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8 de novembro de 2020

As equipas da Vuelta uma a uma

© Unipublic/Charly López/La Vuelta
Fim da Volta a Espanha e ponto final na temporada de ciclismo de estrada. Não foi fácil, mas as três grandes voltas realizaram-se, mesmo com a Vuelta a ser três dias mais curta e a coincidir numa semana com o Giro. Primoz Roglic ultrapassou a desilusão de ter perdido de forma tão dramática o Tour e conquistou a sua segunda grande volta em Espanha. Duas presenças, duas vitórias. A Jumbo-Visma foi dos conjuntos mais fortes na montanha, a Movistar das equipas que mais trabalhou. As ProTeam desiludiram, mas não foram as únicas. A EF Pro Cycling sai de Espanha bem feliz e a UAE Team Emirates dos três portugueses - Rui Costa e os gémeos Oliveira - também ficou satisfeita.

Aqui fica como se comportaram as 22 equipas, pela ordem da classificação colectiva. Agora é esperar por 2021 para vermos de novo o melhor do ciclismo na estrada.

© Unipublic/Charly López/La Vuelta
Movistar: Trabalhou muito para Enric Mas, mas o seu líder não concluiu da melhor forma o esforço dos companheiros. Não foi uma má volta para a Movistar, que lutou, que controlou, mas no final falhou no mais importante. Enric Mas não esteve à altura do que tinha prometido antes da corrida e Alejandro Valverde tem, merecidamente, estatuto, mas faltou ser mais um elemento para o colectivo e não tanto para pensar só no seu top dez. Afinal a Movistar queria ganhar a Vuelta com Mas. Marc Soler salvou a honra com uma vitória de etapa, mas também baralhou a táctica em certos dias. É um ciclista que continua a dar mostras que não quer ser gregário em praticamente qualquer circunstância. Nelson Oliveira foi uma das figuras da equipa. É um luxo ter um ciclista que trabalha como o português. Ele sim, é a definição do que é um corredor que pensa na equipa, seja quem for o líder. E ainda foi terceiro na etapa da sua especialidade: o contra-relógio. A Movistar venceu por equipas, algo que não surpreende! É já uma tradição. E claro, a situação na La Covatilla em que pareceu ter dado uma ajuda a Roglic para Carapaz não ganhar a Vuelta, acaba por marcar muito a prestação da equipa.

© Unipublic/Charly López/La Vuelta
Jumbo-Visma: No que diz respeito à montanha, foi o bloco mais forte. Não dominou como na Volta a França, mas foi a equipa com mais capacidade de apoio ao líder nas subidas, com natural destaque para Sepp Kuss. É um escudeiro do melhor que há no pelotão e parte da vitória de Roglic tem Kuss como responsável. Só claudicou na La Covatilla, mas não manchou a sua exibição. Jonas Vingegaard também merece ser referenciado. Primeira grande volta aos 23 anos e mostrou que está pronto para fazer parte do bloco das grandes voltas. E avisou, está a ser preparado para uma futura liderança. Toda a equipa esteve bem, com Roglic a finalizar desta feita com sucesso o trabalho, tendo ganho quatro etapas. O Tour não será esquecido, mas a vitória na Vuelta ajudará a superar a desilusão e a dar nova motivação para 2021.

Astana: É uma equipa partida. Aleksandr Vlasov e Ion Izagirre destacaram-se. O primeiro porque ficou à porta do top dez na sua estreia em grandes voltas - atenção a este jovem russo para 2021 -, o segundo venceu uma etapa. Porém, os ciclistas da Astana parecem correr muito por si e não em prol de um líder. Ficou a sensação que talvez a Astana pudesse ter conseguido algo melhor se Vlasov não estivesse tão só. É um problema que não se viu só na Vuelta. A equipa cazaque tem muito a repensar na sua forma de correr nas grandes voltas.

© Unipublic/Charly López/La Vuelta
UAE Team Emirates: Manteve a alta rodagem da temporada, conseguindo uma vitória com Jasper Philipsen e o top dez com David de la Cruz. Faltou Rui Costa conseguir um triunfo numa etapa. Foi dos ciclistas mais combativos da Vuelta, mas sai sem um merecido prémio e ainda com uma desclassificação algo polémica na antepenúltima etapa. Fica o aspecto positivo: Rui Costa mostrou-se forte em Espanha. Os gémeos Oliveira, Ivo e Rui, estrearam-se nas três semanas e demonstraram que estão prontos para mais. Ivo terminou muito forte a corrida. Ambos vão destacando-se na preparação dos sprints, mas podem assumir um papel de maior relevância no trabalho em protecção dos líderes. Boa corrida para os três portugueses e para a equipa em geral.

Mitchelton-Scott: Esteban Chaves ainda prometeu nos primeiros dias, mas depois foi mais do mesmo. O colombiano não consegue regressar à sua melhor forma e a equipa ressente-se disso quando aposta mais nele. Mikel Nieve foi top 15, mas acabou por ser uma formação que passou despercebida na Vuelta.

© Unipublic/Charly López/La Vuelta
Cofidis: Guillaume Martin esteve bem melhor do que num Tour em que começou forte, mas foi baixando de forma. Faltou a vitória de etapa que a equipa tanto precisava, num primeiro ano de regresso ao World Tour parco em triunfos (duas). Porém, as exibições de Martin colocam-no como um dos mais combativos da corrida e conquistou merecidamente a camisola das bolas azuis da montanha. Não foi um objectivo inicial, mas ao proporcionar-se a hipótese de ganhar, Martin mostrou parte da sua qualidade. Sim, este ciclista pode valer muito mais. A Cofidis acabou a proteger o seu líder nesta luta da montanha e sai da Vuelta minimamente satisfeita.

Ineos Grenadiers: Foi à Vuelta com a intenção de a ganhar. Mas mais uma vez ficou bem claro que a equipa britânica não tem a força de outros tempos e Richard Carapaz também sofreu com isso. O equatoriano surgiu bem na corrida, foi líder por duas vezes, mas ficou muito rapidamente sozinho sempre que as principais subidas surgiram. Chris Froome ainda chegou a ver-se a certa altura, mas não chegou. Andrey Amador foi de longe o melhor gregário, mas acabava por se desgastar em demasia por entrar muito cedo ao trabalho. Carapaz sai da Vuelta com nota positiva, a equipa sai a saber que ganhou um Giro de forma inesperada com Tao Geoghegan Hart, mas se quer ser novamente competitiva frente a uma Jumbo-Visma cada vez mais forte, vai ter de melhorar o funcionamento do seu colectivo.

Groupama-FDJ: Andou discreta, mas teve David Gaudu a bom nível. Thibaut Pinot cedo abandonou, no que se tornou numa oportunidade para o jovem francês de se mostrar. Duas etapas, top dez... Gaudu não será gregário por muito mais tempo. Já era visto como sucessor de Pinot, agora poderá muito bem partilhar uma liderança nas grandes voltas. A boa notícia para a Groupama-FDJ nesta Vuelta foi mesmo essa: tem mais uma opção para número um.

Sunweb: Com uma média de idades a rondar os 23 anos, normalmente não se esperaria muito de uma equipa com tantos estreantes em grandes voltas. Porém, depois de um Tour e Giro de grande nível, a Sunweb atraiu algumas atenções. Com as expectativas mais altas, acabou por ser uma desilusão não ver os jovens ciclistas mais activos. Mas dentro do possível cumpriram. Entraram em fugas, tentaram ganhar etapas. Não se poderia pedir muito mais dada a inexperiência da maioria dos atletas convocados.

© Photo Gomez Sport/La Vuelta
EF Pro Cycling: Perder cedo Daniel Martínez e ver Michael Woods ficar, também cedo, fora da luta pela geral, fez temer uma Vuelta longe do esperado. Mas eis que surgiu um Hugh Carthy a finalmente confirmar credenciais. Venceu no mítico Angliru, foi terceiro na geral e a equipa ainda conseguiu vencer mais duas tiradas, uma com Woods e outra com Magnus Cort. A EF Pro Cycling, vai aos poucos crescendo, conquistando mais bons resultados e termina a Vuelta como uma das equipas que melhores exibições fez.

CCC: Passou completamente ao lado da corrida. O maior destaque foi para Will Barta que foi segundo no contra-relógio. É uma equipa em fim de vida e os seus ciclistas mal se viram. Entraram numa ou outra fuga, mas foi muito pouco, não ajudando ter Simon Geschke e Francisco Ventoso abandonarem. Prestação muito fraca.

AG2R: Só três ciclistas terminaram a Vuelta! Entrou em fugas, mas foi uma equipa que pouco se viu e que demonstrou que está claramente a precisar de um novo rumo, algo que deverá começar a acontecer em 2021.

NTT: Mais uma formação que passou despercebida. Talvez pese a incerteza se irá ou não continuar no próximo ano. Só Gino Mäder se mostrou e ainda se viu Michael Valgren. Mas foi pouco, muito pouco para uma equipa que bem precisava de se mostrar e com ciclistas ainda sem contrato para a próxima temporada.

Deceuninck-QuickStep: Não foi uma grande volta para recordar. Apenas uma vitória de etapa por Sam Bennett, com o irlandês a ser desclassificado noutra tirada que havia ganho, por sprint irregular. Os seus ciclistas estiveram nas fugas, Rémi Cavagna até foi nomeado o super combativo da Vuelta, mas não foi uma corrida bem conseguida por parte da formação belga, tendo em conta que se espera sempre muito mais.

Bahrain-McLaren: Não houve muita classe da equipa, mas ver Wout Poels fechar na sexta posição foi extremamente positivo. O holandês foi dos que perdeu tempo no arranque frenético da Vuelta, mas foi subindo de forma e praticamente sozinho garantiu um bom lugar na geral, agora que tem a oportunidade de liderar uma equipa, depois de anos como gregário da luxo da Sky/Ineos. Para a Bahrain-McLaren valeu mesmo Wout Poels, os restantes ciclistas, rapidamente desapareciam quando as subidas surgiam no percurso. E foram muitas!

Caja Rural: Entrou nas fugas, mas pouco mais se viu da equipa espanhola do segundo escalão. Há muito que não tem conseguido ser uma formação que consegue estar mais vezes na discussão de etapas. Foi uma performance abaixo do que se esperava, tendo em conta que alguns ciclistas eram vistos como potenciais animadores de etapas.

Trek-Segafredo: Equipa sem história para contar na Vuelta. Uma das grandes apostas era Matteo Moschetti para os sprints, mas o jovem ciclista chegou foram do tempo limite logo na sétima etapa e foi para casa. Ciclistas como Michel Ries e Juan Pedro López tiveram a oportunidade de se estrear numa grande volta. Mal se viram, mas a Trek-Segafredo terá aproveitado para preparar o futuro.

Israel Start-Up Nation: Valeu Daniel Martin. E valeu muito. Uma vitória de etapa, quarto lugar na classificação... O irlandês teve uma das melhores prestações da sua carreira em grande voltas (talvez a melhor), numa altura em que até se estaria a preparar para ser gregário de Chris Froome. A equipa nem na ajuda ao líder teve capacidade, principalmente na montanha, mas sai de Espanha bem feliz com o resultado final de Martin, que não se esperava nesta fase da carreira ver a este nível.

© Photo Gomez Sport/La Vuelta
Bora-Hansgrohe: Andou um pouco na sombra, mas Felix Grossschartner conseguiu um bom nono lugar e chegou a estar mais acima na tabela. Na luta por etapas, Pascal Ackermann conseguiu cumprir em Madrid, sendo que terminou a Vuelta com duas vitórias, a primeira por desclassificação de Sam Bennett, após sprint perigoso. Pode ter sido uma equipa que pouco se viu, mas fez uma boa Vuelta perante os objectivos que tinha.

Burgos-BH: Muito diferente de 2020. Nem etapas, nem luta pela montanha, a equipa espanhola do segundo escalão esteve muito abaixo do esperado. Tal como a Caja Rural esperava-se que animasse mais a corrida, mas tirando os seus ciclistas irem aparecendo em fugas, acabaram por ser inconsequentes. Ricardo Vilela talvez tenha sido afectado pelo facto de ser chamado à última hora para a corrida. A sua preparação já não terá previsto fazer uma prova de três semanas e pouco se viu do português.

Lotto Soudal: Com Tim Wellens a vencer duas etapas, a chegar a ser líder da classificação da montanha, a Lotto Soudal terminou a Vuelta com a missão cumprida. O belga surgiu forte, entrou em várias fugas e foi o destaque da formação, assim como o jovem estreante em grandes voltas, Gerben Thijssen. O sprinter, de 22 anos, foi segundo numa das etapas. Acabou por abandonar, mas a Lotto Soudal já tem mais um homem rápido a aparecer para discutir mais vitórias no futuro.

Total Direct Energie: Esteve na Vuelta depois de conseguir entrar directamente na corrida por ter vencido o ranking do segundo escalão em 2019, a formação francesa foi mais uma que mal se viu. Mesmo entrar em fugas foi algo complicado. Má Vuelta.

Classificações completas, via ProCyclingStats.

»»Um último susto, uma ajuda da Movistar e uma vitória com todo o mérito para Roglic««

»»Ineos Grenadiers e Movistar a trabalhar e Roglic a ganhar mais uns preciosos segundos««

6 de novembro de 2020

Ineos Grenadiers e Movistar a trabalhar e Roglic a ganhar mais uns preciosos segundos

© Unipublic/Charly López/La Vuelta
Tanto trabalho da Ineos Grenadiers e da Movistar e no final foi Primoz Roglic, da Jumbo-Visma, quem agradeceu. Um segundo aqui, um segundo ali e o esloveno vai partir para a etapa decisiva da Vuelta com 45 de vantagem sobre Richard Carapaz e 53 sobre Hugh Carthy (EF Pro Cycling). Nem se pode dizer que tenha sido algo planeado pelo camisola vermelha ou pela sua equipa, apenas aproveitou a oportunidade de sprintar no final, depois de ver a fuga ser apanhada e ficar escancarada a porta para conquistar mais uma bonificação.

Nesta Vuelta são 48 segundos ganhos por Roglic na linha da meta, sendo que ajuda e muito ter ganho quatro etapas (10 segundos cada). Carapaz somou 16 e Carthy 10, na vitória no Angliru. Mais do que fazer diferença na estrada, já faz parte do estilo de Roglic em encarar estas corridas sempre à procura de somar bonificações. No Tour acabou por não resultar, mas tem este sábado o Alto de la Covatilla para ultrapassar e assim conquistar uma grande volta em 2020, tentando repetir o triunfo em Espanha, depois de ter ganho em 2019.

Os seis segundos que amealhou em Ciudad Rodrigo podem não garantir uma vitória a Roglic, mas servem de tónico para a derradeira etapa, na qual ninguém poderá ficar à espera do esloveno falhar. É agora ou nunca. A liderança terá de ser atacada, mas o próprio Carapaz demonstrou que aqueles seis segundos não eram nada bem-vindos na perspectiva do líder da Ineos Grenadiers. Quando percebeu que Roglic ia sprintar, também acelerou, mas nada pôde fazer para evitar ter mais tempo para recuperar.

A La Covatilla é uma subida com 11,4 quilómetros, com uma inclinação média de 7,1%. Roglic sofreu no Angliru, mas com a pendente máxima deste sábado a ser de 12% e não mais de 20, o esloveno terá de ter um dia muito mau para ceder tanto tempo só nesta subida.

Por isso mesmo, foi ainda mais estranha a forma como a Ineos Grenadiers se desgastou nos 162 quilómetros desta sexta-feira. Principalmente, Andrey Amador, um ciclista tão importante na ajuda a Carapaz. A boa colocação do equatoriano foi um objectivo, mas, ainda assim, Amador desgastou-se muito quando não houve qualquer intenção de tentar surpreender Roglic. E não demorou muito a perceber-se que o esloveno não ia ceder tempo no sobe e desce desta etapa.

A Jumbo-Visma esteve mais dedicada a proteger o seu líder, pois na parte final foi a Movistar que assumiu a frente do grupo. Mais uma vez não foi para preparar um ataque de Enric Mas, talvez ainda a pensar no pódio. A equipa foi atrás de uma vitória de etapa com Alejandro Valverde. E neste aspecto percebe-se. Ganhar a Vuelta está fora de questão e para uma equipa com apenas duas vitórias em 2020 (!), é importante conquistar algo mais - além da camisola da juventude que Mas não deverá perder - antes da época terminar. E finaliza já em Madrid, no domingo. Não há mais corridas.

17ª etapa: Sequeros - Alto de la Covatilla, 178,2 quilómetros

La Covatilla será a segunda categoria especial depois do Angliru. Não tem as pendentes da mítica subida, como foi descrito em cima, mas a Covatilla além de ser uma subida difícil, vai ser feita com temperaturas abaixo dos 10 graus, havendo a possibilidade de chuva, ainda que seja baixa. O vento deverá rondar os 14 quilómetros/hora.

A grande questão é se Carapaz e Carthy vão deixar tudo para a última subida, ou arriscam um ataque de longe. Esta última escolha poderá ser a opção de um Enric Mas ou mesmo de Daniel Martin (Israel Start-Up Nation), dois ciclistas que poderão dar o tudo por tudo para chegar ao pódio. O espanhol está a 3:29 de Roglic e o irlandês a 1:48.

Também se poderá ver uma luta pelos restantes lugares no top dez, mas esta Vuelta chega ao penúltimo dia com a geral por decidir, sendo que 2020 fica marcado por todas as grandes voltas só terem ficado decididas no derradeiro dia (não contando com o da consagração que o Tour e a Vuelta têm). Nas outras duas houve uma reviravolta...

Classificações completas, via ProCyclingStats.

© Photo Gomez Sport/La Vuelta
Rui Costa penalizado

O ciclista português continua à procura de ganhar uma etapa nesta Vuelta. Desta feita não entrou na fuga, mas ficou muito próximo de vencer. Foi terceiro no sprint ganho pelo Magnus Cort, em mais uma vitória para uma EF Pro Cycling que é das equipas mais ganhadoras após o desconfinamento. Porém, Rui Costa (UAE Team Emirates) acabaria sancionado e relegado para o final do grupo devido a uma manobra que foi considerada perigosa pelos comissários.

"Estou desiludido, mas não tenho outra escolha senão aceitar. Foi um final seguro e penso que o meu sprint foi correcto. Não houve certamente uma má intenção. Vou focar-me na próxima etapa antes de Madrid", afirmou Rui Costa.

Nota: Por lapso escreveu-se que Roglic tinha ganho 58 segundos nas bonificações. São 48, pois no contra-relógio não há bonificações. Fica aqui um pedido de desculpa pelo erro.

»»Vitória de Philipsen com influência de Ivo Oliveira (e com um agradecimento emocionado)««

»»Tim Wellens no seu terreno e uma lição de boa táctica««

1 de novembro de 2020

Hugh Carthy no nível há muito esperado

© Photo Gomez Sport/La Vuelta
Com uma nova geração a não esperar quase nada para não se só afirmar, como ganhar algumas das principais competições mundiais, ciclistas como Hugh Carthy acabam por ficar em segundo plano. No seu caso nem é fácil. O 1,93 metros de altura sempre foi um factor para se distinguir bem no pelotão. Outro factor, é a qualidade que lhe é reconhecida, mas que tem demorado a ser mostrada regularmente. Aos 21/22 anos deu os primeiros sinais que era mais um britânico a ter em conta, apesar de não estar na então Sky. Agora venceu a sua primeira etapa numa grande volta. E valeu a pena esperar!

Hugh Carthy tanto parecia que ia confirmar expectativas, como que desaparecia, ficando longe de resultados de destaque. Também sofreu quedas que não ajudaram à sua afirmação, mas na EF Pro Cycling nunca deixaram de confiar no jovem britânico, agora com 26 anos. Na recta final da época de 2020, a equipa olha para o seu ciclista e vê como nas últimas duas temporadas Carthy não só evoluiu, como ganhou mais maturidade que nesta Vuelta o colocam num lugar do pódio.

Carthy chegou à estrutura americana depois de dois anos em Espanha. O seu peculiar estilo a pedalar rapidamente chamou a atenção naquele país, pois a Caja Rural é uma excelente equipa para se ganhar notoriedade no segundo escalão do ciclismo. Antes fez parte de um projecto importante na formação de jovens britânicos: a então Rapha Condor JLT, equipa que terminou há dois anos.

Mas foi na Caja Rural que mais se mostrou e até esteve na Volta a Portugal em 2015. Ficou num discreto 74º lugar. No ano seguinte, a equipa espanhola levou-a à Vuelta, sendo que antes havia ganho a Volta às Astúrias. No World Tour já era seguido e não surpreendeu quando deu o salto.

Tem sido um caminho de afirmação com altos e baixos. Mas os altos sempre colocaram Carthy como um ciclista capaz de estar entre os melhores. Exemplo disso foi a vitória numa etapa da Volta à Suíça na época passada, quando antes já havia lutado por um top dez no Giro, ficando na 11ª posição.

Chegou a esta Vuelta "tapado" por Daniel Martínez. O colombiano caiu e acabaria por abandonar nos primeiros dias da corrida. Carthy agarrou a oportunidade e muito bem ajudado por Michael Woods - tem mesmo de agradecer o trabalho do companheiro canadiano -, o ciclista da EF Pro Cycling deixa Richard Carapaz e Primoz Roglic a não poderem menosprezá-lo. Pode não ser quem mais assusta, mas 32 segundos é uma distância para o primeiro lugar que vai fazer com que Carthy seja mais marcado pelos dois principais candidatos à vitória.

E 2020 já teve duas reviravoltas algo surpreendentes nas grandes voltas anteriores...

A razão para estarem atentos ao britânico não é só pela curta distância, mas também pelo que fez no mítico Angliru. A subida que ultrapassa os 20% de pendente, com média a rondar os 10%, até chegou a parecer que poderia quebrar Carthy. Mas não. Com Woods a seu lado, manteve-se com os favoritos, até que a cerca de 1,5 quilómetros da meta, numa subida com mais de 12, o britânico arrancou.

É este ciclista que há muito se espera ver mais vezes. Venceu numa das subidas mais difíceis do ciclismo mundial e onde há três anos Alberto Contador ganhou no adeus à sua carreira profissional.

Com Martínez de malas feitas para a Ineos Grenadiers, conseguir além desta vitória um pódio em Madrid, ou pelo menos um top cinco, poderá ser importante para que em 2021 Carthy assuma de uma vez por todas um papel de maior destaque nas grandes voltas na EF Pro Cycling.

Carapaz recupera camisola vermelha

Ninguém apanhou Hugh Carthy que se aproximou em mais de 20 segundos da liderança e tirou Daniel Martin (Israel Start-Up Nation) do pódio. Restou a Richard Carapaz (Ineos Grenadiers) aproveitar as visíveis dificuldades de Primoz Roglic (Jumbo-Visma) e recuperar a camisola vermelha. Porém, os apenas dez segundos de vantagem não dão qualquer tranquilidade, quando na terça-feira - segunda é dia de descanso - haverá um contra-relógio.

Com Enric Mas (Movistar) a não concretizar nem o plano de vencer a etapa, nem de chegar ao pódio, até se pode dizer que Roglic foi o outro vencedor do dia, além de Carthy. Estas pendentes brutais não assentam nada bem aos esloveno. Mas quem tem Sepp Kuss como gregário, tem quase tudo. Só faltou ter uma corda para puxar o seu líder!

A vantagem no contra-relógio está do lado de Roglic, mas também muito se irá pensar como perdeu o Tour numa etapa de uma especialidade que até é a sua. E haverá nova subida para terminar o esforço individual, mas bem diferente da que enfrentou na Volta a França (ver em baixo).

A Vuelta não ficará decidida na terça-feira, há ainda mais montanha (pois claro) até sábado, pois só no domingo, em Madrid, o terreno ficará plano. Porém, Carapaz sabe que ganhou pouco tempo no Angliru, na subida desta Vuelta na qual haveria mais probabilidade de Roglic ter problemas. Teve alguns, mas não quebrou e Carapaz não conseguiu explorar mais a situação.

Apenas uma palavra para Chris Froome. Está a melhorar e foi importante para o seu companheiro de equipa. Quem bom é ver este ciclista a recuperar alguma forma. Porém, faltou mais alguém para ajudar o equatoriano no Angliru, quando Froome ficou para trás depois de muito ajudar, antes de se chegar à última subida do dia (e foram quatro, duas de primeira categoria).

Classificações completas, via ProCyclingStats.

13ª etapa: Muros - Mirador de Ézaro, Dumbría (contra-relógio individual), 33,7 quilómetros

A subida que irá concluir o contra-relógio nada tem a ver com La Planche de Belles Filles, onde Roglic perdeu um Tour que parecia praticamente garantido. Ainda assim são 1,8 quilómetros a 14,8%! Fica desde logo a questão se os ciclistas vão mudar de bicicleta para os metros finais. Além desta dificuldade, há que ter em conta que o vento poderá também ter o seu papel, principalmente porque poderá ser frontal, criando mais um problema.

»»O protesto, a estreia a vencer, o empate na frente e a expectativa para o Angliru««

»»Uma classe própria««

22 de outubro de 2020

Isto é apenas o início

© Tim de Waele/Getty Images/DeceuninckQuickStep
O Stelvio não perdoa. Não importa se se é o mais talentoso dos trepadores, ou um dos grandes campeões de ciclismo. Nesta icónica subida já há quem saiba o que é perder a Volta a Itália. Era o maior teste a João Almeida, principalmente depois da etapa de sábado ter sido reformulada. O ciclista português cedeu, mas não quebrou. Defendeu como pôde a camisola rosa e honrou-a até ao fim. Percebeu que não continuaria como líder, mas não desistiu de sair deste Giro com um resultado que lance em alta a sua carreira nestas corridas. O sonho rosa desfez-se, mas isto é apenas o início do que João Almeida tem para dar... do que tem para ganhar.

Foram 15 dias de liderança. Nem Joaquim Agostinho, nem Acácio da Silva o conseguiram fazer numa grande volta. E João Almeida tem apenas 22 anos. Está a ser a sua primeira grande volta, no seu ano de estreia no World Tour. Eis mais um jovem da nova geração para entrar nas contas daqueles que podem deixar a sua marca na próxima década ou mais. E este é português. Nas últimas semanas tornou-se no orgulho nacional, fazendo recordar os bons velhos tempos em que o ciclismo era quase rei em Portugal.

Mas isto é apenas o início. João Almeida chegou ao mais alto nível somando bons resultados nos escalões de formação. Nada disto aconteceu por acaso, ainda que um pouco mais cedo do que o esperado. Porém, este é um ciclista que não desperdiça oportunidades. Não estava escalado para o Giro, mas ao ser chamado quis mostrar-se. Não se poderia pedir mais! Foi brilhante.

Fica aquela tristeza de ver que faltam três etapas para o fim e Almeida estava tão perto. Mas, naquele Stelvio de 25 quilómetros, com pendente média de 7,5%, o português perdeu a liderança, mas foi grande. A rosa já não é dele, mas terá tempo para um dia voltar a vesti-la. E a amarela do Tour... E a vermelha da Vuelta e outras camisolas que demonstrou poder vir a discutir. Tem todo um futuro à sua frente. Veio para o Giro para saber como era correr três semanas. Sai sabendo que é um voltista.

Até deu para esquecer que este é um ciclista ainda em evolução. Teve um curso intensivo de uma grande volta ao vestir ao terceiro dia a camisola rosa. Cresceu como atleta e não demorará a ver-se o resultado dessa aprendizagem. Isto é apenas o início!

A Deceuninck-QuickStep tem mais um ciclista para as provas de três semanas. Não só Remco Evenepoel. Esta equipa belga tem muito a pensar como quererá abordar os próximos anos. O director Patrick Levefere disse, em 2019, que estaria disposto a mudar um pouco a política de contratações se Enric Mas ficasse.

O espanhol saiu para a Movistar. Contudo, a Deceuninck-QuickStep tem agora dois bons voltistas e se os quiser manter, terá de ter mais ciclistas para montanha e não apenas um Fausto Masnada que está a precisar de perceber que tem de trabalhar para colegas quando assim se impõe. Ainda mais numa equipa que se auto apelida de Wolfpack (alcateia).

Isto é apenas o início para um João Almeida que, apesar de não estar numa equipa para as grandes voltas, é a certa para ele neste momento. Vai ter apoio para evoluir, sabendo que terá de trabalhar para colegas, mas que terá as suas oportunidades. Depois de 15 dias de rosa subiu o seu estatuto dentro da equipa. Isto é apenas o início.

E o Giro ainda não acabou. Saiu do pódio, mas segurou o top cinco e porque não olhar para cima. Ficou a 2:16 minutos do novo líder, Wilco Kelderman. Está a 57 segundos do quarto lugar (Pello Bilbao, Bahrain-McLaren). O pódio está a 2:01 (Tao Geoghegan Hart, Ineos Grenadiers, é terceiro classificado.

Jai Hindley (Sunweb) tornou-se no real camisola branca, com Hart atrás. Também essa classificação ficou complicada para o português. Mas, aconteça o que acontecer nas próximas três etapas, João Almeida fez história. Isto é apenas o início!

© Giro d'Italia
Uma camisola quase garantida

Ruben Guerreiro há-de ter o destaque merecido. O ciclista da EF Pro Cycling foi o primeiro a tentar ajudar Almeida a manter a camisola rosa, tal era a importância do feito. Porém, é dele um momento marcante da história do ciclismo nacional. Está perto de se tornar no primeiro português a vencer uma classificação numa grande volta. A camisola azul da montanha é dele se chegar a Milão.

Giovanni Visconti (Vini Zabù-KTM) era o rival mais sério, mas abandonou. Guerreiro entrou novamente na fuga, controlou a outra possível ameaça, Thomas de Gendt (Lotto Soudal) e depois de vencer uma etapa no final da primeira semana, é o rei da montanha. É a sua segunda grande volta e, aos 26 anos, afirma-se finalmente ao mais alto nível, depois de principalmente dois anos marcados por quedas e problemas de saúde.

Que Giro tão fantástico para Portugal. Apostar na formação vale a pena!

Classificações completas, via ProCyclingStats.

19ª etapa: Morbegno - Asti, 253 quilómetros

Wilco Kelderman é assim o novo líder da Volta a Itália, ainda que não parece ter o maior apoio da Sunweb, que não obrigou Jai Hindley a ficar com o o líder. O australiano está a 12 segundos do companheiro de equipa, após vencer a etapa que acabou por ser a rainha do Giro (Pinzolo - Laghi di Cancano, 207 quilómetros). Tao Geoghegan Hart recolocou a Ineos na luta pela geral, estando a 15 segundos de Kelderman.

A etapa de sábado vai ser emocionante. Até porque agora há rivalidade até dentro da Sunweb. Já esta sexta-feira, os sprinters que resistiram, têm uma última hipótese para ganhar, pois no domingo, o Giro termina com um contra-relógio. É dia para os candidatos à geral recuperar forças para a derradeira tirada de montanha no sábado.

»»Giro perde duas das subidas mais difíceis. Táctica para etapa desta quinta-feira pode mudar««

»»Ao ataque por muito mais do que dois segundos««

15 de outubro de 2020

O aliado ideal de João Almeida... se continuar no Giro

© Stuart Franklin/Getty Images/Deceuninck-QuickStep
No texto de ontem faltou referir um ciclista que pode tornar-se importante na ajuda a João Almeida, na sua senda rosa. Falou-se da protecção da Deceuninck-QuickStep e de quem são os ciclistas ao lado do português. Porém, há mais um corredor, um compatriota, que ainda esta quinta-feira demonstrou que está mesmo preparado para ser um aliado: Ruben Guerreiro.

Não é incomum haver alianças entre ciclistas de diferentes equipas, seja por serem ex-colegas, por amizade, por serem compatriotas e neste caso até são os dois últimos exemplos. Esta aliança teve na 12ª etapa a primeira expressão mais notória, sendo um aviso aos adversários. Já não bastava João Almeida continuar a apresentar-se forte e a Deceuninck-QuickStep estar a trabalhar muito bem, agora há mais um ciclista para ajudar. Alguns dos rivais, nem conseguem ter garantias que toda, ou pelo menos a maioria da equipa os apoie como é necessário.

Os 204 quilómetros que começaram e terminaram em Cesenatico, terra do inesquecível Marco Pantani, prometiam mais espectáculo do que se assistiu. O constante sobe e desce deixava antecipar um dia ao estilo de terça-feira e o próprio Almeida esperava uma etapa de muito trabalho. E foi, mas não aquele mais expectável.

Os ataques foram poucos, a táctica da NTT acabou por não resultar e o grande adversário foi mesmo o ritmo elevado e o mau tempo. O frio e a chuva regressaram em pleno! Há que se tirar o chapéu a Domenico Pozzovivo e à NTT. Pelo menos tentaram algo. Não funcionou, mas o ritmo imposto partiu o pelotão e meteu todos os candidatos em sentido. Na hora H, Pozzovivo não conseguiu atacar com a força que queria. E, pelo sim, pelo não, surgiu Guerreiro na protecção a Almeida.

Estávamos na última subida do dia e chegado ao topo (era uma quarta categoria) ainda haveria pela frente cerca de 30 quilómetros mais planos, que nada beneficiariam Pozzovivo. O pequeno italiano tentou ganhar alguma vantagem na inclinação final, com Almeida a manter-se atento à roda do adversário. Já Guerreiro até pareceu querer convencer o seu compatriota a contra-atacar. Almeida optou por uma postura mais conservadora. Aproxima-se um fim-de-semana difícil e todas as forças poupadas poderão ser importantes para chegar ao segundo dia de folga de rosa. Que história está Almeida a fazer nesta sua estreia numa grande volta.

Se Guerreiro continuar no Giro na última semana - e já se explicará o que se passa -, nas etapas de montanha poderá ser um elemento importante, pois a Deceuninck-QuickStep está dependente de um James Knox, que faz parte das subidas mais longas com o português, mas depois começa a ceder. E depois há Fausto Masnada. O italiano deverá receber ordens para se sacrificar pela liderança de Almeida, mas também quererá um top dez. Não fará mal nenhum se Guerreiro der uma ajudinha.

Claro que Guerreiro tem de cumprir com os seus compromissos e os da sua equipa. A EF Pro Cycling quer manter a liderança na montanha do português e lutar por mais uma etapa está igualmente nos planos. Mas Ruben Guerreiro não estará sempre nas fugas na terceira semana. Quando não estiver e as pernas o permitirem, Almeida terá um aliado, pois Guerreiro está cada vez melhor nas subidas mais difíceis. O cumprimento entre ambos no final da etapa de hoje é o sinal claro da união, muito bem-vinda neste sonho rosa de João Almeida.

EF Pro Cycling pediu para Giro terminar após este domingo

Depois dos casos positivos que levaram à saída da Mitchelton-Scott e Jumbo-Visma e ainda de Michael Matthews, da Sunweb, esta quinta-feira foram 17 polícias a serem colocados de quarentena. Os agentes acompanhavam o evento paralelo da Volta a Itália, o E-Giro, ou seja, bicicletas eléctricas. Testaram positivo e assustaram ainda mais o pelotão.

Thomas de Gendt (Lotto Soudal) disse que cresce o sentimento de insegurança e que até já foi discutido se deveriam prosseguir na competição. Já Peter Sagan (Bora-Hansgrohe) não hesita em dizer que havendo corrida, vai continuar.

A EF Pro Cycling foi mais radical. Escreveu à UCI, organismo que tutela o ciclismo mundial, a pedir para que a Volta a Itália terminasse no segundo dia de descanso, ou seja, domingo seria a última etapa. Considera que seria melhor assim, do que as equipas irem saindo, se houver mais casos positivos, segundo divulgou o Eurosport. A UCI respondeu não. O Giro continua além de segunda-feira. Pelo menos assim se espera.

Alguns ciclistas têm apontado falhas na bolha da corrida, como por exemplo nos hotéis onde ficam. Mesmo separados, há mais pessoas hospedadas e utilizar a mesma sala para o pequeno almoço, por exemplo. Nem todas fazem parte da corrida. O próprio director da corrida, Mauro Vegni, já expressou preocupação, principalmente depois dos testes positivos na segunda-feira.

Aproxima-se o segundo dia de descanso e o nervosismo cresce. A EF Pro Cycling avisou: se tiver um caso positivo, segue o exemplo da Jumbo-Visma e retira-se de imediato da Volta a Itália.

Ineos Grenadiers com terceira vitória

Depois da desilusão de ver Geraint Thomas abandonar muito cedo na corrida, a Ineos Grenadiers não sairá de Itália tão desiludida e derrotada como aconteceu no Tour. Depois de duas vitórias de Filippo Ganna, que também já liderou até João Almeida ficar com a rosa no final da terceira etapa, foi Jhonatan Narváez a conquistar um triunfo numa etapa. Imitou Ganna que também venceu ao integrar uma fuga e atacando mais tarde para uma vitória solitária (a primeira foi no contra-relógio inaugural).

Desta feita Narváez acabou por beneficiar de um furo de Mark Padun. O ucraniano da Bahrain-McLaren bem tentou recuperar o seu lugar na frente da corrida, mas teve de se contentar com o segundo lugar.

O grupo de candidatos, liderado por Patrick Konrad (Bora-Hansgrohe), Ruben Guerreiro e João Almeida, cortou a meta a 8:25 minutos. Na geral nada mudou. Wilco Kelderman (Sunweb) continua a ser quem está mais próximo do português da Deceuninck-QuickStep, a 34 segundos.

Classificações completas, via ProCyclingStats.

13ª etapa: Cervia - Monselice, 192 quilómetros

Apesar do terreno plano em grande parte do percurso, as duas últimas subidas poderão desanimar alguns sprinters e dar ideias a alguém que queira tentar algo antes do contra-relógio de sábado. É uma boa etapa para todos os interesses, mas principalmente para os de Peter Sagan, se o eslovaco quiser tentar reduzir um pouco a diferença para Arnaud Démare (Groupama-FDJ) na luta pela classificação dos pontos.

»»Deceuninck-QuickStep na protecção a João Almeida««

»»Assim nasce um líder««

12 de outubro de 2020

Apostar na formação

© Giro d'Italia
Rúben Guerreiro e João Almeida tornaram-se nos últimos dias os rostos do sucesso do ciclismo português. São dois jovens, de 22 e 26 anos, respectivamente, que desde muito novos lhes era apontado um futuro promissor num desporto difícil de singrar, principalmente para quem quer ter uma carreira no World Tour. Estes dois ciclistas representam o sucesso da formação, que tantos problemas tem para sobreviver em Portugal, mas que, de quando em vez, vê recompensado o esforço e dedicação daqueles que não desistem de ajudar e de ensinar quem faz do ciclismo o seu desporto de eleição.

São bem conhecidas as limitações na formação nacional e o ciclismo está longe de estar só nos problemas existentes em praticamente todas as modalidades. Tantas vezes se ouve que é por carolice que alguns projectos se mantêm vivos. Mas, é mais do que isso. É o gosto pela modalidade, é o gosto por dar a mão a jovens que não vêem o futebol como a única escolha.

Cadetes, juniores e mesmo os sub-23 vão sobrevivendo devido à persistência de pessoas dedicadas à modalidade, sem esquecer o trabalho feito a nível de selecções, que têm tido um papel importante em dar experiência aos ciclistas nas principais provas internacionais para o escalão.

Faltam melhores condições, faltam corridas por cá, mas o nosso país tem criado campeões. Muitos são os potenciais vencedores que ficam pelo caminho devido aos problemas estruturais que o nosso desporto vive. Já muito melhorou, é certo, mas é preciso muito mais, e os problemas arrastam-se ano após ano.

Na entrada do século XXI, talvez até um pouco antes, assistimos a uma mudança de mentalidade. Temos visto como jovens ciclistas nem chegam à elite nacional porque nem sequer ambicionam a tal. Sabem que para chegaram ao topo, ao World Tour, o melhor caminho é feito lá fora. Contudo, há quem seja exemplo de como o estrangeiro nem sempre significa que tudo é bom.

João Almeida e Rúben Guerreiro fizeram escolhas correctas e certamente tiveram ao seu lado quem os ajudou a tomar essas decisões e a encontrar boas soluções para o futuro. Tiveram ainda a força mental para enfrentar o desafio de, ainda muito jovens, terem de viajar e passar muito tempo longe de casa.

João Almeida saltou dos juniores directamente para o estrangeiro quando subiu a sub-23. Guerreiro ainda começou esse escalão por cá, antes de se mudar para a então Axeon Hagens Berman, para onde Almeida eventualmente também foi, sem que se tenham cruzado. Os gémeos Oliveira seguiram o exemplo de Guerreiro, sendo que também já chegaram ao World Tour, estando na UAE Team Emirates, ao lado de Rui Costa, o nosso campeão do mundo (2013).

André Carvalho também está na mesma equipa americana e este ano juntou-se Pedro Andrade. Iúri Leitão mudou-se para a espanhola Super Froiz - que bem tem estado nos Europeus de pista de sub-23, já com duas medalhas de prata conquistadas pela selecção nacional -, com Diogo Barbosa a optar também por fazer a sua formação de sub-23 neste país, mas na estrutura dedicada a este escalão da Caja Rural, tendo a perspectiva de um dia subir à equipa principal. Daniel Viegas fez esse caminho na actual Kometa-Xstra, onde entrou para os sub-23 e está agora na de elite, aos 22 anos.

Viegas fez uma dupla terrível nos juniores com João Almeida. Ganhavam tudo, à vez. Chega a um ponto que não conta só as equipas para onde se vai, para se ter sucesso, mas também a forma como se evoluiu como atleta.

Após uma semana de camisola rosa na Volta a Itália, naquela que é a sua primeira grande volta, no seu ano de estreia no World Tour - na Deceuninck-QuickStep, uma das melhores equipas mundiais -, Almeida é o mais recente exemplo de como em Portugal muito se tem de lutar para colocar um atleta de qualidade no lugar que merece. Mas, lá se vai conseguindo e, quando isso acontece, é sempre um sentimento especial.

Sentimento esse reforçado por ver Rúben Guerreiro ganhar uma etapa no Giro, ele que este ano representa a EF Pro Cycling. Ambos os ciclistas fizeram recordar os feitos de Acácio da Silva, o português que vestiu de rosa e venceu etapas no Giro, no final dos anos 80.

Não é expectável que tudo melhore de um momento para o outro na formação nacional, seja no ciclismo, seja noutras modalidades, mesmo quando surge um atleta vencedor. Contudo, espera-se que estes resultados continuem a fazer acreditar quem muito dá para que os jovens possam construir o seu caminho e, pelo menos, ter uma oportunidade de chegar longe. De chegar ao topo.

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11 de outubro de 2020

Rúben Guerreiro juntou-se a João Almeida e este domingo foi histórico

© Giro d'Italia
Cresceu-se a ouvir falar dos feitos de Joaquim Agostinho e de Acácio da Silva, por exemplo. Teve-se a oportunidade de assistir a conquistas de Sérgio Paulinho, Rui Costa e de Nelson Oliveira nas grandes voltas e, claro, um Mundial e uma medalha de prata nos Jogos Olímpicos. Todos foram dias importantes para o ciclismo nacional. O deste domingo junta-se a esses dias, mas com uma história reforçada.

Além da vitória numa etapa há três camisolas à mistura! Rúben Guerreiro venceu no Giro, algo que não acontecia desde Acácio da Silva, em 1989. É ainda o novo líder da montanha e junta-se como destaque na corrida a João Almeida, que resistiu de rosa. Este último também tem a liderança na juventude. O ciclismo português, a nova geração de talentos, está a mostrar-se (e de que maneira) em Itália.

Naquele país já se havia brincado a dizer que só havia um português mais falado: Cristiano Ronaldo. Agora já são três portugueses muito falados. João Almeida e Rúben Guerreiro gravam assim os seus nomes nesta edição do Giro e só falta ter a camisola dos pontos. Mas essa está bem "presa" por Arnaud Démare (Groupama-FDJ).

O que Guerreiro fez na nona etapa, era um plano traçado desde o arranque da corrida, com o ciclista a perder tempo à espera da fuga ideal para integrar. Foi este domingo. Nona etapa. O topo de Roccaraso tem agora um vencedor português.

E há tanto tempo que Guerreiro perseguia uma vitória assim. Chegou ao World Tour há quatro anos como uma das grandes promessas, depois de dois anos muito positivos na Axeon Hagens Berman, equipa que mais tarde contou com João Almeida. Entre problemas de saúde, quedas, lesões, a afirmação de Guerreiro foi sendo adiada. Aqui e ali foi-se vendo o melhor desde ciclista, que já conta com um título de campeão nacional na sua estreia em elite.

Depois de dois anos na Trek-Segafredo, mudou-se no ano passado para uma Katusha-Alpecin que acabaria a ser vendida à Israel Start-Up Nation. O ciclista do Montijo guardou o melhor para o final de 2019. Conseguiu estrear-se numa grande volta, em Espanha, e esteve perto de vencer uma etapa. As suas exibições chamaram e muito a atenção. Escolheu regressar a uma equipa americana, a EF Pro Cycling. Rúben Guerreiro dá-se bem com a cultura deste tipo de formações. Mais importante, assegurou poder ter liberdade por lutar pelos seus resultados.

Na Vuelta ficou encantado com as provas de três semanas. Satisfeito como o seu corpo reagiu, ficou com a certeza que é um tipo de corridas que quer apostar na carreira. A EF Pro Cycling levou-o ao Giro. E eis o que Guerreiro pode dar à equipa. É um vencedor, está sempre disposto a arriscar para ter sucesso. É um trabalhador incansável e Matti Breschel, um dos directores da equipa, destacou precisamente o profissionalismo de Guerreiro.

Recordou como trabalhou muito durante o confinamento, mas também salientou aquele lado mais rebelde de Guerreiro. Referiu como o português gosta de ser um artista na bicicleta, mas quando se foca em algo, é um ciclista de muita qualidade.

Com esta vitória e a forma como a alcançou, Guerreiro afirma-se ainda mais entre a estrutura de uma equipa à procura de líderes para suceder a Rigoberto Uran, numa altura em que Daniel Martínez está de saída para a Ineos Grenadiers. Aos 26 anos, Rúben Guerreiro alcança a vitória que tanto desejava, que tanto procurava. Mas que não se tenha dúvidas, já está a pensar quando pode estar na luta por mais.

"Finalmente! Que grande alegria depois de muitos segundos lugares! A equipa e eu merecíamos esta vitória. Foi muito difícil entrar na fuga esta manhã e foi uma vitória extraordinária", afirmou Rúben Guerreiro. E acrescentou: "No ciclismo profissional é tão difícil ganhar. Este é o meu quarto ano como profissional e é um sentimento incrível conseguir esta vitória depois de um dia tão complicado."

Esta segunda-feira o pelotão descansa ao fim de nove dias. Este último ficou marcado pela chuva e frio e uma etapa de 208 quilómetros, com quatro mil metros de acumulado. Tao Geoghegan Hart (Ineos Grenadiers), Larrt Warbasse (AG2R), Kilian Frankiny (Groupama-FDJ), Mikkel Bjerg (UAE Team Emirates) foram ciclistas que deixou para trás na última subida. Ficou com Jonathan Castroviejo. O espanhol da Ineos Grenadiers não teve hipótese quando o português arrancou a cerca de 300 metros da meta.

Venceu e lidera a montanha, com oito pontos de vantagem sobre Giovanni Visconti, da Vini Zabù-KTM. Fica com mais um potencial objectivo, caso opte por tentar manter a camisola azul. E para a EF Pro Cycling está a ser um Giro muito positivo. Jonathan Caicedo venceu a terceira etapa, também já liderou a montanha e até tentou tirar a rosa a João Almeida. Mas essa continua com o corredor da Deceuninck-QuickStep.

© Stuart Franklin/Getty Images/Deceuninck-QuickStep
Final complicado

Com alguma surpresa, não houve muitos ataques, apenas um aumento de ritmo por parte da Trek-Segafredo de Vincenzo Nibali, que não durou muito tempo. Num dia com condições meteorológicas tão adversas, a tentativa de quebrar João Almeida ficou para a derradeira subida de primeira categoria (dez quilómetros, com 5,7% de média), depois de uma também de primeira e duas de segunda.

A Deceuninck-QuickStep pôde assim controlar grande parte da corrida, não se preocupando com a fuga e ainda bem para Rúben Guerreiro! Na derradeira subida, já perto do último quilómetro, começaram as movimentações. O ciclista de 22 anos sofreu um pouco e perdeu algum tempo. Mas lutou com as forças que tinha para fechar de rosa uma primeira semana de Giro verdadeiramente memorável e histórica para o ciclismo nacional.

"Estava preparado para todo o tipo de cenários no início da etapa, incluindo o de perder a camisola. Mas continuei a acreditar e fiz o meu melhor, independentemente das condições, que penso que foram um problema para toda a gente", afirmou Almeida. Do português pode-se esperar que vai continuar a dar luta, mesmo que as diferenças tenham ficado um pouco mais curtas. E a cada dia que passa, o respeito para os principais favoritos no início do Giro vai aumentando e aumentando...

Wilco Kelderman (Sunweb) é agora segundo, a 30 segundos, com Pello Bilbao (Bahrain-McLaren) a cair para terceiro, mas a encurtar distância para a liderança: 39 segundos. Seguem-se Domenico Pozzovivo (NTT), a 53 segundos, e Vincenzo Nibali (Trek-Segafredo), a 57. A restante concorrência tem mais de um minuto para recuperar.

Classificações completas, via ProCyclingStats.

10ª etapa: Lanciano - Tortoreto, 177 quilómetros

Esta segunda-feira o pelotão descansa, ainda que haverá sempre o nervosismo dos resultados dos testes à covid-19. O Giro já perdeu Simon Yates (Mitchelton-Scott), que ao apresentar sintomas, foi testado, deu positivo e teve de abandonar a prova.

A segunda semana começa com uma etapa de média montanha, mas para a luta pela geral, as principais etapas deverão ser no fim-de-semana, com o contra-relógio no sábado e uma tirada de alta montanha no domingo.

Contudo, a Deceuninck-QuickStep sabe que terá de estar atenta, para evitar ataques que possam surgir na etapa de quinta-feira, por exemplo.

»»Calma que este domingo vai doer««

»»João Almeida controla, Arnaud Démare ganha««

2 de julho de 2020

Domingo é dia de ciclismo! Finalmente!

Contam-se as horas para que finalmente se possa assistir a uma competição de ciclismo em Portugal. O Prova de Reabertura é já este domingo, às 15 horas. Equipas de elite e sub-23 estiveram nas últimas duas semanas a afinar pormenores. E mesmo sem Volta a Portugal agendada, a vontade é enorme de sentir a adrenalina de uma corrida, mesmo que para começar seja um contra-relógio individual. 

Se por si só este regresso à competição já é uma excelente notícia, então o que dizer de ter o nosso campeão do mundo presente? Rui Costa vai fazer os 22 quilómetros de contra-relógio de Anadia. O ciclista da UAE Team Emirates aproveita assim para aprimorar a sua forma, numa altura em que já vai apontando ao regresso às grandes corridas, que arrancam no próximo mês. E recorde-se que este ano irá apostar na Vuelta entre as provas de três semanas.

Mas esta vontade de competir e com as corridas World Tour a arrancarem apenas a 1 de Agosto, Ivo e Rui Oliveira (UAE Team Emirates) também estarão presentes, assim como Ruben Guerreiro (EF Pro Cycling). Para Rui Oliveira será a oportunidade para finalmente competir na estrada, depois de ter caído na pista logo no início do ano e ter partido a clavícula. Com a suspensão do calendário, o jovem de Gaia teve de adiar a estreia em 2020.

Ao todo são esperados quase 100 ciclistas para completar um percurso sem dificuldades de maior, que tanto apresenta zonas rápidas, como algumas subidas que poderão ajudar a equilibrar as hipóteses entre aqueles mais fãs do plano e os que gostam de algumas inclinações.

Além dos corredores do World há ainda muitos nomes a destacar. José Neves (Burgos-BH) e os jovens da Hagens Berman Axeon, André Carvalho e Pedro Andrade também estão confirmados. O último vai abrir o contra-relógio às 15 horas, com Rui Costa a fechar às 16h32 (hora de partida).

Gustavo Veloso (W52-FC Porto), Tiago Machado e Sérgio Paulinho (Efapel), João Matias (Aviludo-Louletanto) e Rafael Reis (Feirense) - um dos grandes especialistas desta disciplina em Portugal - são mais alguns ciclistas que vão estar em acção. Mas o melhor é ver a lista completa (sujeita a alteraçōes) e quando cada um parte para a estrada neste link (documento em PDF).

Mas apesar de todos os sorrisos que são difíceis de esconder entre ciclistas, staff e fãs de ciclismo, não se pode esquecer que não se vivem tempos de normalidade. A pandemia de covid-19 não acabou e, por isso, há que ter cuidados.

O público está mais do que convidado a comparecer na berma da estrada para apoiar os atletas, que bem precisam de sentir o carinho de quem partilha o gosto pela modalidade. No entanto, na partida no Centro de Alto Rendimento e a chegada na Rua da Fonte Nova não será permitido assistir, de forma a evitar ajuntamentos.

Mas são 22 quilómetros de extensão, uma centena de ciclistas para ver passar. O que não falta é espaço para rever alguns dos atletas do nosso pelotão e Rui Costa. O campeão do mundo de 2013 já tinha quebrado uma longa ausência de provas em solo nacional na Volta ao Algarve, onde lutou pela vitória, ficando à porta do pódio.

Domingo é dia de ciclismo! Finalmente!

Percurso (clique na imagem para ampliar):

»»Pelotão à espera de uma Volta a Portugal adiada e sem previsão de nova data««

»»Ciclismo nacional está de volta!««

20 de janeiro de 2020

Os portugueses no World Tour

O contingente português no World Tour ficou mais curto, mas, ainda assim, é mais um exemplo do que está a acontecer no pelotão internacional: os mais jovens estão a conquistar o seu espaço. Dos seis lusos, quatro têm 25 anos ou menos. Já duas das principais figuras do ciclismo nacional na última década continuam a sua carreira ao mais alto nível, depois de terem renovado pelas respectivas equipas por mais duas temporadas. É o caso de Nelson Oliveira e Rui Costa.

Entre os mais novos, o destaque deste início de 2020 é a estreia de João Almeida. Tal como os restantes três jovens portugueses no World Tour, esteve dois anos na formação americana da Hagens Berman Axeon antes de dar o salto. E que salto! O campeão nacional de fundo e contra-relógio de sub-23 entrou para a equipa que mais ganha, é a dominadora das clássicas (principalmente do pavé) e que chega a qualquer outra corrida quase sempre a somar triunfos. E praticamente todos os seus ciclistas têm oportunidades para brilhar.

Recorde-se que José Gonçalves e Amaro Antunes despediram-se do World Tour no final de 2019, o primeiro depois de três anos na Katusha-Alpecin e o segundo apenas após uma época, a que a CCC subiu ao escalão mais alto. Gonçalves está na francesa Nippo Delko One Provence (ProTeam) - que já havia representado em 2013 e 2014 - e Amaro regressou à W52-FC Porto (Continental).

© Deceuninck-QuickStep
João Almeida (21 anos, Deceuninck-QuickStep, estreante no World Tour)
É o primeiro dos portugueses a entrar em acção em 2020. Ou melhor, já entrou, pois no domingo participou na clássica Schwalbe, corrida de apenas 50 quilómetros integrada no programa do Tour Down Under. Mas é esta prova australiana que abre oficialmente o calendário World Tour, na madrugada desta terça-feira. João Almeida vai ter tempo para se adaptar à competitiva realidade não só desta categoria, mas de uma equipa sempre sobre intenso escrutínio. No entanto, a Deceuninck-QuickStep é uma formação que dá tempo às suas jovens apostas para evoluírem, com pouca pressão, dando oportunidades para começarem a mostrar-se ao seu ritmo. O português é um ciclista que tem potencial para as provas por etapas, mas há clássicas que lhe assentam bem. No seu currículo está a vitória na Liège-Bastogne-Liège de sub-23 em 2018. Almeida surge na imprensa especializada como um dos os estreantes a seguir com atenção em 2020. 

© UAE Team Emirates
Ivo Oliveira (23 anos, UAE Team Emirates, segunda temporada no World Tour)
Não foi uma primeira época para recordar. A queda num treino em Abril foi de tal forma grave que o ciclista correu o risco de não voltar a andar. Conseguiu recuperar, acabou o ano a sagrar-se campeão nacional de omnium no Velódromo de Sangalhos e agora quer continuar em 2020 a afirmação interrompida. Vamos vê-lo na Volta ao Algarve e na UAE Team Emirates continua a ser considerado como um dos talentos jovens que a equipa quer desenvolver e inclui-lo no núcleo duro que, no futuro próximo, torne a equipa numa das mais fortes no World Tour. O contra-relógio poderá ser um dos seus pontos fortes quando chegar a altura de lutar por resultados pessoais, mas começará por ser um ciclista que trabalhará muito para a equipa. Consoante a sua evolução, poderá surgir alguma oportunidade para se destacar e Ivo não quer perder mais tempo em mostrar todo o talento mais do que reconhecido apesar de ter apenas 23 anos.

© UAE Team Emirates
Rui Oliveira (23 anos, UAE Team Emirates, segunda temporada no World Tour)
Ao contrário do irmão gémeo, Rui teve uma época de estreia muito positiva. Conseguiu afirmar-se como um elemento importante a trabalhar para os líderes, principalmente na preparação de sprints. Jasper Philipsen (que também esteve na Hagens Berman Axeon) foi um dos ciclistas que beneficiou do grande trabalho realizado por Rui em algumas corridas. Infelizmente para o jovem corredor de Gaia, a temporada começou com uma queda na pista. A clavícula partida é um revés para um ciclista que queria começar apostar na primeira metade da temporada, também a pensar na possibilidade de ser chamado para a Volta a Itália, pois está pré-convocado. Porém, apesar da lesão, Rui mantém-se optimista que poderá ter um bom 2020. O plano de continuar a evoluir e de conquistar o seu lugar na equipa continuará intacto, mesmo que corra o risco de ver adiado o objectivo de se estrear numa grande volta. Poderá ter de mudar o calendário (já não estará na Volta ao Algarve), mas não muda a sua atitude de lutador, de quem quer sempre estar ao seu melhor.

© EF Pro Cycling
Ruben Guerreiro (25 anos, EF Pro Cycling, quarta temporada no World Tour)
Guardou para o final 2019 o melhor e aquela Vuelta pode marcar a carreira de Ruben Guerreiro. Apesar de já ir para o seu quarto ano no principal escalão, os primeiros dois foram marcados por muitos altos e baixos. Tanto aparecia a confirmar expectativas, como uma queda ou um problema de saúde, atrasavam a sua afirmação. Na Katusha-Alpecine estabilizou um pouco e a exibição na Volta a Espanha despertou novamente o interesse das equipas. Regressa a uma formação americana (além da Hagens Berman Axeon, estreou-se no World Tour na Trek-Segafredo) que lhe dará liberdade para perseguir os seus resultados em várias corridas, mas não se livrará também de algum trabalho para companheiros. O campeão nacional de 2017 não esconde o desejo de apostar nas três semanas. Admitiu que não sabia o que poderia fazer em provas tão longas, mas a Vuelta não só lhe aguçou o gosto por estas corridas, como lhe deu confiança que pode alcançar bons resultados.

© Photo Gomez Sport/Movistar Team
Nelson Oliveira (30 anos, Movistar, 10ª temporada no World Tour)
É uma peça fundamental da Movistar, que representa desde 2016. Num ano atípico com muitas entradas e saídas de ciclistas na equipa espanhola, a importância do português foi mais uma vez notória com a renovação de contrato por mais duas temporadas. Apesar de ser um ciclista de trabalho, função que continuará a ser a sua principal na Movistar, tem voz para também conseguir ter um calendário que lhe agrade. Com os Jogos Olímpicos a poucos meses, Nelson Oliveira preferia deixar de parte a Volta a França, que termina apenas seis dias antes da corrida de fundo olímpica. Concretizou o desejo e vai ao Giro, com a Movistar a dar a oportunidade do português gerir a sua forma física para estar bem em Tóquio, a pensar mais no contra-relógio. Mas antes dos Jogos, a Movistar sabe que terá sempre o melhor e leal Nelson na ajuda aos seus líderes.

© UAE Team Emirates
Rui Costa (33 anos, UAE Team Emirates, 12ª temporada no World Tour)
Dos seis portugueses no World Tour, três estão na UAE Team Emirates. A equipa até pode estar a apostar cada vez mais em jovens talentos, mas não abdica em ter ciclistas experientes. Rui Costa renovou por mais dois anos e vai para o seu sétimo na estrutura, contando com o tempo em que era a Lampre-Merida. Já não é um dos líderes, mas não significa que ficará relegado apenas ao papel de apoio. Já na Volta ao Algarve terá a oportunidade de lutar pela vitória, situação que deverá acontecer noutras corridas, como a muito desejada Liège-Bastogne-Liège, uma das clássicas preferidas do campeão do mundo de 2013. Neste caso, provavelmente irá partilhar a liderança. Tal como Nelson Oliveira na Movistar, Rui Costa tem estatuto na equipa para conseguir "negociar" um calendário que lhe permita lutar por objectivos pessoais que incluem a selecção nacional. Também vai apostar forte nos Jogos Olímpicos, ficando Rui com a responsabilidade de ir atrás da medalha olímpica na corrida de fundo. Com a UAE Team Emirates a rechear-se de ciclistas fortes, Rui Costa pode ter um papel diferente de há uns anos, mas é ainda assim importante e jovens como os gémeos Oliveira só têm a beneficiar da experiência do poveiro.

»»Movistar renovada, UAE Team Emirates a apostar nos jovens e uma nova era na Sunweb««

»»Os colegas de equipa de João Almeida e Ruben Guerreiro e a estreia da Israel Start-Up Nation««