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16 de abril de 2018

Pello Bilbao entre a homenagem e a afirmação

(Fotografia: Twitter Volta aos Alpes)
Pello Bilbao é a prova como dar um passo atrás pode mesmo significar mais tarde dar dois à frente. Ainda como sub-23 abriram-se as portas do World Tour através da Euskaltel-Euskadi. A famosa equipa do País Basco, de onde é o ciclista, revelou ser uma grande escola para este então jovem talento espanhol. Depois de três temporadas, passou por um momento sempre difícil. A formação não teve condições para continuar e Bilbao, tal como os restantes ciclistas - entre eles o português Ricardo Mestre - viram-se obrigados a procurar novos rumos. Para quem ainda estava a tentar afirmar-se, foi na Caja Rural que viu a melhor estrutura para continuar uma evolução promissora. Agora está na segunda temporada pela Astana e nesta segunda-feira foi a figura que acabou por selar algo que simplesmente parecia ser o mais correcto, para não dizer óbvio, acontecer: ser um ciclista da equipa cazaque a ganhar a primeira etapa da Volta aos Alpes.

Há um ano, Michele Scarponi vencia, quebrando um péssimo momento da Astana, que ainda não tinha vencido em 2017. Vestiu a camisola da liderança e foi uma das figuras da corrida, numa altura em que se preparava para voltar a ser o chefe-de-fila no Giro. Dias depois, ainda mal tinha chegado a casa após a corrida, saiu para treinar e não mais voltou. Morreu vítima de atropelamento. "É [a vitória] mais especial devido às circunstâncias. Há um ano o Scarpa venceu esta etapa. Durante todo o ano ele tem estado no nosso pensamento. É uma honra vestir esta camisola [da liderança] em Itália, no seu país. Claro que a vitória é para ele e para a sua família", salientou Bilbao, que acrescentou: "Ele foi uma importante inspiração para toda a equipa."

Foram três anos na Caja Rural a trabalhar para conseguir regressar ao World Tour. Foi na Astana que Bilbao conseguiu dar os dois passos à frente que o próprio admitiu. Foi uma aventura bem-vinda, para sair do ambiente espanhol a que estava habituado, como então o próprio chegou a admitir. Bilbao chegou a uma equipa que tinha Michele Scarponi como um dos principais mentores dos mais novos, cuja experiência nunca se importava de partilhar. O italiano tinha um papel muito relevante nesse aspecto e era também por isso que, aos 37 anos, Alexander Vinokourov tinha completa confiança em Scarpa.

12 meses depois a Astana está transformada numa equipa ganhadora, não se concentrando tanto apenas nas grandes voltas. Naturalmente que contribui para isso ter perdido Fabio Aru, mas também porque os ciclistas encontraram uma diferente forma de retirar inspiração de Scarponi. Uma mudança de mentalidade que não hesitam em ligar ao italiano, mas claro que vai além disso. Vejamos o caso de Pello Bilbao.

Ir para uma equipa cazaque, com uma forma bem diferente de trabalhar de uma Caja Rural ou de uma Euskaltel-Euskadi, com ciclistas de várias nacionalidades - entra a questão do idioma - e com uma ambição e responsabilidade muito mais elevada, tudo isto obrigou a uma adaptação. No final da temporada passada, depois de ter sido dos ciclistas do World Tour que somou mais dias de competição, Bilbao não escondeu que precisou de alguns meses para se sentir completamente integrado. Prometeu mais e melhor para 2018 e eis a resposta vitoriosa, depois de um início de temporada animador, com destaque para o oitavo lugar na Volta ao País Basco.

Bom trepador, contra-relogista quanto baste e ainda um rolador que é melhor não dar muito espaço, como mostrou nesta primeira etapa da Volta ao Alpes, na chegada a Folgaria. Depois de ataques de Thibaut Pinot (FDJ), Fabio Aru (UAE Team Emirates), Chris Froome (Sky), Bilbao aguentou bem na subida, veio de trás para escapar a todos e com a ajuda da bonificação deixou os principais candidatos a 20 segundos ou mais.

Esta foi a vitória mais importante na sua carreira, tendo duas etapas na Volta à Turquia, uma na Volta a Castela e Leão, venceu a Klasika Primavera de Amorebieta em 2014 e o Tour de Beauce no ano seguinte. Sempre ao serviço da Caja Rural, onde encontrou liberdade que agora goza menos na Astana. Falta a afirmação numa grande volta, mas há um enorme ponto de interrogação de quando essa oportunidade chegará. 

Vinokourov pode ter ficado furioso com saída de Aru e por este ter alegadamente avisado tarde de mais para se contratado um substituto. Porém, o director da Astana confia em Jakob Fuglsang e alimenta uma enorme esperança (e com razão) em Miguel Ángel López. A oportunidade de Bilbao é esta: ser um excelente escudeiro do colombiano no Giro. O espanhol já afirmou que o companheiro tem qualidade para aspirar a mais do que um top dez. Bilbao terá de começar por se mostrar assim e, aos 28 anos, ainda vai a tempo de conseguir um dia ter a sua liderança. Vários são os exemplos de gregários de luxo que recebem o prémio de ser um dia líderes. Contudo, sabe que tem de fazer por merecer.

O espanhol terá, para já, de ser um líder num bloco forte no apoio a "Superman" López e a verdade é que esta Astana tem tido muitas parecenças nas suas vitórias, inclusivamente com a deste domingo na Amstel Gold Race, por Michael Valgren. Nos momentos decisivos é das poucas equipas, senão a única, a ter mais do que um elemento presente no grupo da frente. Depois aposta na individualidade certa para o ataque final. Se conseguir níveis exibicionais colectivos idênticos no Giro, então a individualidade López (que grande ciclista que poderá estar a aparecer) será ainda mais um caso sério a ter em conta entre os candidatos, mesmo que na lista estejam Pinot. Aru, Froome, Tom Dumoulin... E é possível que se veja já um pouco dessa Astana na Volta aos Alpes, já que o colombiano está em prova. Bilbao e López podem vir a formar uma dupla muito interessante.

Pode ver aqui as classificações da primeira etapa da Volta aos Alpes, que conta com um português em prova: Amaro Antunes. O ciclista da CCC Sprandi Polkowice foi 28º, a 1:13 do vencedor.

»»Valgren a tornar o seu nome num dos grandes da Astana««

»»Astana perdeu Aru, está sem financiamento, mas reencontrou-se com as vitórias««

14 de fevereiro de 2018

Morreu o condutor que atropelou Scarponi

(Fotografia: Facebook Astana)
O homem que há dez meses atropelou mortalmente Michele Scarponi morreu vítima de cancro. Giuseppe Giacconi, de 58 anos, esteve internado recentemente, mas não respondeu aos tratamentos, segundo noticia a imprensa italiana. Devido a esta situação, a polícia italiana deu como encerrada a investigação à morte do ciclista da Astana. Scarponi foi atropelado num cruzamento perto de casa, em Filottrano, na região de Ancona. O italiano estava a preparar a participação no Giro100 e teve morte imediata ao ser atingido pela carrinha conduzida por Giacconi.

O condutor enfrentava um possível julgamento. Em Itália noticiou-se que inicialmente Giacconi terá dito que não viu Scarponi, pois estaria encadeado pelo sol, mas mais tarde terá confessado às autoridades que estava a ver um vídeo no telemóvel. A morte de Scarponi provocou uma onda de choque. Foram muitos os ciclistas, dos mais conhecidos aos anónimos que apelaram a um maior respeito e cuidado pelas regras de trânsito de forma a evitar que acidentes como o que vitimou o ciclista de 37 anos se repetisse. Também a família do ciclista envolveu-se nesta causa.

Dias antes, Scarponi tinha regressado às vitórias ao ganhar a primeira etapa da Volta aos Alpes e seria o líder da equipa no Giro, depois da queda de Fabio Aru durante um treino. A Astana homenageou o seu ciclista deixando o dorsal 1 sem substituto, optando por correr com apenas oito ciclistas. Nos meses que se seguiram, vários corredores dedicaram as suas vitórias a Scarponi, um corredor muito respeitado e admirado no pelotão internacional.

'Scarpa', como também era conhecido, venceu o Giro de 2011 após a desclassificação de Alberto Contador. No seu currículo contava também com um Tirreno-Adriatico e uma Volta à Catalunha. Ficou ainda conhecido por partilhar nas redes sociais um parceiro invulgar de treino. Frankie, o papagaio, acompanhava muitas vezes o ciclista. Depois da morte do corredor, o papagaio foi visto no local onde Scarponi tinha sido atropelado. O ciclista era casado e tinha dois filhos pequenos. Um dos momentos que mais emocionou na altura foi o último twit que tinha colocado horas antes, na companhia dos filhos.


28 de novembro de 2017

Um ano com Scarponi no pensamento e com as vitórias a escassearem

(Fotografia: Facebook Astana)
Em tempos foi uma toda poderosa equipa. Mas os tempos são outros e mesmo sendo uma estrutura com um orçamento bem folgado, a Astana vive uma fase de algum descrédito. As grandes figuras não querem ficar, outras não querem ir para lá. Ainda assim, entrou em 2017 com um conjunto de ciclistas preparados a lutar por corridas. Fabio Aru estava determinado em ganhar o Giro100, Miguel Ángel López passou grande parte da temporada a recuperar de uma fractura na perna feita no final de 2016, mas apontava nem que fosse à Vuelta. Jakob Fuglsang teria a oportunidade de liderar no Tour e depois haveria um Dario Cataldo, um Oscar Gatto, Tanel Kangert, Luis Leon Sanchez e Alexey Lutsenko, entre outros, que poderiam sempre conquistar alguns triunfos. Porém, cedo ser percebeu que esta Astana teria dificuldade em impor-se como outrora, mas esse acabou por ser o menor dos problemas.

A época começou difícil, teve o pior momento possível em Abril e apesar de umas poucas alegrias, acabou novamente mal. O arranque não poderia ser mais desesperante, os meses passaram e vitórias... nem vê-las. O foco estava no Giro100 e em Aru, até que o líder caiu durante um treino e a recuperação ia ser demorada. Alexander Vinokourov, director da equipa, bem podia levar as mãos à cabeça. Nestes momentos sabe sempre bem ter um ciclista como Michele Scarponi. Apesar da veterania, era claro que a experiência poderia ser uma mais valia e Scarpa deu a resposta ao vencer na primeira etapa da Volta aos Alpes. Estávamos a 17 de Abril. Um pequeno suspiro de alívio por parte da Astana. Estaria a época a compor-se? Cinco dias mais tarde o ciclismo sofreu uma perda enorme. Scarponi foi atropelado ao treinar perto de casa. Morreu e deixou um vazio no pelotão. E deixou uma Astana sem rumo para a Volta a Itália.

Entre lágrimas e vontade de homenagear o seu companheiro, os ciclistas da Astana partiram para o Giro apenas com a responsabilidade de tentar aquela vitória de etapa que pudessem dedicar a Scarponi. Foram só oito corredores, pois Vinokourov não quis substituir o líder. O número um da equipa era para Scarpa e para Scarpa ficou. Muito lutaram os homens da Astana, mas o triunfo desejado só chegaria a 9 de Junho no Critérium du Dauphiné. Jakob Fuglsang aparecia num momento crucial: venceu duas etapas e a geral da competição vista como a que dá as indicações para o Tour. Não só libertou a equipa da pressão da falta de vitórias, como finalmente era feita a homenagem a Scarponi. E finalmente a Astana entrou um pouco mais nos eixos.


Ranking: 15º (5018 pontos)
Vitórias: 18 (incluindo uma etapa no Tour, três na Vuelta, duas e a geral no Critérium du Dauphiné)
Ciclista com mais triunfos: Jakob Fuglsang e Miguel Ángel Lopez (4)

A emoção da ausência de Scarponi esteve sempre presente. Era inevitável. No entanto, surgiram outros problemas devido à mudança de calendário de Aru. Falhando o Giro, passou para o Tour, onde o dinamarquês tinha recebido garantias que seria líder. Fuglsang (32 anos) reagiu conquistando o Critérium du Dauphiné e falou-se de uma liderança partilhada com o italiano. Naturalmente que ninguém acreditou. Na estrada o dinamarquês tentou manter-se junto dos candidatos, mas acabaria por abandonar. Entretanto, Aru ganhou uma etapa e até andou de amarelo. Problemas de saúde prejudicaram o seu final na Volta a França e nem ao pódio conseguiu subir. Ainda assim, o quinto lugar foi positivo. Já o 13º na Vuelta, nem por isso.

Mas não foi grave, pois em Espanha reapareceu Miguel Ángel López. O pequeno colombiano, que tanto está a entusiasmar pela forma aguerrida de competir, ganhou duas etapas. Foi oitavo na geral e agora espera-se que evite acidentes na pré-temporada para que apareça em grande em 2018. É que a Astana bem precisa. Lutsenko também venceu uma etapa.

A felicidade de concluir a última grande volta com algum destaque esfumou-se bastante rápido. Depois de Vincenzo Nibali sair no final de 2016, foi Fabio Aru quem bateu com a porta. Era um desfecho mais do que anunciado, mas Vinokourov disse que foi apanhado de surpresa e até ameaçou processar o italiano. Defende que ficou sem alternativas para contratar porque Aru avisou tarde que não renovaria, o que prejudica a equipa para 2018. E de facto a equipa fica orfã de um líder. Falou-se de Nairo Quintana, mas este não quebrou contrato com a Movistar, Mikel Landa não quis regressar e Rigoberto Uran preferiu continuar na Cannondale-Drapac, futura EF Education First-Drapac powered by Cannondale.

Restou ao responsável cazaque admitir o óbvio: aos 23 anos, Superman López, como é conhecido, vai mesmo assumir papel de líder, com Fuglsang a ter uma nova oportunidade, só não se sabe em qual das três grandes voltas. Porém, o dinamarquês poderá ver um Jan Hirt passar-lhe rapidamente na hierarquia, já que é um ciclista que poderá em pouco tempo alcançar bons resultados, tendo em conta o que fez no Giro ao serviço da CCC Sprandi Polkowice. Omar Fraile (Dimension Data) será um homem com características para lutar por etapas e talvez uma ajuda interessante ao jovem López. Davide Villella (Cannondale-Drapac) será uma opção forte para as clássicas, Magnus Cort Nielsen (Orica-Scott) é ciclista para mexer com corridas e procurar surpreender. Espera-se ainda que após um ano a adaptar-se ao World Tour, o espanhol Pello Bilbao possa começar a ser uma opção mais séria para lutar pela geral das provas por etapas.

Certo, é que a Astana não poderá continuar a um nível tão baixo. O Critérium du Dauphiné, as etapas no Tour e Vuelta são sempre triunfos importantes. Mas para quem sempre assumiu querer ganhar as mais importantes corridas, passar meses sem vitórias e passar quase ao lado da discussão de algumas das principais provas... É normal que Vinokourov se sinta frustrado e vai exigir (e de que maneira) muito mais aos seus ciclistas em 2018.

»»Bons ciclistas a ficarem cada vez melhor, mas falta mais equipa à Lotto-Jumbo««

»»Um pouco (mas pouco) de Pinot e Démare a confirmar-se nas clássicas. FDJ precisa de mais e melhor««

»»Uma Dimension Data a precisar de mudanças««

8 de novembro de 2017

Irmão de Scarponi apela a mudança cultural e política para melhorar segurança na estrada

A última vitória de Scarponi aconteceu na Volta aos Alpes (Fotografia: Facebook Astana)
Pouco depois de se conhecer que a Volta aos Alpes irá homenagear Michele Scarponi com a criação de um prémio para a equipa mais competitiva em cada etapa, o irmão do ciclista que morreu em Abril, atropelado por uma carrinha, escreveu um emotivo texto publicado no Corriere della Sera. Nele Marco Scarponi apela a uma mudança cultural e política de forma a acabar com os acidentes mortais na estrada, seja com ciclistas, peões ou condutores. Anunciou ainda a criação de uma fundação que terá como principal objectivo trabalhar para uma maior segurança na estrada: "O sorriso do Michele irá salvar muitas vidas."

No texto lê-se que Marco resolveu escrever depois de saber que Alessandro Zanardi estava a liderar uma campanha de consciencialização dirigida a condutores, com incidência na utilização do telemóvel. Recentemente surgiram notícias que dão conta que o homem responsável pela morte de Scarponi estaria a ver um vídeo no telemóvel quando chocou contra o ciclista italiano. Recorde-se que Zanardi foi piloto de automóveis, chegou mesmo a estar na Fórmula 1. Em 2001 sofreu um grave acidente numa corrida na Alemanha e as duas pernas foram amputadas. Voltou a competir nos carros, mas dedicou-se entretanto ao paraciclismo.

"Decidi escrever porque nos últimos meses questiono no que se tornaram as nossas ruas, o que é a estrada, o que está na estrada e a única resposta que consigo dar é esta: as nossas estradas são o local favorito para o mais silencioso e horrível dos massacres", salientou Marco Scarponi, que falou dos números de acidentes e mortes nas estradas italianas, referindo que morreram 275 ciclistas e 570 peões em 2016, num total que ultrapassa as três mil vítimas. Entre as principais causas está precisamente a utilização do telemóvel durante a condução, além do excesso de velocidade, álcool e drogas.

Por isso, o irmão mais velho de Scarponi apela a uma mudança cultural e também política, ou seja, pede que os responsáveis tenham um papel mais activo na identificação de locais perigosos. Mas a questão vai muito além da política, com Scarponi a pedir que cada um faça o seu papel, sugerindo que talvez tenha chegado a altura de se deixar o carro na garagem para viagens curtas, seja para levar os filhos à escola, para ir trabalhar ou ir a um bar.

Com um irmão ciclista, Marco desabafou: "Pergunto-me todos os dias desde a morte do Michele: como é que os ciclistas conseguem treinar na estrada. Eles treinam, mas é muito perigoso. Há um risco real que alguém saia de casa para andar de bicicleta e não volte. Temos de fazer algo para mudar as coisas, para salvar vidas."

Michele Scarponi morreu a 22 de Abril. Tinha 37 anos, era casado e pai de gémeos, que na altura tinham quatro anos. A última vitória aconteceu dias antes na Volta aos Alpes e o veterano ciclista estava a preparar-se para liderar a Astana na 100ª edição do Giro.


9 de outubro de 2017

Condutor que atropelou Scarponi estaria a ver um vídeo no telemóvel

(Fotografia: Wessel Blokzijl/Flickr)
A notícia da morte de Michele Scarponi, em Abril, deixou o mundo do ciclismo em choque. Seis meses depois, pormenores da investigação voltam a provocar sentimento idêntico. O julgamento do condutor que atropelou o ciclista italiano estará prestes a começar e o Tuttobici avança que o homem de 57 anos poderá enfrentar uma acusação de homicídio agravado, pois terá admitido que no momento do acidente terá olhado para o telemóvel para ver um vídeo.

Scarponi foi atropelado a poucos quilómetros de sua casa em Filottrano, na região de Ancona. Inicialmente, o condutor terá afirmado que não viu o ciclista devido ao reflexo do sol matinal. Entretanto, terá apresentado uma nova versão que relança o repetido alerta do perigo de mexer no telemóvel enquanto se conduz. A informação está a ser avançada pelo site italiano Tuttobici, não havendo confirmação oficial.

O acidente ocorreu depois do homem que conduzia uma carrinha não ter parado num sinal de stop. Scarponi morreu no local. Era casado e pai de gémeos (quatro anos). Dias antes tinha vencido a primeira etapa na Volta aos Alpes, naquela que foi a sua primeira vitória em quatro anos. Preparava-se para liderar a Astana na 100ª edição da Volta a Itália, depois de uma lesão ter afastado Fabio Aru da corrida. É precisamente um Giro que tem no seu palmarés.

A Volta aos Alpes terminou no dia 21 e Scarponi quis regressar de imediato para junto da família, antes de começar os derradeiros preparativos para o Giro. A última fotografia que publicou no Twitter é precisamente com os filhos. No dia seguinte saiu para fazer um treino numa zona que tantas vezes percorreu a pedalar... A Astana competiu em Itália com apenas oito ciclistas, não substituindo aquele que teria utilizado o dorsal um da equipa.

A sua morte marcou muitos ciclistas e não apenas na Astana, que muito perseguiu uma vitória para lhe dedicar. Recentemente foi Peter Sagan (Bora-Hansgrohe) que lhe dedicou o título mundial conquistado em Bergen.

22 de maio de 2017

O que é preciso para bater o cavalheiro Dumoulin? Quintana explica

(Fotografia: Giro d'Italia)
Terça-feira, 23 de Maio. 16ª etapa da 100ª edição da Volta a Itália. Se há dia que se esperava este ano no ciclismo, este é um deles. A tirada tem tudo para ser épica, mas o melhor é que poderá ser apenas o início de uma semana memorável de ciclismo. Tom Dumoulin é um líder não surpreendente, mas com uma vantagem inesperada. Nairo Quintana (o único a menos de três minutos), Thibaut Pinot e Vincenzo Nibali não se rendem e atenção a Ilnur Zakarin que ainda tem os olhos postos pelo menos no pódio.

O holandês tem estado simplesmente fenomenal. Está a responder às questões que se colocava sobre ele. Primeiro, se estava a subir melhor. Resposta: muito melhor. Segundo, se tinha perdido algo no contra-relógio dado estar mais magro: não perdeu nada! Terceiro, se consegue aguentar várias montanhas numa etapa. E quarta, se consegue recuperar bem depois de uma tirada muito dura. Estas duas serão respondidas esta semana. Há mais uma pergunta: o que é preciso para ganhar a Dumoulin? Nairo Quintana responde: recuperar o tempo perdido atacando nas subidas e ter uma margem de 40 segundos para gerir no contra-relógio de domingo.

Depois de perder mais de dois minutos no primeiro esforço individual, o colombiano ainda assim mostra-se seguro que sendo mais o último mais curto, não irá perder tanto. Portanto, o objectivo está traçado para os próximos dias, mas o líder da Movistar admite que pode muito bem ter uma missão complicada pela frente, não duvidando que Tom Dumoulin é até ao momento o mais forte. "Até agora não apresentou nenhuma debilidade. Não sei se ganhará o troféu, vamos tentar que não [o ganhe]. A alta montanha não o favorece. O que vai fazer a diferença será a subida, mais do que o contra-relógio de Milão no último dia", salientou Quintana na conferência de imprensa, no dia de descanso do Giro.

O colombiano considera que as próximas etapas beneficiam-no mais, já que têm muita montanha, pois até agora as principais dificuldades acabaram por ser únicas nas etapas. Além das subidas, as descidas poderão fazer também alguma diferença. Quando ganhou o Giro em 2014, Quintana fê-lo com a ajuda do tempo que ganhou durante uma descida. Claro que a polémica mantém-se. Foi um dia confuso, de más condições atmosféricas nos Alpes. Quintana atacou enquanto outros ciclistas pensaram que a etapa estava neutralizada. A organização acabou por oficializar o tempo que distanciou Quintana de Rigoberto Uran. Numa luta de colombianos, o primeiro acabou por triunfar, mas aquele dia não foi esquecido, pelo que lhe foi perguntado se poderia atacar numa descida. Até disse que sim, mas salientou que prefere as subidas. Tendo em conta a sua má fama a descer - até caiu no domingo -, não se espera outra coisa que não seja apostar tudo nas fase ascendente das montanhas. Mas fica a promessa, Dumoulin pode esperar um Quintana a fazer tudo para o deixar para trás, a fazer tudo para testar os limites do holandês.

E a queda foi outro assunto abordado. Dumoulin colocou-se na frente do grupo para que Quintana pudesse reentrar. Um "cavalheiro", diz o ciclista da Movistar. Depois o colombiano sprintou e ganhou seis segundos de bonificação. Foi leal? "Foi um gesto muito bonito, digno de um cavalheiro. Agradecemos. Teríamos chegado, mas com mais esforço. O tema da chegada é diferente, não tem nada a ver com os gestos, quis vencer a etapa", salientou.

A muito esperada 16ª etapa: 222 quilómetros entre Rovetta e Bormio e três subidas do mais difícil deste Giro

Quintana é o pretendente, Dumoulin o dono da maglia rosa. Para o holandês só há duas formas de descrever a etapa de terça-feira: "Ou será muito difícil, ou será muito, muito difícil." "Já tive etapas duras no passado, mas vamos ver como vai ser. Os meus adversários vão certamente atacar-me e será definitivamente um dia de sofrimento", realçou. Dumoulin não está preocupado com os seus adversários e tenta passar uma imagem descontraída, livre de pressões. Dumoulin até aceita as dúvidas que subsistem sobre a sua capacidade e não se mostra excessivamente preocupado se por acaso perder tempo na 16ª etapa. Porém, recordou que não conhecia bem as etapas anteriores com montanha, mas se há subidas que conhece muito bem é o Mortirolo e o Stelvio, onde já fez estágios em altitude, inclusivamente antes da Vuelta de 2015 que deixou escapar na derradeira etapa de montanha para Fabio Aru.



Neve e perigo de avalanches no Stelvio

As previsões apontam que não haverá problemas com o percurso para a 16ª etapa. Porém, a neve ainda é imagem de marca do Stelvio, cuja primeira passagem será a Cima Coppi do Giro (ponto mais alto - imagem de cima). A organização irá verificar as condições para garantir a segurança, principalmente tendo em conta que é uma etapa cujas descidas são de elevada pendente, técnicas e com zonas perigosas.

Para já, a única medida tomada será a limitação de carros que irá passar por ali devido ao perigo de avalanches, numa altura em que a neve começa a derreter. A caravana será reduzida ao estritamente necessário, um corte que não afectará os carros das equipas, nem os veículos para a transmissão televisiva.

Homenagem a Scarponi no Mortirolo


(Fotografia: Astana)
Uma das míticas subidas da Volta a Itália será este ano dedicada a Michele Scarponi, o ciclista que morreu no final de abriu ao ser atropelado por uma carrinha durante um treino. Foi numa passagem no Mortirolo - agora chamada de Cima Scarponi - que o italiano conquistou a sua última etapa no Giro (foram três) em 2010. Naquele ano a etapa também não terminou no Mortirolo, mas foi ali que Scarponi começou a construir o triunfo, quando Ivan Basso e Vincenzo Nibali tentaram fugir. Em Aprica, foi Scarponi quem levantou os braços para celebrar.

Mas haverá mais homenagens. A Astana vai aproveitar esta etapa que inclui o Mortirolo para oferecer aos adeptos um bidão muito especial. Nele está Frankje, o papagaio que se tornou um parceiro famoso dos treinos de Scarponi na sua terra. O ciclista partilhou nas redes sociais vários vídeos com o fiel amigo. Os corredores da Astana também utilizarão este bidão especial. A família de Scarponi também irá receber alguns.

Durante este Giro têm sido muitas as referências ao vencedor da Volta a Itália em 2011. Os adeptos não esquecem Scarponi e o seu nome é escrito na estrada ou em faixas, por vezes com mensagens para um ciclista que espalhava boa disposição e simpatia.



Kruijswijk começou o Giro com costelas partidas

O holandês da Lotto-Jumbo tem sido uma das desilusões da Volta a Itália. Há um ano, por esta altura da corrida, muito se falava sobre a possibilidade de ganhar o Giro. Este ano já mal se fala de Steven Kruijswijk. É 10º após o abandono de Tanel Kangert (Astana), a 7:03 minutos de Dumoulin e com Adam Yates (Orica-Scott) a aproximar-se perigosamente.

No terceiro e último dia de descanso do Giro, Kruijswijk explicou o que se está a passar com ele, admitindo que fracturou umas costelas quando caiu na Volta a Yorkshire, que abandonou, e que não conseguiu recuperar devidamente. Em nada ajudou já ter caído também neste Giro. No entanto, ainda ambiciona alcançar algo durante esta semana: "Espero que o corpo esteja recuperado e que possa despender toda a minha energia em conseguir um resultado."

»»Etapa de loucos. Quintana até sprintou!««

»»Queda assustadora de Kangert. Está fora da Volta a Itália««

21 de maio de 2017

Queda assustadora de Kangert. Está fora da Volta a Itália

(Fotografia: Astana)
O azar continua a perseguir a Astana. Alexander Vinokourov e os restantes membros da equipa técnica terão apanhado um valente susto ao ver a aparatosa queda de Tanel Kangert. A 15ª etapa do Giro foi feita a alta velocidade - média superior a 48 quilómetros hora, mesmo com duas subidas - e o ciclista da Estónia acabou por ser vítima de um embate violento contra um sinal colocado numa ilha de tráfego.

Imediatamente Kangert ficou sentado no chão agarrado ao cotovelo. Já não continuou a corrida, quando faltavam cerca de sete quilómetros para o final. A confirmação chegou mais tarde: o ciclista fracturou o cotovelo. É o fim de um Giro que estava a ser muito positivo para um ciclista que prometeu muito enquanto jovem, mas agora com 30 anos acabou por nunca transformar esse talento em grandes vitórias. Ainda assim tem sido um atleta importante na Astana, no apoio aos seus líderes.

Este ano junta-se à lista negra de problemas que estão a afectar a formação cazaque. Primeiro foi Fabio Aru que se lesionou numa queda quando se preparava para lutar pela vitória no Giro100. Michele Scarponi foi nomeado líder, mas seria vítima de um atropelamento. Morreu, deixando o ciclismo de luto. Para homenagear o seu ciclista, a Astana decidiu só levar oito corredores para Itália, não atribuindo o dorsal um da equipa, que deveria ter pertencido a Scarponi.


Tanel Kangert e Dario Cataldo acabaram por assumir a responsabilidade de lutar por um top dez, ainda que o grande objectivo da Astana seja uma vitória de etapa para dedicar a Scarponi. Luis Leon Sanchez tem perseguido essa ambição, mas o melhor que conseguiu foi o terceiro lugar. Mas continua a lutar e ainda este domingo esteve novamente na fuga.

Kangert era sétimo na geral, a 4:55 minutos do líder, mas ainda de olhos postos no top cinco. Agora é Dario Cataldo o homem da Astana com melhor classificação. Ocupa a 13ª posição, a 8:14 de Tom Dumoulin, mas o top dez está a pouco mais de um minuto de distância.

Porém, com o abandono de Kangert, mais do que nunca a Astana vai certamente apostar com os sete homens que tem em prova na procura pelo triunfo de etapa, dedicar a Scarponi e talvez assim conseguir começar a recuperar animicamente de uma época que até ao momento não grandes motivos de celebrações. Estamos a chegar ao final de Maio e só tem uma vitória: foi precisamente Scarponi quem a deu à equipa, na primeira etapa da Volta aos Alpes, poucos dias antes de morrer.

»»Lutar pela vitória ou ir para casa. No Giro os líderes da Sky acabam em casa««

»»Sunweb esqueceu-se de um ciclista no hotel em mais um momento insólito no Giro««

2 de maio de 2017

Homenagem no Giro: Mortirolo é de Michele Scarponi

(Fotografia: Astana)
A 100ª edição da Volta a Itália terá tanto de emoções fortes pelo percurso espectacular que apresenta, como será de fortes emoções, difíceis de lidar para alguns ciclistas, com as homenagens que vão decorrer ao longo da corrida para recordar Michele Scarponi. O italiano de 37 anos ia ser uma das figuras do Giro ao ser o líder de última hora da Astana, após a lesão de Fabio Aru. A sua morte há semana e meia faz com que o seu nome seja agora evocado para que não seja esquecido um ciclista que marcou o pelotão pela sua forma de ser, que o tornavam num líder respeitado e adorado, mesmo que estivesse numa fase da carreira em que aparecia mais em segundo plano.

Depois da Astana anunciar que não iria substituir o seu capitão e que correria o Giro com menos um ciclista (com oito, portanto), agora é a organização da corrida que revelou algumas das homenagens que vão decorrer ao longo das três semanas. "A Volta a Itália não pode esquecer o grande campeão, o enorme amigo e o fantástico homem que faria parte da Corsa Rosa pela 12ª vez na sua carreira. Por isso, será feito um tributo, com uma das mais icónicas subidas a ser-lhe dedicada: o Mortirolo."

Esta subida faz parte da história do ciclismo. É marcante. Mas num ano em que o Giro conta com mais subidas do género, a escolha desta ascensão nos Alpes explica-se porque foi ali que Scarponi conquistou a sua última etapa na Volta a Itália (foram três) em 2010. Naquele ano não terminou no Mortirolo, mas foi ali que Scarponi começou a construir o triunfo, quando Ivan Basso e Vincenzo Nibali tentaram fugir. Em Aprica, Scarponi levantou os braços. De recordar que no ano seguinte o ciclista venceu o Giro, ainda que por desclassificação de Alberto Contador.

Mas como italiano que era, Scarponi tinha um lugar especial no coração dos tifosi e, por isso mesmo, haverá mais momentos de homenagem, a começar já esta quinta-feira quando a equipa subir ao palco na apresentação das formações que vão marcar presença no Giro100. Antes da primeira etapa, na sexta-feira, a Astana será convidada a liderar o pelotão no início e antes do arranque haverá um minuto de silêncio. Também em Milão, onde terminará a corrida, Scarponi será novamente homenageado.

"Scarpa", como era conhecido, morreu ao ser atropelado por uma carrinha quando treinava perto da sua casa em Filottrano. Dias antes tinha vencido uma etapa na Volta aos Alpes e preparava-se para assumir novamente a responsabilidade de líder numa grande volta, mostrando o grande profissional que era, pois apresentava-se numa forma prometedora.


30 de abril de 2017

Scarponi não tem substituto. Astana vai ao Giro com menos um ciclista para homenagear o seu líder

Scarponi após a sua última vitória, na primeira etapa na Volta aos Alpes
(Fotografia: Facebook Astana)
A pergunta de quem iria substituir Michele Scarponi estava sem resposta há uma semana. A Astana decidiu homenagear o seu ciclista na 100ª edição da Volta a Itália: se não pode ter Scarponi, então não haverá ninguém para o substituir e a equipa irá mesmo para a corrida com menos um ciclista.

Com Fabio Aru a recuperar de uma queda que lhe provocou uma grave lesão no joelho, o veterano Scarponi ia ser o número um da Astana. A sua morte - foi atropelado durante um treino perto da sua casa em Filottrano - provocou um choque generalizado, mas naturalmente que, no ciclismo, atingiu particularmente a formação cazaque. O ano já estava a ser muito mau. Tinha sido Scarponi a dar a primeira vitória à equipa em 2017 (e única até ao momento) poucos dias antes do trágico acidente. Sem Aru, caiu por terra o principal objectivo da Astana: a vitória no Giro100. De Scarponi não se esperava um triunfo, mas a sua experiência e visto ter demonstrado boa forma na Volta aos Alpes, a equipa esperava alcançar uma boa classificação e talvez juntar uma ou outra tirada.

Esse objectivo naturalmente que se mantém, mas Alexander Vinokourov optou por deixar o dorsal um da Astana sem dono em homenagem a Scarponi. Menos um homem complicará a missão de Dario Cataldo ou Tanel Kangert de ficarem no top 10. É muito possível que se veja uma Astana muito activa no Giro à procura de vitórias que certamente os seus ciclistas ambicionam mais do que nuncal, com o desejo de as dedicar àquele que deveria ter sido o seu líder na ausência de Aru. O espanhol Luis Leon Sanchez é um corredor que deverá dispor de liberdade total para alcançar esse triunfo.

"Penso que é a decisão correcta e tenho a certeza que os organizadores do Giro, tal como toda comunidade do ciclismo, vão aceitar e compreender", afirmou o director da Astana, Alexander Vinokourov. Nas grandes voltas as equipas têm de se apresentar com nove ciclistas, incorrendo numa multa caso comecem com menos. Sendo um caso excepcional, aguarda-se agora pela decisão de Mauro Vegni, director da Volta a Itália.

Os eleitos da Astana para o Giro100 foram Pello Bilbao, Zhandos Bizhigitov, Dario Cataldo, Jesper Hansen, Tanel Kangert, Luis Leon Sanchez, Paolo Tiralongo e Andrey Zeits.



Vinokourov aproveitou também para garantir que a Astana não vai ficar por esta homenagem: "Obviamente que esta não é a única iniciativa que a Astana está a preparar para recordar o Michele e também para ajudar a sua família. Já começámos algo tão importante como uma angariação de fundos para a família dele e vamos fazer muito mais nos próximos meses."

O director da Astana salientou que irão correr todos os dias do Giro e noutras corridas para honrar a memória de Michele Scarponi, que aos 37 anos morreu de forma tão trágica.

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23 de abril de 2017

Valverde e a quarta vitória na Liège-Bastogne-Liège: "Para ti, amigo Scarponi"

(Fotografia: Facebook Liège-Bastogne-Liège)
A exibição foi fenomenal, como Alejandro Valverde tem repetido este ano em quase todas as corridas em que participa. Porém, a maior emoção foi quando o espanhol quis dedicar a vitória ao amigo Scarponi e as lágrimas tomaram conta do momento. "Quero dedicar esta vitória ao Michele Scarponi e a toda a sua família. Era um grande amigo. Quando soube fiquei paralisado. Não conseguia acreditar..." As palavras emocionadas eram o reflexo de uma Liège-Bastogne-Liège que se desenrolou num ambiente de pesar que marcou um pelotão ainda incrédulo com a trágica morte do italiano no sábado, atropelado por uma carrinha durante um treino. Valverde queria muito ganhar, não apenas por estar nos seus genes, mas porque desejava oferecer o prémio monetário à mulher e aos dois filhos, gémeos, de Scarponi. No dia em que o espanhol acrescentou mais uma vitória que consagra-o cada vez mais como os um dos melhores de sempre, Valverde mostrou também o ser humano que é ao partilhar mais um feito com Scarponi e a família.

Scarponi esteve no pensamento de todos e antes do arranque, o minuto de silêncio foi o momento arrepiante de uma homenagem merecida. No entanto, havia um monumento para disputar, o quarto do ano. Depois de uma Flèche Wallonne algo previsível e que apenas foi interessante nos quilómetros finais, a Liège-Bastogne-Liège ofereceu um espectáculo bem mais ao nível do que se pede, ainda mais quando se trata de uma das cinco clássicas mais importantes do ciclismo (Milano-Sanremo, Volta a Flandres, Paris-Roubaix, Liège-Bastogne-Liège e Il Lombardia). Não é muito vulgar no ciclismo actual, mas a fuga, que incluiu Tiago Machado (Katusha-Alpecin), chegou a ter quase 15 minutos de avanço. No pelotão esperavam que fosse a Movistar a liderar a perseguição, mas durante muito tempo foi algo confuso o que se passava. Ninguém assumia mais do uns poucos quilómetros a frente do pelotão e até chegou a ver-se um ataque, sem grande sentido e que apenas serviu para o grupo da frente continuar a ter uma vantagem que a certa altura começou a parecer que iria chegar.

Tiago Machado foi extremamente activo. Talvez um pouco de mais. Desgastou-se e se tivesse chegado ao fim e falhado um pódio, por exemplo, se calhar estaríamos a falar de como o português talvez tivesse trabalhado mais do que os companheiros de ocasião, que deveria ter sido mais frio... Mas desta vez, aquele espírito de luta foi precisamente o que lhe valeu a esperança de alcançar um resultado histórico. Tentou e deu tudo o que tinha. Foi uma exibição à Tiago Machado. Não se tem visto muito destas conhecidas qualidades do ciclista português desde que foi para a Katusha-Alpecin, mas de vez em quando lá surge das sombras e faz-nos sonhar.

Quando o pelotão finalmente organizou-se, a fuga ficou mesmo condenada. Movistar, Quick-Step Floors e BMC a trabalharem juntas, não deram hipótese. Quanto a portugueses as atenções viravam-se para Rui Costa (UAE Team Emirates) - que tanto adora a Liège-Bastogne-Liège e há um ano esteve no pódio - e ia-se espreitando para ver se José Gonçalves (Katusha-Alpecin) ainda tinha alguma cartada para jogar.

No final, os previsíveis candidatos apresentaram as suas credenciais. Daniel Martin desferiu um ataque brutal. Parecia que era desta. O irlandês ganhou distância e a segunda vitória no monumento estava cada vez mais perto. Mas onde está Alejandro Valverde, nunca há triunfos antecipados. O espanhol colou-se e esperou um pouco. Martin já pouco mais tinha a dar e Valverde deu a machada final. Pela terceira vez conseguiu a dobradinha Liège/Flèche e está a apenas uma vitória de igualar Eddy Merckx nas clássicas conquistadas na semana das Ardenas, ainda que nunca tenha ganho a Amstel Gold Race.

Na terça-feira Valverde fará 37 anos. Tens muitas razões para celebrar, pois está a viver um dos melhores anos da sua carreira. A morte de Scarponi retira alguma da felicidade destes feitos sensacionais do espanhol, que não esquecerá como a sua quarta Liège-Bastogne-Liège teve um sabor tão agridoce.

Outro ciclista que está a fazer uma excelente temporada é Michal Kwiatkowski (Sky), que fechou na terceira posição. Rui Costa foi 14º, a dez segundos, depois de ter quebrado na subida final. José Gonçalves terminou na 51ª posição a um minuto, Tiago Machado na 64ª a 3:50, André Cardoso (Trek-Segafredo) na 69ª a 4:42 e Ruben Guerreiro (Trek-Segafredo) na 88ª a 7:40. Com o mesmo tempo ficou José Mendes (Bora-Hansgrohe), que terminou no 100º lugar. Nunca Portugal tinha tido tantos representantes na Liège-Bastogne-Liège.

Tradicionalmente diz-se que o monumento fecha a época das clássicas, ainda que mais vão realizar-se durante o ano. Desta vez até falta uma nesta fase do temporada, com a Eschborn-Frankfurt a fazer a estreia no calendário World Tour, no dia 1 de Maio. Porém, inevitavelmente, fechado este período sempre espectacular das clássicas do pavé e das Ardenas, é altura de começar a olhar para a Volta Itália, Volta a França e Espanha. Para já, que venha o Giro100.

Resultados da 103ª edição da Liège-Bastogne-Liège.

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Na corrida feminina, a holandesa Anna van der Breggen completou a tripla das Ardenas com a vitória na Liège-Bastogne-Liège, no primeiro ano em que as três clássicas fizeram parte do calendário World Tour das senhoras. E tal como na Amstel Gold Race e na Flèche Wallonne, na segunda posição ficou a companheira da Boels-Dolmans, Lizzie Deignan e a polaca Katarzyna Niewiadoma (WM3 Energie) fechou novamente o pódio. A portuguesa Daniela Reis (Lares-Waowdeals), terminou na 60ª posição, a 8:13 minutos. Veja aqui a classificação completa.

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22 de abril de 2017

Ciao 'Scarpa'

(Fotografia: Facebook Astana)

Ainda há poucos dias pensava que não esperava escrever sobre um Scarponi ganhador, em boa forma e que iria ser novamente líder de uma equipa na Volta a Itália e logo na 100ª edição. Mas até já imaginava algumas possíveis abordagens para este inesperado regresso à ribalta de um ciclista de 37 anos e que até à última segunda-feira parecia estar mais próximo do final da carreira, do que propriamente de voltar a ter grandes momentos. Ao vencer a primeira etapa da Volta aos Alpes, pensei que afinal ainda havia mais para escrever sobre Scarponi. Não pensei certamente que o próximo texto seria o da despedida. 

Quando ouvi na notícia disse: "Ouvi bem?" Agarrei-me de imediato ao telemóvel e lá estava: Scarponi morre atropelado por uma carrinha. "Não é possível", pensei. Li e reli umas quantas vezes. Não sei bem porquê. Talvez à procura de algo que dissesse que afinal Scarponi estava bem. Mas não, só lia a descrição do trágico acidente. Na televisão assisti aos ciclistas da Astana e a Vincenzo Nibali limpar as lágrimas antes do arranque da etapa na Volta à Croácia. A cruel verdade é que Scarponi morreu aos 37 anos. Foi atropelado por uma carrinha num cruzamento, pouco depois de ter começado o seu treino, perto da casa onde vivia com a mulher e os seus dois filhos.

O mundo do ciclismo reagiu com grande comoção à morte de um dos corredores mais respeitados no pelotão. Respeitado tanto por aquilo que conquistou, como pela sua personalidade cativante. É comum a quem privou com Scarponi  - ciclistas, directores desportivos, jornalistas - dizer o quanto ele era marcante. A simpatia, disponibilidade, educação, alegria... Havia muitas razões para uma equipa querer contar com o italiano e não era apenas a sua qualidade como ciclista.

A forma como agiu após o final da Volta aos Alpes revela também como era dedicado à sua família. Scarponi regressou a casa ainda na sexta-feira, de carro, acompanhado por um dos massagistas da Astana, pois queria estar um pouco com a mulher e os seus dois pequenos gémeos, antes de voltar a concentrar-se no treino, a pensar no Giro100. O que era suposto ter sido apenas mais um dos muitos twits de Scarponi - que nunca teve problemas em partilhar alguns momentos da sua vida nas redes sociais - acabou por provocar uma emoção ainda maior. Na noite de sexta-feira, o ciclista colocou uma fotografia dos filhos nas suas costas, com a camisola de líder da Volta aos Alpes, que vestiu durante um dia.

E depois há aquele vídeo, no final da Volta aos Alpes, no qual Scarponi termina a dizer: "Vemo-nos no Giro." Não, já não te vamos ver e, de vez em quando, ainda não parece completamente real.

Na manhã seguinte partiu para o treino bem cedo em Filottrano (Ancona), região onde vivia. Eram 8:05 quando naquele maldito cruzamento um condutor não viu Scarponi e atropelou-o. O embate foi de tal forma violento que apesar do socorro ter sido rápido a chegar, segundo explicam os meios de comunicação social italianos, o ciclista foi declarado morto no local. Um jornal publicou umas imagens que acabam por provocar algum choque. Nelas vê-se Scarponi já tapado, ainda com a bicicleta perto de si e com a sua mulher de joelhos ao seu lado. Foi assim que a notícia deixou muita gente. De joelhos perante tal tragédia, mais uma do género que acabou com a vida de um ser humano de apenas 37 anos. Nas imagens vê-se ainda a carrinha e como o vidro estilhaçou perante o embate.

A seguir ao choque e aos momentos que se seguiram a tentar perceber o que tinha acontecido, vem a revolta. Tanto se fala e se tenta promover a segurança na estrada, de respeito para com todos e cada vez mais pelo crescente número de ciclistas ou utilizadores de bicicleta (como se preferir chamar) e, no entanto, estes acidentes continuam a acontecer em número preocupante. Alguns sites dedicados à modalidade vão dando destaque a este tipo de casos, mas claro que quando atinge um ciclista com a popularidade de Scarponi, o mediatismo é outro.

Porém, a revolta rapidamente deu lugar a um rasgo de maior objectividade e não tanto de emoção. Talvez seja a forma de lidar com algo tão inesperado. Não é o momento de "atirar pedras" ao condutor da carrinha. O homem de 57 anos que matou Scarponi e é um caso de polícia. O condutor enfrenta uma acusação de homicídio e, segundo a Gazzetta dello Sport, explicou aos agentes que não viu o ciclista no cruzamento, onde deveria ter cedido passagem a Scarponi. Este é o relato dado sobre o que aconteceu.

Em vez de raiva contra o condutor é talvez (mais uma) altura para se pensar que quando se anda na estrada, seja em que veículo for, é necessário acima de tudo respeito. Respeito pela distância de segurança, respeito pelas regras de trânsito... respeito uns pelos outros. Isto vale para condutores e para os ciclistas, sem excepções.

Agora resta-nos recordar Scarponi. Recordar as três etapas do Giro que venceu, a Volta a Itália que acabou por ser dele após a desqualificação de Alberto Contador, a Volta à Catalunha que ganhou, o Tirreno-Adriatico, o Giro del Trentino... e para sempre ficarão aqueles vigorosos festejos quando venceu na Volta aos Alpes, quase quatro anos depois da sua última vitória individual. Essa imagem marcou como não se esperava a vida do ciclista. Ao todo, foram 19 vitórias em 17 anos de carreira de um dos ciclistas mais acarinhados do pelotão.

As mensagens sucederam-se nas redes sociais. O mundo do ciclismo reagiu em peso à morte de Scarponi. Mas vou destacar uma, a de Luis Ángel Maté, espanhol que foi colega do italiano na Androni. "Penso em recordar-te a cada minuto da minha vida e contar aos teus filhos a maravilhosa pessoa que eras. Estarás sempre connosco." Perante uma morte tão precoce, inesperada e trágica, Maté (Cofidis) escreveu o que agora é o mais importante: recordar os melhores momentos e garantir que os filhos saibam o pai que tiveram, já que ficaram tão cedo privados dele.

O luto no ciclismo faz-se em competição. Os corridas não param e os ciclistas da Astana merecem uma palavra para destacar a forma como hoje foram para a estrada na Volta à Croácia e como este domingo estarão na Liège-Bastogne-Liège, quando se compreenderia que preferissem resguardar-se nos próximos dias. Mas ao competir estão provavelmente a fazer a maior homenagem ao colega que sempre lutou por eles e com eles.

Resta dizer: Ciao 'Scarpa'.

João Almeida vence na Turquia e dedica vitória a Michele Scarponi

(Fotografia: Unieuro Trevigiani-Hemus 1896)
Com apenas 18 anos João Almeida escolheu aventurar-se no estrangeiro para continuar a sua evolução como ciclista. Foi para uma equipa Continental búlgara, mas com raízes italianas, a Unieuro Trevigiani-Hemus 1896, e este sábado conquistou a sua primeira vitória, confirmando a senda vencedora que estava a construir como um dos juniores de maior talento em Portugal. Estamos a falar de um ciclista que no ano passado dominou a Volta a Portugal no seu escalão, conquistou a Taça de Portugal e é bicampeão nacional de estrada e de contra-relógio.

Num dia que acaba por ser de emoções mistas, João Almeida venceu a terceira etapa da Tour de Mersin, na Turquia, dedicando o seu triunfo a Michele Scarponi, ciclista que morreu na manhã deste sábado após ser atropelado durante um treino. "Hoje é um dia triste para o ciclismo. Dedico [a vitória] ao Michele Scarponi, que hoje nos deixou. Um campeão que nunca esqueceremos." Foram estas a palavras bonitas do jovem português, citadas no site da equipa, que, contudo, não deixou de agradecer aos seus colegas pela ajuda que lhe deram em estar na posição de bater ao sprint o russo Eduard Vorganov (Minsk Cycling Club).

Para a equipa foi também um dia importante, pois venceu pela primeira vez em 2017. É uma formação que conta com ciclistas muito jovens, mas devido à sua "costela" italiana consegue participar em algumas corridas importantes em Itália, que contam com equipas Profissionais Continentais e até do World Tour.

O Tour de Mersin termina amanhã, com João Almeida a ocupar a oitava posição, a uns distantes 10:05 minutos do bielorrusso Stanislau Bazhkou (Minsk Cycling Club). Veja aqui as classificações.