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3 de agosto de 2020

Van Aert no seu domínio

© Team Jumbo-Visma
Depois de uma autêntica novela de transferência da Vérandas Willems-Crelan para a Jumbo-Visma e que antecipou a sua ida para a equipa do World Tour em um ano, Wout van Aert chegou às clássicas em 2019 com muita vontade, bons resultados, mas a vitória não chegou. Uma ligeira desilusão para o belga, cujas expectativas era altíssimas depois de um 2018 de grande nível. Alcançou pódios e outros resultados de nota, mas faltou aquele triunfo. Acabaria por mostrar-se em sprints e contra-relógios, revelando que podiam esperar mais dele do que simplesmente nas clássicas. Porém, ao vencer neste último sábado a Strade Bianche, é difícil não pensar que Van Aert venceu no seu principal domínio. E está só a começar!

Há pouco mais de um ano, depois de um Critérium du Dauphiné brilhante (vitória no contra-relógio e numa etapa ao sprint, mais a camisola dos pontos), o título nacional de contra-relógio, Van Aert estava a ser uma das figuras da Volta a França. Foi a sua estreia em grandes voltas e além de ser um excelente homem de trabalho, quando chegou a sua vez de se mostrar, lá foi ele comprovar que sabia sprintar, vencendo em Albi os chamados sprinters puros como Elia Viviani e Caleb Ewan, por exemplo.

Dias depois, em Pau, estavam bem encaminhado para mais um resultado promissor no contra-relógio, até que ao tocar numa barreira teve uma queda aparatosa, com consequências muito graves. Aquele 19 de Julho terminou não só com uma época de estreia no World Tour promissora, como lançaram dúvidas se Van Aert iria conseguir regressar ao mesmo nível, tal foram a gravidade das lesões.

A 1 de Agosto de 2020, depois de confinamentos e com uma pandemia a ser notícia todos os dias, Van Aert surgiu para mostrar que não só o bom ciclismo estava de volta na Strade Bianche, como provou que podem contar com ele para lutar por um lugar entre aqueles que deixam a sua marca na modalidade. E no domínio que mais se esperava dele, nas clássicas.

Em 2020 só se o tinha visto na Omloop Het Nieuwsblad e o 11º lugar desapontou um pouco. No entanto, aí está Van Aert no seu elemento. A Strade Bianche é uma corrida que só pode assentar bem a um ciclista que tem no currículo títulos mundiais de ciclocrosse.  Foi uma corrida com mais pó do que está habituado, afinal o ciclocrosse é uma modalidade de Outono/Inverno, mas não o atrapalhou nem um pouco. Quando ficou no pequeno grupo da frente, era difícil não pensar que estava perto de ter o seu momento: vencer a sua primeira clássica World Tour.

A seu lado estavam nomes de respeito, vencedores de monumentos, como Jakob Fuglsang (Astana) - segundo na Strade Bianche em 2019 - ou Alberto Bettiol (EF Pro Cycling). Mas a prova do sterrato italiano é perfeita para as características de Van Aert. Só aquela subida final em Siena poderia causar preocupações.

Nas duas edições anteriores, o belga foi terceiro e muito por culpa daquela curta mas muito inclinada subida. A experiência também já se nota, apesar de ter apenas 25 anos. Davide Formolo (UAE Team Emirates) e Max Schachmann (Bora-Hansgrohe), segundo e terceiro respectivamente, sobem bem melhor do que Van Aert.

Destemido e muito confiante na suas capacidades e na sua condição física, o belga aproveitou o último sector de sterrato, a pouco mais de 12 quilómetros da meta, para dar a machadada final nos companheiros de fuga. 

Ganhou vantagem suficiente para chegar à tal subida sem nervosismos. A vitória era sua e mais do que merecida! Formolo e Schachmann chegaram a 30 e 32 segundos. O 10º, Diego Rosa (Arkéa Samsic) cortou a meta 7:45 minutos depois. O grande rival do ciclocrosse, Mathieu van der Poel, demorou mais 10:06 (15º) para completar os 184 quilómetros. Ainda não foi desta que a rivalidade passou para a estrada. Mas havemos de lá chegar... Muito calor, muitos incidentes - Julian Alaphilippe, vencedor de 2019, furou seis vezes (!) -, mas Van Aert esteve perfeito e fez por ser e merecer o seu dia de glória.

As próximas corridas

Ganhar no seu domínio só pode encher ainda mais de confiança Wout van Aert. Tendo em conta que já demonstrou que não teme os sprints, o belga vai surgir entre um dos favoritos para a Milano-Sanremo, o primeiro monumento que finalmente vamos ver este ano.

Mas antes de sábado, haverá ainda a Milano-Torino esta quarta-feira. Van Aert seguirá depois para França para o Critérium du Dauphiné e Tour. Os seus principais objectivos serão mais tarde perseguir mais vitórias nas principais clássicas do pavé, com Volta a Flandres e Paris-Roubaix em destaque, claro.

O mais importante de sábado, além da vitória, foi Van Aert e a Jumbo-Visma saberem que o pior não só já passou como parece estar num passado muito distante. Van Aert está pronto para agarrar o seu lugar entre os grandes.

Veja aqui a classificação completa da 14ª edição da Strade Bianche, com Rui Costa (UAE Team Emirates) a ser o único português em prova. Terminou na 39ª posição, a 19:27 minutos de Van Aert.


31 de julho de 2020

Rui Costa em acção no arranque do calendário World Tour

© João Fonseca Photographer
Há um misto de ansiedade, mas também de algum nervosismo, este último provocado pela incerteza que a pandemia provoca. É difícil não repetir incessantemente e com alegria que finalmente o ciclismo está de volta. E logo com uma corrida que tanto espectáculo dá, apesar da sua curta história: Strade Bianche. É já este sábado que o estranho calendário World Tour arranca. Lá está. Finalmente! Mas como se viu em Burgos, não se consegue celebrar muito.

A Volta a Burgos como que inaugurou este regresso às corridas devido às muitas equipas do principal escalão que se inscreveram na prova espanhola. Em 2019 haviam sido quatro. Desta feita foram 14! Porém, se por um lado houve bom ciclismo - grande, grande João Almeida e que dupla está a fazer com Remco Evenepoel na Deceuninck-QuickStep -, também desde o primeiro dia que houve sustos.

Não dá para fingir que tudo está bem, nem se pode. Ainda a prova não tinha arrancado e dois ciclistas da Israel Start-Up Nation estavam a ser afastados por terem estado em contacto com alguém que tinha testado positivo pelo novo coronavírus.

No dia seguinte, três ciclistas da UAE Team Emirates foram retirados da prova pela mesma razão. Foi o maior susto, pois os corredores já tinham estado na primeira etapa. Foi um alívio quando os testes dos três colombianos (Andrés Ardila, Juan Sebastián Molano e Cristian Muñoz) deram negativo.

Por mais medidas que sejam implementadas, por mais cuidado que todos tenham, também todos sabem que o risco estará sempre presente e, por isso, David Lappartient é o primeiro a avisar que qualquer corrida está constantemente sob a ameaça de cancelamento. Mesmo a Volta a França.

Em entrevista à Gazzetta dello Sport, o presidente da UCI reiterou que o calendário - que na sua totalidade foi cancelado em cerca de 70% - está dependente da evolução da pandemia, numa altura em que vários países estão a registar um aumento de casos. É exemplo de Espanha, França e Bélgica, onde estão agendadas algumas das corridas mais importantes para o pelotão. Mesmo os Mundiais na Suíça, em Setembro, não se podem dizer que estão 100% garantidos e Lappartient garantiu que não há plano B se não for possível realizá-los.

Às equipas, aos organizadores, aos adeptos resta esperar que tudo possa correr o melhor possível, cientes que vão haver sustos como em Burgos, mas sempre com alguma esperança que não passe disso, um susto.

Mas mesmo com esta pandemia a tornar tudo tão estranho, a sensação de este sábado poder assistir à Strade Bianche só pode ser fantástica! Chamam a esta clássica o sexto monumento, ainda que oficiosamente. Só vai para a sua 14ª edição, mas já está entre as favoritas de muitos ciclistas e, claro, de adeptos que adoram ver os ciclistas passar pelos famosos sectores de sterrato.

E sim, vai-se tentar pensar apenas numa corrida que contará com o português Rui Costa, que está de volta ao mais alto nível, depois de ter ganho a Prova de Reabertura, em Anadia (contra-relógio individual). A UAE Team Emirates leva ainda Diego Ulissi e Tadej Pogacar, por exemplo, para a prova de 184 quilómetros, com princípio e fim em Siena.

Peter Sagan (Bora-Hansgrohe), Philippe Gilbert (Lotto Soudal), Michal Kwiatkowski (Ineos), Tiesj Benoot (Sunweb) e Julian Alaphilippe (Deceuninck-QuickStep) - estes três os últimos vencedores da Strade Bianche - estarão presentes, num pelotão que contará ainda com Mathieu van der Poel (Alpecin-Fenix), Greg van Avermaet (CCC), Oliver Naesen (AG2R) e Vincenzo Nibali (Trek-Segafredo), por exemplo.

Mas o melhor é ver neste link a lista completa, via ProCyclingStats. E há que salientar que também as senhoras vão estar em competição (136 quilómetros) antes dos homens. Veja aqui a lista de inscritas.

Que haja espectáculo, que haja ciclismo e que venham muitas horas a ver o melhor que esta modalidade tem para dar nas próximas semanas. Nada será normal, é certo, mas fica a esperança (é sempre a esperança que nos resta) que este estranho calendário com grandes corridas a coincidir umas com as outras, se possa disputar sem mais cancelamentos e com a segurança sanitária que os tempos exigem.

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14 de março de 2020

Mais tempo em casa e sem ciclismo para ajudar a passar as horas

Até já pelotão, nacional e internacional
Não sei quantas vezes me perguntaram como é que eu consigo ficar horas e horas em casa a ver ciclismo. Para mim é algo natural. Adoro e nem penso duas vezes em ver grandes corridas (e até as mais pequenas), tentando até ajustar horários, sempre que possível, para o fazer. Sim, são horas e horas anualmente a ver ciclismo. Agora que o nosso mundo está virado do avesso devido ao Covid-19, agora que vamos passar muito mais tempo em casa e que bem que será preciso algo para distrair, e em que se terá tantas horas livres para ver ciclismo, não há!

Nestes últimos dias tem sido uma autêntica invasão de notícias sobre este coronavírus. Compreensível. O ciclismo não é excepção. Desde que a Volta aos Emirados Árabes Unidos foi suspensa já perto do fim e as equipas e staff ficaram de quarentena, que o tema começou aos poucos a tomar conta também dos meios de comunicação social que acompanham a modalidade. Sucedem-se os cancelamentos de corridas, que já vão além da China e Itália, ainda que neste último país - onde a situação na Europa é a mais grave - tenha significado a não realização de algumas das principais provas desta altura do ano, como a Strade Bianche, Milano-Sanremo e Tirreno-Adriatico.

Também a Volta a Itália vai sofrer com esta pandemia. Era para começar a 9 de Maio, na Hungria, e terminar a 31 desse mês, mas a corrida foi adiada e antes de 3 de Abril não será conhecida a nova data. Não será fácil encaixar num calendário tão preenchido e ainda mais em ano de Jogos Olímpicos (se se realizarem, claro, pois neste momento não há certezas de nada).

Todas as provas de Março foram canceladas, as de Abril também para lá caminham, sendo que, quando a situação começar a dar sinais de melhorar, irá arrancar a difícil de missão de tentar reagendar, não surpreendendo se algumas corridas só regressarem para o ano. O Paris-Nice ainda avançou, foi encurtado um dia e esperava-se que tivesse sido interrompido mais cedo. Acabou este sábado (parabéns a Max Schachmann, da Bora-Hansgrohe - segundo na Volta ao Algarve -, que merecia ser o destaque e não o coronavírus) com um pelotão reduzido, dada a debandada - mais do que justificada - de muitas equipas. Diga-se que estes cancelamentos (que se deseja que possam ser adiamentos) estende-se a todo o tipo de vertentes nesta modalidade, tal como está a acontecer com os outros desportos.

Por cá, a Clássica da Arrábida, que deveria realizar-se este domingo, também ficará à espera de nova data, enquanto a Volta ao Alentejo - que arrancaria na quarta-feira - foi cancelada. O Grande Prémio Internacional das Beiras e Serra da Estrela, marcado para Abril (de 17 a 19) também não vai disputar-se, segundo o anúncio feito na quinta-feira pela organização. A Clássica Aldeias do Xisto (5 de Abril) corre risco idêntico, ou de pelo menos de um adiamento.

Sim, é frustrante não poder ver todas estas corridas, portuguesas e estrangeiras e ainda mais sabendo que a lista poderá continuar a aumentar. Mas vive-se uma fase de excepção, exigindo-se medidas excepcionais, desejando-se que o mais rapidamente possível se volte a alguma normalidade. E claro que aqui se fala muito além do ciclismo, pois não ver ciclismo (ou futebol, basquetebol, fórmula 1...) é apenas uma pequena parte do que neste últimos dias está a mudar nas rotinas. Se for preciso ficar em casa 14 dias sem ciclismo (ou até mais), para depois poder ver as minhas queridas clássicas e para ficar 21 dias a ver o Giro, ou Tour ou Vuelta, então que assim seja. Sem pânico, sem açambarcamento, com responsabilidade e bom senso.

6 de março de 2020

Dias atípicos

Primeiro monumento do ano foi cancelado
© Milano-Sanremo
Têm sido dias atípicos no ciclismo (e não só, claro) e muito por causa do coronavírus. Parecia tão longe na China e agora tornou-se uma realidade tão próxima, tendo a palavra entrado definitivamente no nosso léxico, mesmo quando se fala de ciclismo. O cancelamento das duas últimas etapas da Volta aos Emirados Árabes Unidos e consequente quarentena para todos os que nela participavam, foi apenas o início de de uma situação que está sem fim à vista e que já está a afectar o calendário. Por esta altura estar-se-ia a preparar para assistir a umas horas de ciclismo a ver a espectacular Strade Bianche este sábado e a pensar que o primeiro monumento estava a chegar. Agora as corridas italianas foram canceladas e começam a aumentar as dúvidas sobre outras noutros países.

Para já, UCI e os organizadores das principais provas agendadas para os próximos dias, RCS Sport e ASO, vão agindo segundo as indicações das autoridades dos seus países, enquanto as equipas vão tomando as rédeas das difíceis decisões de competir ou não. Em Itália, onde a situação é mais grave no continente europeu, foram proibidos os eventos desportivos, ou de outro tipo, ao ar-livre. Com os números de casos positivos a aumentar de dia para dia, não é certo que a proibição dure apenas até 3 de Abril, com as autoridades a irem analisando a situação à medida que se vai desenvolvendo.

Caiu assim primeiro a Strade Bianche (para homens e mulheres), com a RCS Sport a ter a esperança de a poder reagendar, tal como o Tirreno-Adriatico (marcado inicialmente de 11 a 17 de Março) e o monumento Milano-Sanremo (dia 21), cujo cancelamento foi esta sexta-feira confirmado. Já em França, o Paris-Nice vai prosseguir como programado - já a Maratona de Paris foi cancelada -, arrancando no domingo. No entanto, há equipas que não querem competir, com algumas decisões até terem sido anunciadas antes do cancelamento da Strade Bianche, por exemplo.

A EF Pro Cycling foi das primeiras a pedir dispensa das provas italianas à UCI, quando a situação do coronavírus começou a agravar-se, mas estará no Paris-Nice. De recordar que as equipas World Tour estão obrigadas a competir em todas as corridas acima mencionadas, podendo ser multadas se não o fizerem com uma justificação aceite ou pela UCI ou pelos organizadores. Dada a propagação rápida do Covid-19 e as proibições decretadas pelo governo italiano, a justificação não deverá ser um problema.

Houve quem fosse mais radical. A Mitchelton-Scott, Ineos, Movistar, CCC, UAE Team Emirates, Astana e Jumbo-Visma não estarão no Paris-Nice. Só deverão regressar a 23 de Março, na Volta a Catalunha. A ASO tenta preencher as vagas no Paris-Nice. Para começar autorizou que as equipas tenham oito ciclistas em vez de sete e convidou a belga Circus-Wanty Gobert e a francesa B&B Hotels-Vital Concept. A organização vai tentar minimizar o contacto entre ciclistas e jornalistas e também com o público.

Equipas, organizadores e outros responsáveis da modalidade tentam lidar com uma situação atípica. Em causa está muito mais do que a saúde dos ciclistas ou membros do staff. Está em causa a saúde pública. Por agora resta esperar para ver como a situação evolui. Para a RCS Sport, a preocupação passa por tentar conseguir reagendar as corridas, num calendário World Tour muito complicado, não esquecendo que o cancelamento estendeu-se a provas de outros escalões. E há que não esquecer que em Maio a primeira grande volta é em Itália, o que, naturalmente, também preocupa Mauro Vegni, o director da RCS Sport.

De referir que a UAE Team Emirates, Cofidis e Groupama-FDJ continuam de quarentena nos Emirados Árabes Unidos, que foi prolongada até dia 14.

9 de março de 2019

Deceuninck-QuickStep vs Astana. A luta final apropriada na Strade Bianche

(Fotografia: Strade Bianche)
Quando Jakob Fuglsang acelerou, deixando para trás Wout van Aert, mas levando com ele Julian Alaphilippe, o pensamento foi: apropriado! Numa corrida tão espectacular como a Strade Bianche, foi mais do que apropriado ter um frente-a-frente entre um ciclista da Astana e da Deceuninck-QuickStep, as duas equipas mais ganhadoras de 2018. Neste frente-a-frente mais directo, foi a formação belga que saiu vitoriosa e apanhou a rival: somam 15 vitórias cada uma.

Para a Deceuninck-QuickStep vencer a este ritmo não é nada de novo e até soma mais duas vitórias do que em 2018, fazendo a comparação a nível de datas (algumas corridas estão em alturas do calendário um pouco diferentes). Já a Astana somava cinco há um ano. Em 2017 estava a zero! Então foi Michele Scarponi que terminou com o jejum, dias antes da sua trágica morte. 2018 foi o primeiro sinal que era uma equipa bem diferente, ainda que com praticamente os mesmo ciclistas. Em 2019, Aleksander Vinokourov vê os seus ciclistas estarem em disputa em várias corridas e "viciados" no ritmo de vitórias. 

Quinze triunfos distribuídos por nove ciclistas. Na Deceuninck-QuickStep foram oito a alcançar o mesmo número de vitórias. Mas há diferenças, que fará diferenças no ranking, por exemplo. A equipa belga tem cinco conquistas World Tour. A Astana nem uma. Tem cinco HC (segunda categoria). A Deceuninck-QuickStep tem três a este nível. Todas as restantes de ambas são de nível 1, ou seja, a terceira categoria das corridas do calendário internacional.

As vitórias, seja que categoria forem, são sempre importantes - que o diga a Sunweb, a única equipa World Tour ainda a zero -, mas as que a Deceuninck-QuickStep está a alcançar estão a começar a ofuscar a boa temporada da Astana. Afinal são quatro clássicas numa semana, quatro vitórias, duas World Tour.

Regressando então ao frente-a-frente Julian Alaphilippe vs Jakob Fuglsang. Estavam representadas as duas equipas mais ganhadoras de 2019, portanto, novo pensamento: será que é a Astana que vai quebrar a senda nas clássicas da Deceuninck-QuickStep? Não, ainda não foi desta. A formação belga está imbatível na sua especialidade.

Era difícil atribuir um claro favoritismo naqueles quilómetros finais, ainda que a recente forma de Alaphilippe e a sua clara evolução táctica, de leitura de corrida, talvez lhe dessem uma ligeira vantagem. Teórica, claro. Foi Fuglsang quem, na subida final, deixou novamente Wout van Aert para trás. O belga da Jumbo-Visma trabalhou tanto para apanhar o duo da frente, mas por uma segunda vez não teve pernas. Dois anos, dois terceiros lugares. Muito positivo para um ciclista jovem e tão talentoso.

Mas o que também não falta a Alaphilippe é talento. E inteligência. Quando, quilómetros antes, Fuglsang e Van Aert deixaram o grupo da frente, Alaphilippe, um pouco recuado, percebeu que era o momento para arrancar também. Soube depois acompanhar e ajudar Fuglsang quando foi preciso e deixar Van Aert em dificuldades. E soube ainda melhor escolher o momento exacto para deixar o dinamarquês para trás nos metros decisivos. Foi a primeira vez que esteve na Strade Bianche, mas conhecia na perfeição todos os pormenores finais da Strade Bianche.

Alaphilippe foi perfeito. O próprio realçou como não cometeu erros. Fuglsang não conseguiu o mesmo nível de perfeição táctica e talvez lhe tenham faltado algumas forças para a explosão final necessária. Ainda assim foi uma boa corrida do dinamarquês de 33 anos. Aos 26, Alaphilippe juntou ao currículo mais uma grande vitória. Pode não ser um voltista para ganhar o Tour, mas está a tornar-se num caso sério de sucesso no ciclismo gaulês. 

A Strade Bianche era mesmo um objectivo seu. "A minha época não é apenas a Flèche Wallonne [que venceu em 2018] e a Volta a França [duas etapas e rei da montanha]. Precisava de algo novo", admitiu. A Strade Bianche demonstrou mais uma vez como é uma clássica que, apesar do sterrato, acaba por assentar bem a diferentes tipos de ciclistas, ao contrário do que acontece com as do pavé. Alaphilippe e Fuglsang são a prova, tal como Romain Bardet foi há um ano quando fez segundo, por exemplo.

Os 184 quilómetros, com Siena como palco à partida e chegada (ainda que em pontos diferentes) são uma enorme incógnita, com tantos ciclistas de características tão distintas presentes. Alaphilippe demonstrou mais uma vez a sua capacidade para se adaptar a diferentes estilos de corridas. Segue para o Tirreno-Adriatico antes do primeiro monumento do ano, a Milano-Sanremo. É considerado o monumento dos sprinters, mas Michal Kwiatkowski e Vincenzo Nibali demonstraram recentemente como se pode surpreender os homens mais rápidos. Se as Ardenas são as clássicas de eleição de Alaphilippe, talvez seja boa ideia não o menosprezar em Sanremo. E, mais um pormenor, Alaphilippe ultrapassou o companheiro Elia Viviani: quatro contra três. (Classificação completa da Strade Bianche neste link, via ProCycling Stats)

Esta batalha entre Deceuninck-QuickStep e Astana não deverá ficar por aqui e atenção que há mais equipas a quererem mostrar que também estão em sendas vencedoras. A Mitchelton-Scott vai em 11 vitórias e a UAE Team Emirates é uma equipa transformada: 10 (ganhou 12 em todo o ano de 2018).

A Mitchelton-Scott que também não pára de vencer com a sua equipa feminina. A fantástica ciclista holandesa Annemiek van Vleuten realizou mais uma exibição de enorme nível para ganhar a sua primeira Strade Bianche. Deixou a dinarmaquesa Annika Langvad (Boels-Dolmans) a 37 segundos e a polaca Katarzyna Niewiadoma (Canyon SRAM Racing) a 40. Pode ver neste link a classificação completa da corrida feminina, via ProCyclingStats.

Os portugueses

Ruben Guerreiro foi o melhor entre os três portugueses presentes. O ciclista da Katusha-Alpecin não conseguiu ficar no grupo que chegou a estar na frente antes da fuga do trio, apesar de ter feito uma boa corrida, demonstrando que está a subir de forma. Terminou na 22ª posição, a 2:56 minutos de Alaphilippe. Seguiu-se Nelson Oliveira (Movistar), com um 25º lugar, a 3:05. Rui Costa (UAE Team Emirates) abandonou a corrida italiana.

Os três ciclistas vão continuar por aquele país e na quarta-feira partirão para o Tirreno-Adriatico, que contará também com José Gonçalves (Katusha-Alpecin). Ainda em Itália, mas já este domingo, serão os gémeos Oliveira a mostrarem-se, pois ambos foram chamados pela UAE Team Emirates para a corrida de um dia GP Industria & Artigianato. Também amanhã arranca o Paris-Nice, que terá Amaro Antunes (CCC) em acção.




8 de março de 2019

Strade Bianche brilha por direito próprio

(Fotografia. Facebook Strade Bianche)
Pequeno intervalo nas clássicas do norte, do pavé. Faz-se a viagem até ao sul da Europa, para a espantosa paisagem da Toscana. Chamam-lhe o sexto monumento, mas é apenas uma designação oficiosa. A Strade Bianche conquistou os grandes nomes do ciclismo e as principais equipas do pelotão praticamente desde a sua primeira edição. A ascensão foi rápida. É diferente, é desafiadora, é espectacular. Tem a intensidade que faz parte da génese de qualquer monumento, contudo, é ainda jovem - vai para a 13ª edição -, pelo que terá de esperar para talvez um dia ser oficialmente o sexto monumento. Mas será que precisa de ser oficial?

O pavé há muito que faz parte do ciclismo. São percursos centenários, históricos. E são o terror de muitos voltistas, que se preparam ao máximo quando uma etapa destas surge na Volta ao França, quase com tanta preocupação como se de uma alta montanha se tratasse. No entanto, o pavé faz as delícias de outros grandes ciclistas e que o digam os ex-corredores como Peter Sagan e Greg van Avermaet. Já a terra batida foi saindo dos percursos, à medida que as estradas foram sendo alcatroadas, oferecendo melhores condições ao ciclismo. Mas a Strade Bianche prima por isso mesmo: os sectores de terra batida, ou de sterrato, palavra que acaba por fazer parte do léxico do ciclismo e que não assusta tanto ciclistas que têm as grandes voltas como principal objectivo.

Apesar desta referência ao pavé, não se compare a Strade Bianche a um Paris-Roubaix ou uma Volta a Flandres. Fabian Cancellara salientou precisamente isso numa entrevista à Gazzetta dello Sport e o suíço, já retirado, sabe melhor do que ninguém do que fala, pois ganhou três vezes em Itália. Sim, a Strade Bianche tem algumas rampas cuja dificuldade fazem lembrar a Flandres. É definida pelos sectores de sterrato, como as outras duas provas são definidas pelos sectores de pavé. Porém, tem a capacidade de atrair vários tipos de ciclistas e tem uma identidade própria e sem comparação. Thibaut Pinot (Groupama-FDJ) é um defensor que a corrida italiana seja considerada o sexto monumento. Romain Bardet (AG2R) fez segundo há um ano. Michal Kwiatkowski (Sky) já a ganhou duas vezes.

Nenhum vai estar presente neste sábado nos 184 quilómetros que têm Siena como ponto de partida e chegada. Mas haverá Geraint Thomas (Sky), Vincenzo Nibali (Bahrain-Merida), Rafal Majka (Bora-Hansgrohe), Julian Alaphilippe (Decenuninck-QuickStep) e Bauke Mollema (Trek-Segafredo), por exemplo. Até Rui Costa (UAE Team Emirates) trocou este ano o Paris-Nice pelo sterrato da Strade Bianche. Thomas e Nibali nem surpreendem muito. O galês até começou a carreira a prometer ser um forte homem de clássicas e o italiano tem a capacidade para se adaptar a todo o tipo de terreno e adora um bom desafio.

O percurso abre a possibilidade de vários tipos de ciclistas vencerem, mas o destaque vai para nomes como Greg van Avermaet (CCC), Zdenek Stybar (Deceuninck-QuickStep e vencedor em 2015) e Wout van Aert (Jumbo-Visma, fez terceiro há um ano). E claro Tiesj Benoot. Uma das provas que esta é uma corrida que vários ciclistas adoram é o facto de o belga ter feito tudo o que era possível para estar presente, depois de há uma semana ter sofrido uma queda feia na Omloop Het Nieuwsblad, que o obrigou a visitar o hospital. Temeu-se que o vencedor de 2018 não estaria presente em Itália, mas o ciclista da Lotto Soudal quer mesmo estar na luta por um segundo triunfo.

Benoot realçou que há quem subestime a Strade Bianche. Provavelmente quem o faz arrepende-se ao fim de poucos quilómetros! Mas muitos até ficam fãs. Já Wout van Aert recordou como, depois de uma grande corrida, quebrou na rampa final. As cãibras até o fizeram sair da bicicleta e fazer uns poucos metros a pé. Ainda assim foi terceiro. A Strade Bianche é uma corrida que quebra o mais forte e especialista dos ciclistas e Peter Sagan também o sabe. Tem dois segundos lugares que revelam como um grande favorito pode ser quebrado naquela chegada. O eslovaco é outra das ausências, mas que não se tema, haverá espectáculo.


Chegar aos metros finais na discussão da vitória é uma batalha contra os rivais, contra um percurso que elimina quem mostra fraqueza e proibida que se tenha azares, contra si próprio, pois a Strade Bianche exige muito a nível físico e a nível. Se a subida final é um enorme teste, há muitos antes para passar.

"Porque é tão especial? As estradas de terra batida, a paisagem da Toscana, a magia de Siena, os caminhos ondulantes, a tradição..." Quem o diz é Fabian Cancellara. Como venceu três edições (2008, 2012 e 2016) teve direito a dar o seu nome a um sector de sterrato, o único até ao momento com essa distinção e não será este ano que haverá mais alguém, já que só Kwiatkowski está a um triunfo dos três, mas não estará presente.

E há uma boa notícia para os ciclistas: a meteorologia será bem simpática, comparativamente com 2018. Chuva, frio, lama... Benoot conquistou uma daquelas vitórias épicas, mas Greg van Avermaet não se importa nada de dizer que prefere que o sol brilhe e "só" ter de lidar com o pó.

Será a 13ª edição, apenas a terceira como corrida do World Tour, mas é uma corrida digna de monumento. Não, não precisa ser oficial. Só ficará bem se o chegar a ser, mas a Strade Bianche ganhou um estatuto em tão pouco tempo, que dificilmente outra corrida mais recente conseguirá. "Por favor, vamos parar de fazer comparações com Flandres e Roubaix. As estradas de terra batida branca brilham por direito próprio." Diz Cancellara e este sábado vai-se mais uma vez perceber que tem toda a razão.

Lista de inscritos, via Procycling Stats. Além de Rui Costa, também os portugueses Nelson Oliveira (Movistar) e Ruben Guerreiro (Katusha-Alpecin) irão competir neste sábado.


3 de março de 2018

Com Boonen como conselheiro, Benoot cumpriu o que lhe estava destinado

(Fotografia: Facebook Strade Bianche)
O futuro da Bélgica chegou. O próprio sabia que mais cedo ou mais tarde conseguiria uma grande vitória. Ciclistas com a sua qualidade é algo que lhes está destinado. E nada melhor do que conquistar a primeira num cenário épico, em que a lama tornou uma corrida por si só espectacular, numa autêntica luta pela resistência do mais forte. Faltava a Tiesj Benoot uma triunfo que confirmasse as credenciais que já lhe eram reconhecidas. Ela chegou numa Strade Bianche que não será esquecida, pela lama e pela forma como o jovem belga deixou para trás praticamente sozinho toda uma forte concorrência para ganhar a corrida que já se vê como sexto monumento, para já, oficioso.

"Sabia que um dia ganharia algo grande e foi hoje. Sabia que a Strade Bianche era uma grande oportunidade para o fazer", afirmou o ciclista após a corrida que deixou todos os que nela participaram irreconhecíveis, debaixo de uma camada de lama que certamente precisou de um longo duche para sair! Para Benoot esta pode significar mais do que a primeira grande conquista. Para o belga é uma pressão que se liberta - pelo menos um pouco - depois de ter vivido os últimos três anos sob muita. Um quinto lugar na Volta a Flandres quando se tem apenas 21 anos, é uma boa razão para criar essa pressão, principalmente mediática. "É realmente agradável obter o meu primeiro triunfo como profissional. Havia muitas expectativas em meu redor depois do quinto ligar na Volta a Flandres, há três anos. Os jornalistas belgas pressionaram-me muito", desabafou.

Daqui a uma semana Benoot celebrará o 24º aniversário e uma coisa é certa, já é mais do que apenas um dos vários ciclistas que têm vindo a ser apresentados como o próximo Tom Boonen. Benoot está já a trilhar o seu caminho e a deixar uma marca com o seu nome, longe das comparações com a referência belga nas clássicas. A maior semelhança neste momento é o facto de darem espectáculo, contudo, há muito que os separa. Boonen destacou-se como sprinter, além das clássicas, enquanto Benoot já demonstrou características de trepador. O primeiro nasceu para atacar as clássicas do norte, o segundo encaixa bem em algumas destas - logo a começar pela Volta a Flandres -, mas terá nas Ardenas aquelas provas que lhe parecerão perfeitas.

Curiosamente, ou talvez não, a primeira vitória de Benoot chega pouco tempo depois de Tom Boonen ter sido anunciado como conselheiro da equipa belga, depois de falhadas as conversas para assumir um cargo idêntico na formação que representou durante praticamente toda a carreira, a Quick-Step Floors. Mesmo já tendo deixado a competição, Boonen arrisca-se a ser a melhor contratação da Lotto Soudal para as clássicas!

Em 2017 estreou-se numa grande volta, no Tour, e logo com um 20º lugar, quarto na juventude. Se continuar a evoluir como voltista, também poderá haver a tentação de não seguir a senda das clássicas de Boonen e as Ardenas serão certamente a principal aposta, longe dos pavés do norte. Já a Strade Bianche vai encaixando em cada vez mais ciclistas de diferentes características. Romain Bardet (pasme-se!) foi segundo e o homem da AG2R regressa a casa muito feliz, não só pelo resultado, mas por toda a experiência, que incluiu levar os vinhos da região!

Mas o dia é de Benoot. Eis um ciclista que nasceu no coração da Flandres e que tem este tipo de corridas no sangue, como não poderia deixar de ser. É um produto da equipa de desenvolvimento da Lotto Soudal. Em 2014, depois do quarto lugar nos Mundiais, em sub-23, foi chamado para estagiar na estrutura principal. Um oitavo posto na Binche-Chimay-Binche/Memorial Frank Vandenbroucke e dias depois um 16º no Paris-Tours (prova 1.HC) não deixou margem para dúvidas: os responsáveis ofereceram-lhe um contrato profissional.

Em 2015, o brilharete na Volta a Flandres não foi único. Foi também quinto no Grande Prémio de Montreal, quarto no Paris-Tours e deixou logo indicações que poderia ser muito mais do que um homem de clássicas, com o segundo lugar na Volta à Bélgica, atrás de Greg van Avermaet, a apenas 41 segundos. Porém, foi no Critérium du Dauphiné que deixou muitos a olhar para ele, quando se viu ao lado de Chris Froome e Alberto Contador na etapa rainha dessa edição.

Ao contrário do que era quase "exigido" nos meios de comunicação social, a Lotto Soudal não teve pressa em ver Benoot começar a ganhar ou, quanto muito, a andar na frente. A postura foi de deixar a evolução acontecer naturalmente, sem saltar etapas. Foi chamando-o para as clássicas, dando-lhe muitas vezes um papel de joker, ou seja, com liberdade para fazer o seu resultado, testando as suas capacidades. Aos poucos foi também colocando o belga em provas por etapas mais importantes, até que no ano passado levou-o à Volta a França. Antes, tinha passado pela Volta ao Algarve, onde ficou com a camisola branca da juventude.

Benoot é a próxima geração belga que já não é futuro. É o presente. A pressão não irá desaparecer. Agora irá enfrentar a responsabilidade de ter de conseguir mais e melhor... Um monumento, claro está. Porém, será de esperar que a Lotto Soudal se mantenha serena com Benoot. Afinal o caminho tem sido caminhado da forma mais correcta e os resultados estão a aparecer quando o belga demonstra estar mais preparado para os alcançar.

A dúvida será se irá apostar em força nas três semanas. O 20ª lugar no Tour abriu esta porta. É preciso recuar aos anos 70 para encontrar um belga a ganhar uma grande volta. Johan De Muynck venceu o Giro em 1978 e Lucien Van Impe o Tour dois anos antes. Antes claro, que houve o "Canibal" Eddy Merckx. Não deverá ser para já. Agora é altura de se afirmar nas clássicas e ir ganhando experiência nas três semanas, estando prevista nova presença no Tour.

Benoot seguirá agora para o Tirreno-Adriatico, antes de regressar às clássicas. Fará E3 Harelbeke a pensar na Volta a Flandres. Irá depois para a tripla das Ardenas e será muito interessante vê-lo lado a lado com o veterano Alejandro Valverde e outro jovem talento, mas francês, Julian Alaphilippe, isto para dar apenas dois nomes da lista de fortes candidatos, mas que em 2018 são três figuras dos primeiros dois meses de competições.

A corrida

Para já é altura de aproveitar este momento épico da Strade Bianche. Foram 184 quilómetros nas estradas de terra batida - o famoso sterrato - da zona da Toscânia. O mau tempo que está a afectar a Europa, principalmente a zona centro, mas a apanhar também Itália, criou um cenário que tanto pode ser visto como um inferno, ou então levado com alguma boa disposição, como muitos ciclistas o fizeram... antes da corrida, claro!

Romain Bardet estava a ser uma das figuras. O francês surpreendeu quando se chegou ao grupo da frente, onde estavam, entre outros, Valverde (Movistar), Peter Sagan (Bora-Hansgrohe), Zdenek Stybar (Quick-Step Floors) e Michal Kwiatkowski (Sky) - todos homens que já fizeram pódio, ou ganharam a corrida - e não demorou a atacar. Afastou-se juntamente com outro jovem belga de quem muito se irá falar, Wout Van Aert. O campeão do mundo de ciclocrosse está a fazer um início espectacular de época na estrada, pela Vérandas Willems-Crelan. Destacou-se na Omloop Het Nieuwsblad e agora fez pódio numa Strade Bianche com condições parecidas às da sua especialidade.

Benoot percebeu que no grupo ninguém se estava a entender e levou o compatriota Pieter Serry com ele. O ciclista da Quick-Step Floors foi uma ajuda durante alguns quilómetros, mas com os sectores de sterrato a chegarem ao fim, Benoot acelerou e acabou sozinho na perseguição. Chegou-se à frente, respirou um pouco e novo ataque. Perfeito! Grande corrida de Benoot. Grande corrida no geral.

Quanto a portugueses, José Gonçalves (Katusha-Alpecin), que há um ano ficou à porta do top dez, foi o melhor na 27ª posição, a 9:46 de Benoot. Nelson Oliveira foi 46º a 19:27 e o companheiro da Movistar, Nuno Bico, abandonou.

De referir que a Strade Bianche abriu o calendário World Tour feminino, com Anna van der Breggen (Boels-Dolmans) a vencer isolada (pode ver aqui a classificação).

Aqui fica a classificação da corrida masculina, via ProCyclingStats.


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4 de março de 2017

"Sem Tony Martin e Kristoff tive mais liberdade. Tenho de aproveitar estas oportunidades"

(Fotografia: Facebook Katusha-Alpecin)
Numa corrida que normalmente é marcada por ataques e contra-ataques, parecia destinado que José Gonçalves fosse uma das suas figuras. O ciclista português da Katusha-Alpecin adora essa forma de competir: ao ataque. É um corredor determinado e muito forte em terrenos difíceis e no sterrato da Strade Bianche - em muitos sectores transformado em lama devido à chuva - José Gonçalves mostrou porque tem calibre World Tour. As oportunidades para se mostrar poderão não ser muitas dado o plantel de qualidade que a formação liderada por José Azevedo tem. Mas a primeira que lhe foi dada, o corredor de Barcelos agarrou como tão bem o sabe fazer. Andou 130 quilómetros no limite. Aguentou quando o grupo de perseguidores (que contava com os três ciclistas que acabaram no pódio, Kwiatkowski, Avermaet e Wellens) o apanhou e aos companheiros da fuga e até continuou a colaborar na frente. As forças terminaram a 20 quilómetros do fim. O top 10 ficou a 18 segundos, mas o 11º lugar é um excelente resultado no ano de estreia no principal escalão e é também a forma de mostrar aos responsáveis da Katusha-Alpecin que podem contar com ele não só para estar ao lado dos líderes, mas para lutar por vitórias.

No entanto, José Gonçalves não se deixa deslumbrar pela performance na clássica italiana e mantém-se focado em ser um ciclista importante para a equipa, mostrando-se paciente em esperar pela próxima oportunidade. "Não vou ter mais liberdade nas clássicas. Sem o Tony Martin e o Alexander Kristoff tive mais liberdade, mas quando eles estão é difícil", afirmou ao Volta ao Ciclismo. Muito satisfeito com o 11º lugar, José Gonçalves realçou que tem de aproveitar quando pode entrar nas fugas, mas o objectivo de 2017 é adaptar-se ao World Tour para começar a sonhar com outras corridas. "Gostaria de estar na Volta a Flandres ou Paris-Roubaix, mas este ano acho que não irá acontecer. Só em 2018. Tenho de ganhar um pouco mais de experiência", referiu o ciclista.

José Gonçalves contou que a Strade Bianche foi uma corrida complicada, ainda mais devido à chuva e às quedas que condicionaram alguns ciclistas. Lutou até as forças o deixarem. "[Nos últimos 20 quilómetros] já vinha no limite e não deu mais", desabafou sobre o momento em que não conseguiu manter-se no grupo da frente. A equipa deu-lhe os parabéns pelo resultado e nas redes sociais expressou o orgulho pela exibição do seu ciclista. Mas agora é tempo de recuperar e pensar nos próximos desafios. Viaja agora para a Holanda para duas corridas com pavé, antes de ir para Espanha e atacar o Grande Prémio Miguel Indurain e a Volta ao País Basco.

"Vou continuar a trabalhar para apresentar resultados e assim tentar renovar contrato", afirmou José Gonçalves, que assinou pela equipa suíça apenas por um ano. "Sinto-me bem na Katusha-Alpecin. É uma boa equipa e ajuda ter um director [José Azevedo] e um companheiro [Tiago Machado] portugueses. Isso é também importante", admitiu, rematando: "O 11º lugar da Strade Bianche é um bom início [de temporada]." José Gonçalves esteve no Tour Down Under, na Cadel Evans Great Ocean Road Race e na Volta ao Algarve, pautando as suas exibições pela regularidade no trabalho para os líderes, sendo que na última etapa da Algarvia também esteve envolvido na fuga. Quando tiver espaço para se mostrar, claramente o José Gonçalves de ataque - característica que tem marcado a sua carreira - vai aparecer.

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Confirmado. Kwiatkowski está de volta e é o príncipe do sterrato

(Fotografia: Facebook Strade Bianche)
O segundo lugar na Volta ao Algarve e as exibições convincentes durante a competição portuguesa não foram mais um momento fugaz do polaco, que nos últimos dois anos não foi particularmente feliz. Michal Kwiatkowski reencontrou a melhor forma na melhor altura para ele e para a Sky. Com a equipa debaixo de suspeita sobre uma ainda por explicar alegada utilização de medicamentos por parte de Bradley Wiggins em 2013, ano em que venceu a Volta a França, a formação britânica parecia estar a ressentir-se desta desconfiança nas competições. As três vitórias na Herald Sun eram muito pouco para a Sky e o título nacional de Sergio Henao foi uma conquista importante, mas nesta altura do ano a equipa já costuma ter-se mostrado bem mais. Kwiatkowski apareceu quando ele e a Sky precisavam. O polaco está em final de contrato, mas revela novamente a ambição daquele ciclista que se sagrou campeão do Mundo em 2014.

"Estou muito feliz, mas não foi o tudo ou nada. Tive muitas dificuldades na época passada, mas agora estou feliz com a minha situação", explicou Michal Kwiatkowski. O facto dos resultados estarem a aparecer em 2017 pode muito bem estar relacionado com a mudança de atitude do polaco. "Talvez eu estivesse a ir ao limite para impressionar toda a gente no ano passado. Não sou uma máquina e, mais cedo ou mais tarde, paga-se a factura. Não estava satisfeito, mas tive um grande apoio da equipa quando tive problemas de saúde e não conseguia acabar as corridas. Sempre acreditaram em mim", referiu o ciclista que acrescentou: "Não perdi o meu talento. Só tive de esperar e trabalhar muito para regressar a este nível."

A sua mudança para a Sky acabou por resultar apenas num triunfo, na E3 Harelbeke. Individualmente Kwiatkowski não rendeu e quando foi chamado para apoiar os líderes, também fraquejou, com a equipa a justificar a certa altura que o polaco não estava bem de saúde. Os problemas parecem estar ultrapassados e depois da exibição de luxo na Strade Bianche é desde já um dos favoritos para a semana das Ardenas, mas antes estará no Tirreno-Adriatico, Milano-Sanremo e Volta ao País Basco.

O príncipe do sterrato que ameaça o rei Cancellara

Esta foi a 11ª edição da Strade Bianche, a primeira enquanto corrida do World Tour. Michal Kwiatkowski tornou-se no segundo ciclista a repetir a vitória. A primeira foi em 2014, na temporada mais memorável da carreira do atleta de 26 anos. Fabian Cancellara é o rei do sterrato, somando três vitórias, que lhe valeram o nome num dos sectores de terra. O suíço retirou-se no final de 2016, o que significa que o polaco tem caminho aberto para fazer história na corrida italiana, que começa a ser vista como uma espécie de sexto monumento oficioso do ciclismo. Se vencer mais uma edição, também terá direito a colocar o seu nome num dos sectores de sterrato.

Numa corrida muito atacada e que viu um dos mais fortes candidatos - Peter Sagan - abandonar aos 95 quilómetros, Kwiatkowski aumentou o ritmo já nos quilómetros finais e não houve sterrato (mais perto de ser lama), nem subidas que quebrasse o polaco, que chegou isolado à meta em Siena. Greg van Avermaet (BMC) foi desta fez segundo, com Tim Wellens (Lotto Soudal) - outro ciclista a realizar um excelente início de temporada - a completar o pódio.

Quanto a Sagan, o eslovaco explicou que nos últimos três dias não se tinha sentido bem e que este sábado acordou a sentir-se fraco. No entanto, o eslovaco disse que resolveu competir para não desiludir os fãs. Apesar de ter ficado envolvido numa queda que acabaria por cortar o pelotão, Peter Sagan garantiu que não foi por isso que abandonou. Simplesmente, não teve forças para continuar.

Mas a Strade Bianche teve outro protagonista e foi um português. José Gonçalves integrou a fuga do dia, que se formou aos 25 quilómetros. Trabalhou muito, aguentou-se quando o grupo de Kwiatkowski e Avermaet o alcançou, mas os últimos 20 quilómetros dos 175 foram complicados. O ciclista da Katusha-Alpecin quebrou fisicamente, contudo, concluiu a prova num brilhante 11º lugar. E a sua prestação merece um texto com as suas declarações. Leia aqui.

Quanto aos outros dois portugueses em prova, Tiago Machado, colega de José Gonçalves na Katusha-Alpecin, foi 54º a 13:45 do vencedor e Nuno Bico (Movistar) não terminou a corrida.

Veja a classificação da 11ª edição da Strade Bianche.

Na prova feminina, a vencedora foi a italiana Elisa Longo Borghini (Wiggle High5), com a polaca Katarzyna Niewiadoma (WM3 Energie) e a britânica Elizabeth Deignan (Boels-Dolmans Cycling Team) a completarem o pódio. Veja os resultados neste link.


3 de março de 2017

Strade Bianche, um oficioso sexto monumento

(Fotografia: Facebook Strade Bianche)
Em dez anos de história a Strade Bianche tornou-se numa corrida obrigatória para os homens das clássicas. Só este ano entrou para a categoria World Tour, mas há muito que os melhores ciclistas e as melhores equipas colocam a corrida italiana nos seus calendários. Em 2016, Fabian Cancellara venceu pela terceira vez, o que fez a organização dar o seu nome a um dos sectores de sterrato (caminhos de terra). A Strade Bianche foi mesmo a última clássica que o suíço venceu e este ano os grandes nomes estarão presentes para prosseguir um legado que ainda é pequeno comparando com outras clássicas, mas que na opinião do director desportivo da Cannondale-Drapac, Fabrizio Guidi, tem tudo para transformar a corrida da Toscana em um dos monumentos do ciclismo e assim juntar-se à Milano-Sanremo, Volta a Flandres, Paris-Roubaix, Liège-Bastogne-Liège e Lombardia.

A Strade Bianche é a primeira das novas corridas do calendário World Tour a contar com todas as equipas do principal escalão. Peter Sagan (Bora-Hansgrohe) e Greg van Avermaet (BMC) partem como favoritos - como tem sido habitual nos últimos dois anos em muitas clássicas -, mas o pelotão contará ainda com Jan Bakelants (AG2R), Tiesj Benoot (Lotto Soudal), Diego Rosa (Sky), Edvald Boasson Hagen (Dimension Data), Fabio Felline (Trek-Segafredo) e também os vencedores de 2013, 2014 e 2015: Moreno Moser (Astana), Michal Kwiatkowski (Sky) e Zdenek Stybar (Quick-Step Floors). E já agora, Peter Sagan conta com dois segundos lugares!

Além destes principais candidatos, Vincenzo Nibali (Bahrain-Merida), Fabio Aru (Astana), Rigoberto Uran (Cannondale-Drapac), Thibaut Pinot (FDJ) e Roman Kreuziger (Orica-Scott) dão ainda mais classe a este pelotão que terá três portugueses. A principal curiosidade é Nuno Bico. O jovem ciclista da Movistar tem uma preferência por corridas de um dia e a equipa espanhola está a oferecer as oportunidades que Nuno Bico deseja. Sem pressão para alcançar desde logo bons resultados, ainda assim é uma corrida que o português terá a possibilidade de aprender a lidar com os melhores do mundo.

Depois temos José Gonçalves. A fazer a estreia no World Tour pela Katusha-Alpecin, esta é uma prova em que o ciclista poderá ter alguma liberdade para se mostrar. Tendo em conta que gosta de "jogar" ao ataque e sendo uma corrida que normalmente fica marcada precisamente por esse tipo de corredores, a ver vamos se será o momento em que vemos o José Gonçalves que bem se conhece dos tempos da Caja Rural.

Quanto a Tiago Machado, também da Katusha-Alpecin, o português tem cada vez mais se notabilizado como homem de trabalho na equipa suíça. Nunca é de afastar a possibilidade de atacar, mas a formação terá Maxim Belkov e Jhonatan Restrepo (que está a realizar um início muito forte de temporada) que deverão ser as principais apostas para a corrida.

"É uma das corridas mais importantes entre as clássicas da Primavera. Já é muito importante para os ciclistas e vê-se os grandes nomes a vir aqui. Pode um dia vir a ser um dos monumentos", salientou Fabrizio Guidi, citado pelo Velonews.

Fabian Cancellara considera que a Strade Bianche é "uma corrida especial". "Serve para os homens das clássicas, para os das Ardenas e até os das grandes voltas têm uma hipótese [de vencer]. Isso torna a corrida única", salientou no dia em que inaugurou a pedra que irá identificar o seu sector de sterrato, o oitavo dos 11 que compõem a prova (vídeo em cima).

A Strade Bianche terá transmissão no Eurosport. Mas há uma incerteza para o espectáculo de amanhã: irá chover? Será que vamos ter muito pó, ou lama? E não esquecer, que também as senhoras terão a possibilidade de enfrentar o sterrato de uma das corridas mais apreciadas do calendário, agora do World Tour.

Veja aqui a lista de inscritos.




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