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20 de março de 2021

Jasper Stuyven, a surpresa numa Milano-Sanremo táctica e a alta velocidade

© Trek-Segafredo/Getty Images
O perfil da Milano-Sanremo faz cair na tentação de se pensar que, dos cinco monumentos, é o que tem potencial para ser mais aborrecido, até à fase final. 300 quilómetros (este ano 299), muito planos e com subidas que em nada se comparam a uma Flandres ou Lombardia e sem pavés. Não é por acaso que esta corrida é conhecida pelo monumento dos sprinters, ainda que o Poggio e a Cipressa tantas vezes destroem essa ideia. No entanto, essa sensação de possível corrida em que pouco ou nada acontece até aos quilómetros finais não podia ser mais errada, na maioria das edições. Van der Poel não atacou a 50 quilómetros da meta, Van Aert não deu nenhum do seus espectáculos, mas toda a preparação de várias equipas até o Poggio foi de grande beleza táctica. A Milano-Sanremo deste sábado foi um exemplo do melhor que o ciclismo tem, sem ser preciso empedrados ou subidas míticas.

Se inevitavelmente as individualidades ganham destaque, é no colectivo que está o "segredo" de como se prepara o caminho para uma vitória. Depois dos ataques monstruosos de Mathieu Van der Poel em corridas recentes, era o que mais se esperava na Milano-Sanremo. Seria mesmo? Vendo bem as coisas, seria mais do que expectável que tal não acontecesse. A qualidade deste pelotão e o estar em causa a conquista de um monumento fez com que nenhuma equipa estivesse disponível para dar oportunidade ao holandês de tentar o que já se tornou uma imagem de marca do ciclista da Alpecin-Fenix.

O ritmo da corrida foi aumentando e tornou-se óbvio que o objectivo de equipas como a Deceuninck-QuickStep era de garantir que não houvesse surpresas, pelo menos até ao Poggio, onde a maioria das edições se têm decidido nos últimos anos. Da equipa belga era de esperar, afinal contava com Julian Alaphilippe, vencedor em 2019. Sam Bennett tentou aguentar o quanto pôde, mas não ia ser um ano para sprinters, a não ser que se fosse Caleb Ewan. Mas já lá vamos.

Já Ineos... De repente parecia que se estava no Tour, nos bons velhos tempos da equipa britânica. Primeiro com Filippo Ganna e depois com o "capitão" Luke Rowe, o ritmo na Cipressa foi infernal. Esta é a nova Ineos. Uma formação que olha mais além do Tour, ou das três grandes voltas. Uma transformação que está a ser feita sob o efeito Thomas Pidcock.

Ainda tão jovem, 21 anos, acabadinho de chegar ao World Tour, mas a mostrar uma enorme irreverência em procurar desde cedo impor-se e ganhar. Não resultou na Milano-Sanremo e a Ineos viu o inglês ficar de fora do top 10 (o que nem surpreende, visto não ser um percurso que lhe assente bem - ainda assim foi à luta), sem esquecer que também contava com Michal Kwiatkowski, antigo vencedor da prova, mas num momento de forma bem diferente de Pidcock. Não resultou, mas esta Ineos começa a gerar um interesse bem maior nas clássicas.

Por esta altura, Van der Poel - sempre o holandês a chamar a atenção - lá tinha mesmo de fazer um arranque, mas apenas para melhorar um mau posicionamento. Wout van Aert (Jumbo-Visma) é um ciclista bem mais rigoroso nesse aspecto. Porém, o jogo táctico e de colocação continuava a ir muito além de um já pouco ou nada provável ataque de Van der Poel. A Bora-Hansgrohe jogava com Max Schachmann, enquanto Peter Sagan ainda apanhou um ligeiro susto no Poggio, mas não descolou por completo. Aparecia Greg van Avermaet (AG2R-Citröen) e Michael Matthews (BikeExchange). "Velha" guarda vs nova geração! Só podia dar espectáculo.

Pelo meio, o pequeno Caleb Ewan (Lotto Soudal) mostrava porque é entre os chamados sprinters puros aquele que menos se assusta com subidas perto da meta. Já se o viu ganhar em rampas que um sprinter prefere meter uma velocidade mais lenta, mas no Poggio revelou como tinha não só a lição bem estudada, como não o intimidava qualquer aceleração de um Van Aert, por exemplo. Aliás, a postura do australiano pode muito bem ter custado um segundo triunfo consecutivo ao belga da Jumbo-Visma. Com Ewan na roda, Van Aert não perseguiu Stuyven como era necessário para que o sprint não fosse pelo segundo lugar... que Ewan garantiu.

E, entre os nomes referidos à exaustão como candidatos, de primeira ou segunda linha, surgiu um Jasper Stuyven que parecia estar a cair na hierarquia da Trek-Segafredo nas clássicas, muito devido a um Mads Pedersen a melhorar cada vez mais após a conquista do título mundial. Talvez por isso mesmo e também por ser mais conhecido como ciclista forte no pavé, o belga da Trek-Segafredo foi subestimado. Atacou na descida no Poggio. A reacção da concorrência demorou. Até foi Pidcock o primeiro a tentar juntar-se a Stuyven, sem sucesso. Van Aert foi quem mais assumiu a perseguição, com ataques de outros ciclistas. Um deles Soren Kragh Andersen (DSM), que chegou a Stuyven e, inadvertidamente, foi uma ajuda preciosa. O dinamarquês não teve pernas para fazer mais que nono, mas o tempo em que esteve na frente, permitiu a Sutyven ganhar fôlego para sprintar e não se deixar apanhar por todos aqueles que lideravam as apostas.

O próprio admitiu que, se queria tentar ganhar, tinha de fazer algo, arriscar e dar tudo, tudo, tudo. O risco compensou. Para se ser um grande ciclista há que ganhar aos melhores e esta classificação da Milano-Sanremo é de luxo.

Stuyven conta com triunfos na Kuurne-Bruxelles-Kuurne, na Omloop Het Nieuwsblad, venceu uma etapa na Vuelta, entre outros sucessos. Contudo, quando surgiu no World Tour foi apontado como um potencial grande homem de clássicas, mas simplesmente não conseguiu concretizar as altas expectativas. Nunca deixou de ser regular, terminando em posições de topo, mas faltava aquela grande vitória. Pensar-se-ia que viria numa Volta a Flandres ou num Paris-Roubaix, mas Stuyven aproveitou não estar no radar de ninguém na Milano-Sanremo para concretizar mais uma surpresa, numa vitória que lhe fica muito bem, pela carreira que tem feito, mesmo que não seja o mais ganhador dos ciclistas.

Não só não se pode cair na tentação de pensar que a Milano-Sanremo pode ser o mais aborrecido dos monumentos, como se pode esperar que é o que maior surpresa pode trazer. Vincenzo Nibali, um trepador por excelência, vencedor das três grandes voltas, foi lá ganhar em 2018. Um quase desconhecido Gerald Ciolek venceu em 2012, num ano memorável de uma clássica da Primavera realizada num dia do mais rigoroso Inverno, apenas para referir dois exemplos. Junta-se agora Jasper Stuyven, um belga que, apesar de se comportar como um veterano dado os anos de profissionalismo, ainda só tem 28 anos.

E é impossível não referir Philippe Gilbert. Se Peter Sagan há muito que luta por colocar a Milano-Sanremo no seu currículo depois de já ter estado tão próximo - boas indicações do eslovaco depois de começar a época mais tarde devido à covid-19 -, o belga tem este monumento como o último grande objectivo da carreira. Só lhe falta a Milano-Sanremo para completar os cinco, mas aos 38 anos a missão é difícil. É um ciclista que para ganhar precisa de poder atacar e evitar um sprint, mas com o ritmo elevado da corrida deste sábado, rapidamente ficou claro que seria impossível o belga fechar o ciclo dos monumentos. Fica a faltar uma última tentativa em 2022, ano que marcou como o da sua despedida.

Classificação completa, via ProCyclingStats.

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8 de agosto de 2020

Jumbo-Visma em dia de vitórias. Van Aert já tem o seu monumento

Van Aert venceu na Milano-Sanremo, uma semana depois ganhar a Strade Bianche
Dia importante para a Jumbo-Visma. Primeiro viu no primeiro grande teste do seu tridente frente à Ineos - no Tour de l'Ain -, Primoz Roglic e Steven Kruiswijk passar com distinção. Tom Dumoulin ainda tem trabalho pela frente até à Volta a França. Depois foi Wout van Aert. Como aqui se escreveu há uma semana, está a tornar-se num senhor no seu domínio. Depois da Strade Bianche, conquistou o seu primeiro monumento: Milano-Sanremo. Curiosamente está a "copiar" esta parte da época de Julian Alaphilippe, o ciclista que bateu ao sprint e que em 2019 havia precisamente conquistado estas duas corridas.

O que se viu este sábado foram duas exibições, duas vitórias, que por si só seriam importantes. No entanto, é impossível separá-las de uma semana difícil com a situação de Dylan Groenewegen. Além do ciclista estar sob fogo após ter provocado a muito grave queda de Fabio Jakobsen, a própria imagem da equipa fica sempre inevitavelmente afectada. A melhor resposta foi precisamente aquela dada este sábado. É preciso centrar novamente as atenções nas corridas e no poderio que esta equipa já demonstra, numa altura em que a Volta a França não está assim tão longe (começa a 29 de Agosto, em Nice).

Finalmente um monumento para ver

Com todo o respeito por Roglic, o dia pertence a Wout van Aert. Foi preciso esperar por Agosto para se ter um monumento na estrada. E para a semana há já outro: a Lombardia. A clássica da Primavera, normalmente em Março, foi disputada em pleno Verão e com direito a tudo o que esta época do ano traz: muito calor! É impossível não recordar como em 2013 foi um Milano-Sanremo disputada debaixo de chuva, vento e muito frio!

Em 2020 as circunstâncias são excepcionais, mas valeu a pena esperar. Foi uma corrida um pouco diferente do habitual. Já costuma ser longa, mas desta feita ultrapassou os 300 quilómetros. 305, mais concretamente. Sem surpresa, toda esta quilometragem serviu para desgastar os ciclistas até que se chegasse à tradicional Cipressa e depois ao Poggio, as duas subidas míticas  da Milano-Sanremo.

Estas mantiveram-se, mas até lá o percurso foi diferente, pois algumas das habituais localidades não quiseram este ano receber a prova. Fugiu-se da costa, mais para o interior, o que levou ao tal aumento de quilometragem.

No entanto, foi dentro dos 50 quilómetros finais que o pelotão começou a acelerar, depois de um andamento mais controlado, numa clara gestão de esforço perante tantos quilómetros e tanto calor. Mas sem deixar a fuga afastar-se em demasia. Houve uma corrida digna de ser chamada de monumento, houve um final digno de uma corrida assim definida e um vencedor que provavelmente poderá dizer que este foi apenas o primeiro monumento de mais uns quantos.

Nunca é de mais de recordar que há pouco mais de ano Wout van Aert sofreu uma queda gravíssima no Tour, que ameaçou o sua carreira. Mas este belga, de 25 anos, está destinado a muito sucesso. Inteligente a ler as corridas, calmo nos momentos em que parece que as coisas não estão a correr bem (chegou a estar mal colocado no pelotão em zonas difíceis de recuperar posição e mais tarde ainda viu Alaphilippe afastar-se um pouco) e, principalmente, muito confiante nas suas capacidades e forma física. Três pormenores essenciais.

Depois da Cipressa ter mostrado que este não era dia para os sprinters puros, o Poggio foi o momento dos ataques decisivos. Vincenzo Nibali (Trek-Segafredo) tentou repetir a vitória de 2018, mas foi contra-atacado pelo vencedor de 2019. Julian Alaphilippe (Deceuninck-QuickStep) está de regresso à melhor forma. Tentou ser matreiro com Van Aert, como foi há um ano com Peter Sagan.

Quando os dois ficaram isolados e depois da descida ter terminado, "escondeu-se" atrás de Van Aert. Há que elogiar a postura de Van Aert. Não se incomodou. Ficou na frente, sempre de olho no adversário. Dois ciclistas de classe. Dois ciclistas de espectáculo. O belga partiu para o sprint e já se sabe que o faz bem. Alaphilippe também é forte quando o grupo é pequeno. Assim ganhou em 2019. Talvez tenha pago o esforço que fez para recuperar lugar no pelotão quando teve um problema com a bicicleta. Mas 2020 é o ano de Van Aert, que venceu com todo, todo o mérito.

É tempo de viajar para França e competir nas duas corridas que mais brilhou há um ano, antes da assustadora queda. No Critérium du Dauphiné e Volta a França ver-se-á provavelmente duas versões de Van Aert: esta de procurar vitórias - e atenção aos contra-relógios onde é fortíssimo - e a de homem de trabalho para os líderes voltistas que procuram fazer desde 2020 um ano para recordar para a Jumbo-Visma. Van Aert não tem problema em ficar em segundo plano, em nome do colectivo.

Classificação da Milano-Sanremo, via ProCyclingStats.

De referir Philippe Gilbert. Muito se olhava para o ciclista da Lotto Soudal. Seria desta que fecharia os cinco monumentos? Tentou, fechou top dez, mas terá de tentar de novo em 2021. Tem 38 anos, mas só planeia retirar-se no final de 2022. Difícil, sim... Mas ainda tem tempo!

E falando de líderes voltistas...

O Tour de l'Ain termina amanhã pelo que há que esperar para ver o que acontece. Porém, este sábado foi dada uma lição à Ineos, precisamente numa disciplina em que a equipa britânica domina. Ou se calhar, dominava... Sem medo e sem problema para desde já mostrar que está preparada para assumir uma Volta a França como a Ineos tantas vezes vez, esta Jumbo-Visma quebrou a rival.

Grande trabalho de George Bennett, que talvez nunca venha a ser o líder que chegou a mostrar que talvez pudesse ser, mas pode ser um daqueles gregários tão importante como um líder. Só Egan Bernal resistiu na Ineos, mas o colombiano não consegue sprintar como Primoz Roglic em inclinações menores, como foi a da meta em Lélex Monts-Jura. São dez segundos que separam ambos, num Tour de l'Ain que está a ser uma bela montra para o que nos poderá esperar na Volta a França.

Do tridente da Ineos, Geraint Thomas perdeu quase cinco minutos. Chris Froome, mais de 12!

Uma palavra para João Almeida. Mais um top dez e uma merecida liderança da juventude. Tem 1:04 minutos de vantagem sobre Ilan van Wilder, da Sunweb. O português da Deceuninck-QuickStep está a uma etapa da sua primeira grande conquista na época de estreia no World Tour.

Classificações do Tour de l'Ain, via ProCyclingStats.


17 de junho de 2020

Parabéns Canibal!

© Chris Protopapas/Wikimedia Commons
Afinal quem é o melhor? Eis algo que pode gerar algumas discussões seja em que modalidade se esteja a falar. Contudo, parece que quando se questiona quem é o melhor de sempre no ciclismo - ou pelo menos um dos melhores -, muitos responderão com relativa rapidez Eddy Merckx. Às vezes os números de uma carreira não sempre demonstram a qualidade de um ciclista. Mas não é o caso de Merckx! Numa era bem diferente da actual, não foi por acaso que ganhou a alcunha de Canibal. O que havia para ganhar, ganhou. Em diversas corridas, por mais do que uma vez. Merckx está de parabéns! Faz 75 anos. Ou como prefere dizer, três vezes 25!

Teve adversários de nível. Não foi invencível, mas Merckx sempre apresentou uma postura de imbatível e escreveu a sua história como um dos ciclistas que parecia encontrar sempre o caminho da vitória. Na Bélgica, de quando em vez, lá surge um jovem talento que é apelidado de "novo Merckx". Improvável, é certo, mas não deixa de ser um enorme elogio. Se há algo que também ninguém duvida é que Merckx foi único.

Para quem não viu o belga correr, ficam os números. E esses impressionam. Foram quase 300 vitórias numa carreira de cerca de 14 anos, entre a década de 60 e 70. Como destacar tudo?... Vamos aos recordes. 34 etapas na Volta a França (Mark Cavendish bem sonha em lá chegar - tem 30), 64 se se somar as do Giro e Vuelta. Quem ficou mais próximo foi Mario Cipollini com 57 e foi um ciclista totalmente diferente de Merckx, obtendo as suas inúmeras vitórias ao sprint.

Merckx subiu ao primeiro lugar do pódio final nas grandes voltas 11 vezes. O francês Bernard Hinault fê-lo por 10. Venceu o Tour em cinco ocasiões, marca que partilha com Hinault, Jacques Anquetil e Miguel Indurain. No Giro foram mais cinco conquistas, igualando Fausto Coppi e Alfredo Binda.

A Vuelta foi ganha apenas por uma vez. E monumentos? Na Milano-Sanremo foram sete vitórias e sim, é recordista! Liège-Bastogne-Liège ganhou cinco vezes. E é recordista! Três Paris-Roubaix, duas Voltas a Flandres e outras tantas Lombardias (não é recordista). Foi campeão do mundo em três ocasiões, o máximo que alguém conseguiu, partilhando esta marca com Rik van Steenbergen, Óscar Freire, Alfredo Binda e Peter Sagan. Foi também recordista da hora e a lista de feitos continua, continua, continua.

Também teve os seus momentos negros. Testou positivo por doping em três ocasiões. Mas eram de facto outros tempos, com sanções bem diferentes das actuais.

Quando hoje se fala de um todo-o-terreno, ninguém tem as características comparáveis a um Merckx que venceu a subir, em plano, em alcatrão, em pavé... Hoje parece impensável ver alguém que lute por um Tour, estar num Paris-Roubaix com a mesma ambição. Outros tempos, outra forma de preparar os ciclistas, cada vez mais especializados.

Merckx foi de um tempo de ciclismo mais instintivo, sem tecnologias e em que os corredores passavam muito mais tempo em corridas. O próprio refere isso mesmo numa entrevista ao Sporza, quando num ano competiu 195. Afinal os patrocinadores assim o exigiam. Hoje em dia, os mais activos pouco passam os cem dias em competição.

Aos 75 anos, a sua palavra continua a ter peso. Não se inibe de criticar ou de lançar umas provocações, como aconteceu recentemente sobre Remco Evenepoel (o mais recente "novo Merckx"), mas também deixa o seu elogio e Tadej Pogacar pode dizer que tem o respeito deste senhor do ciclismo.

E houve um português que Merckx respeitou e muito: Joaquim Agostinho. Uma vez disse: "Quando pressinto que ele vai fugir, ataco eu, para ficar tranquilo."

14 de março de 2020

Mais tempo em casa e sem ciclismo para ajudar a passar as horas

Até já pelotão, nacional e internacional
Não sei quantas vezes me perguntaram como é que eu consigo ficar horas e horas em casa a ver ciclismo. Para mim é algo natural. Adoro e nem penso duas vezes em ver grandes corridas (e até as mais pequenas), tentando até ajustar horários, sempre que possível, para o fazer. Sim, são horas e horas anualmente a ver ciclismo. Agora que o nosso mundo está virado do avesso devido ao Covid-19, agora que vamos passar muito mais tempo em casa e que bem que será preciso algo para distrair, e em que se terá tantas horas livres para ver ciclismo, não há!

Nestes últimos dias tem sido uma autêntica invasão de notícias sobre este coronavírus. Compreensível. O ciclismo não é excepção. Desde que a Volta aos Emirados Árabes Unidos foi suspensa já perto do fim e as equipas e staff ficaram de quarentena, que o tema começou aos poucos a tomar conta também dos meios de comunicação social que acompanham a modalidade. Sucedem-se os cancelamentos de corridas, que já vão além da China e Itália, ainda que neste último país - onde a situação na Europa é a mais grave - tenha significado a não realização de algumas das principais provas desta altura do ano, como a Strade Bianche, Milano-Sanremo e Tirreno-Adriatico.

Também a Volta a Itália vai sofrer com esta pandemia. Era para começar a 9 de Maio, na Hungria, e terminar a 31 desse mês, mas a corrida foi adiada e antes de 3 de Abril não será conhecida a nova data. Não será fácil encaixar num calendário tão preenchido e ainda mais em ano de Jogos Olímpicos (se se realizarem, claro, pois neste momento não há certezas de nada).

Todas as provas de Março foram canceladas, as de Abril também para lá caminham, sendo que, quando a situação começar a dar sinais de melhorar, irá arrancar a difícil de missão de tentar reagendar, não surpreendendo se algumas corridas só regressarem para o ano. O Paris-Nice ainda avançou, foi encurtado um dia e esperava-se que tivesse sido interrompido mais cedo. Acabou este sábado (parabéns a Max Schachmann, da Bora-Hansgrohe - segundo na Volta ao Algarve -, que merecia ser o destaque e não o coronavírus) com um pelotão reduzido, dada a debandada - mais do que justificada - de muitas equipas. Diga-se que estes cancelamentos (que se deseja que possam ser adiamentos) estende-se a todo o tipo de vertentes nesta modalidade, tal como está a acontecer com os outros desportos.

Por cá, a Clássica da Arrábida, que deveria realizar-se este domingo, também ficará à espera de nova data, enquanto a Volta ao Alentejo - que arrancaria na quarta-feira - foi cancelada. O Grande Prémio Internacional das Beiras e Serra da Estrela, marcado para Abril (de 17 a 19) também não vai disputar-se, segundo o anúncio feito na quinta-feira pela organização. A Clássica Aldeias do Xisto (5 de Abril) corre risco idêntico, ou de pelo menos de um adiamento.

Sim, é frustrante não poder ver todas estas corridas, portuguesas e estrangeiras e ainda mais sabendo que a lista poderá continuar a aumentar. Mas vive-se uma fase de excepção, exigindo-se medidas excepcionais, desejando-se que o mais rapidamente possível se volte a alguma normalidade. E claro que aqui se fala muito além do ciclismo, pois não ver ciclismo (ou futebol, basquetebol, fórmula 1...) é apenas uma pequena parte do que neste últimos dias está a mudar nas rotinas. Se for preciso ficar em casa 14 dias sem ciclismo (ou até mais), para depois poder ver as minhas queridas clássicas e para ficar 21 dias a ver o Giro, ou Tour ou Vuelta, então que assim seja. Sem pânico, sem açambarcamento, com responsabilidade e bom senso.

6 de março de 2020

Dias atípicos

Primeiro monumento do ano foi cancelado
© Milano-Sanremo
Têm sido dias atípicos no ciclismo (e não só, claro) e muito por causa do coronavírus. Parecia tão longe na China e agora tornou-se uma realidade tão próxima, tendo a palavra entrado definitivamente no nosso léxico, mesmo quando se fala de ciclismo. O cancelamento das duas últimas etapas da Volta aos Emirados Árabes Unidos e consequente quarentena para todos os que nela participavam, foi apenas o início de de uma situação que está sem fim à vista e que já está a afectar o calendário. Por esta altura estar-se-ia a preparar para assistir a umas horas de ciclismo a ver a espectacular Strade Bianche este sábado e a pensar que o primeiro monumento estava a chegar. Agora as corridas italianas foram canceladas e começam a aumentar as dúvidas sobre outras noutros países.

Para já, UCI e os organizadores das principais provas agendadas para os próximos dias, RCS Sport e ASO, vão agindo segundo as indicações das autoridades dos seus países, enquanto as equipas vão tomando as rédeas das difíceis decisões de competir ou não. Em Itália, onde a situação é mais grave no continente europeu, foram proibidos os eventos desportivos, ou de outro tipo, ao ar-livre. Com os números de casos positivos a aumentar de dia para dia, não é certo que a proibição dure apenas até 3 de Abril, com as autoridades a irem analisando a situação à medida que se vai desenvolvendo.

Caiu assim primeiro a Strade Bianche (para homens e mulheres), com a RCS Sport a ter a esperança de a poder reagendar, tal como o Tirreno-Adriatico (marcado inicialmente de 11 a 17 de Março) e o monumento Milano-Sanremo (dia 21), cujo cancelamento foi esta sexta-feira confirmado. Já em França, o Paris-Nice vai prosseguir como programado - já a Maratona de Paris foi cancelada -, arrancando no domingo. No entanto, há equipas que não querem competir, com algumas decisões até terem sido anunciadas antes do cancelamento da Strade Bianche, por exemplo.

A EF Pro Cycling foi das primeiras a pedir dispensa das provas italianas à UCI, quando a situação do coronavírus começou a agravar-se, mas estará no Paris-Nice. De recordar que as equipas World Tour estão obrigadas a competir em todas as corridas acima mencionadas, podendo ser multadas se não o fizerem com uma justificação aceite ou pela UCI ou pelos organizadores. Dada a propagação rápida do Covid-19 e as proibições decretadas pelo governo italiano, a justificação não deverá ser um problema.

Houve quem fosse mais radical. A Mitchelton-Scott, Ineos, Movistar, CCC, UAE Team Emirates, Astana e Jumbo-Visma não estarão no Paris-Nice. Só deverão regressar a 23 de Março, na Volta a Catalunha. A ASO tenta preencher as vagas no Paris-Nice. Para começar autorizou que as equipas tenham oito ciclistas em vez de sete e convidou a belga Circus-Wanty Gobert e a francesa B&B Hotels-Vital Concept. A organização vai tentar minimizar o contacto entre ciclistas e jornalistas e também com o público.

Equipas, organizadores e outros responsáveis da modalidade tentam lidar com uma situação atípica. Em causa está muito mais do que a saúde dos ciclistas ou membros do staff. Está em causa a saúde pública. Por agora resta esperar para ver como a situação evolui. Para a RCS Sport, a preocupação passa por tentar conseguir reagendar as corridas, num calendário World Tour muito complicado, não esquecendo que o cancelamento estendeu-se a provas de outros escalões. E há que não esquecer que em Maio a primeira grande volta é em Itália, o que, naturalmente, também preocupa Mauro Vegni, o director da RCS Sport.

De referir que a UAE Team Emirates, Cofidis e Groupama-FDJ continuam de quarentena nos Emirados Árabes Unidos, que foi prolongada até dia 14.

24 de fevereiro de 2020

Milano-Sanremo e Tirreno-Adriatico em risco. Volta a Itália preocupa

© Milano-Sanremo
As corridas italianas enfrentam o risco de cancelamento. O aumento de casos positivos de coronavírus no país já levou a que vários eventos tivessem esse destino, desde jogos de futebol (adiados) até ao Carnaval de Veneza que foi forçado a terminar no domingo e não na terça-feira, como é normal. A situação está a preocupar a RCS Sport, um dos maiores organizadores de corridas de ciclismo. O seu responsável admite que está preocupado, para já, com o Tirreno-Adriatico e com a Milano-Sanremo. Esta última prova tem parte do seu percurso a passar por uma das regiões que está a registar vários casos deste vírus. A Volta a Itália preocupa, mas só se disputa em Maio.

Com as autoridades italianas a tentarem controlar a situação, numa altura em que já foram confirmadas sete mortes, o director da RCS Sport aguarda por informações por parte do governo para tomar uma decisão, esperando que seja possível realizar as provas. "As preocupações iniciais que temos são com o Tirreno-Adriatico e, sobretudo, com a Milano-Sanremo, que estão programadas para daqui a um mês. Não há plano B. Se o governo decidir suspender os eventos desportivos em Milão e Lombardia teremos de cancelar as corridas", afirmou Mauro Vegni ao Corriere della Sera.

O responsável está actualmente na Volta aos Emirados Árabes Unidos e olha para o que está a acontecer no norte de Itália com alguma apreensão. Salientou que a Strade Bianche (7 de Março) não está em causa, por enquanto, pois a região da Toscana não está a ser afectada. O Tirreno-Adriatico está agendado para entre 11 e 17 de Março, com a Milano-Sanremo, marcada para dia 21. Milão recebe a partida da corrida e é uma das cidades com casos de coronavírus reportados.

"Não faz sentido alterar o início 20 ou 50 quilómetros. Esse percurso existe há 110 anos e não se pode improvisar em 20 dias. Perderia a sua essência", salientou Vegni. A primeira edição do monumento realizou-se em 1907 e só não se disputou em três anos, que coincidiram com a Primeira e Segunda Guerra Mundial: 1916, 1944 e 1945. Há umas semanas, a passagem pelo Poggio esteve em risco devido aos danos provocados pelo mau tempo. Esta situação acabou por ser resolvida a tempo de evitar que a subida fosse retirada do percurso.

Quanto ao Giro, Mauro Vegni mantém um discurso cauteloso, esperando que os casos possam começar a diminuir. A primeira grande volta do ano arranca a 9 de Maio em Budapeste, ficando três dias na Hungria. Dia 12 o pelotão estará em Itália. "Espero que o pico do coronavírus diminua. Por agora não posso dizer nada sobre a Volta a Itália, mas é claro que, se o alarme não diminuir, existe o risco da corrida não poder continuar", referiu Vegni.

Os primeiros casos de coronavírus foram detectados em Wuhan, na China e, dada a propagação, a Volta a Hainan foi adiada. Entretanto, a UCI decidiu adiar também as provas que estava agendadas para aquele país nos meses de Abril e Maio.

»»Convites para o Giro ficam em casa««

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23 de março de 2019

Milano-Sanremo o monumento dos sprinters? A tradição já não é o que era

Alaphilippe deixou a forte concorrência a vê-lo festejar mais uma vitória
(Fotografia: Facebook Milano-Sanremo)
Os sprinters que não se deixem abater. A Milano-Sanremo irá continuar a ser o monumento que melhor lhes assenta. Mas talvez esteja a perder a sua conotação de "monumento dos sprinters". Mais do que nunca, ciclistas com outras características colocam a clássica nos seus objectivos e como que "perderam o respeito" pelos homens rápidos, que nos últimos três anos têm estado afastados das decisões. O corredor do momento foi selar um triunfo que nem surpreende e apenas serviu para confirmar o poderio de uma Deceuninck-QuickStep que se dá ao luxo de "queimar" o seu sprinter, perfeitamente capaz de ganhar a Milano-Sanremo, para levar Julian Alaphilippe ao topo. Que época sensacional está a ter o D'Artagnan do ciclismo!

"É muito difícil perceber o que alcancei hoje aqui juntamente com esta fantástica equipa", disse Alaphilippe após a vitória em que bateu ao sprint um renascido Oliver Nasen (AG2R) e Michal Kwiatkwoski (Sky), o vencedor da clássica em 2017 (Alaphilippe foi terceiro nessa edição). Mas não é assim tão difícil entender. Não quando há uma Deceuninck-QuickStep que neste tipo de provas não só se dá ao luxo de ter um plano A, B, C e até D, com todos a darem garantias, como tem ciclistas que trabalham na perfeição no controlo de corridas. E depois tem Tim Declercq, o Tractor, como é conhecido. Sim, o belga merece ser destacado, pois em 291 quilómetros "puxou" durante muitos deles e foi um dos principais responsáveis por um ritmo alucinante que começou a sufocar os sprinters quando se aproximou o momento da decisão, que este ano foi no Poggio.

São apenas três quilómetros, com o mais complicado da subida a ser uma zona a 8%. Mas quando o ritmo é tão alto, nem Elia Viviani resistiu ao ritmo dos colegas de equipa. Quando saiu Declerq, entrou Philippe Gilbert e Zdenek Stybar em acção. E quando o trabalho colectivo estava feito, com todos os sprinters ditos "puros" a ficarem para trás, lá foi Alaphilippe.

Não ficou sozinho, mas só Peter Sagan (Bora-Hansgrohe) e Matteo Trentin (Mitchelton-Scott), ex-companheiro de Alaphilippe, foram os dois ciclistas com características de sprinters no top dez. O primeiro continua a não encontrar o caminho da vitória na Milano-Sanremo, o segundo ainda tentou surpreender nos metros finais, mas fugas impressionantes são mais para um Vincenzo Nibali. O ciclista da Bahrain-Merida, vencedor há um ano, também entrou no grupo da discussão. Mas com Alaphilippe na forma que está, a discussão é pouca. Nem Alejandro Valverde (Movistar) tem pedalada para o francês, seu rival, ou mais do que provável sucessor nas Ardenas.

O francês, de 26 anos, está com uma marca impressionante em 2019. Ganhou em todas as corridas. Na Volta a San Juan e no Tirreno-Adriatico venceu duas etapas em cada, na Volta à Colômbia conquistou uma tirada e a classificação dos pontos. Participou em duas clássicas e somou mais duas vitórias: Strade Bianche e agora a Milano-Sanremo.

Alaphilippe já tem o seu monumento. Parecia (e parece) destinado a conquistar uma Liège-Bastogne-Liège, mas foi no monumento dos sprinters que abriu a sua contagem, seguindo assim o exemplo de Kwiatkowski e Nibali, que têm contribuído para que os homens mais rápidos do pelotão saiam frustrados da corrida que historicamente tem sido maioritariamente para eles.

Se a semana das Ardenas fosse já, a dúvida seria se alguém conseguiria estar ao nível de Alaphilippe, que tem tudo para atirar para segundo plano um Alejandro Valverde campeão do mundo. No entanto, esta semana de três clássicas é só daqui a um mês, com o francês a viajar até ao País Basco antes, onde há um ano ganhou duas etapas. A manter a forma, daqui a mês estar-se-á a colocar Alaphilippe no topo dos favoritos e, quem sabe, a assumir de vez um trono que em 2018 mostrou estar preparado para reclamar. Bateu Valverde na Flèche Wallonne e irá agora à procura do seu segundo monumento do ano na Liège. Começam a faltar palavras para descrever a temporada assombrosa de Alaphilippe.

Com esta vitória, talvez a Milano-Sanremo comece a ser um pouco menos conotada com o monumento dos sprinters. Alaphilippe era um dos favoritos, mas não se esperava que nem um dos grandes nomes actuais do sprint - com a excepção de Sagan - conseguisse estar na luta. Ninguém - Caleb Ewan, Dylan Gronewegen, Arnaud Démare, Fenado Gaviria, Sam Bennett (e a lista continua) - passou o Poggio com o grupo que se formou na frente.

Próximo monumento, Volta a Flandres, a 7 de Abril e uma semana depois será o Inferno do Norte, Paris-Roubaix. A Liège-Bastogne-Liège está marcada para dia 28 do mesmo mês, com a Lombardia a fechar os cinco monumentos a 12 de Outubro.

José Gonçalves (Katusha-Alpecin) foi o único português em prova, terminando na 76ª posição, a 1:29 do vencedor. Pode conferir aqui a classificação completa da 110ª edição da Milano-Sanremo, via ProCyclingStats.

E na disputa particular entre Deceuninck-QuickStep vs Astana, está novamente tudo empatado, com 19 vitórias para cada uma das equipas.





22 de março de 2019

Dez anos depois de vencer a Milano-Sanremo e de nunca a ter falhado, vai ver o monumento de fora

(Fotografia: © Stiehl Photography/Team Dimension Data)
Há dez anos, um jovem talentoso sprinter começava a dar forma a um impressionante currículo que o colocaria entre os melhores da história, independentemente do que ainda venha ou não a fazer na carreira. Poderoso no arranque, personalidade muito forte, extremamente competitivo, como normalmente são ciclistas com as suas características. Este britânico estava no ciclismo para ganhar e nada mais. Em 2008 apareceu de rompante a conquistar quatro etapas no Tour, depois de duas no Giro, além de outras vitórias importantes - que começaram em 2007 - que rapidamente deram àquele rapaz de 22 anos o estatuto de estrela mundial. Na época seguinte, na estreia em monumentos, não perdeu tempo e ganhou a Milano-Sanremo. Nunca mais falhou esta corrida italiana desde então. Dez anos depois, o nome Mark Cavendish não aparece na lista de inscritos, numa fase negra da sua carreira e que muitas questões se levanta se não se estará perante uma cada vez mais próxima despedida.

Naquela edição de 2009 percebe-se bem porque recebeu alcunha de "míssil da Man" (referência à ilha onde nasceu). Heinrich Haussler arranca para o que parecia ser uma grande vitória frente a nomes como Thor Hushovd, seu companheiro na Cérvelo, e Alessandro Petacchi, por exemplo. Porém, lá veio disparado da roda do australiano, que nem um míssil, Cavendish, a grande figura de uma equipa que marcou a modalidade, a Columbia-HTC. E quantas vezes mais se viu Cavendish ganhar assim. Ou alcançado o que parecia já ser impossível, ou então meter-se na frente e era o "apanha-me se puderes" e normalmente ninguém podia.

Bons velhos tempos de um sprinter como poucos. É talvez inevitável sentir algum saudosismo de um ciclista que tinha tanto de espectacular na estrada, como de mau feito fora dela. E às vezes nela! Foi preciso esperar pela paternidade para acalmar um pouco os ânimos. Infelizmente também a sua carreira e a sua capacidade de sprintar com os melhores acalmou.

Teve um primeiro período de menos fulgor, mas quando parecia ter recuperado, na mudança para a Dimension Data, deu-se um total apagão. O diagnóstico do vírus de Epstein-Barr mudou-lhe a vida. Os últimos dois anos têm sido um inferno. Entre o ter de parar para recuperar da doença e depois tentar ganhar forma, parecer que está bem e sofrer quedas atrás de quedas, como aconteceu no início da temporada passada... Cavendish não consegue ser algo próximo da sua sombra. Em 2018 parou no final de Julho, pois estava novamente a precisar de recuperar do problema de saúde que não mais o irá largar.

Apesar da indefinição quanto ao que Cavendish ainda poderá fazer no ciclismo, a Dimension Data renovou com o ciclista. Aos 33 anos, encetou novo regresso nesta temporada. Esteve mais na ajuda a companheiros, pois rapidamente se percebeu que estava longe de poder disputar sprints. As dificuldades ficaram bem patentes no Paris-Nice. Nas etapas iniciais, marcadas por muito vento, Cavendish não aguentou o ritmo. Abandonou na segunda, naquela que era a sua terceira corrida do ano, depois das presenças na Volta a San Juan e dos Emirados Árabes Unidos

Ir à Milano-Sanremo parecia fazer pouco sentido perante a evidente falta de forma. A Dimension Data mantém a confiança que Cavendish poderá recuperar mais adiante na temporada, talvez já a pensar na Volta a França, onde o sprinter soma 30 vitórias de etapas. O seu grande objectivo e talvez único nesta fase da carreira, é bater o recorde de Eddy Merckx. Dar Cavendish como acabado pode ser um erro, como já demonstrou no passado, mas cada vez mais parece uma missão impossível ganhar cinco etapas ou pelo menos quatro para igualar o "Canibal" belga.

Talvez Cavendish possa voltar à Milano-Sanremo numa próxima edição, até porque no ano passado o seu monumento terminou com uma queda arrepiante. Merece sair de outra forma. Pelo menos isso. Aquela vitória de 2009 acabou por ser a única nestas corridas históricas do ciclismo. Tentou a Volta a Flandres e o Paris-Roubaix, mas não se deu nem com as rampas em pavé da primeira, nem com os sectores de empedrado infernais da segunda. A Milano-Sanremo era e é o seu monumento, mas não mais conseguiu sequer regressar ao pódio.

Neste vídeo recorda-se a grande vitória de Cavendish na Milano-Sanremo, com os comentadores a transmitirem tão bem a emoção do momento. Só no photo finish se conseguiu perceber quem tinha vencido.

(Texto continua por baixo do vídeo.)



O monumento que não é sempre dos sprinters

Apesar de ser o monumento que melhor assenta aos sprinters, ainda que tenham de ultrapassar uma Cipressa e um Poggio que nem sempre ajuda o mais puro dos sprinters, esta corrida também é pródiga em surpresas. Vincenzo Nibali foi o autor de uma no ano passado e Michal Kwiatkwoski em 2017. Ambos vão liderar a Bahrain-Merida e a Sky, respectivamente, mas mesmo sendo vencedores da Milano-Sanremo, o favoritismo acaba por recair sempre em homens com características de sprinters.

Claro que poucos faltam à chamada. Será que é desta que Peter Sagan (Bora-Hansgrohe) vence depois de dois segundos lugares? Ou será que o seu companheiro de equipa, Sam Bennett, chegar-se-á à frente, já que está num excelente momento? Arnaud Démare (Groupama-FDJ), Matteo Trentin (Mitchelton-Scott), Fernando Gaviria (UAE Team Emirates) e Christophe Laporte (Cofidis) não são para menosprezar. Muito menos serão os três fortíssimos candidatos e três dos sprinters em melhor forma nesta primeira fase da temporada: Caleb Ewan (Lotto Soudal) e, principalmente, Dylan Groenewegen (Jumbo-Visma) e Elia Viviani (Deceuninck-QuickStep).

Quanto à Dimension Data, sem Mark Cavendish, dará a liderança ao italiano Giacomo Nizzolo, reforço de 2019 e que terminou a época passada a ser operado a um joelho. Este ano já ganhou uma etapa na Volta a Omã.

José Gonçalves (Katusha-Alpecin) será o único português presente nos longos 291 quilómetros deste primeiro monumento dos cinco da temporada. Pode confirmar neste link a lista de inscritos, via ProCyclingStats.


17 de março de 2018

Nibali deixou todos a verem-no pelas costas numa grande vitória frente aos sprinters

(Fotografia: Facebook Milano-Sanremo)
Tão rapidamente parecia que seria uma Milano-Sanremo a cumprir o desígnio de ser o monumento dos sprinters, como um dos melhores voltistas trocou... as voltas a todos. Parece quase inacreditável que tenham dado tanto espaço a Vincenzo Nibali, tendo em conta a força de trabalho que estava no grande grupo que chegou e passou o Poggio, a dificuldade final da corrida. Se o italiano sobe bem, a descer é o mestre e depois foi um contra-relógio em que também não é assim tão mau. Todos os sprinters e aqueles ciclistas que não sendo tão rápidos podiam muito bem ter discutido mais a corrida, podem ficar frustrados. Podiam e deviam ter feito mais. Mas não, não retiremos mérito a Nibali. Excelente... enorme vitória deste italiano por vezes tão mal-amado, mas que tem um currículo cada vez mais impressionante.

Ganhou as três grandes voltas, o Giro duas vezes, agora conta com três vitórias em monumentos, duas na Lombardia e acrescenta a Milano-Sanremo. E isto para falar das mais relevantes das 51 conquistas que soma. Nibali tinha colocado a Liège-Bastogne-Liège como um dos objectivos de temporada, mas surpreendeu ao vencer no primeiro monumento italiano de 2018, poucos meses depois de ter vencido o último, pois foi em 2017 que ganhou a sua segunda Lombardia. Tantas vezes se diz que Nibali vence quando a concorrência é menor, bem, nesta Milano-Sanremo os grandes favoritos estavam praticamente todos na estrada e muitos deles no grupo que chegou a ver de perto as costas de Nibali, mas não suficientemente perto para o bater.

Michal Kwiatkowski (Sky), vencedor no ano passado, disse que todos no grupo adormeceram e deixaram escapar Nibali. Caleb Ewan (Mitchelton-Scott) - segundo classificado na segunda vez que correu a Milano-Sanremo - afirmou que "tudo correu mal porque Nibali foi demasiado forte". Os dois têm razão e explicam em poucas palavras a vitória do italiano.

Esta foi uma clássica pouco atacada. A Groupama-FDJ tratou de aumentar e muito o ritmo ainda antes da Cipressa para começar a eliminar quem já com mais de 200 quilómetros nas pernas não estivesse nas melhores condições. Na chegada ao Poggio, o principal nome a ficar de fora foi, sem surpresa Marcel Kittel, que sempre que o terreno inclinou, fraquejou e na última subida baixou de vez os braços. Por esta altura estava-se a tentar recuperar das impressionantes imagem da queda de Mark Cavendish. Lá na frente o ritmo era alto e parecia que não haveriam ataques que resistissem. Nibali não era dessa opinião. Foi com Krists Neilands (vencedor da classificação da juventude da Volta a Portugal e que muito se tem mostrado na Israel Cycling Academy neste início de temporada), mas o campeão letão ainda tem muito a melhorar até aproximar-se do nível de Nibali. Matteo Trentin ainda tentou a sua sorte, mas as forças rapidamente lhe faltaram. De resto... ficaram a marcar-se.

Quando se deu a perseguição frenética, muito por causa da Quick-Step Floors, a vantagem dada já era de mais. "Não sou um ciclista rápido. Tinha de inventar qualquer coisa", referiu Nibali. No site Bahrain-Merida, o título do texto reflecte bem o sentimento da equipa: "A missão impossível está cumprida." O ciclista italiano explicou que ao atacar também o fez a pensar numa eventual ajuda a Sonny Colbrelli, que disse que estava a sentir-se muito bem. Porém, quando olhou para trás e viu que a vantagem era simpática deu tudo o que tinha e não tinha. "O momento mais difícil foram os últimos dois quilómetros. Nunca olhei para trás", contou. Pelo rádio ouvia o director desportivo, Alberto Volpi, a dizer para "puxa, puxa".

Depois do terceiro lugar em 2012, edição ganha por Simon Gerrans, Nibali vence numa corrida que poderia parecer improvável para ele e que agora lhe pareceu assentar tão bem. Esteve discreto no Tirreno-Adriatico, mas garantiu este sábado mais um grande resultado para uma Bahrain-Merida apenas com dois anos de vida. É certo que a equipa tem estado demasiado dependente de Nibali, mas dois pódios em grandes voltas e dois monumentos... Há muitas equipas que não se importariam de estar na posição da formação do Médio Oriente.

Aos 33 anos, Nibali até tem falado em fazer a estreia na Volta a Flandres (1 de Abril), ainda que no seu calendário esteja a Volta ao País Basco, que começa no dia seguinte. Certo é que a Liège-Bastogne-Liège (22 de Abril) está na sua mira, com Nibali a assumir um discurso que quer ser conhecido por mais do que um voltista. E claro que assim como quem não quer a coisa já se fala de porque não o italiano vir a tentar conquistar os cinco monumentos? Para já, é momento para celebrar uma grande e memorável vitória em Sanremo.

Ainda não foi desta para Sagan

Muito se olhou para Peter Sagan e o tricampeão do mundo esteve sempre bem colocado.  No entanto, mais um ano e o eslovaco vê passar mais uma Milano-Sanremo sem a ganhar. Foi sexto. Agora é apontar tudo à Volta a Flandres e principalmente ao Paris-Roubaix.

De salientar que Alexander Kristoff demonstrou como na UAE Team Emirates está mesmo a recuperar a sua melhor forma. Foi quarto, atrás de um Arnaud Démare que está com uma equipa forte a trabalhar para ele. O vencedor de 2016 deu um pódio à Groupama-FDJ, mas irá para as clássicas do pavé com vontade de fazer melhor. E atenção ao pequeno Caleb Ewan. Com aquele estranho estilo de sprintar, deitado no guiador, está a transformar-se num grande ciclista. Em 2018 é bem provável que entre uma primeira linha de candidatos para esta corrida.

José Gonçalves, o único português em prova, esteve preso ao trabalho da Katusha-Alpecin para Marcel Kittel, com Nathan Haas e Simon Spilak a serem os ciclistas que tiveram mais liberdade. O gémeo terminou na 53ª posição, a 1:02.

Pode ver aqui a classificação.

A queda de Mark Cavendish

Ver Cavendish no chão foi mesmo de pensar: "Outra vez!" Caiu quando a primeira etapa da Volta a Abu Dhabi ainda estava na fase neutralizada. O carro do comissário tinha activado o sistema automático de travagem, que ao detectar os ciclistas que se colaram ao lado da viatura, activou o travão. Quem vinha atrás... Abandonou, mas estava à partida no Tirreno-Adriatico. Nova queda a abrir, novo abandono e uma costela partida.

Foi assim que partiu para a Milano-Sanremo, determinado a deixar para trás o azar. Mas não. Agora tem mais uma costela fracturada, muitas nódoas negras e queimaduras do alcatrão. A dúvida mais preocupante, segundo a Dimension Data, é uma possível lesão nos ligamentos do tornozelo, mas para confirmar serão necessários mais exames.

Numa altura em que o pelotão ia a grande velocidade a caminho do Poggio, Cavendish não conseguiu desviar-se de uma divisória da estrada. Chocou, foi projecto para o ar, deu um mortal e caiu de costas. A própria equipa admite que apesar do aparato, Cavendish escapou a um panorama que parecia poder ser bem pior. Só quando se saber a gravidade do problema no tornozelo é que se ficará a saber o tempo de paragem do britânico. Pela negativa, esta será uma das imagens do ano.

»»Cavendish candidato a azarado do ano««

»»Qual é o lugar de Nibali na história?««

16 de março de 2018

Todos os olhos em Sagan. Será desta?

(Fotografia: Bettiniphoto/Bora-Hansgrohe)
Não será Peter Sagan contra os outros, mas perto disso. E com o lote de candidatos que se apresenta na Milano-Sanremo, até marcado por importantes ausências, parece redutor que se fale tanto de Sagan. Mas perante tudo o que este ciclista já alcançou, todo o seu talento e qualidade e tudo o que já deixou escapar, faz de Sagan aquele corredor para que todos olham. É ele que lidera qualquer lista de favoritos, de apostas, seja que lista for que o meta como vencedor e depois de dois segundos lugares nesta corrida quer finalmente quebrar o enguiço. E o segundo posto do ano passado deixou-o bem frustrado, o que o levou até a trocar algumas palavras com quem o bateu, Michal Kwiatkowski. Chegou a altura de levar para a estrada a ambição, a frustração, tudo o que Sagan tenha que o possa colocar onde ele finalmente quer: em primeiro.

Aos 28 anos já se pensaria que o tricampeão do mundo teria um número mais interessante de monumentos, mas "só" tem a Volta a Flandres. Pela postura do ciclista, a forma como alterou a sua temporada - também pela influência de agora ser pai -, deixa antever um Sagan mais do que nunca determinado em colocar-se no lugar que ele e certamente que muitos que acompanham a modalidade sentem que o ciclista da Bora-Hansgrohe deveria estar. Pode até dizer que prefere dar espectáculo a ganhar da forma como Kwiatkowski o fez há um ano, mas o próprio já pensará que chega de trabalhar e de "ficar perto" e  depois ver outro levantar os braços.

A Milano-Sanremo é este sábado o primeiro monumento do ano a realizar-se. Muitas vezes considerada como o monumento dos ciclistas, a verdade é que a Cipressa e o Poggio também têm tendência a deixar para trás o mais puro dos homens rápidos. Michal Kwiatkowski (Sky) de sprinter nada tem e estará em Itália com o objectivo de repetir o triunfo de há um ano. E depois de um início de época com vitórias na Volta ao Algarve e Tirreno-Adriatico, o polaco está numa forma que o colocam perto do favoritismo de Sagan.

Greg van Avermaet (BMC), Arnaud Démare (FDJ) - vencedor em 2016 - e Alexander Kristoff (UAE Team Emirates) - ganhou em 2014, completam uma lista de candidatos de primeira linha, por assim dizer. O norueguês, campeão europeu, parece ter recuperado a confiança perdida na Katusha-Alpecin e está a fazer um 2018 bem mais animador, já com três vitórias, pelo que consegue novamente estar entre aqueles que ninguém vai querer dar muito espaço de manobra.

Numa corrida com 294 quilómetros, ainda mais com mau tempo à espera dos ciclistas - mas nada como em 2013, quando chuva, vento e frio (muito frio) levou mesmo à neutralização de uma parte da corrda -, as maiores dificuldades estarem quando o pelotão já tem muitos quilómetros nas pernas, abrem as portas a vários tipos de ciclistas. Vejamos o caso da Quick-Step Floors. A equipa belga tem um renascido Elia Viviani como número um, mas pode muito bem voltar a jogar com Julian Alaphilippe num ataque (foi terceiro em 2017) ou mesmo Philippe Gilbert, que está desejoso de completar os cinco monumentos. Faltam-lhe a Milano-Sanremo e o Paris-Roubaix.

Oliver Naesen (AG2R) é sempre um corredor a ter debaixo de olho. Não tem qualquer interesse numa chegada em sprint, mas pode aliar-se a quem atacar numa das subidas. Também Jasper Stuyven (Trek-Segafredo) poderá optar por táctica idêntica. É mais um belga e em boa forma. A equipa americana parecia estar a arrancar para uma boa temporada com seis vitórias até ao início de Fevereiro. Porém, John Degenkolb está outra vez "de baixa", tal como Giacomo Nizzolo. É a oportunidade para Stuyven de confirmar o que já lhe é mais do que reconhecido. Pode ser mais perfeito para ele as corridas do pavé, mas não o tirem da equação.

Vamos tentar evitar escrever aqui um testamento, portanto aqui ficam alguns nomes a ter em atenção para a corrida que terá transmissão no Eurosport2 (13:30). Matteo Trentin (Mitchelton-Scott) tem tido um início de temporada marcado por alguns azares, mas depois de ter terminado 2017 em grande, surge com liberdade para lutar pela vitória na sua nova equipa. Será provável que seja o homem para tentar escapar ao pelotão, enquanto Caleb Ewan será a opção mais viável se a chegada for em grupo.

Mark Cavendish (vencedor em 2009) vem de duas quedas em duas primeiras etapas de corridas e respectivos abandonos. Mesmo com uma costela partida vai competir. Diz que estará presente para ajudar os colegas. Pois... é um pouco difícil acreditar que vá fazer tamanho esforço por puro altruísmo, mas quem sabe a idade esteja a mudar o britânico... Edvald Boasson Hagen é talvez a melhor hipótese para a Dimension Data, ainda que o norueguês tenha começado a época mais tarde também devido a problemas físicos. Stephen Cummings é sempre homem para uma daquelas fugas... à Cummings. Fica como outsider.

Michael Matthews também vem de uma lesão, pelo que é uma incógnita como se irá apresentar. Mas terá Tom Dumoulin como homem de trabalho! Ou para uma surpresa... Por parte da Sunweb, atenção ainda a Edward Theuns. Danny van Poppel (Lotto-Jumbo), Sacha Modolo (EF Education First-Drapac), André Greipel (Lotto Soudal) - bem que precisa de um grande resultado e que falta faz este sprinter no seu melhor -, Sonny Colbrelli (Bahrain-Merida e com Vincenzo Nibali na equipa), Christophe Laporte (Cofidis e atenção a este francês), Alexey Lutsenko (Astana e numa perspectiva de um final mais selecto), Gianni Moscon (Sky e caso Kwiatkowski falhe) e Jakub Mareczko (Willier Triestina-Selle Italia) são ciclistas que apresentam argumentos.

E deixamos a supresa (ou se calhar meia) para o fim. Com duas vitórias no Tirreno-Adriatico e finalmente alcançados os primeiros triunfos pela Katusha-Alpecin, Marcel Kittel disse sim à Milano-Sanremo. Claro que para ele passar as duas dificuldades será um martírio e certo é que ninguém quererá levá-lo à meta. Kittel veio dar mais uma razão para as subidas serem muito atacadas. Mas é muito bom ver este sprinter ter o objectivo de tentar um monumento na sua carreira e só lhe ficaria bem.

Quanto a portugueses, só teremos José Gonçalves (Katusha-Alpecin). Está a tornar-se num homem de extrema confiança de Marcel Kittel, mas dêem-lhe liberdade e porque não inclui-lo na lista de outsiders. Um top dez já lhe assentaria muito bem, mas estará sempre dependente do que irá fazer Kittel.

Além de Sagan, apostar em alguém... Fica ao critério e porque não ao feeling (sensação) de cada um...

Ausências

Já aqui foram referidas as duas ausências da Trek-Segafredo, Degenkolb e Nizzolo, mas as duas principais - com todo o respeito que Degenkolb, o vencedor de 2015, merece - são Fernando Gaviria e Nacer Bouhanni. O colombiano da Quick-Step Floors queria apostar tanto nas clássicas e, diga-se, correu francamente mal. Gaviria tem dividido as quedas com as vitórias! Caiu logo na Volta a San Juan, antes das provas de um dia, e história idêntica aconteceu na Kuurne-Bruxelles-Kuurne e antes, a Omloop Het Nieuwsblad também não foi memorável. De baterias apontadas à Milano-Sanremo, talvez o principal objectivo que procurava em 2017 além das etapas no Tour, Gaviria fracturou a mão no Tirreno-Adriatico e regressou a casa para recuperar.

É uma pena não ter este enorme ciclista na Milano-Sanremo. Teremos de esperar por 2019. Já Nacer Bouhanni não sabe o que esperar. Abandonou o Paris-Nice devido a doença, disse que o médico da equipa já lhe deu alta e que até treinou. Porém, Cédric Vasseur, novo director desportivo da Cofidis, deixou-o de fora e elegeu Christophe Laporte, que já soma três vitórias este ano. Bouhanni não escondeu o desagrado e a surpresa pela decisão, mas já começa a transparecer que há mais do que uma simples decisão técnica por trás da ausência do francês em Itália. E deve ser bem frustrante para Bouhanni ficar de fora, ainda mais quando lhe está "atravessado" o que lhe aconteceu em 2016, ano em que ganhou o seu rival gaulês, Arnaud Démare (FDJ). Quando tentou arrancar para o sprint, teve um problema mecânico que o atrasou ligeiramente, o suficiente para o deixar em quarto.

Mais dois pormenores

A Milano-Sanremo vai marcar a estreia do vídeo-árbitro no ciclismo. Além dos três comissários que estarão nos carros ou motos na corrida, haverá um quarto, que estará a atento às diferentes imagens de televisão a que terá acesso. Com o recurso a este método será possível, por exemplo, excluir rapidamente um ciclista que tenha aproveitado agarrar-se a um carro para ganhar terreno, por exemplo. Normalmente são decisões feitas após a corrida, agora o infractor pode ser imediatamente "encostado". De salientar que, ao contrário do futebol, a decisão é efectiva, ou seja, o comissário que está a ver as imagens tem o poder de ditar logo a sanção, enquanto no futebol a palavra final é sempre do árbitro principal.

Outro pormenor de destaque é a presença da Novo Nordisk, equipa Profissional Continental americana, composta somente por ciclistas que têm diabetes. Será a primeira vez que tal se irá verificar na Milano-Sanremo e este convite é também um reconhecimento do trabalho que tem sido feito na Novo Nordisk para não só chamar a atenção para a doença, mas para mostrar como estes corredores podem ser atletas de alta competição e estar entre os melhores.

De recordar que a Cipressa tem 5650 quilómetros de extensão, pendente média de 4,1%, 9% de máxima. O Poggio tem 3700 metros, 3,7% de média, num máximo de 8%. Em baixo fica a altimetria do primeiro monumento do ano. E para os amantes das clássicas é caso para dizer, até que enfim!