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25 de novembro de 2019

Versão avassaladora da Astana desaparece nas grandes voltas

(Fotografia: Facebook Astana Pro Team)
Durante a primeira fase da temporada foi uma disputa entre Astana e Deceuninck-QuickStep. Quando uma ganhava, a outra não demorava a responder. A equipa cazaque dominava nas provas por etapas, entre triunfos em tiradas e gerais. A belga foi implacável nas clássicas, mas também foi ganhando muitas etapas. Porém, quando chegou o grande momento de mostrar que de facto é uma equipa forte para as grandes voltas, a Astana ficou mais uma vez muito aquém. Miguel Ángel López não conseguiu disputar o Giro. Na Vuelta ainda foi líder por três vezes, mas acabou fora do pódio. Já Jakob Fuglsang continua na difícil relação com a Volta a França. Dos irmãos Izagirre esperava-se mais, principalmente de Ion, mesmo estando em segundo plano para o colombiano e dinamarquês.

Das 37 vitórias em 2019, 30 foram alcançadas até ao final de Junho. Foi uma primeira metade de temporada avassaladora, mas ainda assim com uma Volta a Itália em que a Astana não ficou plenamente satisfeita. Pello Bilbao (duas) e Dario Cataldo conquistaram vitórias em etapas, mas a Astana quer regressar ao topo do pódio de uma grande volta. López não demorou a começar a ver a possibilidade de liderança escapar e quando tentou lutar por uma posição pelo menos de top cinco ou mesmo o pódio, um espectador provocou uma queda ao ciclista, que respondeu com uma chapada, num dos momentos mais insólitos do ano.

A López aconteceu um pouco de tudo de mau e o pouco de bom que se viu, não chega para tentar ganhar um Giro - venceu a juventude, mas nesta fase não chega - ou uma Vuelta. Em Espanha a irregularidade das exibições custaram-lhe o pódio. Mas são mais dois top dez nas três semanas e a Astana não adiar mais: López vai atacar o Tour em 2020.

Jakob Fuglsang parecia que aos 34 anos se tinha reinventado mais uma vez e seria desta que ajustaria contas com o Tour. Sempre que foi como líder, a tendência foi para correr mal. Chegou à corrida depois de meses fenomenais. Já tem o seu o monumento, numa semana das Ardenas sempre em crescendo: terceiro na Amstel Gold Race, segundo na Flèche Wallonne e depois primeiro na Liège-Bastogne-Liège. Antes já tinha sido segundo na Strade Bianche (foi uma disputa particular nas clássicas com Julian Alaphilippe, da Deceuninck-QuickStep), terceiro no Tirreno Adriatico e ainda uma vitória na Ruta del Sol, em Fevereiro. E houve mais excelentes resultados.
Ranking: 5º (11474,5 pontos) 
Vitórias: 37 (incluindo a geral da Ruta del Sol, Volta à Catalunha, Volta ao País Basco, Critérium du Dauphiné, três etapas no Giro e duas na Vuelta) 
Ciclista com mais triunfos: Alexey Lutsenko (10)
No Tour acabou por abandonar devido a problemas físicos devido a uma queda. Mas Fuglsang mostrou como mentalmente estava forte neste 2019 e foi à Vuelta conquistar uma etapa. Para o ano deverá trocar de calendário com López e vai pela segunda vez ao Giro, na esperança que talvez seja mesmo azarado.

Mas esta equipa não se resume a López e Fuglsang. Bilbao e Luis León Sánchez são sempre garantia de boas exibições e vitórias, mas o primeiro está de saída para a Bahrain-Merida, uma perda grande para o bloco de apoio a López. Contudo, uma da principais figuras da Astana é um homem da casa: o campeão cazaque Alexei Lutsenko.

Aos 27 anos é um ciclista muito à imagem do director da equipa, Alexander Vinokourov. Extremamente combativo, capaz de se mostrar em corridas por etapas (venceu a Volta a Omã e Artic Race, foi sétimo no Critérium du Dauphiné e quarto na Alemanha) e sempre perigoso nas clássicas, Lutsenko somou dez vitórias. Este corredor já tem um papel de total liberdade, pois tornou-se numa garantia de sucesso.

Do lado oposto de performance esteve Ion Izagirre, cuja troca da Bahrain-Merida para a Astana acabou por significar perda de estatuto. Não foi fácil para o espanhol assimilar que nem na Vuelta seria o número um, sendo que o grande momento chegou na Volta ao País Basco e já tinha ganho a Volta à Comunidade Valenciana. Ion, tal como o irmão Gorka, vão querer mais destaque em 2020, mas não será fácil.

Mesmo com os bons ciclistas que tem, a Astana necessita de fortalecer a sua aposta nas grandes voltas, pois começa a tornar-se frustrante ser tão ganhadora antes de chegar ao Giro e depois falhar nas três semanas (Tour e Vuelta incluídos). O basco Óscar Rodríguez (Euskadi-Murias e vencedor de uma etapa na Vuelta em 2018) e o russo Aleksander Vlasov (Gazprom-RusVelo) chegarão para este tipo de corridas, mas não será fácil substituir Bilbao e Dario Cataldo (está a caminho da Movistar).

Vinokourov pode querer ganhar e muito uma grande volta, mas tal não significa que não vai querer continuar a querer vencer tudo o que puder, pelo que foram contratados Alex Aranburu (um dos mais combativos na última Vuelta ao serviço da Caja Rural) e Davide Martinelli (Deceuninck-QuickStep) para serem reforços no sprint, tal como Fabio Fellinne (Trek-Segafredo), que também irá ser aposta nas clássicas.

Independentemente de não conseguir conquistar uma grande volta, há algo que é inegável nesta Astana: é uma equipa completamente feita à imagem do seu director. Dá espectáculo e quer ganhar seja em que corrida for.


9 de setembro de 2019

Roglic vai aproveitando todos os rivais para consolidar a liderança

(Fotografia: © Sarah Meyssonnier/La Vuelta)
Por um longo momento parecia que tinham desistido. Parecia que tinham aceite a superioridade de Primoz Roglic e que a Vuelta estava entregue. Tudo se pensa quando uma etapa com tanto potencial para o espectáculo e para mexer na luta pela camisola vermelha, acaba por ser das mais aborrecidas de montanha, não só da corrida espanhola, mas das três grandes voltas de 2019. Os ataques ficaram guardados bem para o fim. Não com a meta a vista, mas quase. Espectáculo não houve, tivemos direito apenas a uns minutos em que Roglic cedeu ligeiramente após o ataque de Miguel Ángel López, ganhando depois fôlego para mais uma demonstração que será preciso os rivais fazerem muito (mas mesmo muito) mais para o baterem.

Desta 16ª etapa ficará a vitória que Jakob Fuglsang há tanto tempo perseguia. O dinamarquês está a ter o melhor ano da sua carreira. Depois de conquistar o seu primeiro monumento na Liège-Bastogne-Liège, numa campanha das Ardenas simplesmente fenomenal, Fuglsang conquistou a primeira vitória numa grande volta. Cortou a meta isolado no Alto de la Cubilla e consegue assim atenuar a desilusão que foi a Volta a França, corrida que abandonou após queda. E há que não esquecer que venceu o Critérium du Dauphiné e a Ruta del Sol, fez pódio na Amstel Gold Race, Flèche Wallonne, Strade Bianche e no Tirreno-Adriatico.

(Fotografia: © La Vuelta)
Aos 34 anos, Fuglsang não só mostrou estar de regresso à melhor forma, como vive uma época marcante, que ainda deverá passar pelos Mundiais de Yorkshire.

Tal como aconteceu com Sepp Kuss (Jumbo-Visma) no sábado, Fuglsang foi lançado na frente da corrida com Luis León Sánchez a pensar numa possível ajuda a López. Porém, a Astana acabou por optar por apostar na etapa com o dinamarquês. A conquista da geral apresenta-se muito difícil. López não está tão forte como precisaria de estar nesta fase e Roglic, o líder da Vuelta, está fortíssimo.

Em três etapas de montanha, Roglic "colou-se" a rivais para ganhar vantagem a outros. Começou por aliar-se a Pogacar a deixou Alejandre Valverde, Nairo Quintana e López, para trás. No sábado foi com Valverde e aumentou o fosso para o colombiano e afastou o compatriota da UAE Team Emirates. Neste domingo, ainda viu López e Pogacar afastarem-se um pouco, mas quando resolveu que queria juntar-se à dupla, rapidamente lá chegou e deixou Valverde, o segundo classificado, para trás. Ganhou 23 segundos e tem agora 2:48 minutos sobre o espanhol da Movistar, com Pogacar a ser terceiro a 3:42 e López quarto, a 3:59. Quintana (Movistar) está em queda livre. Perdeu mais de 2:30 e já são 7:43 para Roglic. Até foi ultrapassado por Rafal Majka (Bora-Hansgrohe) por três segundos.

Foi fraqueza ou táctica?

Quando Roglic não seguiu na roda de López e Pogacar - ainda tentou, mas não forçou em demasia o seu andamento - a vontade de se querer ver alguma acção ainda fez pensar que talvez fosse o momento em que a Vuelta deixaria de parecer que está praticamente resolvida. O esloveno é visto a olhar para trás, onde estava Valverde e chegou a deixar-se apanhar pelo espanhol. Pouco depois arrancou e foi o ciclista do costume nesta Vuelta: imbatível. Roglic explicou que tentou perceber como estava Valverde e só quando teve a certeza que o espanhol não estava bem é que foi atrás de López e Pogacar, consolidando assim a sua liderança, quando ficam a faltar cinco dias para o final da Vuelta, com dois a terem ainda muita montanha para ultrapassar.

Para López foi mais um dia frustrante. Desta feita atacou, ainda que foi muito tarde para fazer grandes diferenças, mas fica claro que as forças já não são muitas. Nem do colombiano, nem de ninguém. López não se aproximou de Roglic na geral, nem de Pogacar, com quem luta pelo pódio e pela liderança na juventude. 17 segundos separam os dois ciclistas.

Ruben Guerreiro, outra vez

Na etapa de Pravia  a  Alto de La Cubilla (144,4 quilómetros) é obrigatório falar mais uma vez do português da Katusha-Alpecin. Na longa subida final - quase 20 quilómetros -, a última de categoria especial da Vuelta, Ruben esteve quase sempre com os principais homens da geral. Perdeu menos de um minuto para Roglic e subiu mais um lugar na geral, sendo 15º, a 17:26 minutos. Nunca é de mais recordar dois pormenores: é a estreia numa grande volta e ainda não tem contrato para 2020...

Classificações completas, via ProCyclingStats.

Aranda de Duero - Guadalajara (219,6 quilómetros)



Esta terça-feira descansa-se! E quarta é um dia estranho na Vuelta. Será a etapa mais longa, 219,6 quilómetros, sem contagens de montanha! Haverá a subida ao Alto de Carrascosa, que levará o pelotão aos 1380 metros de altitude, mas não haverá pontos em jogo, numa altura em que a liderança da montanha mudou de dono. Ángel Madrazo perdeu a camisola para o francês da AG2R, Geoffrey Bouchard. O ciclista da Burgos-BH era o líder desde a segunda etapa, a primeira em linha.

Quanto à tirada de quarta-feira, na grande volta das fugas, é mais uma oportunidade para se apostar forte em escapar ao pelotão, mas as equipas dos sprinters poderão ter outras ideias. Quinta-feira volta tudo à normalidade. Haverá mais uma etapa bem complicada de montanha, na aproximação ao grande final de Madrid.




»»Kuss e Roglic em dia perfeito para a Jumbo-Visma. Mas Ruben Guerreiro é cada vez mais uma figura da Vuelta««

»»Dois dias em que falhar poderá ser o adeus à luta pela Volta a Espanha««

28 de abril de 2019

Vitória mais do que merecida

(Fotografia: Facebook Astana)
A menos de cinco quilómetros da meta deixa-se escapar um bem audível "ai"... Não foi preciso levar as mãos à cabeça, pois Jakob Fuglsang conseguiu segurar a bicicleta, naquela que esteve perto de ser uma queda que custaria um monumento. Mas a reacção foi compreensível. Ali, naquele instante, um monumento poderia ter escapado a Fuglsang. Por tudo o que o dinamarquês tinha feito na corrida, por tudo o que fez na semana das Ardenas, por tudo o que tem feito numa excelente temporada, Fuglsang merecia ganhar a Liège-Bastogne-Liège.

"Um pequeno susto, um momento de adrenalina", descreveu o ciclista da Astana sobre aquela quase queda (ver vídeo em baixo). Mas nada evitou que concluísse uma feliz contagem: na semana das Ardenas começou com um terceiro lugar na Amstel Gold Race, um segundo na Flèche Wallonne e finalmente o primeiro na Liège-Bastogne-Liège. Se certamente teria gostado de vencer qualquer das corridas, conquistar um monumento é fazer parte da história das corridas mais históricas do ciclismo, pelo que escolheu a ideal para coroar a melhor época de clássicas que já realizou. E se quisermos um pouco mais na contagem, Fuglsang, antes de viajar para as Ardenas, foi quarto na Volta ao País Basco.

Ficou mais uma vez comprovado que não há de facto vencedores anunciados no ciclismo e alguma vez havia de acontecer a Julian Alaphilippe. Fraquejou. Por uns instantes esteve lado a lado com Fuglsang, na reedição da dupla que tanto tem andado junta desde a Strade Bianche. Tanto nesta prova italiana, como na Flèche Wallonne, Fuglsang perdeu para o francês e na Amstel só não discutiram a vitória entre eles, porque facilitaram e um super Mathieu van der Poel aproveitou para conquistar uma inesquecível vitória.

Na Liège, Fuglsang não quis arriscar. Não quis companhia num final que regressou à cidade belga e foi em terreno plano, bem diferente do que tem marcado a clássica nos últimos quase 30 anos, em Ans. O percurso chamou ciclistas que gostam de sprints, mas foi um que se dá bem com subidas que venceu. As muitas dificuldades da Liège-Bastogne-Liège não matam, mas moem e muito. Que o digam Alejandro Valverde e Rui Costa (abandonaram), Philippe Gilbert, Greg van Avermaet, Michael Matthews e muitos mais, que nem na discussão conseguiram estar.

Alaphilippe não resistiu na última subida de Roche-aux-Faucons e antes até terá desejado boa sorte a Fuglsang, ao perceber que não iria ter capacidade para discutir a corrida. Já há algum tempo que não se via o francês claudicar assim. Mas depois de tantos meses em alta rodagem, com nove vitórias, a Liège-Bastogne-Liège tem de esperar mais um ano. Há que não esquecer que alcançou o seu primeiro monumento na Milano-Sanremo, mas aquele que lhe parece tão perfeito volta a ficar adiado.

Novo fôlego de Fuglsang

Aos 34 anos, o dinamarquês ganha um novo fôlego na carreira. Depois de tantas épocas como gregário, Fuglsang muito lutou para ter o papel principal na Astana. Não conseguiu afirmar-se como líder no Tour como queria, apesar de em 2017 até ter ganho o Critérium du Dauphiné, a sua grande conquista até este domingo. A afirmação de Miguel Ángel López e a chegada de Ion Izagirre poderia fazer tremer Fuglsang, que não agarrou por completo a liderança após a saída de Aru. Mas não. Até poderá ter sido uma "pressão" positiva.

Talvez Fuglsang tenha feito o seu caminho para amadurecer como líder. 2019 está a ser um ano sensacional, tendo ganho a Ruta del Sol e foi terceiro no Tirreno-Adriatico. Não significa que será um forte candidato a discutir a Volta a França. Contudo, será o número um da Astana e será natural que aspire a um top dez, no mínimo e seria de estranhar que não sonhasse com o pódio. Difícil, mas a motivação estará em alta.

Liège estudada ao pormenor

Fuglsang tinha não só reconhecido o percurso de quase 256 quilómetros, como escolheu de imediato onde poderia atacar. Escolheu a última subida categorizada para deixar o grupo e numa pequena ascensão que se seguiu, quebrou a resistência de Michael Woods e Davide Formolo também não resistiu, aguentando pelo menos um segundo lugar. A Bora-Hansgrohe ainda fechou o pódio com Max Schachmann. O italiano ficou a 27 segundos e o alemão a 57, sendo o mais forte no sprint para o terceiro lugar.

Tudo estava destinado a ser perfeito e mesmo aquela forma de recuperar a bicicleta quando quase caiu foi só mais um pormenor de como perfeitamente se evita uma queda!

Classificações completas, via ProCyclingStats, com José Gonçalves (Katusha-Alpecin) a terminar na 73ª posição, a 13:11 minutos.

Na luta particular de vitórias entre Astana e Deceuninck-QuickStep, a formação cazaque soma 23 contra as 26 da formação belga. Tem sido destaque nas provas por etapas, mas Fuglsang finalmente foi ganhar no terreno predilecto da Deceuninck-QuickStep, nas clássicas.


Quando não se sabe correr mal

Na corrida feminina, a holandesa Annemiek van Vleuten regressou às vitórias depois de dois segundos lugares na Amstel Gold Race e na Flèche Wallonne. Exibição também perfeita da ciclista da Mitchelton-Scott, deixando a compatriota Floortje Mackaij (Sunweb) a 1:39 minutos, num pódio 100% holandês. Demi Vollering (Parkhotel Valkenburg) foi terceira, a 1:43.

Em 2019, o pior que Van Vleuten fez nas clássicas foi um sétimo lugar na Através da Flandres, tendo ganho a Strade Bianche.

24 de abril de 2019

Flèche Wallonne segue guião à risca na confirmação do novo rei do Muro de Huy

(Fotografia: Twitter Flèche Wallonne)
"Este ano foi mais difícil", disse Alaphilippe, no entanto, fá-lo parecer tão fácil. O Muro de Huy ganhou um novo rei, com o francês a vencer pela segunda vez consecutiva. Bem se falou há um ano que, ao bater o Alejandro Valverde, cinco vezes vencedor da Flèche Wallonne, se estava perante uma passagem de testemunho. Alaphilippe confirmou isso mesmo esta quarta-feira, com mais uma exibição de enorme nível na segunda corrida da semana das Ardenas, deixando para trás a frustração de uma Amstel Gold Race perdida com a meta à vista.

Quanto a Valverde, nem se o viu no final, numa temporada muito aquém do que o espanhol habituou. Foi 11º em mais um resultado que ficou longe do ambicionado. O campeão do mundo celebra esta quinta-feira, 25 de Abril, 39 anos, e resta-lhe esperar que seja a Liège-Bastogne-Liège a corrida que o recoloque na disputa por vitórias.

Alaphilippe é agora a grande figura das Ardenas e, desde já, o favorito para o monumento de domingo. Foi com uma já habitual companhia das clássicas de 2019 que discutiu a vitória. Jakob Fuglsang não consegue descobrir forma de bater Alaphilippe. Perdeu a Strade Bianche para o francês, estava na discussão com o mesmo rival na Amstel Gold Race até que Mathieu van der Poel se intrometeu e, na Flèche Wallonne, não teve pernas para sobreviver ao Muro de Huy, sendo novamente segundo, atrás do francês.

Julian Alaphilippe reunia todo, mas mesmo todo o favoritismo para a Flèche Wallonne. Mesmo com o circuito final a ser mais endurecido com três passagens nas subidas Côte d’Ereffe e Côte de Cherave, em vez das duas de 2018, tal não fez diferença naqueles 1300 metros finais de Huy. Até surpreendeu ver Fuglsang ganhar alguma vantagem, com o próprio dinamarquês a admitir que a Flèche Wallonne não é a corrida que melhor lhe assenta. Mas com Alexey Lutsenko a ficar "sentado" ainda antes do Muro de Huy, a Astana apostou novamente num ciclista que está a realizar uma grande temporada. Contudo, Fuglsang admitiu a incapacidade de "apanhar" o ciclista francês, numa subida mais ao estilo de Alaphilippe do que do dinamarquês.

O que não foi surpresa, foi ver Alaphilippe fechar o espaço que Fuglsang chegou a conseguir abrir, ultrapassar o rival, dar um "chega para lá" quando sentiu o dinamarquês aproximar-se um pouco, e ganhar. Desta vez sabia que era o vencedor. Há um ano, pensou que uma fuga tinha singrado! Alaphilippe disse que foi mais difícil ganhar a segunda vez até porque a pressão era bem maior. Apesar de se ter desgastado para recuperar posição devido a um furo, o trabalho da equipa e a classe do francês garantiram a 25ª vitória de 2019 da Deceuninck-QuickStep.

Em causa estava também ultrapassar a enorme frustração que ficou por ver Van der Poel ganhar a Amstel Gold Race, quando tanto Alaphilippe e Fuglsang tinham tudo para discutirem apenas os dois. Dificilmente o francês não teria ganho esse confronto, mas a dupla deixou-se apanhar nos metros finais. A tripla das Ardenas ficou sem efeito para o francês, mas ser o rei de Huy deixa a confiança do ciclista reforçada ao máximo, quando este procura um monumento que parece esperar por ele.


Já ganhou um este ano, a Milano-Sanremo, mas a Liège-Bastogne-Liège sempre foi uma corrida que tem Alaphilippe como um ciclista com tudo para a ganhar. Aos 26 anos, o ciclista junta a uma fantástica forma física, uma capacidade perfeita de ler a corrida e de saber quando deve agir. E claro, com uma Deuceninck-QuickStep a poder controlar a corrida, perder a Flèche Wallonne teria sido um resultado inesperado para Alaphilippe e não discutir a Liège será algo impensável, em condições normais.

A clássica desta quarta-feira até foi mais mexida do que em edições recentes, mas o guião acabou por ser muito idêntico às últimas edições. A diferença é que antes se perguntava quem bate Valverde e a partir de agora será, quem bate Alaphilippe.

As quedas tiraram da corrida alguns candidatos, as "más sensações" tiraram outros, como Dan Martin. Pelo menos foi assim que a UAE Team Emirates justificou o abandono do irlandês. Porém, Diego Ulissi foi ao pódio, com Rui Costa colocar-se muito bem durante grande parte da corrida, mas na penúltima das subidas mostrou que não seria capaz de lutar por um lugar da frente, trabalhando para o colega. O português foi 26º, a 45 segundos, apontando agora à corrida que mais gosta das Ardenas: Liège-Bastogne-Liège.

José Gonçalves (Katusha-Alpecin) terminou na 73ª posição, a 7:40 do vencedor, e o colega de equipa, Ruben Guerreiro, foi 90º, a 10:29 (classificação completa neste link, via ProCyclingStats).

Fica a faltar o quarto monumento do ano para fechar as Ardenas e não é de afastar novo confronto entre Alaphilippe e Fuglsang. Na perspectiva do dinamarquês, tem vindo sempre a melhorar: terceiro na Amstel Gold Race, segundo na Fléche Wallonne... só falta o primeiro lugar...

Na corrida feminina também se confirmou o favoritismo de Anna van der Breggen (Boels-Dolmans). São cinco vitórias consecutivas na Flèche Wallonne, ela que tem o título de rainha de Huy, igualando o recorde de Marianne Vos, que, no entanto, não venceu as cinco vezes consecutivas. Vos bem tentou defender a sua marca, mas ficou no quarto lugar, a 14 segundos da campeã do mundo Van der Breggen (classificação completa neste link, via ProCyclingStats).


»»Simplesmente fenomenal!««

»»Rui Costa deixou boas indicações para umas Ardenas de máxima importância««

9 de março de 2019

Deceuninck-QuickStep vs Astana. A luta final apropriada na Strade Bianche

(Fotografia: Strade Bianche)
Quando Jakob Fuglsang acelerou, deixando para trás Wout van Aert, mas levando com ele Julian Alaphilippe, o pensamento foi: apropriado! Numa corrida tão espectacular como a Strade Bianche, foi mais do que apropriado ter um frente-a-frente entre um ciclista da Astana e da Deceuninck-QuickStep, as duas equipas mais ganhadoras de 2018. Neste frente-a-frente mais directo, foi a formação belga que saiu vitoriosa e apanhou a rival: somam 15 vitórias cada uma.

Para a Deceuninck-QuickStep vencer a este ritmo não é nada de novo e até soma mais duas vitórias do que em 2018, fazendo a comparação a nível de datas (algumas corridas estão em alturas do calendário um pouco diferentes). Já a Astana somava cinco há um ano. Em 2017 estava a zero! Então foi Michele Scarponi que terminou com o jejum, dias antes da sua trágica morte. 2018 foi o primeiro sinal que era uma equipa bem diferente, ainda que com praticamente os mesmo ciclistas. Em 2019, Aleksander Vinokourov vê os seus ciclistas estarem em disputa em várias corridas e "viciados" no ritmo de vitórias. 

Quinze triunfos distribuídos por nove ciclistas. Na Deceuninck-QuickStep foram oito a alcançar o mesmo número de vitórias. Mas há diferenças, que fará diferenças no ranking, por exemplo. A equipa belga tem cinco conquistas World Tour. A Astana nem uma. Tem cinco HC (segunda categoria). A Deceuninck-QuickStep tem três a este nível. Todas as restantes de ambas são de nível 1, ou seja, a terceira categoria das corridas do calendário internacional.

As vitórias, seja que categoria forem, são sempre importantes - que o diga a Sunweb, a única equipa World Tour ainda a zero -, mas as que a Deceuninck-QuickStep está a alcançar estão a começar a ofuscar a boa temporada da Astana. Afinal são quatro clássicas numa semana, quatro vitórias, duas World Tour.

Regressando então ao frente-a-frente Julian Alaphilippe vs Jakob Fuglsang. Estavam representadas as duas equipas mais ganhadoras de 2019, portanto, novo pensamento: será que é a Astana que vai quebrar a senda nas clássicas da Deceuninck-QuickStep? Não, ainda não foi desta. A formação belga está imbatível na sua especialidade.

Era difícil atribuir um claro favoritismo naqueles quilómetros finais, ainda que a recente forma de Alaphilippe e a sua clara evolução táctica, de leitura de corrida, talvez lhe dessem uma ligeira vantagem. Teórica, claro. Foi Fuglsang quem, na subida final, deixou novamente Wout van Aert para trás. O belga da Jumbo-Visma trabalhou tanto para apanhar o duo da frente, mas por uma segunda vez não teve pernas. Dois anos, dois terceiros lugares. Muito positivo para um ciclista jovem e tão talentoso.

Mas o que também não falta a Alaphilippe é talento. E inteligência. Quando, quilómetros antes, Fuglsang e Van Aert deixaram o grupo da frente, Alaphilippe, um pouco recuado, percebeu que era o momento para arrancar também. Soube depois acompanhar e ajudar Fuglsang quando foi preciso e deixar Van Aert em dificuldades. E soube ainda melhor escolher o momento exacto para deixar o dinamarquês para trás nos metros decisivos. Foi a primeira vez que esteve na Strade Bianche, mas conhecia na perfeição todos os pormenores finais da Strade Bianche.

Alaphilippe foi perfeito. O próprio realçou como não cometeu erros. Fuglsang não conseguiu o mesmo nível de perfeição táctica e talvez lhe tenham faltado algumas forças para a explosão final necessária. Ainda assim foi uma boa corrida do dinamarquês de 33 anos. Aos 26, Alaphilippe juntou ao currículo mais uma grande vitória. Pode não ser um voltista para ganhar o Tour, mas está a tornar-se num caso sério de sucesso no ciclismo gaulês. 

A Strade Bianche era mesmo um objectivo seu. "A minha época não é apenas a Flèche Wallonne [que venceu em 2018] e a Volta a França [duas etapas e rei da montanha]. Precisava de algo novo", admitiu. A Strade Bianche demonstrou mais uma vez como é uma clássica que, apesar do sterrato, acaba por assentar bem a diferentes tipos de ciclistas, ao contrário do que acontece com as do pavé. Alaphilippe e Fuglsang são a prova, tal como Romain Bardet foi há um ano quando fez segundo, por exemplo.

Os 184 quilómetros, com Siena como palco à partida e chegada (ainda que em pontos diferentes) são uma enorme incógnita, com tantos ciclistas de características tão distintas presentes. Alaphilippe demonstrou mais uma vez a sua capacidade para se adaptar a diferentes estilos de corridas. Segue para o Tirreno-Adriatico antes do primeiro monumento do ano, a Milano-Sanremo. É considerado o monumento dos sprinters, mas Michal Kwiatkowski e Vincenzo Nibali demonstraram recentemente como se pode surpreender os homens mais rápidos. Se as Ardenas são as clássicas de eleição de Alaphilippe, talvez seja boa ideia não o menosprezar em Sanremo. E, mais um pormenor, Alaphilippe ultrapassou o companheiro Elia Viviani: quatro contra três. (Classificação completa da Strade Bianche neste link, via ProCycling Stats)

Esta batalha entre Deceuninck-QuickStep e Astana não deverá ficar por aqui e atenção que há mais equipas a quererem mostrar que também estão em sendas vencedoras. A Mitchelton-Scott vai em 11 vitórias e a UAE Team Emirates é uma equipa transformada: 10 (ganhou 12 em todo o ano de 2018).

A Mitchelton-Scott que também não pára de vencer com a sua equipa feminina. A fantástica ciclista holandesa Annemiek van Vleuten realizou mais uma exibição de enorme nível para ganhar a sua primeira Strade Bianche. Deixou a dinarmaquesa Annika Langvad (Boels-Dolmans) a 37 segundos e a polaca Katarzyna Niewiadoma (Canyon SRAM Racing) a 40. Pode ver neste link a classificação completa da corrida feminina, via ProCyclingStats.

Os portugueses

Ruben Guerreiro foi o melhor entre os três portugueses presentes. O ciclista da Katusha-Alpecin não conseguiu ficar no grupo que chegou a estar na frente antes da fuga do trio, apesar de ter feito uma boa corrida, demonstrando que está a subir de forma. Terminou na 22ª posição, a 2:56 minutos de Alaphilippe. Seguiu-se Nelson Oliveira (Movistar), com um 25º lugar, a 3:05. Rui Costa (UAE Team Emirates) abandonou a corrida italiana.

Os três ciclistas vão continuar por aquele país e na quarta-feira partirão para o Tirreno-Adriatico, que contará também com José Gonçalves (Katusha-Alpecin). Ainda em Itália, mas já este domingo, serão os gémeos Oliveira a mostrarem-se, pois ambos foram chamados pela UAE Team Emirates para a corrida de um dia GP Industria & Artigianato. Também amanhã arranca o Paris-Nice, que terá Amaro Antunes (CCC) em acção.




28 de novembro de 2017

Um ano com Scarponi no pensamento e com as vitórias a escassearem

(Fotografia: Facebook Astana)
Em tempos foi uma toda poderosa equipa. Mas os tempos são outros e mesmo sendo uma estrutura com um orçamento bem folgado, a Astana vive uma fase de algum descrédito. As grandes figuras não querem ficar, outras não querem ir para lá. Ainda assim, entrou em 2017 com um conjunto de ciclistas preparados a lutar por corridas. Fabio Aru estava determinado em ganhar o Giro100, Miguel Ángel López passou grande parte da temporada a recuperar de uma fractura na perna feita no final de 2016, mas apontava nem que fosse à Vuelta. Jakob Fuglsang teria a oportunidade de liderar no Tour e depois haveria um Dario Cataldo, um Oscar Gatto, Tanel Kangert, Luis Leon Sanchez e Alexey Lutsenko, entre outros, que poderiam sempre conquistar alguns triunfos. Porém, cedo ser percebeu que esta Astana teria dificuldade em impor-se como outrora, mas esse acabou por ser o menor dos problemas.

A época começou difícil, teve o pior momento possível em Abril e apesar de umas poucas alegrias, acabou novamente mal. O arranque não poderia ser mais desesperante, os meses passaram e vitórias... nem vê-las. O foco estava no Giro100 e em Aru, até que o líder caiu durante um treino e a recuperação ia ser demorada. Alexander Vinokourov, director da equipa, bem podia levar as mãos à cabeça. Nestes momentos sabe sempre bem ter um ciclista como Michele Scarponi. Apesar da veterania, era claro que a experiência poderia ser uma mais valia e Scarpa deu a resposta ao vencer na primeira etapa da Volta aos Alpes. Estávamos a 17 de Abril. Um pequeno suspiro de alívio por parte da Astana. Estaria a época a compor-se? Cinco dias mais tarde o ciclismo sofreu uma perda enorme. Scarponi foi atropelado ao treinar perto de casa. Morreu e deixou um vazio no pelotão. E deixou uma Astana sem rumo para a Volta a Itália.

Entre lágrimas e vontade de homenagear o seu companheiro, os ciclistas da Astana partiram para o Giro apenas com a responsabilidade de tentar aquela vitória de etapa que pudessem dedicar a Scarponi. Foram só oito corredores, pois Vinokourov não quis substituir o líder. O número um da equipa era para Scarpa e para Scarpa ficou. Muito lutaram os homens da Astana, mas o triunfo desejado só chegaria a 9 de Junho no Critérium du Dauphiné. Jakob Fuglsang aparecia num momento crucial: venceu duas etapas e a geral da competição vista como a que dá as indicações para o Tour. Não só libertou a equipa da pressão da falta de vitórias, como finalmente era feita a homenagem a Scarponi. E finalmente a Astana entrou um pouco mais nos eixos.


Ranking: 15º (5018 pontos)
Vitórias: 18 (incluindo uma etapa no Tour, três na Vuelta, duas e a geral no Critérium du Dauphiné)
Ciclista com mais triunfos: Jakob Fuglsang e Miguel Ángel Lopez (4)

A emoção da ausência de Scarponi esteve sempre presente. Era inevitável. No entanto, surgiram outros problemas devido à mudança de calendário de Aru. Falhando o Giro, passou para o Tour, onde o dinamarquês tinha recebido garantias que seria líder. Fuglsang (32 anos) reagiu conquistando o Critérium du Dauphiné e falou-se de uma liderança partilhada com o italiano. Naturalmente que ninguém acreditou. Na estrada o dinamarquês tentou manter-se junto dos candidatos, mas acabaria por abandonar. Entretanto, Aru ganhou uma etapa e até andou de amarelo. Problemas de saúde prejudicaram o seu final na Volta a França e nem ao pódio conseguiu subir. Ainda assim, o quinto lugar foi positivo. Já o 13º na Vuelta, nem por isso.

Mas não foi grave, pois em Espanha reapareceu Miguel Ángel López. O pequeno colombiano, que tanto está a entusiasmar pela forma aguerrida de competir, ganhou duas etapas. Foi oitavo na geral e agora espera-se que evite acidentes na pré-temporada para que apareça em grande em 2018. É que a Astana bem precisa. Lutsenko também venceu uma etapa.

A felicidade de concluir a última grande volta com algum destaque esfumou-se bastante rápido. Depois de Vincenzo Nibali sair no final de 2016, foi Fabio Aru quem bateu com a porta. Era um desfecho mais do que anunciado, mas Vinokourov disse que foi apanhado de surpresa e até ameaçou processar o italiano. Defende que ficou sem alternativas para contratar porque Aru avisou tarde que não renovaria, o que prejudica a equipa para 2018. E de facto a equipa fica orfã de um líder. Falou-se de Nairo Quintana, mas este não quebrou contrato com a Movistar, Mikel Landa não quis regressar e Rigoberto Uran preferiu continuar na Cannondale-Drapac, futura EF Education First-Drapac powered by Cannondale.

Restou ao responsável cazaque admitir o óbvio: aos 23 anos, Superman López, como é conhecido, vai mesmo assumir papel de líder, com Fuglsang a ter uma nova oportunidade, só não se sabe em qual das três grandes voltas. Porém, o dinamarquês poderá ver um Jan Hirt passar-lhe rapidamente na hierarquia, já que é um ciclista que poderá em pouco tempo alcançar bons resultados, tendo em conta o que fez no Giro ao serviço da CCC Sprandi Polkowice. Omar Fraile (Dimension Data) será um homem com características para lutar por etapas e talvez uma ajuda interessante ao jovem López. Davide Villella (Cannondale-Drapac) será uma opção forte para as clássicas, Magnus Cort Nielsen (Orica-Scott) é ciclista para mexer com corridas e procurar surpreender. Espera-se ainda que após um ano a adaptar-se ao World Tour, o espanhol Pello Bilbao possa começar a ser uma opção mais séria para lutar pela geral das provas por etapas.

Certo, é que a Astana não poderá continuar a um nível tão baixo. O Critérium du Dauphiné, as etapas no Tour e Vuelta são sempre triunfos importantes. Mas para quem sempre assumiu querer ganhar as mais importantes corridas, passar meses sem vitórias e passar quase ao lado da discussão de algumas das principais provas... É normal que Vinokourov se sinta frustrado e vai exigir (e de que maneira) muito mais aos seus ciclistas em 2018.

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11 de junho de 2017

Podemos ter um pouco do espectáculo do Dauphiné no Tour por favor?

(Fotografia: ASO/A.Broadway)
Não queremos abusar da confiança, mas caros ciclistas que vão estar na Volta a França e que estiveram no Critérium du Dauphiné, será que podem dar novamente um pouco do espectáculo no Tour como fizeram esta semana? Percebemos que são três semanas e que a capacidade física tem de ser gerida de outra forma, contudo, por favor tenham um pouco da atitude que mostraram no Dauphiné. É tão bom ser fã de ciclismo quando alguns dos melhores do mundo lutam pela vitória e não jogam maioritariamente à defesa, com receio do que um homem possa fazer...

O Critérium du Dauphiné é uma espécie de antecâmara para o Tour, ainda que este ano seja muito mais difícil tirar grandes conclusões sobre os candidatos à Volta à França. Todos atacaram, todos sofreram, todos mostraram que estando uns melhores que outros, ainda há alguns pormenores a aprimorar até ao dia 1 de Julho. Jakob Fuglsang foi o vencedor surpresa que o Dauphiné de vez em quando tem, mas uma das grandes figuras foi Richie Porte, isto quando se fala de candidatos ao triunfo no Tour. Em anos anteriores foi mais fácil perceber quem se encontrava melhor ou pior a caminho da grande volta. Em 2017 parece que teremos mesmo de esperar pelo Tour. Ainda assim, há ilações que se podem tirar. Vamos por pontos.

E agora Astana?

Depois da queda que o tirou do Giro100, Fabio Aru não teve outra hipótese se não apontar ao Tour. Porém, a Astana tinha prometido a Jakob Fuglsang que ele é que seria o líder em França, antes do incidente do italiano. Aru chegou ao Dauphiné sem saber muito bem como estaria a sua forma. Está boa, recomenda-se e poderemos ter o Aru que gosta de mexer nas corridas e não aquele Aru que no Tour de 2016 foi uma sombra de sim mesmo. Porém, Fuglsang apareceu ainda melhor. Venceu duas etapas e na última o dinamarquês foi simplesmente fenomenal, tirando o que parecia ser uma vitória quase garantida a um Porte que até então estava fortíssimo. De uma assentada, o ciclista que nunca tinha ganho numa competição World Tour, somou três triunfos e logo numa das mais importantes corridas do calendário.

Fuglsang junta-se a Andrew Talansky e Janez Brajkovic como vencedores inesperados em tempos recentes. Mas esta vitória veio baralhar as contas da Astana. Não parecia haver grandes dúvidas em colocar Aru como líder, mas agora o dinamarquês deixou uma mensagem que mais forte era impossível: está pronto para lutar no Tour. Aos 32 anos as oportunidades começam a fechar-se para Fuglsang. Há pouco mais de um mês a Astana vivia momentos dramáticos, com o acidente de Aru e pouco depois a trágica morte de Michele Scarponi. Agora a formação cazaque tem um problema que certamente prefere: terá de escolher entre dois ciclistas em forma ou tentar gerir egos e tirar o melhor proveito tanto de Fuglsang como de Aru. De destacar ainda, que a equipa só contava com uma vitória este ano, precisamente por intermédio de Scarponi dias antes de morrer, o que significa que agora respira um pouco mais de alívio.

Porte e a sina do dia mau

Que enorme Richie Porte. Mesmo na hora da derrota foi enorme. Pelo que fez Fuglsang naturalmente que o dinamarquês mereceu (e muito) a vitória no Dauphiné, mas ela também teria ficado bem no australiano da BMC. Fez quase tudo bem. Foi exímio no contra-relógio, não se limitou a controlar e tentou ganhar vantagem nas montanhas. Mas uma boa equipa a rodear o líder é algo que dá muito jeito quando as diferenças não são grandes e são muitos os que podem tentar atacar. Assim foi. Porte foi obrigado a responder a um ataque em massa contra ele. Parecia que depois de ter estado tão bem durante toda a semana que mais uma vez teria um dia mau que lhe estragaria todo o trabalho.

Perdeu o Dauphiné, pelo que não se pode dizer que o dia foi bom. Porém, a recuperação de que foi autor, sozinho, conseguindo deixar Alberto Contador para trás como se o espanhol fosse um vulgar ciclista, apanhando Chris Froome que não aguentou o ritmo do seu antigo companheiro... Richie Porte foi fenomenal num dia que parecia que iria acabar em desgraça. Por dez segundos perdeu o Dauphiné. Dez segundos que se ganham nas bonificações ao ganhar uma etapa, como fez Fuglsang. No final Froome disse que Porte é o favorito para o Tour. Fica-lhe bem ainda mais sendo os dois amigos. Talvez não seja o favorito, mas Richie Porte já não é apenas um candidato ao pódio. Depois do que fez no Dauphiné é um candidato a lutar pela vitória.

Este estranho Chris Froome

Tem sido um ano atípico para o britânico. Ainda não venceu e até ao Dauphiné não tinha realizado prestações convincentes nos poucos dias em que tinha competido. Em França disse que queria ganhar, o que teria sido a quarta vitória, um recorde nesta corrida. E claro que há ainda aquela curiosidade, pois sempre que ganhou o Dauphiné, ganhou o Tour. No entanto, vimos rasgos daquele Froome que parece estar à beira de dar o estouro e de repente lá vai ele atrás de todos e a lutar pelo primeiro lugar. Por outro lado, vimos também um Froome a fraquejar, a terminar em esforço e quase esgotado.

O pódio fugiu-lhe por um segundo. Froome foi dizendo que ainda tinha a melhorar até ao Tour e, ao contrário de Contador, as suas afirmações são convincentes. Não se pode esperar que o super Froome se mantenha ano após ano, mas pode-se esperar que será um ciclista mais forte aquele que irá aparecer na competição em que quer fazer história, tendo como alvo cinco vitórias. Vai nas três.

Há ainda que ter em conta que Froome não teve aquela Sky controladora que provavelmente terá no Tour. E essa será sempre a grande diferença do britânico para Porte e para qualquer outro candidato: tem uma equipa fortíssima. Os responsáveis ainda estão a tentar perceber quem poderá ser a melhor opção para rodear o seu líder. Peter Kennaugh terá ganho um lugar ao lado de Froome ao vencer uma das etapas, mostrando estar bem fisicamente. Michal Kwiatkowski terá um papel importante, mas no Dauphiné não estiveram Geraint Thomas, Mikel Landa e Wout Poels. Claro que há um enorme ponto de interrogação quanto à forma deste trio. Os dois primeiros estiveram no Giro, com Thomas a abandonar devido a uma queda. Poels tem tido problemas físicos e não compete desde Fevereiro (vai voltar na Route du Sud).

Romain Bardet a precisar de consistência

Quando está bem, está mesmo bem. Mas estraga tudo com contra-relógios fracos e no Dauphiné não ajudou ter entrado mal nas montanhas. Compensou no sábado e no domingo. E de que maneira. É aquele Romain Bardet (AG2R) que se lhe reconhece o talento e qualidade para terminar no pódio do Tour. Este é um ciclista do mais puro trepador que existe. Adapta-se bem a vários tipos de montanhas e tem uma excelente capacidade de leitura de corrida. E depois tem uma características fantástica para quem gosta de espectáculo: gosta de atacar, gosta de testar, mas sendo inteligente na forma como o faz para não pagar o esforço mais tarde.

Se Bardet conseguir apresentar consistência na Volta a França, que é como a quem diz, não estragar tudo num dia, poderá pensar em chegar ao pódio. Porém, nem tudo é bom neste ciclista. O certo desprezo que demonstra pelo contra-relógio pode custar-lhe caro. O francês não está interessado em evoluir muito mais, mas tendo em conta que no Dauphiné nem demonstrou ter capacidade para pelo menos defender-se um pouco... A ver vamos se neste caso não pagará um preço bem alto, mesmo não havendo muitos quilómetros de esforço individual no Tour.

Alberto Contador... quase se fica sem palavras

O espanhol diz que está no ponto que pretendia, que o Dauphiné correu como esperado. O que se viu foi um ciclista irreconhecível. Citando o que disse no final: "Mais importante que a posição é que acabei fresco. O plano saiu na perfeição." Contador, serão poucos os que acreditam nessas palavras. Terminou na 11ª posição depois de um dia que teve como imagem marcante o gesto de Contador a avisar Porte para passar quando o australiano o apanhou. Foi tão mau que até Alejandro Valverde, que também não esteve feliz, o acabou por ultrapassar. Falta de ritmo, falta de explosão, falta de quase tudo. Este não é o Contador que conhecemos. Este Contador é uma imitação barata daquele campeão que já conquistou as três grandes voltas e que mesmo sem conseguir o objectivo de voltar a vencer um Tour, tem pelo menos lutado por ele.

Não foi só na última etapa que Contador cedeu. O espanhol ficou praticamente sempre a ver os seus rivais a irem embora. Se isso é considerado ser algo que correu como planeado, então será um dos maiores bluffs já vistos, caso Contador apareça em grande no Tour. A Trek-Segafredo também chumbou o teste. Com a excepção de André Cardoso - o último a deixar o seu líder - os restantes colegas rapidamente desapareciam sempre que as dificuldades começavam.

Talvez o melhor de Contador já tenha passado. Talvez ainda haja algo ali dentro que nos faça vibrar como noutros tempos (esperemos que sim, para pelo menos animar as etapas). Mas depois deste Dauphiné fica a imagem de um ciclista que começa a perceber que os outros (e já são muitos) são simplesmente melhores que ele.

Tiro no escuro da Orica-Scott

A equipa australiana optou por tirar Simon Yates do Giro para garantir que teria um homem a lutar pela geral no Tour, já que o problema no joelho de Johan Esteban Chaves começou a revelar-se mais preocupante do que inicialmente esperado. O colombiano reapareceu neste Dauphiné quatro meses depois. E nem esteve mal. Falta-lhe ritmo competitivo, mas nem se esperaria outra coisa. Contudo, será difícil que o ganhe nas duas semanas que faltam para o início da Volta a França.

Por isso é que a Orica-Scott colocou Yates como líder. Se com Chaves as expectativas não podem ser altas, com Yates podem acabar numa grande desilusão. O britânico esteve desaparecido neste Dauphiné, foi incapaz de acompanhar os principais nomes e perdeu muito tempo e os nove minutos para Fuglsang comprovam isso mesmo.

Em condições normais Chaves estaria no Tour para tentar o pódio, onde já esteve no Giro e na Vuelta. Agora a equipa sonhará que ganhe no mínimo uma etapa. Talvez para o ano se os problemas físicos não regressarem seja novamente o candidato desejável. Já de Yates a Orica-Scott espera que faça algo idêntico ao seu irmão gémeo em 2016. Adam venceu a classificação da juventude e ficou a 21 segundos do terceiro lugar. Para tal, Simon terá de melhorar muito. Foi uma das desilusões do Dauphiné. Pode e deve fazer mais e melhor.

Vamos para a Volta a França com a certeza que não há certezas. Um panorama diferente dos últimos anos dominados por Chris Froome. E a incerteza é sempre mais animadora, principalmente, e voltamos ao repto do início do texto, se estes senhores ciclistas apresentarem atitude idêntica da do Dauphiné, de lutar para ganhar e não de ficar à espera que um homem falhe.


Best of (Français) - Critérium du Dauphiné 2017 por tourdefrance