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28 de fevereiro de 2021

A afirmação de Pedersen no pós-título mundial

© Trek-Segafredo
Mads Pedersen vestiu a camisola de campeão do mundo no pior ano! A pandemia fez com que não pudesse desfrutar daquele símbolo como merecia. Ainda assim, nunca desmoralizou e só quis mostrar-se com a camisola do arco-íris nas oportunidades que surgissem. No calendário possível em 2020, Pedersen conseguiu o seu destaque. Esteve perto de ganhar na Volta a França, venceu no BinckBank Tour e, naquele que foi certamente o ponto alto, conquistou a Gent-Wevelgem, que se realizou em Outubro. É neste terreno, das clássicas do pavé, que Pedersen tem vindo a ganhar nome. O título mundial em Yorkshire foi uma surpresa e este dinamarquês conquistou o que muitos esperam uma carreira para alcançar - que o diga Alejandro Valverde - e agora, aos 25 anos, prossegue a sua afirmação.

Talvez a idade tenha ajudado a Pedersen a enfrentar a sua época como campeão do mundo em título de forma muito descontraída. Não pareceu sucumbir à pressão, como aconteceu a outros ciclistas e que deu azo à chamada "maldição". Ou seja, quem veste as cores do arco-íris não consegue ganhar. O dinamarquês ganhou e até deu um passo em frente na carreira. Demonstrou que, não sendo sprinter, podem contar com ele para se intrometer nestas discussões. Este domingo, na Kuurne-Bruxelles-Kuurne (197 quilómetros) foi assim que venceu.

Não enfrentou os sprinters puros, é certo. Porém, Pedersen está a confirmar as expectativas criadas quando em 2018 foi uma das figuras das clássicas do pavé, tendo sido segundo na Volta a Flandres. Andou um pouco discreto depois dessa fase, mas o título mundial despertou algo no dinamarquês que o está a levar a afirmar-se no terreno que tão bem lhe assenta, além de também aprimorar o sprint.

Para a Trek-Segafredo é uma alívio ver Pedersen confirmar o seu potencial. Desde que Fabian Cancellara se retirou, que a equipa não conseguiu alcançar o destaque de então nas clássicas. Jasper Stuyven é um ciclista de enorme qualidade, contudo, escasseiam as vitórias. A aposta em John Degenkolb foi completamente falhada e Pedersen foi o jovem que desde 2017 foi sendo trabalhado para que possa ser uma referência. Ninguém pede que seja um Cancellara, mas a Trek-Segafredo quer um forte candidato e que possa assegurar mais vitórias.

No sábado, a equipa teve uma Omloop Het Niewsblad para esquecer, mas, ainda assim, o início de época está a ser promissor para a Trek-Segafredo, já com quatro vitórias, incluindo a de Pedersen na Kuurne-Bruxelles-Kuurne. Stuyven será sempre um líder, mas é no dinamarquês que se vai centrar muita atenção nesta fase de clássicas do pavé. E Stuyven até já faz de lançador do colega. Os dois juntos, podem dar à formação americana um mês de Março e Abril de sucesso.

Pedersen começou a carreira em grande com um título mundial, mas agora quer cumprir o objectivo de ser um vencedor de uma Volta a Flandres, ou de um Paris-Roubaix, no que a monumentos diz respeito. Stuyven não desiste de procurar o que muitos previram que tinha tudo para conquistar. Uma dupla de respeito na Trek-Segafredo.

Cuidado com Pidcock

É caso para dizer que entrou com tudo! Depois de na Omloop Het Niewsblad ter sido protagonista de uma boa recuperação para o grupo da frente, demonstrando que está preparado para rapidamente se afirmar naquele que é o seu primeiro ano no World Tour, Thomas Pidcock mostrou como é mentalmente.

No sábado, fez uma boa corrida, mas uma queda perto do fim estragou-lhe os planos de discutir a vitória. Como reagiu? No domingo esteve sempre atento às muitas movimentações na Kuurne-Bruxelles-Kuurne, não se intimidou com os ciclistas mais experientes a tentarem tirar-lhe o bom posicionamento e atacou o sprint final. Primeiro pódio (terceiro) desde que chegou à Ineos Grenadiers e logo na terceira corrida.

Apesar de não querer centrar a sua carreira apenas nas clássicas, é, para já, nestas corridas em que se espera ver este campeão de ciclocrosse mostrar como pode ser mais um ciclista que, ao concentrar-se na estrada, pode tornar-se num grande nome da modalidade.

Mathieu van der Poel é um desse exemplos. O holandês tentou uma fuga a 80 quilómetros da meta, apanhou o grupo que ia na frente, mas a 1600 metros da meta foi apanhado. É o ciclista da Alpecin-Fenix a dar espectáculo, como se gosta, mas a não conseguir o resultado desejado, o que no final é o mais importante.

Pidcock, que na temporada de ciclocrosse foi consecutivamente batido por Van der Poel, vai dando os seus passos para se juntar à nova elite na estrada, que durante os próximos anos promete umas clássicas de muita emoção.

Na  Kuurne-Bruxelles-Kuurne esteve presente um português. André Carvalho (Cofidis) não conseguiu desta feita terminar a corrida, mas terça-feira terá nova oportunidade, na prova de Le Samyn.

Classificação completa da Kuurne-Bruxelles-Kuurne, via ProCyclingStats.

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20 de maio de 2020

Pedersen à espera de mostrar a camisola do arco-íris num Roubaix molhado

© Trek-Segafredo
Foi um improvável campeão do mundo, mas ainda mais improvável era pensar que o ano que deveria marcar a sua carreira, vestido com uma das camisolas mais apetecíveis do ciclismo, ia ser passado longe das corridas devido a uma pandemia.

Tanto se fala da maldição desta camisola, mas talvez agora se repense no significado. No caso de Mads Pedersen não se trata de não ganhar, afinal nem sequer pode mostrá-la em competição. Mas o dinamarquês não envereda por discursos pessimistas. Para Pedersen, 2020 é uma oportunidade de ser um campeão do mundo numa temporada que não se irá esquecer... Mas claro que espera se esteja a falar de uma época com corridas num calendário alternativo ao que era até agora normal.

"Vai ser uma experiência fixe fazer todas as grandes corridas num tão curto espaço de tempo. É algo novo para todos e vai ser giro", afirmou Pedersen, em declarações divulgadas pela equipa, Trek-Segafredo. Os objectivos do campeão do mundo até se mantêm iguais aos programados no início da temporada. Clássicas do pavé e Volta a França, ainda que agora se inverta a ordem, com a grande volta a surgir primeiro no calendário que a covid-19 obrigou a reestruturar.

Será nas clássicas do pavé, a sua especialidade, que irá à procura de vitórias com a camisola que tantos desejam, mas poucos alcançam a honra de a vestir. Pedersen não quer pensar muito na mudança de calendário, nem no tempo sem competição. Apenas deseja regressar às corridas. "É muito bom ver finalmente um calendário. Agora temos algo por que almejar e preparar. Nas últimas semanas temos andado de bicicleta, mas sem um objectivo real, por isso, ajuda ter novamente um calendário e regressar ao ritmo de corrida", salientou o ciclista de 24 anos.

Pedersen completou 16 dias de corridas em 2020, somando-se mais três em 2019 depois de se sagrar campeão do mundo em Yorkshire, a 29 de Setembro. Este ano começou a temporada na Austrália e esteve no Paris-Nice, a última corrida antes da interrupção forçada devido ao coronavírus. O ciclista foi para casa um dia mais cedo devido ao pedido para que os cidadãos dinamarqueses regressassem ao país antes das fronteiras fecharem.

Entre Austrália e França, Pedersen foi à Bélgica competir em duas corridas mais ao seu estilo: Kuurne-Bruxelles-Kuurne e Omloop Het Nieuwsblad. Ficou longe da disputa pela vitória, no que era suposto ser a preparação para a Volta a Flandres e Paris-Roubaix. Viu-se tão pouco a camisola do arco-íris, mas Pedersen mostra confiança no futuro próximo, principalmente para um dos monumentos, que passou para 25 de Outubro.

Roubaix tem forte possibilidade de ser uma prova marcada por chuva e se com piso seco já há espectáculo, um Roubaix molhado tem tendência a ser uma edição que não se esquece. E Pedersen quer um desses Roubaix: "As clássicas serão o meu principal objectivo e são no final da época, por isso, estou entusiasmado e à espera de um Roubaix molhado."

O dinamarquês demonstra assim ambição para que não seja apenas recordado pelo campeão do mundo que a pandemia não deixou mostrar-se em corridas, querendo aproveitar ao máximo as provas que possam realizar-se a partir de Agosto. Ou melhor, ainda Julho, pois se houver Volta Burgos, será em Espanha que Pedersen regressará (de 28 de Julho a 1 de Agosto), segundo anunciou a Trek-Segafredo.

Os Mundiais na Suíça continuam agendados para 20 a 27 de Setembro, ainda que possam ser adiados e a viagem até poderá ser até ao Médio Oriente, se em terras helvéticas as restrições quanto a aglomerados se mantiveram. A UCI está determinada para que as corridas se realizem, ou seja, Pedersen sabe que poderá não ter muito tempo para vestir a especial camisola (a não ser que seja novamente campeão do mundo), ao contrário do que acontece com Elia Viviani (Cofidis), que será o campeão da Europa por mais tempo. A União Europeia de Ciclismo decidiu não realizar os campeonatos este ano, mantendo a escolha de Trentino, em Itália, para os Europeus em 2021.

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17 de novembro de 2019

Trek-Segafredo com final de temporada memorável no ano de ascensão de Ciccone

(Fotografia: Facebook Trek-Segafredo)
Uma boa parte do melhor da Trek-Segafredo foi guardada para o final da temporada. Não tendo sido uma época ganhadora, 2019 demonstrou que os jovens que a equipa tem contratado, podem mesmo ser apostas ganhas, ainda que no final foram os mais experientes a salvar os números fracos da formação americana. Com a excepção de um. Quando menos se esperava, um desses jovens ciclistas - mas que não tinha estado bem até então - surpreendeu tudo e todos ao sagrar-se campeão do mundo. Mads Pedersen estavam bem encaminhado para ser uma das desilusões da temporada, depois de um 2018 de revelação. Antes Giulio Ciccone tinha sido a grande figura, numa primeira época no World Tour simplesmente brilhante, enquanto a fechar Bauke Mollema conquistou um monumento.

Começando por Pedersen, o próprio admitiu que não teve um bom ano, mas como basta um dia muito bom para tudo mudar, inclusivamente uma carreira, Pedersen teve esse dia no temporal de Yorkshire. Foi uma vitória pela selecção dinamarquesa, mas é a Trek-Segafredo que vai tirar o maior dos proveitos ao ter a camisola do arco-íris e toda a notoriedade que traz a quem a usa e aos patrocinadores.

Poderá servir de motivação para Pedersen recuperar os níveis de 2018 e continuar a evoluir, ainda que a pressão será exponencialmente maior. Tem 23 anos e nas clássicas ninguém o vai menosprezar. Entre Setembro e Outubro a Trek-Segafredo alcançou cinco das suas 11 vitórias na temporada, ao que se soma o título mundial. Se até então nomes como Matteo Moschetti (23 anos), Ryan Mullen (25) e claro Giulio Ciccone (24) eram dos mais falados - principalmente o de Ciccone - por estarem a demonstrar ser ciclistas de futuro, Bauke Mollema, Edward Theuns e Jasper Stuyven mostraram que a experiência também continua a valer e muito à Trek-Segafredo.
Ranking: 10º (8268 pontos)  
Vitórias: 11 (incluindo uma etapa no Giro - acresce o título mundial ganho por Pedersen)  
Ciclistas com mais triunfos: Bauke Mollema e Giulio Ciccone (2)
Estes ciclistas terminaram a época a vencer, ao contrário de um John Degenkolb que praticamente caiu no esquecimento. Aposta completamente falhada da equipa, com o alemão a estar de partida para a Lotto Soudal, para tentar recuperar uma carreira em queda livre. Richie Porte também não consegue reencontrar-se com a sua melhor versão e não terá muitas mais oportunidades, ainda mais com a chegada de Vincenzo Nibali.

Mollema pode estar a ser ultrapassado na hierarquia para as grandes volta, mas vencer um monumento é sempre um marco na carreira e a vitória na Lombardia ajuda a que não se possa dizer que tudo foi mau na temporada para a Trek-Segafredo.

A equipa precisa de continuar a sua reestruturação e apesar de ter contratado um dos veteranos do pelotão, Nibali é para resultados imediatos, também muito a pensar em agradar o patrocinador italiano, Segafredo. Aos poucos, a equipa americana vai construir um bloco que faça de Ciccone o sua figura nas provas por etapas - Kenny Elissonde (Ineos) pode ser um reforço importante para o papel de gregário -, enquanto Pedersen e Mullen serão apostas nas clássicas, sem esquecer o super regular Stuyven - não vence muito, mas está quase sempre entre os melhores -, enquanto no sprint Moschetti e Jacopo Mosca vão ter maior protagonismo.

E haverá ainda um outro campeão do mundo, mas de sub-23, que irá concentrar algumas atenções. O americano Quinn Simmons vai começar a evoluir ao mais alto nível nas provas por etapas. Já agora, Mollema também foi campeão mundial, mas de contra-relógio por equipas misto.

O ano pode ter acabo bem, mas esta equipa precisa de fazer melhor durante toda a temporada tendo em conta os investimentos que faz. As grandes contratações não têm trazido os resultados ambicionados, mas os de jovens talentos que têm chegado estão a mostrar que pode ser muito bem sucedidos. Ciccone foi a maior prova disso, com uma etapa ganha no Giro, a camisola da montanha e ainda foi ao Tour vestir dois dias a amarela. Numa primeira fase de 2020 vai estar ao lado de Nibali na Volta a Itália, mas se continuar a mostrar o mesmo elevado nível, vai ter a sua oportunidade de liderança ainda em 2020.


11 de outubro de 2019

Pedersen parecia "uma criança em dia de Natal" quando recebeu a nova bicicleta e camisola

(Fotografia: © Trek-Segafredo)
Ver Mads Pedersen conquistar o título mundial foi um momento inesperado e muito importante numa Trek-Segafredo à procura de uma identidade difícil de encontrar desde que a sua referência terminou a carreira, Fabian Cancellara. A aposta na contratação de ciclistas mais experientes não tem alcançado os resultados desejados, no entanto, Pedersen é o exemplo do sucesso dos jovens ciclistas que têm integrado a equipa e que muito prometem. Este ciclista irá receber muito mais atenção do que quando foi segundo na Volta a Flandres em 2018, mas antes de ter sentir o peso da responsabilidade, há que aproveitar estes dias de uma fase incrível da carreira, com direito a regalias. A bicicleta personalizada é uma delas e a Trek não desiludiu.

(Fotografia: © Trek-Segafredo)
O dinamarquês tornou-se de repente numa figura e aos 23 anos (fará 24 a 18 de Dezembro) irá então ter de lidar com o peso de uma camisola arco-íris ganha num pelotão com tantos candidatos, mas nenhum esteve à altura do momento, para confirmar favoritismo. Ganhou o "underdog" (aquele que não era de todo favorito). E esse peso não vai ser pouco. Para já, Pedersen tem desfrutado das primeiras semanas como campeão do mundo e as três corridas que disputou terminaram em abandono: Milano-Torino, Tre Valli Varesine e antes o Tour de l'Eurométropole, uma semana depois do seu grande triunfo. Neste final de 2019, Pedersen não sofrerá pressão competitiva e irá estar dedicado às responsabilidades e chamadas que um campeão do mundo terá de fazer fora da estrada, num desporto que vive de dar visibilidade aos patrocinadores.

Matt Shriver, director técnico da Trek-Segafredo, admitiu que quando viu Pedersen alcançar o impensável em Yorkshire, de imediato soube que tinha de ligar para a sede da Trek e pedir uma bicicleta digna de um campeão mundial.

(Fotografia: © Trek-Segafredo)
Minutos depois do ciclista cortar a meta (no domingo, 29 de Setembro), a personalizada Madone SLR  já estava a ser preparada. Um dia depois, a pintura e o quadro estavam aprovados. 24 horas passadas, na terça-feira após a vitória, foram colocados os últimos pormenores, os autocolantes: "All or nothing" (tudo ou nada), "Underdog" (imagem ao lado) e, claro, a referência ao título mundial (imagem em cima). Entretanto, também a camisola era preparada. Todo o equipamento, produzido nos Estados Unidos, foi enviado para a Bélgica, onde chegou na sexta-feira.

O desejo de ver a sua camisola e bicicleta fez Pedersen parecer "uma criança no dia de Natal", como é descrito no site da equipa. "Quando cheguei ao hotel fui directo ao camião para ver a minha nova bicicleta. Foi incrível. Fui dar uma volta, a primeira com o meu novo equipamento e toda a gente apitava e tirava fotografias", contou o dinamarquês. Ainda não acabou uma corrida com a nova máquina, mas terá muitas oportunidades de o fazer e de mostrar o arco-íris na próxima temporada.

2020 será de responsabilidade acrescida para um jovem que já se sabia que tinha talento, mas que até teve um 2019 abaixo das expectativas. Agora estão altíssimas. Será um enorme desafio para Pedersen e para a própria Trek-Segafredo. Apesar da contratação de Vincenzo Nibali, que acaba por ser também para agradar ao patrocinador italiano, ainda que o experiente ciclista pode sempre dar vitórias importantes, é nos mais novos que a equipa se quer centrar cada vez mais.

Giulio Ciccone, Matteo Moschetti, Ryan Mullen serão fortes apostas, com Alexander Kamp a ser mais um dinamarquês a entrar na equipa. Já Juan Pedro Lopez e Michel Ries (mais dois ciclistas a dar o salto da Kometa de Alberto Contador) e o campeão do mundo de juniores Quinn Simmons terão tempo para se adaptar à realidade do World Tour. Esta Trek-Segafredo tem três dos campeões do mundo de Yorkshire, pois também contratou Antonio Tiberi, que venceu a prova de contra-relógio de juniores. Contudo, o italiano irá competir um ano nos sub-23 antes de subir de escalão. E há que não esquecer que Mollema também ganhou o título mundial no contra-relógio de estafeta mista.

Nibali, Richie Porte, Bauke Mollema serão líderes, mas o espaço irá ficar cada vez mais reduzido, ainda mais se a nova geração confirmar as expectativas. E claro, Jasper Stuyven, Edward Theuns, Toms Skujins e o reforço Kenny Elissonde, ciclistas já com 27 e 28 anos, serão importantes para a Trek-Segafredo ter o equilíbrio necessário para conseguir concretizar o objectivo de ser uma equipa ganhadora em todo o tipo de corridas. Este ano soma apenas nove vitórias, mais a de Pedersen em Yorkshire. Muito pouco para o investimento que tem sido feito na formação americana.


30 de setembro de 2019

Portugal cumpre objectivos nuns Mundiais nada fáceis de enfrentar

(Fotografia: © Federação Portuguesa de Ciclismo)
Com o final dos Campeonatos Mundiais em Yorkshire é tempo de fazer balanços e não há dúvidas que países como Estados Unidos, Itália e Holanda saíram bastantes felizes, ainda que as últimas duas selecções tenham visto escapar o título na elite masculina. A Dinamarca também não tem razões de queixas com Mikkel Bjerg a fazer história nos sub-23 (terceiro título consecutivo no contra-relógio) e Mads Pedersen a surpreender tudo e todos na elite. A Bélgica é das equipas que sai mais cabisbaixa, enquanto a selecção de Portugal apontava mais com João Almeida, mas as condições eram difíceis para fazer melhor. Já Rui Costa cumpriu, garantindo o seu quarto top dez em Mundiais.

A comitiva nacional variou entre querer dar experiência aos mais novos - como os juniores Daniela Campos, João Carvalho e André Domingues e também a Maria Martins que, sendo sub-23, correu pela primeira vez na elite por não haver este escalão no sector feminino - e apostar no talento de João Almeida e experiência de Rui Costa, sem esquecer Nelson Oliveira.

Os eleitos para os sub-23 tinham potencial para fazer um bom resultado. João Almeida é um dos jovens que se vai estrear no próximo ano no World Tour, na Deceuninck-QuickStep, André Carvalho está numa das melhores equipas de formação, a americana Hagens Berman Axeon, enquanto Miguel Salgueiro (Sicasal-Constantinos) é um dos principais talentos a emergir em Portugal. Já Emanuel Duarte venceu a classificação da juventude da Volta a Portugal e a geral da Volta a Portugal do Futuro, numa época marcante na LA Alumínios-LA Sport como Continental sub-25.

O mau tempo dificultou a missão dos dois primeiros no contra-relógio, com João Almeida a inclusivamente cair. Na prova em linha, as dificuldades de um percurso que chegou a ser encurtado para que os ciclistas não terminassem já com pouca luz natural, devido ao mau tempo e ao horário da corrida (foi no mesmo dia das juniores femininas), acabaram por deixar Portugal longe de um bom resultado, com nenhum dos ciclistas a conseguir ficar na frente da prova quando começaram a verificar-se cortes. André Carvalho foi o melhor, na 30ª posição, com Emanuel Duarte a abandonar.

Na elite, Nelson Oliveira ficou a 14 segundos da medalha de bronze no contra-relógio, continuando a ficar constantemente entre os melhores do mundo nesta especialidade. Foi oitavo, mas o terceiro posto ficou ali tão perto! O ciclista da Movistar teve depois a missão de ajudar Rui Costa na prova em linha e fez o seu trabalho, tal como José Gonçalves e Rui Oliveira. Em condições meteorológicas miseráveis, que levaram a UCI a cortar duas subidas na fase inicial da corrida, não foi fácil conseguir depois chegar ao fim.

Os três acabariam por abandonar, com Ruben Guerreiro a resistir um pouco mais, ele que poderia funcionar como joker. Porém, também não terminaria, deixando a corrida já depois de garantir que Rui Costa ficava no grupo certo. A partir daí o campeão do mundo de 2013 ficou sozinho. Não foi com Mathieu van der Poel, na movimentação que levou os últimos ciclistas à frente da corrida, pelo que o português ficou a enfrentar a difícil missão de resistir à chuva e frio, sem que ninguém trabalhasse para fechar a diferença. O 10º lugar foi um objectivo cumprido, com Rui Costa a mostrar como tem tendência a aparecer bem nos Mundiais.

"Foi preciso estar muito forte psicologicamente para encarar um Mundial como este, porque foi um dia de muita chuva e frio. Durante uma prova tão longa como esta [261,8 quilómetros], muitas coisas nos passam pela cabeça. As sensações eram boas no início, mas a meio não estava tão bem. Foi preciso ultrapassar esses momentos difíceis, esse sofrimento, para chegar melhor aos últimos quilómetros. A corrida fez-se muito dura com o frio e com a chuva", explicou Rui Costa, citado pela Federação Portuguesa de Ciclismo. O ciclista considera que o percurso original teria feito uma maior selecção de ciclistas mais cedo, contudo ficou satisfeito com mais um top dez, terminando a 1:10 minutos de Mads Pedersen.

O seleccionador José Poeira não pôde contar com Domingos Gonçalves, que não viajou para Inglaterra, alegando motivos pessoais. Um ciclista a menos numa corrida tão difícil, é algo a lamentar, mas Rui Costa finalizou da melhor forma. "Apesar dos colegas terem ajudado o Rui Costa em determinada fase da corrida, ele ficou sozinho durante muito tempo. Nessa circunstância, não podia ter feito mais do que fez. Esteve muito bem", salientou José Poeira.

Os Mundiais não serão de grandes recordações não só para algumas equipas, mas também para a própria organização. A intempérie que marcou quase toda a semana de provas, colocou à prova o poder de decisão dos comissários e nem sempre as opções foram consensuais. O contra-relógio de sub-23 ficou marcado por quedas aparatosas devido às condições da estrada, que teve partes que mais pareciam piscinas. No entanto, a prova não foi adiada, como aconteceu depois com a das senhoras. A UCI decidiu encurtar as corridas dos sub-23 e da elite, por diferentes razões. Esta opção agradou a uns e não a outros, dependendo das características dos ciclistas e do que preferiam ver num percurso.

Depois houve a desqualificação de Nils Eekhoff, que numa fase inicial caiu e recuperou posição no pelotão pedalando atrás do carro da equipa. Os comissários só analisaram a situação no final, com recurso ao vídeo-árbitro, depois do holandês ter ganho a corrida de sub-23. Além de se questionar a dualidade de critérios, comparativamente com o que aconteceu na Volta a Espanha com Primoz Roglic e Miguel Ángel López, também se perguntou porque não foi tomada uma decisão mais cedo, evitando a enorme desilusão que o jovem ciclista foi obrigado a enfrentar ao não ser declarado o vencedor.

A nível de público, Yorkshire foi o esperado, mesmo com o mau tempo, principalmente no fim-de-semana. Afinal, é um público mais do que habituado a esta meteorologia. Porém, a chuva, vento e frio, que limitaram as transmissões televisivas e criaram constrangimentos aos ciclistas, acabando por tirar algum brilho aos Mundiais, mas houve espectáculo, surpresas, drama, um filme completo de bom ciclismo, para contrabalançar um pouco do que de mau se viu.

Para o ano, os Mundiais irão disputar-se no Cantão de Vaud e no de Valais, na Suíça.


29 de setembro de 2019

Um campeão mundial improvável que comprovou 2019 como o ano da nova geração

(Imagem: print screen)
Eram muitos os favoritos, mas só um apareceu. Mathieu van der Poel fez o ataque que se esperava, mas aconteceu algo inesperado: quebrou por completo (acabou a mais de 10 minutos). Com outros dos grandes nomes ou a abandonarem ou a não seguirem a roda do holandês para chegar à frente da corrida - neste último caso foi o exemplo de Peter Sagan e Greg van Avermaet -, ficou em aberto uma surpresa. E assim foi. Mads Pedersen confirmou como 2019 é mesmo o ano em que os mais novos afirmam que estão mais do que preparados para ser as principais figuras. O dinamarquês já não era um total desconhecido, mas agora garantiu que todos o conhecem e reconhecem definitivamente o seu valor.

Chuva, vento, frio... Yorkshire recebeu os Mundiais com uma meteorologia muito agreste. A prova de elite deste domingo foi encurtada de 280 para 261,8 quilómetros. Foram eliminadas duas subidas numa fase inicial e para compensar um pouco, houve mais duas voltas ao circuito final. As dificuldades foram menores, a nível de subidas, mas o tempo prejudicou muito os ciclistas que tentavam sempre estarem bem colocados, em estradas estreitas e extremamente escorregadias.

As ausências daquelas duas subidas também retiraram a possibilidade de ser feita uma selecção de candidatos mais cedo. Sem surpresa foram muitos os incidentes e entre quedas, quebras físicas ou até a admissão que não dava para suportar o frio. Entre os desistentes estiveram o campeão em título até este domingo, Alejandro Valverde, Philippe Gilbert, Remco Evenepoel, Pascal Ackermann, Sam Bennett, Richard Carapaz, Bob Jungels, Dan Martin... Foram 149 abandonos, incluindo os portugueses José Gonçalves, Nelson Oliveira, Rui Oliveira e Ruben Guerreiro. Fizeram o seu trabalho para colocar Rui Costa, que finalizou com o ambicionado top dez (10º a 1:10 minutos de Pedersen). Para dar outra perspectiva, terminaram 46 ciclistas e é preciso recuar a 1999 para se descobrir um número tão baixo: 49. Foi em Verona, com Óscar Freire a ser o campeão naquele ano.

Mas fiquemos por 2019 e há que falar de Mads Pedersen. Em 2018, surpreendeu a própria equipa, a Trek-Segafredo, ao realizar uma temporada fortíssima de clássicas do pavé, principalmente com o segundo lugar na Volta a Flandres. A Trek-Segafredo sabia que ciclista tinha contratado, mas a sua juventude fazia com que a expectativa fosse que precisaria de mais algum tempo para se adaptar e traduzir em resultados o seu potencial. 2019 não decorreu tão bem. Pedersen não confirmou a expectativa que havia aumentada, mas é caso para dizer que deixou o melhor para o fim.

Há uma semana ganhou o Grand Prix d'Isbergues, em França, mas não foi uma corrida que o colocasse no radar para os Mundiais. Nem ele próprio pensava sair de Inglaterra de arco-íris vestido. "É inacreditável. Não esperava isto quando comecei esta manhã. Foi um dia inacreditável", desabafou Pedersen. O dinamarquês não escondeu como sofreu durante as mais de seis horas de prova, mas só esperava que ao ver a meta, todo o sofrimento desaparecesse e pudesse fazer um bom sprint.

Matteo Trentin era o favorito do trio, que contava com o suíço Stefan Kung (terceiro). Gianni Moscon trabalhou mais para poupar o compatriota italiano. Trentin tentou atacar cedo, mas rapidamente ficou sentado naqueles metros finais que coroaram um campeão improvável, mas que ajuda a "refrescar" o ciclismo, que ganha assim uma nova figura, de apenas 23 anos.

A Trek-Segafredo também ganha um novo relevo, poucos dias depois de ter garantido os dois dos campeões mundiais de juniores de Yorkshire, o americano Quinn Simmons (prova em linha) e o italiano Antonio Tiberi (contra-relógio), tem agora um de elite. Mads Pedersen receberá agora outra atenção, da equipa e dos outros ciclistas, sendo um corredor que a Trek-Segafredo mais do que nunca vai esperar que possa tornar-se num homem de clássicas de respeito, na intensa procura pelo sucessor de Fabian Cancellara. A questão será agora perceber como irá reagir Pedersen a inevitável pressão de ser o campeão do mundo, ainda que seja também um ano para desfrutar.

Classificações via First Cycling.





5 de dezembro de 2018

Um 2018 muito a pensar em 2019

(Fotografia: Facebook Trek-Segafredo)
Sem um líder para as grandes voltas com a saída de Alberto Contador, com um líder para as clássicas que demora a reencontrar-se - John Degenkolb -, a época para a Trek-Segafredo não se adivinhava fácil. Com um plantel a precisar de ser reforçado e, principalmente, renovado, 2018 acabou por ser um ano de transição, muito trabalhado fora da estrada para garantir novos rostos, que possam recolocar a equipa na disputa das grandes corridas e não apenas numa atitude de "fazer o melhor possível".

E em ano de transição, dentro do actual plantel, houve quem demonstrasse que pode mesmo ser o futuro, casos de Ryan Mullen e Mads Pedersen. O dinamarquês, de 22 anos, fez segundo na Volta a Flandres, numa exibição tremenda e que o coloca entre um dos potenciais grandes especialistas das clássicas. Ainda se fica pelo potencial, pois também ficou claro durante a temporada que há muito a evoluir, mas que Pedersen tem tudo para ser um homem do pavé, disso não há dúvidas e terminou 2018 com três vitórias. (uma etapa no Herald Sun Tour, na clássica dinamarquesa Fyen Rundt e no Tour de l'Eurométropole). Já Mullen, irlandês de 24 anos, foi mais discreto ainda que com dois triunfos (contra-relógio na Volta a San Juan e o título nacional da especialidade), mas dentro da equipa ouvem-se ecos de como se acredita que tem as características para também ele evoluir para um ciclista forte nas clássicas e também em provas por etapas de uma semana. E claro, está a tornar-se num caso sério no contra-relógio.

Ainda nas clássicas, a Trek-Segafredo conta com dois ciclistas que são dos melhores na actualidade. Jasper Stuyven teve uma regularidade impressionante, como é normal. Terminou no top dez em praticamente todas as clássicas em que participou, somou duas vitórias, mas não conseguiu uma grande vitória para frustração da equipa, que tanto precisava. Até porque John Degenkolb só apareceu, finalmente, na Volta a França. Venceu a etapa de Roubaix, que teve um significado enorme, já que o alemão venceu ali o monumento em 2015.

Para a equipa americana, o triunfo foi de extrema importância, ainda mais olhando para o 2019. A esperança é que se trate mesmo do renascimento de Degenkolb, que até final da temporada mostrou-se mais competitivo. A Trek-Segafredo mantém a esperança de ver o melhor de um ciclista que não mais foi o mesmo desde o atropelamento na pré-época, em 2016. Será uma expectativa moderada, pois não é a primeira vez que Degenkolb parece estar a recuperar a confiança e condição física e depois não consegue estar ao seu melhor nas corridas.

Gianluca Brambilla, Jarlinson Pantano (venceu uma etapa na Volta à Catalunha), Fabio Felline e Giacomo Nizzolo ficaram aquém do esperado, enquanto Bauke Mollema teve a sua derradeira oportunidade como líder, pelo menos no Tour. Confirmou o que já se sabia: não tem capacidade para mais do que um top dez, talvez já nem isso. Porém, tendo como objectivo lutar por etapas resulta muito melhor. Não conseguiu, mas esteve muito na frente, muito activo, a dar espectáculo, tanto no Tour como na Vuelta, onde fez dois segundos lugares, mas até merecia mais. Com a chegada de Richie Porte, talvez seja mesmo a altura do holandês optar definitivamente por este tipo de objectivos.


Ranking: 13º (5428 pontos)
Vitórias: 20 (incluindo uma etapa no Tour)
Ciclista com mais triunfos: Toms Skujins (4)

Houve ainda um Toms Skujins, um daqueles ciclistas que é difícil não se apreciar. Sempre preparado para uma fuga, para uma ataque que poucos acreditam poder ter sucesso, sempre pronto para dar tudo pela equipa. O letão venceu em quatro ocasiões, com destaque para a terceira etapa da Volta à Califórnia, uma corrida que tanto aprecia, mesmo já lá tendo sofrido uma queda grave. Skujins ainda vestiu a camisola de líder da montanha na Volta a França, num dia marcante para o ciclismo da Letónia.

Skujins vai continuar a ser uma das apostas para 2019. Este ano ficou claro que a Trek-Segafredo não podia mais adiar uma renovação dos seus ciclistas. Começou cedo ao garantir Matteo Moschetti, o primeiro ciclista a sair da Polartec-Kometa, equipa de Alberto Contador, que está a funcionar como estrutura de formação da estrutura americana. O italiano, de 22 anos, é uma promessa para as clássicas e para os sprints.

No entanto, a grande preocupação era um homem para as três semanas e neste aspecto, não era possível contratar alguém apenas a pensar que daqui a alguns anos pudesse estar na luta por um Tour ou outra grande volta. Com a indefinição quanto ao futuro da BMC - a marca de bicicletas anunciou que deixaria de ser o patrocinador e demorou a aparecer um substituto -, a Trek-Segafredo fez tudo para contratar Richie Porte. O australiano é um dos melhores voltistas, ainda que não tenha ainda conseguido um pódio ou uma vitória de etapa numa grande volta.

Contudo, percebe-se a confiança nele depositada, visto como se apresenta até a uma queda, um furo ou algo que o afaste dos primeiros lugares ou mesmo da corrida. Aos 33 anos, se conseguir não cair e escapar a aos azares que o perseguem, poderá ser o ciclista que recolocará a Trek-Segafredo na luta por mais do que um top dez.

Mas claro que a idade de Porte tem o seu peso. Por isso a equipa americana foi buscar mais um italiano que promete. Giulio Ciccone foi uma das figuras do último Giro nas etapas de montanha e foi nono na Volta aos Alpes. A Bardiani-CSF rapidamente percebeu que seria impossível segurar o jovem de 23 anos. Enquanto Porte é o homem para o resultado imediato, Ciccone irá ser a aposta para o futuro próximo, mas já com destaque a partir de Janeiro.

O mesmo iria acontecer com Ivan Ramiro Sosa. É mais um puro talento colombiano que Gianni Savio foi buscar para a Androni Giocattoli-Sidermec. Foi anunciado como reforço, o que deixava a Trek-Segafredo numa posição muito favorável na construção de uma equipa forte. Porém, soube-se mais tarde que não havia qualquer contrato assinado e a Sky intrometeu-se. Ainda não é oficial, mas o colombiano terá sido desviado para a formação britânica, num dos episódios insólitos deste mercado de transferências e até já vai falando como um corredor que se prepara para ajudar Chris Froome.

Um rude golpe para a Trek-Segafredo, que deixou escapar um ciclista que promete e muito. Por outro lado, houve quem não desperdiçasse a oportunidade de assinar pela equipa americana. Edward Theuns está de regresso após um ano para esquecer na Sunweb, em mais um reforço para o bloco das clássicas.

Houve várias saídas, principalmente de ciclistas mais velhos, mas também de Nizzolo, por exemplo. Ruben Guerreiro também vai trocar de camisola. O ciclista português nunca alcançou a estabilidade desejada, muito devido aos constantes problemas, como quedas ou questões de saúde. Sempre que se apresentava em boa forma, algo acontecia. Terminou a temporada com um sexto lugar na Volta à Turquia e prepara-se agora para se juntar ao director José Azevedo e ao companheiro José Gonçalves na Katusha-Alpecin, esperando encontrar a regularidade necessária para triunfar a este nível e que este ano, a falta dela, lhe custou uma presença na Volta a Espanha.

Para a Trek-Segafredo foi então um 2018 muito a pensar em 2019, pelo que as expectativas e as responsabilidades vão ser bem maiores. Pelo menos, operou finalmente as mudanças de rejuvenescimento de uma equipa a precisar urgentemente de sangue novo.

Permanências: John Degenkolb, Jasper Stuyven, Bauke Mollema, Ryan Mullen, Gianluca Brambilla, Jarlinson Pantano, Mads Pedersen, Toms Skujins, Fabio Felline, Niklas Eg, Beppu Fumiyuki, Julien Bernard, Nicola Conci, Koen de Kort, Alex Frame, Michael Gogl, Markel Irizar, Kiel Reijnen e Peter Stetina.

Contratações: Richie Porte (BMC), Edward Theuns (Sunweb), Giulio Ciccone (Bardiani-CSF), Matteo Moschetti (Polartec-Kometa), Will Clarke (EF Education First-Drapac p/b Cannondale) e Alex Kirsch (WB Aqua Protect Veranclassic).

»»De época prometedora, a possível desilusão, mas com um final apoteótico««

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3 de abril de 2018

Mads Pedersen, o ciclista que surpreendeu a própria equipa

(Fotografia: © Trek-Segafredo)
"Não estamos surpreendidos que ele o pudesse fazer, mas é uma surpresa que o tenha feito tão cedo." O director da Trek-Segafredo, Luca Guercilena não escondeu que o segundo lugar de Mads Pedersen na Volta a Flandres foi algo completamente inesperado. O dinamarquês acaba por se tornar na grande sensação desta fase das clássicas, a par de Wout van Aert (Vérandas Willems-Crelan ). Se o belga é cobiçado por muitas equipas do World Tour, Pedersen garantiu um lugar que pode começa a conquistar um lugar de destaque na Trek-Segafredo. E para dar tranquilidade e um voto de confiança ao jovem dinamarquês, a equipa renovou o contrato até 2020.

22 anos e um "futuro muito brilhante" pela frente. Pelo menos assim espera Guercilena, pois de sucessos fugazes está o ciclismo e o desporto em geral cheio. "Vê-lo exibir-se assim esta semana e especialmente ter ficado em segundo na Volta a Flandres, excedeu todas as expectativas. Era o que esperávamos daqui a uns anos, mas fazê-lo agora, aos 22 anos, é de prever um futuro muito brilhante, que estamos felizes por partilhá-lo com ele", salientou o responsável da Trek-Segafredo.

Guercilena refere-se também ao quinto lugar na Dwars door Vlaanderen (Através da Flandres), o que por si só já seria considerado um excelente resultado para o jovem ciclista. Antes tinha abandonado na E3 Harelbeke e na Gent-Wevelgem, pelo que não era visto nem como outsider para um pódio, ou sequer top dez na Volta a Flandres. Era, isso sim, um elemento para ajudar Jasper Stuyven. No final do monumento, quando Pedersen estava ao lado dos dois homens da Quick-Step Floors no pódio - Niki Terpstra, o vencedor, e Philippe Gilbert -, Dirk Demol admitia, ele também, a admiração por ver o seu ciclista naquele posto. "Quando se estava na linha de partida, havia 15 a 20 candidatos ao pódio e acho que ninguém estava a pensar no Mads", afirmou o director desportivo.

Além do segundo lugar, há que também destacar que Pedersen foi o único que ainda conseguiu manter Niki Terpstra à vista quando o holandês passou pelo trio que seguia na frente. Cortou a meta a apenas 12 segundos do vencedor e só o Paterberg fez com que não conseguisse colocar mais em sentido o corredor da Quick-Step Floors.

Para a Trek-Segafredo esta subida ao estrelato de Pedersen é muito bem-vinda, principalmente tendo em conta como aquele que deveria estar em destaque nesta fase da temporada está completamente apagado: John Degenkolb. Jasper Stuyven está a cumprir ainda que sem encantar. Contudo, para quem ainda tem na memória as exibições de Fabian Cancellara, ver Pedersen correr como fez na Flandres, deixa a equipa a respirar um pouco melhor. Não só Degenkolb está a ser uma tremenda desilusão - as duas vitórias nos troféus espanhóis no início de temporada não foram a confirmação do regresso do alemão ao seu melhor -, como a equipa só soma oito vitórias em 2018, apenas uma do escalão do World Tour. O segundo lugar no monumento soube a um pequeno triunfo.

Agora há que libertar Pedersen e já para o Paris-Roubaix o dinamarquês prometeu aos seus directores que podem contar com ele. Com o segundo posto na Flandres, Stuyven pode partir como líder, mas Pedersen não será apenas um homem de trabalho. É a última corrida do ano no pavé, pelo que a Trek-Segafredo até ganhou uma vantagem táctica com o aparecimento precoce do dinamarquês. E claro que não se pode ignorar que em júnior ganhou o Paris-Roubaix, foi vice-campeão do mundo e também conquistou a Gent-Wevelgem como sub-23. Neste escalão, venceu ainda uma etapa no Tour de l'Avenir em 2015.

A Trek-Segafredo foi buscar Pedersen à equipa alemã, do segundo escalão, Stölting Service Group. Antes, o dinamarquês evoluiu na estrutura da Cult Energy durante dois anos. No primeiro a equipa do seu país era Continental e no seguinte passou a Profissional Continental.

Claro que haverá precaução ao criar expectativas demasiado altas, demasiado cedo para Pedersen. Agora há que saber lidar com uma maior atenção dos seus adversários e principalmente lidar quando nem tudo correr tão bem. Mas não restam dúvidas que a equipa americana quer segurar um ciclista que está a ser apelidado de estrela em ascensão. "Quando contratámos o Mads no ano passado, obviamente que sabíamos que tinha muito potencial, que comprovou durante a sua primeira temporada, ao ganhar cinco corridas", salientou Guercilena. "Não restam dúvidas da sua força. Este ano continua na mesma e até elevou o seu nível, ganhando uma etapa na Austrália [na Herald Sun Tour] e realizou um contra-relógio muito sólido no final de um duro Tirreno-Adriatico [foi quarto]", acrescentou.

Pedersen parece feito para estas clássicas e fica desde já com o seu nome gravado como um dos ciclistas da nova geração a seguir. Há um ano foi 95º no Paris-Roubaix, na sua estreia na categoria de elite. Depois da fase das clássicas, a Trek-Segafredo levou-o ao Giro para o testar e o dinamarquês não desiludiu, tendo chegado ao fim. Foi campeão nacional, venceu também a volta do seu país e antes tinha conquistado a Tour du Poitou Charentes, em França.

"Estava feliz com a vitória no início da temporada, na Austrália, e a mostrar que estava num bom caminho para a primavera. E obviamente que estou orgulhoso dos resultados desta semana. Foi uma grande forma de começar, mas ainda sou jovem e tenho de ganhar experiência, por isso, espero que haja mais por acontecer. Por agora estou focado no Paris-Roubaix, a minha corrida preferida e talvez daqui a uns anos esteja à procura de uma vitória", afirmou o ciclista, ao ser anunciada a sua renovação de contrato. Pedersen revela estar com os pés bem assentes no chão, mas também ciente que tem o potencial necessário para continuar a ascender e afirmar-se no topo.


É provável que nos próximos meses Pedersen volte a um segundo plano até porque se entrará numa fase de temporada diferente, com a semana das Ardenas e cada vez mais direccionada para os voltistas. Mas Pedersen não mais estará no anonimato. Na Dinamarca já se fala de na Flandres haver um candidato a suceder a Rolf Sørensen, o último ciclista daquele país a lá vencer, em 1997. Mas isso só para o ano, quem sabe. No domingo, no Paris-Roubaix, certamente que será recordado que nenhum dinamarquês venceu no Inferno do Norte.

»»Sagan avisa que está na altura dos seus adversários acordarem««

»»Recital de Terpstra numa desunião que fortalece ainda mais a Quick-Step Floors««

1 de abril de 2018

Recital de Terpstra numa desunião que fortalece ainda mais a Quick-Step Floors

Terpstra ganhou o seu segundo monumento (Fotografia: Volta a Flandres)
Estavam todos mais do que avisados. A Quick-Step Floors era a equipa temida, com quatro ciclistas candidatos a ganhar e outros três de grande qualidade. No entanto, os adversários estiveram na Volta a Flandres a pensar em si, a controlar, por vezes a parecer terem mais medo do que os outros poderiam fazer, do que propriamente interessados em fazer algo. Quando a Quick-Step Floors mexeu - com um "incentivo" de Vincenzo Nibali - foi o filme de sempre: os restantes candidatos olharam para Peter Sagan. O eslovaco até tentou, mérito nisso. Mas foi tarde e completamente ineficaz. Os restantes pouco fizeram. Agradeceu a Quick-Step Floors. Foi perfeita e logo na primeira tentativa acertou. Niki Terpstra atacou a 30 quilómetros da meta, apanhou o trio da frente e lá foi ele.

Ganhar isolado é algo que sabe fazer tão bem. Não vence muito, mas o holandês tem um currículo de fazer inveja a muitos dos grandes nomes das clássicas. Este domingo juntou a Volta a Flandres ao Paris-Roubaix. Dois monumentos! Nem Peter Sagan, nem Greg van Avermaet, os dois principais nomes da actualidade das clássicas (juntamente com Philippe Gilbert), se podem gabar deste feito... Niki Terpstra também já tem duas Dwars door Vlaanderen (Através da Flandres), há pouco mais de uma semana conquistou o E3 Harelbeke e em provas por etapas tem o Eneco Tour, a Volta à Valónia e duas Voltas ao Qatar. E 2018 vai ser um ano que não irá esquecer, pois foi a terceira vitória em cinco semanas. Tudo começou no final de Fevereiro com o segundo triunfo na carreira no Le Samyn. Foi ainda três vezes campeão nacional.

21ª vitória esta temporada da Quick-Step Floors e sendo um conjunto que aposta muito forte nesta fase das clássicas - afinal é belga -, o director Patrick Levefere só viu os seus ciclistas deixar escapar a Gent-Wevelgem no seu país. Peter Sagan estragou os planos de Elia Viviani.

Terpstra era uma hipótese para a Flandres, Philippe Gilbert outra, Zdenek Stybar e Yves Lampaert mais duas. Que luxo! Há um ano Gilbert acelerou a mais de 50 quilómetros da meta e nunca mais ninguém o viu. Vitória épica. Desta vez foi uns quilómetros depois, mas a receita foi a mesma. A figura, desta feita, foi Niki Terpstra. 33 anos, oito na Quick-Step Floors. Não é dos ciclistas mais consistente em termos de resultados e desde que venceu o Paris-Roubaix, há quatro anos, que só de quando em vez apareceu. Agora está numa forma em tudo idêntica àquele 2014 e com a conquista da Flandres, ganhou novamente um lugar de destaque entre os candidatos para o monumento francês do próximo domingo.

Terpstra emocionou-se. Não escondeu como em criança via Roubaix e Flandres e sonhava em um dia lá estar. Em um dia vencer. Agora ganhou os dois míticos monumentos - desde Adrie van der Poel em 1986, que nenhum holandês não ganhava na Volta a Flandres - e ajudou a Quick-Step Floors a confirmar que pode ter perdido Tom Boonen, mas a retirada do belga apenas serviu para libertar todos os restantes ciclistas.

Deixou de existir um líder destacado e esta forma de haver espaço para todos lutarem por vitórias está a ser uma táctica perfeita. O Paris-Roubaix do próximo domingo fecha a fase das clássicas do pavé e ninguém parece encontrar forma de desestabilizar a estrutura belga. Para tal teriam de lutar com armas idênticas. E como nenhuma equipa tem o poderio da Quick-Step Floors, resta unir esforços entre rivais. Para isso terão de colocar os egos de parte e principalmente perceber que têm de trabalhar, mesmo com Peter Sagan, se quere discutir a vitória em Roubaix. Na Quick-Step Floors é a união que faz literalmente a força, contudo, ninguém esteve disponível na Flandres para se unir a adversários. Erro crasso.

Todos os líderes ficaram sozinhos, com a excepção da Sky. No entanto, optaram por tentar de quando em vez acelerar, mas sem ajudar quando outro o fazia. Sagan não está definitivamente disponível para levar ninguém na roda e, de repente, há quem nem consiga estar na discussão das corridas... O pior é que nem o tricampeão do mundo consegue. Nesta próxima semana haverá muito a pensar de como se irá encarar um Paris-Roubaix que ameaça ser chuvoso. A Quick-Step Floors volta a ser a grande candidata pelo seu todo. Os restantes terão de repensar se é individualmente que quererão enfrentar o pavé do Inferno do Norte.

A equipa belga colocou ainda Philippe Gilbert no pódio, com Mads Pedersen a ser o único do trio que esteve na frente que não perdeu o contacto com Terpstra quando este ultrapassou como se fosse de moto. Dylan van Baarle (Sky) e Sebastian Langeveld (EF Education First-Drapac) não são uns inexperientes neste tipo de corridas, mas foram banalizados por um irresistível Terpstra. 22 anos e Pedersen está a dar cada vez mais garantia a uma Trek-Segafredo que começa a não saber o que fazer com um John Degenkolb que mal se vê. Quando se vê.

Uma palavra para Wout van Aert. Na estreia na Volta a Flandres foi dos poucos que tentou mexer na corrida quando Terpstra saiu atrás de um surpreendente Vincenzo Nibali (o italiano quebrou logo a seguir, mas o 24º lugar é um excelente resultado para quem correu pela primeira vez nesta prova). Falta experiência ao jovem belga da Vérandas Willems-Crelan. Foi nono e tem todas as qualidades para um dia discutir a Flandres e o Paris-Roubaix.

A Quick-Step Floors fechou o top dez com Zdenek Stybar, mas há que referir o 13º classificado. É incrível como aconteceu tudo a Sep Vanmarcke (EF Education First-Drapac). Caiu, furou, teve problemas mecânicos e ainda assim foi juntamente com Wout van Aert e Sagan (sexto) quem mostrou querer fazer algo quando Terpstra já lá ia bem longe. Ao ver que ninguém ajudava, percebeu que o esforço era inglório.

Que venha o Paris-Roubaix. É uma corrida menos propensa a controlos como aconteceu na Flandres, pelo que jogar ao ataque é muitas vezes a melhor táctica. A Quick-Step Floors, que poderá apresentar exactamente o mesmo sete de Flandres, tem toda a vantagem para assumir esta forma de correr. Os adversários precisam de fazer mais do que olhar apenas para o que Peter Sagan e o escudeiro Daniel Oss fazem.

Quanto aos portugueses, Nelson Oliveira ainda chegou a aparecer no grupo principal, antes de este ficar reduzido aos principais candidatos. Foi 62º a 8:18 minutos. O colega da Movistar, Nuno Bico, abandonou, assim como José Gonçalves, da Katusha-Alpecin.

Classificação via ProCyclingStats.


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