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27 de fevereiro de 2021

Novos protagonistas quiseram aparecer mas no final... ganhou quem mais sabe

© Luc Claessen/Getty Images/Deceuninck-QuickStep
Início da época de clássicas que não desiludiu! O fim-de-semana de abertura deste tipo de corridas, com destaque para as provas de pavé teve uma Omloop Het Nieuwsblad bem animada, com alguns novos protagonistas a quererem entrar na luta com os habituais candidatos nesta fase do ano, mas no final ganhou a equipa que melhor sabe fazê-lo neste terreno.

Ver a Deceuninck-QuickStep correr nas clássicas é arte no ciclismo. Ver a Deceuninck-QuickStep preparar sprints é a perfeição a alta velocidade. A temporada conta com poucas corridas - muitos cancelamentos e adiamentos devido à pandemia -, mas a equipa belga já soma cinco vitórias. E não deu hipóteses na Omloop Het Nieuwsblad. Uma clássica do pavé, uma vitória. Tentou com Julian Alaphilippe, não resultou, o francês trabalhou depois intensamente para um companheiro. Zdenek Stybar caiu, mas estava lá um Davide Ballerini cada vez mais a sair do segundo plano, que na Deceuninck-QuickStep pouco quer dizer. Todos acabam por ter a sua oportunidade.

Aos 26 anos, está há dois na Deceuninck-QuickStep, o que diz ser o cumprir de um sonho. Se já em 2020 tinha demonstrado que poderia começar a entrar nas contas para sprinter de referência, na Omloop Het Nieuwsblad não desperdiçou a oportunidade para ganhar. E tanto o italiano, como toda a equipa quase fizeram parecer fácil ganhar! Toda a concorrência ficou a ver Ballerini de longe enquanto cortava a meta, depois de 200,5 quilómetros da clássica belga.

Mas se a Deceuninck-QuickStep mostrou o esperado, há outros dois destaques menos comuns nestas andanças. A Ineos encontrou um ciclista que poderá fazer o mesmo que Ian Stannard há uns anos. Provavelmente até mais. Thomas Pidcock finalmente optou por se dedicar à estrada (ainda que não vá deixar o ciclocrosse) e a sua chegada à Ineos Grenadiers - esteve em 2018 e 2019 na Team Wiggins - é precisamente para dar outro poderio à equipa britânica nestas corridas.

Porém, Pidcock também é ciclista que se adapta bem às provas por etapas. Aos 21 anos chega ao World Tour com selo de corredor completo, forte também no contra-relógio. Em 2017 foi campeão mundial em juniores na especialidade.

Na Omloop Het Nieuwsblad ficou uma pequena amostra do que o britânico poderá fazer. A forma como recuperou lugar na frente da corrida depois de ter ficado no grupo atrasado, foi um momento de muita classe de Pidcock. Infelizmente uma queda acabaria por estragar-lhe a corrida já nos quilómetros finais.

Se a Ineos Grenadiers não tem muita tradição neste tipo de corrida, a Movistar também não.  Aqui e ali a equipa espanhola já tentou no passado mostrar-se nas clássicas do pavé. Até Alejandro Valverde experimentou recentemente. Porém, tem agora um ciclista de qualidade para este terreno. Ivan Cortina chegou da Bahrain-Mclaren com o plano de se tornar num sério candidato a vitórias no pavé. O 11º lugar do espanhol pode muito bem ser o revelar que está a aquecer para o que aí vem neste calendário específico.

E temos ainda André Carvalho. O único português em prova estreou-se numa prova World Tour. O ciclista da Cofidis tem duas missões nesta altura da época: adaptar-se a uma nova realidade e dar o apoio possível aos líderes, neste caso Christophe Laporte. É isso que Carvalho está a fazer, terminando na 77ª posição, a 3:07 minutos de Ballerini.

A equipa francesa está a dar tempo de corrida ao português de 23 anos. Este domingo estará novamente em acção na Kuurne-Bruxelles-Kuurne (dorsal 136) e também está na lista para a prova Le Samyn.

Classificação completa, via ProCyclingStats.

Maria Martins começou temporada

Enquanto a campeã mundial Anna van der Breggen (SD Worx) dava um daqueles espectáculos a que já nos habituámos, deixando todas para trás e cortando a meta sozinha, a Omloop Het Nieuwsblad para senhoras tinha uma Maria Martins a arrancar a época da Drops-Le Col s/p Tempur.

A vontade já era muita, depois de um 2020 para esquecer na estrada devido à razão que já se sabe. 2021 também não se apresenta fácil com a pandemia a continuar a limitar a realização de corridas, mas a portuguesa de 21 anos foi à Bélgica sentir o que é competir numa clássica do pavé. A época começou com um 41º lugar, a 7:13 minutos da vencedora, sendo uma experiência que vai ajudar a jovem ciclista a crescer num pelotão feminino cada vez mais competitivo.

Classificação completa, via ProCyclingStats.

Mais portugueses

O trio luso da UAE Team Emirates competiu em França, na Faun-Ardèche, uma corrida mais para trepadores. Por isso mesmo, Rui Costa aproveitou para se mostrar, terminando na 12ª posição, a 46 segundos de David Gaudu.

Atenção a este ciclista francês da Groupama-FDJ. Com Thibaut Pinot a estar numa fase novamente mais complicada, com o Tour a nem aparecer nos seus planos para 2021 - vai ao Giro -, poderá estar a chegar o momento de Gaudu assumir um papel de maior relevância. E vai à Volta à França.

Quanto aos gémeos Oliveira, terminaram juntos: Ivo foi 119º e Rui 120º, ambos a 19:10 minutos de Gaudu.

Classificação completa, via ProCyclingStats.

»»Novo equipamento e bicicleta no arranque de época de Maria Martins««

»»Corridas em Portugal só em Abril. Ciclistas desiludidos com adiamentos««

26 de fevereiro de 2021

Novo equipamento e bicicleta no arranque de época de Maria Martins

© Federação Portuguesa de Ciclismo
Maria Martins vai estar no fim-de-semana de abertura das clássicas! Finalmente chega a fase da temporada sempre tão espectacular, com a Omloop Het Nieuwsblad a dar o mote este sábado, antes de no domingo se disputar a Kuurne-Bruxelles-Kuurne. Esta última é só para os homens, mas a primeira terá prova masculina e feminina. A ciclista portuguesa vai dar as primeiras pedaladas na estrada de 2021 com a sua Drops-Le Col s/b Tempur, mas este fim-de-semana teremos mais lusos em acção. André Carvalho, por exemplo, em ano de estreia no World Tour, estará nas duas clássicas com a Cofidis.

Para a equipa de Maria Martins é o início de uma nova era depois de ter chegado um muito desejado reforço financeiro. A Le Col, marca de equipamentos, respondeu ao apelo de ajudar a equipa britânica a crescer e passou de apenas fornecedora a co-patrocinadora.

© Drops-Le Col s/b Tempur
O momento teve de ser marcado com um novo equipamento, pois claro, e é bem vistoso. Já em 2020 não era um que passasse despercebido, mas para esta época a Le Col 
aproveitou o conhecimento da McLaren no pelotão profissional - na época passada chegou mesmo a ter o seu nome na equipa da Bahrain, mas entretanto abandonou o ciclismo - para criar um equipamento moderno e que faça a sua parte para contribuir para o sucesso das ciclistas. A marca explicou que camisola e calções foram criados com o melhor dos materiais, para permitir a melhor aerodinâmica, além do essencial conforto.

Recorde-se que a Drops quer ascender ao principal escalão e 2021 será um ano importante para alcançar o objectivo já na próxima temporada. A questão financeira parece estar num bom caminho, agora procuram-se bons resultados. Além da Le Col passar a co-patrocinadora, chegou a Tempur (colchões e almofadas), a Ribble fornece as bicicletas, com a Mavic a entrar no ciclismo feminino através desta equipa.

Maria Martins chegou à Drops em 2020 depois de dois anos na Sopela Women's Team, para onde deu o salto depois de representar o Clube de Ciclismo da Bairrada. Com apenas 21 aos, Tata, como é conhecida, já fez história na modalidade em Portugal, ao tornar-se na primeira mulher lusa a apurar-se para os Jogos Olímpicos de Tóquio, em pista. Nesta vertente já soma medalhas, enquanto procura afirmar-se também na estrada.

Forte no sprint, 2020 foi um ano difícil devido à escassez de corridas. Esta época também não está fácil para o calendário feminino, pelo que há que aproveitar todas as oportunidades que surjam. A Omloop Het Nieuwsblad contará com alguns grandes nomes, como Annemiek van Vleuten (Movistar) e Lizzie Deignan (Trek-Segafredo).

Maria Martins, que terá o dorsal 162, estará acompanhada na sua equipa pela britânica Elizabeth Bennett, a sueca Sara Penton, a alemã Finja Smekal e as holandesas Maike van der Duin e Marjolein van't Geloof.

© Drops-Le Col s/b Tempur
A bicicleta de Tata

A Ribble, marca britânica com mais de 100 anos de história, escolheu os modelos Ribble Endurance SLR e Ultra TT (contra-relógio) para serem utilizados pelas ciclistas da Drops-Le Col s/b Tempur.

Nas fotografias divulgadas pela equipa, será uma bicicleta que não passará despercebida. Afinal, na Drops há o lema de "colour the road" (dar cor à estrada), o que também é bem perceptível pelos equipamentos. Nas imagens é possível ver que além das rodas Mavic, a bicicleta está equipada com o grupo Shimano Ultrega, selim Fizik e pneus Continental.

É esta a nova máquina de Maria Martins, que este ano não terá a companhia na aventura no estrangeiro, ainda que em equipas diferentes, de Daniela Reis. A primeira ciclista portuguesa a ir além fronteiras colocou um ponto final na carreira. Quanto a Tata, depois da Omloop Het Nieuwsblad (124,4 quilómetros entre Gent e Ninove) participará na corrida Le Samyn, na Bélgica, na terça-feira.

A Drops-Le Col s/b Tempur terá como um dos pontos altos da temporada a presença na primeira edição do mítico Paris-Roubaix para senhoras, prova agendada para 11 de Abril.

(Texto continua após o vídeo.)


No masculino...

Relativamente a André Carvalho, o outro português em acção nas clássicas deste fim-de-semana - sem esquecer que João Almeida (Deceuninck-QuickStep) e Ruben Guerreiro (EF Education-Nippo) estão na Volta aos Emirados Árabes Unidos, que acaba este sábado -, o ciclista de 23 anos estreou-se na Cofidis na Clássica de Almeria (100º lugar), mas a Omloop Het Nieuwsblad marcará a sua primeira corrida World Tour.

Carvalho, dorsal 84, terá o francês Christophe Laporte como líder, com a Cofidis a chamar ainda Piet Allegaert, Tom Bohli, Jempy Drucker, Emmanuel Morin e Szymon Sajnok. Serão 200,5 quilómetros entre Gent e Ninove.

Para a Kuurne-Bruxelles-Kuurne sai Sjanok e entra Jelle Wallays (Carvalho terá o dorsal 136), com o português a poder fazer o pleno, pois também está na lista da Cofidis para o Le Samyn, na terça-feira.

De referir que este sábado também se realiza em França uma corrida de um dia, a Faun-Ardèche, que contará com o trio luso da UAE Team Emirates: Rui Costa e os gémeos Oliveira. Serão 171,3 quilómetros que começam e acabam em Guilherand-Granges.


2 de fevereiro de 2021

Os portugueses no World Tour

Portugal está em 2021 representado por mais um ciclista no World Tour, comparativamente com o ano passado. É mais um jovem a chegar ao mais alto nível, desta feita pela mão da Cofidis. André Carvalho junta-se assim a um grupo de talentos nacionais que se vão afirmando, com João Almeida a centrar muitas das atenções em 2021 e com Ruben Guerreiro à procura de mais vitórias como as que alcançou na Volta a Itália de boa memória para os portugueses. Temos ainda o trio da UAE Team Emirates e um dos melhores gregários do pelotão internacional, que está de olho numa medalha olímpica.

© Team Cofidis
André Carvalho, 23 anos, Cofidis

1ª época no World Tour

Para André Carvalho foi importante saber ver que nem sempre ir para fora cedo é a melhor opção. Em 2017, a experiência na Cipollini Iseo Serrature Rime ASD não foi a esperada, pelo que regressou à então Liberty Seguros-Carglass. Uma decisão acertada já que a boa temporada acabou por ser uma ajuda para dar o salto para a Hagens Berman Axeon. Dois anos na equipa americana e Carvalho foi o quinto português a "formar-se" na estrutura de Axel Merckx e saltar para o World Tour. 100% de taxa de sucesso, sucedendo a Ruben Guerreiro, os gémeos Oliveira e João Almeida. Pela primeira vez a Cofidis contrata um português, com o objectivo de o colocar a trabalhar para os líderes, principalmente nas clássicas. Os quintos lugares no Paris-Roubaix e Liège-Bastogne-Liège de sub-23 contribuem para que seja a escolha inicial de como a Cofidis pretende aproveitar as capacidades do português. Contudo, com a possibilidade de continuar a evoluir como trepador, Carvalho poderá, mais à frente, ir além da missão que agora lhe é atribuída. Abrem-se as portas que o ciclista de Famalicão tanto queria e, com contrato apenas para 2021, todas as corridas são essenciais para mostrar que é mais um jovem talento de Portugal que merece estar ao mais alto nível.

© UAE Team Emirates
Ivo e Rui Oliveira, 24 anos, UAE Team Emirates

3ª época no World Tour

Apesar das muitas corridas canceladas devido à pandemia, 2020 acabou por ser o ano de afirmação para os gémeos Oliveira. Surgem juntos neste texto não só por serem irmãos na mesma equipa, mas porque na época passada deram ambos um passo em frente na carreira, muito devido a não terem tido qualquer problema físico que os afastasse das competições, como aconteceu no passado. Se inicialmente foi Rui quem se foi mostrando mais na preparação dos sprints, Ivo seguiu o exemplo e a chamada para a Volta a Espanha foi uma oportunidade que não desperdiçaram. Excelente trabalho dos gémeos! Para 2021 espera-se que, mesmo não sendo para Jasper Philipsen que vão trabalhar (o belga saiu para a Alpecin-Fenix), possam tornar-se em homens de confiança para as principais figuras da equipa no sprint e nas clássicas. E nos planos estão grandes corridas para ambos. Depois da Vuelta em 2020, Ivo - que também trabalha para se tornar num contra-relogista de referência - está apontado ao Tour, mas até lá tem: Omloop Het Nieuwsblad, Kuurne-Bruxelles-Kuurne, Tirreno-Adriatico, Volta à Romandia e Critérium du Dauphiné. Rui foi o primeiro português no World Tour a estrear-se em 2021, com o 39º lugar no Grand Prix Cycliste la Marseillaise. Está apontado ao Giro e antes tem o Paris-Roubaix no calendário. Juntos, apenas está previsto, para já, a presença na Clássica de Almería, caso se realize a 14 de Fevereiro (a maioria das corridas espanholas estão a ser canceladas).

© Deceuninck-QuickStep
João Almeida, 22 anos, Deceuninck-QuickStep

2ª época no World Tour

Fabulosa estreia ao mais alto nível! Agarrou a oportunidade de se mostrar na Volta a Itália como o grande ciclista que por cá há muito se sabia que tinha tudo para ser, desde os seus tempos de formação. Apesar da idade, a sua mentalidade é de um atleta de muita maturidade. A senda de rosa catapultou-o para a ribalta, ainda que não fosse um total desconhecido. Os bons resultados na Hagens Berman Axeo e já tendo feito estágios com a Deceuninck-QuickStep, faziam dele um corredor a ter em atenção. Começou como um leal gregário de Remco Evenepoel, mas depois do Giro... atenção como figura principal não lhe vai faltar. Em mais um exemplo de maturidade, João Almeida recusa entrar em euforias. Olha para o futuro e para o que tem de fazer para continuar a subir na hierarquia dos melhores do mundo. Para já, apenas se conhece que a Volta a Espanha é a escolha para 2021, mas até lá, João Almeida terá uma temporada de crescimento - sim, ainda vai progredir mais -, pois se na sua estreia no Giro não baixou os braços para tentar segurar a camisola rosa, alcançando um histórico quarto lugar, a única certeza que se tem quanto ao que pode fazer, é que a exibição na Volta a Itália foi apenas o início de uma história que terá muitos e bons capítulos.

© Movistar Team
Nelson Oliveira, 31 anos, Movistar

11ª época no World Tour

Vai para a sexta temporada com a Movistar e apesar da equipa ter uma tendência para viver algumas tempestades pela forma como gere os seus líderes, quando se fala de regularidade, Nelson Oliveira tem de surgir à cabeça. Simplesmente não sabe correr mal. Para 2021 há surpresas no calendário do ciclista, sempre muito apontado ao Tour e Vuelta, sendo que depois das quedas que lhe estragaram temporadas no Paris-Roubaix, ainda não é desta que regressa. Desta feita, a primeira metade da temporada terá foco em Itália, com o Giro em mente. Será a terceira presença, depois de 2012 e 2013. Trofeo Laigueglia, Strade Bianche, Tirreno-Adriatico e depois uma curta viagem à Suíça para a Volta à Romandia é o plano inicial de Nelson Oliveira, que mais à frente terá os Jogos Olímpicos como um grande objectivo. Vai atacar a conquista de uma medalha na sua especialidade, o contra-relógio.

© EF Pro Cycling (fotografia de 2020)
Ruben Guerreiro, 26 anos, EF Education-Nippo

5ª época no World Tour

O mais irreverente dos portugueses no World Tour encontrou finalmente a equipa que lhe dá a liberdade que gosta, mas com a estrutura que também precisa para alcançar os feitos que era esperados desde os tempos de formação. Em 2020 confirmou que a exibição na Vuelta na época anterior não tinha sido um acaso e foi ao Giro tornar-se no rei da montanha e vencer uma etapa. História para o ciclismo português, com Acácio da Silva a já não ser a única referência da grande volta italiana. Os seus directores parecem ter encontrado a receita para que o Guerreiro acredite cada vez mais nas suas capacidades, indo progredindo tacticamente. Porém, o que mais deseja é lutar por uma geral. Se continuar no bom caminho que iniciou no final de 2019, a oportunidade pode não demorar muito mais a chegar. Apaixonou-se pelas grandes voltas e é nelas que mais se quer focar, ainda que depois da exibição no Giro, também se vai esperar mais do português noutras provas por etapas. Terminou 2020 a sofrer uma acidente num treino, com o carro a provocar uma queda. Poderá estrear-se este ano na Volta aos Emirados Árabes Unidos, no final de Fevereiro.

© UAE Team Emirates
Rui Costa, 34 anos, UAE Team Emirates

13ª época no World Tour

Na Vuelta foi um Rui Costa de grande nível que se apresentou em Espanha e não lhe teria ficado nada mal uma vitória de etapa, por que tanto lutou. O campeão do mundo de 2013 está novamente confortável no seu papel na UAE Team Emirates, numa altura que a posição de líder é muito difícil de ter para o poveiro. Não só se apresenta como um ciclista cuja experiência é necessária numa equipa com tantos jovens, como tem um papel de maior liberdade para procurar vitórias de etapas, ou em clássicas, que foi sempre o que lhe assentou melhor. Mas quando é preciso ajudar, tem de estar (e tem estado) pronto para tal. Para 2021 ainda não tem uma grande volta programada. Tem início marcado de época a 11 de Fevereiro no Tour de la Provence, seguindo-se Paris-Nice, Volta ao País Basco, as clássicas das Ardenas (Amstel Gold Race, Flèche Wallonne, Liège-Bastogne-Liège) não poderiam faltar, ao que acresce a Volta à Romandia e a "sua" Volta à Suíça, corrida que venceu três vezes (2012, 2013 e 2014).

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30 de setembro de 2019

Portugal cumpre objectivos nuns Mundiais nada fáceis de enfrentar

(Fotografia: © Federação Portuguesa de Ciclismo)
Com o final dos Campeonatos Mundiais em Yorkshire é tempo de fazer balanços e não há dúvidas que países como Estados Unidos, Itália e Holanda saíram bastantes felizes, ainda que as últimas duas selecções tenham visto escapar o título na elite masculina. A Dinamarca também não tem razões de queixas com Mikkel Bjerg a fazer história nos sub-23 (terceiro título consecutivo no contra-relógio) e Mads Pedersen a surpreender tudo e todos na elite. A Bélgica é das equipas que sai mais cabisbaixa, enquanto a selecção de Portugal apontava mais com João Almeida, mas as condições eram difíceis para fazer melhor. Já Rui Costa cumpriu, garantindo o seu quarto top dez em Mundiais.

A comitiva nacional variou entre querer dar experiência aos mais novos - como os juniores Daniela Campos, João Carvalho e André Domingues e também a Maria Martins que, sendo sub-23, correu pela primeira vez na elite por não haver este escalão no sector feminino - e apostar no talento de João Almeida e experiência de Rui Costa, sem esquecer Nelson Oliveira.

Os eleitos para os sub-23 tinham potencial para fazer um bom resultado. João Almeida é um dos jovens que se vai estrear no próximo ano no World Tour, na Deceuninck-QuickStep, André Carvalho está numa das melhores equipas de formação, a americana Hagens Berman Axeon, enquanto Miguel Salgueiro (Sicasal-Constantinos) é um dos principais talentos a emergir em Portugal. Já Emanuel Duarte venceu a classificação da juventude da Volta a Portugal e a geral da Volta a Portugal do Futuro, numa época marcante na LA Alumínios-LA Sport como Continental sub-25.

O mau tempo dificultou a missão dos dois primeiros no contra-relógio, com João Almeida a inclusivamente cair. Na prova em linha, as dificuldades de um percurso que chegou a ser encurtado para que os ciclistas não terminassem já com pouca luz natural, devido ao mau tempo e ao horário da corrida (foi no mesmo dia das juniores femininas), acabaram por deixar Portugal longe de um bom resultado, com nenhum dos ciclistas a conseguir ficar na frente da prova quando começaram a verificar-se cortes. André Carvalho foi o melhor, na 30ª posição, com Emanuel Duarte a abandonar.

Na elite, Nelson Oliveira ficou a 14 segundos da medalha de bronze no contra-relógio, continuando a ficar constantemente entre os melhores do mundo nesta especialidade. Foi oitavo, mas o terceiro posto ficou ali tão perto! O ciclista da Movistar teve depois a missão de ajudar Rui Costa na prova em linha e fez o seu trabalho, tal como José Gonçalves e Rui Oliveira. Em condições meteorológicas miseráveis, que levaram a UCI a cortar duas subidas na fase inicial da corrida, não foi fácil conseguir depois chegar ao fim.

Os três acabariam por abandonar, com Ruben Guerreiro a resistir um pouco mais, ele que poderia funcionar como joker. Porém, também não terminaria, deixando a corrida já depois de garantir que Rui Costa ficava no grupo certo. A partir daí o campeão do mundo de 2013 ficou sozinho. Não foi com Mathieu van der Poel, na movimentação que levou os últimos ciclistas à frente da corrida, pelo que o português ficou a enfrentar a difícil missão de resistir à chuva e frio, sem que ninguém trabalhasse para fechar a diferença. O 10º lugar foi um objectivo cumprido, com Rui Costa a mostrar como tem tendência a aparecer bem nos Mundiais.

"Foi preciso estar muito forte psicologicamente para encarar um Mundial como este, porque foi um dia de muita chuva e frio. Durante uma prova tão longa como esta [261,8 quilómetros], muitas coisas nos passam pela cabeça. As sensações eram boas no início, mas a meio não estava tão bem. Foi preciso ultrapassar esses momentos difíceis, esse sofrimento, para chegar melhor aos últimos quilómetros. A corrida fez-se muito dura com o frio e com a chuva", explicou Rui Costa, citado pela Federação Portuguesa de Ciclismo. O ciclista considera que o percurso original teria feito uma maior selecção de ciclistas mais cedo, contudo ficou satisfeito com mais um top dez, terminando a 1:10 minutos de Mads Pedersen.

O seleccionador José Poeira não pôde contar com Domingos Gonçalves, que não viajou para Inglaterra, alegando motivos pessoais. Um ciclista a menos numa corrida tão difícil, é algo a lamentar, mas Rui Costa finalizou da melhor forma. "Apesar dos colegas terem ajudado o Rui Costa em determinada fase da corrida, ele ficou sozinho durante muito tempo. Nessa circunstância, não podia ter feito mais do que fez. Esteve muito bem", salientou José Poeira.

Os Mundiais não serão de grandes recordações não só para algumas equipas, mas também para a própria organização. A intempérie que marcou quase toda a semana de provas, colocou à prova o poder de decisão dos comissários e nem sempre as opções foram consensuais. O contra-relógio de sub-23 ficou marcado por quedas aparatosas devido às condições da estrada, que teve partes que mais pareciam piscinas. No entanto, a prova não foi adiada, como aconteceu depois com a das senhoras. A UCI decidiu encurtar as corridas dos sub-23 e da elite, por diferentes razões. Esta opção agradou a uns e não a outros, dependendo das características dos ciclistas e do que preferiam ver num percurso.

Depois houve a desqualificação de Nils Eekhoff, que numa fase inicial caiu e recuperou posição no pelotão pedalando atrás do carro da equipa. Os comissários só analisaram a situação no final, com recurso ao vídeo-árbitro, depois do holandês ter ganho a corrida de sub-23. Além de se questionar a dualidade de critérios, comparativamente com o que aconteceu na Volta a Espanha com Primoz Roglic e Miguel Ángel López, também se perguntou porque não foi tomada uma decisão mais cedo, evitando a enorme desilusão que o jovem ciclista foi obrigado a enfrentar ao não ser declarado o vencedor.

A nível de público, Yorkshire foi o esperado, mesmo com o mau tempo, principalmente no fim-de-semana. Afinal, é um público mais do que habituado a esta meteorologia. Porém, a chuva, vento e frio, que limitaram as transmissões televisivas e criaram constrangimentos aos ciclistas, acabando por tirar algum brilho aos Mundiais, mas houve espectáculo, surpresas, drama, um filme completo de bom ciclismo, para contrabalançar um pouco do que de mau se viu.

Para o ano, os Mundiais irão disputar-se no Cantão de Vaud e no de Valais, na Suíça.


27 de setembro de 2019

Eekhoff inconformado com desqualificação. Título mundial foi para Itália

(Imagem: print screen)
Nils Eekhoff nem queria acreditar no que lhe estava a acontecer. Samuele Battistella demorou um pouco a perceber o que lhe estava a acontecer. O primeiro ganhou um difícil sprint para ser campeão do mundo de sub-23. Mas foi o segundo que acabou a vestir a camisola do arco-íris. Uma desqualificação que está a custar e muito a Eekhoff aceitar, deu o título ao italiano, numa decisão pouco ou nada pacífica dado o passado recente. Numa fase ainda inicial da corrida, Eekhoff caiu e para recuperar o seu lugar no grupo principal, ficou algum tempo atrás do carro da equipa. Com recurso ao video-árbitro, os comissários da UCI não perdoaram.

De repente a Volta a Espanha regressa à mente. O dia em que Primoz Roglic e Miguel Ángel López ficaram para trás após queda e os comissários autorizaram que ficassem atrás dos carros, enquanto na frente a Movistar atacava. Também fica por perceber porque a decisão não foi tomada durante a corrida, evitando toda esta situação. Eekhoff viu os regulamentos serem respeitados à risca e o holandês não se conforma. "Nem sei bem o que sentir neste momento... estou furioso", desabafou. E explicou o que aconteceu: "Caí e desloquei o ombro, meti no sítio, mas também tive um problema mecânico, por isso demorei mais. Voltei e o carro levou-me até à caravana e a partir daí fui sozinho até ao pelotão."

A queda acontece a cerca de 125 quilómetros da meta. "Na minha opinião, eu lutei. Deveria ser possível após uma queda poder ser levado até à caravana. Não sabia que estava a correr um risco", disse. Até à desqualificação passou cerca de uma hora, mas, entretanto, Eekhoff já tinha sido chamado pelo júri da corrida. Ao ser confirmado que não seria o campeão mundial, o holandês admitiu que só queria ir para casa. No hotel foi confortado pelos pais, mas não será fácil para o jovem ciclista lidar com a desilusão, apesar da SEG Cycling, que o representa, estar a analisar se poderá recorrer da decisão da UCI.

Já Samuele Battistella nem percebia o que se estava a passar quando lhe disseram que era ele o campeão mundial de sub-23, em Yorkshire. Só com a camisola do arco-íris vestida e com a medalha de ouro ao peito, finalmente acreditou e percebeu que era mesmo o seu grande momento. "Sinto-me o vencedor. Ele foi desqualificado e há uma razão porque ele não é o vencedor. Lamento por ele, mas eu sou o vencedor. Isto é o ciclismo", afirmou o italiano. O suíço Stefan Bissegger ficou com a medalha de prata, enquanto o fenómeno britânico Thomas Pidcock ganhou assim o bronze.


A corrida foi feita a grande ritmo, com os 171,6 quilómetros a serem feito a uma média horária de 44,025. Chuva, frio, vento, foi um daqueles dias que era certo que vai proporcionar uma prova acidentada e muito complicada, se não mesmo impossível, de controlar. E assim foi. O quarteto português que o diga. Nenhum conseguiu ficar no pequeno grupo que viria a discutir a vitória. Na subida de Greenhow foi feita a selecção, na qual já não estava Emanuel Duarte. Miguel Salgueiro acabou por ceder, enquanto André Carvalho e João Almeida, que não estava muito bem colocados, acabaram por ficar no corte. O primeiro ainda se viu envolvido num incidente que não ajudou nada.

Ainda assim, Carvalho foi o melhor português, na 30ª posição, a 3:02 minutos do vencedor. "Eu sabia que devia colocar-me melhor na fase decisiva e tentei fazê-lo, mas tive um toque com um corredor dos Estados Unidos. Não caí, mas perdi alguns metros para a frente e fiquei com o guiador virado para baixo, tendo de fazer mais de 50 quilómetros numa posição incómoda", explicou, citado pela Federação Portuguesa de Ciclismo. Miguel Salgueiro foi 57º e João Almeida 76º, a 12:42 minutos. Emanuel Duarte abandonou.

Da parte da manhã, competiu Daniela Campos, que se estreou na prova de juniores com um 83º lugar, a 13:21 minutos da campeã que confirmou as expectativas, a americana Megan Jastrab. "A corrida foi caótica. A dada altura, para tentar evitar uma queda, fiz um movimento da perna que me deixou com o pé preso entre o quadro e a roda de trás. A bicicleta começou a travar e as corredoras que vinham atrás chocaram comigo e caí pela segunda vez", contou a ciclista. Nesta queda, Daniela Campos teve de trocar de bicicleta e perdeu muito tempo, mas não quis abandonar, mostrando mais uma vez o seu forte carácter.

Este sábado corre Maria Martins, que pela primeira vez estará entre a elite mundial, visto não haver escalão de sub-23 nas corridas femininas. Será o dorsal 143, com a prova a começar às 11:40 (Eurosport 1), sendo 149,4 quilómetros muito exigentes.

Classificações da corrida de sub-23, via First Cycling.




»»Domingos Gonçalves de fora dos Mundiais««

»»Juniores campeões mundiais em Yorkshire já estão a caminho de uma equipa World Tour««

24 de setembro de 2019

Como se deixa as rivais longe, muito longe? Compete-se sem ciclocomputador

(Imagem: print screen)
Annemiek van Vleuten é bicampeã do mundo de contra-relógio (2016 e 2017). Anna van der Breggen é a campeã mundial de estrada em título e nos últimos dois anos só foi batida no contra-relógio pela compatriota. Ambas são duas das principais referências do ciclismo feminino, com currículos de respeito. Porém, em Yorkshire só não se pode dizer que foram banalizadas, pois perante a superioridade da nova campeã, ficar a menos de dois minutos quando mais ninguém o conseguiu fazer, quase se pode dizer que foi um mal menor. Quase, porque o que Chloe Dygert fez foi de pura classe, pura potência e pura crença nas suas capacidades. A americana destruiu a concorrência e o segredo pode muito bem ter sido ter competido sem utilizar o seu ciclocomputador.

Dygert não quis pensar na informação desta pequena tecnologia, que muitos ciclistas não conseguem viver sem. Para a americana, o melhor foi competido segundo as suas sensações. "Acho que a minha maior vantagem foi ter corrido sem o potenciómetro. No início deste ano fiz uma corrida numa altura em que estava a recuperar as minhas forças. Lembro-me de olhar para o potenciómetro e pensar que estava a ir muito forte e que precisava de reduzir a intensidade. Por isso, não tive hoje o ciclocomputador, para não olhar para aqueles números e dizer a mim própria 'hey, tem calma', foi mais em ir a todo o gás desde o início", explicou a ciclista de 22 anos.

Admitiu que talvez tivesse pedalado forte de mais no início, mas conseguiu aguentar o alucinante ritmo, concluindo os 30,3 quilómetros com uma média de 43,10 quilómetros/hora, o que se traduziu em 42:11 minutos. Van der Breggen somou novo segundo lugar, ficando a uns inesperados 1:32 minutos de diferença e Van Vleuten a 1:52. A meteorologia foi muito complicada nesta terça-feira e o contra-relógio feminino chegou a ser adiado devido à chuva. Porém, as três primeiras classificadas enfrentaram condições idênticas, pelo que a diferença foi mesmo na exibição de Dygert que deixou todas as rivais longe. Muito longe. A quarta classificada, a também americana, Amber Neben (44 anos e continua entre as melhores) ficou a 2:28. A alemã Lisa Klein a 2:40 e a suíça Marlen Reusser a 3:02.

Dygert é ainda sub-23, escalão que não existe na vertente feminina nos Mundiais. Nem sequer aposta muito na estrada e esteve vários meses afastada depois de uma queda na Volta à Califórnia no ano passado. Depois da exibição no contra-relógio, impôs-se a pergunta se não pretende vir correr para a Europa. "Teremos de ver o que eu vou querer fazer depois de Tóquio", respondeu, admitindo que adoraria competir na Europa, mas para já quer continuar concentrada na pista, a pensar nos Jogos Olímpicos e na estrada será no contra-relógio que mais se concentrará.

Em 2015 foi campeã do mundo de juniores em contra-relógio e na prova em linha e já é uma das fortes candidatas a fazer a dobradinha em Yorkshire, agora como elite. Depois da performance desta terça-feira, vai ter muitas rivais atentas e principalmente uma Holanda desejosa de mostrar a sua teórica superioridade.

(O texto continua por baixo das classificações, via FirstCycling.)



Mikkel Bjerg para a história

A exibição de Dygert surgiu depois de mais uma performance para a história dos Mundiais. Os sub-23 masculinos tiveram de competir em condições dantescas, com a intensa chuva a formar "piscinas" que provocaram muitos problemas aos corredores e momentos insólitos como este em baixo.


Alheio a tudo pareceu estar o dinamarquês que promete ser o próximo grande contra-relogista. Para já tornou-se no primeiro a alcançar três títulos mundiais consecutivos em sub-23, sendo que nunca sequer alguém tinha conquistado dois. O dinamarquês da Hagens Berman Axeon - que está a caminho da UAE Team Emirates - completou os 30,3 quilómetros em 40:20 minutos, deixando a dupla americana Ian Garrison e Brandon McNulty a 27 e 28 segundos, respectivamente. McNulty vai ser companheiro de Bjerg na equipa do World Tour.

(Fotografia; © Federação Portuguesa de Ciclismo)
Quanto à presença portuguesa, João Almeida caiu na fase inicial do contra-relógio e apesar de fazer uma primeira parte muito forte, ficando entre os melhores, acabou por quebrar e ficou na 28ª posição, a 2:50 minutos. "Tinha acabado de avisar o João para ter cuidado com a acumulação de água na estrada, de modo a que escolhesse os locais menos alagados. Mas, logo a seguir a uma curva à direita, foi confrontado com uma altura de água de vários centímetros e era impossível evitar a queda", explicou o seleccionador José Poeira, citado pela Federação Portuguesa de Ciclismo.

João Almeida referiu: "O ciclocomputador deixou de funcionar. Fiquei sem qualquer dado, velocidade, pulso, potência, distância… Acabei por ter de fazer grande parte da prova condicionado, mas as sensações eram boas." O ciclista não deverá ter lesões graves, o que será uma boa notícia, visto que aposta forte na prova em linha. André Carvalho sentiu dificuldades perante o mau tempo, terminando na 42ª posição, a 3:41 minutos.

Esta quarta-feira partirá uma das maiores esperanças de medalha para Portugal. Nelson Oliveira enfrentará 54 quilómetros muitos duros entre Northallerton e Harrogate, partindo às 14:36.30 horas. O primeiro ciclista a sair será Ramunas Navardauskas às 13:18.30, com o campeão em título, Rohan Dennis, a arrancar às 14:42.30. 90 segundos antes sairá Victor Campenaerts e depois do vencedor da Vuelta Primoz Roglic, outro dos principais favoritos. A prova será transmitida no Eurosport 1.

Classificações do contra-relógio de sub-23, via FirstCycling.


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20 de agosto de 2019

Hagens Berman Axeon prepara-se para regressar ao escalão Continental

André Carvalho foi o mais recente português a entrar na equipa
que tantos ciclistas coloca no World Tour
(Fotografia: © Davey Wilson/Hagens Berman Axeon)
Jasper Stuyven, George Bennett, Joe Dombrowski, Alex Dowsett, Taylor Phinney, Ben King e Ian Boswell. Mais recentemente, Tao Geoghegan Hart, Eddie Dunbar, Jasper Philipsen, Will Barta e os portugueses Ruben Guerreiro, Ivo e Rui Oliveira. A esta lista vão juntar-se em 2020 Mikkel Bjerg e João Almeida. Estes são alguns dos ciclistas que passaram por uma equipa exímia na formação de jovens e que agora estão em grandes estruturas mundiais. A lista é maior. Alguns saltaram directamente para o World Tour, outros passaram pelo segundo escalão, mas acabaram por chegar ao topo. A Hagens Berman Axeon de Axel Merckx há muito que se tornou uma referência em levar jovens corredores até o mais alto nível. Prepara-se para dar o que poderá parecer um passo atrás ao descer novamente ao nível Continental, depois de dois anos como Profissional Continental. Mas foi nesse escalão que a equipa se notabilizou e vai ser nesse escalão que o trabalho de qualidade vai continuar. A garantia é do seu director, pois Merckx garante que pouco mudará.

Esse pouco será principalmente nas corridas. Entrar numa Volta à Califórnia, por exemplo, poderá ser mais complicado. Sendo uma prova World Tour, as equipas Continentais dificilmente recebem um convite. "O programa [de formação] que oferecemos é muito especial. Não se pode comparar com um programa europeu. Não se pode comparar com um programa americano. É realmente o melhor dos dois mundos, por isso, vamos continuar", salientou Axel Merckx ao Cycling News

A razão que justifica esta provável descida de escalão é financeira. O belga explicou que as mudanças da UCI vão obrigar as equipas Profissionais Continentais a ter 20 ciclistas. Actualmente a Hagens Berman Axeo tem 16. "Se assim for, serão mais 200 mil dólares [cerca de 180 mil euros] e ainda nem se começou a competir", referiu Merckx.

Há dois anos, a firma de advogados Hagens Berman passou a ser o patrocinador principal e o aumento de investimento ajudou a equipa a subir de escalão, algo importante para precisamente garantir a presença na Volta à Califórnia, a principal corrida nos Estados Unidos e ter as portas ainda mais abertas para outras provas. Axel Merckx agradece o apoio de Steve Berman e não esconde que até ambiciona que o programa de formação possa expandir ao ciclismo feminino, ainda que não seja para já: "Será preciso dinheiro, mas penso que é uma parte do desporto que está a desenvolver e seria bom ter algo similar [ao programa masculino]."

Na estrada desde 2009, a Hagens Berman Axeon - começou como Trek-Livestrong - quer continuar a marcar a diferença. Merckx referiu parte do "segredo" do sucesso: "Isto é mais do que apenas uma equipa. É mais do que uma marca. É uma família de rapazes que gostam de pedalar juntos, de se sacrificarem uns pelos outros e que dá grandes oportunidades a gente jovem." Outro pormenor essencial para que os ciclistas consigam desenvolver as suas capacidades é a forma como é gerida a pressão. Merckx disse que os juniores que sobem a sub-23 e que entram no programa sabem que não precisam de mostrar resultados logo no primeiro ano. No entanto, há exemplos de sucesso, o que para o responsável também motiva esses jovens que querem entrar na Hagens Berman Axeon a acreditar que é possível realizar exibições de grande nível em pouco tempo.

Seja como Continental ou como Profissional Continental, a garantia desta equipa é que quer continuar a colocar ciclistas no World Tour. Por lá, está mais um português à procura de seguir o exemplo de Ruben Guerreiro ("saltou" para a Trek-Segafredo e está na Katusha-Alpecin), dos gémeos Oliveira (UAE Team Emirates) e de João Almeida - foi recentemente quarto na Volta ao Utah e vencedor da juventude -, que em 2020 vai representar uma das melhores equipas do mundo: a Deceuninck-QuickStep. André Carvalho, de 21 anos, procura ser um dos próximos a entrar na impressionante lista de ciclistas que fizeram a sua formação com Merckx e estão hoje em grandes equipas.

»»Parecia ser inevitável e foi mesmo: João Almeida entra no World Tour por uma porta enorme««

»»Rui Costa com final de época definido. E 2020?««

20 de novembro de 2018

A lutar por vitórias e pelo futuro

A vitória de Venceslau Fernandes na Volta a Portugal do Futuro
foi um dos pontos altos da época (Fotografia: Podium/Paulo Maria)
No que diz respeito a formar ciclistas e de se destacar em sub-23, a Liberty Seguros-Carglass tem um historial de luxo. Subir à categoria Continental, como sub-25, foi uma oportunidade de ouro de dar outra experiência aos seus jovens ciclistas, mas Manuel Correia manteve-se fiel à génese da equipa, apostando por completo na juventude e não só venceu a corrida mais importante para o escalão de sub-23, como esteve perto de fazer um brilharete na Volta a Portugal. Mas não se seja redutor. Houve mais destaques.

Porém, naquele que se queria ser um ano em que se dava um passo em frente na evolução da estrutura, acabou por ficar marcado pela sombra da saída do seu principal patrocinador e o futuro está muito incerto, com a procura por um patrocinador a continuar nesta altura do ano. Tal não afectou o rendimento dos ciclistas, ainda que os responsáveis tivessem de lidar com o facto de 2019 ser uma incógnita. Primeiro 2018.

Tal como o Miranda-Mortágua, a Liberty Seguros-Carglass apostou em ciclistas que já eram da casa para o projecto agora Continental, promovendo ainda o regresso de André Carvalho, depois de uma aventura pouco feliz na Team Cipollini. Não contratou ciclistas com mais de 25 anos (podia ter dois). O director desportivo, Manuel Correia, completou o plantel com alguns dos melhores juniores e assim enfrentou o novo desafio de ver os seus jovens competir nas principais competições nacionais.

Carvalho foi desde cedo um ciclista em destaque, com o segundo lugar entre a classificação da juventude na Volta ao Algarve. Este corredor foi muito regular durante toda a temporada, tanto pela equipa, como pela selecção, não restando dúvidas sobre a sua qualidade. Não surpreende, portanto, que esteja a caminho da Hagens Berman Axeon, seguindo as pisadas dos gémeos Oliveira e de Ruben Guerreiro, que em 2019 serão todos ciclistas do World Tour.

César Martingil foi um dos líderes, ele que é aquele ciclista incansável, que nunca baixa os braços e que teve o seu momento, que quase foi um grande momento. Mas antes foi Rafael Lourenço que fez história. É dele a primeira vitória da equipa numa das mais importantes corridas nacionais agora que é Continental: conquistou a segunda etapa do Grande Prémio Jornal de Notícias, no arranque para uma fase de temporada que correu de feição à Liberty Seguros-Carglass.


Ranking: 7º (384 pontos)
Vitórias: 4 (incluindo uma etapa no GP Jornal de Notícias e a geral da Volta a Portugal do Futuro)
Ciclista com mais triunfos: Venceslau Fernandes (2)

Pelo destaque mediático que a Volta a Portugal tem, é inevitável olhar para o que fez César Martingil como algo que não será esquecido. Esteve longos minutos sentado na cadeira de líder no prólogo e só o especialista Rafael Reis (Caja Rural) lhe tirou um triunfo, que por dois segundos não foi para Martingil e para uma Liberty Seguros-Carglass sem garantias do principal patrocinador para 2019. Uns terão como total surpresa o que fez Martingil, mas este é um ciclista com escola de pista e que pode defender-se bem em certos contra-relógios, como o de Setúbal. Ou seja, curto e a pedir "explosão". No dia seguinte foi terceiro no sprint, em Albufeira e quando estava de branco, líder da juventude, uma queda estragou-lhe a corrida. Acabaria por abandonar.

No entanto, o feito para uma equipa como a Liberty Seguros-Carglass estava garantido, mesmo que não tivesse sido uma vitória, contribuindo também para o aumento de reputação de Martingil. Assinou pelo Sporting-Tavira para 2019, tendo vencido o Circuito do Bombarral para fechar a temporada com um triunfo que faz sempre bem ao moral.

A época tinha já um balanço positivo, com os jovens ciclistas a corresponderem bem às dificuldades de estar num nível superior, ainda que para a Volta tenha sido necessário contratar dois corredores espanhóis, Samuel Blanco e Carlos Marquez. As lesões limitaram as escolhas e os sub-23 de primeiro ano não foram sujeitos a uma corrida com uma exigência altíssima.

Mas faltava um dos principais objectivos da temporada. Há que não esquecer que, apesar do acesso às principais corridas, nunca foi colocado para segundo plano a ambição de continuar a vencer as provas do escalão sub-23. Chegou então a Volta a Portugal do Futuro. Venceslau Fernandes, aquele nome que nunca passa despercebido - e que se estreou na Grandíssima que o seu pai ganhou em 1984 -, começou a construir o seu currículo. Venceu uma etapa e a geral, sucedendo a um companheiro que este ano rumou à W52-FC Porto, José Neves. Fim de época perfeito para o ciclista que vive com o peso do nome do pai, não esquecendo que tem como irmã Vanessa Fernandes, sempre perto no apoio a Venceslau.

Mesmo com todo um passado de formação de enorme relevância no ciclismo nacional, mesmo depois de uma época de estreia na nova categoria positiva, as más notícias chegaram mesmo. A Liberty Seguros vai deixar de patrocinar a equipa. A confirmação já chegou num timing difícil, mas um mal nunca vem só. Também a Carglass apanhou desprevenidos os responsáveis da estrutura, saindo também de cena.

A União Desportiva Oliveirense vai unir-se à Bike Clube de Portugal, detentora da equipa, mas a procura por um patrocinador principal continua. Estas saídas tardias das duas marcas, que davam nome à estrutura, não facilitou em nada a preparação da época de 2019. Mas a equipa estará na estrada - mesmo perante as dificuldades que enfrenta - e novamente como Continental sub-25. Perderá além de Martingil e André Carvalho, Gaspar Gonçalves (Miranda-Mortágua) e André Crispim (LA Alumínios), por exemplo, outros dois corredores com peso na equipa.

Estão confirmadas as permanências de Venceslau Fernandes - que irá assumir um papel de ainda maior destaque -, Rafael Lourenço, João Carneiro, Fábio Costa, Pedro José Lopes, Pedro Miguel Lopes e espera-se que Filipe Rocha possa estar totalmente recuperado dos problemas físicas para regressar em força à competição.

Como reforços, a equipa terá José Sousa (Miranda-Mortágua) e o júnior Hélder Gonçalves (ACR Roriz) vai fazer a sua estreia como sub-23 numa das melhores estruturas nacionais para jovens ciclistas, que vive tempos difíceis e de incerteza, mas não desiste de manter vivo um projecto de sucesso no ciclismo nacional.

Veja aqui todos os resultados da Liberty Seguros-Carglass em 2018 e das restantes equipas nacionais.


12 de novembro de 2018

André Carvalho assina pela Hagens Berman Axeon

A equipa de Axel Merckx continua muito atenta ao ciclismo nacional e veio a Portugal buscar mais um corredor de grande talento da nova geração. André Carvalho assinou por duas temporadas pela equipa americana, que lançou Ruben Guerreiro no World Tour, para onde também vão os gémeos Oliveira em 2019. João Almeida continuará assim a ter um compatriota ao seu lado, numa estrutura que é considera uma das melhores na formação de jovens ciclistas. Esta temporada subiu ao escalão Profissional Continental, o que permite dar ainda mais qualidade de competição a atletas de muito potencial.

André Carvalho, de 21 anos, evoluiu na Liberty Seguros-Carglass como sub-23, com uma passagem pouco feliz pela Team Cipollini, em 2017. No seu regresso à equipa portuguesa de Manuel Correia, o ciclista de Vila Nova de Famalicão confirmou toda a sua aptidão de trepador, demonstrando estar a um nível muito elevado, num ano em que a formação obteve licença Continental (como sub-25), o que abriu as portas à Volta ao Algarve e Volta a Portugal, por exemplo. Foi segundo na classificação da juventude na Algarvia, atrás de Sam Oomen (Sunweb), e quarto na Grandíssima. Conquistou esta classificação no Troféu Liberty Seguros e na Volta a Albergaria.

Nos Nacionais, em Belmonte, fechou na terceira posição, atrás de Rui Oliveira e João Almeida, dois ciclistas da equipa que vai agora representar.

Mas foi muito mais do que estes resultados que o levaram até à Hagens Berman Axeon. André Carvalho é uma presença assídua na selecção nacional de sub-23, sempre com exibições, por norma, muito regulares. Agora estará numa das melhores estruturas mundiais para continuar a sua evolução. E Carvalho já se apresentou: "Penso que sou um ciclista que pode lidar com todo o tipo de percurso. Mas sou mais forte em subidas curtas e muito inclinadas e tenho perfil para corridas como as clássicas."

Em declarações à nova equipa, Carvalho realçou que quer melhorar nas subidas mais longas e no contra-relógio, não escondendo como é importante para si esta transferência: "É um grande passo na minha carreira e uma grande oportunidade para competir nas maiores corridas de sub-23. Estou ansioso por lá estar e ajudar a equipa."

Ruben Guerreiro esteve na estrutura em 2015 e 2016, antes de dar o salto para a Trek-Segafredo. No próximo ano irá representar a Katusha-Alpecin. Em 2017 e 2018 foi a vez dos gémeos Oliveira assinarem pela equipa liderada por Axel Merckx. O principal objectivo foi colocar na estrada toda o potencial que estavam a demonstrar na pista na pista. Ivo e Rui assinaram por dois anos pela UAE Team Emirates, onde vão encontrar Rui Costa. Estes três corredores estavam todos na equipa da Liberty Seguros quando deram o salto para a formação americana.

João Almeida chegou à Hagens Berman Axeon esta temporada, oriundo da Unieuro Trevigiani-Hemus 1896, depois de representar o Clube de Ciclismo da Bairrada, como júnior. E que grande época foi a de Almeida, com o inevitável destaque para o triunfo na Liège-Bastogne-Liège de sub-23. Mas foram muitos mais os excelentes resultados.

Ver ciclistas sair para o World Tour são ossos do ofício da Hagens Berman Axeon que tantos tem colocado no escalão mais alto do ciclismo. Contudo, está sempre à procura de novos talentos e André Carvalho é o quinto reforço para 2019. Foram contratados os americanos Kevin Vermaerke  (18 anos) e Sean Quinn (18), o checo Karel Vacek (18) - um corredor muito interessante e a seguir com atenção - e o dinamarquês Jakob Egholm (20), que foi campeão do mundo de juniores em 2016.