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15 de janeiro de 2021

Líderes começam a decidir em que grande volta vão apostar

© Wout Beel/Deceuninck-QuickStep
Com muitas das equipas nos habituais estágios de início de ano, ainda que sem saber muito bem quando e onde vão arrancar a temporada - contingências da pandemia -, vão definindo-se objectivos, nomeadamente ao que grandes voltas diz respeito.

Em 2020, Portugal teve a confirmação que tem um voltista e João Almeida (na foto) já tem a sua grande volta escolhida. A principal novidade poderá ser Egan Bernal não apostar tudo no Tour, tal como Mikel Landa.

Começando pelo ciclista português. Depois da espectacular exibição na Volta a Itália, naquela que foi a sua estreia em provas de três semanas, João Almeida aponta à corrida que chegou a ser hipótese no ano passado: a Volta a Espanha. Os planos acabaram alterados, muito devido à queda grave de Remco Evenepoel, na Lombardia, que o tirou do Giro. O resto é história e Almeida conquistou estatuto dentro da Deceuninck-QuickStep. Irá à Vuelta como líder.

Já Evenepoel recupera o plano que tinha para a temporada transacta e está marcado para o Giro, ainda que a sua recuperação continue. O próprio belga afirmou que continua a sentir algumas dores, pelo que o regresso à competição é uma incógnita.

Apesar de ser uma equipa que sempre apostou mais nas clássicas, a Deceuninck-QuickStep tem ganho outro destaque nas três semanas, além de lutar por etapas. Para completar, Julian Alaphilippe tem os olhos postos no Tour, faltando saber com que objectivo: vestir a amarela e tentar lutar por ela, etapas, montanha... um pouco de tudo, talvez...

Mas vamos então por provas. A Volta a Itália (de 8 a 30 de Maio) contará com o vencedor de 2020, Tao Geoghegan Hart, mas o seu companheiro da Ineos Grenadiers, Egan Bernal, afirmou que também gostaria de ir ao Giro, podendo mesmo fazer a dupla Giro/Tour.

Mikel Landa e Pello Bilbao (Bahrain-Victorious), Simon Yates (BikeExchange) e Vincenzo Nibali e Bauke Mollema (Trek-Segafredo) começam 2021 com o pensamento em estar em Itália e depois em França. Yates não é certo, mas a hipótese estará a ser estudada, agora que a equipa não conta com o irmão gémeo, Adam (foi para a Ineos Grenadiers).

Já Emanuel Buchmann (Bora-Hansgrohe) deixa o Tour para se estrear no Giro, com Marc Soler a espreitar a oportunidade de liderança na primeira vez que irá à Volta a Itália. O veterano Domenico Pozzovivo (Qhubeka Assos) é que não troca o Giro por nada. Soma 14 presenças, contra apenas três no Tour e outras tantas na Vuelta.

Quanto à Volta a França (de 26 de Junho a 18 de Julho), Chris Froome irá centrar novamente muita das atenções, no ano em que será estranho vê-lo sem o equipamento da Ineos Grenadiers. Agora representa a Israel Start-Up Nation e terá a seu lado o irlandês Daniel Martin e o canadiano Michael Woods. De recordar que se a Volta ao Algarve conseguir realizar-se entre 17 e 21 de Fevereiro, o britânico é uma presença muito provável na corrida.

Na Ineos Grenadiers, Geraint Thomas não desiste do Tour, mesmo tendo dificuldades em ser líder. O galês quer preparar a sua temporada a pensar em França, mas na sua equipa a concorrência é enorme, pelo que, nesta altura, poucas certezas poderá haver para Thomas.

O reforço da Movistar Miguel Ángel López deverá ir a França, ao lado de Enric Mas. A Bora-Hansgrohe, ao "desviar" Buchmann para o Giro, abriu vaga para Wilco Kelderman mostrar o que vale, depois de em 2020 ter estado tão perto de ganhar a Volta a Itália, ao serviço da Sunweb. O holandês será acompanhado pelo jovem talento alemão Lennard Kämna, que ganhou uma etapa no Tour na edição passada.

Para terminar, a Volta a Espanha (de 14 de Agosto a 5 de Setembro). Quem serão os rivais de João Almeida? A EF Education-Nippo tem estado algo silenciosa no anúncio dos calendários dos seus atletas, mas Rigoberto Uran poderá ter a Vuelta como principal objectivo. Ainda se aguarda pelo destino do rei da montanha do último Giro, Rúben Guerreiro.

Alejandro Valverde será aposta da Movistar, com Miguel Ángel López a ter planeado fazer a dupla Tour/Vuelta. Giulio Ciccone terá oportunidade de liderança por parte da Trek-Segafredo, assim como Felix Grossschartner, na Bora-Hansgrohe. No caso do austríaco será a possibilidade de confirmar o seu crescimento como voltista, depois do nono lugar, precisamente na Vuelta.

Como é habitual, a Volta a Espanha é aquela que mais tarde vai conhecendo quem nela aposta, já que surge muitas vezes como a segunda grande volta do ano para alguns ciclistas. Porém, há um que está muito entusiasmado. Fará a sua estreia em três semanas, no seu primeiro ano no World Tour. É mais um jovem que há muito anda a ser seguido e que finalmente optou por dar o salto: Thomas Pidcock.

Tem 21 anos, é um ás do ciclocrosse, mas na estrada foi campeão do mundo de contra-relógio de juniores em 2017, foi evoluindo e agora a Ineos Grenadiers abriu-lhe as portas da elite. Apesar de as clássicas fazerem parte da sua primeira fase do ano, Pidcock não esconde como também quer mostrar-se em provas como as de três semanas.

Estes planos iniciais podem, naturalmente, sofrer alterações e ainda faltam muitos corredores confirmarem os seus objectivos. Mesmo que de normal 2021 nada esteja a ter, o ciclismo tenta manter o ritmo de treinos e planeamento rumo a uma época que se espera que seja o mais próxima possível do calendário estabelecido e principalmente sem cancelamentos.

»»O regresso do bom velho Froome poderá ser no Algarve««

»»Marc Hirschi deixou DSM para se juntar a uma equipa cada vez mais forte««

23 de outubro de 2020

Sunweb contra si própria com Geoghegan Hart à espreita de ficar com a rosa

© Giro d'Italia
Dia de quase todas as decisões na Volta a Itália. Sestriere será o palco da última montanha do Giro. Em dose tripla! Sem Colle dell’ Agnello e Col d’Izoard, sobrou esta dificuldade para a derradeira etapa em linha, sendo que a corrida só terminará com o contra-relógio de Milão. Não há tirada de consagração em Itália. Tao Geoghegan Hart vai tentar concretizar um golpe de teatro, medindo forças contra uma Sunweb que luta contra si própria.

O que aconteceu no Stelvio tornou-se no maior ponto de interesse do Giro, agora que a senda de João Almeida de rosa chegou ao fim. A táctica acabou por correr bem para a Sunweb a curto prazo. Ou seja, ganhou a etapa com Jai Hindley e Wilco Kelderman ficou líder da corrida. Porém, ter deixado o holandês sozinho ainda em pleno Stelvio, quando demonstrou que poderia não conseguir seguir o ritmo de Rohan Dennis - grande etapa do australiano na ajuda a Geoghegan Hart - mas não ficaria longe, foi uma decisão estranha e que pode ainda ter consequências.

Os dois ganhos na etapa de quinta-feira, de pouco servirão se o britânico da Ineos Grenadiers recuperar os apenas 15 segundos que o separam de Kelderman. Geoghegan Hart irá testar a união pouco convincente que Hindley tentou passar. Garante que vai ajudar Kelderman, mas são só 12 os segundos que o separam do colega.

A equipa não deu o apoio incondicional a Kelderman e se ceder em Sestriere, não surpreenderá se rapidamente ficar outra vez isolado. O holandês é um homem que está de saída para a Bora-Hansgrohe. Hindley é um dos jovens que está a singrar na Sunweb. Ainda assim, tudo pareceu estranho e a Sunweb está a realizar um jogo perigoso. Porém, pode agora também ter duas armas para atacar o britânico da Ineos Grenadiers.

Esta Sunweb no Giro, nada tem a ver com a imagem de união passada no Tour. Agora está uma vitória numa grande volta em causa. Contudo, rivalidades internas podem ser muito prejudiciais.

Geoghegan Hart tem andado a fazer marcação de longe à liderança, quando João Almeida (Deceuninck-QuickStep) estava de rosa e Kelderman era o rival. O britânico venceu uma etapa e foi-se mantendo próximo, naquele grupo que rondou os três minutos de desvantagem. Há que não esquecer que chegou a Itália para ser o braço-direito de Geraint Thomas, mas o abandono muito cedo do galês, abriu as portas da geral a Geoghegan Hart.

É mais um dos rostos da nova geração e vencer no Giro é de extrema importância para a sua carreira, no imediato. Tem o lugar de líder em grandes voltas tapado numa equipa que tem Egan Bernal, Richard Carapaz, Geraint Thomas com mais estatuto e há mais pretendentes à posição. Em Sestriere tem uma oportunidade de ouro para também ele se afirmar, podendo assim ter outras escolhas no seu futuro. Publicamente ainda não foi anunciado se fica na Ineos Grenadiers em 2021 e Geoghegan Hart pode ser um importante homem de trabalho, mas não gosta de ficar em segundo plano durante muito tempo.

Quanto a João Almeida, está no quinto lugar, a 2:16 da liderança. O quarto posto de Pello Bilbao (Bahrain-McLaren) está a 1:13 segundos de distância para o ciclista da Deceuninck-QuickStep. Atrás do português está Jakob Fuglsang (Astana), a 3:59 de Kelderman. As posições no top dez ainda estão por definir.

20ª etapa: Alba - Sestriere, 190 quilómetros

Josef Cerny (CCC) foi o vencedor da etapa de algum descanso no Giro, fazendo singrar mais uma fuga. Os sprinters viram assim a hipótese de uma última discussão não se concretizar. No entanto, a etapa entre Abbiategrasso e Asti foi encurtada de 253 quilómetros para 124 após um protesto dos ciclistas que alegaram que as condições meteorológicas adversas colocavam em risco a saúde de todos, ainda mais sendo uma distância tão longa. Mauro Vegni, director da corrida, não gostou que o pedido fosse feito tão apenas antes do início da etapa, mas a tirada foi mesmo encurtada.

Este sábado regressa então a montanha, com o Sestriere a ser enfrentado três vezes, uma pelo lado de Perosa e duas pelo de Cesana. Serão cerca de quatro mil metros de acumulado. Apesar haver muitos pontos em disputa, Ruben Guerreiro só tem de chegar a Milão para se tornar no primeiro português a conquistar uma classificação numa grande volta. Matematicamente a camisola azul está garantida para o ciclista da EF Pro Cycling.

»»Isto é apenas o início««

»»Giro perde duas das subidas mais difíceis. Táctica para etapa desta quinta-feira pode mudar««

21 de outubro de 2020

Giro perde duas das subidas mais difíceis. Táctica para etapa desta quinta-feira pode mudar

© Tim de Waele/Getty Images/Deceuninck-QuickStep
Desde o início da Volta a Itália que se colocava a questão se as etapas de alta montanha da última semana teriam de ser alteradas. As previsões meteorológicas eram a razão da incerteza. Porém, foi a pandemia que obrigou a uma mudança de última hora para sábado, dia daquela que era vista como a etapa rainha.

Depois desta quarta-feira pouco ter sido feito para ameaçar a camisola rosa de João Almeida e com a etapa de sábado a perder alguma dificuldade, a tirada desta quinta-feira ganhou ainda mais relevância. Sem Colle dell’ Agnello e Col d’Izoard - o Giro fará uma visita a França -, a opção na 20ª etapa será fazer três passagens por Sestriere.

O que é que isto significa? Menos altitude, cerca de quatro mil metros, em vez de 5500. Continuará a ser uma etapa complicada, ainda mais porque a temperatura não será a mais convidativa.

Porém, principalmente para alguém que estivesse a pensar em algum ataque de mais longe para recuperar de diferenças maiores, passar três vezes o Sestriere pode não ter o mesmo efeito. O director da corrida, Mauro Vegni, anunciou as alterações à rádio RAI 1, referindo que uma das passagens por Sestriere será pelo lado de Perosa e duas pelo de Cesana.

Na base desta mudança estão as medidas de restrição em Briançon, uma das localidades francesas que iria ver o pelotão passar. Na cidade francesa estão proibidos grupos com mais de seis pessoas na rua. As autoridades anunciaram que não seria possível o Giro passar.

Vegni já estava a estudar alternativas devido à ameaça de mau tempo, pelo que já tinha uma solução em vista. Uma das opções até terá sido desviar a corrida para o Colle delle Finestre, mas com uma parte da subida a ser em terra batida, com mau tempo seria uma má escolha, refere a AFP, segundo o VeloNews.

"Era impossível encontrar uma alternativa tão exigente como a original", desabafou Vegni, citado pelo VeloNews. Salientou ainda que tem garantias que, apesar das previsões meteorológicas puderem não ser as melhores, que será possível realizar a etapa no sábado em Sestriere.

No momento em que se publica este texto, ainda se desconhece quantos quilómetros terá a etapa e como será feita a ligação entre subidas.

O Stelvio, que será enfrentado nesta quinta-feira, ganha assim ainda mais relevância. É uma etapa muito difícil (ver mais abaixo) e com a de sábado a perder dificuldade, será um enorme risco deixar um possível ataque ao João Almeida para a última tirada em linha. Mesmo ciente do que tem pela frente, o ciclista português avisou que gosta do Stelvio.

Mais um dia de rosa

Por esta altura é impossível esconder que a ansiedade vai aumentando a cada dia que passa e se vê João Almeida de rosa. Até parece que o próprio ciclistas é o mais calmo, enquanto em Portugal cresce o interesse pelo feito do português.

Numa última semana tão difícil, passaram dois dias sem que Almeida tivesse sido testado pelos rivais. Na 17ª etapa (Bassano del Grappa - Madonna di Campiglio, 203 quilómetros), ainda teve de responder a mais uma aceleração da Sunweb. Mas mostrou-se atento e continua a revelar que fisicamente está bem. Mais uma vez, recorde-se que Almeida nunca vez uma prova de três semanas.

Fausto Masnada deu uma ajuda, mas não ficou nada bem ao italiano ter de ver o português a dizer-lhe para ir para a frente do grupo. O italiano estava claramente com capacidade para trabalhar e fê-lo bem, mas quase a pedido. Numa equipa que tanto preza a união de grupo, Masnada ainda tem muito a aprender.

Desta feita a dupla Jay Hindley/Wilco Kelderman não fez estragos, como no domingo. Aliás, a Sunweb foi bastante conservadora na abordagem à etapa. São 17 segundos que separam Kelderman de Almeida, mas a equipa parece estar a querer retirar alguma pressão do holandês. Só joga pelo seguro. A pergunta continua a ser, onde vai tentar tirar a rosa ao português? E mais alguém tentará algo quase milagroso? A maioria tem quase três ou mais minutos para recuperar.

Novamente de azul

Foi outro português que acabou em destaque. Ruben Guerreiro foi à procura de recuperar a camisola azul da montanha. Terminou o dia com mais com 50 pontos do que Giovanni Visconti (Vini Zabù-KTM). Mas atenção a Thomas de Gendt. O belga da Lotto Soudal foi somando pontos e ficou na fuga até final. Ainda são 106 pontos de diferença, mas nas duas etapas de alta montanha há muitos em disputa. Guerreiro terá de estar atento e entrar novamente numa fuga.

Classificações completas, via ProCyclingStats.

18ª etapa: Pinzolo - Laghi di Cancano, 207 quilómetros

Será no Stelvio? É a Cima Coppi da 103ª edição, ponto mais alto do Giro, a 2758 metros. É também uma das etapas mais aguardadas e, além de Kelderman, qualquer ciclista que ainda queira fazer algum ataque, talvez tenha guardado forças precisamente para esta quinta-feira. Depois de dois dias mais calmos (relativamente).

Não é de afastar que, mais uma vez, seja uma fuga a triunfar. Em Madonna di Campiglio, Ben O'Connor conseguiu ficar sem ninguém por perto e um dia depois de ter sido segundo, conseguiu uma vitória muito importante para ele e para uma NTT, a lutar pela sobrevivência (procura novo patrocinador).

Quanto à 18ª etapa começa logo a subir com uma segunda categoria, seguindo-se duas de primeira, com o Stelvio pelo meio. Esta ascensão será atacada pelo seu lado mais difícil, tendo 25 quilómetros, com uma média de 7,5% de pendente.

»»Ao ataque por muito mais do que dois segundos««

»»Wilco Kelderman, o rival««

20 de outubro de 2020

Ao ataque por muito mais do que dois segundos

© Stuart Franklin/Getty Images/Deceuninck-QuickStep
Foi mesmo o caso de a melhor defesa ser o ataque. As palavras são do próprio João Almeida, que no regresso do dia de descanso da Volta a Itália, mostrou a Wilco Kelderman que tem de estar preparado para trabalhar bastante se quiser tirar-lhe a camisola rosa. Mais do que ganhar tempo - foram dois segundos - Almeida procurou não só dar uma demonstração de alguma força, mas principalmente motivar-se um pouco mais, depois de no domingo ter perdido tempo para o rival.

Com o arranque da terceira semana do Giro, a questão psicológica ganha mais relevância, ainda mais tendo em conta que se está perante um jovem de 22 anos, que nunca fez uma grande volta e está na sua primeira época no World Tour. Fisicamente, Almeida (Deceuninck-QuickStep) está a descobrir como o seu corpo reage a três semanas de corrida. Mentalmente é um enorme teste, pois o ciclista viu-se num inesperado lugar de líder e vê-se numa excelente posição de poder vencer uma grande volta.

Vêm agora as etapas de alta montanha e de 200 quilómetros, que se fala praticamente desde o primeiro dia. Foram dois segundos ganhos em San Daniele del Friuli (229 quilómetros que começaram em Udine) naquele ataque nos metros finais, mas todos os segundos podem ser decisivos. São 17 que separa Almeida de Kelderman. E aquela extra motivação que ganhou numa chegada em subida, ao ver que foi novamente o mais forte entre os candidatos, com ênfase em Kelderman, pode ser ainda mais decisiva. Chegou o momento de superação.

"Não era o plano atacar, mas às vezes a melhor maneira de nos defendermos é passar à ofensiva e hoje foi um desses dias. As sensações eram boas, por isso, eu fui [embora], especialmente num final explosivo como gosto. Eu sei que só ganhei dois segundos, que não muda muito, mas foi importante para o meu moral", realçou João Almeida.

Há um pormenor a referir e que é salientado no site da Deceuninck-QuickStep: João Almeida é o segundo ciclista da história da equipa a liderar uma grande volta durante 14 dias. O primeiro foi Julian Alaphilippe, no Tour, em 2019. Faltam cinco para o final do Giro.

A pensar na alta montanha

A etapa desta terça-feira acabou por ser bem mais calma no pelotão do que o esperado, o que permitiu à Deceuninck-QuickStep controlar as operações. As dificuldades dos próximos dias metem respeito e ninguém atacou João Almeida.

Já o outro português no Giro, Ruben Guerreiro (EF Pro Cycling), esteve activo na luta pela classificação da montanha. Uma avaria mecânica numa das subidas não ajudou às suas pretensões e, no total, apenas reduziu num ponto a desvantagem para Giovanni Visconti (Vini Zabù-KTM). São 30 a separá-los, mas há muitos em disputa nos próximos dias.

O vencedor da etapa saiu da fuga, com Jan Tratnik a deixar uma marca eslovena na Volta a Itália. Pode não ter o mediatismo de Tadej Pogacar ou Primoz Roglic (que venceu a primeira etapa da Volta a Espanha, prova que arrancou esta terça-feira), mas a sua experiência foi importante para bater Ben O'Connor no quilómetro final.

Ainda assim, o australiano da NTT merece uma palavra de realce, pois desde 2018 que não se o via tão bem. Ainda só tem 24 anos, pelo que só se pode esperar que consiga confirmar as expectativas que foram criadas quando venceu uma etapa na Volta aos Alpes e depois lutava pelo top dez do Giro, quando uma queda atirou para longe da competição durante dois meses e nunca mais reapareceu ao mesmo nível.

Classificações completas, via ProCyclingStats.

17ª etapa: Bassano del Grappa - Madonna di Campiglio, 203 quilómetros

A Sunweb tem demonstrado ser o bloco mais forte na montanha. Até tem sido o único bloco. Wilco Kelderman espera que a sua equipa possa continuar a apoiá-lo, pois poderá fazer toda a diferença. A Deceuninck-QuickStep prometeu que iria preparar-se para esta última semana do Giro. Um dos objectivos passa por ter Fausto Masnada ao lado do português. Ao italiano custa não poder procurar o seu próprio resultado, mas a equipa fala mais alto, ainda mais quando se está perante a formação que gosta de ser tratada por Wolfpack (alcateia).

»»Wilco Kelderman, o rival««

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18 de outubro de 2020

Wilco Kelderman, o rival

© Team Sunweb
Hoje foi um dia de algum sofrimento ao assistir à 15ª etapa do Giro. Aquela última subida foi de nervos, mas João Almeida aguentou. Perdeu tempo, é certo, mas a camisola rosa continua sua e esta segunda-feira é altura de recuperar forças e delinear estratégias. Ficou completamente claro que não só Wilco Kelderman está forte, como a Sunweb é o único bloco que existe para a montanha entre as equipas presentes. A certeza que ficou depois da tirada deste domingo, é que o holandês é o rival de Almeida. Os restantes? Ficaram com uma montanha de tempo para recuperar.

Quem é Wilco Kelderman? É um ciclista que se tornou difícil perceber o que se pode esperar. Foi um jovem formado na Rabobank, tendo sido chamado à estrutura principal em 2012, onde ficou até 2016, então com o nome de Lotto-Jumbo. Em 2014 parecia que iria começar a confirmar expectativas. Até arrancou o ano com um quinto lugar na Volta ao Algarve. Porém, foi o sétimo posto no Giro que chamou a atenção, seguindo-se um quarto no Critérium du Dauphiné, tendo vencido a classificação da juventude.

No entanto, foi também o início do que viria a caracterizá-lo. Kelderman foi uma espécie de eterna promessa, que nunca cumpriu. Aos 29 anos, parte da sua carreira resume-se a excelentes exibições e depois a desaparecer. Algumas quedas não ajudaram, mas também já houve alturas em que surgiu como candidato e depois simplesmente não foi capaz de estar com os melhores.

A Sunweb acreditou que poderia ter o melhor do holandês, mas tanto viu Kelderman ser quarto na Vuelta (em 2017), como mal o viu quando aumentou a aposta no ciclista, na esperança que pudesse ser a outra grande figura da equipa, ao lado de Tom Dumoulin. Ao que voltistas diz respeito, claro. Kelderman até foi sétimo na última Vuelta, mas a Sunweb queria mais.

A saída de Dumoulin para a Jumbo-Visma este ano, obrigou a Sunweb a repensar o seu caminho. Nem se esperava muito da equipa em 2020, mas foi ao Tour dar muito espectáculo e ganhar três etapas. De Kelderman aguardava-se o mesmo de sempre para o Giro. Talvez apareça, acaba por ser o pensamento. A equipa não fez dele uma aposta para a Volta a França e não já não pensava nele para o futuro, pelo que vê-lo assinar contrato com a Bora-Hansgrohe para 2021 e 2022, nem surpreendeu. A perspectiva de mudança aumentou as suspeitas de como surgiria o holandês no Giro.

© Giro d'Italia
Em Itália, Kelderman está a ter uma corrida "sim". Está bem fisicamente, está forte mentalmente. Começa a acreditar que é possível ganhar o Giro. E depois deste domingo já percebeu que é ele que pode tirar o sonho rosa a João Almeida. Mais importante: tem perfeita percepção que será difícil estar novamente numa situação tão privilegiada para discutir uma grande volta, ainda mais tendo uma equipa que é a mais forte da Volta a Itália.

Recorde-se, venceu a sua única grande volta precisamente em Itália, com Dumoulin, em 2017. Kelderman foi um dos gregários, tendo abandonado na nona etapa. O holandês tem do seu lado a experiência - está na sua 11ª grande volta (só não terminou duas) - conhecendo bem o que é necessário fazer para aguentar uma terceira semana duríssima. João Almeida é um estreante nestas andanças.

Kelderman tem companheiros quase todos escolhidos para estar no seu apoio e Jay Hindley esteve fenomenal este domingo e até já é terceiro na geral, a 2:26 de Almeida. A Deceuninck-QuickStep vai tentar que Fausto Masnada esteja bem melhor do que hoje. O português precisa de um bom apoio.

De 56 segundos, o português tem agora apenas 15 de vantagem. Kelderman fez tremer João Almeida, mas não o quebrou. O respeito é grande pelo português e tudo ainda está por decidir.

"Ouvi pelo rádio que o Almeida estava em dificuldades, mas não era suficiente. Ele é muito forte", afirmou Kelderman, mas salientando que a performance deu uma boa dose de confiança para o que falta do Giro: "Sinto-me super forte e a equipa sente-se super forte."

© Tim de Waele/Getty Images/DeceuninckQuickStep
Custou, mas aguentou

Aquela última subida de Piancavallo, 15 quilómetros com 9% de média, sabia-se que ia ser dura. Esperava-se ataques, mas afinal só houve o da Sunweb. Um a um os até agora candidatos foram cedendo. Vincenzo Nibali (Trek-Segafredo) bem tentou mostrar que podiam contar com ele, mas perdeu mais um minuto para Almeida e já está a 3:29. O objectivo de ganhar um último Giro está muito longe de se concretizar e será preciso algo muito especial para dar a volta à situação.

Foi com o aproximar dos sete quilómetros finais que Almeida começou a perder contacto com Kelderman. Hindley esteve fenomenal, há que repetir! O seu líder teve sempre a sua companhia. Parte do plano da Sunweb ficou cumprido. Mas falta chegar ao primeiro lugar.

O director da Deceuninck-QuickStep, Davide Bramati, garantiu que a equipa irá preparar a última semana para tentar ganhar o Giro. Ficar apenas na expectativa poderá ser perigoso para João Almeida. Este domingo sofreu bastante. Chegou à meta após os 185 quilómetros exausto, mas valeu a pena.

Quem não manteve a camisola foi Ruben Guerreiro. O ciclista da EF Pro Cycling não entrou na fuga e Giovanni Visconti (Vini Zabù-KTM) aproveitou para recuperar a camisola azul da montanha. São 31 pontos que separam os ciclistas e haverá muitos em disputa na última semana de corrida.

Já a Ineos Grenadiers está a realizar uma grande volta pouco habitual. Não está na luta pela geral, mas já leva cinco vitórias de etapa. Desta feita foi Tao Geoghegan Hart. O britânico ficou ainda a um segundo do pódio.

Classificações completas, via ProCyclingStats.

16ª etapa (terça-feira): Udine - San Daniele del Friuli, 229 quilómetros

Já se viu neste Giro no que este tipo de etapa, ao estilo de uma clássica, pode acontecer. Será um sobe e desce constante e haverá rampas complicadas. Perto do final, uma terá 16%. Falta saber se os adversários do português vão esperar pela alta montanha, ou se podem tentar surpreender logo no regresso da folga.

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15 de dezembro de 2018

Sunweb entre um senhor Dumoulin e as infelicidades de Matthews e Kelderman

(Fotografia: Facebook Team Sunweb)
A grande questão na Sunweb era: irá Tom Dumoulin confirmar que é um dos principais voltistas da actualidade? A vitória no Giro de 2017 fez crescer a vontade de assistir a um frente-a-frente com Chris Froome (Sky), que acabou por não acontecer primeiro no Tour, como se esperava. Ambos decidiram ir à Volta a Itália. Nesse duelo em particular, Dumoulin perdeu, mas o holandês não deixou qualquer dúvidas. Está feito num senhor ciclista, que pode disputar qualquer grande volta e se não ganhou este ano, não é qualquer um que possa dizer que fez segundo no Giro e no Tour na mesma temporada.

Desde 1998 que ninguém conquista estas duas grandes voltas no mesmo ano, mas Dumoulin foi o único que conseguiu ser competitivo com possibilidade de vitória em ambas. O holandês entra definitivamente na lista de candidatos a ganhar e não "apenas" a um top 10, enquanto a Sunweb completou com sucesso a transformação de uma equipa que apostava em sprints ou fugas para somar triunfos, para uma que quer e pode vencer grandes voltas. É um conjunto que está a ficar mais forte de ano para ano, principalmente devido a jovens que são já garantias de trabalho bem feito, como é o caso de Sam Oomen, um ciclista que também é visto como possível sucessor de Dumoulin, ou mesmo um próximo líder, a par do companheiro.

Sem ser um ciclista de explosão nas subidas, Dumoulin já consegue ultrapassar a mais difícil das subidas (como aconteceu nos Mundiais de Innsbruck), mantendo aquele seu ritmo certinho, com uma ou outra pequena aceleração e, claro, o contra-relógio faz a diferença, mesmo que os organizadores estejam a reduzir o número de quilómetros. É uma decisão que pode não estar a agradar ao holandês, mas também não o afastará da discussão. Dumoulin, com a camisola de campeão do mundo, ganhou no contra-relógio tanto no Giro, como no Tour. Excelente temporada de ciclista de 28 anos, que teve como maior desilusão ter perdido o título mundial da especialidade para o australiano Rohan Dennis e ficou à porta do pódio na prova de estrada.

Dumoulin ainda foi notícia por ter explicado afinal o que tinha provocado a dor de barriga mais famosa do ciclismo! Aquela paragem "técnica" no Giro de 2017 foi provocada por digerir mal a frutose e a lactose. Agora está tudo mais do que controlado e só se pensa em mais frente-a-frente entre Tom Dumoulin e Chris Froome (e não só), com o ciclista indeciso quanto às grandes voltas a realizar em 2019, já que a mudança de mentalidade quanto aos contra-relógios, tornam o Tour menos favorável, mas é também a corrida que mais quer ganhar.*


Ranking: 9º (7266,95 pontos)
Vitórias: 11 (incluindo uma etapa no Giro e no Tour e as clássicas do Quebeque e Montreal)
Ciclista com mais triunfos: Michael Matthews (4)


O holandês acaba por centrar grande parte das atenções da Sunweb, mas Michael Matthews tem igualmente o seu destaque. Nem sempre pelo melhor. Que época tão complicada para o australiano! Depois de um 2017 memorável, com duas vitórias e a camisola verde no Tour, Matthews começou a época a cair e a partir a clavícula. Regressou na Milano-Sanremo, venceu o prólogo na Volta à Romandia, mas foram muitas as frustrações ao ver os rivais ficarem com as vitórias pelas quais lutava. 

Matthews ficava perto, mas faltava sempre algo. Apostou forte no Tour, mas adoeceu e nem partiu para a quinta etapa. Desilusão total. "Vingou-se" no final de temporada, com três triunfos, sendo o rei das clássicas do Canadá, ao vencer as duas. Ainda assim, não ficou completamente satisfeito e rapidamente começou a pensar em 2019 e em regressar em força, ponderando estrear-se na Volta a Flandres.

Também Wilco Kelderman teve uma época que não trará grandes recordações. O objectivo era afirmar-se definitivamente depois de um 2017 muito positivo, principalmente com o quarto lugar na Vuelta. Entre ser gregário de Dumoulin e ter as suas oportunidades, o holandês viu duas quedas estragarem-lhe a temporada. Em Março partiu a clavícula, em Junho, nos Nacionais, lesionou-se no ombro e falhou o Tour. Foi a Espanha tentar salvar algo de 2018, mas não conseguiu atingir o pico de forma pretendido. Ainda assim foi 10º, mostrando que a Sunweb pode acreditar que, sem azares, Kelderman é ciclista para dar muitas alegrias e ser uma ajuda preciosa para o líder Dumoulin.

Sam Oomen (23 anos) foi um gregário de luxo no Giro (e até foi nono na geral) e venceu a classificação da juventude na Volta ao Algarve, sendo um ciclista com um futuro muito, muito promissor. Mas mais dois jovens deixaram as suas credenciais. O dinamarquês Soren Kragh Andersen (24) e o alemão Max Walscheid (25) realizaram boas provas e somaram duas vitórias cada.

Outro germânico Lennard Kämna (22) teve uma época mais de evolução, esperando-se que vá assumir maior responsabilidade em 2019. É um corredor interessante para as provas por etapas. Max Kanter realizou um estágio que convenceu os responsáveis a promovê-lo à equipa principal depois de passar pela de desenvolvimento. O mesmo aconteceu com Marc Hirschi, o suíço que foi a Innsbruck ser campeão do mundo de sub-23 e de quem já muito se espera muito. Joris Nieuwenhuis (22) é o terceiro atleta que será promovido. Os jovens vão tendo cada vez mais preponderância numa Sunweb a ambicionar no presente, mas sempre a olhar para o futuro.

O australiano Robert Power (Mitchelton-Scott) será, aos 23 anos, um corredor que reforçará o bloco das clássicas, à espreita da primeira oportunidade que lhe surja para tentar ganhar.

Com Dumoulin a destacar-se, não foi, ainda assim, uma época fácil para a Sunweb principalmente pelos infortúnios que atingiram alguns ciclistas, além de Matthews e Kelderman. Para 2019 a ambição vai continuar a crescer, com a equipa a não temer apostar cada vez mais num grupo de jovens de enorme potencial, não se assustando com o adeus de ciclistas que foram o grande apoio nesta evolução de Dumoulin ao estatuto de um dos grandes corredores de nível mundial.

As saídas de Laurens ten Dam e de Simon Geschke, ambos vão para a CCC, terão desiludido um pouco Dumoulin, já que foram dois fiéis gregários. Rumam ainda a outras equipas um Edward Theuns, que passou completamente ao lado da temporada, Lennard Hofstede, Mike Teunissen (ambos vão para a Jumbo-Visma) e Phil Bauhaus (Bahrain-Merida). No entanto, se os jovens são aposta para a renovação da equipa, a experiência também é necessária, pelo que chegarão Nicholas Roche (BMC) e Jan Bakelants (AG2R).

Esta Sunweb deixou definitivamente para trás os tempos de Marcel Kittel e John Degenkolb. Agora quer uma Volta a França, não deixando para trás o Giro e Vuelta. Dumoulin é a estrela, mas a equipa que tem um patrocinador que renovou sem limite de prazo, o que permite apostar numa estrutura de formação e também inclui um conjunto forte de mulheres na equipa feminina, quer ganhar todas as corridas. O Tour é o grande sonho, os monumentos são objectivos... A Sunweb quer ser definitivamente uma das melhores do mundo e passo a passo está a conseguir alcançar o topo.

Permanências: Tom Dumoulin, Wilco Kelderman, Michael Matthews, Sam Oomen, Soren Kragh Andersen, Nikias Arndt, Roy Curvers, Johannes Fröhlinger, Chad Haga, Chris Hamilton, Jai Hindley, Lennard Kämna, Michael Storer, Martijn Tusveld, Louis Vervaeke e Max Walscheid.

Contratações: Jan Bakelants (AG2R),  Robert Power (Mitchelton-Scott), Nicolas Roche (BMC), Marc Hirschi (Development Sunweb), Max Kanter (Development Sunweb), Joris Nieuwenhuis (Development Sunweb), Casper Pedersen (Aqua Blue Sport), Cees Bol (SEG Racing Academy) e Asbjorn Kragh Andersen (Virtu Cycling).

*Nota: Foi revelado na manhã deste domingo que Tom Dumoulin vai apostar novamente na Volta a Itália em 2019.

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2 de setembro de 2018

Pouca acção, muito estudo e uma Vuelta com poucas certezas

(Fotografia: © PhotoGomezSport/La Vuelta)
Não há como esconder. A subida à La Covatilla desiludiu. Fez lembrar como no Giro de 2017 muito se esperou da etapa do Etna e depois o vento fez com que todos os candidatos ficassem quietinhos. Na La Covatilla também houve vento, mas até se viram movimentações. Poucas. Houve mais uma tentativa de estudarem como estavam os adversários, sem quererem eles próprios abrir muito o livro, com uma ou outra excepção, Kelderman à cabeça. Nesta altura, talvez as forças estejam muito idênticas, ainda que, aí sim, como esperado, já se percebeu um pouco quem pode não ser tão candidato como inicialmente previsto. Mas ao fim de uma semana, nova dias, mais precisamente, as certezas são poucas nesta grande volta. E ainda bem!

Mesmo sem muita acção, ou então muito concentrada nos últimos dois quilómetros (e foram 200,8) percebeu-se que Michal Kwiatkwoski poderá ter a longa época, sempre a um nível elevado a passar-lhe a factura. Que bem ia o polaco da Sky nos primeiros quilómetros dos cerca de nove da subida. Porém, foi como se o combustível de repente terminasse. Com David de la Cruz também a sofrer, acabou por ser Kwiatkowski quem deixou fugir a disputa desta Vuelta. Perdeu 2:04 minutos para o primeiro grupo de candidatos a cortar a meta, liderado por Miguel Ángel López (Astana). Na geral são agora 2:10 para recuperar. Não se pode eliminá-lo por completo, mas as indicações não foram boas no primeiro grandes teste. De la Cruz minimizou perdas, mas também perdeu mais de meio minuto.

Fabio Aru. O que é feito daquele Aru que em 2015 fez Alberto Contador suar para ganhar o Giro de 2015 e que nesse mesmo ano ganhou a Vuelta? Do Aru lutador, que em 2017 fez algo nunca visto: tirou a camisola amarela do Tour a Chris Froome, ainda que o britânico a recuperasse pouco depois? O italiano está a 1:08 da liderança, o que não é grave, mas o pouco que se viu dele, lá estava em esforço para aguentar um ritmo que parecia ser demasiado para ele. Como acabou por ser uma exibição de "menos mal", Aru tem tempo para ir subindo de forma e ainda aparecer nesta Vuelta, algo essencial para quem está a realizar uma época tão fraca na UAE Team Emirates, com destaque para um Giro muito, muito mau.

Steven Kruijswijk e George Bennett (Lotto-Jumbo), Thibaut Pinot (Groupama-FDJ), Tony Gallopin (AG2R) e mesmo Emanuel Buchmann (Bora-Hansgrohe) - que caiu um lugar, para quarto - deixaram escapar o grupo da frente, mas perder pouco mais que 20 segundos deixa-os entre os que realizaram uma exibição expectável. Estão na luta e é o que queriam garantir na La Covatilla.

Entre os espanhóis, sinal positivo de Ion Izagirre (Bahrain-Merida), que terminou no grupo da frente de candidatos, sinal menos positivo de Alejandro Valverde. O ciclista da Movistar fraquejou um pouco, chegando com Pinot e os restantes ciclistas referidos em cima. Mas para quem tinha a camisola vermelha a 37 segundos, em Espanha queria-se mais. Mas por um segundo, a liderança escapou. O próprio assumiu as dificuldades que sentiu. É curiosa a crónica no jornal Marca que, mesmo tendo Valverde completamente na luta pela Vuelta, a sua fraqueza momentânea faz com que o jornalista lhe peça para ajudar Quintana e pensar em poupar força para o Mundial, uma das poucas grandes vitórias que lhe falta no seu invejável currículo. Afinal já ganhou duas etapas nesta Vuelta, o que para a maioria significaria ter a corrida mais do que feita. O Bala é que não parece querer desistir já da geral. Desistir não faz parte do seu vocabulário.

Quanto a Quintana, há um misto de sentimentos. Por um lado foi ele que com Miguel Ángel López (Astana) acabou por mexer num grupo que ia num ritmo elevado a ver quem cedia, mas sem sinais de alguém querer atacar. A dupla colombiana levou o compatriota Rigoberto Uran (EF Education First-Drapac p/b Cannondale), Wilco Kelderman (Sunweb) e Izagirre, com Simon Yates (Mitchelton-Scott) na perseguição. A questão com Quintana é vê-lo a mostrar-se bem, mas atacar a olhar para trás. Não quis arriscar em demasia. O lado conservador tomou conta do ciclista da Movistar, que ainda assim passou o teste que tinha dito que precisava de tirar boa nota. Em La Covatilla, Quintana assumiu-se de vez como um dos mais fortes candidatos, até mais do que Valverde, ainda que esteja atrás do companheiro, por agora. Está a 14 segundos da liderança. Mas seria muito bom deixar cair o conservadorismo que o está a prejudicar em momentos importantes.

Que pena Kelderman ter perdido tempo devido a um furo na sexta etapa. O holandês fez pela vida na La Covatilla. Contra-atacou Quintana e López - que não o largaram -, acelerou naquele último quilómetro e conseguiu começar a recuperar alguns segundos. Foram 60, com a diferença para a liderança a estar agora nos 1:50. Aproxima-se do top dez e pode ter parecido que o ataque foi tardio, mas há que não deitar forças fora. A pouco e pouco, Kelderman pode reentrar na luta pelo menos pelo pódio, caso consiga manter o nível que está a demonstrar.

Se Quintana assumiu-se com um dos mais fortes candidatos, tem a seu lado um Simon Yates que perdeu um Giro que parecia estar tão bem encaminhado para o britânico, numa etapa em que tudo se desmoronou já tão perto do fim da corrida. Mas aqui está o gémeo novamente a liderar uma grande volta. Neste aspecto até imita Rohan Dennis, que também liderou a Volta a Itália. A diferença é que Yates tem novamente a possibilidade de ganhar uma corrida de três semanas.

E este Yates pode muito bem ser um ciclista que aprendeu com os erros. Quando na Sierra de la Alfaguara, na quarta etapa, o britânico acelerou, ganhando alguma distância para adversários directos, no final, admitiu que se entusiasmou. No Giro fez tanto dessas acelerações. Ganhou três etapas e andou sempre na frente até que que a três dias do fim, quebrou com estrondo. Agora é ver se a Mitchelton-Scott estará à altura do que fez em Itália, ou se Yates estará um pouco mais por sua conta, com o seu irmão a estar muito apagado. No entanto, mesmo que fique algo só nos momentos decisivos, não é razão para enormes preocupações. Está a ser igual para quase todos.

Por apenas um segundo, Yates estragou a esperança dos espanhóis de verem Valverde de vermelho. A camisola que era de Rudy Molard. Foi bom enquanto durou para o francês, mas quando chegou o mais difícil dos primeiros testes, Molard não esteve à altura, nem a equipa. A Groupama-FDJ fez um controlo estranho da etapa, acelerando muito o ritmo numa fase inicial, com as equipas adversárias a deixarem a formação gaulesa desgastar-se, mesmo quando tentou passar a responsabilidade. Ninguém a quis até aos últimos 35 quilómetros. A fuga acabaria por triunfar e Molard não esteve sequer perto de segurar a liderança.

Segunda-feira é dia de descanso e até sexta-feira, os homens da geral deverão preocupar-se em tentar passar as etapas sem problemas. Serão depois três dias importantes. Daqui a uma semana teremos os Lagos de Covadonga, naquela que é uma das principais etapas da Vuelta. É sempre uma das principais etapas da Volta a Espanha, sempre que esta subida integra o percurso. Terça-feira serão 177 quilómetros entre Salamanca e Fermoselle, Bermillo de Sayago, bom dia para os sprinters, mas com uma terceira categoria perto do final que poderá baralhar um pouco essas pretensões, caso alguém aposte em ataques.


King faz jus ao nome e foi rei de La Covatilla

Numa longa etapa de 200,8 quilómetros, a segunda mais extensa desta Vuelta, com uma categoria especial a terminar o dia, não se pode deixar para segundo plano um Ben King simplesmente fantástico. De repente, a Dimension Data vê a sua temporada compor-se um pouco devido a este americano de 29 anos. Foi a segunda vitória nesta primeira semana de Volta a Espanha. Para uma equipa que não ganhava no World Tour desde a Volta a França do ano passado e que só tinha cinco vitórias antes da Vuelta em 2018, King está a salvar uma época pobre da formação sul-africana.

Mais uma vez integrou a fuga e resolveu depois ir sozinho, frustrando um Bauke Mollema que soma mais um segundo lugar. King pode agora também começar a pensar na classificação da montanha, que continua com Luis Ángel Maté. Somou mais pontos, mas o espanhol da Cofidis não é feito para as maiores dificuldades desta corrida, como demonstrou ao ficar para trás mal a aproximação à La Covatilla aconteceu. É uma camisola que ameaça começar a ser mais disputada, pois o próprio Mollema poderá ambicioná-la, já que a geral é para esquecer. Pierre Rolland (EF Education First-Drapa p/b Cannondale) andou muito nas fugas nos primeiros dias e se apostar novamente nessa táctica, é outro nome a ter em conta, se não ficar preso à ajuda a Uran.

King, vencedor da classificação da montanha na Volta ao Algarve, disse que nunca tinha sofrido tanto. Depois de uma exibição desta, ou a Dimension Data anuncia uma renovação, ou o americano está a apresentar-se como um bom reforço para outra equipa.

Quanto a classificações, as mudanças foram na geral, com Molard a ceder para Yates - o francês ficou a 2:43 do britânico - e por equipas, com a Lotto-Jumbo a subir ao primeiro lugar, antes ocupado pela Astana. Valverde (pontos) e Maté (montanha) continuam com as respectivas camisolas, com o espanhol a liderar ainda no prémio combinado.

Nelson Oliveira (Movistar) terminou a etapa a 18:13 minutos de King, José Mendes (Burgos-BH), Tiago Machado e José Gonçalves (Katusha-Alpecin) fecharam num grupo grande a 21:56.

Pode ver aqui as classificações completas.

»»As apostas de Contador para a Vuelta««

»»Movistar prepara ataque à liderança. Mas com quem?««

9 de dezembro de 2017

O ano da confirmação de Dumoulin e da mudança de objectivos da Sunweb

(Fotografia: Giro d'Italia)
A Sunweb tornou-se um exemplo de como é possível construir uma equipa e trabalhar numa evolução que a poderá colocar entre as mais fortes no que diz respeito às grandes voltas. Começou por apostar nos sprints, evoluiu para as clássicas e aos poucos foi preparando um jovem Tom Dumoulin para se tornar num voltista. Há dois/três anos pensar-se-ia ser impossível ver esta equipa ganhar uma corrida de três semanas. Para se perceber como de facto é um fenómeno recente basta ver como, no historial da equipa, Marcel Kittel e John Degenkolb detém juntos mais de metade das vitórias. Esta estrutura alemã criou um projecto sólido e com objectivos de tal forma definidos, que não se importou quando Kittel quis sair e também não se preocupou com a mudança de Degenkolb. O primeiro rendeu muitas vitórias de etapas no Tour, o segundo conquistou também dois monumentos. Tom Dumoulin ganhou a Volta a Itália em 2017!

O holandês tinha potencial para lutar por um pódio, mas ganhar acabou por ser uma pequena surpresa. As duas vitórias de etapa na Vuelta em 2015, mais a liderança, só perdida na última etapa de montanha, elevaram, e de que maneira, as expectativas. Excelente contra-relogista, Dumoulin demonstrava que tinha de melhorar na alta montanha. Em 2016 foi mais discreto a nível de geral, mas foi ao Giro ganhar o prólogo e no Tour ganhou duas etapas, uma à custa de Rui Costa. Além de individualmente levantar dúvidas se poderia enfrentar um Nairo Quintana, Alberto Contador ou Chris Froome, havia ainda o pormenor da Sunweb não ter a equipa mais forte para ajudar o seu jovem líder em ascensão.

2017 é o ano em que a mudança da estrutura foi concluída. Agora é lutar pelas grandes voltas. Dumoulin apareceu fantástico no Giro e mesmo perdendo Wilco Kelderman muito cedo, resistiu a todos os ataques quase sozinho e nem uma dor de barriga durante uma etapa o desviou de na última etapa ficar com uma camisola rosa que lhe assentou muito bem. Para a Volta a Itália, esta Sunweb chegou, mas para fazer frente à Sky era claro que não. O holandês não foi ao Tour e optou por saltar a Vuelta e pensar só nos mundiais. E foi a Bergen ser campeão de contra-relógio, batendo Primoz Roglic e Chris Froome. Estão abertas as hostilidades e espera-se que tenha sido o início de uma bonita rivalidade com o britânico. Antes Dumoulin tinha ajudado a Sunweb a conquistar o mesmo título, mas no contra-relógio colectivo. Froome e a Sky foram terceiros.


Ranking: 4º (8033 pontos)
Vitórias: 19 (incluindo duas etapas no Giro e a geral, quatro etapas no Tour e o contra-relógio colectivo nos Mundiais)
Ciclista com mais triunfos: Tom Dumoulin (5, mais o título mundial de contra-relógio individual)

Dumoulin e Froome tem encontro marcado para 2017, falta saber se já no Giro. A Sunweb precisa de garantir que o seu líder tem um apoio mais significativo. Kelderman esteve muito bem na Vuelta (foi quarto) e deverá ter outra oportunidade, até porque é claramente mais um ciclista em crescimento para as grandes voltas, mas não se livrará de ser o braço direito (e provavelmente esquerdo) de Dumoulin. Da Lotto Soudal vem Louis Vervaeke para certamente reforçar o bloco em redor do holandês.

Apesar de não esconder que ganhar o Tour é o maior dos planos, a Sunweb não está a concentrar-se apenas em Dumoulin. A contratação de Michael Matthews foi para garantir um homem para sprints - ainda que dificilmente para bater Kittel ou Gaviria -, para continuar a ter uma forte presença nas clássicas e o australiano já deu um grande bónus à equipa: a camisola verde no Tour. O bom de Matthews é que é um ciclista que não precisa de ter um forte apoio de colegas, sabendo aproveitar bem o que a corrida lhe proporciona. Também ajuda estar altamente motivado - nunca escondeu que a saída da Orica-Scott se deveu à necessidade de ter um novo desafio -, ao contrário do que acontecia com Degenkolb. Após o atropelamento durante o estágio, o alemão nunca mais foi o mesmo, nem mesmo na Trek-Segafredo, para onde foi este ano.

Matthews encontrou na Sunweb o espaço que procurava para assumir-se como candidato em determinadas corridas. Correspondeu com quatro vitórias, duas no Tour, mais a classificação dos pontos e deu indicações que poderá estar só a aquecer, principalmente ao que diz respeito nas clássicas. Nestas competições quer muito mais e melhor do que um quarto lugar na Liège-Bastogne-Liège.

Outro ponto que ficou claro em 2017: na Sunweb não há espaço para o "eu quero assim". Warren Barguil achou que as duas vitórias de etapa e a camisola da montanha no Tour lhe tinham dado estatuto para se sobrepor aos objectivos da equipa. Sem Dumoulin em França, o gaulês teve de facto liberdade para procurar o seu resultado, mas na Vuelta o líder era Kelderman. Barguil poderia lutar novamente etapas, mas tinha de estar ao lado do holandês. Não quis e foi mandado para casa. Por essa altura já se sabia que estava de malas feitas para a Fortuneo-Oscaro, tendo o ciclista preferido quebrar contrato com a Sunweb (que terminava no final de 2018) para ser líder indiscutível na estrutura francesa Profissional Continental. Ainda assim, ser excluído de uma grande volta pela atitude que teve, não lhe ficou nada bem. Mais uma vez, a equipa não se importou de perder um ciclista importante. O conjunto está acima da individualidade.

Para todos os efeitos, Barguil foi também ele um dos ciclistas que ajudou a que a temporada nas grandes voltas da Sunweb fosse muito acima do esperado. Só faltou uma etapa em Espanha à equipa. Agora é ver como irá a formação alemã lidar com um novo estatuto no pelotão. A responsabilidade e exigência será outra. O historial da equipa indica que é tudo tão pensado, que a Sunweb estará preparada para dar uma boa resposta.

»»Tudo por Contador, muito por Degenkolb e uma época feita no Angliru ««

»»Um fantástico meio ano de Valverde e o desmoronar de Quintana««

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5 de setembro de 2017

Como é que Froome pode perder a Vuelta

(Fotografia: Unipublic/Photogomez Sport)
Chris Froome foi sensacional, mas não resolveu a Volta a Espanha como se calhar pretendia. Bateu todos no contra-relógio e só Vincenzo Nibali não está a mais de dois minutos, mas por apenas dois segundos. O italiano até parecia estar a pedalar rumo a uma catástrofe, mas afinal soube gerir bem o esforço e nos últimos quilómetros recuperou de forma a pelo menos não perder o segundo lugar para um super Wilco Kelderman, que fecha agora o pódio. As distâncias podem não ser decisivas, contudo, mais do que alguém ainda vir a ganhar a Froome, é mais o próprio britânico que poderá ser o principal responsável se perder a Vuelta. Por outro lado, a luta pelo pódio está completamente em aberto. Vão ser quatro dias de nervos.

Os 40,2 quilómetros que começaram no circuito de Navarra e acabaram em Logroños foram encarados por todos como de importância extrema. Não havia tempo para poupanças a pensar na montanha que por aí vem nos quatro competitivos de Vuelta (mais a etapa de consagração de domingo). Todos sabiam que Chris Froome tinha este contra-relógio marcado como um dia essencial para ganhar uma vantagem que pode revelar-se determinante. Froome não desiludiu, Wilco Kelderman foi excelente, Vincenzo Nibali sai um pouco cabisbaixo. Já Alberto Contador esperava mais, mas foi um dos melhores contra-relógios que fez nos últimos anos e para quem já andou fora do top dez, é agora quinto e tem o pódio na mira.

Nibali ficou a 1:58 minutos do britânico da Sky (estava a 1:01) e apesar de não deixar de olhar para a frente na tabela - apesar de estar algo pessimista -, tem mesmo de começar a olhar para trás, pois Kelderman (Sunweb) está somente a 42 segundos. E é melhor o líder da Bahrain-Merida não facilitar nem um metro, é que Ilnur Zakarin (Katusha-Alpecin) e Alberto Contador (Trek-Segafredo) podem aproveitar uma subida mais explosiva para criar dificuldades a um Nibali que já demonstrou uma ou outra fraqueza, ainda que tenha sido o rival mais consistente de Chris Froome.

O britânico não arrumou com as decisões na Vuelta, mas ganhou uma margem que lhe vai permitir (e à Sky) controlar ainda mais a corrida, ganhando ainda uma motivação extra pela sua segunda vitória de etapa. Parece impossível controlar ainda mais, mas não é. Com a luta pelo pódio lançada e com quase dois minutos para Nibali, Froome poderá jogar um pouco mais frio, ficando na expectativa quando aparecerem os ataques. Não signifique que vá deixar alguém escapar. Não o fez até agora e com o final tão próximo, não vai deixar certamente, afinal um azar (e teve três numa só etapa - duas quedas e uma avaria) e lá se vão segundos muito rapidamente. Nem Contador irá ter ordem para fugir. Froome já afirmou mais do que uma vez que o espanhol não pode ser excluído da disputa. O britânico sabe como um ataque do líder da Trek-Segafredo pode fazer estragos difíceis de remediar.

Mais do que alguém ainda poder ganhar esta Vuelta, será preciso Froome perdê-la. Está sentado na pole-position, onde gere muito melhor a corrida do que quando tem ainda de fazer alguma jogada de ataque. O ciclista que analisa todos os seus números ao ínfimo pormenor, que raramente dá uma pedalada que não esteja prevista, Froome contará com Mikel Nieve e Wout Poels para estudar bem os adversários durante as próximas etapas. Tudo será controlado, todos os rostos, todas as pedaladas. Já se percebeu que todos irem atacando é algo que não assusta a Sky. Para derrotar o britânico, os rivais vão precisar de mais do que cada um tentar a sua sorte. Chegou o momento de algumas alianças, tentando estudar que objectivos encaixam melhor uns nos outros.

Exemplo: Nibali ataca com Contador. O italiano aponta ainda à camisola vermelha, o espanhol sabe que é muito difícil, mas poderá ficar com a vitória de etapa e ainda chegar ao pódio. E claro, as alianças são momentâneas e Contador pode sempre noutro dia tentar algo mais... Ainda no campo das suposições, Zakarin e Kelderman querem ambos o pódio e podem aliar-se para tirar de lá Nibali e ainda tentar aproximarem-se de Froome... Isto para falar apenas dos cinco primeiros.

O britânico da Sky só perderá esta Vuelta se os adversários o conseguirem enervar. Não é impossível. Se recuarmos à etapa em que caiu duas vezes, a segunda queda aconteceu porque o britânico deixou-se apoderar por algum nervosismo depois da primeira queda e da avaria que o fizeram perder tempo. É um ciclista experiente, mas a ansiedade nestas fases decisivas das corridas, ainda mais quando Froome poderá fazer um pouco de história, pode influenciar até o mais controlado dos ciclistas a nível emocional.

É preciso testar Froome fisicamente, claro, mas a nível psicológico pode estar algo a explorar. Contador e Nibali sabem como o fazer. Já Zakarin e Kelderman ainda estão a aprender este lado do ciclismo. O importante é não deixar Froome ficar confortável nas etapas de montanha. O britânico só tem de resistir mais quatro dias. Quanto mais tempo passar e o vantagem não diminuir, mesmo sendo um ciclista que já demonstrou algumas dificuldades na última semana no passado, Froome irá manter sem problemas de maior a camisola vermelha.

Alianças e algum risco. Vai ser preciso assumir algo diferente e esta quarta-feira isso certamente que irá acontecer. Machucos é uma subida considerada pelo pelotão como brutal e não é para menos (imagem ao lado). Só no início estão rampas de 26% e 25%. Baixa depois um pouco, mas anda quase sempre acima dos 10%. A média de 8,7% é enganadora, pois é influenciada pelas curtas zonas de descanso. Curtas, mas que podem ser importantes para recuperar um pouco de fôlego. Não há ciclista do topo da tabela que não considere que Machucos poderá ser muito importante na decisão desta Vuelta.

E é Froome quem o diz: tudo pode mudar rapidamente nesta Volta a Espanha...


Os portugueses

Em dia de contra-relógio e com dois especialistas portugueses em prova, nem Nelson Oliveira, nem Rafael Reis conseguiram mostrar-se. O quatro vezes campeão nacional foi 24º a 2:47 de Froome, talvez acusando um pouco o esforço de uma Vuelta dura para a Movistar e na qual se tem visto Oliveira a tentar um bom resultado para a equipa espanhola. É de recordar que já chegou a estar à porta do top 10. O vice-campeão nacional ficou a 4:00 de Froome, sendo que Rafael Reis vai continuando a acumular experiência naquela que está a ser a sua primeira grande volta, ao serviço da Caja Rural.

Rui Costa (UAE Team Emirates) ficou a 4:31 e Ricardo Vilela (Manzana Postobón) a 4:47. Não está fácil, mas Rui Costa tem o objectivo de ainda tentar uma vitória de etapa na sua estreia na Vuelta. Já integrou fugas, mas não tem sido sucesso. Tem resistido aos ferimentos nas costas provocados por uma queda e é de esperar uma última tentativa do campeão do mundo de 2013 de ter o seu momento na Vuelta.

AG2R manda para casa dois dos seus ciclistas

O vídeo surgiu ontem na internet, mas as imagens eram pouco nítidas. Nelas viam-se ciclistas agarrados a um carro da AG2R numa subida durante a etapa de domingo. Não se conseguia perceber quem eram, mas a equipa francesa identificou-os e mandou-os para casa. Alexandre Geniez e Nico Denz "apanharam uma boleia" e perante as imagens a equipa nem quis esperar por uma sanção da organização, até porque é a credibilidade da formação que está em causa.

No Paris-Nice, Romain Bardet também fez o mesmo ainda que por razões diferentes, pois o seu objectivo era não perder tempo para a frente da corrida. Foi expulso. A AG2R pediu desculpa pela acção de Geniez e Denz.


Summary - Stage 16 - La Vuelta 2017 por la_vuelta