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3 de julho de 2019

Sprints sem figuras de peso

(Fotografia: © ASO/Pauline Ballet)
Por um lado, há um reforço da sensação que terminou uma era com a ausência de Mark Cavendish e Marcel Kittel da Volta a França. Por outro, também não vai Fernando Gaviria e Nacer Bouhanni, o primeiro uma das grandes figuras actual e para os próximos anos no sprint, o segundo alguém que ameaça ser um desperdício de talento. A estes nomes junta-se John Degenkolb. Não é só o fim de uma era, é mesmo um Tour sem um lote importante de sprinters.

Para Mark Cavendish é um enorme desgosto. O próprio não o esconde, considerando que estava em forma para fazer mais um Tour, o 13º. Porém, tem tido épocas demasiado inconstantes devido ao vírus Epstein-Barr. Este ano seria mais um a tentar regressar ao mais alto nível, mas o britânico não convence. Preparou a temporada para tentar aparecer no Tour, como no ano passado. Mas na Dimension Data optou-se por Giacomo Nizzolo, um estreante, e Edvald Boasson Hagen. Não terá sido uma decisão consensual, pois segundo a Press Association, citada pela Cycling Weekly, o director de performance, Rolf Aldag, queria Cavendish na grande volta, mas Doug Ryder, o director da equipa, decidiu excluir o britânico.

Desde 2007, quando se estreou no Tour, que Cavendish nunca tinha falhado um Tour. Aos 34 anos, está a quatro vitórias de igualar o recorde de vitórias de etapas de Eddy Merckx, mas agora sim, começa a parecer que o objectivo de carreira que lhe resta não irá ser alcançado.

O homem que fez Cavendish perceber que não era imbatível, como próprio britânico já afirmou, está num período sabático. Marcel Kittel rescindiu contrato em Maio com a Katusha-Alpecin para tentar recuperar a vontade de estar novamente a competir ao mais alto nível. Estreou-se em 2012 e só falhou em 2015 quando estava a recuperar de um problema de saúde. Soma 14 vitórias de etapa. O que vai ser da carreira de Kittel ainda se está por perceber, apesar de não faltarem interessados, a começar pela Jumbo-Visma. Porém, por agora, é altura de se dedicar à sua recuperação psicológica e também à paternidade. O ciclista anunciou há umas semanas que a sua mulher está grávida.

Quanto a Fernando Gaviria, é uma lesão no joelho que o afasta do Tour. Aos 24 anos tem tudo para ser um dos grandes nomes do sprint mundial e marcar ele uma era. Seria a sua segunda Volta a França. Na estreia, em 2018, somou logo duas vitórias de etapa e vestiu a camisola amarela por um dia. Abandonou o Giro devido ao problema no joelho e agora falha o Tour, para desilusão da UAE Team Emirates. Já Alexander Kristoff não se deverá importar muito. Será o líder nos sprints, não esquecendo que há um ano conquistou a desejada etapa dos Campos Elísios.

De Nacer Bouhanni só se pode esperar que ainda não seja um caso perdido. Aos 28 anos está a passar ao lado de uma grande carreira. Pelo segundo ano consecutivo fica de fora do Tour por opção dos responsáveis da Cofidis, tendo já falhado outro por uma lesão na mão, por ter dado um murro a um homem num hotel, que estaria a fazer barulho. Está mais do que visto que só há um caminho a seguir para Bouhanni: sair da Cofidis. Christophe Laporte será novamente a aposta da equipa francesa.

John Degenkolb (30 anos) também fica de fora por opção, com a Trek-Segafredo a preferir rodear Richie Porte de ciclistas para o apoiar na luta pela geral. Há um ano Degenkolb venceu na etapa de Roubaix. Foi um triunfo emotivo. Não só porque já tinha ganho o Paris-Roubaix, mas porque há muito que não sabia o que era uma grande vitória. Porém, não se concretizou a esperança que aquele triunfo seria o tónico para Degenkolb recuperar a sua melhor versão. O alemão nunca mais foi o mesmo depois do atropelamento durante o estágio, ainda como ciclista da Giant-Alpecin (actual Sunweb), em 2016. Fala-se que poderá estar a caminho da Lotto Soudal, para uma nova tentativa de reavivar a carreira.

Há outro francês ausente por opção da equipa, com a Groupama-FDJ a apostar tudo em Thibaut Pinot para a geral, deixando de fora Arnaud Démare (27 anos).

São ausências de vulto, mas não significa que não haverá espectáculo nos sprints, até porque há novos nomes a ganhar força. Além dos referidos Kristoff e Laporte, Dylan Groenewegen (26 anos, Jumbo-Visma) está, como Gaviria, a afirmar-se como um dos grandes sprinters. Soma três vitórias no Tour, incluindo nos Campos Elísios. Elia Viviani (30 anos, Deceuninck-QuickStep) não está a ter temporada ao nível de 2018, mas já confirmou que é mesmo sprinter para ganhar aos melhores e está com uma fome enorme de vitórias! Será apenas a sua segunda participação no Tour e se ganhar, fará o pleno em grandes voltas.

Sem Tom Dumoulin, Michael Matthews tem responsabilidade acrescida na Sunweb, mas há que ter em conta um outro nome: Cees Bol. Jovem talento holandês de 23 anos, que este ano começou a ganhar (já são duas) e é um ciclista a manter debaixo de olho. Matthews e Bol foram recompensados esta quarta-feira com uma extensão de contrato até 2021. Outro jovem a ter em conta é Jasper Philipsen, mas estará "tapado" por Alexander Kristoff na UAE Team Emirates. Será um Tour de aprendizagem para o belga de 21 anos.

Caleb Ewan encontrou na Lotto Soudal a equipa que o serve na perfeição, venceu duas etapas no Giro e quer agora mostrar-se no grande palco do Tour na sua estreia. Sonny Colbrelli (Bahrain-Merida) é sempre um ciclista a ter em conta, tal como Matteo Trentin, ainda que o corredor da Mitchelton-Scott não é o chamado sprinter puro, como os restantes ciclistas aqui referidos. Mas vai querer estar na luta.

Um nome da velha guarda é André Greipel. Está completamente em quebra e a mudança para a Arkéa Samsic não foi nada positiva. Aos 36 anos, o melhor do alemão já passou, mas fica a curiosidade de ver se haverá um último fôlego deste excelente sprinter que tem 11 vitórias de etapa na Volta a França.

Do lado oposto está Rick Zabel. Ciclista com qualidade, jovem (25 anos), mas até agora algo na sombra de líderes para quem tinha de trabalhar. Chegou o momento de se mostrar e comprovar que não tem só apelido famoso, mas também tem o que é necessário para singrar ao mais alto nível no sprint.

E depois há um Peter Sagan, aquele que quer tirar o recorde do pai de Rick. Tal como Eric Zabel tem seis camisolas verdes (dos pontos). O eslovaco está irreconhecível em 2019. Desiludiu nas clássicas e só a espaços se vai vendo um pouco do poderoso ciclista que se sabe que é. A ver vamos se é no Tour que dá a volta a uma fase menos boa na carreira. Michael Matthews é um dos seus rivais à camisola verde, tendo-a conquistado há dois anos, quando Sagan foi expulso do Tour.

A Volta a França começa em Bruxelas no sábado e com uma primeira camisola amarela à espera de um sprinter ficar com ela.


19 de fevereiro de 2019

Senhores sprinters cheguem-se à frente

Démare vs Gronewegen, um luta que se vai repetir este ano
(Fotografia: © João Fonseca/Federação Portuguesa de Ciclismo)
Marcel Kittel, André Greipel, Fernando Gaviria, Dylan Groenewegen, as actuais referências do sprint têm vindo ao Algarve em anos recentes juntar umas vitórias aos seus excelentes currículos. Deste poderoso quarteto ganhador é Groenewegen quem repetirá a presença este ano, depois de ter ganho as duas etapas aos sprint de 2018 da Algarvia. No entanto, como tem sido habitual nesta corrida portuguesa, alguns dos melhores do mundo escolhem o sul do país para competir neste início de temporada e nesta quarta-feira teremos a oportunidade de ver grandes nomes em acção e de bem perto.

A Volta ao Algarve arranca esta quarta-feira em Portimão, com Lagos à espera de conhecer o primeiro camisola amarela. A expectativa é que termine ao sprint e teremos então, além do ciclista da Jumbo-Visma, John Degenkolb (Trek-Segafredo), Arnaud Démare (Groupama-FDJ), Pascal Ackermann (Bora-Hansgrohe), Edvald Boasson Hagen (Dimension Data), Fabio Jakobsen (Deceuninck-QuickStep) e Christophe Laporte (Cofidis). A estes junta-se uma jovem promessa que está a começar bem a carreira no World Tour, Jasper Philipsen (UAE Team Emirates) e há que não menosprezar o italiano da Caja Rural Matteo Malucelli e o experiente belga da Wanty-Groupe Gobert Timothy Dupont.

Um misto de sprinters consagrados, com vitórias na Volta a França e em monumentos do ciclismo, e de jovens a procurar a afirmação, destacando-se Ackermann, 25 anos, o campeão alemão, acabinho de ganhar a Clássica de Almeria e que no ano passado até venceu mais do que Peter Sagan e alguns dos triunfos foram em provas do World Tour: no Critérium du Dauphiné, Volta à Romandia e Prudential RideLondon-Surrey, por exemplo. Há ainda Jakobsen, o holandês de 22 anos, que no seu primeiro ano na equipa belga somou logo sete vitórias.

Além de Ackermann, também John Degenkolb - que já venceu na Algarvia e precisamente em Lagos, em 2011 - somou uma vitória este fim-de-semana, na última etapa do Tour de la Provence. Será que é desta que o alemão recupera a sua melhor versão? Groenewegen venceu a derradeira tirada da Volta à Comunidade Valenciana, Boasson Hagen ganhou a primeira (um contra-relógio) dessa corrida espanhola e Laporte conquistou duas tiradas na Etoile de Bessèges, ficando também com a geral e classificação por pontos. Démare vai começar a temporada na Volta ao Algarve, tal como Jakobsen.

A primeira etapa da Algarvia é a mais longa, com 199,1 quilómetros. Mas, como tem sido habitual, os sprinters terão ainda outra oportunidade, no sábado. Mais um dia longo, com 198,3 quilómetros, com início em Albufeira e meta em Tavira.



Os portugueses

Não sendo um país de sprinters puros, aqueles ciclistas que têm características para discutir estas etapas não vão desperdiçar a oportunidade para medir forças com os melhores do mundo. Luís Mendonça, agora na Rádio Popular-Boavista, fica ainda mais motivado por ter a possibilidade de se testar frente aos grandes nomes do ciclismo. O experiente Samuel Caldeira e Daniel Mestre (W52-FC Porto), João Matias (Vito-Feirense-BlackJack), Daniel Freitas (Miranda-Mortágua), Pedro Paulinho ou Rafael Silva da Efapel são corredores que vão tentar intrometer-se nesta luta de titãs no sprint. No caso de Rafael faltará perceber como estará fisicamente depois de ter terminado no domingo a exigente Volta à Colômbia.

A Volta ao Algarve realiza-se entre quarta-feira e domingo, mantendo um percurso tradicional de duas etapas para sprinters, duas para trepadores e um contra-relógio individual. Contará com 12 equipas do World Tour, quatro Profissionais Continentais - o novo escalão da W52-FC Porto - e a oito formações portuguesas Continentais.

Terá novamente um pelotão com alguns dos principais nomes internacionais, mas nenhum dos recentes vencedores estará presente - Geraint Thomas, Michal Kwiatkowski, Primoz Roglic, Tony Martin e Richie Porte -, pelo que certo é que haverá um novo campeão da Algarvia. Dos portugueses que representam equipas estrangeiras, estarão na corrida José Gonçalves e Ruben Guerreiro da Katusha-Alpecin, o campeão nacional de estrada e contra-relógio Domingos Gonçalves (Caja Rural) e Amaro Antunes, no regresso do filho pródigo à "sua" corrida, dois anos depois de ter ganho no Malhão, agora como ciclista do World Tour, na polaca CCC.

»»Perfis das etapas da 45ª Volta ao Algarve««

»»Lista de inscritos revela mais um pelotão competitivo na Volta ao Algarve««

17 de fevereiro de 2019

Degenkolb angariou mais de 10 mil euros em apenas um dia para salvar corrida de Roubaix sub-19

(Fotografia: Trek-Segafredo)
Quando soube que o Paris-Roubaix sub-19 estava em risco de não se realizar devido à falta de fundos, John Degenkolb não hesitou em fazer o possível para salvar a corrida. Não só se dispôs a avançar ele próprio com dinheiro, como criou um crowdfunding para tentar amealhar pelo menos 10 mil euros. Em apenas um dia, não só atingiu a marca desejada, como a ultrapassou.

Degenkolb, vencedor deste monumento em 2015 e que este domingo venceu a quarta etapa do Tour de la Provence, doou 2500 euros, mas prontificou-se a aumentar a quantia caso não conseguisse atingir a marca. Através da plataforma gofundme, o ciclista alemão apelou à ajuda de todos para salvar a corrida de juniores e quem doasse no mínimo 25 euros receberia ainda uma t-shirt especial alusiva a Degenkolb em Roubaix. Mais de 300 pessoas já responderam ao apelo do corredor da Trek-Segafredo e o valor já ultrapassou os 13 mil euros, no momento em que este texto é escrito.

Na apresentação da campanha de crowdfunding, Degenkolb admite que caiu que "nem uma bomba" a notícia que a corrida sub-19 de Roubaix poderia não se realizar devido à falta de dinheiro. "Imediatamente tornou-se claro para mim que queria fazer tudo o que era possível para prevenir o pior cenário. Não apenas por eu ter uma relação especial com o Paris-Roubaix, uma corrida que me fascina desde criança e que influenciou-me directamente com a fascinação pelo ciclismo, mas também pela importância em apoiar jovens ciclistas", lê-se.

Degenkolb tem sido muito activo em contribuir para que os mais novos tenham oportunidades para serem ciclistas, pelo que ficou a garantia que todo o dinheiro angariado pelo actual campanha será utilizado para salvar a corrida de juniores de Roubaix, com o valor extra a ter como destino a associação Les Amis de Paris-Roubaix (Amigos de Paris-Roubaix), uma associação da qual é embaixador e que tem garantido a manutenção e, quando necessário a restauração, de um percurso histórico, com foco nos sectores de pavé.

O crowdfunding continua aberto e para os interessados em ajudar, basta seguir este link para a página da campanha.

5 de dezembro de 2018

Um 2018 muito a pensar em 2019

(Fotografia: Facebook Trek-Segafredo)
Sem um líder para as grandes voltas com a saída de Alberto Contador, com um líder para as clássicas que demora a reencontrar-se - John Degenkolb -, a época para a Trek-Segafredo não se adivinhava fácil. Com um plantel a precisar de ser reforçado e, principalmente, renovado, 2018 acabou por ser um ano de transição, muito trabalhado fora da estrada para garantir novos rostos, que possam recolocar a equipa na disputa das grandes corridas e não apenas numa atitude de "fazer o melhor possível".

E em ano de transição, dentro do actual plantel, houve quem demonstrasse que pode mesmo ser o futuro, casos de Ryan Mullen e Mads Pedersen. O dinamarquês, de 22 anos, fez segundo na Volta a Flandres, numa exibição tremenda e que o coloca entre um dos potenciais grandes especialistas das clássicas. Ainda se fica pelo potencial, pois também ficou claro durante a temporada que há muito a evoluir, mas que Pedersen tem tudo para ser um homem do pavé, disso não há dúvidas e terminou 2018 com três vitórias. (uma etapa no Herald Sun Tour, na clássica dinamarquesa Fyen Rundt e no Tour de l'Eurométropole). Já Mullen, irlandês de 24 anos, foi mais discreto ainda que com dois triunfos (contra-relógio na Volta a San Juan e o título nacional da especialidade), mas dentro da equipa ouvem-se ecos de como se acredita que tem as características para também ele evoluir para um ciclista forte nas clássicas e também em provas por etapas de uma semana. E claro, está a tornar-se num caso sério no contra-relógio.

Ainda nas clássicas, a Trek-Segafredo conta com dois ciclistas que são dos melhores na actualidade. Jasper Stuyven teve uma regularidade impressionante, como é normal. Terminou no top dez em praticamente todas as clássicas em que participou, somou duas vitórias, mas não conseguiu uma grande vitória para frustração da equipa, que tanto precisava. Até porque John Degenkolb só apareceu, finalmente, na Volta a França. Venceu a etapa de Roubaix, que teve um significado enorme, já que o alemão venceu ali o monumento em 2015.

Para a equipa americana, o triunfo foi de extrema importância, ainda mais olhando para o 2019. A esperança é que se trate mesmo do renascimento de Degenkolb, que até final da temporada mostrou-se mais competitivo. A Trek-Segafredo mantém a esperança de ver o melhor de um ciclista que não mais foi o mesmo desde o atropelamento na pré-época, em 2016. Será uma expectativa moderada, pois não é a primeira vez que Degenkolb parece estar a recuperar a confiança e condição física e depois não consegue estar ao seu melhor nas corridas.

Gianluca Brambilla, Jarlinson Pantano (venceu uma etapa na Volta à Catalunha), Fabio Felline e Giacomo Nizzolo ficaram aquém do esperado, enquanto Bauke Mollema teve a sua derradeira oportunidade como líder, pelo menos no Tour. Confirmou o que já se sabia: não tem capacidade para mais do que um top dez, talvez já nem isso. Porém, tendo como objectivo lutar por etapas resulta muito melhor. Não conseguiu, mas esteve muito na frente, muito activo, a dar espectáculo, tanto no Tour como na Vuelta, onde fez dois segundos lugares, mas até merecia mais. Com a chegada de Richie Porte, talvez seja mesmo a altura do holandês optar definitivamente por este tipo de objectivos.


Ranking: 13º (5428 pontos)
Vitórias: 20 (incluindo uma etapa no Tour)
Ciclista com mais triunfos: Toms Skujins (4)

Houve ainda um Toms Skujins, um daqueles ciclistas que é difícil não se apreciar. Sempre preparado para uma fuga, para uma ataque que poucos acreditam poder ter sucesso, sempre pronto para dar tudo pela equipa. O letão venceu em quatro ocasiões, com destaque para a terceira etapa da Volta à Califórnia, uma corrida que tanto aprecia, mesmo já lá tendo sofrido uma queda grave. Skujins ainda vestiu a camisola de líder da montanha na Volta a França, num dia marcante para o ciclismo da Letónia.

Skujins vai continuar a ser uma das apostas para 2019. Este ano ficou claro que a Trek-Segafredo não podia mais adiar uma renovação dos seus ciclistas. Começou cedo ao garantir Matteo Moschetti, o primeiro ciclista a sair da Polartec-Kometa, equipa de Alberto Contador, que está a funcionar como estrutura de formação da estrutura americana. O italiano, de 22 anos, é uma promessa para as clássicas e para os sprints.

No entanto, a grande preocupação era um homem para as três semanas e neste aspecto, não era possível contratar alguém apenas a pensar que daqui a alguns anos pudesse estar na luta por um Tour ou outra grande volta. Com a indefinição quanto ao futuro da BMC - a marca de bicicletas anunciou que deixaria de ser o patrocinador e demorou a aparecer um substituto -, a Trek-Segafredo fez tudo para contratar Richie Porte. O australiano é um dos melhores voltistas, ainda que não tenha ainda conseguido um pódio ou uma vitória de etapa numa grande volta.

Contudo, percebe-se a confiança nele depositada, visto como se apresenta até a uma queda, um furo ou algo que o afaste dos primeiros lugares ou mesmo da corrida. Aos 33 anos, se conseguir não cair e escapar a aos azares que o perseguem, poderá ser o ciclista que recolocará a Trek-Segafredo na luta por mais do que um top dez.

Mas claro que a idade de Porte tem o seu peso. Por isso a equipa americana foi buscar mais um italiano que promete. Giulio Ciccone foi uma das figuras do último Giro nas etapas de montanha e foi nono na Volta aos Alpes. A Bardiani-CSF rapidamente percebeu que seria impossível segurar o jovem de 23 anos. Enquanto Porte é o homem para o resultado imediato, Ciccone irá ser a aposta para o futuro próximo, mas já com destaque a partir de Janeiro.

O mesmo iria acontecer com Ivan Ramiro Sosa. É mais um puro talento colombiano que Gianni Savio foi buscar para a Androni Giocattoli-Sidermec. Foi anunciado como reforço, o que deixava a Trek-Segafredo numa posição muito favorável na construção de uma equipa forte. Porém, soube-se mais tarde que não havia qualquer contrato assinado e a Sky intrometeu-se. Ainda não é oficial, mas o colombiano terá sido desviado para a formação britânica, num dos episódios insólitos deste mercado de transferências e até já vai falando como um corredor que se prepara para ajudar Chris Froome.

Um rude golpe para a Trek-Segafredo, que deixou escapar um ciclista que promete e muito. Por outro lado, houve quem não desperdiçasse a oportunidade de assinar pela equipa americana. Edward Theuns está de regresso após um ano para esquecer na Sunweb, em mais um reforço para o bloco das clássicas.

Houve várias saídas, principalmente de ciclistas mais velhos, mas também de Nizzolo, por exemplo. Ruben Guerreiro também vai trocar de camisola. O ciclista português nunca alcançou a estabilidade desejada, muito devido aos constantes problemas, como quedas ou questões de saúde. Sempre que se apresentava em boa forma, algo acontecia. Terminou a temporada com um sexto lugar na Volta à Turquia e prepara-se agora para se juntar ao director José Azevedo e ao companheiro José Gonçalves na Katusha-Alpecin, esperando encontrar a regularidade necessária para triunfar a este nível e que este ano, a falta dela, lhe custou uma presença na Volta a Espanha.

Para a Trek-Segafredo foi então um 2018 muito a pensar em 2019, pelo que as expectativas e as responsabilidades vão ser bem maiores. Pelo menos, operou finalmente as mudanças de rejuvenescimento de uma equipa a precisar urgentemente de sangue novo.

Permanências: John Degenkolb, Jasper Stuyven, Bauke Mollema, Ryan Mullen, Gianluca Brambilla, Jarlinson Pantano, Mads Pedersen, Toms Skujins, Fabio Felline, Niklas Eg, Beppu Fumiyuki, Julien Bernard, Nicola Conci, Koen de Kort, Alex Frame, Michael Gogl, Markel Irizar, Kiel Reijnen e Peter Stetina.

Contratações: Richie Porte (BMC), Edward Theuns (Sunweb), Giulio Ciccone (Bardiani-CSF), Matteo Moschetti (Polartec-Kometa), Will Clarke (EF Education First-Drapac p/b Cannondale) e Alex Kirsch (WB Aqua Protect Veranclassic).

»»De época prometedora, a possível desilusão, mas com um final apoteótico««

»»Ambiente nos bastidores não afastou Lotto Soudal das vitórias««

15 de julho de 2018

O espectáculo do caos

(Fotografia: ©ASO/Alex Broadway)
Há um sentimento ambíguo ao considerar espectáculo momentos de tanto sofrimento. Não é que se goste da desgraça alheia, mas num dia em que quedas, furos, avarias, são algo que fazem parte de uma modalidade que, afinal, tem na capacidade de sofrimento dos atletas uma grande influência para se tornar num vencedor, então o caos torna-se num autêntico espectáculo.

Para quem gosta de clássicas do pavé (admitindo que é o caso), um dia como este numa grande volta como o Tour é quase como se fosse feriado. É para ver e rever, pois ao contrário do que acontece com algumas etapas de montanha que acabam por desiludir, no pavé o espectáculo é quase garantindo. Foi uma boa etapa, com muita emoção e com o bónus de se saber que, mesmo que pareça uma clássica, o que está mesmo em causa é uma vitória numa corrida que só acaba daqui a duas semanas. Um mau dia e tudo poderia acabar. Que o diga Richie Porte!

O australiano da BMC foi igual a si próprio, imitando o que fez há um ano na Volta a França. Por duas vezes, na etapa nove, cai e abandona. Talvez reste a pequena consolação que, pelo menos desta feita, a lesão não é tão grave, pelo que pode pensar na Vuelta. Fez uma luxação no ombro, enquanto em 2017 a sua época acabou naquele dia. Porte também resolveu imitar Chris Froome. Em 2014 o britânico, então colega de Porte na Sky, caiu na etapa do pavé... antes de começarem os sectores. Foi o que aconteceu com australiano. É mau de mais. É azar a mais. 33 anos e nem um pódio numa grande volta. Poderá estar a caminho da Trek-Segafredo, numa nova fase da carreira, mas também será a última fase. O tempo começa a esgotar-se para Porte.

Agora interessa quem no Tour continua. E que dia infernal foi para praticamente todos os candidatos à geral. Romain Bardet (AG2R) experimentou uma parte do arsenal de bicicletas da equipa. Depois de tantos problemas, perder sete segundos para a concorrência directa é algo que até se pode classificar um dia bom!

Chris Froome (Sky) caiu. Mikel Landa foi tocado enquanto estava a hidratar-se e foi impossível evitar uma queda que o próprio disse esperar que "seja só chapa e pintura". Com Alejandro Valverde e Nairo Quintana na frente e com José Joaquín Rojas já fora devido a uma das muitas quedas do dia, a Movistar esteve unida e foi buscar Landa para o grupo dos líderes. Quintana andou o tempo todo a tentar simplesmente manter a bicicleta com as rodas no pavé. Ser tão levezinho no terreno destes é simplesmente um inferno. Mas sobreviveu.

Vincenzo Nibali (Bahrain-Merida), Adam Yates (Mtichelton-Scott), Ilnur Zakarin (Katusha-Alpecin), Rafal Majka (Bora-Hansgrohe), Primoz Roglic (Lotto-Jumbo) e Jakob Fuglsang (Astana), todos sofreram em algum momento dos 156,5 quilómetros entre Arras e Roubaix. Acabaram todos juntos.

Só dois ciclistas fizeram diferenças. Um pela negativa. Se os sete segundos perdidos por Bardet e Landa não são graves, já 1:28 minutos deixa Rigoberto Uran a ter mais trabalho para fazer na montanha se quiser repetir o pódio de 2017. Mau dia para o líder da EF Education-First-Drapac p/b Cannondale. Já Bob Jungels (Quick-Step Floors) arrancou na fase final para ganhar alguns segundos aos favoritos e, na geral, tem agora 52 segundos de vantagem sobre, por exemplo, Chris Froome.

Com o abandono de Porte, pensou-se: chegou a vez de Tejay van Garderen! Mas nem se pode colocar o americano entre aqueles que ficaram um pouco mais longe do top dez, como aconteceu com Uran. Van Garderen tinha de agarrar esta oportunidade de liderar a BMC quando a equipa mais precisava, mas não. Tudo correu mal e perdeu quase seis minutos. Também o tempo começa a esgotar-se para este ciclista que está quase a chegar aos 30 anos. Mas num dia em que Degenkolb demonstrou que é melhor não dar um ciclista como acabado, não se o dirá de Van Garderen, mas que cada vez transmite menos confiança. Isso é inevitável considerar.

(O texto continua por baixo do vídeo.)



A clássica dentro da etapa no Tour

Foi preciso esperar pelos últimos sectores dos 15 do dia para ver a disputa pela vitória no dia começar a aquecer. As primeiras movimentações começaram por volta dos 50 quilómetros para o fim, mas só um pouco depois é que os homens que tanto brilham na fase das clássicas apareceram definitivamente. Um ataque aqui, outro ali, mas foi a movimentação entre Greg van Avermaet (vencedor do Paris-Roubaix em 2017), John Degenkolb (ganhou o monumento do pavé em 2015) e Yves Lampaert (que não será uma surpresa que um dia o venha a ganhar) que foi decisiva. O trio uniu-se para deixar para trás um Peter Sagan que não estava bem colocado naquele momento e não encontrou ajuda para a perseguição.

Lampaert cometeu o erro táctico de não tentar um ataque nos metros finais, já que ao sprint era de adivinhar que não teria capacidade para se debater com os companheiros de ocasião. Avermaet tentou, mas pareceu um pouco sem força frente a um Degenkolb a precisar e muito de uma grande vitória. Aí está ela! O alemão da Trek-Segafredo nunca mais havia sido o mesmo depois do atropelamento em 2015, enquanto treinava. Acabou em lágrimas ao vencer. Foi em Roubaix onde viveu um dos melhores momentos da carreira e espera-se agora que possa ser o local que marque o seu renascer.

A Avermaet e à BMC restou conseguir manter a camisola amarela e até aumentar um pouco a diferença para Geraint Thomas (Sky), agora de 43 segundos. Irá vesti-la pelo menos mais um dia.

Philippe Gilbert ainda foi tirar o quarto lugar a Peter Sagan, mas o eslovaco consolidou um pouco mais a liderança na classificação dos pontos, um dos objectivos do ciclista da Bora-Hansgrohe, que procurava um triunfo que teria um toque especial já que venceu o Paris-Roubaix este ano.

Mesmo com tantos ciclistas pouco habituados ao pavé, a corrida teve momentos em que pareceu o mítico monumento. Além de todos os incidentes, a etapa foi resolvida por um processo de eliminação a cada passagem nos sectores. Quando os candidatos à geral ficaram praticamente todos para trás, passou a ver-se duas provas: uma pela sobrevivência de quem chegou a um ponto que só queria chegar ao fim, a outra pela vitória entre os homens que adoram o pavé.

Pode ver aqui as classificações.

E se há dia que vale a pena ver as imagens da perspectiva de dentro do pelotão, este é certamente um deles!

(O texto continua por baixo do vídeo.)



10ª etapa: Annecy - Le Grand-Bornand, 158,5 quilómetros

Segunda-feira é dia de recuperar o fôlego e das eventuais mazelas porque na terça chega a montanha. Será a fase dos Alpes. Esperam ao pelotão três etapas duras, com a de quinta-feira a ter três categorias especiais, no dia que marca o regresso do Alpe d'Huez ao percurso do Tour.




Renascer em Roubaix

(Fotografia: ©ASO/Pauline Ballet)
Qualquer vitória no Tour, fosse em que etapa fosse, deixaria John Degenkolb feliz e em lágrimas, como aconteceu este domingo. Porém, ser em Roubaix dá um significado ainda mais sentimental a um momento que o alemão procurava há tanto tempo. Degenkolb estava a desaparecer num pelotão que não perdoa quando não se anda ao melhor nível. Pensava-se se não estaria acabado, ou pelo menos a caminho de o estar. Mas Degenkolb é mais um exemplo como não se deve fazer suposições só porque existem más fases. E depois desta vitória, talvez possa mesmo ter sido isso, uma má fase da carreira deste excelente ciclista.

Não aparecia nas clássicas e nos grandes sprints não conseguia vencer, começando mesmo a mostrar alguma incapacidade para os disputar. O alemão precisava de uma vitória, de uma grande vitória para renascer e foi buscá-la onde em 2015 conquistou um dos seus dois monumentos. Roubaix marcará definitivamente a carreira deste ciclista.

As lágrimas era o mais visível sinal de como Degenkolb procurava e precisava desta vitória. Desde que uma irresponsabilidade de uma condutora deixou Degenkolb e alguns companheiros da então Giant-Alpecin (actual Sunweb) com ferimentos graves, que o alemão não mais tinha sido aquele fenomenal ciclista que no ano antes tinha conquistado a Milano-Sanremo, o Paris-Roubaix e ainda uma etapa na Vuelta, naquela que foi a última vitória numa grande volta, a décima na corrida espanhola. Quase ficou sem um dedo e foi obrigado a aprender a recolocar a sua mão no guiador, a travar... Foi um processo difícil para o alemão.

Mudou-se em 2017 para a Trek-Segafredo para tentar que novos ares pudessem significar um regresso ao seu melhor. Porém, Degenkolb (29 anos) estava a ser uma sombra de si próprio. Só três vitórias de um ciclista contratado para ocupar o lugar deixado vago por um inigualável Fabian Cancellara.

"Todos diziam que eu estava acabado depois do acidente e que nunca voltaria. Eu disse que não estava acabado", afirmou no final da nona etapa do Tour, uma autêntica clássica do pavé, com final em Roubaix, ainda que não no velódromo. "Pura felicidade", foi assim que descreveu o que sentia, a chorar, admitindo que há muito que perseguia esta grande vitória. Degenkolb abriu ainda o coração para dedicar a vitória a um amigo a quem considerava um segundo pai e que morreu no final do ano passado. Percebeu-se então que o sofrimento do ciclista ia muito além da falta de sucesso nas corridas.

Depois de Toms Skujins ter vestido a mítica camisola da montanha, afinal Degenkolb ainda tinha algo nele para dar à Trek-Segafredo. É a ganhar assim que se calam as dúvidas, as críticas e se grita em alto e bom sou: "Não estou acabado."

Resta dizer a Degenkolb, bem-vindo de volta aos grandes momentos! E agora se liberte dos fantasmas para ser tudo o que pode ser.


23 de fevereiro de 2018

Um estranho início das clássicas sem Peter Sagan

Sagan não estará nas primeiras clássicas do ano
(Fotografia: Bettiniphoto/Bora-Hansgrohe)
Quando este sábado o pelotão arrancar para a corrida que se pode dizer que abre a época das clássicas, a Omloop Het Nieuwsblad, será estranho não ver Peter Sagan e a sua camisola de campeão do mundo. O eslovaco, segundo classificado nas últimas duas edições atrás de Greg van Avermaet, escolheu um calendário um pouco diferente, de forma a aproveitar mais a sua recente paternidade. Só na Strade Bianche regressará à competição (3 de Março), mas haverá até lá umas corridas que servem para começar a aquecer os motores e a fazer crescer o apetite pela Volta a Flandres e, claro, o Paris-Roubaix.

O pavé marca então esta primeira fase de clássicas e há alguns frente-a-frente que se espera ver. Mesmo com Sagan menos presente, não faltará espectáculo. Basicamente, o eslovaco é rival de todos, mesmo tendo uma tendência para os segundos lugares. Seja em que clássica participar, será sempre candidato (provavelmente, "o" candidato) e mais do que nunca parte para a época determinado em confirmar as expectativas de amealhar monumentos. Mas há outras rivalidades e aproveitando que Sagan começa de fora, aqui ficam alguns exemplos a ter em atenção.

Greg van Avermaet/Philippe Gilbert
Quando estavam na BMC já havia rivalidade. É o próprio Greg van Avermaet (31 anos) que admite que a saída do compatriota para a Quick-Step Floors foi positivo para que ficasse mais livre e sem concorrência interna. Avermaet ganhou em 2017 o seu primeiro monumento no Paris-Roubaix, depois de muito esbarrar em azares, ou em segundos lugares frustrantes. A Gilbert (35) fez muito bem a mudança de ares. Regressou às grandes vitórias e que grande vitória foi aquela na Volta a Flandres! Em 2018 surgem os dois extremamente motivados e com a ambição em alta. Avermaet diz estar em melhor forma do que no ano passado e quer mais uns monumentos. Gilbert vai apostar forte na Milano-Sanremo e no Paris-Roubaix para tentar entrar na história, ficando com os cinco monumentos no currículo. São os dois belgas, estão com objectivos idênticos e esta promete ser uma rivalidade quentinha...

Oliver Naesen/Tiesj Benoot/Jasper Stuyven
Tom Boonen saiu de cena após o Paris-Roubaix de 2017, mas na Bélgica não há crises de quem poderá tomar o seu lugar. Até porque Gilbert e Avermaet são duas referências a ter em conta, ainda que sem o currículo no pavé de Boonen. Mas no país já se olha além dos dois ciclistas referidos. Oliver Naesen (27 anos), Tiesj Benoot (23) e Jaspert Stuyven (25) são os senhores que se seguem. Candidatos são certamente. Naesen confirmou no ano passado o seu potencial para estas corridas e a AG2R pode continuar mais concentrada em Romain Bardet e no Tour, mas já percebeu que tem muito a ganhar com este belga, que irá contar com uma ajuda preciosa do reforço Silvan Dillier (ex-BMC). Quanto a Benoot, terá este ano maior responsabilidade na Lotto Soudal, depois de ter demonstrado enquanto sub-23 que tem capacidade e principalmente inteligência táctica para estar ao nível dos mais experientes. Benoot e Naesen são a rivalidade da nova geração belga, juntamente Jasper Stuyven. Mesmo tendo Degenkolb na equipa, a Trek-Segafredo tem todo o interesse em dar liberdade ao jovem belga. Em 2016 venceu a Kuurne-Bruxelles-Kuurne e no ano passado foi segundo e depois quarto em Roubaix.

Arnaud Démare/Fernando Gaviria
Dos sprints para as clássicas. É a primeira rivalidade lógica que Gaviria terá, muito por ambos serem sprinters. Démare (FDJ) já tem um momumento, a Milano-Sanremo (2016) e este ano preparou-se muito para tentar melhorar as suas exibições nas corridas de um dia e não focar-se apenas na Volta a França. Já Gaviria (Quick-Step Floors), depois de ter sido avassalador na estreia numa grande volta, no Giro100 - quatro vitórias de etapa e a classificação dos pontos -, não só quer ir fazer o mesmo no Tour, como decidiu que vai já para as clássicas. Há uma enorme curiosidade para o ver em acção na Volta a Flandres e no Paris-Roubaix. Fisicamente tem o poderio que se pede, mas isso não chega e que o diga Démare. Antes dos monumentos do pavé, haverá a Milano-Sanremo e os dois partirão como fortes candidatos. Dois sprinters, que passam bem certas subidas... Junta-se Sagan e temos um potencial pódio... Se Michal Kwiatkowski não aparecer para surpreender outra vez!

Sep Vanmarcke/Sep Vanmarcke
Sendo a Bélgica terra de classicistas aqui temos um que causa enorme frustração. Em 2012 venceu esta corrida e juntou mais uns quantos resultados promissores. Somou top dez, uns pódios, mas vitórias nem vê-las. Pelo meio apareceram umas quedas ou outros azares. Vanmarcke consegue ser o seu principal rival. Não precisa de ninguém para o tirar da luta. Aos 29 anos ainda se acredita que poderá fazer algo. Afinal, praticamente todos os anos mostra o seu talento. Mas fica sempre a faltar algo. Vanmarcke (EF Education First-Drapac powered by Cannondale) precisa de superar-se a si próprio. Se o conseguir, será um espectáculo vê-lo e quem sabe alcance finalmente a grande vitória que lhe parecia estar destinada. Tem Greg van Avermaet como exemplo... Nunca é tarde!

John Degenkolb/John Degenkolb
Mais um caso de um ciclista tem ele próprio como principal rival. Desde o atropelamento que foi vítima durante o estágio em 2016 que o alemão nunca mais se reencontrou com a confiança. Esteve em forma no ano passado. Isso mesmo demonstrou quando conseguia estar na frente das corridas. Porém, nunca respondeu nos momentos decisivos e não pareceu ser por falta de pernas. Estamos a falar de um ciclista que venceu a Milano-Sanremo e o Paris-Roubaix em 2015. Porém, na Trek-Segafredo não só está longe de fazer esquecer Fabian Cancellara, como está longe de se lembrar de como é vencer grandes corridas. Degenkolb (29 anos) está a precisar urgentemente de um triunfo numa clássica para assim, talvez, reencontrar o seu caminho e afastar certos certos fantasmas.

Fabio Fellline/Matteo Trentin
Talvez haja a tentação para se dizer que os italianos estão a jogar por fora. Porém, principalmente Matteo Trentin, é um ciclista a ter muito em conta. Nesta disputa transalpina, o ciclista que agora representa a Mitchelton-Scott está, aos 28 anos, a viver a melhor fase na carreira. Fechou o ano, na Quick-Step Floors, com quatro etapas na Vuelta e um quarto lugar nos Mundiais. Trentin não quis mais ser lançador de ninguém e surge agora com convicção que pode também no pavé conquistar uma vitória. A rivalidade com Felline (27 anos) será interessante, tendo em conta que o homem da Trek-Segafredo até se tem mostrado, mas no ano passado foi um dos que aprendeu de quanto custa tentar deixar Sagan fazer o trabalho todo. O eslovaco aprendeu de vez que ou ajudam, ou não leva ninguém à frente para depois perder. Kwiatkowski foi uma grande lição para Sagan! Felline tem o potencial, mas tacticamente não é tão forte como Trentin. Ainda assim, Itália tem aqui dois ciclistas que pode suceder a Alessandro Balan (2009) como vencedores da Volta a Flandres, com Trentin a ir também a Roubaix, onde um italiano não ganha desde Andrea Tafi, em 1999.

Estas são apenas uma rivalidades particulares, numas clássicas de pavé que tanto espectáculo costumam proporcionar. Zdenek Stybar, Niki Terpstra (vencedor do Paris-Roubaix em 2014) e Yves Lampaert, todos da Quick-Step Floors, são armas a jogar por uma equipa belga sempre muito forte para esta altura do ano. Dylan van Baarle tem nesta fase da época a oportunidade para se mostrar na Sky, depois de bons resultados, principalmente na Volta a Flandres, ao serviço da então Cannondale-Drapac; Edvald Boasson Hagen (Dimension Data) tem a experiência do seu lado, mas falta-lhe uma grande clássica no seu currículo; Michael Matthews (Sunweb) vai aparecer em algumas provas do pavé, mas apostará mais na semana das Ardenas e antes na Milano-Sanremo (e cuidado com ele); Alexey Lutsenko (Astana) ganhou há poucos dias a Volta a Omã e o cazaque vem com grandes ideias para este fim-de-semana de clássicas.

Omloop Het Nieuwsblad abre então a temporada de clássicas e terá transmissão neste sábado no Eurosport2, a partir das 14:30. E no domingo, será a vez da Kuurne-Bruxelles-Kuurne, que apesar de não fazer parte do calendário World Tour, é sempre muito bem frequentada pelos corredores especialistas nestas corridas (13:00, no Eurosport2).

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24 de janeiro de 2018

Se é preciso mais alguma razão para ver a Algarvia, aqui ficam duas: BMC e Trek-Segafredo com as principais armas

Camisola de campeão nacional estará na Algarvia. Ruben Guerreiro estará entre
as grandes figuras que a Trek-Segafredo trará à corrida portuguesa
(Fotografia: Facebook Trek-Segafredo)
Para quem gosta de ciclismo já começa a ser impossível resistir uma viagem até ao Algarve, entre 14 e 18 de Fevereiro. As confirmações vão continuando a surgir e depois de Richie Porte ter anunciado que a Algarvia estava nos seus planos, sabe-se agora que trará consigo aquele que poderá muito bem ser parte do bloco que estará ao seu lado na Volta a França. Mas como também de vez em quando acontece uma boa notícia nunca vir só, a Trek-Segafredo confirmou que Bauke Mollema e John Degenkolb estarão na corrida e muito bem acompanhados, a começar pelo campeão nacional Ruben Guerreiro.

Começando pela BMC e Richie Porte. O australiano está apostado em repetir a forma de 2017 para atacar a Volta a França e desta vez espera que sem incidentes, como a grave queda no Tour que acabou com a sua temporada. Além de Porte e Dylan Teuns, dois nomes já conhecidos, Tejay van Garderen acompanhará o agora líder indiscutível da BMC. O próprio americano admitiu que quer regressar à Volta a França, ainda que no papel de gregário de Porte. Apesar de não ter conseguido confirmar as expectativas que se criaram cedo na sua carreira, ainda assim é um ciclista que sabe o que é terminar no top dez das grandes voltas.

Simon Gerrans recebeu um telefonema do compatriota Richie Porte a perguntar-lhe se queria estar ao seu lado em 2018, pelo que não surpreende que seja uma das escolhas. E claro que há sempre a curiosidade de ser um ciclista que em 2003 passou pela então Carvalhelhos-Boavista. O jovem de 24 anos Stefan Kung, campeão suíço de contra-relógio e um dos talentos emergentes daquele país, Loïc Vliegen - mais um promissor ciclista mas da Bélgica, que se tem mostrado tanto em provas de uma semana, como nas de um dia - e o experiente Jurgen Roelandts fecham o sete escolhido pela BMC.

Esta equipa americana vem mais pela geral, mesmo que Gerrans até possa tentar entrar nos sprints (só falta o homem das clássicas, Greg van Avermaet!). Já a outra, Trek-Segafredo, vai dividir mais as suas atenções. Bauke Mollema será o líder, numa altura em que o holandês recuperou o seu estatuto de número um para a Volta a França, após a retirada de Alberto Contador. John Degenkolb atacará os sprints na tentativa de reencontrar o caminho das vitórias, que têm sido tão poucas. A última foi a 2 de Fevereiro, na terceira etapa da Volta ao Dubai. O alemão está recuperado de uma pneumonia e quer apresentar-se ao seu melhor nas clássicas.

Jasper Stuyven e Gregory Rast estarão ao lado de Degenkolb, ou então também poderão tentar a sua sorte. E para completar a equipa, dois bons contra-relogistas. O reforço irlandês de apenas 23, Ryan Mullen, venceu ontem nessa especialidade na Volta a San Juan na Argentina. Mathias Brandle tem mais experiência (28), mas estará certamente atento à etapa de Lagoa, além de ajudar Mollema.

Quanto a Ruben Guerreiro, acabou de alcançar um fantástico nono lugar no Tour Down Under, primeira corrida World Tour do ano. Ainda vai ficar mais um pouco pela Austrália antes de regressar à Europa. Mesmo com Mollema na equipa, não será de afastar a possibilidade de ver o campeão nacional ter a sua oportunidade, ainda mais tendo em conta que estará a correr no seu país e para o holandês é ainda uma fase inicial de preparação para o seu principal objectivo, ainda que antes vá apostar na semana das Ardenas. Ruben começou muito bem 2017, mas um problema nos dentes forçou o seu abandono na Algarvia. Agora espera sorte diferente e iniciou o ano ainda melhor.

Tony Martin, Louis Meintjes, Geraint Thomas, Daniel Martin, Arnaud Démare, Peter Kennaugh... A lista vai ficando cada vez mais interessante como pode ver aqui. O arranque será novamente em Albufeira, com as decisões a estarem marcadas para a dupla passagem no Alto do Malhão, no domingo, dia 18.


8 de dezembro de 2017

Tudo por Contador, muito por Degenkolb e uma época feita no Angliru

A despedida de Contador acabou por marcar a época da equipa
(Fotografia: Facebook Trek-Segafredo)
Se há equipa que pode dizer que pouco ou nada correu como gostaria em 2017 é a Trek-Segafredo. A saída de Fabian Cancellara permitiu alguma folga financeira para reforçar a equipa com ciclistas de qualidade, com John Degenkolb a ter a missão de fazer esquecer o suíço nas clássicas. Claro que houve uma outra aposta que se sabia que seria a curto prazo, dois anos no máximo, mas que colocaria a equipa novamente a ser muito falada na Volta a França e não só. O efeito Alberto Contador começou pelo mediatismo e acabou com uma grande vitória no Angliru. Mas pelo meio houve muita desilusão. A formação americana reforçou-se ainda com dois portugueses. André Cardoso dava garantias que o espanhol teria um bom homem trabalho a seu lado, enquanto Ruben Guerreiro chegou ao World Tour com o estatuto de um dos ciclistas a seguir com atenção.

Começando pelos portugueses. O jovem Ruben Guerreiro, agora com 23 anos, começou 2017 em grande no Tour Down Under, na Austrália. Não quis esperar para se mostrar e aproveitou a primeira oportunidade que lhe foi dada. Bons resultados nas primeiras etapas, liderou a classificação da juventude, tendo acabado em terceiro e 18º na geral. Infelizmente para Ruben Guerreiro, um problema nos dentes estragou-lhe o início de época. Ainda esteve na Volta ao Algarve, mas nem terminou e teve mesmo de parar cerca de um mês. A Trek-Segafredo não pressionou o seu jovem talento e o ciclista foi recuperando a forma. Foi nono na Volta à Bélgica e quase ganhou uma etapa. No regresso a Portugal saiu com o título de campeão nacional de elite, na primeira vez que participou na corrida neste escalão. Novos problemas de saúde afastaram-no da Volta à Polónia e dos Europeus e até final do ano o destaque vai para o sexto lugar na Bretagne Classic-Ouest-France . É caso para dizer que foi um arranque no World Tour "aos soluços", mas com tempo para mostrar um pouco da sua qualidade. Um dos objectivos para o próximo ano será certamente alcançar uma maior regularidade, pois Guerreiro mantém intacto o estatuto de ciclista a seguir.

Experiência não faltava a André Cardoso e Alberto Contador preparava-se para ter mais um português ao seu lado, depois de anos com Sérgio Paulinho como fiel escudeiro. O ciclista de Gondomar - que desenhou o circuito dos Nacionais no qual Guerreiro se sagrou campeão - preparava-se para cumprir um sonho de carreira: estar na Volta a França. Cardoso parecia estar num bom momento de forma, realizando um Critérium du Dauphiné promissor. Foi 19º e esteve sempre perto do seu líder. Porém, a poucos dias do arranque do Tour, sai a notícia que o ciclista tinha dado positivo por EPO num teste anti-doping. Foi suspenso preventivamente e num caso que se prolonga desde Junho, continua-se sem saber o futuro de André Cardoso. Surgiram notícias que a contra-análise teria sido negativa, o que ilibaria o português. Contudo, oficialmente mantém-se o silêncio.

Ranking: 5º (7934 pontos)
Vitórias: 18 (incluindo uma etapa no Tour e na Vuelta e o título nacional de Ruben Guerreiro)
Ciclista com mais triunfos: Mads Pedersen (5)

Regressando ao início da temporada, a Trek-Segafredo queria continuar a apostar forte nas clássicas, mesmo já não contando com uma das maiores estrelas da última década. Degenkolb optou por mudar de ares para tentar recuperar uma alegria que parecia difícil de reaparecer depois de quase ter perdido um dedo num atropelamento durante a pré-época, quando estava na então Giant-Alpecin (actual Sunweb). Apareceu com vontade de voltar às grandes vitórias e continuar a somar monumentos, depois da Milano-Sanremo e Paris-Roubaix em 2015. Mas este Degenkolb não é o mesmo. Esteve sempre na discussão, é certo, terminou nos primeiros lugares nas principais clássicas em que participou, no entanto, faltou-lhe sempre o que um responsável chamaria de "instinto matador" que Cancellara tinha.

Degenkolb mostrava-se competitivo, mas naquele instante que acabaria por ser decisivo para o resultado da corrida, o alemão jogava sempre à defesa e nunca se saiu bem. Esteve discreto no Tour, abandonou na Vuelta e em Setembro colocou um ponto final na temporada de forma a fazer exames médicos e recuperar de um problema de saúde que o estava a limitar. Degenkolb somou uma vitória em 2017, numa etapa à Volta ao Dubai, a 2 de Fevereiro. Muito pouco para um ciclista do seu nível.

A Trek-Segafredo não teve só Degenkolb a render pouco. Giacomo Nizzolo realizou uma época para esquecer, de Fabio Felline e Jasper Stuyven também se esperava bem melhor. Era altura da equipa se concentrar nas grandes voltas, na esperança que as grandes vitórias chegassem.

Remetido a segunda figura com a chegada de Contador, Bauke Mollema foi ao Giro como líder, pois no Tour teria de ajudar o espanhol. O holandês esteve muito bem. Terminou em sétimo e nas etapas de montanha esteve na discussão, mas naqueles momentos decisivos (novamente o problema das clássicas, mas com outro ciclista) foi perdendo segundos que lhe custaram um lugar bem mais interessante. A partir da Volta a Itália quase só se falou de Contador na Trek-Segafredo. A equipa deixou o ciclista fazer o calendário que quis e a preparação que preferiu. Expectativas altas, mas mesmo numa equipa em que não tem um patrão que mais parecia um inimigo - Oleg Tinkov -, o espanhol não conseguiu estar ao nível necessário para seguir Chris Froome, Romain Bardet e os restantes favoritos. Tentou a etapa sem sucesso, ficando em nono na geral. É um top dez de sabor amargo para Contador. Salvou-se Mollema que deu uma etapa à formação americana.

Restava a Vuelta. Sim, porque nesta altura o espanhol já tinha anunciado que não renovaria o contrato por mais um ano, como a Trek-Segafredo pretendia. Até haveria planos de levar Contador ao Giro e à Volta a Espanha em 2018. O ciclista considerou que tinha chegado o momento do adeus. Agora é que era mesmo tudo por Contador. Na terceira etapa o objectivo da geral terminou, mas o ciclista lutou para que a sua última grande volta tivesse um significado bem mais memorável. Acabou por ser uma das figuras da corrida e aquele dia no Angliru foi épico. Um derradeiro disparo de El Pistolero, que não só permitiu uma despedida como Contador merecia, mas como acabou por quase fazer a temporada da Trek-Segafredo. Apenas uma vitória em 2017 sabe a tão pouco, mas pelo menos foi uma para a posteridade. Um dos grandes ciclista da história da modalidade saiu de cena, num momento que marcou o ano.

A aposta em dois ciclistas não compensou como se esperaria e não ajudou o sub-rendimento de outros. Por outro lado, Jarlinson Pantano acabou por estar muito preso na ajuda ao líder e o colombiano dá mostras que pode render mais se tiver liberdade, que poderá chegar em 2018. A boa notícia chamou-se Mads Pedersen. Este dinamarquês tem apenas 21 anos e é outro ciclista a seguir, como Ruben Guerreiro. Participou no Giro e numa ou outra corrida mais importante para ganhar experiência, mas depois foi sendo aposta numas menos mediáticas, ganhando quatro. Também ele é campeão nacional.

E para o próximo ano, Gianluca Brambilla irá reforçar a estrutura das três semanas, mas há outro ciclista que tem gerado curiosidade e a ver vamos se confirma o seu potencial na Trek-Segafredo, depois de duas épocas na Cannondale-Drapac. O letão Toms Skujins poderá ser importante para as clássicas, além de também ter valor para as corridas por etapas.

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11 de outubro de 2017

Afinal a Trek-Segafredo tem substituto para Contador mas só em 2019

(Fotografia: Facebook Trek-Segafredo)
É um risco assumido. A Trek-Segafredo optou por não contratar um substituto de Alberto Contador para 2018. Os responsáveis consideram que era difícil encontrar alguém do nível do espanhol, já que Chris Froome e Vincenzo Nibali têm contrato com as respectivas equipas. A formação americana optou por não esbanjar dinheiro, nomeadamente em Fabio Aru. Ainda assim pisca já o olho a um possível reforço para 2019: Geraint Thomas é o pretendido. 

Bauke Mollema vai regressar ao seu estatuto de principal líder para as três grandes voltas no próximo ano e a equipa espera que John Degenkolb possa confirmar as expectativas que este ano foram defraudadas nas clássicas. 2017 não foi um ano de grandes vitórias e sem um nome forte para lnutar pela geral o Giro, Tour e Vuelta, a responsabilidade sobre o alemão é enorme, mas com Giacomo Nizzolo, Fabio Felline e Jasper Stuyven a terem também eles de renderem mais e melhor seja nas clássicas, seja em etapas discutidas ao sprint.

Há também a esperança que sem Alberto Contador, Jarlinson Pantano possa aproveitar alguma liberdade para demonstrar o talento que lhe é reconhecido, mas que tem sido muito utilizado em prol de outros ciclistas. Em 2018, poderá chegar o momento que o colombiano tanto ambiciona, já que Mollema não será líder nas três grandes voltas e mesmo que se cruze com Pantano numa das corridas, o último poderá receber autorização para procurar o seu resultado.

Não se está a falar numa divisão na equipa, mas apenas que a Trek-Segafredo não se pode dar ao luxo de apostar tudo num ciclista que não dá garantias, como é o caso de Mollema. O holandês já se tem mostrado bem em algumas corridas, como aconteceu no Tour em 2016, mas não demonstrou consistência para garantir um pódio. Este ano ficou com um papel secundário em França devido a Contador, mas ganhou uma tirada. E ganhar etapas poderá muito bem ser o objectivo na próxima temporada. No Giro fechou mais um top dez numa grande volta (foi sétimo), contudo, não tem conseguido ir mais além.

A época das clássicas será fundamental. A Trek-Segafredo sente uma enorme saudade de Fabian Cancellara. John Degenkolb deixou a então Giant-Alpecin para recuperar alguma alegria perdida, depois de um ano marcado pelo atropelamento ainda na pré-temporada. Mas o alemão nunca apareceu como um verdadeiro candidato aos triunfos. Fez boas corridas, mas no momento em que estas se decidiram, Degenkolb nunca lá esteve. A equipa investiu forte no ciclista que já conta com uma Milano-Sanremo e um Paris-Roubaix no currículo, mas este demora a reencontrar-se e a temporada até terminou com o germânico a ter de fazer exames devido a problemas de saúde que o estavam a limitar. Deverá regressar aos treinos dentro de duas semanas.

Apostar tudo em Alberto Contador no Tour e Vuelta não resultou, apostar tudo em Degenkolb nas clássicas também não. Em 2018 Giacomo Nizzolo, Fabio Felline e Jasper Stuyven terão responsabilidade acrescida certamente. Vitórias precisam-se, principalmente grandes vitórias. O director Luca Guercilena admitiu ao Cycling News que faltaram estas "grandes vitórias" em 2017, apesar da etapa no Tour e da conquista emotiva do Angliru na despedida de Contador.

É o mesmo que confirma que Geraint Thomas é um objectivo - senão mesmo "o" objectivo - para 2019. O britânico ainda não conseguiu confirmar todo o seu potencial como líder em provas de três semanas, pois uma moto da polícia tirou-lhe essa oportunidade na Volta a Itália. Thomas renovou contrato com a Sky por apenas um ano e Guercilena sabe que será difícil tirá-lo da super estrutura da Grã-Bretanha. Anunciar o interesse publicamente não é por acaso, naturalmente. Guercilena espera assim desde cedo jogar uma carta importante numa eventual dúvida de Thomas em continuar ou não na Sky além de 2019. O ciclista tem 31 anos e a Sky está disposta a dar-lhe mais oportunidades como líder, mas a Trek-Segafredo poderá acenar-lhe com a Volta a França, que Thomas sabe que na Sky estará sempre "tapada" por Chris Froome.

E Fabio Aru?

Há muito que se especulava que a Trek-Segafredo faria tudo para contratar Fabio Aru. Nibali preferiu a Bahrain-Merida, ele que era a aposta da equipa norte-americana para 2017, desejosa que estava em agradar ao seu patrocinador italiano. Com Aru em final de contrato com a Astana, parecia óbvia a escolha. Mas não. Afinal a Trek-Segafredo não estava disposta a fazer tudo para contar com Aru. Depois de vencer a Vuelta em 2015, o ciclista não mais fechou pódio numa grande volta. Estes resultados que não colocam em causa a sua qualidade para este tipo de corridas, contudo, com o ciclista a pedir qualquer coisa como dois milhões de euros (talvez mais) para assinar contrato, a Trek-Segafredo recuou.

Guercilena dizer que ao nível de Contador só estão Froome e Nibali é um recado claro que  Aru estará a sobrevalorizasse. A Trek-Segafredo prefere poupar dinheiro para tentar aliciar Thomas, que parece ser alguém que dá mais garantias, pelo menos na opinião de Guercilena. E há que ter em conta que, caso aceite um novo desafio, o britânico trará "a escola" Sky, algo que actualmente valoriza e muito os ciclistas.

Mikel Landa e Rigoberto Uran foram outros dois potenciais líderes que estiveram no mercado. O primeiro irá mudar-se para a Movistar, o segundo renovou com a Cannondale-Drapac. Pelo menos o espanhol interessou à Trek-Segafredo.

Mesmo sem grandes vitórias, a equipa tendo Alberto Contador sempre gozou de um enorme mediatismo. Agora essa porta fecha-se. Não há Contador, não há Cancellara e não há um ciclista carismático para o preencher esse lugar. Mais do que nunca, serão as vitórias que farão a equipa ser falada. E quem sabe, Ruben Guerreiro possa também ele aparecer mais forte, depois de uma temporada de estreia no World Tour com altos e baixos. Um dos altos foi a conquista do campeonato nacional, uma das 17 vitórias em 2017 da Trek-Segafredo, até ao momento. O português é visto como um enorme talento para o futuro.

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