utilizada num medicamento para a asma, que o médico da Orica-GreenEDGE deu a Yates... e esqueceu-se de avisar! Um médico  de uma equipa profissional, ciente de todos os problemas e desconfiança que afectam o ciclismo, ciente de como pode ser rigoroso o controlo anti-doping, esqueceu-se de alertar que um ciclista de uma equipa World Tour estava a tomar um produto com uma substância que está na lista das proibidas...

A terbutalina tramou Yates e o próprio admite que este caso de doping marcará a sua carreira. Em qualquer grande resultado que alcance, haverá sempre esta mancha no currículo de um ciclista visto como uma das grandes promessas britânicas. Poderá dizer-se que é injusto, ainda mais quando parece ter sido um "descuido" que nem foi da responsabilidade do corredor. Mas o "bife à Contador" acompanhará para sempre um dos grandes nomes da modalidade e até Rui Costa, quando se sagrou campeão do mundo, não se livrou de quem recordasse que já tinha tido um controlo positivo - em 2010 -, mesmo que tenha sido considerada uma dopagem involuntária. Por mais insignificante que possa ser, nenhum ciclista consegue apagar a suspeita depois de acusar positivo. Há sempre alguém que não deixará esquecer.

Foi precisamente desse tipo de dopagem involuntária de que Yates foi acusado. Por isso, a UCI optou por uma pena leve, de apenas quatro meses de suspensão. O suficiente para tirar Yates da Volta a França, onde deveria fazer dupla com o irmão gémeo, Adam, no ataque à geral. O castigo vigora até 11 de Julho.

"Haverá uma suspeita sobre o meu nome, nos resultados que alcancei e em glórias futuras", escreveu Simon Yates, que aos 23 anos mostra maturidade suficiente para saber que mesmo quanto tiver 33 anos, este controlo positivo será recordado. Sabe que ganhou uma fama indesejada. O próprio admite estar embaraçado e de como contribuiu, mesmo de forma involuntária, para mais uma situação de doping que tanto tem prejudicado a modalidade.

Quando a UCI divulgou que Simon Yates tinha acusado terbutalina, a Orica-GreenEDGE apressou-se a assumir a responsabilidade. Acreditando na versão da equipa australiana e que Yates de nada sabia e que a substância foi para tratar a asma, suspensão por doping involuntário acaba por ter um carácter de abrir os olhos ao ciclista em causa. Yates confiou no médico da equipa e é assim que deve ser. No entanto, num desporto tão escrutinado, o britânico aprendeu que ele próprio tem de controlar todos os aspectos da sua carreira ao mais pequeno pormenor. Mais do que nunca está proibido de ser alvo de outros "descuidos".

14 de março de 2016

Que indicações ficaram do Paris-Nice?

O Paris-Nice é uma das provas de uma semana que gera mais interesse, já que normalmente junta alguns dos grandes "voltistas". Não foi bem assim este ano. Dos três principais favoritos à vitória na Volta a França, só Alberto Contador esteve presente, com Chris Froome e Nairo Quintana a optaram por manterem-se longe da competição. Mas ainda assim, a prova francesa já permitiu tirar algumas ilações, seja de ciclistas a apontar ao Giro ou ao Tour. Já os que poderão aparecer nas clássicas, pouco se viu, com a excepção de Geraint Thomas que parte para esta fase da época extremamente motivado.

Alberto Contador em forma

O espanhol da Tinkoff tem sido do trio de favoritos ao Tour o que mais se tem mostrado neste início de temporada. Depois do pódio na Volta ao Algarve, Contador mostrou que estava no Paris-Nice para ganhar. E que exibição que fez quando chegaram as etapas decisivas no fim-de-semana. Atacou, contra-atacou e atacou mais um pouco. Reforma? Cada vez mais se deseja que não. Na última etapa, atacou a 50 quilómetros do fim, foi apanhado por Thomas e a Sky, voltou a fugir e por quatro segundos viu fugir a vitória na geral.

Além de Contador, também a Tinkoff parece estar mais ao nível do que o espanhol precisa, ao contrário do que aconteceu no ano passado, principalmente no Giro. Rafal Majka é um braço direito de luxo, ainda que na última etapa lhe tenha faltado as forças. Mas estamos apenas em Março. A contratação de Yuri Trofimov (ex-Katusha) pode ter parecido estranho, mas o russo acabou de mostrar que poderá ser muito importante nas montanhas.

Contador vai continuar a competir, com participações confirmadas na Volta a Catalunha e ao País Basco, antes de entrar num modo mais "discreto" na preparação rumo ao Tour.

A confirmação de Geraint Thomas e Sergio Henao

E vão duas provas de uma semana para o britânico. Sofreu (e muito) na última etapa, mas mostrou frieza durante a última descida, como no pormenor de ter um prato maior na bicicleta, já a pensar precisamente de ter de recuperar terreno para Contador após a subida. Poderá Thomas ser um ciclista para três semanas? O britânico da Sky será certamente um homem muito importante para ajudar um líder, neste caso Froome - ainda que não seja um Richie Porte, mas em 2015 já mostrou ser um gregário de luxo -, mas permanecem muitas dúvidas se terá capacidade para liderar numa grande volta. O próprio ciclista estará mais concentrado neste tipo de provas, de uma semana, e nas próprias clássicas. Será um ciclista a ter em conta para a Volta a Flandres e Liège-Bastogne-Liège.

Mas se há alguém que Thomas bem pode agradecer o triunfo é a Sergio Henao. O colombiano está claramente de volta ao seu melhor e quando o seu líder sofreu, Henao só faltou puxar com uma corda o britânico. E depois ainda teve aquele excelente trabalho de sacrifício na descide rumo a Nice. Sem Henao, Thomas dificilmente teria ganho o Paris-Nice.

Se Thomas será um braço direito muito importante para Froome, não será um Richie Porte. Poderá a Sky abdicar de Henao? O colombiano está escalado para o Giro, mas a continuar assim, será uma loucura deixá-lo de fora do Tour.

A inteligência de Rui Costa

Mais um top dez para o português. Equipa nem vê-la, praticamente, mas Rui Costa mostrou mais uma vez porque é um dos ciclistas mais inteligentes tacticamente no pelotão. Por sua conta para conseguir um bom resultado - de recordar que em 2015 foi quarto classificado, com o mesmo tempo que o segundo - Rui Costa manteve a calma quando tinha razões para entrar em pânico (quando o vento e a Sky provocou um corte no pelotão), nas subidas não entrou em loucuras e tentou ir com os melhores, manteve o seu ritmo quando Contador dava uns valentes "safanões" no grupo, acabou entre os melhores. Não foi o Rui Costa de 2015, mas o português vai mostrando que o nível de forma está a melhorar. Que venham as clássicas.

Richie Porte, o líder que a BMC procura?

Esta é uma corrida que o australiano muito gosta. Duas vitórias comprovam isso. Este ano quis mostrar que não foi só por estar numa super equipa como a Sky que conseguia ganhar. Porte esteve a bom nível no Paris- Nice. Bem no contra-relógio, mostrou-se forte nas subidas e discutiu a vitória até final. Ainda assim, é difícil ver em Porte um líder indiscutível na BMC. Irá à Volta a França, mas Tejay Van Garderen será o número um e Porte acabará com a função que tinha na Sky, o que poderá ser muito importante para o norte-americano. A BMC ganha certamente um plano B mais forte, caso Van Garderen volte a ter algum azar, ou não esteja no seu melhor.

Terá a Orica encontrado o seu voltista?

Sim... e não. Aos 23 anos Simon Yates não só revela ter um enorme potencial, como já o vai mostrando com bons resultados. Sétimo no Paris-Nice, Yates é claramente o ciclista que a Orica procura para as grandes voltas. No entanto, será difícil imaginar Yates alcançar algo de extraordinário na equipa australiana. Apesar das contratações de Rúben Plaza e Amets Txurruka, a Orica continua a ser uma equipa de clássicas e sprints. Não será surpresa ver Yates, mais cedo ou mais tarde, procurar outras equipas, a não ser que a Orica faça uma aposta mais forte em ciclistas, a pensar realmente em vencer uma grande volta. É um conhecido objectivo, mas veremos se o farão a tempo de segurar Yates.

Zakarin, o substituto de Rodríguez

O jovem russo foi uma das figuras do Paris-Nice: venceu uma etapa e ficou em quarto lugar. Já no ano passado Ilnur Zakarin tinha deixado indicações que a Katusha tinha o seu próximo ciclista para apostar nas grandes voltas. Venceu a Volta à Romandia e uma etapa no Giro, onde irá estar novamente este ano. Zakarin mostra grande potencial para as montanhas e de acompanhar os melhores. É de esperar que a Rússia volte a ter um ciclista a ter em conta para as grandes voltas, pelo menos, por agora, para lutar por um top dez, mas a Katusha certamente que terá planos ambiciosos para Zakarin, numa altura em que Rodríguez se aproxima do final da carreira.

Tom Dumoulin discreto

Para quem prepara o Giro, o holandês da Giant está ainda longe do seu melhor. Esteve bem no contra-relógio, mas falhou nas montanhas, passando de candidato ao pódio para fora do top dez. Porém, não se poderá dizer que o que aconteceu na Vuelta foi obra do acaso. Dumoulin não é ciclista de "explosões" (ao estilo Contador ou Aru), gosta de encontrar o seu ritmo e claro que tem no contra-relógio um ponte muito forte. Tem potencial, mas sofre do síndrome "falta de equipa". A Giant pensa mais em sprints e clássicas e claro que não ajuda ter perdido parte da equipa num atropelamento na pré-época. Ainda há tempo para Dumoulin apurar a forma para o Giro, mas dificilmente este holandês ficará na Giant por muito tempo se realmente quiser lutar pela geral de uma grande volta.

Tony Galopin para o Tour

Este ciclista francês vai impressionando pela forma como tem melhorado as suas características de trepador. Galopin aponta claramente a conseguir mais no Tour do que estar com a camisola amarela ou vencer uma etapa. Este ano no Paris-Nice não esteve na luta pela vitória, mas com mais ou menos sofrimento manteve-se com os melhores (algumas vezes ao lado de Rui Costa). Fica a ideia que o ciclista da Lotto Soudal quer piscar o olho a um possível top dez no Tour. Ainda terá que evoluir mais, mas as perspectivas são animadoras e está claramente a subir cada vez melhor.

O que esperar de Michael Matthews

Ainda não tinha competido este ano, mas meteu todos a falar dele num instante. Venceu o contra-relógio e mais uma etapa. Andou de amarelo até que as montanhas acabaram com o seu momento no Paris-Nice. Matthews é visto como um sprinter, mas demonstra ter qualidade para ser também um ciclista para as clássicas, não esquecendo que consegue ainda ultrapassar algumas subidas mais difíceis. Estará na Milano-San Remo e na Amstel Gold Race, mas o australiano poderá no futuro aparecer noutras provas de um dia como candidato às vitórias. Será aposta para o Tour e certamente que quererá discutir a camisola verde com Peter Sagan.

A neve prejudicou os melhores

A anulação da etapa que traria as primeiras dificuldades para os favoritos poderá ter tirado alguma da emoção à prova. Mas o destaque vai para o facto de a organização ter tido em conta que não havia condições, colocando em prática o protocolo do tempo extremo. Ainda houve quem colocasse a questão se não poderia ter existido um percurso alternativo, ou se a etapa até não deveria ter sido cancelada mais cedo. Esta regra ainda tem algumas arestas a limar, mas a julgar pelo o que se passou no fim-de-semana, emoção não faltou neste Paris-Nice, muito graças a um espectacular Alberto Contador.

8 de março de 2016

Rui Costa abandonado

O início de 2016 está a comprovar o que desde 2014 tem sido penoso de ver: Rui Costa é um líder solitário. Este ano está ainda mais abandonado na Lampre. Sem Nelson Oliveira, o seu fiel escudeiro nos últimos dois anos, Rui Costa parece estar praticamente por sua conta, o que torna o seu grande objectivo desde que saiu da Movistar cada vez mais difícil. O campeão do mundo de 2013 (sim, a Lampre contratou um campeão do mundo, mas demora a dar-lhe a equipa que merece) continua focado em concretizar o sonho de um top dez na sua prova de eleição: a Volta a França. Como o vai fazer? Na Lampre será preciso um super Rui.

Desde que chegou à Lampre que o Tour não correu bem ao ciclista português. Duas infelicidades, mas ainda assim deu para perceber o quanto Rui Costa ficava isolado no momento em que Nelson Oliveira acabava o seu trabalho. E o Nelson merece todo o mérito pela lealdade que mostrava ao líder e, por isso mesmo, merece ainda mais que lhe tenha sido proporcionada a oportunidade de evoluir as suas capacidades natas, que o podem levar as grandes vitórias, além de, naturalmente, apoiar o seu líder. Curiosamente foi para a Movistar, precisamente a equipa onde Rui Costa se tornou num dos homens mais respeitados do pelotão internacional.

Na equipa espanhola Rui Costa evoluiu até se tornar num dos melhores a nível táctico. Os seus ataques em momentos perfeitos valeram-lhe os grandes triunfos na Volta a França e também nos Mundiais (neste caso também ajudou a forte ponta final frente a Rodríguez). Era óbvio que o português iria querer mais do que simplesmente trabalhar para Valverde ou Quintana. As vitórias de etapas ou em algumas provas de um dia não eram suficientes para um ciclista ambicioso como o Rui Costa.

A escolha da Lampre foi uma surpresa e de imediato levantou muitas dúvidas. Damiano Cunego, Filippo Pozzato e um jovem promissor Diego Ulissi eram três das figuras da equipa. Mas estariam eles dispostos a sacrificar o seu lugar de destaque? No final de Janeiro de 2014 chegou Chris Horner, que ostentava uma histórica vitória na Volta a Espanha. Mas o norte-americano nunca foi um dos braços direitos que Rui Costa precisava. Deu-lhe uma ajuda numa etapa do Tour e pouco mais. Longe de ser o apoio esperado pelo veterano.

Apesar de nem tudo estar a correr bem na Lampre, o português renovou até 2016. Porém, as primeiras impressões do Paris-Nice - que está a decorrer - tornam as perspectivas para este ano assustadoras. O Rui Costa é visto demasiadas vezes no pelotão sem nenhum companheiro por perto. Na primeira etapa quase perdeu tempo devido a um corte forçado pela Sky, que aproveitou o vento lateral para "partir" o pelotão. No seu blog, o ciclista português - o actual campeão nacional - explicou o que aconteceu: "Quando o tempo começou a melhorar, resolvemos tirar algum excesso de roupa, descaindo no pelotão até aos carros, a cerca de 50km para a meta. Nesse momento a Sky resolveu acelerar o ritmo com o objectivo de quebrar o grupo e ficarmos para trás."

E a pergunta é: porquê que o líder da equipa descaiu no pelotão para tirar roupa, ainda mais a 50 quilómetros do final e com a questão do vento a ter em conta? Um Contador, um Thomas, um Porte, um Dumoulin, não recuaram certamente quando quiseram tirar o excesso de roupa. Alguém das suas equipas fez esse trabalho.

O que parece ser um pequeno pormenor, deixa claro que os problemas da Lampre continuam. Rui Costa está demasiado desprotegido. O que se esperar do português em 2016? Com a sua inteligência táctica, Rui Costa é sempre um ciclista temido, ainda mais porque mesmo sem ter alguém da equipa a protegê-lo, consegue ter bons posicionamentos, pelo que é sempre candidato a vencer em algumas provas. Mas sem um bom apoio da equipa ficará sempre a sensação que o português fica aquém daquilo que é capaz.

Amstel Gold Race, Flèche Wallonne, Liège-Bastogne-Liège são as clássicas que se seguem depois do Paris-Nice e todas elas são provas nas quais Rui Costa é um nome a ter em conta. E claro, mesmo algo desamparado de pelo menos um fiel escudeiro, o quarto lugar no Paris-Nice de 2015 é algo que certamente quer melhorar. Depois do susto da primeira etapa, que venham as montanhas.

Mas em 2016 haverá outra grande questão a responder, além da dúvida se Rui Costa conseguirá lutar por o top ten no Tour. O contrato com a Lampre acaba este ano. Vai renovar ou estará na altura de mudar, podendo eventualmente ter de sacrificar o posto de líder? A época ainda está a começar, mas uma coisa é certa: equipas do World Tour estarão atentas ao português, um ciclista que é sinónimo de trabalho, dedicação e resultados.

5 de março de 2016

Ciclismo e patrocinadores: quando uma marca explora o potencial publicitário

Rentabilizar um patrocínio a uma equipa ou a uma prova de ciclismo é um desafio. Afinal não se vendem bilhetes, nem existe outro processo que signifique retorno imediato do dinheiro investido. Porém, apesar da crise que tantas dificuldades tem criado a esta modalidade, há quem veja no ciclismo uma excelente forma de publicitar a sua marca. Em países como Portugal, o ciclismo está em modo de sobrevivência há bastantes anos, mas noutros as empresas trabalham o ciclismo como uma das principais formas de publicidade.

É o caso da Bélgica. A Lotto Soudal é o mais recente caso de como uma empresa percebe como os ciclistas podem ajudar a rentabilizar uma marca. Para o Paris-Nice, a equipa anunciou que ia mudar de nome e equipamento. A Soudal viu a "ocasião perfeita" para fazer chegar ao público, não só francês, mas em vários países um pouco por todo o mundo uma das suas marcas.

No Paris-Nice e apenas no Paris-Nice a equipa será a Lotto Fix All. A marca pertence à Soudal que optou por esta mudança. Ponto importante: a UCI permite que as equipas alteram uma vez na temporada o equipamento. Em vez do tradicional vermelho, as camisolas serão brancas e cinzentas. A UCI também terá autorizado que o carro tenha o logotipo da Fix All.

"Esta é uma ocasião perfeita para colocar um dos nossos produtos na ribalta", explicou o CEO da Soudal, Dirk Coorevits. Uma visão que infelizmente não é partilhada por mais. 




Além de este tipo de manobras publicitárias - e não é a primeira vez que a Lotto recorre a este esquema -, existe também o acesso aos ciclistas para dar a cara pelas marcas. Neste caso específico, Tony Gallopin foi o escolhido para o anúncio, mas também nas redes sociais os ciclistas têm publicitado a mudança. Alguns com humor, como Andre Greipel.


Hoje em dia a exposição mediática vai muito além da televisão, com a internet e principalmente as redes sociais a serem muito aproveitadas. Os ciclistas são cada vez mais super estrelas com milhares de seguidores no Facebook, Twitter ou Instagram. Um enorme potencial publicitário.

Claro que os ciclistas ficam sujeitos a fazer anúncios que, se calhar, nem sempre se orgulham. Afinal é difícil esquecer Marcel Kittel e o champô Alpecin e que tantas paródia gerou na internet. Mas há que dizer que dificilmente haverá alguém melhor que o alemão (que entretanto mudou de equipa) para publicitar um champô... bom, talvez agora Peter Sagan.