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16 de novembro de 2019

Uma EF Education First cada vez mais forte

(Fotografia: © EF Education First)
Entre o bom, o muito bom e um futuro a prometer ainda melhor. A EF Education First não teve razões para terminar 2019 apenas satisfeita. Tem muitas razões para acreditar que pode crescer e ver alguns dos seus jovens ciclistas tornarem-se em figuras do pelotão mundial. E em figuras ganhadoras. Os resultados nas grandes voltas foram bons. Ganhar um monumento foi muito bom. Ter Higuita, Carthy e Martínez , por exemplo, pode tornar tudo ainda melhor.

Rigoberto Uran continua a ser o líder, mas já sabe que tem jovens companheiros mais do que preparados para tirar-lhe destaque. E já o estão a fazer. O colombiano foi novamente top dez do Tour, mas ficou longe do objectivo do pódio. Na Vuelta sofreu uma aparatosa queda e só agora em Novembro está a regressar aos treinos. Fracturou a clavícula, omoplata, costelas, cervical e perfurou um pulmão. A ver vamos como regressa em 2020.

Durante toda esta temporada, Uran viu como alguns dos seus colegas estão a evoluir muito bem. Hugh Carthy (25 anos) começou finalmente a mostrar créditos no World Tour. Excelentes exibições no Giro e na Volta à Suíça (e não só), onde ganhou uma etapa e a camisola da montanha. No Giro ficou à porta do top dez. Martínez adiou a sua afirmação definitiva devido a lesão e também a doença. Começou bem o ano e deixou todos a esperar muito com as prestações no Paris-Nice (venceu uma etapa). Acabou por ficar fora do Tour e na Vuelta esteve longe da sua melhor condição física. Para o colombiano de 23 anos, há que esperar por um 2020 sem problemas, pois é mais um ciclista daquele país preparado para conquistar o World Tour.

A EF Education First tem outro colombiano de enorme talento. Deixou Sergio Higuita adaptar-se à Europa na Fundação Euskadi no início da época e inclusivamente veio à Volta ao Alentejo ganhar uma tirada. Fez a sua estreia na equipa americana na Volta à Califórnia e só Tadej Pogacar (UAE Team Emirates) foi melhor. Foi chamado para a Vuelta e que espectáculo deu! Naquela etapa 18, na chegada a Becerril de la Sierra, parecia que Higuita não estava a aprender a lição de outros dias de não se desgastar tanto, mas afinal foi o ciclista quem ensinou o que a irreverência, muita força de vontade e um ainda mais talento podem fazer. Vai ser um ciclista que estará debaixo de olho pelos adversários para o próximo ano.
Ranking: 11º (8161,99 pontos) 
Vitórias: 17 (incluindo a Volta a Flandres e uma etapa na Vuelta) 
Ciclistas com mais triunfos: Michael Woods, Daniel McLay e Jonathan Caicedo (2)
Sean Bennett e Jonathan Caicedo são mais dois nomes que geram alguma curiosidade, assim como o do mexicano Luis Villalobos, sendo ciclistas que em 2019 estiveram menos pressionados. Villalobos só chegou em Agosto.

O que reforça a confiança desta equipa é - além de saber que tem jovens de muito potencial e que mais uns vão chegar para 2020 - que conta com homens experientes para manter a formação equilibrada. Lawson Craddock, Sebastian Langeveld, Sep Vanmarcke formam parte de uma espinha dorsal desta estrutura. E claro, Michael Woods. O canadiano está a mostrar o seu melhor depois dos 30 anos, ainda que 2019 não tenha sido bem o esperado. Apostou forte na sua estreia no Tour, mas esteve longe das prestações na Vuelta de 2018, quando ganhou uma etapa. Mas este é um ciclista que sabe que pode ganhar nos grandes palcos e foi à Milano-Torino dar mais uma grande vitória a uma EF Education First que passou a acreditar mais do que nunca que está no caminho certo devido a Alberto Bettiol.

Já se sabia que o italiano era forte nas clássicas, mas não era exactamente tido muito em conta para ganhar um monumento. Mas aos 26 anos, Bettiol escolheu a Volta a Flandres para ter o seu grande momento e conquistar outro estatuto. Tanto se estava a olhar para Mathieu van der Poel e Wout van Aert - as duas novas estrelas das clássicas - e claro para os suspeitos do costume como Peter Sagen e Greg van Avermaet, e lá apareceu um Bettiol a confirmar credenciais e a deixar uma EF Education First em extâse.

Há dois anos temia pelo futuro, agora a equipa está a construir um grupo forte, apostando cada vez mais em jovens, contratando para 2020 Neilson Powless (Jumbo-Visma) - reforço para o bloco das corridas por etapas -, Kristoffer Halvorsen (Ineos) - sprinter que vai ocupar a vaga de um Sacha Modolo, que não vai deixar saudades e de Taylor Phinney, que se vai retirar do ciclismo - e o português Ruben Guerreiro (Katusha-Alpecin), que depois de uma estreia na Vuelta tão positiva só pensa em continuar a tornar-se num voltista.

Chegarão ainda Magnus Cort (Astana) e Jens Keukeleire (Lotto Soudal) que comprovam como a equipa quer alargar os horizontes além das provas por etapas, reforçando o bloco das clássicas. Esta é uma equipa que começa a entusiasmar cada vez mais e até se dá ao luxo de continuar a acreditar que ainda é possível fazer algo de Tejay van Garderen, nem que seja como gregário. O 2019 do americano, não convenceu, mais uma vez.


12 de setembro de 2019

Da vitória no Alentejo à conquista de Espanha

(Fotografia: © La Vuelta)
Sergio Higuita chegou ao World Tour em Maio e não perdeu tempo para deixar a sua marca. Era esse o seu objectivo, pois o pequeno colombiano é grande em ambição e ainda maior na dedicação a trabalhar para alcançar o topo. Cerca de um mês antes de disputar a Volta a Califórnia com Tadej Pogacar, Higuita esteve na Volta ao Alentejo, tendo ganho na etapa que terminou em Portalegre. Meio ano depois atingiu o ponto mais alto da sua curta carreira. Até agora, claro, pois a vitória na 18ª tirada da Vuelta é apenas o início de um caminho que muito promete para este jovem colombiano.

Higuita é mais um dos ciclistas da nova geração que está a afirmar-se muito rapidamente ao mais alto nível. Foi um dos atletas que conseguiu na Manzana Postobón mostrar o seu talento, convencendo os responsáveis da EF Education First. No entanto, a equipa americana preferiu colocar o ciclista na Fundação Euskadi na primeira parte do ano, de forma a permitir uma maior adaptação à realidade europeia. Numa entrevista ao Volta ao Ciclismo, Higuita afirmava que estava a ser uma uma experiência positiva, principalmente para se adaptar ao Inverno na Europa, já que pela Manzana Postobón tinha realizado algumas corridas no Velho Continente.

A aposta da EF Education First em colocá-lo na formação espanhola foi acertada. Higuita evoluiu o suficiente para entrar pela porta grande no World Tour. Higuita sabia que a sua estreia seria na Volta à Califórnia. Logo então ficou bem clara a ambição do jovem colombiano, que queria apresentar-se forte na nova equipa. Foi segundo, a 16 segundos de Pogacar (UAE Team Emirates). Estava feita a apresentação no World Tour. Foi quarto na Volta à Polónia e chegou à Vuelta com direito a receber muita atenção, numa equipa com Rigoberto Uran e Daniel Martínez, dois compatriotas, um já veterano e outro também visto como grande promessa.

Aos 22 anos, Higuita enfrentou a Vuelta como enfrentou a sua chegada ao World Tour. Sem medo, com vontade de mostrar-se, com ainda mais vontade de vencer. A sua impetuosidade já lhe criou alguns dissabores, pois por vezes desgasta-se desnecessariamente. Porém, a Vuelta também está para aprender. É por isso que está com liberdade e sem responsabilidade. Mas também é verdade que a mesma impetuosidade teve um papel importante na sua vitória de etapa esta quinta-feira, em Becerril de la Sierra.

O jovem colombiano esteve ao ataque praticamente desde o primeiro quilómetro. Não teve problema em trabalhar para tentar manter a fuga, no que poderia parecer que estava novamente a desperdiçar forças. Mas desta feita encontrou as que precisava para aproveitar a vantagem que ganhou na descida antes da última subida do dia. Como a etapa não terminava em alto, ainda teve quase 30 quilómetros em plano ou em descida para manter à distância (15 segundos na meta) o quarteto de perseguidores: Primoz Roglic, Alejandro Valverde, Miguel Ángel López e Rafal Majka.

Foram 178,2 quilómetros que Higuita não esquecerá, mesmo que pela frente lhe esperem grandes conquistas. E a EF Education First também se irá lembrar como o jovem que chegou a meio da época garantiu a única vitória de etapa numa grande volta em 2019 para a equipa. A aposta na Vuelta foi forte, mas a queda na sexta etapa deixou Uran no hospital (está a recuperar de graves lesões) e também Hugh Carthy abandonou. Tejay van Garderen sofreria outra queda que o levaria a deixar a corrida no dia seguinte. Higuita também caiu com Uran e Carthy, mas aí está ele, a transformar a sua enorme ambição em vitórias.

Já se pode mostrar optimismo

(Fotografia: © Sarah Meyssonnier/La Vuelta)
Foi Primoz Roglic quem admitiu que pode mostrar algum optimismo, mas acrescenta de imediato que é necessário manter a concentração. A louca etapa de quarta-feira deixou marcas em todos e, sem surpresa, principalmente em Nairo Quintana. Depois de recuperar mais de cinco minutos, o colombiano perdeu um. Ainda está no pódio, mas foi novamente ultrapassado pelo companheiro da Movistar, Alejandro Valverde. Porém, mais uma vez, Quintana falhou onde deveria ser mais forte: na montanha.

Foi Miguel Ángel López quem tentou assustar Roglic. A Astana jogou as cartas na perfeição, mas o esloveno da Jumbo-Visma não se assusta facilmente nesta Volta a Espanha, não revela qualquer debilidade, apenas mostra a capacidade de manter a calma quando é atacado e, ao seu ritmo, não deixa os rivais escapar. Foi assim com López. O colombiano chegou a ganhar uma vantagem que nunca foi muito além dos 20 segundos, mas Roglic manteve-se com Valverde e acabaria por apanhar López.

Faltam apenas dois dias para a Movistar e a Astana encontrarem forma de quebrar Roglic. A tirada desta sexta-feira começa com uma terceira categoria, tem algum sobe e desce, mas sem subidas muitos complicadas ou categorizadas. O vento poderá marcar presença, pelo que a Jumbo-Visma terá de estar atenta para não deixar Roglic sozinho, como aconteceu na quarta-feira, caso alguma equipa tente partir o pelotão. Com as forças a escassearem, também é possível que se guarde os últimos ataques para sábado, para as derradeiras montanhas.

Valverde está a 2:50 minutos de Roglic, Quintana a 3:31 e López a 4:17. Trabalhou tanto na 18ª etapa, mas Roglic até foi segundo e bonificou seis segundos. Para o colombiano o esforço valeu a pena para recuperar a liderança da juventude. Ultrapassou Pogacar, que ficou agora a 32 segundos de López.


Classificações completas, via ProCyclingStats.

19ª etapa: Ávila - Toledo (165,2 quilómetros)


Tem tudo para ser uma etapa para os sprinters, mas atenção ao vento e ao quilómetro final. Será em subida e em empedrado, pelo que trará uma dificuldade extra para a preparação do sprint, caso não seja uma fuga a triunfar, como tem sido tão habitual na Vuelta.




»»A etapa de loucos que recolocou Quintana na luta pela geral««

»»Dez anos de camisola vermelha na Vuelta««

22 de agosto de 2019

A Vuelta da América Latina perde uma das principais figuras

(Fotografia: © Giro d'Italia)
Fica completa uma estranha coincidência que privou as grandes voltas do provável candidato mais favorito. Devido a quedas, o Giro não teve Egan Bernal, o Tour Chris Froome e na Vuelta não se verá Richard Carapaz, o vencedor da Volta a Itália e que fez dele o homem a ter em atenção na corrida que arranca no sábado. E numa Vuelta na qual pode ser feita um pouco mais de história num 2019 marcante para o ciclismo, perder Carapaz é um rude golpe, mas não significa que não possa ser feito o pleno de corredores latinos ganharem as três grandes.

Carapaz tornou-se no primeiro equatoriano a venceu uma grande volta. Seguiu-se Bernal (Ineos) que finalmente concretizou o sueño amarillo colombiano no Tour e quem poderá ser o senhor que se segue na Vuelta? Candidatos não faltam. Carapaz vai assistir de longe devido a uma lesão no ombro, contraída no domingo, numa queda durante uma prova na Holanda. Segundo o jornal As participou a título pessoal. A Movistar chamou o experiente José Joaquín Rojas, substituindo um líder por um homem de trabalho. Nairo Quintana não deverá importar-se.

E entre os candidatos da América Latina, Quintana tem de ser um deles, mesmo que cada vez convença menos. O seu ciclo na Movistar está a chegar ao fim, apesar de ainda não ter confirmado que equipa vai representar em 2020 (muito se fala da Arkéa-Samsic). Venceu a Vuelta em 2016, numa altura em que tudo se esperava deste ciclista, mas que aos 29 anos está a ver a carreira passar sem se afirmar como um dos grandes voltistas da história. Não perdeu qualidade, mas há muito que não se vê aquele Quintana capaz de deixar qualquer um para trás. Uma mudança de ares poderá fazer-lhe bem, mas para já, é na Movistar que vai tentar afastar a desconfiança que se instalou num favoritismo cada vez mais reduzido.

Sem Carapaz, Quintana perde a mais forte concorrência interna, mas ainda tem Alejandro Valverde (diz que vai à procura de etapas, contudo, também há um ano seria o objectivo e depois bem tentou liderar a corrida) e um Marc Soler que não vai querer continuar a adiar um maior protagonismo dentro de uma equipa em remodelação para 2020 e com espaço para ter Soler num papel mais relevante.

Com a exclusão de Carapaz, a América Latina ficou reduzida à Colômbia. O próximo nome na lista de candidatos do país é Miguel Ángel López. Aos 25 anos vai para a sua quarta Vuelta, na qual já foi terceiro em 2018. No Giro teve exibições em que falhou, depois melhorou substancialmente e acabou a ser atirado ao chão por um adepto. López e a Astana apostam muito nesta Vuelta, sendo uma das equipas mais fortes: os irmãos Izagirre, Luís León Sánchez, Omar Fraile, Dario Cataldo, Manuele Boaro e Jakob Fuglsang. A dúvida é se o dinamarquês, que abandonou no Tour devido a queda, vai também ele atrás de um bom resultado na Vuelta. E depois, como irá enfrentar a corrida Ion Izagirre? No início da época disse que seria a sua volta seria em Espanha, após trabalhar para López no Giro.

Johan Esteban Chaves é uma enorme incógnita. Ele próprio o assume, esperando que a sua carreira possa ser revitalizada depois de um 2018 para esquecer devido a uma mononucleose. A vitória na 19ª etapa no Giro foi um momento muito importante para o ciclista, que quer agora disputar novamente uma grande volta que, não há muito tempo, se pensaria que poderia ganhar, mais cedo ou mais tarde. Há um ano a Mitchelton-Scott venceu com Simon Yates, que fica de fora, após estar no Giro e Tour. 2019 é o ano para a equipa australiana saber se consegue ou não recuperar Chaves. Corrida muito importante para o futuro do ciclista.

E depois há o trio maravilha da EF Education First. Rigoberto Uran parte como líder, mas é impossível negar que é Daniel Martínez e Sergio Higuita que mais se quer ver. Martínez falhou o Tour devido a lesão e irá fazer a sua estreia na Vuelta. Tem 23 anos e um potencial tremendo. A equipa americana não o deverá prender ao trabalho de gregário e se estiver em forma, este é um ciclista que irá dar espectáculo. Se Uran conseguir manter-se na frente da corrida, Martínez até poderá procurar mais etapas do que pensar na geral. É um dos jovens colombianos que mais entusiasma além de um ausente Egan Bernal, vencedor do último Tour.

Higuita tem 22 anos e chegou à equipa já com a temporada a decorrer, depois de uma fase de adaptação à Europa na Fundação Euskadi. E passou por Portugal: ganhou uma etapa na Volta ao Alentejo. Na sua primeira corrida pela EF Education First, a Volta a Califórnia, só foi batido por Tadej Pogacar (UAE Team Emirates). Será uma Vuelta para aprender e habituar-se aos grandes palcos. No entanto, cuidado com este jovem. É mais uma prova que na Colômbia os talentos não param de aparecer.

John Darwin Atapuma (Cofidis) pode ter passado ao lado de uma carreira bem melhor. Mas aos 31 anos ainda quer mostrar que pode deixar a sua marca e principalmente quer quebrar o enguiço dos segundos lugares nas etapas. Sergio Henao (UAE Team Emirates) deverá ter de ficar ao lado de Fabio Aru, mas Fernando Gaviria, o colombiano sprinter, vai atrás de etapas para salvar uma temporada em que desiludiu e marcada por uma lesão. Juan Sebastián Molano será o plano B para os sprints e o lançador do compatriota. Sergio Henao estará dedicado ao trabalho na Ineos.

É uma pena Richard Carapaz ficar de fora da Vuelta, mas a senda latina de 2019 tem muitas hipóteses de ficar completa na Vuelta, depois de em 2018 terem sido três ciclistas britânicos a ganharem as grandes voltas: Chris Froome, Geraint Thomas e Simon Yates.

No entanto, a armada colombiana terá concorrência, que será apresentada no texto desta sexta-feira.


22 de junho de 2019

Que venha a nova geração

Egan Bernal em boa forma na Volta à Suíça (Fotografia: © Team Ineos)
Se há uma coisa que já se pode dizer de 2019 é que a nova geração está aí e pronta para agarrar o lugar de destaque. Estamos em plena renovação do pelotão. Esta semana Egan Bernal (22 anos) está a proporcionar mais um daqueles espectáculos de ciclismo que tanto se adora e que já se percebeu que o colombiano adora dar. Bernal, que este domingo poderá conquistar a Volta à Suíça, é simplesmente um prodígio rumo a uma grande carreira. A confirmação do seu talento está mais do que feita, agora é esperar por uma vitória numa grande volta e que parece estar tão perto... Bernal (Ineos) poderá ter uma tendência a "roubar" manchetes, mas cada vez mais se cria expectativa para o ver frente-a-frente com os próximos grandes voltistas.

Por agora apenas se pode imaginar o que será um Bernal a disputar uma corrida com outro ciclista com um potencial, e esta é a expressão que mais vem à cabeça, brutal! Tadej Pogacar venceu a Volta ao Algarve e foi depois tornar-se no ciclista mais novo a ganhar uma corrida World Tour por etapas. 20 anos e a fazer a UAE Team Emirates sonhar bem alto. O esloveno é diferente de Bernal, mais calculista. Mas quando aumenta a velocidade., deixa todos a "sufocar". Que grande rivalidade poderá ser esta se se mantiverem em equipas diferentes!

Remco Evenepoel tem apenas 19 anos e a par de Bernal tem sido o ciclista jovem sobre quem mais se fala. Muito devido ao facto de em júnior praticamente não ter sabido o que era perder corridas, principalmente no seu último ano, e de já estar numa das melhores equipas World Tour. A Deceuninck-QuickStep é uma estrutura de clássicas por excelência, mas Patrick Lefevere até está disposto a mudar um pouco só para manter Enric Mas no plantel. Portanto, não vai ter problemas em optar por construir um bloco forte em redor de Evenepoel em breve. Alguma ansiedade e erros normais de um jovem ciclista estavam a adiar a primeira vitória do belga. Mas nada como correr em casa para conquistar a sua primeira corrida por etapas. Muitos bons ciclistas não conseguiram fazer no profissionalismo o que prometiam nos escalões jovens. Evenepoel não vai ser um deles.

Bernal, Pogacar, Evenepoel... todos em boa forma e não há que resistir na grande volta em que se enfrentarem e noutras corridas, claro!

E juntemos Sergio Higuita. Talvez ainda um pouco desconhecido, mas foi segundo na Volta à Califórnia, na estreia pela EF Education First. Esteve uns meses a rodar na Fundação Euskadi antes de ingressar na equipa americana. O colombiano de 21 anos bem avisou que queria deixar um impacto imediato, depois de ter ganho uma etapa na Volta a Alentejo, ainda na formação espanhola. Já se está de olho nele. Segue um pouco a "escola" Bernal, no fundo a "escola" colombiana, na forma de correr. Há que esperar mais um pouco, mas que Higuita promete, lá isso promete. Na mesma equipa, mais um colombiano, Daniel Martínez. Está lesionado e vai falhar o Tour, mas tendo apenas 23 anos, a EF Education First tem dois potenciais excelentes líderes para as três semanas.

Outros nomes. Sam Oomen não convenceu esta época, mas um problema na artéria ilíaca (na perna) prejudicou as suas performances. Não vai correr mais esta temporada para recuperar e regressar em 2020 para tentar comprovar o que mais se espera dele. É o sucessor de Tom Dumoulin, mas com melhores características de trepador, menos de contra-relogista. Deseja-se que de facto possa recuperar a sua melhor forma, pois é mais um ciclista de potencial e com apenas 23 anos. Fez top dez no Giro de 2018.

Iván Ramiro Sosa ganhou este sábado a etapa na Volta à Occitânia. Mais um colombiano de talento, mas que poderá perder protagonismo por estar na Ineos. A equipa britânica não se pode dar ao luxo de apostar tudo em Bernal no futuro próximo, mas Sosa arrisca ficar muito na sombra do compatriota ou então ter de esperar pelas decisões de Bernal, para depois ter ele as suas oportunidades.

Na sombra de Bernal e de Pavel Sivakov. Não se pode esquecer este russo. É completamente diferente dos restantes ciclistas aqui falados. Vai muito a ritmo, não é nada dado a "safanões", mas quando mete uma velocidade alta, é complicado apanhá-lo. O top dez no Giro e a vitória na Volta aos Alpes foram as primeiras indicações do que este corredor de 21 anos pode fazer.

Tao Geoghegan Hart (Ineos, 24 anos), Eddie Dunbar (Ineos, 22), Jhonatan Narváez (Ineos, 22) - a equipa britânica tem vários valores em processo de amadurecimento e seria interessante que não ficassem presos ao papel de gregários - David Gaudu (Groupama-FDJ, 22), Mark Padum (Bahrain-Merida, 22) e Max Schachmann (Bora-Hansgrohe, 25) são outros ciclistas a ter em conta, ainda que este último ainda se tenha de perceber se vai mesmo optar por lutar pelas gerais nas grandes voltas.

E para fechar, dois ciclistas. Primeiro um que pode ser um sucessor de Vincenzo Nibali que Fabio Aru não foi, pelo menos até agora. Talvez até mais, porque não pensar de forma ambiciosa! 
Giulio Ciccone, 24 anos, mostrou potencial na Bardiani-CSF e no Giro, com a Trek-Segafredo, demonstrou que não pode ser gregário de ninguém. Excelente ciclista, sem medo de arriscar, talvez a precisar de evoluir um pouco tacticamente, pois é dado ao risco. O que é bom para o espectáculo, é certo!

O outro é Enric Mas. O espanhol também se pode dizer que será um sucessor, neste caso de Alberto Contador e Espanha bem espera que Mas (24 anos) confirme o que demonstrou na Vuelta em 2018 - uma vitória de etapa e segundo na geral -, tal é o receio no país que não se consiga igualar os feitos de Contador, Joaquim Rodríguez e Alejandro Valverde.

A nova geração também se estende às clássicas e sprints, mas com a Volta a França a aproximar-se, é de voltistas que nesta fase mais se fala e o Tour pode esperar por uma geração de enorme qualidade que vai "cruzar" com valor já confirmados, como é o caso dos gémeos Yates, Adam e Simon (Mitchelton-Scott), Miguel Ángel López (Astana) e claro, Richard Carapaz, o equatoriano que está prestes a tirar o espaço a Nairo Quintana na Movistar.

Romain Bardet (AG2R), Thibaut Pinot (Groupama-FDJ), Primoz Roglic (Jumbo-Visma) e mesmo Quintana caminham para se tornarem nos veteranos do pelotão quando esta jovem geração se afirmar definitivamente. Nibali, Chris Froome, Geraint Thomas e Richie Porte - ainda que o australiano não tenha conseguido sequer um pódio - vão-se preparando para passar o testemunho, mas até lá, ainda podem mostrar aos mais novos a vantagem da experiência.

Ou não, pois, voltando ao primeiro parágrafo, Bernal está a subir na cotação entre os fortes candidatos no Tour. Falhou o Giro devido a uma queda poucos dias antes num treino (partiu a clavícula), mas na Suíça está a revelar boa forma e sem Froome, só não fica estendida a passadeira vermelha para a liderança da Ineos, porque Thomas é o vencedor de 2018 e merece esse estatuto, ainda que não esteja a convencer e já abandonou a Volta à Suíça após queda. Mas Bernal pode roubar os holofotes. Pode ganhar o Tour? Dificilmente haverá alguém a não vê-lo como fortíssimo candidato. É mesmo caso para dizer, que venha a nova geração! Grandes batalhas em perspectiva!


4 de abril de 2019

"A Colômbia pode ser no ciclismo o que a Argentina é no futebol"

A Colômbia está na moda no ciclismo e não é passageira. As equipas do World Tour estão cada vez mais atentas aos talentos que vão aparecendo naquele país e, daqui a menos de um mês, chega mais um ao principal escalão. Sergio Higuita é um nome que já chamou alguma atenção pelo forte início de temporada em Espanha. Porém, garante que quer chegar ao World Tour e deixar logo a sua marca, tendo bem claro que olha para o topo da classificação na corrida pela qual se irá estrear pela EF Education First: a Volta à Califórnia.

A ambição é muita, mas a vontade de trabalhar e a dedicação que coloca em toda a preparação que está a realizar rumo ao World Tour é ainda maior. Não nega que toda a atenção que os ciclistas colombianos estão a receber, aumenta a pressão. No entanto, também não hesita em dizer que está preparado para a enfrentar, como está igualmente preparado para assumir a responsabilidade de estar numa equipa como a americana.

A passagem pela Fundación Euskadi pode ser curta, contudo, está a ser essencial para que possa estar em condição de surgir forte mal vista o equipamento da EF Education First. "Há que ganhar experiência aqui nesta equipa para estar preparado para as corridas do World Tour. Estas últimas provas que vou fazer aqui são para ganhar ritmo e preparar bem a temporada na EF Education First", salientou ao Volta ao Ciclismo.

Acrescentou como o cedência por meia época à formação espanhola de Mikel Landa, o ciclista da Movistar, "está a ser muito boa" para a sua adaptação à realidade europeia. Apesar de pela Manzana Postobón ter feito algumas corridas na Europa, inclusivamente em Portugal, estar na Fundación Euskadi permitiu-lhe ganhar outra experiência, como por exemplo, correr no Inverno europeu.


"Tenho muita experiência a correr na Europa e este ano ganhei mais confiança. Penso que estou preparado para enfrentar a responsabilidade que será estar na EF Education First"

As três épocas na Manzana Postobón e estes últimos meses na equipa espanhola foram a escola que precisava para dar o desejado passo para o nível máximo do ciclismo: "Creio que estou preparado. Tenho muita experiência a correr na Europa e este ano ganhei mais confiança, mais do que tinha em anos anteriores. Penso que estou preparado para enfrentar a responsabilidade que será estar na EF Education First."

Aos 21 anos, o pequeno Higuita (1,63 metros) quer seguir os passos dos ciclistas que colocaram a Colômbia como uma potência do ciclismo e que parecem estar cada vez mais perto de conquistar uma grande volta. Egan Bernal, Iván Ramiro Sosa (ambos da Sky) e o seu futuro companheiro Daniel Martínez são três das suas referências, visto também serem dos ciclistas mais jovens. Mas antes, Nairo Quintana (Movistar) e Rigoberto Uran (EF Education First) foram dos primeiros das recentes gerações a mostrarem-se, sem esquecer um Miguel Ángel López (Astana) a confirmar cada vez mais todo o seu talento, isto para falar de homens para a montanha, como é Higuita.


Higuita venceu a quarta etapa da Volta ao Alentejo
(Fotografia: © Podium/Paulo Maria)
Será que a Colômbia vai dominar o ciclismo? "Esperemos que sim", disse, deixando escapar um grande sorriso. "A Colômbia pode ser no ciclismo o que a Argentina é no futebol. Há muitos ciclistas jovens, muito fortes, como Bernal, Dani [Martínez], Sosa e mais que estão a surgir. É muito bom", afirmou.

E Higuita pode ser um desses novos talentos a emergir. Luis Fernando Saldarriaga acreditou que estava perante mais um potencial grande corredor. É um nome incontornável do ciclismo colombiano, tendo trabalhado com Quintana, Johan Esteban Chaves (Mitchelton-Scott), Jarlinson Pantano (Trek-Segafredo) e os Henao, Sergio (UAE Team Emirates) e Sebastián (Sky).

"Foi muito importante trabalhar com ele. É uma pessoa muito profissional. Ele sabe como respeitar os processos [de evolução] muito bem, sem dar saltos. Ele faz tudo bem e passa-nos os conhecimentos, as tácticas. É excelente para amadurecer e poder chegar aqui a uma equipa europeia com os conhecimentos que nos ajudam a chegar ao World Tour", explicou Higuita.

Foi em 2012 que Saldarriaga ficou convencido com Higuita, não só pelas suas características como ciclista, mas também como pessoa. Na Volta do Futuro colombiana, Higuita cedeu uma roda a um companheiro, renunciando assim a qualquer pretensão pessoal a uma vitória. No dia seguinte, a sua atitude foi em ajudar os colegas no que precisassem, inclusivamente em tratar-lhes das bicicletas.

Esta dedicação vem desde que fez a sua primeira corrida ainda como aluno da primária. Mesmo sem poder dedicar-se logo à modalidade, nunca desistiu. Com a subida ao World Tour na mira, na Fundación Euskadi tem estado a preparar esse passo e nada melhor do que andar já ao ritmo dos principais nomes da modalidade. Nas corridas espanholas, Challenge de Maiorca, Volta à Comunidade Valenciana, Ruta del Sol, Higuita somou resultados de top dez, com destaque para um segundo lugar numa etapa desta última corrida, atrás de Simon Yates (Mitchelton-Scott), sem esquecer a vitória na classificação da juventude na prova valenciana.

"Comecei muito bem a época. Era o que queria. Estar a discutir as corridas com os ciclistas do World Tour é emocionante para mim", admitiu. Nas semanas recentes baixou um pouco o seu ritmo, para depois subir novamente a forma quando chegar à Califórnia (de 12 a 18 de Maio). Ainda assim estava suficientemente bem para ganhar uma etapa na Volta ao Alentejo, em Portalegre, tendo sido quinto na geral. "Não podia andar sempre tão forte. Quero é estar muito forte na Califórnia, a primeira corrida pela EF Education First. Quero ir com muita ambição", realçou, tendo como exemplo as recentes prestações nesta corrida de Martínez e Bernal. Ou seja, o terceiro classificado e o vencedor de 2018.


"O Ricardo Vilela é uma pessoa muita tranquila, que nos passou a cultura portuguesa e a sua experiência. É uma pessoa por quem tenho muito carinho e, por causa dele, tenho também muito carinho por Portugal"

Martínez já vai passando alguns conhecimentos, pois Higuita tem treinado com o futuro companheiro. "Não falamos muito na bicicleta. Vamos sempre muito rápido", brincou. Porém, afirmou como o compatriota vai-lhe passando alguma da sua experiência, apesar de também ele ser jovem, 22 anos, tendo conquistado a sua primeira grande vitória recentemente no Paris-Nice, ao vencer a etapa no Col de Turini.

Na recta final da sua presença na Fundación Euskadi, Higuita deixa elogios ao que diz ser uma família, com directores que lhes transmitem muita experiência, além de um Mikel Landa que também é uma figura importante para os jovens ciclistas da equipa. "O Mikel Landa dá-nos muita motivação e queremos sempre aprender com ele. É uma equipa que pode pensar muito no futuro. O Mikel quer hajam mais ciclistas como ele."

Mas há outro corredor que Higuita elogia, um companheiro português dos tempos da Manzana Postobón. "O Ricardo Vilela é uma pessoa muita tranquila, que nos passou a cultura portuguesa e a sua experiência. É muito profissional. Orientava-nos nas corridas. É uma pessoa por quem tenho muito carinho e, por causa dele, tenho também muito carinho por Portugal", referiu.

Sergio Higuita está com os olhos postos num futuro cada vez mais próximo do World Tour. Mas os olhos também estarão nele, mais um colombiano a prometer: "Agora os olhos do mundo estão nos colombianos. Estão a disputar as grandes corridas. Mas isso também nos dá muita ilusão, pois há muitos jovens na Colômbia que têm o sonho de chegar aqui." Higuita concretizou o seu, mas tem mais por realizar, como ganhar uma grande volta, clássicas... 

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