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29 de setembro de 2020

Mais uma equipa World Tour a perder o patrocinador

© NTT
Depois da CCC, a NTT. É mais uma equipa com continuidade em risco, ao ser confirmado que a empresa de tecnologia não irá renovar contrato com a estrutura sul-africana. Curiosamente, a notícia surge quando a CCC já sabe que é a Circus-Wanty Gobert quem a salvará, comprando a licença e subindo a World Tour em 2021. Quanto à NTT, há muito que estes rumores circulavam, ainda mais quando nenhuma contratação foi feita para o próximo ano e as renovações não avançaram. Apesar do responsável, Douglas Ryder, não querer terminar com o projecto, os ciclistas já terão sido aconselhados a procurar alternativas para 2021.

É um fim de uma relação de seis anos - anteriormente como Dimension Data - que ganhou força quando a equipa da África do Sul se tornou a primeira deste país a subir ao principal escalão. No World Tour, não tem tido uma vida fácil, Mas o início foi de sonho: Mark Cavendish venceu quatro etapas na Volta a França. A nível de resultados, a formação foi conseguindo algumas vitórias importantes, mas com o passar dos anos as dificuldades começaram a cada vez maiores.

Na base desta estrutura está um projecto que pretende ajudar ciclistas africanos a chegaram ao mais alto nível e nos últimos anos vários, principalmente sul-africanos e eritreus conseguiram. Porém, a falta de mais e melhores resultados levou Ryder a mudar de estratégia. Contratou ciclistas de maior experiência, na tentativa de tirar a equipa dos últimos lugares do ranking, onde por norma fica.

Este ano chegou Victor Campenaerts e Domenico Pozzovivo, por exemplo. Das sete vitórias em 2020, duas são em provas World Tour (etapas no Tour Down Under e Paris-Nice), ambas por Giacomo Nizzolo, que se sagrou ainda campeão nacional de Itália e campeão Europeu (esta não entra na contabilidade da NTT, pois foi pela seleccção). Porém, a equipa passou ao lado do Tour, quando era tão importante mostrar-se. Não ajudou Nizzolo e Pozzovivo abandonarem muito cedo devido a quedas.

E a performance fraca, apesar das tentativas para conquistar uma vitória, não ajudou em nada na busca por um novo patrocinador. O Cyclingnews escreve que Ryder está confiante que pode resolver a situação, mas ao confirmar aos ciclistas a saída da NTT, acabou por abrir a porta de saída a todos, com contrato para 2021, ou não. Com o Giro e a Vuelta, além da maioria das principais clássicas por realizar, os ciclistas da NTT tudo vão fazer para agarrar um contrato. Ainda há plantéis em aberto, mas os lugares começam a escassear.

Bjarne Riis entrou este ano como director geral da equipa e chegou-se a falar do dinamarquês comprar parte da estrutura, mas ainda não é conhecido qualquer acordo e tempo já não é muito para salvar a equipa sul-africana.

Além dos nomes referidos, a NTT conta com ciclistas bem cotados como é o caso de Roman Kreuziger, Edvald Boasson Hagen, Michael Valgren, Ben King, Michael Gogl e os jovens Max Walscheid e Gino Mäder.

Este ano, o World Tour abriu as portas à Cofidis, no início de uma expansão que acabou por não ver a Total Direct Energie seguir o mesmo caminho, como chegou a ser inicialmente falado. De 18, passaram a haver 19 equipas no principal escalão. Porém, as dificuldades do ciclismo foram agravadas com a pandemia. Apesar da Volta a França ter sido uma tábua de salvação para alguns, poderá não ser para todos.

A empresa japonesa justificou a decisão de terminar com o patrocínio, com o plano de alargar as suas parcerias além do desporto. Não estará fora de questão Ryder tentar uma fusão com uma equipa ProTeam (segundo escalão) que pretenda ter uma licença World Tour, para tentar salvar pelos menos parte da sua estrutura. Um pouco à imagem do que acabou acontecer com a CCC e Circus-Wanty Gobert ou com a Israel Start-Up Nation, que ficou com a licença da Katusha-Alpecin e assim ascendeu ao World Tour.

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16 de abril de 2019

Victor Campenaerts, o novo senhor da hora. Mas já há mais pretendentes

(Fotografia: Facebook UCI)
Foram quase quatro anos com uma marca que se mostrava inalcançável. Os 54.526 quilómetros feitos numa hora por Bradley Wiggins esmoreceu o entusiasmo por um recorde que antes, em menos de dois anos, teve oito ciclistas a tentar batê-lo. Nas duas tentativas oficiais entretanto, ninguém se aproximou, até que Victor Campenaerts decidiu que queria ter o seu lugar na história. Centrou toda a sua primeira fase de 2019 nesta tentativa. Finalmente o recorde foi batido. Mais do que isso, estão ultrapassados os 55 quilómetros, que Wiggins quis, mas não conseguiu. É mesmo possível lá chegar. Quem é o senhor que se segue? Já há pretendentes.

55,089 quilómetros é a nova marca, alcançada em Aguascalientes, no México, um velódromo que muito tem sido escolhido por alguns ciclistas, mas que pela primeira vez foi palco de uma tentativa de sucesso entre os homens. "Acho que se olhar para a lista, estou agora entre os grandes ciclistas da história. Estive muito focado nisto durante muito tempo e estou mesmo feliz por ter batido o recorde e estou contente por ter quebrado os mágicos 55 quilómetros", afirmou.

Campenaerts refere-se a uma lista que inclui Eddy Merckx, Miguel Indurain, Tony Rominger e Chris Boardman, por exemplo, mas o belga, de 27 anos, pertence a uma lista, que começou a ser escrita em 2014 por Jens Voigt. A UCI estabeleceu novas regras e os ciclistas são obrigados a utilizar bicicletas e material que esteja disponível para todos. Ou seja, nada de construir "máquinas" especiais para o evento, como aconteceu com as bicicletas que ficaram famosas de Indurain e Boardman e não só. O espanhol e Rominger já tinham ultrapassado os 55 quilómetros, enquanto Boardman fez 56,375 quilómetros, uma marca vista como impossível de bater utilizando as actuais bicicletas, dentro dos regulamentos. Será?

Victor Campenaerts vai agora regressar ao normal, por assim dizer. Foram meses de preparação e este ano só competiu no Tirreno-Adriatico e foi porque tinha dois contra-relógios que aproveitou para se testar. Foi sexto no primeiro, ganhou o segundo.  Volta à Romandia e Giro são as suas próximas corridas. Bicampeão europeu de contra-relógio, terceiro nos últimos mundiais, Campenaerts não esqueceu num momento alto da sua carreira o antigo companheiro Stig Broeckx, ciclista que em 2016 caiu devido a um incidente com uma moto numa corrida. Esteve em coma e tem estado a cumprir uma longa recuperação. Campenaerts dedicou o seu recorde a Broeckx.

Agora que a marca de Bradley Wiggins caiu - até o próprio desejava que tal acontecesse, considerando que seria positivo para o desporto - é possível que se verifique de novo um maior interesse. E o senhor que se segue poderá ser o jovem Mikkel Bjerg. O bicampeão do mundo de contra-relógio de sub-23 já tentou bater a marca e fez então a segunda melhor, atrás da de Wiggins: 53,370 quilómetros. Porém, não foi oficial, pois a tentativa não foi feita perante comissários da UCI.

O dinamarquês da Hagens Berman Axeon colocou como um dos objectivos do ano tentar ser o novo recordista da hora, em declarações ao site WielerFlits em Fevereiro, ainda que na altura esperava para ver o que Campenaerts iria fazer. Até pensa em tentar duas vezes. Além de Bjerg parece que Alex Dowsett quer mesmo tentar de novo. O britânico congratulou o belga pelo feito dizendo que foi "recordista merecedor". Para um bom entendedor, meia palavra basta! Dowsett e o seu treinador foram sempre críticos do recorde de Wiggins, acusando de não ser legal, pois o vencedor da Volta a França utilizou um guiador criado propositadamente para o ciclista, através da tecnologia 3D.

Mas dos twits que escreveu sobre o recorde da hora, destaca-se este:
O ciclista deixou o desafio à Katusha-Alpecin, a sua equipa, ele que desde que Wiggins bateu o seu recorde fala em regressar ao velódromo e tentar de novo. Espera pela resposta da equipa do director José Azevedo.

Rohan Dennis também nunca afastou a possibilidade de repetir a experiência, mas o australiano está agora focado não só na sua época com a Bahrain-Merida, mas também em ser campeão olímpico de contra-relógio no próximo ano, em Tóquio. E claro, um nome é sempre falado, mas sem que o holandês se tenha manifestado: Tom Dumoulin. Para já, não é hipótese, mas seria interessante vê-lo tentar.

Lista de tentativas oficiais desde a entrega em vigor das novas regras:

Victor Campenaerts (Bélgica), 55,089 quilómetros - Aguascalientes (México), 16 de Abril de 2019
Dion Beukeboom (Holanda), 52,757 quilómetros - Aguascalientes (México), 22 de Agosto de 2018
Martin Toft Madsen (Dinamarca), 53,630 quilómetros - Aguascalientes (México), 26 de Julho de 2018
Bradley Wiggins (GB), 54.526 quilómetros - Londres (Inglaterra), 7 de Junho de 2015
Alex Dowsett (GB), 52.937 - Manchester (Inglaterra), 2 de Maio de 2015
Gustav Larsson (Suécia), 50,015 quilómetros - Manchester (Inglaterra), 14 de Março de 2015
Thomas Dekker (Hol), 52,221 - Aguascalientes (México), 25 de Maio de 2015
Rohan Dennis (Aus), 52.491, Grenchen (Suíça), 8 de Fevereiro de 2015
Jack Bobridge (Aus), 51,300 - Melbourne (Austrália), 31 de Janeiro de 2015
Matthias Brändle (Aut), 51.852 - Aigle (Suíça), 30 de Outubro de 2014

27 de fevereiro de 2019

Financiamento garantido. Campenaerts vai tentar bater recorde de Bradley Wiggins

(Fotografia: © João Calado/Federação Portuguesa de Ciclismo)
Local escolhido, data definida e um ciclista determinado em tirar o recorde da hora a Bradley Wiggins. Faltava garantir o financiamento (e não era pouco), que também já está tratado. Victor Campenaerts tem tudo preparado para enfrentar o primeiro de três grandes objectivos da carreira. O bicampeão europeu de contra-relógio, quer ainda juntar um título mundial e a medalha de ouro olímpica nesta especialidade.

Mas uma coisa de cada vez. Primeiro o recorde da hora. A tentativa de bater a marca de Wiggins irá realizar-se a 16 ou 17 de Abril, num velódromo que tem sido a escolha de vários ciclistas, o de Aguascalientes, no México. A marca está nos 54,526 quilómetros e foi estabelecida a 7 de Junho de 2015, em Londres. Wiggins fez muito melhor do que o seu compatriota, que um mês antes tinha fechado os 60 minutos com 52,937 quilómetros. O britânico Alex Dowsett nunca se conformou com a perda do recorde, alegando que Wiggins tinha violado as regras ao ter um guiador feito à sua medida, quando é suposto utilizar material que possa ser adquirido por qualquer pessoa.

A marca de Bradley Wiggins é a que vale, enquanto Dowsett de vez em quando lá fala em tentar de novo. Porém, foi o dinamarquês Martin Toft Madsen (53,630 quilómetros em Julho do ano passado) e o holandês Dion Beukeboom (52,757, um mês depois) que avançaram. Ambos estiveram precisamente no México, mas nenhum conseguiu fazer melhor do que Wiggins. Já a italiana Vittoria Bussi aproveitou bem a viagem àquele país e estabeleceu a marca das senhoras em 48,007 quilómetros, em Setembro de 2018.

"Eu respeito muito o Bradley e não considero que seja um atleta melhor do que o antigo vencedor da Volta a França e cinco vezes campeão olímpico. No entanto, ao progredir e tendo em conta todos os pormenores possíveis, espero ter uma hipótese de ficar com o recorde da hora", afirmou Campenaerts, num comunicado divulgado pela UCI.

Esta vontade de dedicar-se ao recorde da hora cresceu após os Mundiais de Innsbruck. Campenearts foi terceiro, com a camisola arco-íris a ficar para Rohan Dennis, mas o belga não perdeu tempo e foi testar-se no recorde da hora. "Pedalei a uma média de 54,8 quilómetros por hora e nas últimas quatro voltas cheguei aos 60 quilómetros por hora para ver o que sobrava de energia", explicou então ao Het Nieuwsblad. Pormenor importante foi este teste ter durado meia hora, o suficiente para motivar ainda mais o ciclista. "Sei que 30 minutos a este ritmo é muito diferente de 60 e muito terá de ser feito para de facto bater o recorde da hora", disse na altura. Os primeiros testes foram realizados no velódromo de Grenchen, na Suíça, com Campenaerts e passar mais tarde dois meses na Namíbia, para treinos de altitude.

Agora já teve muito tempo para mais testes, até porque não compete desde os Mundiais. Contudo, irá estar na estrada pela Lotto Soudal no Tirreno-Adriatico (de 13 a 19 de Março) e percebe-se a escolha: tem um contra-relógio colectivo a abrir e um individual a fechar. Depois viajará para o México, três semanas antes da tentativa.

A meio deste mês, o belga, de 27 anos, já tinha garantido que o recorde da hora era mesmo um objectivo, mas faltava o necessário financiamento. Em entrevista ao HLN.be, Campenaerts explicou que precisaria de pelo menos 100 mil euros. "O preço inclui o equipamento, a viagem ao México, a estadia, o uso de uma tenda de altitude, os custos com o staff, o salário do meu treinador, o aluguer da pista e muito mais", referiu. Acrescentou que a sua equipa estava a trabalhar para garantir um patrocínio, que chegou de uma empresa que organiza eventos, a Golazo.

Com a alteração das regras, foram vários os ciclistas que se interessaram pelo recorde da hora, depois de ter caído praticamente no esquecimento. Jens Voigt foi o primeiro, num adeus em grande na carreira. Fez 51,110 quilómetros, a 18 de Setembro de 2014. Em menos de um ano houve mais sete tentativas, quatro resultaram em recordes. No entanto, a fantástica marca de Wiggins acabou por voltar a resfriar o interesse.

Além de Dowsett, também Dennis não esconde que um dia gostaria de tentar deter novamente o recorde, mas tão cedo o australiano não irá dedicar-se a este objectivo. Se Campenaerts tiver sucesso ou ficar muito perto, poderá ajudar a recuperar o interesse no recorde da hora, pois, para já, os 54,526 quilómetros de Wiggins estão a ser vistos como muito, mas mesmo muito, difíceis de bater.

Estes foram os ciclistas que tentaram estabelecer o recorde da hora desde a aplicação das novas regras. A negrito estão os que detiveram a marca.
  • Dion Beukeboom (Holanda), 52,757 quilómetros - Aguascalientes (México), 22 de Agosto de 2018
  • Martin Toft Madsen (Dinamarca), 53,630 quilómetros - Aguascalientes (México), 26 de Julho de 2018
  • Bradley Wiggins (GB), 54.526 quilómetros - Londres (Inglaterra), 7 de Junho de 2015
  • Alex Dowsett (GB), 52.937 - Manchester (Inglaterra), 2 de Maio de 2015
  • Gustav Larsson (Suécia), 50,015 quilómetros - Manchester (Inglaterra), 14 de Março de 2015
  • Thomas Dekker (Hol), 52,221 - Aguascalientes (México), 25 de Maio de 2015
  • Rohan Dennis (Aus), 52.491, Grenchen (Suíça), 8 de Fevereiro de 2015
  • Jack Bobridge (Aus), 51,300 - Melbourne (Austrália), 31 de Janeiro de 2015
  • Matthias Brändle (Aut), 51.852 - Aigle (Suíça), 30 de Outubro de 2014
  • Jens Voigt (Ale) 51.115 - Grenchen (Suíça), 18 de Setembro de 2014

21 de outubro de 2018

Campenaerts quer bater recorde da hora de Bradley Wiggins

Desde que Bradley Wiggins estabeleceu a marca da hora em 54.526 quilómetros que o interesse neste recorde esmoreceu, depois de num curto espaço de tempo vários ciclistas de renome terem tentado e alguns conseguido estabelecer novas distâncias. Porém, o registo do britânico está a provar ser de muito respeito e das poucas tentativas que se seguiram, ninguém sequer se aproximou. Alex Dowsett é um eterno candidato a tentar recuperar o estatuto que foi dele durante pouco mais de um mês, mas já lá vão três anos e o britânico não concretizou as suas pretensões de fazer nova tentativa. Agora aparece um nome, esse sim, parece estar mesmo determinado em ir atrás do recorde de Wiggins: Victor Campenaerts.

O bicampeão europeu de contra-relógio surpreendeu um pouco com o terceiro lugar nos Mundiais. Perante um percurso com tantas dificuldades, Campenaerts, 26 anos, fez quase o contra-relógio da sua vida, só batido por provavelmente o maior especialista da actualidade, Rohan Dennis, e o campeão do mundo de 2017, Tom Dumoulin.

O belga da Lotto Soudal não está só a falar em tentar bater o recorde da hora, já começou a fazer alguns testes. "Pedalei a uma média de 54,8 quilómetros por hora e nas últimas quatro voltas cheguei aos 60 quilómetros por hora para ver o que sobrava de energia", explicou Campenaerts ao Het Nieuwsblad. Pormenor importante: este teste teve a duração de meia hora. "Sei que 30 minutos a este ritmo é muito diferente de 60 e muito terá de ser feito para de facto bater o recorde da hora", disse.

O objectivo foi mesmo testar-se, tendo escolhido o velódromo de Grenchen, na Suíça. "Antes deste teste havia duas possibilidades. Se o resultado fosse uma desilusão, então o projecto seria adiado até depois dos Jogos [Olímpicos] de Tóquio2020. Porém, obtive respostas positivas e podemos planear juntamente com a equipa para atacar o recorde da hora", referiu.

2019 poderá então ser o ano em que Victor Campenaerts entra em acção para mostrar que o marca de Bradley Wiggins não é imbatível. "Eu acho que o recorde da hora está dentro das minhas capacidades porque o Wiggins não teve a temperatura e as condições de pressão atmosférica ideais na sua tentativa", explicou o belga.

Wiggins estabeleceu o recorde a 7 de Junho de 2015, no Velo Park, em Londres. Ainda não se sabe qual será o velódromo escolhido por Campenaerts, sendo que o de Grenchen, onde realizou os testes, foi já palco de duas tentativas de sucesso: de Jens Voigt e Rohan Dennis. As duas mais recentes tentativas realizaram-se no México, no velódromo de Aguascalientes. O dinamarquês Martin Toft Madsen fez 53.630 (a 26 de Julho), enquanto o  holandês Dion Beukeboom ficou muito desiludido. Depois de quase um ano de trabalho fez "apenas" 52.757 (a 22 de Agosto). Uma das razões apontadas para ficar tão longe da marca foi precisamente que as condições atmosféricas não foram as ideais.

Entre 2014, quando Jens Voigt resolveu terminar a carreira reavivando um recorde da hora praticamente esquecido no ciclismo (fez 51.110, estabelecendo então a nova marca), e 2015 foram várias as tentativas, com Matthias Brandle, Rohan Dennis e Alex Dowsett a inscreverem o seu nome na lista. Dowsett fez 52.937 quilómetros, distância pulverizada pouco depois por Wiggins. Desde então que o interesse esmoreceu um pouco entre as principais figuras do contra-relógio mundial, apesar das tentativas terem prosseguido com ciclistas menos mediáticos.

O treinador de Dowsett, Steve Collins, sempre considerou que a tentativa de Wiggins foi ilegal pois o ciclista teve direito a um extensor de titânio feito através da tecnologia 3D, para assentar na perfeição nos braços do ciclista. Como destacou Collins, as mais recentes regras determinam que a bicicleta tem de ser igual a qualquer outra que se possa comprar, sem especificações dedicadas a determinado corredor. Além disso, Collins acusou a federação britânica de ajudar Wiggins, quando tal também não é permitido.

Mas o recorde de Wiggins está em vigor. Enquanto Dowsett desde que perdeu o posto de recordista da hora tem dito que quer tentar novamente, Campenaerts parece ser o senhor que se segue. No entanto, são outros os nomes que se vai falando nos bastidores que se gostaria de ver tentar bater Wiggins. Mas para já, não são mais do que isso, conversas de bastidores. Tony Martin e Tom Dumoulin são dois ciclistas que encabeçam a lista, a par de Rohan Dennis. O australiano fez 52.481 quilómetros a 8 de Fevereiro de 2015, tendo depois sido batido depois por Dowsett e Wiggins. Contudo, Dennis, que já era então um dos grandes especialistas do contra-relógio, está agora ainda mais forte na especialidade, pelo que talvez volte a sentir a tentação de recuperar algo que foi dele por um curto espaço de tempo.

Há outro nome que não se pode excluir. Chama-se Mikkel Bjerg, é dinamarquês, tem apenas 19 anos e soma dois títulos mundiais de contra-relógio em sub-23. Depois de ganhar o seu segundo, resolveu tentar bater o recorde da hora do seu país e conseguiu. Fez 53.730 e, sem estar a pensar nisso, acabou por se tornar no ciclista que mais perto ficou de Wiggins. Está na Hagens Berman Axeon e talvez seja boa ideia colocar na sua lista de "coisas a fazer na carreira" tentar bater o recorde da hora.

Aqui fica a evolução do recorde da hora desde que Voigt recuperou o interesse por este desafio, já com as novas regras:
Bradley Wiggins (GB), 54.526 quilómetros - Londres (Inglaterra), 7 de Junho de 2015
Alex Dowsett (GB), 52.937 - Manchester (Inglaterra), 2 de Maio de 2015
Rohan Dennis (Aus), 52.491, Grenchen (Suíça), 8 de Fevereiro de 2015
Matthias Brändle (Aut), 51.852 - Aigle (Suíça), 30 de Outubro de 2014
Jens Voigt (Ale) 51.115 - Grenchen (Suíça), 18 de Setembro de 2014

Duas tentativas da mesma ciclista em 48 horas

Nas senhoras, depois de mais de um ano com Evelyn Stevens como recordista da hora, com 47.980 quilómetros, a italiana Vittoria Bussi tentou em Outubro de 2017 bater a marca. Falhou (47.576), mas não desistiu. Tentou novamente em Setembro deste ano. Escolheu Aguascalientes, no México, e no dia 12 já tinha cumprido 44 minutos quando resolveu baixar o ritmo e não forçar mais, ao aperceber-se que não seria possível bater a marca de Stevens.

As condições meteorológicas não eram as indicadas, mas no dia seguinte as previsões apontavam que seriam bem melhores. Bussi regressou ao velódromo para fazer 48.007. É a primeira mulher a ultrapassar a barreira dos 48 quilómetros.

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26 de setembro de 2018

Isso não se faz a um campeão do mundo!

(Fotografia: © BettiniPhoto/Facebook Mundiais de Innsbruck-Tirol)
Não foi nada de inesperado ver Tom Dumoulin e Rohan Dennis decidirem entre eles o título de campeão do mundo de contra-relógio. Muito pelo contrário. Desta feita, confirmaram-se as expectativas nesse aspecto. O que não se esperava era que o australiano fosse tão avassalador na sua exibição, que se pode dizer que não houve rival à altura. Nem do que até àquele momento era o campeão em título. O rosto de Dumoulin dizia tudo. Não só perdeu, como não conseguiu estar ao nível de um Dennis que finalmente alcançou a perfeição, depois de anos a ambicionar uma camisola do arco-íris, numa especialidade de que não se tinha dúvidas que era de facto um dos melhores do mundo. Agora já tem o título que o "oficializa".

Aos 28 anos conquistou a vitória que não esconde que andava a perseguir desde o escalão de juniores. O mais perto que tinha ficado foi em 2012, enquanto sub-23, quando 44 segundos o separaram do então campeão Anton Vorobyev. Na elite, por uma ou outra razão, nem no pódio Dennis conseguiu ficar. "Nunca tinha ganho em nenhum escalão, por isso, vencer o meu primeiro [título] como sénior é mesmo especial", desabafou um Dennis que estava tão feliz, como aliviado de ter alcançado um objectivo de carreira.

Estava a transformar-se num eterno favorito que nunca confirmava esse estatuto, mas 2018 foi grande parte dedicado a preparar os Mundiais, a pensar neste contra-relógio de Innsbruck. Se em Bergen claudicou na subida, desta feita mostrou que o trabalho de casa foi feito e muito bem feito. Esteve praticamente imbatível nos contra-relógios esta temporada - seis vitórias até aos Mundiais - e fecha com uma camisola de arco-íris que deixa mais pessoas a esfregar as mãos de contentamento.

Se o talento estava lá, a verdade é que foi na BMC que o aprendeu a explorar no seu máximo. Foram quatro temporadas e meia numa equipa que o transformou num dos melhores do mundo, mas que quando finalmente vê o seu ciclista alcançar o melhor prémio, este vai vestir a camisola do arco-íris para outra equipa. Ganhou também a Bahrain-Merida com o triunfo de hoje, pelo menos no futuro protagonismo. Fica o mérito de quem na BMC o ajudou. A equipa americana perdeu o seu patrocinador, mas vai continuar agora com a CCC. Porém, chegou tarde a confirmação do futuro da estrutura e Dennis já tinha optado por partir para outro desafio.


(Fotografia: © BettiniPhoto/Facebook Mundiais de Innsbruck-Tirol)
E agora fica a questão de quantos mais títulos poderá este ciclista ganhar, ele que ainda não desistiu de se tornar num voltista, apesar de continuar a convencer muito pouco que possa vir a discutir uma corrida de três semanas.

A sua exibição de hoje foi muito mais do que de um excelente contra-relogista. Foi de um exímio contra-relogista, daqueles que marcam a especialidade. Já foi recordista da hora, é agora campeão do mundo. Falta confirmar-se então como ciclista das grandes voltas, como já fez Tom Dumoulin, com o triunfo no Giro e os segundos lugares também em Itália e no Tour.

O holandês não esteve no seu melhor. Talvez, um Giro e um Tour feitos para ganhar e os pódios que alcançou tenham tido o seu peso. Mas Dumoulin não esteve mal, senão não teria terminado no pódio. Dennis é que esteve bem de mais para todos os outros. Completou os 52,5 quilómetros em 1:03:02 horas, a uma média de 49,9 quilómetros horas, menos 1:21 minutos que Dumoulin, que com o segundo lugar, conta agora com todas as medalhas em mundiais no contra-relógio, ainda que esta de prata vai custar olhar para ela, nos tempos mais próximos. "Não fui suficientemente bom", admitiu o holandês, que não escondeu não se ter sentido bem durante o longo percurso.

Olhando para o historial do contra-relógio, diferenças mais altas são da autoria de um suíço que deixou saudades. Em 2009, Fabian Cancellara venceu o sueco Gustav Erik Larsson por 1:27 minutos e em 2006 deixou David Zabriskie a 1:29. Mas nenhum era campeão do mundo como Dumoulin. Nesse aspecto, quando Tony Martin venceu o seu quarto título e "tirou" a camisola a Vasil Kiryienka, o alemão deixou o bielorrusso a 45 segundos.

Este foi um resultado para a história por parte de Rohan Dennis, de um dos contra-relógios mais longos. E se como voltista ainda não se afirmou, como contra-relogista foi um título mais do que merecido, ainda que dê vontade de dizer: "Isso não se faz a um campeão do mundo Dennis!" Haverá tempo para um ajuste de contas por parte de Dumoulin, numa rivalidade muito particular para os próximos tempos.

Ainda não foi desta para Nelson Oliveira


(Fotografia: © BettiniPhoto/Federação Portuguesa de Ciclismo)
Mais um top dez para Nelson Oliveira. Depois de ter ficado à porta do pódio em Bergen, o ciclista português foi quinto. Tal como no ano passado chegou a ter o tempo mais rápido, mas, desta feita, nem deu tempo para se sentar no trono. Ficou a 2:14 de Dennis, sendo batido por um super australiano, um campeão do mundo (Dumoulin), um bicampeão europeu - e que fez o contra-relógio da sua vida, pois não se esperava que estivesse tão bem com a difícil subida no percurso - (Victor Campanaerts) e houve ainda Michal Kwiatkowski que foi quarto. Quanto ao polaco, basta dizer que simplesmente não sabe correr mal.

"Hoje deixei tudo na estrada. Sabia que tinha de dar o máximo para representar estas cores e estou satisfeito. A condição física é boa e senti-me bem num contra-relógio em que a primeira parte era muito complicada para mim e na qual era necessário regular bem o esforço para que o troço final me corresse melhor. Foi isso que fiz. Dei o meu máximo, mais do que isto era complicado fazer. Os adversários foram muito mais fortes do que eu, mas vou continuar a sonhar para um dia chegar às tão desejadas medalhas", referiu Nelson Oliveira, citado pela Federação Portuguesa de Ciclismo.

Estamos perante um dos melhores da especialidade, mas a medalha teima em não chegar para o português, não ajudando que seja um ciclista obrigado a trabalhar para os líderes da Movistar, não podendo preparar uns Mundiais como Dennis ou Dumoulin podem. Mas neste tipo de provas, tudo pode acontecer. Campanaerts foi a prova disso em Innsbruck.


(Fotografia: © BettiniPhoto/Federação Portuguesa de Ciclismo)
Mas este ano houve outro português em prova, o bicampeão nacional Domingos Gonçalves, numa nova experiência para o ciclista da Rádio Popular-Boavista. Foi 41º, a 6:29 do vencedor. "Encontrei aqui outra realidade, os adversários têm um ritmo que, de momento, não está ao meu alcance. Senti falta de ritmo e acusei um pouco nunca antes ter feito um contra-relógio tão extenso. A seguir à subida comecei a ter cãibras", afirmou o gémeo de Barcelos, que utilizou uma bicicleta idêntica às da Katusha-Alpecin, equipa do irmão José.

Arrancam as corridas de fundo

Ponto final nos contra-relógios. Esta quinta-feira começam as corridas de fundo. Da parte da manhã serão as juniores femininas (8:10), da parte da tarde serão os rapazes do mesmo escalão (13:40). Esta última terá a participação de dois portugueses, os mesmos que fizeram o contra-relógio: Afonso Silva e Guilherme Mota.

A corrida terá 126,8 quilómetros e um acumulado de 1916 metros. Antes da entrada no duro circuito de Innsbruck, que será percorrido duas vezes, o pelotão terá algumas dificuldades pela frente. A primeira selecção deverá acontecer aos 70 quilómetros, quando se subir Gnadenwald, uma colina com 2,6 quilómetros e uma inclinação média de 10,5%, com vários troços superiores a 13%. No entanto, as maiores decisões deverão ficar guardadas para o chamado "circuito olímpico", a percorrer duas vezes, na parte final da prova. Os corredores terão de ultrapassar duas vezes a subida de 7,9 quilómetros com inclinação média de 5,7%, cujo topo fica a 13,9 quilómetros da meta.

Os dois ciclistas eleitos pelo seleccionador José Poeira são bons trepadores, pelo que a expectativa é para um resultado positivo.

Os campeões de Innsbruck até ao momento

Contra-relógio por equipas 
Feminino: Canyon SRAM Racing (Alemanha)
Masculino: Quick-Step Floors (Bélgica)

Contra-relógio individual
Juniores femininas: Rozemarijn Ammerlaan (Holanda)
Juniores masculinos: Remco Evenepoel (Bélgica)

Sub-23 masculinos (não há este escalão para as raparigas): Mikkel Bjerg (Dinamarca) - renovou o título

Elite feminina: Annemiek van Vleuten (Holanda) - renovou o título
Elite masculina: Rohan Dennis (Austrália)

»»Dumoulin vs Dennis. Quem se intromete?««

»»O World Tour pode esperar««

18 de maio de 2017

Sunweb esqueceu-se de um ciclista no hotel em mais um momento insólito no Giro

(Fotografia: Facebook Simon Geschke)
Já a equipa tinha deixado o hotel há uns dez minutos quando os ciclistas receberam uma fotografia de Simon Geschke a mostrar o dedo do meio e a perguntar onde estavam. Ups! Tinham-se esquecido do alemão. "Não precisávamos dele", brincou Tom Dumoulin no final da etapa, contando que acabou por ser um episódio engraçado. O autocarro voltou para trás para ir buscar Geschke, que muita falta faz à Sunweb que já perdeu Wilco Kelderman e que tem uma liderança na Volta a Itália para defender. No entanto, a manhã não foi fácil para o alemão: "Ele também se esqueceu de assinar [a presença na etapa], portanto foi um dia difícil para ele. Talvez porque tenha trabalhado tanto na quarta-feira. Ele está cansado", referiu um bem disposto Tom Dumoulin.

E tinha razões para a boa disposição, pois o holandês admitiu que teve um dia bastante descansado, apesar de ser a etapa mais longa do Giro, com 229 quilómetros. Sentiu-se bem e completou a tirada sem problemas. A equipa esquecer-se de Geschke acabou por ser o momento de maior acção do dia para a Sunweb. Geschke partilhou no Twitter uma imagem a pedir boleia e a dar conta que tinha sido deixado para trás. Mais tarde escreveu que tinha roubado um carro e que estava a caminho do início da etapa. "Estou só a brincar, eles voltaram para trás para me apanhar. Parece que oito ciclistas é melhor que sete", lê-se na mensagem.


Num espaço de três dias este é o segundo momento insólito na Volta a Itália. Na terça-feira, o belga Victor Campenaerts (Lotto-Jumbo) perguntou a uma rapariga se queria sair com ele. Como? Escreveu no peito e antes do contra-relógio abriu a camisola para que a mensagem fosse transmitida na televisão e repetiu a graça quando cortou a meta. Campenaerts até é o campeão nacional de contra-relógio e foi segundo nos Europeus, mas claramente estava mais preocupado com outros assuntos nesse dia, tendo em conta a 182ª posição e quase 11 minutos a mais do que Tom Dumoulin...

Claro que depois ficou-se a querer saber a resposta da visada. Carlien Cavens aceitou o pedido. Mas terá de ter em conta que Campenaerts terá menos cem francos suíços no seu bolso (cerca de 92 euros), pois foi multado por "manchar a imagem do ciclismo". Pelo menos conseguiu o encontro que desejava.

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