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22 de dezembro de 2019

Rui Costa confirmado na Algarvia e há mais novidades

(Fotografia: © PhotoFizza/UAE Team Emirates)
Com o primeiro estágio para preparar 2020 concluído ou a concluir antes do Natal, os ciclistas começam a anunciar os seus calendários. Pelo menos a primeira fase da época. E não demorou a chegar boas notícias à Volta ao Algarve. Rui Costa estará mesmo de regresso seis anos depois, mas outros dois nomes de peso também vão estar presentes na corrida do sul do país. Philippe Gilbert estará acompanhado por um belga que vai trocar a habitual presença na Ruta del Sol, em Espanha, por Portugal: Tim Wellens.

Rui Costa já tinha avançado a forte possibilidade de regressar à Algarvia numa entrevista ao Volta ao Ciclismo. A confirmação chegou após o estágio da UAE Team Emirates. A última presença foi quando envergava a camisola de campeão do mundo. Em 2014 esteve na luta pela vitória, sendo segundo em três etapas, terminando a geral na terceira posição, a 32 segundos de Michal Kwiatkowski, com Alberto Contador a também subir ao pódio. Rui Costa conquistou a classificação dos pontos. Desde então que o português de 33 anos tem andando mais longe do seu país nas primeiras corridas da época. Médio Oriente, Argentina e Austrália foram as escolhas recentes.

E em 2020 até vai começar longe, na Volta à Arábia Saudita (de 4 a 8 de Fevereiro), mas ficará depois pela Europa. O ciclista anunciou nas redes sociais que após a Algarvia (de 19 a 23 de Fevereiro), tem previstas as presenças na Volta à Catalunha (23 a 29 de Março), Volta ao País Basco (6 a 11 de Abril), Liège-Bastogne-Liège (26 de Abril) e Volta à Romandia (de 28 de Abril a 3 de Maio). Por esclarecer ficam as grandes voltas. Rui Costa tem como um dos principais objectivos de 2020 os Jogos Olímpicos de Tóquio. Como o ciclista explicou na entrevista ao Volta ao Ciclismo, iria ser analisada a opção correcta para chegar na melhor forma à corrida japonesa. E como apenas seis dias separam o final do Tour da prova dos Jogos, não ir a França, ou não terminar o Tour seriam hipóteses a ponderar.

A UAE Team Emirates anunciou os seus líderes para as grandes voltas. A colocação de Rui Costa ainda não foi conhecida. A saber, para o Giro foram escolhidos Davide Formolo, Alexander Kristoff e Diego Ulissi; para o Tour, Tadej Pogacar, Fabio Aru e Fernando Gaviria; para a Vuelta, David de la Cruz, Davide Formolo e Jasper Philipsen.

Pogacar foi o vencedor da Algarvia em 2019, mas é possível que não regresse para tentar uma segunda vitória. Com a Volta aos Emirados Árabes Unidos a começar no último dia da Algarvia, o esloveno deverá estar presente nesta corrida. A equipa corre em casa e a ascensão meteórica do ciclista esta última época faz dele uma das estrelas da UAE Team Emirates.

Rui Costa poderá assim estar na Volta ao Algarve como líder e esta presença garante dois campeões do mundo para a 46ª edição. Philippe Gilbert (conquistou o título no ano antes do português, em 2012) regressa à Algarvia, agora como ciclista da Lotto Soudal. É também um regresso, neste caso à equipa, pois o belga deixou a Deceuninck-QuickStep para ingressar numa estrutura na qual entre 2009 e 2011 viveu alguns dos melhores momentos da sua carreira. Aos 37 anos assinou por três e vai no Algarve começar a preparar o ataque à Milano-Sanremo, o único monumento que lhe falta no currículo.

Com Gilbert virá Tim Wellens. O belga tem sido uma crónica presença na Ruta del Sol, corrida espanhola que se realiza nas mesmas datas que a Algarvia. Tem tido sucesso, ganhando etapas e inclusivamente a geral, em 2018. No entanto, parece querer mudar de ares e confirmou a vinda a Portugal. É um ciclista que gosta de andar bem quase o ano todo, pelo que é desde já mais um candidato à vitória na geral.

Além de Rui Costa, Gilbert e Wellens, também Vincenzo Nibali e Bauke Mollema (ambos da Trek-Segafredo) está confirmados na Volta ao Algarve. A expectativa continua sobre Greg van Avermaet. Um dos responsáveis da equipa da CCC avançou com a hipótese do campeão olímpico de 2016 optar pelo sul de Portugal, mas ainda não foi confirmado oficialmente, tal como Michal Kwiatkowski. O polaco adiantou há cerca de um mês que o seu arranque de temporada deveria ser idêntico ao que tem acontecido, o que incluiria o Algarve. Porém, nem a Ineos ainda confirmou a presença na corrida portuguesa.

A Astana estará presente e Miguel Ángel López é hipótese, assim como Lennard Kämna da Bora-Hansgrohe e Nills Politt, da Israel Start-Up Nation, segundo o ProCyclingStats. A Lotto Soudal também poderá trazer outro dos reforços bem conhecido por cá: John Degenkolb, que já venceu na Volta ao Algarve. Os gémeos Oliveira (ou pelo menos um deles) também são hipótese para estar ao lado do compatriota. Contudo, nenhum destes nomes está confirmado oficialmente. Há que esperar, mas nas próximas semanas o pelotão da Algarvia irá começar a ganhar cada vez mais forma.

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2 de dezembro de 2019

"Talvez seja das provas mais duras em que vou representar o meu país"

(Fotografia: © Federação Portuguesa de Ciclismo)
Rui Costa não só está com os olhos postos no futuro próximo, como até já fez uma viagem a Tóquio para começar a prepará-lo muito bem. No entanto, houve tempo para regressar um pouco ao passado e aquele 29 de Setembro de 2013, dia em que o desporto português viveu um dos seus momentos mais importantes, foi recordado e originou mais uma homenagem. É a data marcante em que Rui Costa sagrou-se campeão do mundo. Na gala dos 120 anos da Federação Portuguesa de Ciclismo, o poveiro foi um dos destaques e não escondeu a emoção de rever as imagens de quando bateu ao sprint o espanhol Joaquim Rodríguez. No entanto, falou-se do futuro próximo e de como os Jogos Olímpicos estão entre as prioridades do ciclista, que inclusivamente está a ponderar se fazer a sua querida Volta a França é ou não a melhor opção a pensar em Tóquio2020.

"Tóquio é um bom objectivo. Vão ser uns Jogos muito complicados. Muito duros. Talvez seja das provas mais duras em que vou representar o meu país. É um percurso de 240 quilómetros com quase cinco mil metros de desnível positivo. Isso demonstra a dificuldade que vai ter a corrida e isso requer que se esteja na melhor condição física", realçou Rui Costa ao Volta ao Ciclismo. E o ciclista sabe bem do que está a falar, pois viajou com Nelson Oliveira (a aposta para o contra-relógio e preciosa ajuda para a prova de estrada) e o seleccionador José Poeira para fazer o reconhecimento.

A corrida olímpica está marcada para 25 de Julho, ou seja, seis dias após o final da Volta a França. Esta viagem foi assim muito importante para que Rui Costa pudesse perceber não só o que o espera, mas para melhor estudar o seu calendário para chegar a Tóquio na melhor forma. Fica claro como conquistar uma medalha olímpica (feito alcançado por Sérgio Paulinho em Atenas2004 - prata) é algo que vai concentrar muita da atenção de Rui Costa. "Ainda não sei ao certo que tipo de calendário vou fazer a nível de preparação para os Jogos, mas qualquer decisão vai ser certamente a pensar na melhor trajectória para chegar a Tóquio em boa condição física", salientou. E acrescentou: "No fundo, acho que uma coisa que me está a deixar talvez um pouco indeciso é se vou fazer o Tour ou não para chegar na minha melhor condição. Esse será o ponto que terei de reflectir bem."

"Acredito que o Tour seria bom [como preparação], mas nunca para o terminar"

Paixão vs razão. Ou seja, de um lado está o conhecido gosto que o português, de 33 anos, tem pela Volta a França, mas por outro está o facto de não haver muito tempo de recuperação entre o Tour e os Jogos Olímpicos. E há que contar com os quase 10 mil quilómetros que separam as duas cidades e a diferença horária de mais oito horas na cidade japonesa, comparativamente com Paris. Rui Costa realçou como será necessário um maior período de adaptação precisamente por essa última razão, mas não significa que irá excluir a Volta a França do seu calendário em 2020: "Acredito que o Tour seria bom [como preparação], mas nunca para o terminar."

A decisão será feita no próximo estágio da UAE Team Emirates, com a Volta a Itália a ser uma hipótese que não estará afastada. Certo será a aposta nas clássicas que tanto aprecia, com o monumento da Liège-Bastogne-Liège, no qual já fez pódio, sempre entre as principais preferências: "É uma das clássicas que as pessoas que me conhecem sabem que gostava de ganhar e para o ano não vai fugir aos meus objectivos. Este ano devido a uma queda que tive na preparação para as clássicas, atrapalhou-me a condição e a minha forma física veio a sair depois na Romandia." A corrida Suíça foi dos seus melhores momentos de 2019, sendo segundo em duas etapas e repetindo essa posição no final, atrás de uma das grandes figuras da época: Primoz Roglic (Jumbo-Visma).

Questionado se estaria a perder protagonismo na UAE Team Emirates, Rui Costa recordou como tem sido difícil ter temporadas sem percalços, com a de 2019 a ficar marcada com o acidente com um camião durante um treino, em Março. "Eu acredito que quando se faz uma certa preparação para certas competições, para se chegar nas melhores condições aos nossos objectivos, requer que até lá tudo corra bem. Muitas vezes, ou por doença ou por uma queda, não chegamos nas melhores condições. Nos últimos anos isso tem acontecido muito. Mas pronto, é passado. Tenho uma nova temporada e estou já a prepará-la. O que quero é definir os meus objectivos e prepará-los da melhor maneira", afirmou.

E será que essa preparação vai passar pela Volta ao Algarve? Desde 2014, quando vestia a camisola do arco-íris, que Rui Costa não inclui a Algarvia nos seus planos: "Possivelmente o próximo ano pode ser o meu regresso à Volta ao Algarve. Gostava muito. Ainda não sei o meu calendário, mas acredito que em 2020 possa ser uma das provas que irá estar no meu calendário." Há que esperar pela confirmação oficial, não esquecendo que a UAE Team Emirates é uma das sete equipas World Tour já confirmadas na corrida.

"[Os gémeos Oliveira] são jovens com muito talento. Certamente que na estrada vão dar um salto de qualidade muito maior"

É um regresso desejado para os adeptos portugueses, que ainda recentemente elegeram a sua vitória em Florença em 2013 como um dos oito momentos mais importantes do desporto nacional. A votação online realizada pelo jornal Record deu origem a uma exposição no NewsMuseum, no Centro Histórico de Sintra, em que a conquista de Rui Costa surge ao lado do golo de Éder que deu a Portugal o título europeu de futebol em 2016 e as medalhas olímpicas de ouro na maratona de Carlos Lopes (1984) e Rosa Mota (1986), por exemplo.

Rui Costa foi um dos quatro ciclistas homenageados pela Federação Portuguesa de Ciclismo, na gala dos 120 anos que decorreu no último sábado, no Fórum Lisboa. O nome do poveiro surgiu ao lado de José Bento Pessoa, Alves Barbosa e Joaquim Agostinho. "São nomes de peso do ciclismo português, que deram muito ao país. São motivo de orgulho para todos nós. Um exemplo para esta nova geração. Sinto-me muito feliz com este reconhecimento e é mais um motivo de força para continuar a fazer o meu trabalho diariamente", afirmou.

No vídeo que recordou a história do ciclismo nacional focado nestas figuras e sem esquecer José Maria Nicolau, Alfredo Trindade, Ribeiro da Silva, ou mais recentemente, Sérgio Paulinho e José Azevedo, entre outras, o momento da conquista do Mundial de 2013 finalizou as imagens, recordando as emotivas palavras de Rui Costa após a vitória. "São sempre imagens muito giras... Boas recordações. Foi dos momentos mais altos da minha carreira, um momento lindo com a camisola de Portugal, por isso, para mim diz tudo. Foi um orgulho enorme ter vencido o campeonato do mundo pelo nosso país", disse, agradecendo ainda o reconhecimento da Federação Portuguesa de Ciclismo.

Mas depois de se celebrar o passado, é para o futuro que se olha e ao seu lado na UAE Team Emirates, Rui Costa tem dois dos ciclistas portugueses de quem muito se espera: os gémeos Oliveira. E não tem dúvida que vão ser apostas importantes na equipa: "São jovens com muito talento. Deu para ver pelos resultados que obtiveram na pista e certamente que na estrada vão dar um salto de qualidade muito maior. Este ano já deu para ver que, principalmente o Rui, demonstrou ter evoluído muito até ao final da temporada. O Ivo teve um acidente que lhe dificultou os seus objectivos, mas tanto um como o outro são talentos muito importantes para Portugal e a equipa aposta muito neles. Tanto que tiveram um contrato de três anos e essa preparação com ambos vai ser feita da melhor maneira. Certamente que no próximo ano vão ser cartadas bem importantes."

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»»Um fenomenal Pogacar leva UAE Team Emirates a um nível mais alto««

27 de novembro de 2019

Um fenomenal Pogacar leva UAE Team Emirates a um nível mais alto

(Fotografia: © João Fonseca Photographer)
Se na Ineos se diz que nasceu uma das próximas grandes figuras do ciclismo mundial, na UAE Team Emirates surgiu outra. O colombiano Egan Bernal, da equipa britânica, já tem a sua Volta à França, apenas no seu segundo ano no World Tour, mas também sabe que há uma potencial rivalidade pronta para assumir destaque na modalidade com um esloveno. Tadej Pogacar é puro talento e não perdeu tempo na sua época de estreia ao mais alto nível a conquistar grandes vitórias. E a primeira que não se esquece, foi na Volta ao Algarve.

Numa época em que a UAE Team Emirates investiu muito na contratação de Fernando Gaviria, que inclusivamente quebrou contrato com a Deceuninck-QuickStep para seguir o projecto e o dinheiro que lhe foi oferecido, acabou por ser um jovem ciclista acabinho de chegar a "roubar" quase toda a luz da ribalta, enquanto Gaviria se foi apagando entre os sprints muito aquém e uma lesão que o manteve afastado muito tempo, inclusivamente do Tour.

Esta é uma equipa que está em plena fase de mudança de mentalidade. Depois de tomar conta da antiga Lampre-Merida no final de 2016, a estrutura, agora do Médio Oriente, apostou mais em nomes já com provas dadas, aproveitando Rui Costa, que já estava na equipa, e contratando ciclistas como Daniel Martin, Alexander Kristoff e Fabio Aru. Porém, não foi alcançado o esperado a nível de triunfos e o director espanhol Joxean Fernández Matxin fez com que a equipa, enquanto tentava tirar o melhor deste trio e de Rui Costa, olhá-se para uma nova geração.

2019 foi a primeira amostra de como o trabalho está a ser feito e com Tadej Pogacar a ser simplesmente fenomenal, mas sem esquecer um Jasper Philipsen, um "licenciado" da Hagens Berman Axeon, que também esteve em destaque, além dos bons sinais dados pelo português Rui Oliveira. O irmão, Ivo, ficou com a afirmação adiada devido a uma queda gravíssima num treino, que o manteve afastado cerca de seis meses.

Daniel Martin - que está de saída para a Israel Cycling Academy - lutou contra a pressão que colocou em si próprio e que o afastou de melhores exibições; Aru foi operado à artéria ilíaca na perna - problema que levou Nuno Bico a acabar a carreira - e apesar de se ter comprometido a aparecer a bom nível na Vuelta, nem a terminou; Kristoff foi ganhando, mas são notórias as crescentes dificuldades em disputar sprints com as principais figuras. Mas houve um Tadej Pogacar, tímido e discreto fora da bicicleta, mas de enorme irreverência nas corridas.
Ranking: 4º (11765,33 pontos) 
Vitórias: 29 (incluindo três etapas na Vuelta e uma no Giro, a Volta ao Algarve, Volta à Califórnia, Volta à Noruega e Volta à Eslovénia) 
Ciclista com mais triunfos: Tadej Pogacar (8)
Com Gaviria a abandonar o Giro - venceu uma etapa, após a desclassificação de Elia Viviani - devido à lesão no joelho que o limitaria praticamente toda a temporada, foi no outro jovem, o estreante, que a UAE Team Emirates encontrou a fonte para uma boa época e o início da afirmação desejada entre as melhores equipas do mundo. O objectivo de estar entre as cinco melhores está cumprido, agora vai olhar para o top três e claro, com vontade de destronar a Ineos.

Mas para concretizar essa vontade, o necessário é elevar Pogacar ao próximo nível. O esloveno, de apenas 21 anos, deixou de ser uma promessa logo na Volta ao Algarve quando ganhou categoricamente no Alto da Fóia, segurando a geral até final. Depois foi mostrar toda a sua classe na Volta à Califórnia, tendo antes ganho a juventude na Volta ao País Basco. Porém, foi depois do que fez na Vuelta que Pogacar se transformou num ciclista que ninguém menosprezará em 2020.

Venceu três etapas, a juventude e ainda foi terceiro na geral. Além dos números, as exibições foram entusiasmantes. E nem era suposto estrear-se em grandes voltas em 2019! Não tem medo de atacar de longe, não tem receio de enfrentar sem inibições ciclistas de maior experiência. É inteligente tacticamente, completo tecnicamente, pois além de ser um excelente trepador, defende-se muito bem no contra-relógio. É impossível não pensar de como será ver um frente-a-frente entre Egan Bernal e Tadej Pogacar.

Pode parecer redutor falar da época da UAE Team Emirates quase exclusivamente na perspectiva de Pogacar, mas os seus resultados fizeram muito a diferença, enquanto ciclistas de maior estatuto estiveram abaixo das expectativas. Aru, por exemplo, vai ter um ano fulcral se quiser não só manter estatuto, como se procurar manter-se na equipa.

Mas refira-se como Jan Polanc andou de camisola rosa na Volta a Itália e de como Diego Ulissi - outra das figuras que estava na Lampre-Merida, tal como Rui Costa - continua a deixar sempre uma pequena frustração por tanto conseguir ser um ciclista capaz de discutir grandes corridas, como um que desaparece no extenso pelotão internacional.

Quanto aos portugueses, Rui Costa teve alguns bons momentos, como foi o caso na Volta à Romandia (segundo na geral) e, como tem sido normal, no final de temporada, com um 10º lugar nos Mundiais de Yorkshire. No entanto, não restam dúvidas de como está a perder estatuto e apesar de nova renovação de contrato, o seu papel será cada vez mais de apoio às figuras emergentes como Tadej Pogacar, sendo que a experiência do poveiro será essencial num grupo cada vez mais jovem desta UAE Team Emirates.

A estreia de Rui Oliveira no World Tour, outro "licenciado" da Hagens Berman Axeon, foi muito positiva, estando a transformar-se num ciclista de trabalho de muita qualidade. Ao lado de Jasper Philipsen, por exemplo, foi importante em alguns dos bons resultados deste sprinter belga, também com talento para as clássicas.

Já Ivo iniciou o seu regresso à competição na recta final da temporada e agora é aguardar que possa recuperar a sua melhor forma, tanto para se poder afirmar na estrada ao mais alto nível, como a pensar no apuramento de Portugal para os Jogos Olímpicos na vertente de pista, sendo os gémeos Oliveira elementos importantes para garantir este feito inédito.

E por falar de jovens na UAE Team Emirates, vão chegar mais uns muito prometedores: Brandon McNulty (21 anos, trepador da Rally UHC Cycling) e Mikel Bjerg (21, tricampeão mundial de contra-relógio de sub-23), com o italiano Alessandro Covi (21, Colpack) e o colombiano Andrés Ardila (20, EPM Scott) a serem mais dois ciclistas com qualidades de trepadores, com Covi a também se adaptar bem a algumas clássicas.

David Formolo (Bora-Hansgrohe), David de la Cruz (Ineos) e Joe Dombrowski (EF Education First) são contratações para equilibrar com a muita juventude, sem esquecer o veterano de 36 anos Max Richeze (Deceuninck-QuickStep), que se espera que venha a ser o líder do comboio que Gaviria deseja, sendo um reencontro depois de terem sido uma dupla de sucesso na equipa belga.

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18 de novembro de 2019

Sonho olímpico para dois portugueses

Nelson Oliveira vai à procura da medalha no contra-relógio
(Fotografia: Federação Portuguesa de Ciclismo)
É oficial. Portugal vai poder estar representado nos Jogos Olímpicos de Tóquio por dois ciclistas, tanto na prova de estrada, como no contra-relógio. Rui Costa e Nelson Oliveira são os candidatos naturais a serem seleccionados por José Poeira, em condições normais. O difícil percurso de 234 quilómetros com quase cinco mil metros de acumulado será o objectivo do poveiro, enquanto o ciclista de Anadia tem os olhos postos na sua especialidade do esforço individual e até pensa em alterar a sua época para chegar mais forte aos Jogos.

Serão 44,2 quilómetros muito complicados. Mesmo com Nelson Oliveira a preferir terrenos menos planos, o percurso do contra-relógio de Tóquio será difícil e imprevisível. Oliveira irá para os seus terceiros Jogos, tendo sido 18º em Londres (2012) e sétimo no Rio de Janeiro (2016). Aos 30 anos está mais do que consagrado entre os melhores desta vertente do ciclismo, mas ainda persegue uma medalha ou nos Jogos ou nos Mundiais, nunca esquecendo que ganhou a prata em 2009, enquanto sub-23, nos Campeonatos do Mundo realizados em Mendrisio, Suíça.



A Volta a França tem estado sempre no plano de temporada do português - por vezes não foi cumprido, principalmente devido a quedas mais ou menos graves nas clássicas -, mas em 2020, com menos de uma semana a separar o final do Tour da prova de estrada dos Jogos, Nelson Oliveira não se importaria de regressar ao Giro - grande volta que fez em 2012 e 2013 - e depois ir à Vuelta. Apesar do principal objectivo de Oliveira ser o contra-relógio, os dois eleitos pelo seleccionador farão as duas provas em Tóquio. A de estrada está marcada para dia 25 de Julho (o Tour termina a 19), enquanto o contra-relógio, para homens e mulheres, realiza-se a 29. A 26 será a prova em linha das senhoras, que não terá representantes portuguesas.

Perante as muitas mudanças entre entrada e saída de ciclistas na equipa de Oliveira, só no estágio de Dezembro o corredor ficará a saber qual o plano delineado pela Movistar, mas não restam dúvidas de como já pensa em preparar a sua temporada de forma a tentar chegar a Tóquio o melhor possível para lutar por uma medalha.


Se Nelson Oliveira não tem à espera uma missão fácil, ainda assim depende dele próprio. Já Rui Costa só contará com a ajuda precisamente do compatriota, enquanto selecções como Itália, Holanda, França, Espanha, Colômbia e Bélgica levarão cinco ciclistas, o máximo permitido (no contra-relógio são dois). Serão 234 quilómetros que de planos pouco têm, com 4865 metros de acumulado.



Também ainda não são conhecidos os planos para Rui Costa para 2020 na UAE Team Emirates, sabendo que também este ciclista, campeão do mundo em 2013, gosta de dar preferência ao Tour. Em 2010, no Rio de Janeiro, Rui Costa foi 10º e quatro anos antes foi 13º.

Oliveira não é o único que prefere mudar o seu calendário habitual para melhor encaixar os Jogos Olímpicos no planeamento. Vincenzo Nibali, por exemplo, não quer ir ao Tour. Mas há também corredores que não estão a ver qualquer problema em ter muito pouco tempo de recuperação entre a grande volta e os Jogos Olímpicos, tendo ainda em conta a longa viagem e o diferente fuso horário. São mais nove horas na cidade japonesa do que em Portugal Continental. Tom Dumoulin e Alejandro Valverde poderão ser dois ciclistas que vão optar por esse calendário, mas ainda não está confirmado.

E nunca é de mais recordar que Portugal conta com uma medalha olímpica no ciclismo. Em Atenas 2004, um jovem talento chamado Sérgio Paulinho conquistou a prata, numa corrida ganha por uma das grandes figuras da modalidade, Paolo Bettini, com Axel Merckx a ficar com o bronze.

Poderão haver mais ciclistas portugueses nos Jogos Olímpicos de Tóquio, pois na pista luta-se por uma qualificação inédita nesta vertente, nas disciplinas do omnium e madison. Na pista, Portugal poderá estar também representado no feminino, pois Maria Martins tem feito grandes prestações no omnium.

Neste link pode confirmar a lista oficial de vagas divulgada pela UCI.

4 de outubro de 2019

Rui Costa renova e dará experiência a uma equipa que aposta forte na juventude

(Fotografia: © Bettiniphoto/UAE Team Emirates)
"A minha filosofia é acreditar nos atletas antes de eles se tornarem campeões. É assim que se fazem campeões." As palavras são de Joxean Fernández Matxin, um dos mais prestigiados directores desportivos e que durante três anos foi um olheiro de luxo para a Quick-Step. Na UAE Team Emirates, a sua apetência para descobrir e desenvolver jovens talentos começou a ser mais visível no o plantel desta temporada e vai continuar em 2020. Porém, manter ciclistas experientes é essencial para o equilíbrio de uma equipa que quer estar entre as melhores em pouco tempo. Rui Costa vai continuar por mais duas temporadas, num anúncio que contou ainda com a contratação de mais um jovem: o italiano Alessandro Covi (21 anos, Colpack).

Brandon McNulty (21, Rally UHC Cycling), Mikkel Bjerg (20, Hagens Berman Axeon) e Andres Camilo Ardila (20, EPM Scott) vão juntar-se ao grupo de jovens que chegou em 2019: Tadej Pogacar, Jasper Philipsen, Cristian Camilo Muñoz e os gémeos portugueses Ivo e Rui Oliveira. Isto sem esquecer que Juan Sebastián Molano (24), Fernando Gaviria (25) e Tom Bohli (25) não são exactamente velhos.

Quando Matxin chegou à UAE Team Emirates para regressar ao papel de director em Outubro de 2017, depois de ser um olheiro de muito sucesso, a aposta da equipa estava a ser em contratar para 2018 ciclistas com experiência e visibilidade, na tentativa de obter resultados rapidamente. Daniel Martin, Fabio Aru e Alexander Kristoff são exemplo disso mesmo, ainda que não com os resultados desejados. O bielorrusso Alexandr Riabushenko (Team Palazzago) foi o único sub-23 a então assinar contrato, com Matxin a não deixar escapar o ciclista depois de estagiar com a equipa na fase final da temporada.

"O talento não pode ser ensinado, não pode ser adquirido, é genético. Há ciclistas com dados psicológicos muito bons, mas que nunca ganham nada. Ficar no topo toda a carreira requer verdadeiro talento, carácter e classe. Há outro factores que influenciam, como a escolha onde se vai desenvolver [o talento]. Isso poderá ser, talvez, mais importante do que o próprio talento. Uma equipa ou uma escolha errada pode marcar a carreira de muitos ciclistas", escreveu Matxin num texto publicado no site De Velo, em Fevereiro.


Depois do que Pogacar fez este ano (venceu a Volta ao Algarve, à Califórnia e foi terceiro na Vuelta, além de conquistar três etapas), dos resultados de Philipsen, da evolução de Rui Oliveira, a UAE Team Emirates está a tornar-se numa equipa World Tour com enorme potencial de transformar o talento de um ciclista em sucesso. Bjerg (tricampeão do mundo de contra-relógio em sub-23), McNulty e companhia poderão ser mais uma prova disso mesmo em 2020.


Rui Costa pode estar a perder protagonismo no aspecto de liderança, o que não significa que não tenha as suas oportunidades de lutar por vitórias. Porém, aos 33 anos (que celebra este sábado, 5 de Outubro), a UAE Team Emirates também quererá que tenha um papel importante na ajuda à afirmação de tantos jovens que a equipa quer apostar no World Tour. Há um ano renovou apenas por uma temporada, mas desta feita a confiança é até 2021. "Uma das minhas prioridades era que queria ter continuidade no meu futuro como ciclista e agradeço à UAE Team Emirates por me dar a oportunidade e permitir que continue a trabalhar rumo aos meus objectivos", afirmou o poveiro, que não escondeu a felicidade por poder continuar neste projecto dos Emirados Árabes Unidos.

Com a saída de Daniel Martin - vai para a Israel Cycling Academy - Rui Costa será dos ciclistas mais velhos da equipa, que contratou um dos mais experientes do pelotão para tentar recuperar a melhor versão de Fernando Gaviria, que não foi nada feliz neste primeiro ano na UAE Team Emirates. Maximiliano Richeze (36 anos) deixa a Deceuninck-QuickStep para ser novamente o lançador do sprinter colombiano.

Davide Formolo (26, Bora-Hansgrohe) irá reforçar o bloco das clássicas e Joe Dombroski (28, EF Education First) continua sem atingir o potencial que se esperava quando era sub-23, mas vai ter mais uma oportunidade. David de la Cruz pode já ter 30 anos, mas Matxin acredita que este espanhol poderá ainda ser uma peça importante nas corridas por etapas, depois de uma passagem pela Ineos que deixou poucas boas recordações.

A Lampre-Merida, como se chamava antes da equipa, até já parece fazer parte de um passado muito distante. Agora é a UAE Team Emirates que ao apostar nos jovens quer chegar ao topo do ciclismo mundial e pelas amostras recentes, o futuro é promissor.

Plantel de 2020: Andres Camilo Ardila (Col), Fabio Aru (Ita), Mikkel Bjerg (Din), Tom Bohli (Sui), Sven Erik Bystrøm (Nor), Valerio Conti (Ita),  Rui Costa (Por), Alessandro Covi (Ita), David De La Cruz (Esp), Joe Dombrowski (EUA), Davide Formolo (Ita), Fernando Gaviria (Col), Sergio Henao (Col), Alexander Kristoff (Nor), Vegard Stake Laengen (Nor), Marco Marcato (Ita), Brandon McNulty (EUA), Yousif Mirza (EAU), Sebastian Molano (Col), Cristian Muñoz (Col), Ivo Oliveira (Por), Rui Oliveira (Por), Jasper Philipsen (Bel), Tadej Pogacar (Esl), Jan Polanc (Eslv), Edward Ravasi (Ita), Aleksandr Riabushenko (Bie), Maximiliano Richeze (Arg), Oliviero Troia (Ita), Diego Ulissi (Ita).

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30 de setembro de 2019

Portugal cumpre objectivos nuns Mundiais nada fáceis de enfrentar

(Fotografia: © Federação Portuguesa de Ciclismo)
Com o final dos Campeonatos Mundiais em Yorkshire é tempo de fazer balanços e não há dúvidas que países como Estados Unidos, Itália e Holanda saíram bastantes felizes, ainda que as últimas duas selecções tenham visto escapar o título na elite masculina. A Dinamarca também não tem razões de queixas com Mikkel Bjerg a fazer história nos sub-23 (terceiro título consecutivo no contra-relógio) e Mads Pedersen a surpreender tudo e todos na elite. A Bélgica é das equipas que sai mais cabisbaixa, enquanto a selecção de Portugal apontava mais com João Almeida, mas as condições eram difíceis para fazer melhor. Já Rui Costa cumpriu, garantindo o seu quarto top dez em Mundiais.

A comitiva nacional variou entre querer dar experiência aos mais novos - como os juniores Daniela Campos, João Carvalho e André Domingues e também a Maria Martins que, sendo sub-23, correu pela primeira vez na elite por não haver este escalão no sector feminino - e apostar no talento de João Almeida e experiência de Rui Costa, sem esquecer Nelson Oliveira.

Os eleitos para os sub-23 tinham potencial para fazer um bom resultado. João Almeida é um dos jovens que se vai estrear no próximo ano no World Tour, na Deceuninck-QuickStep, André Carvalho está numa das melhores equipas de formação, a americana Hagens Berman Axeon, enquanto Miguel Salgueiro (Sicasal-Constantinos) é um dos principais talentos a emergir em Portugal. Já Emanuel Duarte venceu a classificação da juventude da Volta a Portugal e a geral da Volta a Portugal do Futuro, numa época marcante na LA Alumínios-LA Sport como Continental sub-25.

O mau tempo dificultou a missão dos dois primeiros no contra-relógio, com João Almeida a inclusivamente cair. Na prova em linha, as dificuldades de um percurso que chegou a ser encurtado para que os ciclistas não terminassem já com pouca luz natural, devido ao mau tempo e ao horário da corrida (foi no mesmo dia das juniores femininas), acabaram por deixar Portugal longe de um bom resultado, com nenhum dos ciclistas a conseguir ficar na frente da prova quando começaram a verificar-se cortes. André Carvalho foi o melhor, na 30ª posição, com Emanuel Duarte a abandonar.

Na elite, Nelson Oliveira ficou a 14 segundos da medalha de bronze no contra-relógio, continuando a ficar constantemente entre os melhores do mundo nesta especialidade. Foi oitavo, mas o terceiro posto ficou ali tão perto! O ciclista da Movistar teve depois a missão de ajudar Rui Costa na prova em linha e fez o seu trabalho, tal como José Gonçalves e Rui Oliveira. Em condições meteorológicas miseráveis, que levaram a UCI a cortar duas subidas na fase inicial da corrida, não foi fácil conseguir depois chegar ao fim.

Os três acabariam por abandonar, com Ruben Guerreiro a resistir um pouco mais, ele que poderia funcionar como joker. Porém, também não terminaria, deixando a corrida já depois de garantir que Rui Costa ficava no grupo certo. A partir daí o campeão do mundo de 2013 ficou sozinho. Não foi com Mathieu van der Poel, na movimentação que levou os últimos ciclistas à frente da corrida, pelo que o português ficou a enfrentar a difícil missão de resistir à chuva e frio, sem que ninguém trabalhasse para fechar a diferença. O 10º lugar foi um objectivo cumprido, com Rui Costa a mostrar como tem tendência a aparecer bem nos Mundiais.

"Foi preciso estar muito forte psicologicamente para encarar um Mundial como este, porque foi um dia de muita chuva e frio. Durante uma prova tão longa como esta [261,8 quilómetros], muitas coisas nos passam pela cabeça. As sensações eram boas no início, mas a meio não estava tão bem. Foi preciso ultrapassar esses momentos difíceis, esse sofrimento, para chegar melhor aos últimos quilómetros. A corrida fez-se muito dura com o frio e com a chuva", explicou Rui Costa, citado pela Federação Portuguesa de Ciclismo. O ciclista considera que o percurso original teria feito uma maior selecção de ciclistas mais cedo, contudo ficou satisfeito com mais um top dez, terminando a 1:10 minutos de Mads Pedersen.

O seleccionador José Poeira não pôde contar com Domingos Gonçalves, que não viajou para Inglaterra, alegando motivos pessoais. Um ciclista a menos numa corrida tão difícil, é algo a lamentar, mas Rui Costa finalizou da melhor forma. "Apesar dos colegas terem ajudado o Rui Costa em determinada fase da corrida, ele ficou sozinho durante muito tempo. Nessa circunstância, não podia ter feito mais do que fez. Esteve muito bem", salientou José Poeira.

Os Mundiais não serão de grandes recordações não só para algumas equipas, mas também para a própria organização. A intempérie que marcou quase toda a semana de provas, colocou à prova o poder de decisão dos comissários e nem sempre as opções foram consensuais. O contra-relógio de sub-23 ficou marcado por quedas aparatosas devido às condições da estrada, que teve partes que mais pareciam piscinas. No entanto, a prova não foi adiada, como aconteceu depois com a das senhoras. A UCI decidiu encurtar as corridas dos sub-23 e da elite, por diferentes razões. Esta opção agradou a uns e não a outros, dependendo das características dos ciclistas e do que preferiam ver num percurso.

Depois houve a desqualificação de Nils Eekhoff, que numa fase inicial caiu e recuperou posição no pelotão pedalando atrás do carro da equipa. Os comissários só analisaram a situação no final, com recurso ao vídeo-árbitro, depois do holandês ter ganho a corrida de sub-23. Além de se questionar a dualidade de critérios, comparativamente com o que aconteceu na Volta a Espanha com Primoz Roglic e Miguel Ángel López, também se perguntou porque não foi tomada uma decisão mais cedo, evitando a enorme desilusão que o jovem ciclista foi obrigado a enfrentar ao não ser declarado o vencedor.

A nível de público, Yorkshire foi o esperado, mesmo com o mau tempo, principalmente no fim-de-semana. Afinal, é um público mais do que habituado a esta meteorologia. Porém, a chuva, vento e frio, que limitaram as transmissões televisivas e criaram constrangimentos aos ciclistas, acabando por tirar algum brilho aos Mundiais, mas houve espectáculo, surpresas, drama, um filme completo de bom ciclismo, para contrabalançar um pouco do que de mau se viu.

Para o ano, os Mundiais irão disputar-se no Cantão de Vaud e no de Valais, na Suíça.


17 de setembro de 2019

Rui Costa lidera Portugal nos Mundiais mas não será a única aposta

(Fotografia: © PhotoFizza/UAE Team Emirates)
A selecção portuguesa vai contar com seis ciclistas na prova de elite, apostando na experiência, mas também haverá espaço para a juventude. E os jovens que vão completar a comitiva nos restantes escalões vão a Yorkshire apresentar-se com argumentos para tentar alcançar um bom resultado nos Mundiais que arrancam este domingo e terminam a 29 de Setembro.

Rui Costa (UAE Team Emirates) e Nelson Oliveira (Movistar) são dois ciclistas com muita experiência em Mundiais e claro que o primeiro conquistou uma das maiores vitórias do ciclismo nacional, ao sagrar-se campeão em 2013. Ambos demonstraram boa forma recentemente. Rui Costa foi sétimo no Grande Prémio de Montreal e Nelson Oliveira realizou uma Vuelta de grande nível no seu habitual trabalho de gregário.

O especialista no contra-relógio, foi ainda o eleito por José Poeira para essa prova, com o campeão nacional, José Gonçalves (Katusha-Alpecin) a ficar "guardado" para a prova em linha. O seleccionador chamou ainda o irmão gémeo de José, Domingos Gonçalves (Caja Rural). Para fechar, dois dos jovens talentos portugueses: Ruben Guerreiro (25 anos, Katusha-Alpecin) vem de uma Volta a Espanha sensacional, na sua estreia em grandes voltas, enquanto Rui Oliveira (23) tem feito uma primeira epoca no World Tour pela UAE Team Emirates de muita qualidade, estando mais preso ao trabalho de apoio aos líderes.

Este grupo de ciclistas dá a Portugal várias soluções, para um percurso de 285 quilómetros propício a ataques e que será importante ter mais do que um ciclista preparado para tentar estar na frente da corrida nos momentos decisivos. A colocação será chave. "Durante cerca de 100 quilómetros, a partir do quilómetro 60 de prova, os corredores vão andar por estradas muito sinuosas, com subidas íngremes, curvas e viragens muito técnicas. É necessário estar sempre bem colocado, havendo tensão constante, o que vai aumentar o stress competitivo e provocar um desgaste muito grande, antes mesmo do circuito final, essencialmente urbano. Aqui as maiores dificuldades serão técnicas, devido às curvas, viragens e descidas exigentes. Tem também alguns topos. Acabará por ser duro porque os corredores vão ali chegar com quase 200 quilómetros e cada metro que se perca para a roda da frente numa curva ou viragem custa muito a recuperar", afirmou José Poeira, citado pela Federação Portuguesa de Ciclismo.

O seleccionador nacional aposta num top dez na corrida em linha e na prova de esforço individual (54 quilómetros): "É um contra-relógio que abre mais a possibilidade de bons resultados aos corredores possantes que tiveram a vida mais dificultada nos Mundiais de Bergen e de Innsbruck. No entanto, acredito nas capacidades do Nelson Oliveira para nos dar uma alegria. A prova vai obrigar a uma criteriosa escolha dos andamentos a utilizar, porque exige muitas mudanças de ritmo, devido às subidas, mas também às estradas estreitas e sinuosas. O atravessamento de zonas de ventos cruzados é outro factor relevante."

Quanto aos sub-23, as escolhas foram feitas após os testes feitos durante a semana passada no Centro de Alto Rendimento, em Anadia. Os dois jovens da Hagens Berman Axeon, João Almeida e André Carvalho vão estar no contra-relógio (30,3) e na prova em linha (186,9) e estarão acompanhados nesta última por um Emanual Duarte (LA Alumínios-LA Sport) a viver um momento muito especial da sua ainda curta carreira, tendo ganho a classificação da juventude da Volta a Portugal e pouco depois conquistou a Volta a Portugal do Futuro. A equipa fica completa com Miguel Salgueiro, um dos sub-23 que mais se destacou em 2019 entre as equipas de clube, ao serviço da Sicasal-Constantinos, sendo uma presença regular na selecção.

De recordar que João Almeida é o actual campeão nacional das duas vertentes em sub-23 e está a caminho da Deceuninck-QuickStep, por quem assinou para 2020 e 2021, pelo que será um ciclista que irá receber muita atenção por parte das outras selecções.

Os juniores só farão a prova em linha (148,1): André Domingues (Escola de Ciclismo Bruno Neves) e João Carvalho (Bairrada). No sector feminino, Maria Martins (Sopela Women's Team) foi chamada para a corrida de elite (149,4 quilómetros), pois não há o escalão de sub-23. A ciclista de 20 anos tem feito uma temporada muito positiva, com vitórias e numa das principais corridas do ano, foi sexta classificada na segunda etapa do Madrid Challenge by La Vuelta. O percurso de Yorkshire não é o que melhor encaixa nas suas características, mas Maria Martins faz sempre questão de ser competitiva nas corridas que faz.

Para fechar a comitiva, a júnior Daniela Campos (5Quinas/Município de Albufeira/CDASJ) irá competir nas duas provas, ou seja, terá pela frente 86 quilómetros na prova em linha e no contra-relógio (13,7) que abrirá a participação portuguesa nos Mundiais.

O calendário de Yorkshire abre no domingo com a estreia do contra-relógio misto e em estilo de estafeta. Ou seja, primeiro partirão os três ciclistas masculinos e depois do segundo cortar a meta, partem as três senhoras. O tempo é tirado quando a segunda passar a meta. Uma novidade que substitui o contra-relógio por equipas.

Aqui ficam os horários das corridas que vão contar com os corredores portugueses, recordando que os Mundiais serão transmitidos pelo Eurosport. O fuso horário é igual ao da Grã-Bretanha.

Dia 23: 10:10 contra-relógio juniores femininas: Harrogate - Harrogate, 13,7 quilómetros

24: 10:10: Contra-relógio sub-23: Ripon - Harrogate, 30,3 quilómetros

25: 13:10 contra-relógio elite masculina: Northallerton - Harrogate, 54 quilómetros

26: 12:10 prova de fundo juniores: Richmond - Harrogate, 148,1 quilómetros

27: 8:40 prova de fundo juniores femininas: Doncaster - Harrogate, 86 quilómetros

14:00 prova de fundo sub-23: Docaster - Harrogate, 186,9 quilómetros

28: 11:40 prova de fundo elite feminina: Bradford - Harrogate, 149,4 quilómetros

29: 8:40 prova de fundo elite masculina: Leeds - Harrogate, 280 quilómetros


14 de agosto de 2019

Rui Costa com final de época definido. E 2020?

(Fotografia: © Bettiniphoto/UAE Team Emirates)
Rui Costa irá realizar um final de temporada bastante tradicional na sua carreira. A Volta a Espanha está fora de questão - só a fez em 2017 -, com o ciclista português a preferir as duas clássicas do Canadá, com os olhos postos nos Mundiais de Yorkshire. Seguir-se-á um monumento onde também faz boas prestações, a Lombardia. A grande questão continua mesmo a ser 2020. O campeão do mundo de 2013 está em final de contrato e ainda não há sinais de uma renovação, com a UAE Team Emirates a estar para já mais dedicada em anunciar os reforços para a próxima temporada. A aposta está a ser num conjunto de jovens talentos que está a tornar este projecto cada vez mais interessante. Só Max Richeze destoa, pois aos 36 anos vai reforçar o comboio de Fernando Gaviria.

Sob a liderança de Joxean Fernández "Matxin", um dos melhores na captação de talentos, a UAE Team Emirates está num processo de rejuvenescimento e tal não significa que irá ter de esperar para começar a tirar dividendos, pois esses jovens ou já começaram a comprovar o esperado (Tadej Pogacar, por exemplo), ou já se estão a aproximar cada vez mais do sucesso (Jasper Philipsen é um caso). Por outro lado, os mais veteranos da equipa não estão a realizar uma temporada para recordar. Longe disso. Com os contratos a terminar, aumenta a dúvida se a equipa vai abrir mão de alguns dos ciclistas mais experientes, criando assim definitivamente o espaço para os mais novos.

Manuel Mori (39 anos), Rory Sutherland (37) e Marco Marcato (35) são três exemplos, mas os dois nomes que mais curiosidade estão a gerar são Daniel Martin e Rui Costa, ambos com 32 anos. O irlandês tem oscilado entre exibições muito aquém do desejado e prestações de nível. Porém, falhou no Tour e com Fabio Aru a ter a confiança da equipa - depois de uma operação à perna que o fez falhar parte da temporada - e com Tadej Pogacar a ser um inevitável líder para as grandes voltas, Martin corre o risco de perder estatuto. Mesmo para as clássicas, a UAE Team Emirates contratou para 2020 um Davide Formolo (Bora-Hansgrohe) que quer apostar mais nas corridas de um dia e logo nas que Martin mais gosta: Ardenas.

O que Daniel Martin arrisca passar se renovar, já está a acontecer com Rui Costa nas últimas duas temporadas. No final de 2018, o contrato foi prolongado por apenas mais uma temporada. Se na época passada uma lesão no joelho limitou-o muitos meses, já em 2019, o poveiro realizou exibições ao seu nível, principalmente na Volta à Romandia. No entanto, o Tour também não correu bem, como aliás aconteceu com toda a equipa.

Rui Costa está a competir na Volta a Burgos, sendo terceiro depois de duas etapas, a oito segundos de Giacomo Nizzolo (Dimension Data). Fazer apenas o Tour tem sido o normal na carreira do português, que tem tendência a acabar bem as temporadas quando faz o périplo pelo Canadá - em 2011 venceu a clássica no Quebéque -, com os Mundiais no pensamento. A Lombardia é das clássicas que mais vezes fez, com nove presenças. Terminou sempre e foi terceiro em 2014.

A experiência de Rui Costa continua a ser valiosa, ainda mais com tantos jovens a entrarem na estrutura do Médio Oriente. Contudo, nesta nova UAE Team Emirates em construção, o papel de destaque será cada vez menor, caso fique. Mesmo nas provas de uma semana haverá mais concorrência. Brandon McNulty, americano de 21 anos da Rally UHC Cycling, está a chegar e tem muito potencial para as corridas por etapas. Alessandro Covi (20 anos, Colpack) também demonstra essa capacidade, além das clássicas, com o vencedor do Giro para sub-23, Andres Camilo Ardila a já estar também garantido. Estes ciclistas vão juntar-se a Pogacar, Jan Polanc e Fabio Aru, com Valerio Conti a ainda não ter renovado, mas a fazê-lo, terá as suas oportunidades.

Entre outros jovens já na equipa para outro tipo de corridas, há um Jasper Philipsen a confirmar a sua capacidade para os sprints, com Rui Oliveira a afirmar-se cada vez mais como um importante elemento de trabalho. O irmão, Ivo, está a recuperar de uma grave lesão após uma queda em Abril. Estes são ciclistas da escola Axel Merckx (Hagens Berman Axeon), equipa que verá Mikkel Bjerg, dinamarquês bicampeão do mundo de contra-relógio em sub-23, chegar à UAE Team Emirates em 2020.

Em 2018, o futuro de Rui Costa só foi conhecido bem tarde na temporada. A incerteza é novamente algo com que o ciclista tem de viver nesta fase, pois a única certeza é que esta UAE Team Emirates está a munir-se de um conjunto de jovens talentos. Segue o exemplo da Ineos, pensando no futuro muito próximo, o que obriga os corredores que já foram figuras principais a repensar o seu estatuto e definir o que ainda pretendem fazer na carreira. As próximas corridas e já a começar pela Volta a Burgos, podem ser decisivas para Rui Costa, quer seja para continuar na equipa, quer seja para escolher um novo rumo.

»»Ivo Oliveira está a recuperar de uma grave lesão««

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23 de julho de 2019

Chegou o nervosismo, o calor e as quedas

(Fotografia: © ASO/Pauline Ballet)
"Foi como estar dentro de um forno!" Descrição mais gráfica é difícil. Tony Martin (Jumbo-Visma) foi dos homens que mais trabalhou no regresso à estrada depois da folga na Volta a França e foi assim que descreveu o que sentiu durante os 177 quilómetros que começaram e acabaram em Nîmes. Foi um dia muito complicado, com o calor a fazer-se sentir e de que maneira! As temperaturas chegaram aos 39 graus, mas a sensação térmica ultrapassou essa referência. Com os candidatos separados por diferenças tão curtas, já seria de esperar que o nervosismo começasse a ganhar maior expressão. Porém, o calor só ajuda a agravar o receio de algo correr mal. Os ciclistas estão constantemente a ter de se hidratar, há muitas movimentações para ir buscar bidões, mas ao mesmo tempo têm de estar atentos a qualquer problema que possa acontecer e, coincidência ou não, foi um dia com algumas quedas e uma até atirou um corredor do top dez para fora da corrida.

O tempo muito quente está novamente a fazer-se sentir em França, que no mês passado sofreu com uma insuportável onda de calor. Os alertas (por enquanto laranja) estão em vigor e apesar dos ciclistas terem pela frente os Alpes, não significa que vão encontrar temperaturas mais amenas. Serão um pouco mais baixas do que esta terça-feira, mas as previsões apontam para que estejam acima dos 30 graus. Esta é uma preocupação extra que não está a deixar ninguém indiferente. Mikel Landa (Movistar) não tem dúvidas que este calor vai custar caro a alguém.

"Eu bebi um bidão e outro e outro e outro... Foi de doidos", desabafou Peter Sagan, que criticou ainda a falta de acção da Associação de Ciclistas Profissionais, dizendo mesmo: "Penso que deveriam fazer alguma coisa. Não sei para quê que lhes pagamos se não nos protegem."

(Fotografia: © ASO/Pauline Ballet)
A etapa realizou-se como previsto, com a única diferença a ser a mudança de regras quanto à distribuição de líquidos, que foi permita durante mais tempo. Em média terão sido distribuídos por cada ciclistas 20 a 30 bidões, com muitos a servirem para despejar a água por cima do corpo. O gelo foi um recurso, com vários corredores a colocarem por baixo das camisolas e até nos capacetes. Foi o tudo por tudo para tentar manterem-se frescos, numa etapa que ainda assim teve uma média de quase 45 quilómetros/hora.

Para agravar o nervosismo havia ainda a possibilidade do vento pregar nova partida nos 60 quilómetros finais. Apesar de uma ligeira aceleração, nenhuma equipa tentou provocar cortes, como aconteceu na 10ª etapa. Contudo, houve quedas para aumentar o nervosismo. O Tour tem sido muito marcado nesse aspecto em edições anteriores, principalmente nos primeiros dias. Esta edição tem sido mais calma, ainda que vários ciclistas já tenham caído, incluindo nomes como Nairo Quintana (Movistar), Geraint Thomas (Ineos) e Jakob Fuglsang (Astana). E os três voltaram a ser afectados. Fuglsang foi quem ficou pior. Estava a cerca de 25 quilómetros da meta quando não conseguiu evitar um corredor que tinha caído à sua frente e foi atirado por cima do guiador da bicicleta.

Ainda com as marcas da queda no início do Tour bem presentes, Fuglsang ficou de imediato agarrado à mão e admitiu que estava com tantas dores que tinha dificuldades em estar de pé. "Percebi que o meu Tour tinha acabado ali", desabafou, desiludido por não conseguir ir aos Alpes tentar um lugar mais perto do pódio. Explicou que a mão inchou de imediato, mas, mais tarde, a Astana informou que não havia qualquer fractura. Ainda assim, a relação entre Fuglsang e a Volta a França continua complicada, mesmo naquela que está a ser a melhor época da carreira do dinamarquês.

Antes tinha sido Thomas a cair, num incidente que considerou de insólito. Ficou com as mudanças presas e não evitou a queda. Ainda foi assistido pelo médico da corrida, mas está tudo bem com o galês, um pouco de pele a menos, mas preparado para continuar na luta pelo Tour. Já Quintana não caiu desta feita, mas tudo acontece ao colombiano. Agora ficou preso por uma queda que cortou a estrada. Perdeu mais um minuto na classificação e o descalabro na geral continua, estando agora a 9:30 minutos de Julian Alaphilippe (Deceuninck-QuickStep).

(Fotografia: © ASO)
A Volta a França entrou na semana decisiva com uma etapa que acabou por desgastar muito mais do que os ciclistas desejariam. No final venceu um corredor mais habituado a estas temperaturas. O australiano Caleb Ewan (Lotto Soudal) é o primeiro sprinter a bisar no Tour, ainda que o trepador Simon Yates (Mitchelton-Scott) já o tenha feito. Foi um sprint sem discussão de um Ewan que nem se deixou perturbar pelo habitual desvio de Max Richeze (Deceuninck-QuickStep) - colega de Elia Viviani -, que costuma prejudicar sempre alguém que vem de trás para o sprint. Ewan limitou-se a fazer um pequeno desvio e ultrapassou tudo e todos.

Classificações completas, via ProCyclingStats.

17ª etapa: Point du Gard - Gap, 200 quilómetros



A não ser que um Michael Matthews (Sunweb) ou Peter Sagan (Bora-Hansgrohe) tenham grande vontade de ganhar a etapa e passar uma terceira categoria perto do final da etapa este será dia para uma fuga. Os sprinters, mesmo os que ultrapassam melhor algumas dificuldades, deverão agora entrar novamente no modo de sobrevivência para conseguirem chegar à última a tirada, a mais desejada para eles, com a mítica chegada aos Campos Elísios.

É mesmo um bom dia para a fuga triunfar... e para um português ganhar! Gap é de boa memória para os ciclistas lusos. Em 2010, Sérgio Paulinho alcançou ali uma das duas vitórias de etapa numa grande volta. Foi em 2010, então ao serviço da RadioShack, tendo batido numa luta a dois um tal de Vasil Kiryienka, ciclista agora da Ineos (não está neste Tour) e que foi campeão do mundo de contra-relógio.

Sérgio Paulinho (Efapel) está actualmente mais preocupado com a Volta a Portugal, mas há Rui Costa. Recuando a 2013, naquela edição a equipa da Movistar tinha já sofrido um golpe na geral devido a um "abanico". O ciclista português foi obrigado a ficar para trás para ajudar, perdendo tempo, o que acabou por se traduzir no seu melhor Tour. Já tinha ganho uma etapa em 2011 e em Gap conquistou a primeira de duas naquela edição inesquecível para o poveiro, que viria a sagrar-se campeão do mundo dois meses depois. Rui Costa venceu isolado, com 42 segundos de vantagem sobre o francês Christophe Riblon (AG2R).

Aquele Rui Costa não mais se viu no Tour. Na UAE Team Emirates está com total liberdade para lutar por etapas e esta pede que volte a tentar fazer de Gap um local ainda mais marcante para o ciclismo nacional. Nelson Oliveira (Movistar) está mais preso ao papel de gregário, mas José Gonçalves (Katusha-Alpecin) ainda não apareceu neste Tour e esta é uma etapa que também não lhe assenta nada mal.




»»Nelson Oliveira renova por uma Movistar ainda a definir os líderes para 2020««

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2 de julho de 2019

Os portugueses no Tour

Nelson Oliveira, José Gonçalves e Rui Costa com ambições diferentes
Chegou o momento de se entrar em modo Tour. Arranca-se com destaque para os três portugueses na Volta a França e os três papéis diferentes que desempenharão. Só José Gonçalves estava desde o início da temporada previsto para a corrida francesa e confirmou a chamada. Rui Costa e Nelson Oliveira tiveram presença incerta até à última, mas a boa forma mostrada nas mais recentes corridas assegurou o lugar de dois dos ciclistas referência do ciclismo nacional no World Tour.

Começando pelo estreante. José Gonçalves prepara-se para fazer o pleno nas grandes voltas, estreando-se aos 30 anos na Volta a França. Conta com quatro participações na Vuelta - a de 2015 foi sensacional, tendo estado perto de ganhar etapas ao serviço da Caja Rural - e duas no Giro, já com a Katusha-Alpecin. Foi precisamente, há um ano, que provocou uma ligeira surpresa ao mostrar que estava a evoluir para se tornar um voltista. Começou forte no contra-relógio, logo com um quarto lugar, andou pelo top dez, terminando num excelente 14º lugar. Ficou o aviso que José Gonçalves poderia ser mais que um caça-etapas, como se esperaria naquela edição.

Este ano foi "guardado" para o Tour, com Zakarin a chegar a França com um Giro nas pernas, que, mais uma vez, ficou aquém do esperado a nível de geral apesar do 10º posto e de uma etapa ganha. O russo terá sempre um estatuto de líder no Tour, mas o ciclista português não esteve estes meses todos a preparar-se para o Tour para ser um mero gregário. Será uma oportunidade de ouro para o gémeo de Barcelos se mostrar na corrida de três semanas que continua acima de todas as outras a nível de mediatismo e prestígio. Como sempre se diz, o Tour... é o Tour!

José Gonçalves vai chegar a França com a camisola de campeão nacional no contra-relógio, conquistada no dia em que a equipa confirmou a convocatória. Revelou então que se sentia bem, em forma e ainda com espaço para melhorar rumo à Volta a França. Depois do que fez no Giro no ano passado, o grande ponto de interesse será perceber se Gonçalves está preparado para atacar a geral. Um top 20 seria excelente e qualquer coisa acima será brilhante, mas também terá os olhos postos numa etapa, já que a Katusha-Alpecin continua a precisar urgentemente de vitórias.

Equipa da Katusha-Alpecin: Ilnur Zakarin, Alex Dowsett, Jens Debusschere, José Gonçalves, Marco Haller, Nils Politt, Mads Würtz Schmidt, Rick Zabel.

Nelson Oliveira (30 anos) sabe bem o que é correr o Tour. Vai para o seu quarto. Nos últimos dois anos, quedas no Paris-Roubaix estragaram-lhe grande parte da temporada, mas está de volta a uma corrida que tanto gosta, ainda que foi um sprint até à última para garantir um lugar na Movistar. É mais homem de contra-relógio do que de sprints e esse ponto forte do português será importante na segunda etapa, no contra-relógio colectivo de 27,6 quilómetros. Com Nairo Quintana e Mikel Landa na equipa, bem que será preciso alguém para puxar por dois ciclistas que, já se sabe, não são nada ases na arte de competir contra o relógio.

Mas a qualidade de Nelson Oliveira vai mais além. É um gregário fortíssimo, não tanto em alta montanha, mas para essa fase haverá outros homens. As suas prestações merecem a confiança dos líderes e dos responsáveis técnicos de uma Movistar que vem de uma vitória na Volta a Itália, mas ao eleger pelo segundo ano consecutivo o tridente Quintana/Landa/Valverde para o Tour, gera novamente muita desconfiança, tendo em conta que em 2018 foi simplesmente uma prestação muito fraca.

Quintana diz ser o líder, Landa não gosta de ser segundo e já o foi para Richard Carapaz no Giro... Avisou que se vê a subir ao pódio em Paris... Valverde regressou à competição, tendo falhado o Giro por lesão e está novamente a vencer (a Rota da Occitânia e o Campeonato Nacional de fundo) e certamente que estará mais do que ansioso para ganhar uma etapa no Tour com a camisola de campeão do mundo depois de uma temporada muito abaixo do que habituou. Nelson Oliveira estará lá para fazer o seu trabalho (e fá-lo praticamente sempre muito bem) que não se avizinha nada fácil perante uma equipa potencialmente "partida" por ambições de demasiados líderes juntos.

Equipa da Movistar: Nairo Quintana, Mikel Landa, Alejandro Valverde, Marc Soler, Andrey Amador, Carlos Verona, Imanol Erviti, Nelson Oliveira.

Em comum, os três portugueses escalados para ir ao Tour têm o estar em final de contrato com as respectivas equipas. Se há um sob maior pressão é Rui Costa (32 anos). Em 2018 falhou todas as grandes voltas, com uma lesão no joelho contraída no Paris-Nice a prejudicar-lhe quase toda a temporada. Surgiu bem nos Mundiais em Setembro e esta época tem oscilado entre boas e umas menos convincentes exibições. Porém, este a bom nível nos testes finais rumo ao Tour, com um segundo lugar na Volta à Romandia e na Volta à Suíça - que já venceu três vezes - não lutou pela geral, mas esteve a bem na montanha.

A grande questão é como encaixará Rui Costa numa UAE Team Emirates que leva Fabio Aru e Daniel Martin, que não serão nada menos do que líderes. Esse estatuto o poveiro já não o tem. O italiano regressa após longa ausência. Foi operado à artéria ilíaca (na perna) e espera que o pior tenha finalmente passado. Quando Aru mete na cabeça que é para ganhar, então vemos o melhor deste ciclista, mas se dá numa de derrotista... Quanto a Daniel Martin, não é ciclista para lutar por uma vitória na geral, dificilmente pelo pódio. Top dez e etapa. É o conjunto perfeito de objectivos para o irlandês.

Haverá ainda um Alexander Kristoff a lutar nos sprints. Estes três ciclistas vão precisar que os restantes cinco sejam bons gregários. A Rui Costa poderá não restar mais do que uma oportunidade para entrar numa fuga e tentar uma vitória de etapa, sendo que haverá um Sergio Henao desejoso de fazer o mesmo. O campeão do mundo de 2013 tem de mostrar bom nível se quiser continuar numa equipa em remodelação, a preparar jovens de enorme talento para tomarem conta das lideranças (Tadej Pogacar à cabeça). Este é um Tour decisivo para o português, que já venceu três etapas na corrida francesa, na sua melhor fase da carreira, então na Movistar: uma em 2011 e duas em 2013.

Equipa da UAE Team Emirates: Fabio Aru, Sven Erik Bystrom, Rui Costa, Sergio Henao, Alexander Kristoff, Vegard Stake Laengen, Dan Martin, Jasper Philipsen.

A Volta a França arranca este sábado, com Bruxelas a receber a partida. E numa viagem até à Bélgica, prepara-se para recordar como um dos grandes do ciclismo que nasceu naquele país: Eddy Merckx. De salientar ainda que se celebra 100 anos desde que a camisola amarela foi envergada pela primeira vez na mítica corrida.

»»Volta a França perde mais um dos candidatos««

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